William Arthur · A Língua de Fogo · Capítulo VIII (continuação)
Ministros revestidos do poder que vem do alto: o que perde a igreja quando troca o poder do Espírito pelo intelecto, pela técnica ou pelo decoro.
Se as autoridades eclesiásticas podem ser justamente censuradas por substituírem com demasiada facilidade o chamado e o dom genuínos de Deus por uma comissão da igreja, a multidão dos cristãos professos não está menos pronta a aceitar, em lugar do genuíno poder moral que é a verdadeira preeminência do ministro cristão, um substituto, seja no decoro, seja no intelectualismo. Um povo cuja ideia do ministério fosse formada pelo que o Novo Testamento inspira buscaria e desejaria ardentemente, com sentimentos que chegariam à fome e à sede, homens “revestidos de poder” (Lc 24.49): o verdadeiro poder do Espírito Santo, poder que desperta, converte e edifica; poder sob o qual os corações se derreteriam, as vidas mudariam, os velhos abandonariam os maus caminhos de uma vida inteira e os jovens se revestiriam da sabedoria dos cabelos brancos, a folia irrefletida daria lugar a associações beneficentes e a vizinhança inteira começaria a respirar um espírito mais puro e mais nobre. Nada poderia compensar-lhes a ausência disso. Ainda que todo o decoro satisfizesse o gosto, ainda que o intelecto fosse encantado, eles definhariam e ansiariam por aquele poder que está além do alcance dos olhos, do gosto ou do intelecto, mas que a natureza moral logo sente e ao qual responde, seja por uma dura resistência moral, sentida como resistência à voz do Espírito, seja por uma aquiescência contrita, sentida como a entrega do coração ao amor constrangedor do Redentor. “Vocês serão revestidos do poder que vem do alto” (Lc 24.49), disse o nosso Senhor: vestidos de poder. Esta é a verdadeira veste e paramento do ministro de Deus: uma vestimenta invisível de poder, que não repousa sobre os seus ombros, mas sobre o seu espírito, cobrindo-o de uma dignidade moral, como se exercesse um cargo da parte do Rei dos reis, e transmitindo a toda consciência diante dele a percepção instintiva de que ele vem comissionado para tratar com ela das coisas que afetam a sua pureza e as suas relações com aquele que a plantou no homem.
Todo poder é indescritível, mas ao mesmo tempo perceptível. O que ele é, onde está, como veio, para onde vai, a sua medida, movimento, natureza, forma ou essência, nenhuma habilidade humana pode descobrir. Podemos pedir ao raio de sol, que tem tal poder de voar e de iluminar, ao relâmpago, que tem tal poder de destruir, à gota de orvalho, que tem tal poder de refrescar, ao ímã, ao fogo, ao vapor, ao olho que pode ver, ao ouvido que pode ouvir, ao nervo que pode transmitir as mensagens da vontade; podemos pedir a todos os agentes que vemos exercer poder que nos deem conta, cada um, do seu próprio poder, e todos ficarão mudos. Nem a bala de canhão no seu voo, nem o leão no seu triunfo, nem a tempestade ou o mar, nem mesmo a própria peste podem dizer-nos o que é o poder. Se perguntarmos à Morte, que pôs todas as coisas debaixo dos seus pés, nem ela tem resposta; e, depois de fazermos circular a pergunta “Que é o poder?” por um universo mudo, temos de dizer: “Uma vez Deus falou, duas vezes ouvi isto: Que O PODER PERTENCE A DEUS” (Sl 62.11).
Contudo, o poder, em si mesmo tão oculto e indescritível, sempre se manifesta pelos seus efeitos. Um efeito demonstra a presença de um poder. Onde a pólvora explode, deve ter havido fogo; onde a água sobe pela atmosfera em vapor, deve ter havido calor; onde o ferro se move sem força mecânica, deve haver um ímã; e a ausência do efeito é prova conclusiva da ausência do poder do qual o efeito teria decorrido. O intelecto logo reconhece a presença do poder intelectual. As emoções, também, revelam fielmente sempre que um poder emocional age sobre elas; e não menos certamente a consciência de um homem sente quando um poder moral vem agir sobre ela.
Nos homens não convertidos trava-se um conflito singular: eles partilham a admiração que todo homem sente pelo poder moral, uma admiração que ninguém consegue deixar de sentir, ainda que esteja tão apegado aos seus pecados que se enfureça de inimizade quando a ação de tal poder o faz temer que, afinal, venha a ser convertido em santo; mas esse sentimento é combatido pela aversão natural que os homens têm a tudo o que contraria as suas inclinações terrenas e tende a levar os seus afetos às coisas santas. De um lado, sentem que o homem que lhes prega deveria ser capaz de perturbá-los nos seus maus caminhos, como por uma voz e um chamado do seu Criador; e são atraídos por aquele que tem esse caráter. De outro lado, desejam continuar mais tempo nos caminhos do mundo; e é-lhes cômodo e bem-vindo quando, em vez de um toque de trombeta que interromperia o seu sono, ouvem uma canção agradável que os ajudará a continuar dormindo. Na grande maioria prevalecem estes últimos sentimentos, e, conforme os conduzam as suas inclinações e a sua formação, buscam nas ordenanças públicas da casa de Deus ou o que chamam de um banquete intelectual, ou o que consideram uma solenidade bem executada e respeitável.
