John Fletcher · O Último Freio ao Antinomianismo · Seção XIX
Palavra aos crentes imperfeitos que abraçam de coração a doutrina da perfeição cristã.
O respeito de vocês pela Escritura e pela razão, e o seu desejo de corresponder ao propósito da predestinação de Deus, sendo conformes à imagem de seu Filho (Rm 8.29), felizmente os guardaram do antinomianismo exposto nestas páginas, ou os resgataram dele.
Vocês veem a absoluta necessidade de cumprir pessoalmente a lei de Cristo (Gl 6.2); o seu peito arde de desejo de aperfeiçoar a santidade no temor de Deus (2Co 7.1); e, longe de se envergonharem de ser chamados perfeccionistas, afirmam abertamente que uma fé perfeita, que produz amor perfeito a Deus e aos homens, é a pérola de grande valor (cf. Mt 13.46), pela qual estão decididos a vender tudo, e que (depois de Cristo) buscarão cedo e tarde, como a única coisa necessária (cf. Lc 10.42) ao seu bem espiritual e eterno. Algumas orientações, portanto, sobre o modo de buscar essa pérola não podem deixar de ser bem recebidas por vocês, se forem bíblicas e racionais; e tais são, assim espero humildemente, as que se seguem.
1. Primeiro, se vocês querem alcançar uma perfeição sem pecado no sentido evangélico, que o seu pleno assentimento à verdade dessa doutrina profunda se apoie firmemente sobre o fundamento evangélico de um preceito e de uma promessa. Um preceito sem promessa não os animaria o bastante; nem uma promessa sem preceito os obrigaria devidamente; mas um preceito divino e uma promessa divina formam um fundamento inabalável. Que a fé de vocês, então, firme deliberadamente o pé direito sobre estes preceitos:
“Escute, Israel… ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e com toda a sua força (Dt 6.4-5). Não guarde ódio no coração contra o seu próximo, mas repreenda-o e não incorra em pecado por causa dele. Não procure vingança, nem guarde ira contra os filhos do seu povo, mas ame o seu próximo como você ama a si mesmo. Eu sou o Senhor. Guarde os meus estatutos (Lv 19.17-19). E agora, Israel, o que é que o Senhor, seu Deus, requer de vocês? Não é que vocês temam o Senhor, seu Deus, andem em todos os seus caminhos, amem e sirvam o Senhor, seu Deus, de todo o coração e de toda a alma, para guardarem os mandamentos do Senhor e os seus estatutos que hoje lhes ordeno, para o bem de vocês etc.? Portanto, circuncidem o coração de vocês e deixem de ser teimosos (Dt 10.12-16). Sirva a Deus de coração perfeito e espírito voluntário, porque o Senhor esquadrinha todos os corações e penetra todos os desígnios do pensamento” (1Cr 28.9). [N. do T.: a NAA traz “coração íntegro”.]
Se a incredulidade insinuar que essas são apenas ordens do Antigo Testamento, pisem essa falsa insinuação e firmem o mesmo pé da sua fé sobre os seguintes preceitos do Novo Testamento: “Não pensem que vim revogar a Lei ou os Profetas. Eu, porém, lhes digo: amem os seus inimigos, abençoem os que os amaldiçoam, façam o bem aos que os odeiam etc., para demonstrarem que são filhos do Pai de vocês, que está nos céus etc. Porque, se vocês amam aqueles que os amam, que recompensa terão? Os publicanos também não fazem o mesmo? Portanto, sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês, que está no céu (Mt 5.17, 44-48). Se você quer entrar na vida, guarde os mandamentos (Mt 19.17). Levem as cargas uns dos outros e, assim, estarão cumprindo a lei de Cristo (Gl 6.2). O meu mandamento é este: que vocês amem uns aos outros, assim como eu os amei (Jo 15.12). Quem ama o próximo cumpre a lei. Pois estes mandamentos: ‘Não cometa adultério’ etc., ‘não cobice’, e qualquer outro mandamento que houver, todos se resumem nesta palavra: ‘Ame o seu próximo como você ama a si mesmo.’ O amor não pratica o mal contra o próximo etc.; portanto, o cumprimento da lei é o amor (Rm 13.8-10). E o mandamento que dele temos é este: quem ama a Deus, que ame também o seu irmão (1Jo 4.21). Se vocês, de fato, observam a lei do Reino: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’, fazem bem. Se, no entanto, vocês tratam as pessoas com parcialidade, cometem pecado, sendo condenados pela lei como transgressores (Tg 2.8-9). A circuncisão nada é, a incircuncisão nada é [falando comparativamente]; mas [sob Cristo] guardar os mandamentos de Deus [é a única coisa necessária] (1Co 7.19). O objetivo do mandamento é o amor que procede de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sem hipocrisia (1Tm 1.5). Ainda que eu tenha tamanha fé etc., se não tiver amor, nada serei (1Co 13.2). Pois quem guarda toda a lei [da liberdade], mas tropeça em um só ponto [tratando as pessoas com parcialidade, sem amor], se torna culpado de todos etc. Assim, falem e vivam como pessoas que serão julgadas pela lei da liberdade” [que requer amor perfeito e, por isso, não admite o menor grau de falta de amor] (Tg 2.10, 12).
Quando o pé direito da sua fé estiver firmado sobre esses preceitos e proclamações do evangelho, para que ela não vacile por falta de uma promessa em tudo à altura de mandamentos tão pesados, que ela ponha o pé esquerdo sobre as seguintes promessas, extraídas do Antigo Testamento: “O Senhor, seu Deus, circuncidará o coração de vocês e o coração dos seus descendentes, para que vocês amem o Senhor, seu Deus, de todo o coração e de toda a alma, para que vocês tenham vida (Dt 30.6). Venham, pois, e vamos discutir a questão, diz o Senhor. Ainda que os pecados de vocês sejam como o escarlate, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, eles se tornarão como a lã (Is 1.18).” Que essa promessa se refere principalmente à santificação fica evidente: (1) pelos versículos que a precedem imediatamente: “Lavem-se e purifiquem-se etc. Parem de fazer o mal! Aprendam a fazer o bem” etc. (Is 1.16-17); e (2) pelos versículos que a seguem imediatamente: “Se estiverem dispostos e me ouvirem, vocês comerão o melhor desta terra. Mas, se recusarem e forem rebeldes [ou desobedecerem], vocês serão devorados pela espada” (Is 1.19-20). E ainda: “Eu lhes darei um coração para que me conheçam, para que saibam que eu sou o Senhor. Eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus [de um modo novo e particular], porque se voltarão para mim de todo o seu coração. Porque esta é a aliança que farei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor: Na mente lhes imprimirei as minhas leis, também no seu coração as inscreverei; eu serei o Deus deles, e eles serão o meu povo (Jr 24.7; 31.33). Então aspergirei água pura sobre vocês, e vocês ficarão purificados. Eu os purificarei de todas as suas impurezas e de todos os seus ídolos. Eu lhes darei um coração novo e porei dentro de vocês um espírito novo. Tirarei de vocês o coração de pedra e lhes darei um coração de carne. Porei dentro de vocês o meu Espírito e farei com que andem nos meus estatutos, guardem e observem os meus juízos” (Ez 36.25-27). [N. do T.: a edição de 1792 imprime “Ez 25.27”.]
E ninguém suponha que as promessas da circuncisão, da purificação, da água pura e do Espírito, mencionadas nessas passagens, pelas quais o coração dos crentes há de ser feito novo e a lei de Deus há de ser escrita nele de tal modo que eles guardem e observem os seus juízos; ninguém suponha, repito, que essas gloriosas promessas pertencem somente aos judeus, pois o seu pleno cumprimento se refere particularmente à dispensação cristã. Além disso, se aspersões do Espírito bastavam, sob a dispensação judaica, para fazer crescer a planta da perfeição judaica nos crentes judeus, quanto mais a revelação da nossa plena e poderosa salvação (cf. Lc 1.69) e os derramamentos do Espírito farão crescer a planta da perfeição cristã nos crentes cristãos fiéis! E que essa revelação de Cristo, no Espírito como também na carne, esses derramamentos da água da vida, esses batismos de fogo que queimam a palha do pecado, limpam por completo a eira espiritual de Deus (cf. Mt 3.12), nos salvam de todas as nossas impurezas e nos livram de todos os nossos inimigos; que essas bênçãos, repito, são prometidas particularmente aos cristãos, pode-se demonstrar pela seguinte nuvem de declarações e promessas do Novo Testamento:
“Bendito seja o Senhor, Deus de Israel… porque… nos suscitou plena e poderosa salvação… como havia prometido… por boca dos seus santos profetas… de conceder-nos que, livres das mãos de inimigos, o adorássemos sem temor [incrédulo] [isto é, com amor perfeito], em santidade e justiça diante dele, todos os nossos dias (Lc 1.68-75). Bem-aventurados os pobres em espírito, que têm sede de justiça, porque serão saciados (Mt 5.3, 6). Se você conhecesse o dom de Deus etc., você pediria, e ele lhe daria água viva; e a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna (Jo 4.10, 14). Jesus se levantou e disse em voz alta: Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim [quando eu tiver subido às alturas para receber dons para os homens], do seu interior fluirão rios de água viva [para purificar a sua alma e mantê-la pura]. Isso ele disse a respeito do Espírito que os que nele cressem haviam de receber; pois o Espírito até aquele momento não tinha sido dado [de modo a fazer crescer a planta da perfeição cristã], porque Jesus ainda não havia sido glorificado, e a sua dispensação espiritual ainda não estava plenamente aberta (Jo 7.37-39).” O sr. Wesley, em Uma Clara Explicação da Perfeição Cristã, publicou algumas excelentes perguntas e as propôs aos que negam que a perfeição possa ser alcançada nesta vida. Elas vão direto ao ponto, e por isso as duas primeiras atacam os imperfeccionistas a partir do próprio terreno em que eu quero que vocês se firmem. Dizem assim: “(1.) Não foi dada uma medida maior do Espírito Santo sob o evangelho do que sob a dispensação judaica? Se não, em que sentido o Espírito não tinha sido dado antes de Cristo ser glorificado (Jo 7.39)?” (2) Aquela “glória que se seguiu aos sofrimentos de Cristo (1Pe 1.11) era uma glória exterior ou interior, isto é, a glória da santidade?” Apoiem sempre a doutrina da perfeição cristã sobre esse fundamento bíblico, e ela ficará tão firme quanto a própria revelação.
Todos admitem que a dispensação de João Batista superou a dos outros profetas, porque introduziu imediatamente o evangelho de Cristo, e porque João foi designado não só para pregar batismo de arrependimento (cf. Mc 1.4), mas também para apontar com clareza a própria pessoa de Cristo e dar ao povo de Deus conhecimento da salvação, por meio da remissão dos seus pecados (Lc 1.77). E, no entanto, João apenas prometeu a bênção do Espírito, que Cristo concedeu quando recebeu dons para os homens. Eu, disse João, batizo vocês com água, para arrependimento; mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu… Ele os batizará com o Espírito Santo e com fogo (Mt 3.11). Tão grande é a importância dessa promessa que ela é registrada expressamente não só pelos outros três evangelistas [veja Mc 1.8; Lc 3.16; Jo 1.26], mas também pelo nosso próprio Senhor, que disse pouco antes da sua ascensão: João, na verdade, batizou com água, mas vocês serão batizados com o Espírito Santo, dentro de poucos dias (At 1.5).
Tão capital é esta promessa de influências mais fortes do Espírito para fazer crescer a planta rara da perfeição cristã que, quando o nosso Senhor fala dela, a chama enfaticamente de a promessa do Pai; porque ela brilha entre as demais promessas do evangelho de Cristo como a lua entre as estrelas. Assim, em Atos 1.4, ele diz: esperem a promessa do Pai, a qual vocês ouviram de mim. E de novo, em Lucas 24.49: Eis que envio sobre vocês a promessa de meu Pai. Em conformidade com isso, são Pedro diz de Jesus: Exaltado, pois, à direita de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto. Ele começou a cumprir abundantemente o que foi dito por meio do profeta Joel: E acontecerá nos últimos dias, diz Deus, que derramarei [concederei em medida mais abundante] o meu Espírito sobre toda a humanidade. Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado [isto é, faça profissão pública da sua fé] em nome de Jesus Cristo para remissão dos seus pecados, e vocês receberão o dom do Espírito Santo. Porque a promessa é para vocês e para os seus filhos, e para todos aqueles que o Senhor, nosso Deus, chamar [a desfrutar as bênçãos plenas da dispensação cristã] (At 2.17,33,38). Esta promessa [quando é recebida na sua plenitude] é sem dúvida a maior de todas as preciosas e mui grandes promessas que ele nos concedeu, para que por elas vocês se tornem coparticipantes da natureza divina [isto é, do amor puro e da santidade sem mistura] (2Pe 1.4). Tenham, portanto, um olhar especial para ela e para estas palavras profundas do nosso Senhor: “Eu pedirei ao Pai, e ele lhes dará outro Consolador, a fim de que esteja com vocês para sempre: é o Espírito da verdade [e do poder], que o mundo não conhece etc.; vocês o conhecem, porque ele habita com vocês e estará em vocês. Naquele dia vocês saberão que eu estou em meu Pai, que vocês estão em mim e que eu estou em vocês; pois, se alguém [isto é, algum crente] me ama, guardará a minha palavra; e o meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada” (Jo 14.15,23). “O que”, diz o sr. Wesley na sua nota sobre essa passagem, “implica uma manifestação tão ampla da presença e do amor divinos que a anterior, na justificação, nada é em comparação com ela.” Em conformidade com isso, o mesmo criterioso teólogo se exprime assim em outra das suas publicações: “Estas virtudes [a mansidão, a humildade e a verdadeira resignação a Deus] são a única veste nupcial; são as lâmpadas e as vasilhas bem providas de azeite. Não há nada que possa fazer as vezes delas: elas precisam ter a sua obra plena e perfeita em vocês, ou a alma jamais poderá ser libertada do seu estado decaído e irado. Não há possibilidade de salvação senão nisto. E, quando o Cordeiro de Deus tiver gerado a sua própria mansidão etc. na nossa alma, então as nossas lâmpadas estarão preparadas e o nosso coração virgem estará pronto para a festa das bodas. Essa festa das bodas significa a entrada no mais alto estado de união que pode haver entre Deus e a alma nesta vida. Esse dia do nascimento do Espírito de amor na nossa alma, quando quer que o alcancemos, regalará a nossa alma com tal paz e alegria em Deus que apagará a lembrança de tudo o que antes chamávamos de paz ou de alegria.”
