William Arthur · A Língua de Fogo · Capítulo VIII (continuação)

Consolos e privilégios dos crentes

Os consolos e os privilégios dos crentes.

V. Consolos e privilégios dos crentes

Alguns que admitem de bom grado que a igreja, de modo geral, pode avançar nas virtudes cristãs hesitam, no entanto, em crer que os cristãos individuais dos nossos dias possam desfrutar os mesmos consolos do Espírito que eram tão visíveis nos cristãos primitivos. Entre estes, nada é mais notável que a confiança e a alegria filiais: a sua reconciliação com o Senhor, a sua participação na morte e na intercessão de Cristo, a sua consciência da regeneração e da libertação de pecados que antes reinavam sobre eles, o seu claro antegozo do céu e a sua paz diante da perspectiva da morte brilham em todo o Novo Testamento e em todos os registros antigos da igreja. Esse era o “fruto do Espírito” (Gl 5.22) natural, o efeito natural de um Consolador como o que o Redentor havia prometido, habitando no coração. Tirem essa característica, e eles cairiam de imediato do nível de “filhos da luz” (Ef 5.8), de “herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo” (Rm 8.17), para o nível dos adeptos de outras religiões, entre os quais a “alegria em Deus” (Rm 5.11) [N. do T.: Arthur segue a King James, “joy in God”; a NAA traz “nos gloriamos em Deus”] pessoal e a perspectiva da bem-aventurança imortal são coisas desconhecidas.

Assim como dissemos antes que uma religião sem o Espírito Santo não seria o cristianismo, podemos dizer que religiosos sem o Espírito no coração não seriam cristãos. “Vocês estão no Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vocês. E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8.9). É preciso muito daquela ousadia fria que os homens podem adquirir em relação às coisas espirituais para que alguém que ao menos respeite, ainda que não estude, o registro do cristianismo em sua fonte ensine que não é privilégio comum dos crentes desfrutar a consciência da sua salvação e andar na luz do semblante perdoador de Deus. Nenhum fragmento da Sagrada Escritura parece sequer favorecer essa tentativa de rebaixar os cristãos modernos a um nível quase infinitamente inferior ao dos antigos; pois quem pode medir a distância entre uma alma que canta: “Nós sabemos que já passamos da morte para a vida” (1Jo 3.14), e outra que diz: “Não posso esperar saber, até que a morte me atinja, se escaparei ou não de morrer para sempre?”

Dificilmente se pode imaginar mudança mais grave nas relações do Senhor com o seu povo do que a que ocorreria sob a dispensação cristã se, tendo começado por capacitar os crentes a dizer: “temos da parte de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos humanas, eterna, nos céus” (2Co 5.1), ele terminasse por deixá-los em completa dúvida quanto ao seu destino futuro; se, tendo começado por lhes dar o senso do seu favor, claro como o dia, indizivelmente alegre, terminasse por deixá-los servi-lo a vida inteira sem jamais terem consciência de que ele lhes sorria; se, tendo começado por manter comunhão com eles, terminasse por deixá-los em dúvida sobre se ele estava ao menos reconciliado. É brincar ao mesmo tempo com o bom senso de um homem e com as suas esperanças e temores mais sagrados dizer-lhe que ele foi chamado com a mesma vocação que os primeiros crentes, pela voz do mesmo Redentor, sob a mesma aliança da graça e com a mesma promessa de adoção; mas que, enquanto o seu irmão, séculos atrás, tinha “paz com Deus” (Rm 5.1) e “alegria indescritível e cheia de glória” (1Pe 1.8), sabia-se filho e, portanto, herdeiro de Deus, e sentia a cada dia que o céu era o seu lar, ele há de prosseguir a sua peregrinação sem nenhum desses consolos e saber só no fim se a sua alma vai ou não perecer. Quem deu a alguém o direito de afirmar que tal mudança ocorreu na relação do Pai que adota com os filhos que adotou, declarando que ele se tornou, na nossa época, indiferente demais para lhes acalmar o coração e torná-los participantes da alegria que espalha entre os anjos quando declara que “estava perdido e foi achado” (Lc 15.24)?