Para uma classe, o ideal mais alto de um culto cristão parece ser que nada aconteça que possa, de algum modo, ofender o gosto de qualquer ser humano que olhe para toda a cena como uma assembleia reunida para algum fim digno. Quanto ao púlpito, o grande desejo deles é que o púlpito “se comporte bem”; e neste nosso país pode-se encontrar muito culto que é
“Falhamente sem falha, gelidamente regular, esplendidamente nulo.”
Isto é, “sem falha” a tais olhos; “sem falha”, se a ideia de um culto cristão não for a de uma cena de penitência, de oração fervorosa, de adoração que transborda; um triunfo do poder espiritual; uma assembleia cuja atmosfera respira almas vivas e a presença do Espírito de Deus, de transgressores despertando, penitentes encontrando misericórdia e santos de fato bem perto do rosto do seu Pai; mas, em vez de tudo isso, um grupo de pessoas bem vestidas reunindo-se com decoro e celebrando algo que não toca ninguém, e ouvindo friamente algo que não foi feito para tocar ninguém e, acima de tudo, não foi feito para ofender ninguém, a não ser aquele que deseja sentir a própria alma, e ver a alma dos seus próximos, movidas até o fundo como por um chamado do alto.
O santuário de Deus deveria, sem dúvida, ser a cena e o modelo mais elevados de decoro, e o púlpito o seu exemplo mais destacado e mais brilhante. Quem, sob qualquer pretexto, introduz ali a frivolidade, a excentricidade ou a grosseria golpeia terrivelmente um dos principais sustentáculos do poder: a verdadeira reverência. Por mais ofensiva que seja a falta de decoro em outros lugares, ela o é duplamente na casa de Deus. Mas a oração em conjunto dos cristãos, a entrega de uma mensagem do alto e a mistura de vozes agradecidas em louvor ao Altíssimo, como todas as outras ações peculiares, têm um decoro próprio; e, de todas as indecorosidades, nenhuma lhes é mais inteiramente estranha do que aquilo, seja o que for (forma rígida ou literatura elaborada), que dá ao lugar mais o sabor da sabedoria humana do que do poder de Deus. Numa festa de casamento, a solenidade própria de um funeral seria um despropósito. Numa reunião de amigos, a precisão dos movimentos militares seria imprópria. O ruído dos instrumentos é decoro num concerto; o som da moagem, num moinho; o estalar das lançadeiras, numa fábrica; o tinir dos martelos, numa forja; o riso das crianças, num quarto de brinquedos.
E assim a casa de Deus tem a sua própria atmosfera: tudo o que extinguiria a expressão reverente da emoção penitente ou agradecida da parte dos simples e dos pobres, dos recém-despertados ou recém-perdoados; tudo o que treinaria todos os sentimentos cristãos a se mover ali, na própria casa de Deus e na assembleia do seu povo, como se sob o olhar frio de um mundo pagão, é um despropósito mais gritante do que aqueles desvios do bom gosto que não apenas poderiam, mas teriam de decorrer da expressão dos sentimentos, onde quer que uma multidão composta de todas as classes esteja profundamente comovida. Quando a nobre ideia do decoro cristão cede lugar à ideia mesquinha da correção formal; quando a reverência, o amor e a alegria intensos, encontrando-se e agitando o peito de uma multidão, causam desagrado, e os homens se empenham em ter tudo em esquadro, bem talhado e arranjado de antemão, então temos pouco direito de esperar o mais alto de todos os decoros: o quebrantamento de corações pecadores, como se feitos em pedaços sob o martelo da palavra de Deus, e o clamor de pecadores despertados: “Que devemos fazer para sermos salvos?” (At 16.30) De fato, muitos que se chamam cristãos, e cuja pretensão de bom grado admitimos, considerariam o levantar-se de tal clamor na casa de Deus não menos impróprio do que se fosse levantado num teatro. O povo pode dizer “Amém”, desde que seja conforme a regra; pode murmurar a resposta, desde que seja exatamente onde homens bons, mortos há muito tempo, marcaram: “Responda aqui”; mas qualquer coisa parecida com a cena pentecostal, qualquer explosão geral de emoção penitente, seria intolerável; e até ver um homem sozinho, “não crente ou não instruído” (1Co 14.24), sentindo-se julgado e condenado e, “prostrando-se com o rosto em terra, adorar a Deus” (1Co 14.25) seria uma perturbação do decoro, ora essa, porque abriria uma fenda naquela correção gelada em que um longo período de frio encerrou muitos ramos da igreja de Cristo. Contudo, essa cena é tão própria da casa de Deus quanto o estrondo de uma árvore que cai é próprio da floresta onde o lenhador está abrindo uma clareira.
