William Arthur · A Língua de Fogo · Capítulo VIII (continuação)

Os verdadeiros ministros de Cristo

Quem são os verdadeiros ministros de Cristo e o que os distingue.

VI. Os verdadeiros ministros de Cristo

Depois da questão de saber se os privilégios do cristão moderno, quanto à graça, devem ser iguais aos do cristão primitivo, vem a questão de saber se o ministério cristão é hoje essencialmente a mesma instituição que era no princípio. Se os crentes hoje não são os mesmos de antes, é impossível que a mesma religião se conserve no mundo; e, se os ministros não forem os mesmos, é muito improvável que os membros comuns da igreja o sejam. Poucos sustentariam que o nosso Senhor fundou o seu ministério sobre uma base instável, que exigisse mudanças essenciais para torná-lo capaz de se perpetuar em qualquer época ou país aonde o cristianismo chegasse; e todos admitiriam a alta probabilidade de que os princípios sobre os quais ele o estabeleceu eram os mais adequados ao seu êxito diante de toda mudança futura de circunstâncias.

Quando olhamos para o exemplo do Novo Testamento, para o seu espírito, os seus costumes e os seus princípios, é evidente demais para precisar mais do que ser afirmado que a unção do Espírito Santo era a única coisa essencial no ministro do evangelho. Assim como dissemos antes que uma religião sem o Espírito Santo não seria cristianismo, e que religiosos sem o Espírito Santo não seriam cristãos, podemos dizer com força que mestres sem o Espírito Santo não seriam ministros cristãos, segundo o sentido original desse termo, o único sentido em que o encontramos empregado nos escritos sagrados. Toda disposição relativa à formação ou aos trabalhos dos ministros cristãos que não parta do princípio de que eles devem ser, com certeza, homens primeiro regenerados, depois dotados para o ministério e movidos a ele pela operação do Espírito Santo (uma operação que não se deve presumir sem prova, mas que deve ser provada pelos seus frutos), há de ser tão falha na teoria e tão ineficaz na prática quanto qualquer disposição para o uso de armas de fogo que não partisse do princípio de que a explosão é a fonte da força. O arco era uma arma poderosa, e a sua combinação de aço e madeira, de corda e braço, da força do vegetal, do mineral e do animal, merecia a admiração e a confiança de muitos exércitos; e, como todas as suas forças eram mecânicas, nunca foi preciso levantar nenhuma questão que não estivesse nos limites da investigação mecânica. Mas, no momento em que se adota a pólvora como propulsor, a elasticidade do teixo ou a força do músculo são considerações fora de lugar. Deixou-se a mecânica e passou-se a depender da química; e todos os cálculos têm de partir do princípio de que basta fornecer um instrumento que coopere com um agente explosivo. O ministério do Novo Testamento não repousa na força mental, emocional ou educacional, mas, usando cada uma delas conforme a ocasião pedir, encontra o seu poder próprio numa influência espiritual; e todo raciocínio aplicado a ele que não se fundamente nesse fato é raciocinar sobre o fuzil com princípios que pertencem ao arco.

Os dons miraculosos concedidos a muitos na igreja primitiva são cuidadosamente classificados e marcados pela mão do apóstolo como inferiores àqueles dons que serviam para “edificação, exortação e consolação” (1Co 14.3). “A uns Deus estabeleceu na igreja, primeiramente, apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres; depois, operadores de milagres; depois, os que têm dons de curar, ou de ajudar, ou de administrar, ou de falar em variedade de línguas” (1Co 12.28). Aqui, operar milagres, curar e falar em diversas línguas são postos como dons inferiores àqueles pelos quais os homens são constituídos mestres ou profetas. Observa-se um propósito semelhante em Efésios 4.11: “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres.” Aqui não encontramos nenhum dom miraculoso sequer mencionado como parte da instituição de Cristo. “Com vistas ao aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para a edificação do corpo de Cristo” (Ef 4.12) [N. do T.: Arthur segue a King James, “for the work of the ministry”; a NAA traz “para o desempenho do seu serviço”]: para isto, o verdadeiro fim do ministério, os efeitos produzidos pelos dons miraculosos eram apenas auxiliares. É verdade que os apóstolos, profetas e evangelistas, como também os pastores e mestres, possuíam e muitas vezes exerciam dons miraculosos; mas não era por meio deles que realizavam “o aperfeiçoamento dos santos, a obra do ministério ou a edificação do corpo de Cristo”. O ponto essencial a respeito de todo aquele que é proposto para o ofício sagrado é verificar se ele é ou não “um homem enviado por Deus” (Jo 1.6).