A mudança que a suposição que combatemos exigiria no ofício, ou pelo menos na operação, do próprio Espírito, sob a própria dispensação do Espírito, é grave o bastante, seria de imaginar, para fazer o menos cuidadoso parar antes de supor que ela tenha acontecido. O ato pelo qual o Pai eterno absolve um ser culpado das suas ofensas e o reconhece diante dos anjos como herdeiro da sua glória deve ser sempre de profunda importância no governo de Deus. Antigamente, quando esse grande ato acontecia, o céu se alegrava; mas o feito não ficava sem efeito sobre a terra. O REI havia proclamado um perdão, e essa proclamação tinha de surtir efeito. O Consolador corria ao coração do que chorava. “Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (2Co 3.17). Com a presença do Consolador, o cativo encontrava “libertação”, e os algemados eram postos “em liberdade” (Is 61.1); e, provando a liberdade dos filhos de Deus, ele cantava: “Graças te dou, ó Senhor, porque, ainda que te iraste contra mim, a tua ira se retirou, e tu me consolas” (Is 12.1).

Devemos então, pela palavra de alguns homens, sem uma só indicação da Escritura que os apoie, crer que o Espírito mudou tão essencialmente o seu modo de tratar o pecador perdoado que agora o decreto de perdão promulgado no alto e saudado pelos anjos não produz efeito algum na alma daquele a quem absolve? Que o Consolador se abstém de consolar, deixando o cativo resgatado ainda a lamentar o seu cativeiro, sem aliviá-lo da sua carga nem da sua corrente? Ó Pomba da Paz, antigo Consolador dos peregrinos que percorreram antes de nós esta estrada rumo ao céu! Dizem que a tua asa se cansou com o passar do tempo!

Que grande mudança aconteceria também nos privilégios dos crentes! “Somos de Deus” (1Jo 4.6), “nascidos de Deus” (1Jo 5.1), “herdeiros de Deus” (Rm 8.17), “imitadores de Deus, como filhos amados” (Ef 5.1), “concidadãos dos santos e membros da família de Deus” (Ef 2.19); “no passado eram trevas, mas agora são luz no Senhor” (Ef 5.8). Tal era o senso de adoção desfrutado nos tempos apostólicos. De todos os privilégios com que a alma humana já foi ou pode ser abençoada nesta vida, de longe o mais consolador e elevado é o senso de adoção na família de Deus. Ninguém pode ler o Novo Testamento e negar que essa era uma característica comum dos crentes que então viviam, ou que era um elemento principal da sua força, acendendo neles uma alegria que os dispunha a enfrentar o opróbrio e a disputar os serviços mais elevados. Onde está a indicação de que esse privilégio seria negado aos cristãos das épocas seguintes?