Para que vocês creiam com mais ardor nesta importante promessa, considerem que o nosso Senhor gastou alguns dos seus últimos momentos selando-a com a sua poderosa intercessão. Depois de pedir ao Pai que santificasse os seus discípulos por meio da verdade, firmemente abraçada pela fé deles e poderosamente aplicada pelo seu Espírito, ele acrescenta: Não peço somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por meio da palavra que eles falarem (Jo 17.20). E o que é que o nosso Senhor pede para esses crentes? Na verdade, o mesmo que são Paulo pedia para os crentes imperfeitos de Corinto: que fossem aperfeiçoados (2Co 13.9). Eis um estado da alma que Cristo descreve assim: a fim de que todos sejam um. E como tu, ó Pai, estás em mim e eu em ti, também eles estejam em nós etc., para que sejam um, como nós o somos; eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que os amaste, como também amaste a mim (Jo 17.17,23). O nosso Senhor não podia orar em vão. Não se pode supor que as Escrituras guardem silêncio quanto ao efeito dessa oração solene, cuja resposta devia dar ao mundo uma ideia da nova Jerusalém que desce do céu, uma amostra do poder que introduz os crentes no estado da perfeição cristã. E, por isso, lemos que, no dia de Pentecostes, o reino de Satanás foi poderosamente abalado e o Reino de Deus [justiça, paz e alegria no Espírito Santo] começou a vir com um poder novo. Então milhares foram maravilhosamente convertidos e claramente justificados; então o Reino dos Céus foi tomado à força (cf. Mt 11.12); e o amor a Cristo e aos irmãos começou a queimar a palha do egoísmo e do pecado com uma força que o mundo nunca tinha visto: vejam At 2.42 e seguintes. Algum tempo depois, outro glorioso batismo, ou derramamento capital do Espírito, levou os crentes mais adiante no reino da graça, que os aperfeiçoa na unidade. E, por isso, vemos que o relato que são Lucas nos dá deles, depois dessa segunda e capital manifestação do Espírito Santo, corresponde em grande medida à oração do nosso Senhor pela perfeição deles. Ele havia pedido que todos fossem um, que fossem um como o Pai e ele são um, e que fossem aperfeiçoados na unidade (Jo 17.17 etc.). E agora se dá uma resposta mais plena ao seu profundo pedido. Recebam-na nas palavras de um historiador inspirado: Tendo eles orado, tremeu o lugar onde estavam reunidos. Todos ficaram [mais uma vez] cheios do Espírito Santo e, com [ainda maior] ousadia, anunciavam a palavra de Deus. Da multidão dos que creram era um o coração e a alma. Ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum etc., e em todos eles havia abundante graça (At 4.31-33). Quem não vê nesse relato uma amostra daquela graça que o nosso Senhor havia pedido para os crentes, quando orou para que os seus discípulos, e os que viessem a crer nele por meio da palavra deles, fossem aperfeiçoados na unidade?
Pode-se perguntar aqui se a multidão dos que creram naqueles dias felizes era toda perfeita no amor. Respondo que, se o amor puro tinha lançado fora do coração deles todo egoísmo e todo medo pecaminoso, eles sem dúvida tinham sido aperfeiçoados no amor (cf. 1Jo 4.18). Mas, como Deus não remove habitualmente a praga do pecado que habita em nós antes que ela tenha sido descoberta e lamentada, e como encontramos, nos dois capítulos seguintes, um relato do engano de Ananias e de sua mulher e da parcialidade, ou murmuração egoísta, de alguns crentes, parece que foram principalmente aqueles que antes já eram fortes na graça da sua dispensação os que se elevaram então a pais sem pecado; e que o primeiro amor dos outros crentes [pela bênção especial de Cristo sobre a sua igreja recém-nascida] foi por algum tempo tão brilhante e poderoso que os filhinhos tinham, ou pareciam ter, a força dos jovens, e os jovens a graça dos pais. Nesse caso, o relato que são Lucas faz dos crentes primitivos deve ser tomado com alguma restrição. Assim, enquanto muitos deles eram perfeitos no amor, muitos podiam ter a imperfeição do seu amor apenas encoberta por uma enxurrada de paz e de alegria no crer. E, nesse caso, o que se diz de serem todos de um só coração e alma e de terem tudo em comum etc. pode significar apenas que a harmonia do amor ainda não havia sido quebrada e que ninguém ainda havia manifestado nada da falta de caridade pela qual os cristãos das eras seguintes se tornaram tão notórios. Quanto à abundante graça que havia em todos eles, isso não significa necessariamente que fossem todos igualmente fortes na graça; pois uma grande unidade e felicidade pode repousar sobre uma família inteira, onde continua a existir a diferença entre um pai, um jovem e uma criança. Contudo, não é improvável que Deus, para inaugurar a dispensação do Espírito de um modo que fixasse a atenção de todas as eras na sua importância e glória, tenha permitido a todo o corpo dos crentes dar juntos uma volta extraordinária pela Canaã do amor perfeito e mostrar ao mundo o fruto admirável que ali cresce, assim como os espias enviados por Josué deram uma volta pela boa terra prometida antes de se estabelecerem nela e de lá trouxeram o cacho de uvas que assombrou e animou os israelitas, que ainda não tinham atravessado o Jordão.
Em suma, é [penso eu] inegável, pelos quatro primeiros capítulos de Atos, que um poder especial do Espírito é concedido aos crentes sob o evangelho de Cristo; que esse poder, mediante a fé da nossa parte, pode operar a mudança mais súbita e surpreendente na nossa alma; e que, quando a nossa fé abraçar plenamente a promessa da plena santificação, ou de uma completa circuncisão do coração, pelo Espírito (Rm 2.29), o Espírito Santo, que acendeu tanto amor no dia de Pentecostes que todos os crentes primitivos se amavam, ou pareciam amar-se, uns aos outros perfeitamente, não deixará de nos ajudar a amar uns aos outros sem a busca pecaminosa de nós mesmos; e, tão logo o façamos, Deus permanece em nós, e o seu amor é, em nós, aperfeiçoado (1Jo 4.12; Jo 14.23).
Se vocês perguntarem quantos batismos, ou derramamentos do Espírito santificador, são necessários para purificar um crente de todo pecado e inflamar a sua alma em amor perfeito, respondo que, como o efeito de uma verdade santificadora depende do ardor da fé com que essa verdade é abraçada e do poder do Espírito com que ela é aplicada, eu demonstraria falta de modéstia se submetesse as operações do Espírito Santo e a energia da fé a uma regra que não está expressamente estabelecida na Escritura. Se você perguntar ao seu médico quantas doses de remédio terá de tomar antes que todas as indigestões do seu estômago sejam eliminadas e o seu apetite seja perfeitamente restabelecido, ele provavelmente lhe responderá que isso depende da natureza dessas indigestões, da força do remédio e do modo como a sua constituição permitir que ele atue; e que, em geral, você deve repetir a dose, conforme puder suportá-la, até que o remédio tenha produzido plenamente o efeito desejado. Dou uma resposta semelhante. Se um poderoso batismo do Espírito sela vocês para o dia da redenção (cf. Ef 4.30) e os purifica de toda impureza [moral] (cf. 2Co 7.1), tanto melhor. Se dois ou mais forem necessários, o Senhor pode repeti-los: a sua mão não está encolhida, para que não possa salvar (Is 59.1); nem a sua promessa do Espírito é limitada. Ele diz de modo geral: quem quiser venha e receba de graça a água da vida (Ap 22.17). Ora, se vocês, que são maus, sabem dar coisas boas aos seus filhos, quanto mais o Pai celeste [que é a própria bondade] dará o Espírito Santo [santificador] aos que lhe pedirem! (Lc 11.13). Posso, contudo, arriscar-me a dizer, de modo geral, que, antes de podermos estar entre os cristãos perfeitos, precisamos receber pela fé tanto da verdade e do Espírito de Cristo que o amor puro a Deus e ao próximo seja derramado em nosso coração pelo Espírito Santo que nos foi dado (cf. Rm 5.5), e que sejamos cheios da mente mansa e humilde que havia em Cristo. E, se um único derramamento do Espírito, uma única manifestação luminosa da verdade santificadora, nos esvazia de nós mesmos a ponto de nos encher da mente de Cristo e do amor puro, somos sem dúvida cristãos no sentido pleno da palavra. Do fundo da minha alma, portanto, subscrevo a resposta que um grande teólogo dá à seguinte objeção:
“Mas alguns que acabam de ser justificados chegam de fato a isto [à perfeição cristã]. O que você dirá deles?” O sr. Wesley responde com grande propriedade: “Se de fato chegam, direi que estão santificados, salvos do pecado naquele momento; e que nunca precisam perder o que Deus lhes deu, nem sentir mais o pecado. Mas certamente este é um caso excepcional. Com a generalidade dos justificados é diferente. Eles sentem em si, mais ou menos, orgulho, ira, vontade própria e um coração inclinado a desviar-se. E, enquanto não mortificam gradualmente essas coisas, não estão plenamente renovados no amor. Deus costuma dar um tempo considerável para que os homens recebam luz, cresçam na graça, façam e sofram a sua vontade, antes de serem justificados ou santificados. Mas ele não se prende invariavelmente a isso. Às vezes ele abrevia a sua obra. Faz a obra de muitos anos em poucas semanas; talvez numa semana, num dia, numa hora. Justifica ou santifica tanto os que nada fizeram nem sofreram como os que não tiveram tempo para um crescimento gradual, seja na luz, seja na graça. E não lhe é lícito fazer o que quer com o que é seu? Ou você ficou com inveja porque ele é bom? (Mt 20.15). Não é preciso, portanto, provar com quarenta textos da Escritura que a maioria dos homens é aperfeiçoada no amor por fim, ou que há uma obra gradual de Deus na alma, e que, falando em geral, é preciso muito tempo, até muitos anos, antes que o pecado seja destruído. Tudo isso nós sabemos. Mas sabemos também que Deus pode, com a devida licença do homem, abreviar a sua obra no grau que lhe aprouver, e fazer num momento a obra usual de muitos anos. E ele o faz em muitos casos. E, no entanto, há uma obra gradual tanto antes como depois desse momento. De modo que um pode afirmar que a obra é gradual, e outro, que é instantânea, sem nenhuma espécie de contradição.” Uma Clara Explicação da Perfeição Cristã, p. 115 etc. Na p. 135, o mesmo eminente teólogo se explica mais plenamente, assim: “Ela [a perfeição cristã] é constantemente precedida e seguida por uma obra gradual. Mas em si mesma é instantânea ou não? Ao examinar isto, avancemos passo a passo. Uma mudança instantânea foi operada em alguns crentes: ninguém pode negá-lo. Desde essa mudança, eles desfrutam do amor perfeito. Sentem isto, e só isto. Estão sempre alegres, oram sem cessar, em tudo dão graças (cf. 1Ts 5.16-18). Ora, isto é tudo o que entendo por perfeição. Portanto, eles são testemunhas da perfeição que eu prego.” “Mas em alguns essa mudança não foi instantânea.” “Eles não perceberam o instante em que ela foi operada: muitas vezes é difícil perceber o instante em que um homem morre. Contudo, há um instante em que a vida cessa. E, se o pecado alguma vez cessa, tem de haver um último momento da sua existência e um primeiro momento da nossa libertação dele.” “Mas, se eles têm esse amor agora, vão perdê-lo.” “Podem perdê-lo, mas não precisam. E, quer o percam, quer não, eles o têm agora: agora experimentam o que ensinamos. Agora são todo amor. Agora se alegram, oram e louvam sem cessar.” “Contudo, o pecado está apenas suspenso neles; não está destruído.” “Chame isso como quiser. Hoje eles são todo amor, e não se preocupam com o dia de amanhã (cf. Mt 6.34).” Voltando ao assunto:
(2) Quando vocês derem firme assentimento à verdade do preceito e das promessas sobre os quais se funda a doutrina da perfeição cristã; quando entenderem o sentido destas passagens: Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade (Jo 17.17); o Consolador, que eu enviarei a vocês [o Espírito da verdade e da santidade] (cf. Jo 15.26; 16.7); Deus os escolheu para a [eterna] salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade (2Ts 2.13); quando virem que o caminho para a perfeição cristã passa pela palavra do evangelho de Cristo, pela fé e pelo Espírito de Deus: então, em seguida, procurem ter ideias razoavelmente claras desta perfeição. Isto é absolutamente necessário. Se vocês querem acertar um alvo, precisam saber onde ele está. Algumas pessoas miram a perfeição cristã; mas, confundindo-a com a perfeição angélica, atiram acima do alvo, erram-no e, depois, com irritação, abandonam as suas esperanças. Outras põem o alvo baixo demais, na mesma proporção; daí vocês as ouvirem professar que alcançaram a perfeição cristã, quando não alcançaram nem sequer a serenidade de espírito de um filósofo, ou a benevolência de um pagão bondoso e consciencioso. Nas páginas anteriores, se não me engano, o alvo foi fixado segundo as regras da moderação bíblica. Não está posto tão alto que faça vocês desesperarem de acertá-lo, se fizerem o melhor que puderem de maneira evangélica; nem tão baixo que lhes permita presumir que podem alcançá-lo sem empregar ao máximo todas as suas capacidades, em devida subordinação à eficácia do sangue de Jesus e às influências santificadoras do Espírito.
(3) Se vocês perguntarem: “Qual é o caminho para a perfeição cristã? Iremos até ela pela quietude interior, conforme esta orientação de Moisés e de Davi: O Senhor lutará por vocês; fiquem calmos (Êx 14.14); fiquem firmes e vejam o livramento que o Senhor lhes fará (Êx 14.13); Aquietem-se e saibam que eu sou Deus (Sl 46.10); Tremam de medo e não pequem; consultem no travesseiro o coração e sosseguem (Sl 4.4)? Ou avançaremos em direção a ela por uma luta interior, segundo estes mandamentos de Cristo: Esforcem-se por entrar pela porta estreita (Lc 13.24); o Reino dos Céus sofre violência, e os que usam de força se apoderam dele (Mt 11.12) etc.?”
Segundo o equilíbrio evangélico da doutrina da graça livre e do livre-arbítrio, respondo que o caminho para a perfeição está na devida combinação da graça livre preveniente e auxiliadora com o livre-arbítrio submisso e auxiliado. A quietude antinomiana, portanto, que diz que a graça livre deve fazer tudo, não é o caminho. A atividade farisaica, que quer fazer a maior parte, se não tudo, não é o caminho. Juntem esses dois sistemas parciais, concedendo à graça livre a dianteira e a alta preeminência que ela com tanta justiça reivindica, e vocês terão o equilíbrio dos dois axiomas do evangelho. Farão justiça às doutrinas da misericórdia e da justiça, da graça livre e do livre-arbítrio, da fidelidade divina em guardar a aliança da graça e da fidelidade humana em apegar-se a essa aliança e manter-se dentro dos seus limites. Em suma, vocês terão o método bíblico de esperar em Deus, que o sr. Wesley descreve assim:
| Original | Tradução |
|---|---|
| Restless, resign’d, for God I wait: | Inquieta, resignada, por Deus espero: |
| For God my vehement soul stands still. | por Deus a minha alma veemente se aquieta. |
[N. do T.: Charles Wesley, Hinos e Poemas Sagrados (1740), hino sobre Hc 2.4, estrofe 19, citado livremente.]