Assim como o dom do próprio Espírito é apresentado como consequência da ascensão do nosso Senhor, assim também, na passagem de Efésios a que acabamos de aludir, a instituição do ministério é apresentada como fruto da sua ascensão triunfante. “Quando ele subiu às alturas, levou cativo o cativeiro e concedeu dons aos homens” (Ef 4.8); e “ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas” etc. (Ef 4.11). Esses eram os dons que ele, do seu trono de mediação, concedeu à sua igreja: homens revestidos de poder pelo seu Espírito e também movidos pelo mesmo Espírito a gastar a vida na obra do ministério para a edificação do corpo de Cristo. Quer tomemos os profetas sob a antiga dispensação, quer os mensageiros do Senhor sob a nova, verificamos que as características distintivas de um verdadeiro ministro de Deus estavam num chamado e numa habilitação. A habilitação envolvia um dom, um poder e uma formação. Aquele que tinha um chamado de Deus, um dom de Deus e um poder de Deus, e somente ele, foi alguma vez profeta, evangelista ou pastor e mestre em qualquer sentido bíblico. A formação variava conforme a época, a dispensação e as circunstâncias; mas nenhuma formação jamais fez, nem jamais poderá fazer, ministro aquele que não tem chamado, nem dons, nem poder enviado sobre a sua alma pela unção do Espírito eterno.

O chamado pressupunha a graça, ou a habilitação moral, e implicava um dom, ou o que se pode chamar de habilitação mental; pois chamar sem conceder um dom seria levar à batalha um soldado desarmado; e chamar e dotar um homem não regenerado seria comissionar e armar um rebelde. Estas duas coisas, portanto, chamado e habilitação, jamais podem ser vistas como separáveis. “O amor de Cristo nos domina” (2Co 5.14) é a linguagem com que o apóstolo exprime o que é essencial na operação interior de um chamado de Deus para gastar e se deixar gastar pela salvação dos homens; e aquele que, assim dominado pelo amor de Cristo, se descobre possuidor de um dom para falar para edificação, exortação ou consolação tem, nesse impulso e nessa faculdade, forte evidência de que o Senhor o está chamando para a sua vinha. O que ele sente não é um mero desejo de entrar no ministério como num ofício bom e útil, ou de passar a vida numa vocação honrosa e feliz; mas é um movimento constrangedor do amor de Cristo, como se saísse do coração dele para o coração do seu servo e ali produzisse um forte impulso de clamar e trabalhar pela recuperação dos filhos perdidos de Adão para o favor do seu Deus e o descanso do céu. Mas, por mais forte que seja esse desejo, se não vier acompanhado de um dom para o ensino público, isso por si só prova que o Senhor não destinou a operação do seu amor a impelir esse indivíduo em particular aos trabalhos públicos do ministério, mas a outros esforços com o mesmo fim. Aquele a quem Deus envia a qualquer obra, ele o habilita para essa obra.

Uma pessoa que sente um verdadeiro impulso de trabalhar para Cristo, e que avalia mal o seu próprio dom, pode julgar-se chamada ao ministério quando está longe de estar habilitada para ele; e, neste ponto, o ônus do julgamento não pode ser posto propriamente sobre ela, mas deve recair sobre a igreja. Ela, e somente ela, pode julgar o motivo interior da sua alma, se o seu coração é ou não movido pelo Espírito Santo a assumir essa obra; e o fato de que a responsabilidade de declarar que se crê assim movido é posta sobre o candidato ao ministério pela maioria das igrejas, se não por todas, é um testemunho público e solene de que a operação do Espírito Santo no coração é reconhecida como continuando a ser a única base da habilitação para o ministério do evangelho. Somente a própria pessoa pode dizer o que se passou entre a alma e o seu Salvador. Nenhum estranho participa da questão de saber se o Espírito, por santos impulsos, moveu ou não alguém a consagrar a vida à obra exclusiva de edificar e multiplicar o rebanho de Cristo. Se alguém vem oferecer a mão à igreja para esse alto serviço, cabe à sua própria alma dizer se é guiado por um impulso do alto ou por motivos profissionais comuns.

A igreja, no entanto, tem a sua responsabilidade; e, antes de selar as credenciais de alguém, está obrigada a verificar se o próprio Senhor o selou com os dons do seu Espírito Santo. Assim como sobre o indivíduo recai a responsabilidade de fazer ou não uma profissão solene de que é interiormente movido pelo Espírito Santo, assim também sobre a igreja recai a responsabilidade de ver se ele tem todas as marcas que confirmam tal chamado. Essas marcas são graça, dons, fruto. A sua vida inteira testemunha que ele sentiu o arrependimento ao qual há de chamar os pecadores, exerceu a fé à qual há de animar os penitentes e experimentou, em algum grau, aquela santificação à qual há de conduzir os crentes? Se a evidência disso não for clara, a igreja comete um pecado grave ao credenciá-lo diante do mundo como alguém habilitado a ir “advertindo a todos e ensinando a cada um, a fim de que apresentemos cada pessoa perfeita” (Cl 1.28). Nenhuma circunstância de tempo, época, nação ou do que quer que seja pode autorizar igreja alguma a dispensar a habilitação essencial de que aquele que há de ser ministro de Deus seja primeiro filho de Deus. Quaisquer credenciais dadas sem plena prova disso são presunçosas e nulas. Quando o nosso Senhor estava para restituir ao seu amado discípulo Pedro a comissão que a sua queda parecia ter feito perder, faz-lhe a pergunta: “Você me ama?” (Jo 21.15-17), e a repete três vezes, sondando-o até a alma; e, com base em que ele de fato o ama, confia-lhe de novo a comissão: “Apascente as minhas ovelhas” (Jo 21.17). Nenhum homem cujo verdadeiro amor ao Salvador seja duvidoso, que não possa apelar àquele que sabe todas as coisas como testemunha de que de fato o ama, tem a habilitação para uma comissão que é a mais indispensável de todas: a lealdade ao Rei.