Quando Paulo diz: “Mas me foi concedida misericórdia, para que, em mim, Cristo Jesus pudesse mostrar a sua completa longanimidade, e eu servisse de modelo para todos os que hão de crer nele para a vida eterna” (1Tm 1.16), dá ele alguma indicação de que os crentes das épocas seguintes, embora fossem crentes exatamente como ele, e alcançassem “a vida eterna” exatamente como ele, e tivessem o caso dele e as misericórdias que recebeu diante dos olhos como “modelo” pelo qual medir o que esperar da “longanimidade” de Jesus Cristo, haveriam contudo de perder uma parte essencial da alegria do crente, a saber, o poder de dizer: “Mas me foi concedida misericórdia”? Até o salmista, sob uma dispensação inferior à nossa, podia dizer: “Eu disse: ‘Confessarei ao Senhor as minhas transgressões’; e tu perdoaste a iniquidade do meu pecado” (Sl 32.5). Insinua ele que esse é um privilégio que só poucos podem alcançar, e do qual os filhos de Deus, nos dias melhores que viriam, seriam ordinariamente excluídos? “Sendo assim, todo o que é piedoso te fará súplicas em tempo de poder te encontrar” (Sl 32.6). Isso transmite uma indicação clara de que, assim como ele, ao confessar os seus pecados, encontrou perdão, um perdão tal que curou a aflição de alma que descreve um momento antes e o capacitou a cantar, como faz aqui, “Bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada” (Sl 32.1), assim também toda pessoa de disposição piedosa encontraria um tempo aceitável se orasse ao mesmo Senhor misericordioso pedindo perdão semelhante. Nenhum homem piedoso, ninguém cujo coração buscasse a Deus nos dias de Davi, podia ler isto sem sentir que a “bem-aventurança” da absolvição lhe era oferecida como privilégio seu. Na verdade, em todos os Salmos se dá por certo que o justo se alegra no seu Deus perdoador. E a graça do nosso bendito Redentor vai ficando mais estreita à medida que o tempo avança? Retira ele aos poucos a luz do seu rosto, até que sobre nós, dos últimos dias, se assente a escuridão completa, e estejamos condenados a tatear o caminho entre as tentações da vida sem o encorajamento de um só sorriso seu e, no fim, a pôr um pé hesitante no limiar da eternidade?

A ideia de qualquer deterioração desse tipo no privilégio dos crentes é totalmente infundada, sem um único apoio na Escritura ou na razão. É uma construção de gelo, formada em estações frias, que se derrete quando levada à luz do sol da Escritura ou ao calor de uma sociedade cristã viva. Não poderíamos facilmente crer em algum acréscimo aos nossos privilégios, além dos que tinham os nossos irmãos dos primeiros tempos, a menos que isso fosse claramente ensinado na palavra de Deus; mas, se sem prova da Escritura tivéssemos de crer ou num aumento ou numa diminuição deles, escolheríamos o primeiro, por ser muito mais apoiado pela analogia do modo como o Senhor trata os homens.

A “paz” (Jo 14.27) foi o legado do Salvador aos seus seguidores: paz a ser comunicada pelo Consolador; paz que o mundo não pode dar e que excede todo entendimento. Ele não deixa nenhum indício de que esse legado seria revogado antes do “fim dos tempos” (Mt 28.20). Na verdade, tanto no Antigo como no Novo Testamento, a felicidade é parte essencial da religião, aquele tipo de felicidade que se chama “alegria em Deus por meio do nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.11) [N. do T.: Arthur segue a King James, “we also joy in God”; a NAA traz “nos gloriamos em Deus”]. O reinado de tal alegria em qualquer peito humano pressupõe claramente que a pessoa está convencida de que Deus se reconciliou com ela, apesar dos seus pecados. Onde isso é duvidoso, a desconfiança, o medo e a tristeza acompanharão sempre a contemplação do Altíssimo; e essa tristeza se assentaria mais densa justamente sobre o espírito mais contrito. A felicidade há de ser uma feição da religião até o fim. Aquela caricatura odiosa do cristianismo, que oferece à vista do mundo um homem com todas as doutrinas do evangelho nos lábios, mas tristeza na fronte, inquietação no olhar e azedume no porte, tem feito uma injustiça infinita à nossa religião benigna e um mal infinito aos que nunca conheceram o seu valor. Agora, como nos dias de Salomão, “os seus caminhos são caminhos agradáveis, e todas as suas veredas são paz” (Pv 3.17). Agora, como nos dias de Davi, ela põe “mais alegria no coração do que a alegria deles, quando eles têm fartura de cereal e de vinho” (Sl 4.7). Agora, como nos dias de Paulo, ela dá “alegria e paz na fé” (Rm 15.13). A felicidade não é um apêndice separável da verdadeira piedade; é parte dela, e parte essencial: “a alegria do Senhor é a força de vocês” (Ne 8.10). Alguns considerariam a felicidade como se ela fosse para a religião o que uma bela tez é para o rosto humano: um grande acréscimo à sua beleza, se presente; mas, se ausente, não falta nenhum traço. Nos escritos sagrados, do primeiro ao último, ela é tida como um traço que não podemos remover sem ferir e desfigurar. O Reino de Deus não é apenas “justiça”, mas “justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17).