Para entender estes versos, considerem que a fé, como a virgem Maria, é alternadamente receptora e doadora. Primeiro, ela recebe passivamente a fecundação da graça divina, dizendo: Aqui está a serva do Senhor; que aconteça comigo o que você falou (Lc 1.38); depois, ativamente, dá à luz o seu fruto celestial com trabalho diligente. Deus é quem efetua em vocês tanto o querer como o realizar (Fp 2.13), diz são Paulo: aqui ele descreve o ofício passivo da fé, que se submete a toda dispensação e operação divina e nela consente. Portanto, desenvolvam a sua salvação com temor e tremor (Fp 2.12) e, por consequência, com pressa, diligência, ardor e fidelidade: aqui o apóstolo descreve o ofício ativo dessa graça-mãe, que emprega com cuidado o talento que já recebeu. Vocês querem, então, esperar corretamente pela perfeição cristã? Admitam com imparcialidade os axiomas do evangelho e ponham-nos fielmente em prática. Para isso, deixem que eles se unam no coração de vocês, como as duas pernas de um compasso se unem no eixo que faz delas um único instrumento composto. Que a sua fé na doutrina da graça livre e da justiça de Cristo fixe a sua mente em Deus, como vocês fixam uma das pernas do compasso, imóvel, no centro do círculo que vão traçar: assim vocês se aquietarão, segundo os primeiros textos apresentados na pergunta. E então, que a sua fé na doutrina do livre-arbítrio e da obediência evangélica faça vocês percorrerem com firmeza o círculo do dever em torno desse centro firme: assim vocês imitarão a outra perna do compasso, que se move uniformemente em torno do centro e traça a circunferência de um círculo perfeito. Por essa atividade subordinada à graça, vocês se apoderarão do Reino dos Céus pela força (cf. Mt 11.12). Quando o coração de vocês repousa tranquilamente em Deus pela fé, enquanto desempenha com firmeza o papel de receptor passivo, ele se assemelha à perna do compasso que repousa no centro do círculo; e então as expressões do poeta, inquieta, resignada, descrevem a sua firmeza em Deus. Mas, quando o coração de vocês se move rapidamente em direção a Deus pela fé, enquanto desempenha o papel de trabalhador diligente; quando a sua alma ardente segue após Deus como a corça sedenta suspira pelas correntes das águas (cf. Sl 42.1), ele pode ser comparado à perna do compasso que traça a circunferência do círculo; e então estas palavras do poeta, inquieta e veemente, lhe pertencem propriamente. Para avançar com firmeza rumo à perfeição, vocês precisam, portanto, esforçar-se por crer com firmeza, segundo a doutrina do primeiro axioma do evangelho, e [conforme houver oportunidade] trabalhar diligentemente, segundo a doutrina do segundo. E, no momento em que a sua fé estiver firmemente fixada em Deus como no seu centro, e a sua obediência se mover rapidamente no círculo do dever, a partir do repouso e do poder que vocês encontram nesse centro, vocês terão alcançado: estarão aperfeiçoados na fé que atua pelo amor (cf. Gl 5.6). A sua fé humilde salva vocês do farisaísmo, o seu amor obediente os salva do antinomianismo, e ambos [em devida subordinação a Cristo] fazem de vocês justos aperfeiçoados (cf. Hb 12.23), segundo a sua dispensação.
(4) Outra questão também tem deixado perplexos muitos perfeccionistas sinceros, e a sua solução talvez remova do caminho de vocês um obstáculo considerável. “A perfeição cristã”, dizem eles, “deve descer até nós instantaneamente? Ou devemos crescer gradualmente até ela? Seremos aperfeiçoados no amor por um hábito de santidade infundido em nós de repente, ou por atos de fé fraca e de amor fraco repetidos com tanta frequência que se tornem fortes, habituais e, segundo o evangelho, naturais para nós, conforme a conhecida máxima: Um hábito forte é uma segunda natureza?”
Os dois caminhos são bons; e provavelmente se poderiam apresentar casos de alguns crentes aperfeiçoados gradualmente e de outros firmados no amor perfeito [comparativamente falando] de modo instantâneo, se conhecêssemos as experiências de todos os que morreram num estado de perfeição evangélica. Pode ser que aconteça com a raiz do pecado o mesmo que acontece com o seu fruto: algumas almas negociam muitos anos antes de se deixarem persuadir a abandonar todos os seus pecados exteriores, e outras se separam deles, por assim dizer, instantaneamente. Vocês podem comparar as primeiras àquelas cidades sitiadas que resistem longamente, ou àquelas mães que passam por um trabalho de parto penoso e demorado; e as segundas se assemelham àquelas fortalezas que são surpreendidas e tomadas de assalto, ou àquelas mulheres que dão à luz quase assim que as dores lhes sobrevêm. Os viajantes nos contam que, em alguns climas quentes, a vegetação é tão rápida e vigorosa que as sementes de certas hortaliças dão uma salada em menos de vinte e quatro horas. Se um filósofo do norte dissesse: “Impossível!”, e se um jardineiro inglês protestasse contra essa salada brotada como cogumelo, eles apenas exporiam os seus preconceitos, como fazem os que condenam a justificação instantânea ou zombam da possibilidade da destruição instantânea do pecado que habita em nós.
Pois onde está o absurdo desta doutrina? Se a luz de uma vela trazida a um quarto escuro pode expulsar instantaneamente as trevas; e se, ao abrir as janelas ao meio-dia, o seu aposento sombrio pode ser instantaneamente inundado pela luz do meio-dia; por que o rasgar instantâneo do véu da incredulidade, ou a abertura súbita e plena do olho da sua fé, não poderia encher de imediato a sua alma com a luz da verdade e o fogo do amor, supondo que o Sol da Justiça nasça sobre vocês trazendo poderosa cura nas suas asas (cf. Ml 4.2)? Não pode o Santificador descer sobre a sua alma que espera tão depressa quanto o Espírito desceu sobre o seu Senhor no batismo dele? Não desceu ele como pomba (Mt 3.16), isto é, com o suave movimento de uma pomba, que desce veloz e pousa num instante? Um homem bom disse certa vez, com verdade: “Um cisco é pequeno comparado com o sol, mas eu sou muito menor diante de Deus.” Aludindo a essa comparação, pergunto: se o sol pudesse incendiar instantaneamente um cisco; mais ainda, se uma lente de aumento pode num momento calcinar um osso e transformar uma pedra em cal; e se a chama fraca de uma vela pode, num abrir e fechar de olhos, destruir o inseto que voa para dentro do seu alcance, quão contrário à Escritura e à razão é supor que, quando Deus batiza plenamente uma alma com o seu Espírito santificador e com o fogo celestial do seu amor (cf. Mt 3.11), ele não possa num instante destruir o homem do pecado, queimar a palha da corrupção, derreter o coração de pedra e fazer dele um coração de carne (cf. Ez 36.26), e inflamar a alma que crê num puro amor seráfico!
Um apelo a casos paralelos pode lançar alguma luz sobre a questão que respondo. Se vocês estivessem doentes e pedissem a Deus a perfeita recuperação da saúde, de que modo a esperariam? Esperariam que as forças lhes fossem restituídas de uma só vez, sem nenhum meio exterior, como os leprosos que foram purificados num instante, e como o paralítico que, à palavra do nosso Senhor, tomou o leito em que jazia e o levou nos ombros? Ou pelo uso de algum meio exterior de efeito mais lento, como os dez leprosos, que foram purificados mais gradualmente, indo eles apresentar-se aos sacerdotes (cf. Lc 17.14), ou como o rei Ezequias, cuja recuperação, gradual mas igualmente certa, se deveu à bênção de Deus sobre o emplastro de figos prescrito por Isaías (cf. Is 38.21)? E ainda: se vocês fossem cegos e suplicassem ao Senhor que lhes desse a perfeita visão humana, de que modo a esperariam? Como Bartimeu, cujos olhos foram abertos num instante (cf. Mc 10.52)? Ou como o homem que recebeu a vista aos poucos? A princípio, nada via; depois, distinguia confusamente os objetos diante de si; mas por fim via tudo com clareza (cf. Mc 8.23-25). Não esperariam vocês com fervor uma resposta às suas orações agora, deixando à sabedoria divina o modo particular da sua cura? E por que não haveriam de ir e fazer o mesmo (cf. Lc 10.37) com respeito à terrível doença a que chamamos o pecado que habita em nós?
Se o nosso coração é purificado pela fé, como a Escritura expressamente testifica (At 15.9); se a fé que purifica de modo particular o coração dos cristãos é a fé na promessa do Pai (At 1.4), promessa que foi feita pelo Filho e aponta diretamente para uma efusão particular do Espírito Santo, o purificador dos espíritos; se podemos crer num momento; e se Deus pode, num momento, selar a nossa fé santificadora enviando-nos a plenitude do seu Espírito santificador; se este, digo, é o caso, não se segue que negar a possibilidade da destruição instantânea do pecado é negar [contra a Escritura e contra os fatos] que possamos fazer um ato instantâneo de fé na promessa santificadora do Pai e no sangue do Filho, que purifica de tudo, e que Deus possa selar esse ato pela operação instantânea do seu Espírito? É isso que são Paulo chama a circuncisão do coração no [ou pelo] Espírito (Rm 2.29), segundo a antiga promessa do Senhor: O Senhor, seu Deus, circuncidará o coração de vocês […] para que vocês amem o Senhor, seu Deus, de todo o coração (Dt 30.6). Onde está o absurdo de crer que o Deus de toda a graça pode agora dar resposta ao pedido racional e evangélico do poeta?
| Original | Tradução |
|---|---|
| Open my faith’s interior eye: | Abre o olho interior da minha fé: |
| Display thy glory from above: | manifesta do alto a tua glória, |
| And sinful self shall sink and die, | e o eu pecaminoso há de afundar e morrer, |
| Lost in astonishment and love. | perdido em assombro e amor. |
[N. do T.: Charles Wesley, A Promessa da Santificação (1741), estrofe 26; Fletcher troca “tudo o que sou” por “o eu pecaminoso”.]
Se uma manifestação momentânea da glória corporal de Cristo pôde, num instante, transformar Saulo, o perseguidor blasfemo e sanguinário, em Paulo, o apóstolo manso e dado à oração; se a vista repentina das mãos de Cristo pôde, num momento, arrancar do coração de Tomé aquela detestável resolução: de modo nenhum acreditarei (Jo 20.25), e produzir aquela profunda confissão de fé: Senhor meu e Deus meu! (Jo 20.28), o que não poderá operar a manifestação da glória espiritual de Cristo numa alma que crê, à qual ele se manifesta segundo a eficácia do poder que ele tem de até subordinar a si todas as coisas (Fp 3.21)? E ainda: se o corpo de Cristo pôde, num instante, tornar-se tão glorioso no monte que as suas próprias vestes participaram do súbito resplendor e ficaram não só livres de toda mancha, mas também brancas como a luz (Mt 17.2), resplandecentes, de um branco muito intenso, como nenhum lavandeiro no mundo as poderia alvejar! (Mc 9.3); e se o nosso corpo será transformado, se este corpo corruptível se revestirá da incorruptibilidade e o corpo mortal se revestirá da imortalidade, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta (1Co 15.52-53), por que a nossa alma que crê, quando se submete plenamente às condições de Deus, não poderia ser plenamente transformada, plenamente convertida do poder de Satanás para Deus (cf. At 26.18)? Quando o Espírito Santo diz: Eis agora o dia da salvação (2Co 6.2), exclui ele a salvação da iniquidade do coração? Se Cristo agora merece plenamente o nome de Jesus, porque ele [plenamente] salva o seu povo [que crê] dos pecados deles (cf. Mt 1.21); e se agora soa a trombeta do evangelho e os pecadores se levantam dentre os mortos, por que não haveríamos de ser transformados num momento, uma vez cumprida a condição, do pecado que habita em nós para a santidade que habita em nós? Por que não haveríamos de passar, num abrir e fechar de olhos ou em pouco tempo, da morte que habita em nós para a vida que habita em nós?
Isso não é tudo. Se vocês negam a possibilidade de uma rápida destruição do pecado que habita em nós, mandam para o inferno, ou para algum purgatório não bíblico, não só o ladrão moribundo, mas também todos aqueles mártires que abraçaram de repente a fé cristã e foram logo mortos por perseguidores sanguinários por confessarem a fé que tinham acabado de abraçar. E, se vocês admitem que Deus pode cumprir a sua obra de forma plena e em breve (Rm 9.28) num caso assim, por que não em outros casos? Por que não, sobretudo, quando um crente confessa o pecado que habita nele, ora ardentemente para que Cristo o faça e crê sinceramente que Cristo pode agora purificar de toda injustiça (1Jo 1.9)?
Ninguém é tão propenso a zombar da destruição instantânea do pecado quanto os calvinistas; e, no entanto [tal é a incoerência que caracteriza alguns homens!], a doutrina deles sobre o purgatório está edificada sobre ela. Pois, se lhes dermos crédito, todos os crentes moribundos têm uma natureza ainda moralmente corrompida e um coração ainda desesperadamente corrupto (cf. Jr 17.9). Esses crentes, ainda cheios do pecado que habita neles, dão instantaneamente o último suspiro e [sem nenhum ato particular de fé, sem nenhum derramamento particular do Espírito santificador] a corrupção desaparece instantaneamente. O homem da iniquidade (cf. 2Ts 2.3) que neles habitava passou pelo purgatório de Genebra, foi inteiramente consumido, e eis que as almas que não queriam ouvir falar do ato instantâneo da fé santificadora, que recebe o Espírito de santidade para habitar em nós, as almas que defendiam com tanto empenho a permanência do pecado em nós, estão agora completamente sem pecado; e, num abrir e fechar de olhos, aparecem no terceiro céu entre os espíritos dos justos cristãos aperfeiçoados no amor (cf. Hb 12.23)! Tal é a doutrina dos nossos opositores; e, no entanto, eles acham incrível que Deus faça por nós, enquanto oramos com fé, aquilo que supõem que a morte fará por eles quando estiverem nos braços frios dela, talvez delirantes ou sem sentidos!
Por outro lado, negar que os crentes imperfeitos podem crescer, e de fato crescem, gradualmente na graça, e que, por conseguinte, os restos dos seus pecados podem definhar, e de fato definham, gradualmente, é tão absurdo quanto negar que Deus rega a terra com o orvalho de cada dia, e também com as chuvas de trovoada. É tão ridículo quanto afirmar que ninguém é levado por doenças prolongadas, mas que todos os homens morrem de repente ou poucas horas depois de adoecer.
Uso estas comparações a respeito da morte para lançar alguma luz sobre a questão que resolvo, e não para insinuar que o definhar e a destruição do pecado correm paralelos ao definhar e à dissolução do corpo e que, por conseguinte, o pecado tenha de acabar com a nossa vida corporal. Se eu admitisse esse dogma não bíblico, tornaria a edificar o que sempre me esforcei por destruir, e [como amo a coerência] prometeria a salvação eterna a todos os incrédulos; pois os incrédulos, presumo, também morrerão, isto é, também passarão pelo purgatório de Genebra, tanto quanto os crentes. Nem vejo por que a morte não seria capaz de destruir a vanguarda e o grosso das forças do pecado, se pode com tanta facilidade fazer em pedaços a retaguarda [os restos do pecado].