“Isso mesmo transmita a homens fiéis” (2Tm 2.2). “Quem é, pois, o mordomo fiel e prudente, a quem o senhor deixará encarregado dos demais servos da casa, para lhes dar o sustento no devido tempo?” (Lc 12.42) Em ambas as passagens, como em toda a palavra de Deus, a habilitação espiritual é posta como consideração anterior à dos dons: antes de tudo, “fiéis”; mas não meramente “fiéis”: “isso mesmo transmita a homens fiéis, idôneos para instruir a outros” (2Tm 2.2). O mordomo deve ser não apenas “fiel”, mas “prudente”, capaz de distribuir a cada um no devido tempo. Quem não é apto para ensinar jamais deveria ser comissionado como mestre. Os dons do Espírito são variados. “A um é dada a palavra da sabedoria; a outro, a palavra do conhecimento; a outro, profecia” (1Co 12.8-10). Quanto aos servos do Senhor Cristo, segundo o dom de cada um, assim seja a sua esfera. “Se é profecia, seja segundo a proporção da fé”; se é ensino, “o que ensina dedique-se ao ensino; o que exorta faça-o com dedicação” (Rm 12.6-8).

Portanto, quando alguém se apresenta para se oferecer como trabalhador na vinha do Senhor, antes que possa ser designado com acerto para qualquer esfera, a questão do seu caráter espiritual deve ser decidida favoravelmente, e então a sua esfera deve ser determinada pelos seus dons. Quais dos vários dons do Espírito Santo lhe foram conferidos? Se nenhum deles, quem ousa dizer que ele há de ser ministro de Deus e mestre das almas humanas? Certamente não é a igreja de Cristo que vai impor as mãos sobre um homem de quem ninguém sabe se tem algum dom de Deus, um homem cuja voz nunca se levantou em exortação, ensino, pregação ou oração pública, que não deu mais evidência de dons e de aptidão do que mil outros que não têm nenhuma pretensão de ser aptos; e que vai pôr alguém assim à frente de centenas de cristãos professos como seu mestre e pastor, como o dirigente da sua devoção e o único instrutor das suas almas.

É uma inversão manifesta da ordem cristã tomar a comissão da igreja como a autorização para começar o exercício dos dons espirituais. No Novo Testamento, a única garantia da igreja para conceder a sua comissão é a posse reconhecida de tais dons; e isso só pode ser provado pelo exercício anterior deles. A obra da igreja não era criar dons, mas escolher, dentre os irmãos dotados, aqueles que o Senhor, por sua própria vontade e ação, já havia preparado para ofícios especiais. A ordenação da igreja para o ministério não era a primeira autorização de um cristão para pregar a Cristo; para isso, a oportunidade e a capacidade eram autorização suficiente; mas a eminência e a utilidade especiais de alguns dentre o grupo dos pregadores eram a garantia da igreja para separá-los para a obra exclusiva do ministério. Se se entender que uma comissão da igreja supre o lugar, seja do chamado constrangedor do Espírito, seja do seu dom que habilita, o ofício dele na perpetuação do ministério fica posto de lado. Para fazer isso com eficácia, não é necessário apagar dos credos as expressões da crença correta; basta adotar na prática regulamentos tais que permitam a homens sem graça ou sem dons, mediante as preparações profissionais comuns, obter uma comissão e apresentar-se como despenseiros credenciados dos mistérios de Deus.

A operação do Espírito na preparação do ministro para a obra de Deus aparece no Antigo Testamento ligada não ao ofício sacerdotal, mas ao do profeta. Aquele era um ofício típico e temporário, que existia apenas como precursor e figura do grande Sumo Sacerdote e que terminou de uma vez para sempre quando aquele a quem prefigurava fez a sua oferta e entrou além do véu. A obra do sacerdote não era ensinar, edificar, advertir e prevenir, mas ser o meio de acesso à presença de Deus no seu propiciatório. Como tal, ele não tem sucessor terreno no cristianismo: o seu ofício, repetimos, terminou para sempre com a expiação e a ascensão do nosso Senhor. Veio então uma mudança de sacerdócio, cedendo o de Levi lugar ao de Melquisedeque, que não foi confiado a uma sucessão de homens mutáveis, mas inteiramente ao Imutável, cujo sacrifício jamais precisaria ser repetido, cujos anos jamais teriam fim e cuja ternura infinita sentiria cada fraqueza de cada suplicante.