Enquanto esse Reino subsistir, essa “alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17) será o privilégio dos filhos de Deus; e que ninguém se ponha entre o crente mais humilde deste nosso tempo e a plena luz do rosto do seu Redentor. Que ninguém dê por certo que a obra de Deus na alma humana degenerou; que o Pai misericordioso já não alegra o pródigo que acolhe, fazendo-o saber que o ama; que Jesus já não diz: “Coragem, filho; os seus pecados estão perdoados” (Mt 9.2); ou que, quando um penitente é aceito como filho, o gracioso Consolador já não se apressa, como nos tempos antigos, em levar a sua mensagem de pomba para espalhar a paz celestial em mais um peito perturbado.

A afirmação, às vezes feita com confiança, de que o testemunho do Espírito à nossa adoção é dado a alguns crentes anos depois da sua conversão, como recompensa de uma santidade especial, não tem nem sequer um pretexto de fundamento bíblico. O testemunho do Espírito, longe de ser a recompensa da santificação, é uma das suas principais fontes; pois sem amor não há santidade, e nós só amamos porque sentimos que Deus nos amou primeiro. “Porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho ao nosso coração, e esse Espírito clama: ‘Aba, Pai!'” (Gl 4.6) Não porque vocês são antigos e eminentes entre os filhos de Deus, mas porque são filhos: não é uma recompensa por bons serviços, mas um direito de nascimento; não uma coroa de distinção, mas uma alegria de adoção. “Nele também vocês, depois que ouviram a palavra da verdade, o evangelho da salvação, tendo nele também crido, receberam o selo do Espírito Santo da promessa” (Ef 1.13). Aqui a ordem é: “ouviram, creram, foram selados”; nenhum longo período de dúvida e esforço se interpõe entre o crer e o selar. O pai do pródigo não o mantém por anos trabalhando “como um dos seus trabalhadores” (Lc 15.19) antes de imprimir o beijo paterno da reconciliação no seu rosto e no seu coração.

A objeção batida de que é presunção alguém dizer que é filho de Deus dá coisas demais por certas. Nunca é presunção reconhecer o que se é. Se Davi nunca tivesse sido tirado do aprisco e feito rei, teria sido presunção dele dizer que o fora; mas, sendo esse o caso, a gratidão o obrigava a reconhecer e a celebrar a misericórdia que lhe fora mostrada. Assim, se um homem não foi libertado do domínio do pecado e adotado na família de Deus, é presunção dele dizer que esse é o caso; mas, se foi, então não louvar o seu Redentor por isso seria ingratidão. Dizer que é presunção alguém se chamar filho de Deus dá por certo que ninguém o é; do contrário, é absurdo. A presunção tem muitas formas; e vale a pena considerar se um Ser grande e bom desaprovaria mais a presunção que esperou demais da sua bondade ou a presunção que ousou descrer positivamente da sua promessa.