Das observações anteriores se vê que os crentes geralmente chegam à perfeição cristã como os discípulos chegaram ao outro lado do mar da Galileia. Remaram algum tempo com muito esforço e pouco êxito. Mas, quando já tinham navegado uns cinco ou seis quilômetros, viram Jesus andando sobre o mar. Ele lhes disse: Sou eu. Não tenham medo! Então eles o receberam com alegria, e logo o barco chegou ao seu destino (Jo 6.19-21). Do mesmo modo nós lutamos até que a nossa fé descubra Cristo na promessa e o acolha no coração; e tal é o efeito da sua presença que logo chegamos à terra da perfeição. Ou [para usar outra ilustração] Deus diz aos crentes: Vão para a Canaã do amor perfeito. Levantem-se: o que estão esperando? Lavem os restos do pecado, invocando, isto é, crendo no nome do Senhor (cf. At 22.16). E, se eles se submetem à obediência da fé, ele os trata como tratou o evangelista Filipe, a quem tinha dito: Levante-se e vá para o Sul (At 8.26). Pois, quando se levantam e correm, como fez Filipe, o Espírito do Senhor os arrebata, como arrebatou o evangelista (At 8.39); e eles são achados na nova Jerusalém, como Filipe foi visto em Azoto (At 8.40). Eles permanecem em Deus [ou no amor perfeito], e Deus [ou o amor perfeito] permanece neles (1Jo 4.16).
Daí se segue que o método mais evangélico de buscar a perfeição a que somos chamados de imediato é buscá-la agora, esforçando-nos por nos apossar plenamente, pela fé, da promessa dessa perfeição, como se os nossos repetidos atos de obediência nunca nos pudessem fazer avançar. Mas, ao mesmo tempo, devemos fazer a obra da fé e repetir os nossos atos interiores e exteriores de obediência com tanto empenho e fidelidade, segundo o poder que agora temos, como se tivéssemos certeza de entrar no descanso simplesmente pelo uso diligente dos nossos talentos e pelo emprego fiel das faculdades que a graça divina nos concedeu. Se não atendermos à primeira destas orientações, buscaremos ser santificados pelas obras, como os fariseus; e, se desprezarmos a segunda, escorregaremos para a preguiça solifidiana, com os antinomianos.
Esta dupla orientação está fundada na ligação entre os dois axiomas do evangelho. Se o segundo axioma [que implica a doutrina do livre-arbítrio] fosse falso, eu diria apenas: “Fiquem quietos, ou melhor, não façam nada: só a graça livre fará tudo em vocês e por vocês.” Mas, como este axioma é tão verdadeiro quanto o primeiro, tenho de acrescentar: “Esforcem-se em humilde subordinação à graça livre: pois Cristo diz: A todo o que tem graça inicial com proveito, mais graça será dada, e terá em abundância (Mt 25.29); o seu benfeitor, fiel e justo, lhe dará a recompensa da graça aperfeiçoadora.”
(5.) Cuidado, portanto, com os refinamentos não bíblicos. Partam para a Canaã do amor perfeito com a firme resolução de trabalhar pelo descanso que resta na terra para o povo de Deus (cf. Hb 4.9). Alguns homens bons, mas enganados, sábios além do que está escrito (cf. 1Co 4.6) e amigos de abrir caminhos que os apóstolos desconheciam (caminhos novos, traçados por uma humildade voluntária e que levam ao antinomianismo), alguns homens desse feitio, digo, se ocuparam, desde os dias do ardoroso Agostinho, em desacreditar a prática de tomar resoluções. Apresentam essa prática como um ramo daquilo que lhes apraz chamar legalismo. Insinuam que ela é de todo incompatível com o conhecimento da nossa inconstância e fraqueza. Numa palavra, eles nos amedrontam e nos afastam do primeiro passo para a perfeição cristã, isto é, de uma humilde e evangélica determinação de correr até alcançar o prêmio, ou, se preferirem, de descer até chegar ao lugar mais baixo. Não será inoportuno mostrar a origem do seu engano. Outrora eles romperam o equilíbrio dos axiomas do evangelho, inclinando-se demais para o livre-arbítrio e não pondo o seu primeiro e principal peso na graça livre. [N. do T.: a edição de 1792 omite o “não”, que o sentido exige.] Deus, para trazê-los ao meio-termo evangélico, recusou a sua bênção ao seu querer e correr não evangélicos; daí veio que as suas resoluções, nascidas da justiça própria, se desviaram como um arco enganoso (Sl 78.57). Quando perceberam o engano, em vez de voltar à linha da moderação, fugiram para o extremo oposto. Lançando todos os seus pesos no prato da graça livre, tomaram absurdamente a resolução de nunca tomar resolução alguma; e, determinados a não lançar uma única determinação no prato do livre-arbítrio, começaram a arrastar todos os crentes que encontravam para o fosso de um quietismo preguiçoso e de uma quietude laodicense.
Você nunca avançará com firmeza para a perfeição se não superar esse engano. Deixe que os imperfeccionistas zombem de você por tomar resoluções humildes; mas siga adiante, propondo firmemente levar uma vida nova, como diz a nossa igreja; e, para isso, proponha firmemente obter um coração novo, no pleno sentido da palavra. Pois, enquanto o seu coração continuar em parte não renovado, a sua vida será em parte não santa. Por isso são Tiago observa com razão que, se alguém não tropeça no falar, é um indivíduo perfeito (Tg 3.2): ele ama a Deus de todo o coração, o seu coração está plenamente renovado, visto ser impossível que um coração ainda manchado em parte pela vaidade e pelo engano dite sempre palavras de sinceridade e de amor. As suas boas resoluções não precisam falhar; nem falharão se, com o devido senso da inconstância e da impotência do seu livre-arbítrio sem auxílio, você depender como convém da fidelidade e do auxílio de Deus. Se, porém, falharem, como provavelmente acontecerá mais de uma vez, não desanime; arrependa-se, procure a causa e, na força da graça livre, deixe que o seu livre-arbítrio assim auxiliado renove o seu propósito evangélico, até que o Senhor o sele com o seu poderoso fiat [faça-se] e diga: Que se faça com você conforme a sua fé resoluta (cf. Mt 9.29). É muito melhor ser ridicularizado como uma das “pobres criaturas que nada sabem de si mesmas” do que ser enganado como as virgens imprudentes, que imaginam com presunção que as suas vasilhas estão cheias de óleo imputado. Tome, portanto, a espada do Espírito e corte com ousadia essa armadilha perigosa em pedaços. Consciente da sua impotência, mas empregando o seu talento de livre-arbítrio, diga com o filho pródigo: Vou me arrumar, voltar para o meu pai (Lc 15.18). Diga com Davi: Eu te amo, ó Senhor, força minha (Sl 18.1); Eu, porém, na justiça contemplarei a tua face (Sl 17.15); resolvi que a minha boca não transgredirá (Sl 17.3) [N. do T.: a NAA traz “a minha boca não transgride”; Fletcher segue a King James, “I am purposed”, que fala de propósito firme, o assunto deste parágrafo.]; porei mordaça à minha boca (Sl 39.1); eu disse que guardaria as tuas palavras (Sl 119.57); os soberbos [e os que são humildes de modo não bíblico] zombam continuamente de mim (Sl 119.51), mas eu guardo de todo o coração os teus preceitos (Sl 119.69); jurei e confirmei o juramento de guardar os teus retos juízos (Sl 119.106). Diga com são Paulo: Decidi nada saber, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado (1Co 2.2); e com Jacó: Não o deixarei ir se você não me abençoar (Gn 32.26). E, para resumir numa só todas as boas resoluções, se você é membro da Igreja da Inglaterra, diga: “Comprometi-me a renunciar a todas as vaidades deste mundo perverso, a todos os desejos pecaminosos da carne e a todas as obras do diabo; a crer em todos os artigos da fé cristã; e a guardar os mandamentos de Deus todos os dias da minha vida”; isto é, resolvi da maneira mais solene ser um cristão perfeito. E selei publicamente esta resolução recebendo sobre ela os dois sacramentos: o batismo, depois que os meus pais e padrinhos me puseram sob este bendito voto; e a ceia do Senhor, depois que ratifiquei pessoalmente, na presença do bispo, o que eles tinham feito. E não penso apenas que estou obrigado a guardar este voto; mas “pela graça de Deus, assim o farei; e de coração dou graças ao nosso Pai celestial por me ter chamado a este estado de salvação [e de perfeição cristã]; e rogo a ele que me dê a sua graça, para que eu [não só o alcance, mas também] permaneça nele até o fim da minha vida.” Catecismo da Igreja.
“Muita diligência [diz Kempis] é necessária a quem quer progredir muito. Se aquele que se propõe firmemente muitas vezes falha, que fará aquele que raramente ou fracamente se propõe alguma coisa?” Mas [digo-o uma vez e outra] não se apoiem no seu livre-arbítrio e nos seus bons propósitos a ponto de usurpar a gloriosa preeminência da graça livre. Que o primeiro axioma do evangelho permaneça invariavelmente no seu lugar de honra. Ponham o seu peso principal na misericórdia divina e digam com o homem piedoso que acabo de citar: “Ajuda-me, ó Senhor Deus, no teu santo serviço, e concede-me que agora, neste dia, eu comece perfeitamente.”
Seguindo este método, vocês farão justiça aos dois axiomas do evangelho: dependerão de tal modo da graça livre de Deus que não cairão no correr farisaico; e empregarão de tal modo o seu próprio livre-arbítrio que não escorregarão para a preguiça antinomiana. O seu curso passa exatamente entre estes rochedos. Para atravessar esses estreitos perigosos, o seu coração resoluto precisa adquirir uma polaridade celestial. Pelo toque espiritualmente magnético de Cristo, a pedra angular (cf. Ef 2.20), a sua alma precisa aprender a apontar para a fé e para as obras [ou, se preferirem, para a devida submissão à graça livre e para o devido emprego do livre-arbítrio], como as extremidades opostas da agulha de uma bússola apontam para o Norte e para o Sul.
(6.) Desta orientação decorre o seguinte conselho. Resolvam ser perfeitos em vocês mesmos, mas não por vocês mesmos. Os antinomianos se gabam de ser perfeitos apenas no seu representante celestial. Cristo estava cheio de humildade e amor perfeitos; eles são perfeitos na pessoa dele; não precisam de uma perfeição de amor humilde em si mesmos. Para evitar o erro deles, sejam perfeitos em vocês mesmos, e não em outro: que a sua perfeição de humildade e de amor seja inerente; que ela habite em vocês. Que ela encha o seu próprio coração e governe a sua própria vida. Assim vocês evitarão o engano das virgens que dão a entender que o óleo da sua perfeição está todo contido no vaso sagrado que outrora pendeu da cruz e que, portanto, a sua salvação está consumada: elas têm óleo bastante naquele vaso precioso, maná bastante, e de sobra, naquela urna de ouro (cf. Hb 9.4). O coração de Cristo era perfeito; por isso o delas pode, com toda a segurança, continuar imperfeito, e até cheio do pecado que nele habita, até que a morte, a mensageira do noivo, venha purificá-las e enchê-las de amor perfeito ao grito da meia-noite (cf. Mt 25.6)! Esperança enganosa! Pode haver coisa mais absurda do que um ramo seco e sem seiva imaginar que tem seiva e umidade bastante na videira que ele apenas atravanca? Ou do que um adúltero impenitente gabar-se de que no Senhor ele tem castidade e justiça (cf. Is 45.24)? Onde foi que Cristo disse alguma vez: tenham sal em outro? Não diz ele: Tenham cuidado para não serem enganados (Lc 21.8)? Tenham sal em vocês mesmos (Mc 9.50)? Não atribui ele a perdição dos ouvintes que são como o solo rochoso ao fato de não terem raiz em si mesmos (Mt 13.21)? Se era o consolo do homem paciente que a raiz da questão se achava nele (Jó 19.28) [N. do T.: a NAA traz “a causa deste mal se acha nele mesmo”; Fletcher segue a King James, “the root of the matter”, e o seu argumento depende da palavra “raiz”.], não é deplorável ouvir crentes modernos dizerem, sem nenhuma cláusula que o explique, que não têm nada além de pecado em si mesmos? Mas basta ter a raiz em nós mesmos? Não precisamos também ter o fruto, ou melhor, ser cheios do fruto de justiça (Fp 1.11)? Não é essa a doutrina de são Pedro, quando diz: essas qualidades, estando presentes e aumentando cada vez mais, farão com que vocês não sejam nem inativos, nem infrutíferos no pleno conhecimento do nosso Senhor Jesus Cristo (2Pe 1.8)? E não é a de Davi, quando ora: Cria em mim, ó Deus, um coração puro etc. (Sl 51.10)? Fora, então, com todos os refinamentos antinomianos! E, se vocês querem ter, com são Paulo, salvação e motivo de gloriar-se em si mesmos, e não em outro (cf. Gl 6.4), tratem de ter santidade e perfeição em vocês mesmos, e não em outro.
Mas, enquanto se esforçam para evitar a armadilha dos antinomianos, não caiam na dos fariseus, que querem ter a sua perfeição por si mesmos. Por isso, com os seus esforços nada evangélicos, os seus quereres fabricados por eles mesmos e as suas corridas que eles mesmos se prescrevem, procuram produzir faíscas acesas por eles mesmos e aquecer-se com os seus próprios fogos pintados e com agitações estéreis (cf. Is 50.11). Sintam a sua impotência. Reconheçam que ninguém vivificou [e aperfeiçoou] a sua própria alma. Contentem-se em convidar, receber e acolher a luz da vida; mas nunca tentem formá-la nem monopolizá-la. O dever de vocês é esperar a luz da manhã e alegrar-se quando ela os visita. Mas, se vocês ficassem tão cheios de si a ponto de dizer: “Vou criar um sol; haja luz“; ou se, quando a luz visita os seus olhos, dissessem: “Vou guardar um estoque de luz; vou encher hoje os meus olhos de tanta luz que amanhã quase poderei fazer o meu trabalho sem o sol, ou pelo menos sem uma dependência constante dos seus raios”, não estariam revelando uma espécie de idolatria que se diviniza a si mesma e um orgulho satânico? Se o nosso próprio Senhor [como Filho do homem] não quis ter nenhum grão de bondade humana [de si mesmo]; se ele disse: Por que você me chama de bom? Ninguém é bom [bom por si mesmo, ou bom de si mesmo] a não ser um, que é Deus (Mc 10.18), quem poderá admirar-se o bastante desses cristãos orgulhosos que reivindicam alguma bondade originada em si mesmos, gloriando-se do que receberam como se não o tivessem recebido (cf. 1Co 4.7), ou usando o que receberam sem um humilde senso da sua dependência constante do seu Benfeitor celestial? Para evitar esse horrível engano dos fariseus, aprendam a ver, a sentir e a reconhecer que do Pai, por meio do Filho e pelo Espírito Santo, vêm todo o seu Urim e Tumim, as suas luzes e perfeições. E, enquanto o Senhor diz: de mim procede o seu fruto (Os 14.8), curvem-se diante do seu estrado e respondam com gratidão: Todos nós temos recebido da tua plenitude, e graça sobre graça (Jo 1.16). Pois tu és o Pai das luzes, de quem vêm toda boa dádiva e todo dom perfeito (Tg 1.17). De ti, e por meio de ti, e para ti são todas as coisas. A ti [portanto] seja a glória para sempre. Amém! (Rm 11.36).