O ofício do profeta era advertir, repreender, censurar e exortar, bem como predizer. Esse ofício não se repete em todos os seus traços no “pastor e mestre” (Ef 4.11) cristão, mas no essencial, sim. Predizer é a única função em que os dois diferem; e esse era apropriadamente o dom de uma época em que a revelação estava incompleta e todas as esperanças dos crentes se voltavam para uma luz ainda não nascida. Na verdade, talvez valha a pena considerar se a perpetuação do dom de predizer não suporia uma revelação incompleta, e se o fechamento do cânon da verdade revelada não traz naturalmente consigo o fim daquele dom maravilhoso pelo qual, de época em época, se faziam acréscimos às reservas anteriores da verdade. Quando São Paulo nos insta a desejar, e mesmo a buscar, o “dom espiritual” (1Co 14.1) da profecia, e apresenta o motivo que deveria levar-nos a desejá-lo acima de todos os outros dons, não tem em vista, nem põe diante dos nossos olhos, a honra ou o proveito de predizer. Os únicos motivos que indica são estes: “o que profetiza fala para as pessoas, edificando, exortando e consolando” (1Co 14.3). “Eu quero que vocês todos falem em línguas, mas muito mais que profetizem. Pois quem profetiza é superior ao que fala em línguas, a não ser que as interprete, para que a igreja receba edificação. Porém, se todos profetizarem, e entrar ali um não crente ou não instruído, ele será convencido por todos e julgado por todos. Os segredos que ele tem no coração se tornarão manifestos, e, assim, prostrando-se com o rosto em terra, adorará a Deus, testemunhando que Deus está, de fato, no meio de vocês” (1Co 14.5, 24-25). Assim, nas passagens em que o apóstolo mais fala do dom cristão de profecia, ele não faz nenhuma alusão a predizer; e em Atos dos Apóstolos lemos que “Judas e Silas, que eram também profetas, consolaram os irmãos com muitos conselhos e os fortaleceram” (At 15.32). Não temos registro, em parte alguma, de Silas predizendo, nem há aqui a menor alusão ao exercício de tal dom; contudo, a exortação dele e a de Judas, com os seus argumentos ou apelos que fortaleciam, são imediatamente registradas como exercício do dom profético. O ofício mais alto do Espírito no profeta da antiga dispensação era capacitá-lo a ver e a retratar “os sofrimentos que Cristo teria de suportar e as glórias que viriam depois” (1Pe 1.11), como se estivessem diante dos seus olhos; e o ofício mais alto do mesmo Espírito no ministro de Deus, em nossos dias, é capacitá-lo a divisar, com um olho interior, as glórias e a graça de um Senhor que ele nunca viu, e a discorrer sobre elas como se os seus olhos o contemplassem e os seus ouvidos vibrassem com a sua voz. A mesma luz espiritual que tornava presente a Isaías um Redentor futuro é necessária para tornar presente ao pregador cristão um Redentor passado. Sem ela, um poderia ter uma expectativa e o outro uma crença; mas nenhum dos dois poderia arder e derreter-se como na presença de um Príncipe da Paz vivo, amoroso e redentor. O espírito de profecia iluminava o futuro para um e ilumina o passado para o outro: dava ao que era promessa a força de coisa feita, e dá ao que é registro a força de coisa que se está fazendo agora. A diferença, dentro da alma de um homem, entre meramente acalentar uma expectativa ou uma crença e ver, sentir, vibrar sob a impressão de um Amigo e Libertador presente produz na sua fala a diferença entre uma declaração mansa, que não perturba nem o preconceito nem a indiferença, e uma força avassaladora de palavra que arrebata o coração dos homens. O dom pelo qual o Espírito capacitava os servos de Cristo a falar como oráculos de Deus a respeito do Mestre a quem, “mesmo sem tê-lo visto, amavam” (1Pe 1.8) estava tão longe de ser considerado essencialmente diferente daquele com que ele havia revestido os profetas antigos que o mesmo nome lhe é aplicado livremente, mesmo quando, como vimos, a ideia de predizer não está incluída.

Por mais decisiva que fosse a evidência de que alguém era filho de Deus e tinha um dom, outro elemento é sempre mantido em vista como atestado de que ele é verdadeiramente comissionado pelo Pai: o poder e a unção do Santo, infundidos em toda a sua pregação e dando-lhe um efeito moral que a fala comum, por mais sábia que fosse, jamais teria. “Não somente em palavra”, por mais verdadeira e bíblica que fosse essa palavra, “mas também em poder, no Espírito Santo e em plena convicção” (1Ts 1.5). “O Reino de Deus consiste não em palavra, mas em poder” (1Co 4.20). “A palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, ela é poder de Deus” (1Co 1.18). “A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a fé que vocês têm não se apoiasse em sabedoria humana, mas no poder de Deus” (1Co 2.4-5). Aqui vemos o mais altamente dotado dos apóstolos reconhecendo claramente o fato de que o seu êxito como embaixador junto a homens pecadores não estava na perfeição das suas percepções intelectuais, nem no modo como apresentava a verdade à visão intelectual dos que ouviam, mas num elemento espiritual da sua pregação, tão distinto das características intelectuais dela quanto estas o eram da sua elocução física, e tão necessário, além da apresentação intelectual da verdade, quanto esta o era além de uma torrente de palavras. Sem uma apresentação intelectual clara da verdade, nenhum fluxo de palavras conseguiria convencer ou esclarecer. Sem o poder espiritual, nenhuma exposição ou argumento conseguiria despertar ou regenerar. A obra de Paulo não era nada menos que a comissão de “convertê-los das trevas para a luz e do poder de Satanás para Deus, a fim de que eles recebam remissão de pecados e herança entre os que são santificados” (At 26.18); e ele sabia que isso jamais poderia ser realizado senão “em poder e no Espírito Santo” (1Ts 1.5), operando em toda verdade que ele proferisse e por meio dela, como portador da grande mensagem de Deus.