Muitos que admitem de bom grado que, ao menos até certo ponto, a igreja de todas as épocas desfrutará dos dons e graças do Espírito Santo, e que não negariam que os primeiros crentes foram favorecidos com manifestações diretas do favor de Deus, têm contudo dificuldade em crer que, quando pecadores são perdoados na época presente, sejam consolados pelo Espírito que se manifesta no coração deles e clama: “Aba, Pai” (Rm 8.15). Não negam que, mesmo em nossos dias, pecadores perdoados sejam confortados com a confiança de que estão perdoados; mas veem razões de prudência contra admitir que isso seja comunicado pelo testemunho direto do Espírito, e chegariam a essa confiança por um processo que, por mais que eles não o percebam, tira do Espírito o ofício de selar os filhos adotivos de Deus e o entrega à razão humana. Ensinam a quem busca a salvação que, em vez de olhar para a cruz em busca de misericórdia até que o Espírito, como Consolador, “revele o Filho de Deus no seu coração” (Gl 1.16), ele deve, sim, olhar para a cruz, mas não esperar que isso traga tal manifestação; pelo contrário, deve apenas aprender quais são as marcas de um filho de Deus, comparar a sua vida com elas e, se ela e elas concordarem, a sua mente chegará à confortadora convicção de que ele é filho de Deus.

Este é um exemplo do erro comum de tomar parte de um processo pelo todo. Da parte do cristão, a comparação das marcas bíblicas dos regenerados com o seu próprio caráter é não apenas boa, mas absolutamente necessária; pois, não importa quais sejam os seus supostos consolos, alegrias ou revelações, se na sua vida ele não é guiado pelo Espírito de Deus, não é filho de Deus. Mas, porque certa evidência é essencial como corroboração, não se segue que seja a principal evidência do fato, o primeiro fundamento da convicção. Como proteção contra o engano, fortalecimento da nossa confiança e estímulo constante para prosseguir para as coisas que estão adiante, um juízo sóbrio sobre o nosso próprio progresso na graça é bíblico, racional e indispensável. Como meio de atar o coração quebrantado de um penitente, de lhe comunicar o primeiro sentimento de confiança filial no Senhor, não é nem bíblico nem racional. Jamais pode ser o fundamento original da consciência, em alma alguma, de que, pela abundância da graça, eu, sim, eu, sou filho adotivo de Deus.

No entanto, é essa a consciência que deve ser dada, e não ao coração de quem está “são”, mas de quem está “doente” (Mt 9.12); não a um homem que se acha bom, pronto a interpretar tudo a seu favor, sem nenhum sentimento de que é vil ou de que o Senhor está irado com ele; mas àquele que agora sente o que provavelmente creu a vida inteira: que é pecador, coberto de manchas escuras e imundas, com o desagrado do Senhor pairando sobre ele por muitos atos ímpios, e a sua pobre alma ao mesmo tempo preparada para a destruição e exposta a ela. Enquanto não sente dolorosamente a sua necessidade de Cristo, ninguém foge para ele em busca de refúgio; e a alguém nesse estado de espírito se diz, com toda a seriedade, que o seu fardo será removido e o senso da sua salvação será originado por ele se convencer da concordância da sua própria vida com o fruto do Espírito, tal como descrito na palavra de Deus.

Que frutos são esses? “Amor, alegria, paz” etc. (Gl 5.22), ou “justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17). Não se encontrará nenhuma enumeração dos frutos do Espírito que exclua a paz e a alegria, muito menos o amor; e dessas graças, se é que não somente da última citada, brotam os vários frutos que juntos constituem a “justiça”. O pobre penitente, então, não deve primeiro ser aliviado da sua carga e levado a sentir que Deus o ama; mas, antes de obter tal consolo divino, deve convencer-se de que o seu amor, alegria, paz e outras graças são tais como os que marcam os filhos de Deus. Isto é: ainda sentindo que o Senhor está irado com ele, deve amar o Senhor; ainda sentindo que a sua alma não está salva, deve sentir alegria no Espírito Santo. Se se disser que o sentimento da ira do Senhor e do seu próprio perigo é removido antes que apareçam as afeições filiais, então se admite uma ação direta do Consolador, anterior à sua satisfação com as próprias graças; e, se isso for negado, não resta alternativa senão concluir que, ao mesmo tempo e no mesmo coração, alguém pode sentir que está sob a ira de Deus e amar a Deus como Pai perdoador; pode sentir que está em perigo do inferno e desfrutar de paz espiritual. Se o senso de ira e de perigo é removido antes que apareçam os frutos do Espírito, há um testemunho direto do próprio Espírito; se só depois, terão de coexistir os estados de espírito totalmente incompatíveis que acabamos de mencionar.