(7) Vocês terão essa disposição humilde e agradecida se deixarem o seu arrependimento lançar raízes mais profundas. Pois, se a perfeição cristã implica o abandono de todo pecado interior, bem como de todo pecado exterior, e se o verdadeiro arrependimento é uma graça “pela qual abandonamos o pecado“, segue-se que, para alcançar a perfeição cristã, precisamos seguir o preceito evangélico do nosso Senhor, Arrependam-se, porque está próximo o Reino dos Céus (Mt 4.17), de tal modo que não deixemos nenhum pecado, nenhum pecado de estimação, nenhum pecado que habita em nós, sem arrependimento e, por consequência, sem abandono. Aquele cujo coração ainda está cheio do pecado que nele habita não se arrependeu verdadeiramente desse pecado que habita nele, assim como não se arrependeu verdadeiramente das suas grosserias o homem cuja boca ainda está contaminada com conversas indecentes e gracejos. Quanto mais profundos forem a nossa tristeza pelo pecado que habita em nós e o nosso horror a ele, tanto mais arrependidos confessaremos a ferida do nosso coração (cf. 1Rs 8.38). E, quando a confessarmos como convém, herdaremos a bênção prometida nestas palavras: Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça (1Jo 1.9).
Para promover esse arrependimento profundo, considerem quantos males espirituais ainda assombram o seu peito. Olhem para dentro da sala de imagens interior (cf. Ez 8.12), onde o amor-próprio pretensioso, cercado de uma multidão de pensamentos vãos, desejos tolos e imaginações desvairadas, mantém a sua corte. Entristeçam-se porque o seu coração, que deveria ser todo de carne, ainda é em parte de pedra (cf. Ez 36.26); porque a sua alma, que deveria ser apenas um santuário do Espírito Santo, ainda é tantas vezes transformada num covil de salteadores, numa toca de serpente, num ninho para uma ninhada de víboras espirituais: para os restos de inveja, ciúme, irritação, ira, orgulho, impaciência, mau humor, formalismo, preguiça, preconceito, intolerância, confiança carnal, vergonha má, justiça própria, temores que atormentam, suspeitas sem caridade, amor idólatra e não sei quantos outros males que formam o séquito da hipocrisia e da incredulidade. Pela graça, descubram esses males prestando atenção cuidadosa ao que se passa no seu coração em todo tempo, mas sobretudo na hora da tentação. Por meio de uma confissão frequente e profunda, arrastem para fora todas essas abominações. Esses pecados, que não querem que Cristo reine sozinho sobre vocês, tragam-nos diante dele; ponham-nos à luz do seu rosto; e [se vocês o fizerem com fé] essa luz e o calor do seu amor os matarão, como a luz e o calor do sol matam os vermes que o arado revolve e expõe ao ar livre num dia seco de verão.
E não aleguem que nada podem fazer. Pois, com a ajuda de Cristo, que está sempre pronto a socorrer os desamparados, vocês podem dizer solenemente de joelhos o que provavelmente já disseram de maneira leviana aos seus amigos que professam a fé. Se alguma vez vocês lhes reconheceram que o seu coração é enganoso, inclinado a deixar de fazer o que devem fazer e pronto a fazer o que devem deixar de fazer, sem dúvida podem fazer a mesma confissão a Deus. Queixem-se àquele que pode ajudá-los, como já se queixaram aos que não podem. Lamentem, como puderem, as trevas da sua mente, a rigidez da sua vontade, a lentidão ou o descomedimento das suas afeições, e supliquem com insistência ao Deus de toda a graça que renove dentro de vocês um espírito inabalável (Sl 51.10). Se vocês se entristecerem segundo Deus, quanto cuidado isso produzirá em vocês! Que indignação! Que temor! Que saudade! Que zelo! Sim, que desejo de punir o culpado! (2Co 7.11). Então cantarão com fé o que os imperfeccionistas cantam na incredulidade:
| Original | Tradução |
|---|---|
| O how I hate those lusts of mine: | Ó, como odeio essas paixões minhas |
| That crucified my God: | Que crucificaram o meu Deus, |
| Those sins that pierced and nailed his flesh | Esses pecados que traspassaram e pregaram a sua carne |
| Fast to the fatal wood. | Bem presa ao lenho fatal. |
| Original | Tradução |
|---|---|
| Yes, my Redeemer, they shall die, | Sim, meu Redentor, eles hão de morrer, |
| My heart hath so decreed; | O meu coração assim decidiu; |
| Nor will I spare those guilty things, | Nem pouparei essas coisas culpadas |
| That made my Saviour bleed. | Que fizeram o meu Salvador sangrar. |
| Original | Tradução |
|---|---|
| Whilst with a melting, broken heart, | Enquanto, com o coração derretido e quebrantado, |
| My murdered Lord I view, | Contemplo o meu Senhor assassinado, |
| I’ll raise revenge against my sins, | Levantarei vingança contra os meus pecados |
| And slay the murderers too. | E matarei também os assassinos. |
(8) Intimamente ligada a esse arrependimento profundo está a prática de uma abnegação judiciosa e universal. Se você quer ser perfeito, diz o nosso Senhor (Mt 19.21), negue a si mesmo, dia a dia tome a sua cruz e siga-me (Lc 9.23). Quem ama o seu pai ou a sua mãe [muito mais quem ama o louvor, o prazer ou o dinheiro] mais do que a mim não é digno de mim (Mt 10.37). Mais ainda: quem quiser salvar a sua vida a perderá; e quem perder a vida por minha causa, esse a achará (Mt 16.25). Muitos desejam viver e reinar com Cristo, mas poucos escolhem sofrer e morrer com ele. No entanto, já que o caminho da cruz leva ao céu, sem dúvida leva à perfeição cristã. Fugir da cruz, portanto, ou recusar-se a beber o cálice de vinagre e fel que Deus permite que os seus amigos ou inimigos preparem para vocês, é jogar fora o aloés que a sabedoria divina põe nos seios da mãe das prostitutas para desmamar vocês dela e das suas feitiçarias. É recusar um remédio preparado com bondade para restaurar a sua saúde e o seu apetite. Numa palavra, é renunciar ao médico que cura todas as nossas enfermidades (cf. Sl 103.3) quando tomamos os seus remédios amargos, nos submetemos a deixar que ele abra os nossos abscessos com a sua lanceta afiada e consentimos em que ele consuma a excrescência soberba da nossa carne com os seus cáusticos dolorosos. O nosso Senhor foi aperfeiçoado, como Salvador, por meio de sofrimentos (Hb 2.10), e nós podemos ser feitos cristãos perfeitos da mesma maneira. Podemos ser chamados a sofrer até que tudo o que trouxemos do Egito espiritual seja consumido num deserto uivante, num Getsêmani sombrio ou num Calvário vergonhoso. Se esta sorte estiver reservada para nós, não imitemos os discípulos imperfeitos do nosso Senhor, que o deixaram e fugiram (Mt 26.56); mas suportemos a prova de fogo até que todos os nossos grilhões se derretam e a nossa escória seja removida. O fogo tem natureza purificadora: separa a escória do ouro; e quanto mais intenso, mais rápida e poderosa é a sua ação. Os restantes de Sião e os que ficarem em Jerusalém serão chamados santos etc., quando o Senhor lavar a impureza das filhas de Sião e limpar Jerusalém da culpa do sangue que há no meio dela, com o Espírito de justiça e com o Espírito purificador (Is 4.3-4). Farei essa terça parte passar pelo fogo, diz o Senhor, e a purificarei como se purifica a prata, e a provarei como se prova o ouro. Eles invocarão o meu nome, e eu os atenderei. Direi: “Vocês são o meu povo”, e eles responderão: “O Senhor é o nosso Deus” (Zc 13.9). Portanto, se o Senhor permitir que os melhores homens do seu acampamento, ou os homens mais fortes do exército de Satanás, lancem vocês numa fornalha de tentações ardentes, não saiam dela até serem chamados. Que a perseverança tenha ação completa (Tg 1.4). Mantenham com mansidão o seu posto de prova, até que o seu coração se desprenda de tudo o que é terreno e até que o senso do poder preservador de Deus acenda em vocês uma fé no seu amor onipotente como poucos conhecem por experiência, a não ser os que se viram como a misteriosa sarça do Horebe, ardendo sem se consumir (cf. Êx 3.2), ou os que podem dizer com são Paulo: somos entregues à morte continuamente (Rm 8.36), e eis que vivemos! (2Co 6.9).
“As tentações [diz Kempis] são muitas vezes muito proveitosas aos homens, embora sejam incômodas e penosas, porque nelas o homem é humilhado, purificado e instruído. Todos os santos passaram por muitas tribulações e delas tiraram proveito; e os que não puderam suportar as tentações tornaram-se réprobos e caíram.” “Filho meu [acrescenta o autor do Eclesiástico, cap. 2.1], se vieres servir ao Senhor [na perfeita beleza da santidade], prepara a tua alma para a tentação. Endireita o teu coração; persevera com constância; e não te precipites no tempo da angústia. Aceita de bom grado tudo o que te sobrevier; e sê paciente quando fores reduzido a uma condição humilde; porque o ouro é provado e purificado no fogo, e os homens aceitáveis, na fornalha da adversidade.” E por isso diz são Tiago: Bem-aventurado é aquele que suporta com perseverança a provação. Porque, depois de ter sido aprovado [se ele resistir à prova de fogo], receberá a coroa da vida, a qual o Senhor prometeu aos que o amam [com o amor que tudo suporta (a tentação e todas as coisas, cf. 1Co 13.7), isto é, com amor perfeito] (Tg 1.12). Suportem, pois, com paciência, quando Deus, por breve tempo [se necessário], permitir que vocês sejam contristados por várias provações (1Pe 1.6). Por este meio, o valor da fé que vocês têm, muito mais preciosa do que o ouro perecível, mesmo apurado pelo fogo, resultará em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo (1Pe 1.7).
(9) O arrependimento profundo é bom, a abnegação evangélica é excelente, e certo grau de resignação paciente nas provações é de utilidade indizível para alcançar a perfeição do amor. Mas, como a fé imediatamente atua pelo amor (Gl 5.6), ela é de utilidade muito mais imediata para purificar a alma. É por isso que Cristo, os profetas e os apóstolos insistem tão fortemente na fé, assegurando-nos que, se não crermos, certamente não permaneceremos (Is 7.9); que, se crermos, veremos a glória de Deus (Jo 11.40); que seremos salvos (At 16.31); que do nosso íntimo fluirão rios de água viva (cf. Jo 7.38); que o nosso coração é purificado pela fé (At 15.9); e que pela graça somos salvos, mediante a fé (Ef 2.8). Dizem-nos que Cristo se entregou pela igreja, para que a santificasse, tendo-a purificado pela palavra, para a apresentar a si mesmo como igreja gloriosa, sem mancha, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito (Ef 5.25-27). Ora, se os crentes devem ser purificados e feitos sem defeito pela palavra [que dá testemunho do sangue que faz toda a expiação e do amor do Espírito], é evidente que devem ser santificados pela fé; pois a fé, ou o crer, tem relação tão necessária com a palavra quanto o comer com o alimento. Pela mesma razão o apóstolo observa que nós, que cremos, entramos no descanso (Hb 4.3); que, visto que nos foi deixada a promessa de entrar, devemos ter cuidado para não deixar de alcançá-la por incredulidade (Hb 4.1); que devemos tomar como advertência os israelitas, que não puderam entrar na terra prometida por causa da incredulidade (Hb 3.19); que somos cheios de toda alegria e paz na fé (Rm 15.13); e que Cristo pode salvar totalmente os que por ele se aproximam de Deus (Hb 7.25). Ora, aproximar-se, na linguagem da Escritura, é outra expressão para crer: aquele que se aproxima de Deus [diz o apóstolo] creia (Hb 11.6). Daí se vê que a fé é especialmente necessária aos que querem ser salvos totalmente, sobretudo uma fé firme na promessa capital do evangelho de Cristo, a promessa do Espírito de santidade da parte do Pai, por meio do Filho. Pois como invocarão aquele em quem não creram? (Rm 10.14). Ou como podem alegar com ardor a verdade, e esperar com firmeza o cumprimento de uma promessa em que não têm fé? Esta doutrina da fé é confirmada pelas palavras de Pedro: Deus, que conhece os corações [dos crentes arrependidos], lhes deu testemunho, concedendo o Espírito Santo a eles… purificando-lhes o coração por meio da fé (At 15.8-9). Pois o mesmo espírito de fé que purifica inicialmente o nosso coração quando cremos de coração no amor de Deus que perdoa purifica-o completamente quando cremos plenamente no seu amor que santifica.
(10) Sendo esta orientação sobre a fé da maior importância, vou confirmá-la e explicá-la com um extrato do sermão do sr. Wesley que mostra O Caminho Bíblico da Salvação. Ainda que se admita [diz esse judicioso teólogo] que tanto este arrependimento como os seus frutos são necessários à salvação plena, eles não são necessários nem no mesmo sentido que a fé, nem no mesmo grau. Não no mesmo grau, pois esses frutos só são necessários condicionalmente, se houver tempo e oportunidade para eles; do contrário, um homem pode ser santificado sem eles. Mas não pode ser santificado sem fé. Do mesmo modo, tenha um homem quanto quiser deste arrependimento, ou quantas boas obras quiser, tudo isso de nada lhe vale: ele não é santificado enquanto não crê. Mas no momento em que crê, com esses frutos ou sem eles, sim, com mais ou menos deste arrependimento, ele é santificado. Nem no mesmo sentido, pois este arrependimento e estes frutos só são necessários de modo remoto, para a continuação da sua fé e também para o seu crescimento; ao passo que a fé é imediata e diretamente necessária à santificação. Resta, pois, que a fé é a única condição imediata e proximamente necessária à santificação.