Sem esse chamado de Deus, esse dom de Deus e esse poder de Deus, ninguém pode ser reconhecido, no sentido bíblico, como embaixador de Deus. Dispensar qualquer um desses elementos essenciais na habilitação de um ministro é introduzir uma mudança radical na própria instituição do ministério e estabelecê-lo sobre uma base para a qual não há precedente bíblico. Garantidos esses elementos essenciais, a formação varia conforme as circunstâncias. No caso dos apóstolos e dos setenta, depois que o nosso Senhor os chamou, com a promessa de que os faria pescadores de homens, ele os manteve perto de si, instruindo-os continuamente nos oráculos de Deus, dando-lhes o mais alto exemplo de ensino e de vida santa; e continuou essa formação por três anos. Depois do chamado de São Paulo, vemos que se passaram três anos antes que ele subisse a Jerusalém, tempo que passara na Arábia e em Damasco, de que maneira não nos é dito, mas provavelmente no estudo das Escrituras Sagradas, o que o levou a um conhecimento mais pleno da revelação de Deus em Cristo. É certo, porém, que ele também exercia os seus dons, pois já em Damasco, logo depois da sua conversão, começou a pregar. A formação de Apolo consistiu primeiro na luz que recebeu como discípulo do batismo de João, depois no exercício dos seus dons e, por fim, na instrução adicional de Áquila e Priscila. A formação de Timóteo consistiu no ensino de uma mãe e de uma avó piedosas desde a infância, nos meios comuns de graça, no estudo da palavra de Deus e, depois, na convivência pessoal com o apóstolo Paulo e os seus companheiros de trabalho nas suas viagens e fadigas. Qualquer que fosse a formação especial de que alguns tenham sido favorecidos, o que era essencial na formação era comum a todos: a instrução nas Escrituras Sagradas, o exercício dos seus dons nas assembleias religiosas, fosse da igreja, fosse da sinagoga, e o desenvolvimento gradual desses dons até que a aptidão para o ministério estivesse claramente provada.

Qualquer que fosse o valor que a educação geral tivesse aos olhos do nosso bendito Senhor ou do Espírito que unge, é claro que nem mesmo os apóstolos, no auge e na glória da sua pregação pentecostal, foram dotados de algum poder que encobrisse as peculiaridades provincianas da sua fala ou que os capacitasse a conquistar os refinados com uma pronúncia elegante. Os ouvidos instruídos dos escribas de Jerusalém logo reconheceram, nos operadores de milagres e mestres de uma igreja crescente, “homens iletrados e incultos” (At 4.13). Mas, como observamos antes, a falta de instrução deles dizia respeito apenas a assuntos de educação polida, e não às coisas profundas da palavra de Deus, cujas doutrinas, fatos e promessas eles tinham a comissão de expor ao mundo. A educação geral de Lucas e de Paulo foi adquirida com vista a fins gerais e posta a serviço da igreja pela graça que os converteu.

Chegamos agora à simples pergunta: o chamado, o dom, o poder e a formação do ministro cristão devem continuar até o fim dos tempos, quanto ao essencial, os mesmos da era apostólica? Devemos esperar identidade, nesses pontos, entre o ministério dos nossos dias e o do primeiro século; ou, dispensando isso, devemos contentar-nos simplesmente com uma ligação por linhagem? Perder de vista os precedentes e os elementos essenciais da habilitação ministerial apresentados na Escritura, abrir mão da identidade espiritual do ministério e dar-se por satisfeito com uma ligação por linhagem é um lamentável abandono da esperança da igreja. Se ela não obtiver para o ofício sagrado uma sucessão de homens aptos para ensinar e revestidos do Espírito Santo, não poderá conservar para si, nem transmitir às gerações futuras, o ministério primitivo e apostólico. Ainda que se conservem todos os acessórios do ofício, se os elementos espirituais essenciais do ministro se perderem, a medula e a seiva da antiga árvore se foram, embora a casca e a folhagem possam sobreviver. Cabe à igreja cuidar para que sinais inequívocos de graça, de dons e de frutos assinalem todo candidato ao ofício sagrado como alguém escolhido pelo Senhor; e não aceitar em lugar deles nenhum substituto, seja a própria profissão de fé do candidato, sejam certas qualificações que supostamente substituam as primitivas.