A relação entre o fruto do Espírito e o testemunho do Espírito nos é claramente indicada. João diz: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1Jo 4.19). Aqui o fruto, “nós amamos”, é apresentado como consequência da nossa percepção do fato: “ele nos amou primeiro”. Dizer que primeiro sabemos que Deus nos ama porque sentimos que o amamos é fazer do fruto do Espírito o fundamento do testemunho do Espírito, uma relação totalmente contrária ao princípio enunciado neste texto, que permeia o Novo Testamento e, na verdade, também o Antigo. “Bendiga, minha alma, o Senhor, e não se esqueça de nem um só de seus benefícios. Ele é quem perdoa todas as suas iniquidades” (Sl 103.2-3). O fato do perdão, uma vez verificado, é o fundamento da gratidão filial; não é a gratidão filial o fundamento do qual se infere o fato do perdão.

As conclusões mentais sobre verdades espirituais não governam os sentimentos. As marcas de um “filho da ira” (Ef 2.3) estão claramente estabelecidas. Milhares sabem que as trazem; e, no entanto, isso não produz contrição nem angústia até que o Espírito que convence lhes traspasse o coração. Como acontece com o convencer, assim aconteceria com o consolar. Uma conclusão mental acerca das minhas próprias conquistas espirituais nunca dissiparia da minha consciência o senso de culpa nem faria o meu coração trêmulo “alegrar-se no Senhor” (Fp 3.1). Ainda que um pecador despertado concluísse cem vezes que as marcas da Bíblia e os traços do seu caráter concordam, não tendo o seu espírito ferido outro bálsamo, todo esse concluir jamais curaria a sua chaga. A mesma voz que falou condenação à sua consciência tem de falar justificação; a mesma mão que quebrou o seu coração duro tem de atá-lo.

Quanto mais profunda a penitência de alguém, mais lento ele seria em tirar consolo de qualquer bem em si mesmo; por isso, numa teoria que faz disso o fundamento do consolo, tanto mais longe ele estaria de encontrar descanso; ao passo que, na visão mais evangélica, a própria profundidade da sua penitência o levaria mais depressa a trazer o seu fardo à cruz, onde ele cairia. Essa alusão traz Bunyan e o seu Peregrino mais uma vez à nossa vista. Ele não põe Cristão a desatar o próprio fardo argumentando: “Fugi da Cidade da Destruição; abandonei casa e amigos, mulher e filhos; resisti às tentações de voltar; bati à porta e entrei, e estou no caminho estreito”; mas, com tudo isso feito, leva-o a “um lugar um tanto elevado”, onde está uma cruz, e “assim que Cristão chegou à cruz, o seu fardo soltou-se dos seus ombros e caiu das suas costas”. Ele não se livrou do fardo por um processo que pudesse ser facilmente explicado; mas, quando pôs os olhos na cruz, o fardo caiu por si mesmo: e “muito o surpreendeu que a visão da cruz o aliviasse assim do seu fardo”. E assim acontece com outros; mas, por mais surpreendente que seja, você, meu irmão penitente, não dê ouvidos a nenhuma outra orientação senão à que aponta os seus olhos diretamente para a cruz; para o perdão, para escapar do inferno, para o descanso, a esperança e a pureza, olhe para lá, para lá, somente para lá. Se o seu fardo não cair de imediato, continue olhando, olhe para a cruz, e ele cairá, muito mais cedo e com muito mais certeza do que se você tentar desatá-lo com os seus argumentos.