“Mas que fé é essa pela qual somos santificados, salvos do pecado e aperfeiçoados no amor? É uma evidência e convicção divina, (1) de que Deus o prometeu na Santa Escritura. Enquanto não estivermos plenamente convencidos disto, não há como dar mais um passo. E alguém imaginaria que não seria preciso nem mais uma palavra para convencer disto um homem razoável além da antiga promessa: O Senhor, seu Deus, circuncidará o coração de vocês e o coração dos seus descendentes, para que vocês amem o Senhor, seu Deus, de todo o coração e de toda a alma (Dt 30.6). Com que clareza isto exprime o ser aperfeiçoado no amor! Com que força implica o ser salvo de todo pecado! Pois, enquanto o amor ocupa o coração inteiro, que lugar há nele para o pecado? (2) É uma evidência e convicção divina de que aquilo que Deus prometeu ele é poderoso para cumprir. Admitindo, pois, que para os seres humanos isto é impossível, tirar uma coisa pura de uma impura, purificar o coração de todo pecado e enchê-lo de toda santidade, isso não cria dificuldade nenhuma no caso, visto que para Deus tudo é possível (Mt 19.26). (3) É uma evidência e convicção de que ele é poderoso e está disposto a fazê-lo agora. E por que não? Não é para ele um momento o mesmo que mil anos? (cf. 2Pe 3.8). Ele não pode precisar de mais tempo para realizar o que quer que seja da sua vontade. Podemos, portanto, dizer ousadamente a qualquer momento: Eis agora o dia da salvação! (2Co 6.2). Eis que tudo está pronto; venham para a festa! (Mt 22.4). (4) A esta confiança, de que Deus é poderoso e está disposto a santificar-nos agora, é preciso acrescentar mais uma coisa: uma evidência e convicção divina de que ele o faz. Nessa hora está feito. Deus diz ao íntimo da alma: Que se faça com você conforme a sua fé! (Mt 9.29). Então a alma está pura de toda mancha de pecado; está purificada de toda injustiça (1Jo 1.9).”
Os que têm uma ideia pobre da fé provavelmente se surpreenderão ao ver quanto o sr. Wesley atribui a essa graça cristã, e perguntarão por que ele liga tão estreitamente o nosso crer que Deus nos purifica de todo pecado com o ato de Deus nos purificar de fato de todo pecado. Mas o seu espanto cessará se considerarem a definição de fé que esse teólogo dá no mesmo sermão. “A fé em geral [diz ele] é definida pelo apóstolo como uma evidência, uma evidência e convicção divina [a palavra usada pelo apóstolo significa as duas coisas] de fatos que não se veem (Hb 11.1): não visíveis nem perceptíveis pela vista ou por qualquer outro dos sentidos externos. Ela implica tanto uma evidência sobrenatural de Deus e das coisas de Deus, uma espécie de luz espiritual apresentada à alma, quanto uma vista sobrenatural ou percepção dessa luz. Assim, a Escritura fala de Deus dar umas vezes a luz, outras vezes o poder de discerni-la. Assim são Paulo: ‘Deus, que disse: Das trevas resplandeça a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Jesus Cristo’ (2Co 4.6). E em outro lugar o mesmo apóstolo fala de serem abertos ‘os olhos do coração’ (cf. Ef 1.18). Por esta dupla operação do Espírito Santo, tendo os olhos da nossa alma ao mesmo tempo abertos e iluminados, vemos as coisas que, no plano natural, nem olhos viram, nem ouvidos ouviram (1Co 2.9). Temos uma visão das coisas invisíveis de Deus: vemos o mundo espiritual, que está todo à nossa volta e que, no entanto, as nossas faculdades naturais não discernem mais do que se ele não existisse; e vemos o mundo eterno, atravessando o véu que pende entre o tempo e a eternidade. Nuvens e escuridão já não repousam sobre ele, mas já vemos a glória que há de ser revelada.”
Por esta notável definição da fé fica evidente que a doutrina deste Discurso coincide exatamente com o sermão do sr. Wesley, com esta única diferença de palavras: o que ele chama fé, que implica uma dupla operação do Espírito, produtora de luz espiritual e de vista sobrenatural, eu chamei fé que se apropria de um batismo [ou derramamento] do Espírito que santifica. O modo de expressão dele tem mais o sabor do teólogo racional, que divide logicamente a verdade para tornar bem visíveis as suas várias partes; e eu me atenho mais de perto às palavras das Escrituras, o que, espero, não assustará nenhum protestante sincero. Faço esta observação por causa dos que imaginam que, quando uma doutrina vem vestida de expressões que não lhes são bem familiares, é uma doutrina nova, ainda que essas expressões sejam tão bíblicas como as de um batismo ou derramamento do Espírito, que são usadas por alguns dos profetas, por João Batista, pelos quatro evangelistas e pelo próprio Cristo.
Já mostrei a estreita ligação que há entre um ato de fé que se apropria plenamente da promessa santificadora do Pai e o poder do Espírito de Cristo, que põe fim à corrupção moral obrigando o homem do pecado, que ainda resiste, a dar instantaneamente o último suspiro. O sr. Wesley, no sermão acima citado, toca neste assunto delicado de maneira tão clara e concisa que, já que tenho o seu discurso diante de mim, transcreverei a passagem inteira por causa dos que não o têm à mão; e assim porei o selo desse eminente teólogo no que afirmei, nas páginas anteriores, sobre a fé que santifica e a rápida destruição do pecado.
“Deus opera esta grande obra na alma gradualmente ou instantaneamente? Talvez em alguns ela seja operada gradualmente; quero dizer, neste sentido: eles não atentam para o momento exato em que o pecado deixa de existir. Mas é infinitamente desejável, se for a vontade de Deus, que ela se faça instantaneamente; que o Senhor destrua o pecado com o sopro da sua boca, num momento, num abrir e fechar de olhos. E é o que ele geralmente faz: um fato claro, do qual há provas suficientes para convencer qualquer pessoa sem preconceito. Você, portanto, espere-a a cada momento. Espere-a do modo acima descrito, em todas aquelas boas obras para as quais você foi criado de novo em Cristo Jesus (cf. Ef 2.10). Então não há perigo: você não ficará pior, se não ficar melhor, por essa expectativa. Pois, ainda que você fosse frustrado na sua esperança, nada perderia. Mas você não será frustrado na sua esperança: ela certamente virá; não tardará (Hc 2.3). Espere-a, então, todos os dias, todas as horas, todos os momentos. Por que não nesta hora, neste momento? Certamente você pode esperá-la agora, se crê que ela vem pela fé. E por este sinal você pode saber com segurança se a busca pela fé ou pelas obras. Se pelas obras, você quer que alguma coisa seja feita primeiro, antes de você ser santificado. Você pensa: ‘Primeiro preciso ser isto ou aquilo, ou fazer isto ou aquilo.’ Então você a está buscando pelas obras até o dia de hoje. Se você a busca pela fé, espera-a tal como você é; e, se tal como você é, então espere-a agora. É importante observar que há uma ligação inseparável entre estes três pontos: espere-a pela fé, espere-a tal como você é e espere-a agora! Negar um deles é negar todos; admitir um é admitir todos. Você crê que somos santificados pela fé? Seja então fiel ao seu princípio e espere esta bênção tal como você é, nem melhor nem pior; como um pobre pecador que ainda nada tem para pagar, nada para alegar, a não ser que Cristo morreu. E, se você a espera tal como você é, então espere-a agora. Não fique aguardando coisa alguma: por que ficaria? Cristo está pronto, e ele é tudo o que lhe falta. Ele está à sua espera: está à porta! (cf. Ap 3.20). Que o íntimo da sua alma clame:
| Original | Tradução |
|---|---|
| “Come in, come in, thou heavenly guest! | “Entra, entra, ó hóspede celestial, |
| Nor hence again remove: | e nunca mais daqui te afastes, |
| But sup with me, and let the feast | mas ceia comigo, e que o banquete |
| Be everlasting love.” | seja o amor eterno.” |
[N. do T.: Charles Wesley, Hinos sobre o Amor Eterno de Deus, segunda série (1742), hino VIII, estrofe 14, com pequenas diferenças.]
(11) A oração em comum está estreitamente ligada à fé na promessa capital do Espírito que santifica; por isso recomendo com insistência esse meio de graça [onde ele puder ser tido] como eminentemente favorável à conquista da perfeição cristã. Quando muitos corações que creem se elevam e lutam juntos com Deus em oração, vocês podem compará-los a muitas mãos diligentes que movem uma grande máquina. Em tais ocasiões, particularmente, rompem-se as fontes do grande abismo, as comportas dos céus se abrem (cf. Gn 7.11), e rios de água viva fluem do coração dos crentes obedientes (cf. Jo 7.38).
| Original | Tradução |
|---|---|
| In Christ when brethren join, | Em Cristo, quando os irmãos se unem |
| And follow after peace, | e seguem após a paz, |
| The fellowship divine | a comunhão divina |
| He promises to bless, | ele promete abençoar, |
| His chiefest graces to bestow | conceder as suas mais altas graças |
| Where two or three are met below. | onde dois ou três estão reunidos aqui embaixo. |
[N. do T.: Charles Wesley, Hinos e Poemas Sagrados (1742), “Salmo 133”, estrofe 10 (no hino: “In him”, nele).]
| Original | Tradução |
|---|---|
| Where unity takes place, | Onde há unidade, |
| The joys of heaven we prove; | provamos as alegrias do céu; |
| This is the gospel grace, | esta é a graça do evangelho, |
| The unction from above, | a unção do alto, |
| The Spirit on all believers shed, | o Espírito derramado sobre todos os crentes, |
| Descending swift from Christ their head. | descendo veloz de Cristo, a sua Cabeça. |
[N. do T.: Charles Wesley, Hinos e Poemas Sagrados (1742), “Salmo 133”, estrofe 3 (no hino: “Christ our head”, Cristo, nossa Cabeça).]
Assim lemos que, quando Deus abriu com poder o reino do Espírito Santo no dia de Pentecostes, os discípulos “estavam todos unânimes no mesmo lugar”. [N. do T.: a NAA traz “estavam todos reunidos no mesmo lugar”.] E, quando ele confirmou esse reino, eles levantaram unânimes a voz a Deus. Ver At 2.1 e 4.24. Assim também os crentes de Samaria foram cheios do Espírito Santo, o Santificador, enquanto Pedro e João oravam com eles e lhes impunham as mãos (cf. At 8.14-17).
(12) Mas talvez você esteja sozinho. Como o passarinho solitário nos telhados (Sl 102.7), você procura um companheiro que possa ir com você através do mais profundo trabalho de parto da regeneração. Mas, ai! você procura em vão: todos os professantes à sua volta parecem satisfeitos com as suas experiências anteriores e com uma perfeição imputada por eles mesmos ou imaginada pela sua presunção. Quando você lhes dá a entender a sua falta de poder do alto e a sua fome e sede de uma plenitude de justiça, eles não se compadecem de você. E, na verdade, como poderiam? Eles já estão fartos, chegaram a reinar sem você (1Co 4.8), não precisam de nada (Ap 3.17). Não sentem falta de que “Deus lhes conceda, segundo a riqueza da sua glória, que sejam fortalecidos com poder no íntimo de cada um; que, pela fé, Cristo habite no coração deles, para que, estando enraizados e alicerçados em amor, possam compreender, com todos os santos [aperfeiçoados no amor], qual é a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que fiquem cheios de toda a plenitude de Deus” (Ef 3.16-19). Eles o olham como uma pessoa extravagante, cheia de ideias singulares, e mais apagam do que avivam as suas esperanças. As suas circunstâncias são tristes; mas não dê lugar ao desespero, não, nem por um momento. Em nome de Cristo, que não conseguiu que nem mesmo Pedro, Tiago e João vigiassem com ele uma hora (cf. Mt 26.40), e que teve de passar sozinho pela sua agonia; em nome dele, digo eu: “Não perca a sua confiança, porque ela tem grande recompensa” (Hb 10.35). Em meio a todos os seus desânimos, lembre-se de que, afinal, a graça divina não está presa ao grande número, nem tampouco ao pequeno. Quando todos os auxílios exteriores lhe faltarem, apegue-se tanto mais a Cristo, sobre quem foi posto socorro suficiente para você; Cristo, que diz: “Irei com você através do fogo e da água: o primeiro não o queimará, nem a segunda o afogará” (cf. Is 43.2). Jacó estava sozinho quando lutou com o anjo (cf. Gn 32.24), e, contudo, prevaleceu; e, se o servo não está acima do seu senhor (Mt 10.24), não se admire de que se diga de você, como do seu Senhor quando ele passou pelas suas maiores tentações: Dos povos, ninguém esteve com ele (Is 63.3).