Embora ninguém professe formalmente que o ministério cristão se tornou uma instituição totalmente diferente daquela que Cristo fundou (diferente na habilitação que exige, no modo de investidura e na fonte e no fruto da sua eficácia), tudo isso é pressuposto nos escritos e no pensamento correntes de muitos, e o pressuposto está entranhado na estrutura e nos costumes de diversas igrejas. Em lugar de um chamado de Deus, transmitido pela voz do Espírito Santo no silêncio de um coração crente e manifestado por esforços fervorosos para salvar almas e promover obras santas, confia-se numa comissão formal das autoridades eclesiásticas. Em lugar de um dom de Deus, um dom de palavra sagrada e impressionante, uma “língua de fogo”, põe-se um ritual; em lugar de um poder de Deus, uns põem o intelectualismo, e outros, o decoro.

Estamos muito longe de desprezar essas coisas no seu devido lugar. A comissão é boa e necessária como selo e reconhecimento, por parte da igreja, do chamado do Senhor, mas ridícula e contraditória como substituto dele. A erudição é inestimável quando associada a dons de Deus e os adorna, mas abaixo de digna de pena quando oferecida como substituto do poder de abrir e fazer valer os oráculos divinos. O decoro, o intelectualismo e o ritual têm o seu lugar honroso; mas quando, em vez do poder que penetra a alma, temos apenas a cerimônia que fascina o gosto ou o talento que deleita o intelecto, então caímos da esfera das coisas divinas para a das coisas humanas, rebaixados do “poder de Deus” à “sabedoria humana” (1Co 2.5).

Por essa substituição, diferentes classes têm culpa: as autoridades da igreja, principalmente por encobrirem a falta de um chamado e de um dom de Deus com uma comissão humana; e a multidão dos cristãos professos, principalmente por cobiçarem não tanto o poder espiritual quanto o decoro ou o intelectualismo. Se as primeiras se ativessem à ideia primitiva do ministério, não comissionariam como ministro de Deus um homem que não tivesse dado prova, primeiro, de piedade sincera e, depois, de dons ministeriais, assim como nenhuma junta naval credenciaria como piloto um homem que tivesse estudado navegação e cartas náuticas, mas nunca tivesse navegado pelo canal específico em que lhe seriam confiadas vidas preciosas; ou como nenhuma junta médica daria diploma de cirurgião a um homem que tivesse lido e ouvido preleções, mas nunca tivesse estado num hospital nem tratado de um paciente real. Substituir o dom ministerial pela educação (mesmo quando há graça) é, de fato, pôr de lado a pergunta: este homem foi chamado por Deus? E substituir por ela as evidências da graça (mesmo quando há dons) é igualmente pôr essa pergunta de lado. É verdade que ela ainda pode ser mantida em palavras; mas, se isso é feito e, mesmo assim, sem prova de dons e de graça, um homem é investido no ministério com base na simples evidência da educação, a pergunta é deliberadamente evitada, e o pecado de falsificar a própria instituição de Cristo não é atenuado pela alegação de esquecimento, muito menos de ignorância; antes, com conhecimento e memória do que ela era originalmente, outra coisa, diferente dela nas qualidades primeiras e mais essenciais, é saudada pelo seu nome e investida das suas funções.

Para constituir um cristão, são necessárias três coisas: fé, experiência e prática; para constituir um ministro, quatro: fé, experiência, prática e dons. Sem experiência, o conhecimento ou a crença não podem habilitar um homem a ensinar o arrependimento do coração, a fé do coração e a santidade do coração, assim como o conhecimento livresco, por maior que fosse, não habilitaria um homem a treinar soldados se ele próprio nunca tivesse passado pelo processo da disciplina militar. Sem dons, a educação e a experiência juntas seriam uma habilitação tão insuficiente quanto a de um soldado que tivesse munição e disciplina, mas não armas.

É difícil descrever o mal que se faz quando a igreja encobre a habilitação e a formação essenciais do ministério primitivo exaltando substitutos da ação viva do Espírito Santo, e quando, além disso, põe diante de todos os homens uma profissão com altos prêmios, cuja porta será infalivelmente aberta por certo curso de educação, a menos que eles se desonrem, e assim os atrai a fazer profissões sagradas por motivos seculares. Sobre cada indivíduo que faz tais profissões sem o devido cuidado há de pesar para sempre a culpa de pecar voluntariamente; mas até que ponto a igreja não foi o seu tentador, quando lhe faz propostas sem levar em conta as qualificações que estão claramente estabelecidas na palavra de Deus como as únicas que atestam a aprovação e o chamado divinos?