Enquanto Cristão estava assim diante da cruz, maravilhado, “três Seres Resplandecentes vieram a ele; o primeiro disse: ‘Os seus pecados estão perdoados’; o segundo despiu-o dos seus trapos e vestiu-o com roupa nova; o terceiro também lhe pôs uma marca na testa e deu-lhe um rolo com um selo, mandando que o olhasse enquanto corria e o entregasse à porta celestial”.

Isto é o cristianismo sem artifícios. Um pecador sobrecarregado, depois de desânimos e extravios, chega por fim ao pé da cruz. Olha e é curado; o seu perdão, dado gratuitamente, é-lhe ternamente manifestado. O Pai, o Filho e o Espírito se unem para dar segurança ao seu coração e lhe conceder paz presente e duradoura. Ele recebe uma evidência de aceitação pela qual pode sempre

“ler claro o seu título
às mansões nos céus”.

Depois disso, quanto mais ele “examina” a si mesmo e “prova” a si mesmo, “para ver se realmente está na fé” (2Co 13.5), melhor para a sua vigilância e o seu progresso. Mas nenhum exame desses, feito antes, teria desatado o seu fardo ou lhe dado o rolo.

A teoria de um consolo dos crentes por inferência, como substituto do modo bíblico de um “testemunho” do Espírito, é singularmente impotente; pois, a cada passo, é obrigada a se apoiar naquilo que pretende dispensar e substituir. Ela faz repousar todo “repouso e segurança” (Is 32.17) dos corações penitentes sobre os frutos do Espírito; e o principal desses frutos, o “amor” (Gl 5.22) etc., pressupõe o testemunho do Espírito, por uma necessidade tão clara quanto aquela pela qual o arrependimento pressupõe a sua operação de convencer.

Não; o selar e o confortar dos crentes penitentes não é deixado ao mero raciocínio, sobretudo com um fundamento tão sujeito a ser mal avaliado como as nossas próprias conquistas na graça. É a obra e o ofício daquele “outro Consolador” (Jo 14.16) que o nosso Senhor, na hora da morte, prometeu; e que ninguém o tire das mãos dele! É ele quem clama no coração: “Aba, Pai!” (Gl 4.6). Ele é quem sela, quem dá testemunho, quem derrama o amor de Deus, quem nos capacita a conhecer o que por Deus nos foi dado gratuitamente. Toda tentativa de escapar do mistério envolvido no Espírito Santo revelar a misericórdia de Deus a uma alma humana só leva a contradições e perplexidades. À velha pergunta “Como pode ser isso?” (Jo 3.9), a única resposta suficiente é: “elas se discernem espiritualmente” (1Co 2.14). O que o Senhor revela espiritualmente, a alma pode discernir espiritualmente; e pode-se supor que uma presença divina, ou uma comunicação divina, traz sempre consigo a sua própria evidência, primeiro à consciência e depois, pelos seus frutos, à razão. “Uma coisa sei: eu era cego e agora vejo” (Jo 9.25).

Não admira que muitos que são sinceros, e até fervorosos, passem os dias da sua peregrinação na tristeza, sem nenhum rolo no peito que saibam poder ser apresentado “à porta celestial”, sem nenhum título consciente para entrar na cidade, sem nenhuma “alegria e paz na fé” (Rm 15.13) permanentes. Nada é mais perigoso do que desviar os olhos do único objeto da fé. E, se as pessoas não são ensinadas a olhar, e olhar para a cruz, até que os seus pecados sejam apagados e o próprio Espírito consolador lhes cure as feridas, mas sim a buscar descanso observando o seu próprio progresso nas graças cristãs, e ao mesmo tempo ficam sem nenhuma comunhão dos santos, pela qual poderiam aprender por que passos de medo e dúvida, de desespero, esperança e fé outros, cujo espírito inteiro respira a paz de Deus, obtiveram essa bênção, não é natural que andem num luar escuro em vez de andar ao sol? Contudo, mesmo entre os que são tratados assim, o Senhor muitas vezes desfaz as teorias humanas, convertendo um pecador com tal manifestação do Espírito que seria igualmente impossível persuadi-lo de que a sua paz veio primeiro pela contemplação das suas graças e impedi-lo de contar o que o Senhor fez pela sua alma.