Se os seus combates se derem no tumulto da batalha, entre coisas que serão queimadas e servirão de pasto ao fogo (Is 9.5); se a sua Jerusalém for reconstruída num tempo de muita angústia (Dn 9.25); se o Senhor fizer tremer não só a terra, mas também o céu (Hb 12.26); se um abismo chamar outro abismo, ao ruído das suas cachoeiras, e todas as suas ondas e vagas passarem sobre você (Sl 42.7); se a sua paciência for provada ao extremo, lembre-se de quanto você, nos anos passados, provou a paciência de Deus, e não desanime. Um momento extremo e uma tempestade são muitas vezes a oportunidade de Deus. Uma rajada de tentação e um abalo de todos os seus fundamentos podem introduzir a plenitude de Deus na sua alma e cumprir o propósito do vento impetuoso e do tremor que outrora acompanharam as primeiras grandes manifestações do Espírito (cf. At 2.2; 4.31). Os judeus ainda esperam a vinda do Messias na carne, e esperam-na particularmente numa tempestade. Quando os relâmpagos faíscam, quando os trovões ribombam, quando um vento forte sacode as suas casas e o céu tempestuoso parece desabar em aguaceiros com trovoada, alguns deles abrem de modo especial as portas e as janelas para receber o libertador tão desejado. Faça espiritualmente o que eles fazem carnalmente. Espere constantemente o pleno poder do alto (cf. Lc 24.49); mas sobretudo quando uma tempestade de aflição, de tentação ou de angústia o surpreender, ou quando as suas convicções e os seus desejos o elevarem acima de si mesmo, como as águas do dilúvio elevaram a arca de Noé acima da terra, então tenha um cuidado especial em abrir a porta da fé e a janela da esperança tanto quanto puder; e, estendendo os braços do seu amor imperfeito, diga com todo o ardor e toda a resignação de que for capaz:
| Original | Tradução |
|---|---|
| My heart-strings groan with deep complaint, | As fibras do meu coração gemem em profunda queixa, |
| My flesh lies panting, Lord, for thee; | a minha carne está ofegante por ti, Senhor; |
| And every limb, and every joint, | e cada membro e cada articulação |
| Stretches for perfect purity. | se estendem para a pureza perfeita. |
Mas, se o Senhor tiver prazer em vir mansamente em seu auxílio; se ele der fim às suas corrupções ajudando você a afundar suavemente em profundezas desconhecidas de mansidão; se ele afogar o homem do pecado que habita em você batizando-o, mergulhando-o num abismo de humildade, não ache defeito na simplicidade do seu método, na singeleza da sua aparição e na banalidade da sua receita. A natureza, como Naamã, está cheia de preconceitos. Ela espera que Cristo venha purificá-la com tanto alarde, pompa e agitação quanto o general sírio esperava quando ficou indignado e disse: Eu pensava que ele certamente sairia para falar comigo… ficaria em pé… invocaria o nome do Senhor, seu Deus… passaria a mão sobre o lugar… e restauraria o leproso (2Rs 5.11). Cristo muitas vezes age de modo muito mais simples, e assim desconcerta todas as nossas noções e todos os nossos planos preconcebidos de libertação. “Aprenda de mim a ser manso e humilde de coração, e você achará descanso para a sua alma (Mt 11.29): o doce descanso da perfeição cristã, da perfeita humildade, resignação e mansidão. Fique aos meus pés, como fez aquela que muito amou (cf. Lc 7.47), e que estava mansamente ocupada com a boa parte e com a única coisa necessária (Lc 10.42).” Mas você se irrita; você despreza este manto de perfeição: ele é simples demais para você. Você faz pouco caso da beleza permanente de um espírito manso e tranquilo, que é de grande valor diante de Deus (1Pe 3.4). Nada lhe serve, a não ser uma túnica espalhafatosa de muitas cores, que possa agradar à sua orgulhosa vontade própria e atrair a atenção dos outros pela sua aparência gloriosa e flamejante; e ela precisa ser trazida a você com relâmpagos, vozes e trovões (Ap 4.5). Se essa é a sua disposição, não se admire da sabedoria divina, que acha conveniente frustrar os seus preconceitos altivos; e permita-me falar a você como os servos de Naamã falaram a ele: Meu irmão, se o profeta tivesse dito alguma coisa difícil, por acaso você não faria? Muito mais agora que ele lhe diz: “Eu sou o manso e humilde Cordeiro de Deus; lave-se na correnteza do meu sangue, mergulhe no Jordão da minha humildade, e você ficará limpo” (2Rs 5.13)? Em vez, portanto, de ir embora enfurecido, para longe de um Jesus simples, acolha-o na sua aparência mais humilde e esteja certo de que ele pode dar fim ao seu pecado tão facilmente vindo com suavidade num suave sussurro como irrompendo sobre você numa tempestade, num fogo ou num terremoto (1Rs 19.11-12). Os judeus rejeitaram o seu Salvador não tanto porque não desejassem ardentemente a sua vinda, mas porque ele não veio da maneira que esperavam. É provável que um pouco desse judaísmo ainda esteja agarrado a você. Se você faz questão absoluta de chegar ao monte Sião numa carruagem triunfal, ou de fazer a sua entrada na nova Jerusalém montado num cavalo empinado, é provável que nunca chegue lá. Deixe, pois, para trás todas as suas ideias senhoriais e equivocadas, e siga humildemente o seu rei, que faz a sua entrada na Jerusalém figurada humilde, montado em jumento, sim, num jumentinho, cria de jumenta (Zc 9.9). Digo outra vez, portanto: enquanto a sua fé e a sua esperança insistem com firmeza na bênção, deixe que a sua resignação e a sua paciência entreguem à infinita bondade e sabedoria de Deus a maneira particular de concedê-la. Quando ele diz: Certamente venho sem demora para fazer em você a minha morada (cf. Ap 22.20; Jo 14.23), deixe que a sua fé se apegue à palavra dele: abrace a sua promessa com ardor, mas com mansidão. Ela gerará poder no mesmo instante; e com esse poder você poderá produzir no mesmo instante a oração, e talvez a oração que abre o céu, que luta humildemente com Deus, herda a bênção e transforma a petição tão conhecida, Amém! Vem, Senhor Jesus! (Ap 22.20), no louvor tão conhecido: Ele veio! Ele veio! Louve, ó minha alma, o Senhor (Sl 146.1) etc. Assim, arrependa-se, creia e obedeça; e aquele que vem virá com uma plenitude de amor puro, manso e humilde; ele não irá demorar (Hb 10.37); ou, se demorar, será para dar à sua fé e aos seus desejos mais tempo para se abrirem, a fim de que, na aparição dele, você seja capaz de receber mais da sua graça aperfeiçoadora e do seu poder santificador. Além disso, a sua expectativa da vinda dele é de natureza purificadora e o santifica gradualmente. Todo o que tem essa esperança nele, por essa mesma esperança, purifica a si mesmo, assim como Deus é puro (1Jo 3.3); porque fomos salvos [para o amor perfeito] na esperança (Rm 8.24), tanto quanto pela fé. A haste produz o grão cheio na espiga (Mc 4.28), tanto quanto a raiz.
Levante-se, pois, você que espera sinceramente o reino de Deus! Que o seu livre-arbítrio, humilde e ardente, vá ao encontro da graça livre preveniente e santificadora na sua aparição mais fraca e mais obscura, como o pai dos fiéis foi ao encontro do Senhor quando este apareceu a ele nos carvalhais de Manre (Gn 18.1) como um simples mortal. Abraão levantou os olhos, olhou, e eis que três homens estavam em pé diante dele (Gn 18.2): assim a graça livre [se posso arriscar a alusão] se convida à sua tenda; mais ainda, ela já está com você nas suas influências criadoras, redentoras e santificadoras. Ao vê-los, correu da porta da tenda ao encontro deles, prostrou-se em terra (Gn 18.2). Vá e faça o mesmo: se você vê alguma beleza na graça humilhante do nosso Senhor Jesus Cristo, no amor santificador de Deus e na consoladora comunhão do Espírito Santo, deixe que o seu livre-arbítrio corra ao encontro deles e se prostre em terra. Oh, que você saia depressa da sua tenda, isto é, do seu eu pecaminoso! Oh, que haja uma corrida de desejo no caminho da fé! Oh, que haja prostrações incessantes! Oh, que você se incline com mansidão e profundidade diante do seu divino libertador! E disse: Senhor meu, se eu puder obter favor diante de seus olhos, peço que não passe adiante sem ficar um pouco com este seu servo (Gn 18.3). Oh, que haja a insistência humilde de uma fé amorosa! Oh, que haja a fé que deteve o sol quando Deus vingou o seu povo nos dias de Josué (cf. Js 10.13)! Oh, que haja a fé insistente dos dois discípulos, que retiveram Cristo quando ele fez menção de passar adiante! Eles o convenceram a ficar, dizendo: Fique conosco, porque é tarde, e o dia já está chegando ao fim. E entrou para ficar com eles (Lc 24.28-29). É verdade que ele logo desapareceu da vista corporal deles, porque não estavam chamados a gozar sempre da sua presença corporal. Longe de lhes prometer essa bênção, ele tinha dito: É melhor para vocês que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vocês; mas, se eu for, eu o enviarei a vocês (Jo 16.7), a fim de que esteja com vocês para sempre (Jo 14.16). Ele habita com vocês e estará em vocês (Jo 14.17). Esta promessa continua tendo em Cristo o “sim” e o “amém” (cf. 2Co 1.20). Apenas a invoquem segundo as orientações anteriores e, tão certo quanto o nosso Senhor é a testemunha fiel e verdadeira (cf. Ap 3.14), tão certo o Deus da esperança e do amor logo encherá vocês de toda alegria e paz, para que abundem em amor puro, tanto quanto em esperança confirmada, no poder do Espírito Santo (Rm 15.13). Então vocês terão um direito indiscutível de se unir aos crentes que cantam no Tabernáculo e na capela do Lock:
| Original | Tradução |
|---|---|
| Many are we now, and one, | Muitos somos agora, e um, |
| We who Jesus have put on: | nós que nos revestimos de Jesus: |
| There is neither bond nor free, | não há nem escravo nem livre, |
| Male nor female, Lord, in thee. | nem homem nem mulher, Senhor, em ti. |
| Love, like death, hath all destroyed, | O amor, como a morte, tudo destruiu, |
| Rendered all distinctions void: | anulou todas as distinções: |
| Names, and sects, and parties fall; | nomes, e seitas, e partidos caem; |
| Thou O Christ, art all in all. | tu, ó Cristo, és tudo em todos. |
[N. do T.: Charles Wesley, Hinos e Poemas Sagrados (1740), A Comunhão dos Santos, parte IV, estrofe 5.]
Enquanto isso, vocês podem cantar com a piedosa condessa de Huntingdon, com o rev. sr. Madan, com o rev. dr. Conyers, com o rev. sr. Berridge, com o sr. Richard Hill e com os imperfeccionistas que usam as coletâneas de hinos deles; vocês podem cantar, digo, com todos eles, os dois hinos seguintes dos srs. Wesley, que eles concordaram em tomar emprestados depois de fazer algumas alterações insignificantes. Eu os transcrevo da coletânea usada nas capelas de lady Huntingdon, edição de Bristol, 1765, página 239 etc.
| Original | Tradução |
|---|---|
| O for an heart to praise my God! | Oh, por um coração que louve o meu Deus! |
| An heart from sin set free: | Um coração livre do pecado, |
| An heart that’s sprinkled with the blood | um coração aspergido com o sangue |
| So freely spilt for me. | tão livremente derramado por mim. |
| Original | Tradução |
|---|---|
| An heart resigned, submissive, meek, | Um coração resignado, submisso, manso, |
| My dear Redeemer’s throne, | o trono do meu caro Redentor, |
| Where only Christ is heard to speak, | onde só a Cristo se ouve falar, |
| Where Jesus reigns alone. | onde Jesus reina sozinho. |
| Original | Tradução |
|---|---|
| An humble, lowly, contrite heart, | Um coração humilde, singelo, contrito, |
| Believing, true, and clean, | crente, verdadeiro e limpo, |
| Which neither life nor death can part | que nem a vida nem a morte podem separar |
| From him that dwells within. | daquele que habita dentro. |
| Original | Tradução |
|---|---|
| An heart in every thought renewed, | Um coração renovado em todo pensamento |
| And filled with love divine; | e repleto de amor divino; |
| Perfect, and right, and pure, and good, | perfeito, e reto, e puro, e bom, |
| A copy, Lord, of thine. | uma cópia, Senhor, do teu. |
| Original | Tradução |
|---|---|
| My heart, thou know’st, can never rest, | O meu coração, tu bem sabes, jamais pode descansar |
| Till thou create my peace: | até que crie a minha paz; |
| Till of mine Eden re-possest, | até que, reconquistado o meu Éden, |
| From self and sin I cease. | eu cesse do eu e do pecado. |
| Original | Tradução |
|---|---|
| Thy nature, gracious Lord, impart, | A tua natureza, gracioso Senhor, concede, |
| Come quickly from above; | vem depressa do alto; |
| Write thy new name upon my heart, | escreve o teu novo nome no meu coração, |
| Thy new, best name of love. | o teu novo e melhor nome de amor. |
[N. do T.: Charles Wesley, Hinos e Poemas Sagrados (1742), Salmo 51.10, estrofes 1 a 4, 6 e 8, no texto da coletânea transcrita por Fletcher, que difere em alguns pontos do de 1742.]
Eis aqui, sem dúvida, uma oração evangélica pelo amor que restaura a alma a um estado de descanso sem pecado e de perfeição evangélica. Que vocês, meus irmãos, digam de coração o que essa boa gente que discorda de nós imprime e canta, e não peço mais nada. Nem podem vocês esperar a resposta à oração contida no hino anterior de modo mais bíblico do que invocando a promessa do Pai (At 1.4) com palavras como estas:
| Original | Tradução |
|---|---|
| Love divine, all loves excelling, | Amor divino, que excedes todo amor, |
| Joy of heaven, to earth come down! | alegria do céu, desce à terra! |
| Fix in us thine humble dwelling, | Fixa em nós a tua humilde morada, |
| All thy faithful mercies crown: | coroa todas as tuas fiéis misericórdias: |
| Jesus, thou art all compassion, | Jesus, tu és toda compaixão, |
| Pure, unbounded love thou art; | tu és puro e ilimitado amor; |
| Visit us with thy salvation, | visita-nos com a tua salvação, |
| Enter every trembling heart! | entra em todo coração trêmulo! |
| Original | Tradução |
|---|---|
| Breathe! O breathe thy loving spirit | Sopra! Ah, sopra o teu amoroso Espírito |
| Into every troubled breast! | em todo peito atribulado! |
| Let us all in thee inherit, | Que todos em ti herdemos, |
| Let us find thy promised rest. | que encontremos o teu descanso 1 prometido. |
| Take away the power of sinning, | Tira o 2 poder de pecar, |
| Alpha and Omega be; | sê o Alfa e o Ômega; |
| End of faith, as its beginning, | fim da fé, tal como o seu princípio, |
| Set our hearts at liberty. | põe em liberdade os nossos corações. |
| Original | Tradução |
|---|---|
| Come! almighty to deliver, | Vem, ó Todo-Poderoso, para libertar! |
| Let us all thy life receive! | Que todos recebamos a tua vida! |
| Suddenly return, and never, | Subitamente retorna, e nunca, |
| Never more thy temples leave! | nunca mais deixes os teus templos! |
| Thee we would be always blessing, | A ti quiséramos sempre bendizer, |
| Serve thee as thine hosts above; | servir-te como as tuas hostes no alto; |
| Pray and praise thee without ceasing, | orar e louvar-te sem cessar, |
| Glory in thy precious love. | gloriar-nos no teu precioso 3 amor. |
| Original | Tradução |
|---|---|
| Finish then thy new creation, | Conclui, então, a tua nova criação, |
| Pure, unspotted may we be; | puros, 4 imaculados sejamos; |
| Let us see thy great salvation, | deixa-nos ver a tua grande salvação, |
| Perfectly restored by thee; | perfeitamente restaurados por ti; |
| Changed from glory into glory, | transformados de glória em glória, |
| Till in heaven we take our place; | até que no céu tomemos o nosso lugar; |
| Till we cast our crowns before thee, | até que lancemos as nossas coroas diante de ti, |
| Lost in wonder, love, and praise. | perdidos em assombro, amor e louvor. |
[N. do T.: Charles Wesley, Hinos da Redenção (1747), hino IX, no texto alterado da coletânea transcrita por Fletcher; as notas dele apontam as principais diferenças.]
Levantem as mãos cansadas (Hb 12.12): o nosso Arão, o nosso Sumo Sacerdote celestial, está perto para sustentá-las (cf. Êx 17.12). Os amalequitas espirituais não prevalecerão sempre: o nosso Samuel, o nosso profeta celestial, está pronto para despedaçar a eles e ao seu rei diante do Senhor (cf. 1Sm 15.33). A promessa é para vocês (At 2.39). Vocês são certamente chamados a alcançar a perfeição da sua dispensação, embora ainda pareçam estar longe. Cristo, em quem essa perfeição tem o seu centro, Cristo, de quem ela flui, está muito perto, às portas (cf. Mt 24.33). Eis, diz ele [e o disse a retardatários laodicenses], que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele (Ap 3.20), dos frutos da minha graça, na perfeição cristã deles; e ele ceará comigo, dos frutos da minha glória, na sua maturidade angélica e celestial.