Pode-se perguntar se devemos esperar que, em todas as épocas, seja levantado um número suficiente de homens com as marcas primitivas de um chamado de Deus e de dons de Deus; e a nossa resposta seria simplesmente: LEMBREM-SE DOS DEZ DIAS. Ali vemos homens cuja comissão viera dos lábios do Senhor Jesus, cuja formação se dera sob os seus próprios olhos, que deixaram casas, terras e tudo o que os pudesse prender a ocupações seculares, que estão prontos para partir na obra de chamar e advertir um mundo que “jaz no Maligno” (1Jo 5.19); e, no entanto, dia após dia pesa sobre eles a proibição: devem permanecer até que sejam revestidos do poder que vem do alto. Ao olharmos para esse espetáculo (pecadores morrendo, o tempo correndo, o Mestre olhando do seu trono, a que acabara de subir, para o mundo que redimiu, vendo a morte levar os seus milhares enquanto os seus servos guardam silêncio), há nesse silêncio um tom que ressoa por todo o futuro, advertindo-nos de que nunca, nunca, sob a dispensação do Espírito, devem os homens partir na embaixada de Cristo, sejam quais forem as suas qualificações ou credenciais, sem que primeiro tenham sido revestidos do poder que vem do alto, batizados com línguas de fogo. Melhor que a igreja espere o tempo que for; melhor que as ordenanças da casa de Deus fiquem sem atores que cumprem uma formalidade, e que todos, sentindo dolorosa necessidade, sejam forçados a clamar com urgência especial por novos derramamentos e batismos do Espírito Santo, para que se levantem ministros santos, do que se forneçam substitutos por qualquer meio de suprimento artificial: substitutos que não são mais ministros de Deus do que carvões arrumados numa grelha são um fogo, ou do que um candelabro de ouro com uma vela de cera que a chama nunca tocou é uma luz. Se era o propósito original do Senhor retirar da igreja a graça ministerial do Espírito e deixá-la aos cuidados de pastores cujas qualificações fossem todas naturais, ou adquiridas por meios naturais, e cuja autoridade derivasse toda de comissão humana, sem nenhuma “manifestação do Espírito” (1Co 12.7), seja em dons, seja em poder moral, então era claramente o seu propósito que a sua religião mudasse de caráter essencialmente depois de estabelecida no mundo. Essa mudança, aliás, não seria no sentido do aperfeiçoamento, mas da degeneração; não por um aumento progressivo da comunicação com o seu rebanho redimido, mas por um aumento progressivo da distância entre o rebanho e ele; não aproximando as coisas terrenas das celestiais, mas afastando-as ainda mais. Implicaria um propósito, da parte dele, de rebaixar a dispensação cristã, quanto à graça ministerial, abaixo até da judaica; pois nesta o espírito profético dava constantemente a manifestação de que havia um Deus em Israel; não apenas de que havia verdade, ordem, sacerdócio, uma igreja, mas um Deus, um Ser vivo, alto, santo e sábio, que habitava no meio do povo e agia ativamente, por meio dos seus servos, para a instrução, a repreensão e a santidade de todos, enviando mensageiro após mensageiro, “muitas e muitas vezes” (Jr 7.25). De fato, implicaria que, enquanto a dispensação do evangelho era a mais favorecida quanto à verdade, seria a menos favorecida quanto aos sinais de um trato real entre o Salvador e o seu povo; pois até os dias dos patriarcas foram iluminados por frequentes manifestações de Deus. Está estabelecido como princípio da nossa dispensação que as manifestações de Deus devem dar-se pela operação e pelos dons do Espírito Santo. É, portanto, cristianismo coerente não esperar nenhuma manifestação sobrenatural senão desse tipo. Mas é cristianismo coerente, ou cristianismo de qualquer espécie, não esperar absolutamente nenhuma dessas manifestações; não contar com dons diretos do alto, com uma operação tão maravilhosa do Espírito por meio da mente e da língua dos mensageiros que obrigasse todos a sentir que os seus dotes não vinham só da natureza, mas eram indício de poder divino?

Se não se alega que o Senhor de fato quis retirar a graça ministerial em toda forma perceptível e prática, sobre que outro fundamento se pode apoiar a noção de que o ministério deve ser suprido por candidatos, exatamente como qualquer outra profissão é suprida? De que tudo o que é necessário é que os pais decidam que os filhos serão ministros, e não soldados ou advogados, e os eduquem; e que então, depois de um exame de conhecimentos gerais e de teologia, o candidato seja investido de um ofício que se declara exercido por comissão de Deus? Sobre que outro fundamento se pode evitar a conclusão de que o primeiro passo para pôr alguém no ministério deveria resultar da prova de que o Espírito Santo o revestiu de disposições pastorais e de dons pastorais, e de que todo passo seguinte na mesma direção deveria ser dado com cuidado, após evidências que confirmem as primeiras?

É fácil dizer que não devemos esperar que casos tão claros ocorram constantemente, e que devemos seguir algum modo definido de preparação. Sim, devemos seguir algum modo definido; mas definido segundo princípios de fé, e não de incredulidade. “Não devemos esperar que casos claros ocorram constantemente.” Segundo que princípios não devemos? Os do Novo Testamento ou os de escritores modernos? Os da igreja da era apostólica ou os de épocas posteriores e degeneradas? Os do cristianismo incorrupto de Cristo ou os de igrejas decaídas? Segundo o princípio de “CREIO NO ESPÍRITO SANTO” ou segundo o princípio de “creio somente na natureza”?

O modo definido de perpetuar o suprimento de ministros deveria repousar sobre o único fundamento da fé cristã, rejeitando toda ideia de desconfiança tão resolutamente quanto um químico rejeitaria toda ideia de inconstância nas afinidades dos elementos; rejeitando toda ideia de substituir a ação do Espírito Santo por outra ação tão decididamente quanto um artilheiro rejeitaria a ideia de ajudar a sua explosão com força mecânica. Se não temos o Espírito para levantar agentes, não podemos conservar viva a igreja de Cristo; se o temos, podemos confiar plenamente que ele fará tudo o que não foi posto na dependência da nossa própria fidelidade. Duvidar do suprimento do calor do verão e pôr-nos a cultivar colheitas em estufas não seria fazer maior violência às leis do reino físico do que é, para as leis do reino espiritual, duvidar do suprimento do Espírito pelo qual se levantam trabalhadores aptos para o campo e pôr-nos a fornecer outros.