O caráter da igreja cristã como um todo será sempre regido pelo caráter de cada cristão; pois a igreja não passa da assembleia e do conjunto dos indivíduos. Se, então, à medida que as épocas avançam, o cristão individual degenerar, a igreja também terá de degenerar aos poucos, o seu ministério se enfraquecerá e os seus esforços sobre o mundo serão menos frutíferos. Todo o caráter cristão depende das relações da alma com o seu Criador: se elas forem frias em vez de alegres; se forem governadas pelo sentimento de uma reconciliação duvidosa em vez do de uma filiação feliz, então, por necessidade, a vida fica coberta pelas sombras de uma perdição nada improvável, em vez de ser iluminada por esperanças de glória sem nuvens; e o serviço é prestado como a um Senhor severo, e não a um Pai que perdoa e ama ao extremo. Tirem da linguagem do cristão as palavras “a nossa comunhão é com o Pai e com o seu Filho” (1Jo 1.3), e imediatamente teremos uma raça cuja religião não é a religião de João, cuja força de coração não é tirada das mesmas fontes que a dele.

Seja nos consolos, seja na comunhão sensível com a Divindade reconciliada, seja na santificação prática da vida, sustentamos que toda a Escritura oferece a nós, discípulos desta hora presente, pobres e indignos como somos, as mesmas fontes e a mesma medida de graça que estavam abertas aos nossos irmãos de tempos passados. Não houve nenhuma revogação do Espírito, nenhum corte no perdão daquele que é “rico em perdoar” (Is 55.7), nenhuma redução dos privilégios dos adotados. A promessa do Espírito Santo não era só para os primeiros convertidos; mas, como disse Pedro ao se dirigir a eles, era “para vocês e para os seus filhos, e para todos os que ainda estão longe, isto é, para todos aqueles que o Senhor, nosso Deus, chamar” (At 2.39). Por mais distante que o chamado soasse daquele lugar em Jerusalém, e por mais distante daquele momento do tempo, levaria consigo a PROMESSA, aquela mesma promessa cujo cumprimento tornou a igreja primitiva tão santa e tão vitoriosa. As chamas, as línguas, os sinais exteriores não eram a graça salvadora do Espírito. Esta estava “dentro de vocês” (Lc 17.21) [N. do T.: Arthur segue a King James, “within you”; a NAA traz “o Reino de Deus está entre vocês”], na alma humana, e se mostrava em “novas criaturas” (2Co 5.17). Essa graça salvadora do Espírito, operando hoje nos cristãos, constitui a identidade deles com os de outrora. Sem ela, nos tempos apostólicos, ainda que alguém falasse “as línguas dos homens e dos anjos” e pudesse “operar todos os milagres” (1Co 13.1-2), não era verdadeiro discípulo. Com ela, em nossos tempos, ainda que alguém não opere nenhum milagre nem fale em línguas, é verdadeiro discípulo; pois “todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8.14). Os dons miraculosos não eram da essência do verdadeiro cristão, mas acompanhamentos separáveis; e tudo o que então era essencial permanece para nós, intacto e tão livre quanto sempre foi para eles.

Pai, Filho e Espírito! Perdoa a incredulidade que imaginou que te arrependeste da superabundância de graça outrora dada à tua igreja resgatada! Não nos aflijas, por causa dela, com uma verdadeira retirada da tua presença! Manifesta de novo a tua glória, enchendo os teus filhos de alegria e luz, para que o mundo veja que o teu antigo amor e a tua antiga graça continuam sendo a nossa herança!

Tradução para o português a partir de William Arthur, The Tongue of Fire; or, The True Power of Christianity (1856), na edição de Londres (C. H. Kelly, c. 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.