Ouçam este evangelho encorajador: “Peçam e lhes será dado; busquem e acharão; batam, e a porta será aberta para vocês. Pois todo o que pede recebe; o que busca encontra; e, a quem bate, a porta será aberta (Mt 7.7-8). Se algum de vocês [crentes] necessita de sabedoria, de uma sabedoria que habite nele [Cristo, a sabedoria e o poder de Deus (cf. 1Co 1.24), habitando no seu coração pela fé (cf. Ef 3.17)], peça a Deus, que a todos dá com generosidade e sem reprovações, e ela lhe será concedida. Peça-a, porém, [como crente] com fé, em nada duvidando, pois o que duvida é semelhante à onda do mar, impelida e agitada pelo vento. Que uma pessoa dessas não pense que alcançará aquilo que [assim] pede (Tg 1.5-7). Mas tudo o que pedirem em oração, creiam que já o receberam, e assim será com vocês (Mc 11.24). Pois tudo [o que foi ordenado e prometido] é possível ao que crê (Mc 9.23). Aquele que nos ordenou ser perfeitos no amor, como é perfeito o nosso Pai, que está no céu (cf. Mt 5.48), e que prometeu fazer depressa justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam dia e noite (cf. Lc 18.7-8), há de fazer-lhes justiça depressa contra o seu grande adversário, o pecado que habita em vocês. Ele lhes dirá: Que se faça com você conforme a sua fé (cf. Mt 9.29); pois ele é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo o que pedimos ou pensamos (Ef 3.20); e da sua plenitude todos nós podemos receber graça sobre graça (cf. Jo 1.16). Todos podemos experimentar o cumprimento gracioso de todas as promessas que ele graciosamente fez, para que por elas nos tornemos coparticipantes da natureza divina (cf. 2Pe 1.4), tanto quanto ela pode ser comunicada aos mortais neste mundo. Vocês veem que, para os seres humanos, o que vocês esperam é impossível; mas mostrem-se crentes, ponham Deus na conta, e logo experimentarão que para Deus tudo é possível (Mt 19.26). E não se esqueçam do Advogado onipotente que vocês têm junto a ele (cf. 1Jo 2.1). Vejam! Ele levanta as mãos outrora traspassadas e diz: Pai, santifica-os na tua verdade [cheia de amor], a fim de que sejam aperfeiçoados no amor (cf. Jo 17.17, 23). E, mostrando-lhes a fonte do sangue expiatório e da água purificadora, de onde correm as correntes que purificam e alegram o coração dos crentes, ele diz: Até agora vocês não pediram nada em meu nome (Jo 16.24). Se pedirem ao Pai alguma coisa em meu nome, ele lhes concederá (Jo 16.23). Peçam, pois, para que a alegria de vocês seja completa (cf. Jo 16.24). Se eu provo a fé de vocês com uma pequena demora, se escondo de vocês a minha face por um momento, é só para os acolher com misericórdia eterna (cf. Is 54.7-8). A mulher, quando está para dar à luz, fica triste, porque chegou a sua hora; mas, depois de nascida a criança, já não se lembra da aflição, pela alegria. Assim também agora vocês estão tristes. Mas eu os verei outra vez, e o coração de vocês ficará cheio de alegria, e ninguém poderá tirar essa alegria de vocês (Jo 16.21-22). Naquele dia vocês não me perguntarão nada (Jo 16.23), pois não terão a minha presença corporal. Mas o meu Urim e Tumim estará com vocês; e o próprio Espírito da verdade os guiará em toda a verdade [cristã] (Jo 16.13).”
| Original | Tradução |
|---|---|
| O for a firm and lasting faith, | Ó, quem nos dera uma fé firme e duradoura, |
| To credit all the Almighty saith, | para crer em tudo o que o Todo-Poderoso diz, |
| To embrace the Promise of his Son, | para abraçar a Promessa do seu Filho |
| And feel the Comforter our own. | e sentir que o Consolador é nosso! |
Enquanto isso, não tenham medo de dar glória a Deus, crendo, esperando contra a esperança (cf. Rm 4.18). Não duvidem, por incredulidade, da promessa [do Pai e do Filho] (cf. Rm 4.20); mas confiem no poder e na fidelidade do seu Criador e Redentor, até que o seu Santificador tenha fixado morada no coração de vocês. Esperem à porta da misericórdia, como o mendigo coxo esperava à porta do templo chamada Formosa. Pedro, fitando-o, juntamente com João, disse: Olhe para nós! Ele os olhava atentamente, esperando receber alguma coisa (At 3.4-5). Façam o mesmo: olhem atentamente para o Pai no Filho, que diz: Voltem-se para mim e sejam salvos (Is 45.22). Esperem receber a única coisa agora necessária para vocês (cf. Lc 10.42), a plenitude do Espírito santificador. E, embora a paciência de vocês possa ser provada, ela não será frustrada. A fé e o poder que [à palavra de Pedro] deram ao pobre aleijado saúde perfeita na presença de todos os judeus admirados (cf. At 3.16) darão a vocês [à palavra de Cristo] perfeita saúde do coração, na presença de todos os seus adversários.
| Original | Tradução |
|---|---|
| “Faith, mighty faith, the promise sees, | “A fé, a fé poderosa, vê a promessa, |
| And looks to that alone, | e olha só para ela, |
| Laughs at impossibilities, | ri-se das impossibilidades, |
| And cries, “It shall be done.” | e clama: ‘Há de cumprir-se.’ |
[N. do T.: Charles Wesley, Hinos e Poemas Sagrados (1742), hino sobre Rm 4.16, estrofe 14.]
| Original | Tradução |
|---|---|
| “Faith asks impossibilities: | A fé pede impossibilidades, |
| Impossibilities are given: | e impossibilidades são concedidas; |
| And I, even I, from sin shall cease, | e eu, sim eu, cessarei do pecado, |
| Shall live on earth the life of heaven.” | viverei na terra a vida do céu.” |
[N. do T.: Charles Wesley, Hinos e Poemas Sagrados (1749), vol. 2, Hinos para os que Aguardam a Plena Redenção, hino XVI, estrofe 2 (os quatro primeiros versos).]
A fé sempre atua pelo amor (cf. Gl 5.6), ao menos pelo amor de desejo, que nos faz orar ardentemente por aquilo que cremos ser eminentemente desejável. E, se a perfeição cristã assim lhes parece, vocês talvez possam exprimir o seu ardente desejo dela com palavras como estas: “Até quando, Senhor, a minha alma, o teu templo espiritual, será um covil de salteadores (cf. Mt 21.13) ou uma casa de negócio (cf. Jo 2.16)? Até quando os pensamentos vãos a profanarão, como os que compravam e vendiam profanaram o teu templo feito por mãos humanas? Até quando as más disposições se alojarão dentro de mim (cf. Jr 4.14)? Até quando a incredulidade, o formalismo, a hipocrisia, a inveja, a ânsia pelos prazeres sensuais, a indiferença às delícias espirituais e a relutância diante do dever penoso ou humilhante encontrarão abrigo ali? Até quando essas ovelhas e pombas, e até esses bodes e serpentes, contaminarão o meu peito, que deveria ser puro como o Santo dos Santos? Até quando me impedirão de ser um dos adoradores que tu procuras, um daqueles que te adoram em espírito e em verdade (cf. Jo 4.23)? Ó, ajuda-me a tirar daqui essas gaiolas de aves imundas. Vem de repente ao teu templo (cf. Ml 3.1). Expulsa tudo o que ofende os olhos da tua pureza e destrói tudo o que me mantém fora do repouso que resta para o teu povo cristão (cf. Hb 4.9): assim guardarei um sábado espiritual, um jubileu cristão para o Deus da minha vida; assim experimentarei a minha parte no óleo de alegria com que unges os cristãos perfeitos acima dos seus irmãos na fé (cf. Sl 45.7). Preciso desse óleo, Senhor: a minha lamparina arde fraca; às vezes parece até apagada, como a das virgens imprudentes (cf. Mt 25.8); parece-se mais com um pavio que fumega (Is 42.3) do que com a lâmpada que está acesa e ilumina (Jo 5.35). Ó, não o apagues; aviva-o até que se torne chama. Tu sabes que eu creio em ti. A mão trêmula da minha fé se agarra a ti; e, embora eu tenha entristecido dez mil vezes o teu amor perdoador, o teu braço eterno ainda está por baixo de mim (cf. Dt 33.27), para redimir da cova a minha vida, enquanto a tua mão direita está sobre mim, para me coroar de graça e misericórdia (cf. Sl 103.4). Mas, ai de mim! Não sou suficientemente grato pelas tuas misericórdias presentes, nem tenho suficiente sede dos teus favores futuros. Por isso sinto um vazio doloroso na alma, consciente de que não alcancei as alturas da graça descritas na tua palavra e desfrutadas pelos teus servos mais santos. As suas profundas experiências, a diligência e o ardor com que faziam a tua vontade, a paciência e a fortaleza com que suportavam a cruz, repreendem-me e me convencem das minhas muitas necessidades. Preciso do poder do alto (cf. Lc 24.49); preciso da unção penetrante e duradoura do Santo (cf. 1Jo 2.20); preciso ter a minha vasilha [o meu coração espaçoso] cheia do óleo (cf. Mt 25.4) que alegra o semblante das virgens prudentes; preciso de uma lâmpada de iluminação celestial e de um fogo de amor divino que ardam dia e noite no meu peito, como ardiam no templo as lâmpadas que serviam de figura e, sobre o altar, o fogo sagrado (cf. Lv 6.13); preciso da plena aplicação do sangue que purifica de todo pecado (cf. 1Jo 1.7) e de uma fé forte na tua palavra santificadora, uma fé pela qual habites no meu coração (cf. Ef 3.17) como a esperança inabalável da glória (cf. Cl 1.27) e o objeto fixo do meu amor; preciso do Oráculo interior, o teu suave sussurro (cf. 1Rs 19.12), com o Urim e o 5 Tumim, o novo nome, o qual ninguém conhece, exceto aquele que o recebe (Ap 2.17). Numa palavra, Senhor, preciso da plenitude do teu Espírito, da plena promessa do Pai (cf. Lc 24.49) e dos rios que fluem do íntimo dos crentes (cf. Jo 7.38) que avançaram para a perfeição (cf. Hb 6.1) da sua dispensação. Creio, sim, que tu podes e que hás de assim me batizar com o Espírito Santo e com fogo (cf. Mt 3.11); ajuda-me na minha falta de fé (cf. Mc 9.24); confirma e aumenta a minha fé no que diz respeito a este importante batismo. Senhor, eu preciso ser assim batizado por ti (cf. Mt 3.14), e me angustio até que este batismo se cumpra (cf. Lc 12.50). Pelos teus batismos, de lágrimas na manjedoura, de água no Jordão, de suor no Getsêmani, de sangue e fogo, de vapor de fumaça (cf. Jl 2.30) e de ira flamejante no Calvário, batiza, ó, batiza a minha alma, e põe um fim tão completo ao pecado original que tenho de Adão quanto o teu último batismo pôs à semelhança de carne pecaminosa (cf. Rm 8.3) que tinhas de uma filha de Eva. Alguns do teu povo olham para a morte, esperando dela a plena salvação do pecado; mas, por ordem tua, Senhor, eu olho para ti. Dize à minha alma: Eu sou a sua salvação (Sl 35.3); e faze-me sentir no coração, assim como vejo com o entendimento, que podes salvar totalmente do pecado todos os que por ti se aproximam de Deus (cf. Hb 7.25). Estou cansado de formas, de profissões de fé e de noções ortodoxas, na medida em que não são canos ou canais que levem vida, luz e amor ao meu coração morto, escuro e de pedra. Nem a simples letra do teu evangelho, nem as doces antecipações e as iluminações passageiras do teu Espírito podem satisfazer os amplos desejos da minha fé. Dá-me o teu Espírito, para que permaneça em mim e derrame continuamente o teu amor na minha alma (cf. Rm 5.5). Vem, ó Senhor, com esse bendito Espírito; vem tu, e o teu Pai, nesse santo Consolador; vinde fazer em mim a vossa morada (cf. Jo 14.23); do contrário, irei mansamente chorando para a sepultura. Bendito choro! Senhor, aumenta-o. Prefiro esperar em lágrimas pela tua plenitude a desperdiçar levianamente os pedaços das tuas dádivas espirituais ou alimentar-me, com contentamento laodicense, do maná estragado das minhas experiências passadas (cf. Êx 16.20). Pai justo, tenho fome e sede da tua justiça (cf. Mt 5.6); envia o teu Santo Espírito da promessa (cf. Ef 1.13) para me saciar dela, para me santificar em tudo (cf. 1Ts 5.23) e para me selar no centro do meu ser para o dia da redenção eterna (cf. Ef 4.30) e da salvação consumada. Não por obras de justiça praticadas por mim, mas segundo a tua misericórdia, por amor de Cristo, salva-me mediante o lavar regenerador completo e a plena renovação do Espírito Santo (cf. Tt 3.5). E, para isso, derrama do teu Espírito (cf. Jl 2.28); derrama-o ricamente sobre mim (cf. Tt 3.6), até que a fonte de água viva jorre abundantemente na minha alma (cf. Jo 4.14), e eu possa dizer, no pleno sentido das palavras, que tu vives em mim (cf. Gl 2.20), que a minha vida está oculta contigo em Deus (cf. Cl 3.3) e que o meu espírito voltou àquele que o deu (cf. Ec 12.7): a ti, o Primeiro e o Último (Ap 22.13), meu Autor e meu Fim, meu Deus e meu Tudo!”
1. O sr. Wesley diz segundo descanso, porque o crente imperfeito goza de um primeiro descanso, inferior; se não gozasse, não seria crente.
2. Não é forte demais esta expressão? Não seria melhor suavizá-la, como fez o sr. Hill, dizendo: “Tira o amor ao” [ou a inclinação para o] “pecar”? Pode Deus tirar de nós o nosso poder de pecar sem tirar o nosso poder de obedecer livremente?
3. O sr. Wesley diz amor perfeito, com são João.
4. O sr. Wesley diz, de fato, puros e sem pecado; mas, quando o sr. Hill canta “puros, imaculados”, não estraga o sentido. Pois todo mundo sabe que o puro e imaculado Jesus não difere do Cordeiro de Deus sem pecado e sem mácula. Este belo hino [creio eu] não está na coletânea do sr. Madan, mas ele provavelmente o cantou mais de uma vez. De todo modo, foi adotado na Coletânea de Shrewsbury, da qual o sr. Hill é o editor, juntamente com o sr. De Courcy. Não é surpreendente que esse senhor, no seu fervor devocional, imprima, anuncie e cante os hinos mais fortes do sr. Wesley a favor da perfeição cristã, quando, no calor da controvérsia, escreve com tanta severidade contra esse bendito estado do coração? E não posso despedir-me dele com uma alusão às palavras do nosso Senhor: Pela sua própria boca, pela sua própria pena, pelas suas próprias publicações, pelos seus próprios hinos, pelas suas próprias orações, pela sua própria Bíblia, pela sua própria razão, pela sua própria consciência e [o que é mais espantoso] pela sua própria profissão de fé e pelo seu voto batismal eu julgarei os seus enganos (cf. Lc 19.22)? Peço, no entanto, ao leitor que os atribua, como eu os atribuo, não a algum amor ao pecado que habita em nós, mas ao erro fatal que faz o meu piedoso oponente dar as costas às genuínas doutrinas da graça e da justiça e abraçar as espúrias doutrinas da graça calvinista e da ira livre.
5. Duas palavras hebraicas que significam luzes e perfeições.
Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Last Check to Antinomianism. A Polemical Essay on the Twin Doctrines of Christian Imperfection and a Death Purgatory, 4ª edição, Londres, 1792 (exemplar digitalizado no Internet Archive), conferida com a edição das Obras de Fletcher publicada em Nova York; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.