Firme na fé, a igreja deveria pôr, logo na entrada do caminho que leva ao ministério, uma porta que nenhuma influência de família, nenhuma educação pudesse abrir; pela qual ninguém pudesse passar senão aqueles que um grupo de homens sérios e piedosos (não só ministros, mas também leigos, que teriam de ouvir e de se alimentar, ou passar fome, conforme a qualidade das ministrações) concluísse, depois de pensar bem, serem dignos ao menos de ser admitidos a um período de prova para a obra do ministério. Por tal porta ninguém poderia passar senão quem fosse sincero ou então um hipócrita estudado e experimentado.

Onde se mantém a formação primitiva, todos os membros da igreja exercem os dons que o Espírito lhes distribuiu: oração, exortação, ensino, falar uns com os outros e admoestar-se mutuamente. Entre os crentes ativos de uma igreja assim bíblica, sempre se levantará uma proporção adequada de pessoas cujos dons as habilitarão a liderar em todos os ofícios. Essa é a verdadeira escola de formação dos agentes cristãos; uma igreja frutífera é o seu próprio viveiro. As reuniões de comunhão dos santos, de oração espontânea e de exortação são os meios legítimos pelos quais aqueles que o Senhor está preparando para o seu alto ministério serão conduzidos ao desenvolvimento dos seus dons. Essa formação deve ser tida como indispensável, e de uma importância essencial com a qual nenhuma outra formação tem a menor pretensão de se comparar; e então a educação geral deve ser tida como tendo, para o ministério cristão, a mesma relação que tem com qualquer outra profissão; e a educação teológica, a mesma que a educação especializada tem com as outras profissões.

Os clássicos e a matemática, a história e a lógica são de admirável utilidade para um advogado; mas, se, habilitado só por eles, ele tentar conduzir causas sem ter sido especialmente treinado na arte de pleitear, ai dos seus clientes. São de grande utilidade para um médico; mas, se à luz deles, e sem estudar as doenças e os remédios, ele se puser a curar, ai das famílias que confiam vidas preciosas aos seus cuidados. Para um ministro, o valor deles é tão grande quanto para qualquer dos outros dois; mas o estudo da teologia lhe é tão indispensável quanto o estudo do direito ou da medicina para eles; e a experiência prática do arrependimento, da fé e da santidade que ele há de inculcar é tão necessária quanto o tratamento prático das doenças, além do estudo, ou quanto o conhecimento prático de um navio no mar é necessário ao marinheiro, além da ciência da navegação. Se fôssemos obrigados a escolher entre dois homens, um deles um erudito consumado sem piedade prática e o outro um homem santo e dotado sem erudição refinada, perguntar-nos qual preferiríamos como nosso ministro seria tão respeitoso para com a nossa fé de cristãos quanto seria respeitoso para com o bom senso de um armador perguntar-lhe, com toda a seriedade, se preferia como piloto dos seus navios um erudito de uma academia náutica que nunca pisou num convés ou um marinheiro rude que muitas vezes navegou pelas mesmas águas por onde a preciosa carga tem de ser levada. Ai daqueles cujas almas são vigiadas por eruditos não convertidos. E, mesmo convertido e dotado, o ministro de Cristo não deveria chegar ao seu ofício sem ter sido exercitado na oração, na exortação, na pregação, em toda a arte de curar almas, e isso não só nos livros, não só nas escolas, mas também nas reuniões e nos trabalhos cheios de vida da igreja.

Não só reconhecemos, mas com gratidão cremos e registramos, que muitos dos que foram investidos no ministério sem prova suficiente da sua aptidão se tornaram, no fim, luzeiros ardentes e brilhantes. Mas, se isso, por um lado, merece ser lembrado continuamente como prova da terna misericórdia de Deus para com a sua igreja, por outro lado não se deve notar menos que ele ordinariamente permitiu que tais nomeações não autorizadas fossem seguidas das suas consequências naturais, até que nações inteiras caíram sob a maldição de um ministério que ou ensinava outro evangelho que não o dos apóstolos ou, exibindo por mera formalidade a casca da verdade, dava o exemplo de negar o seu poder; e isso mesmo onde a igreja havia sido reformada, ainda que o cristianismo primitivo não tivesse sido avivado de modo geral. O que a Inglaterra era um século atrás, o que muitas igrejas protestantes do continente são neste momento, mostra suficientemente que, se não se puserem guardas à entrada do ministério, tais que impeçam a admissão de quem não seja homem de mente espiritual, o curso da Providência é permitir que o pecado produza o seu próprio castigo.

Tradução para o português a partir de William Arthur, The Tongue of Fire; or, The True Power of Christianity (1856), na edição de Londres (C. H. Kelly, c. 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.