Uma classe muito diferente dos que adoram a correção formal põe o intelectualismo como substituto do poder. Estamos longe de desejar, de algum modo, subestimar aquele grande dom de Deus, o vigor mental. Certa medida dele está sempre implícita na comissão de pregar o evangelho; e quanto mais bom senso, sensibilidade, imaginação, ou qualquer talento verdadeiro, um ministro possuir, tanto mais apto estará para dar eficácia ao seu ofício. A conversa a que algumas pessoas boas se entregam sobre o grande benefício de ter instrumentos fracos no ministério não tem um til de fundamento bíblico, quando as Escrituras são aplicadas com justiça ao caso.
É verdade que, para os sábios deste mundo, a cruz em si mesma é “loucura” (1Co 1.18); mas Cristo nunca enviou tolos para serem os seus arautos. A instituição da pregação, como meio para regenerar a humanidade, é em si mesma “loucura” (1Co 1.21); mas nenhum dos pregadores enviados por Deus era simplório. Embora fossem desprezados pelos grandes e não tivessem valor algum aos olhos dos eruditos, cada um deles era poderoso em Deus para atingir em cheio a consciência dos pecadores e confundir os contraditores; e a evidência do poder divino operando com eles se tornava ainda mais visível por causa das suas deficiências naturais ou de instrução. Homens que não têm o dom de ensinar, advertir ou exortar deveriam dedicar-se a qualquer ocupação honesta para a qual o seu Criador os tenha capacitado, e não ficar choramingando que o Senhor se compraz em usar instrumentos insensatos, quando cada dia prova que ele de modo algum os está usando, a não ser como exemplo para que ninguém assuma um ofício sem ter provado a sua aptidão. Os homens que Deus envia podem não ter a cultura dos eruditos, mas nunca lhes falta bom senso nem expressão. Podem carecer do talento que lhes permitiria tratar de assuntos seculares com êxito oratório ou literário, seduzir a fantasia ou alegrar as emoções, satisfazer pela lógica ou iluminar pela exposição; mas nunca, nunca, lhes falta poder para agir sobre a consciência. E isso, na ausência de outros dotes, é muitas vezes ao mesmo tempo o cetro da autoridade do pregador e o selo misterioso da sua comissão.
Aquele que nos fala em nome do nosso Deus pode trazer uma exposição tão lúcida e vigorosa como a de Moisés ou de Mateus, uma sabedoria tão saborosa como a de Salomão, uma emoção tão avassaladora como a de Jeremias ou de João, uma argumentação tão convincente como a de Paulo, ou uma imaginação tão esplêndida como a de Davi ou de Isaías. Pode trazer quaisquer faculdades, por mais elevadas que sejam, qualquer eloquência, por mais poética, refinada ou ousada; contanto que nos faça sentir, como sempre sentimos sob a mão dos Profetas e dos Apóstolos, que todas as suas faculdades são postas em ação somente para nos aproximar do nosso Redentor.
De onde pode ter surgido a ideia de que o talento empregado na pregação cristã deve manter-se dentro de um alcance limitado e humilde, sem voos altos, sem sondagens profundas, sem linguagem ardente, sem ilustrações figuradas, sem argumentação vigorosa, seria difícil descobrir, se a Bíblia somente, o Antigo Testamento e o Novo, fosse a fonte das nossas informações. Ali vemos o poder do Espírito Santo, não aliado a um único tipo de mente ou a um único padrão de composição, domesticado até caber num ideal de correção consagrado pela estética de alguns homens pequenos e corretos, mas usando cada faculdade que Deus jamais deu à alma humana, cada faculdade de pensamento, ilustração e expressão; santificando com o seu fogo todo gênio, toda vida e toda a natureza, tocando tudo e iluminando tudo. De modo que não há uma só cena da vida doméstica, nem um só objeto do mundo exterior de Deus, a que a língua do salmista ou do profeta, ou do próprio grande Mestre, não tenha dado voz, fazendo-o falar-nos em poesia sagrada. Desde a erva sob a foice do ceifeiro, ou o lírio que uma criança colheu, desde o rosto radiante do noivo, ou o seio da mãe que amamenta, até o relâmpago, o sol e as estrelas, tudo é santificado por um raio da Bíblia e envolto pelas suas associações sagradas.
Não podemos deixar de crer que esse é o modelo intencional, e que homens de todos os tipos, com talentos de todos os matizes possíveis, devem ser empregados no santo ministério de Deus. Portanto, qualquer visão mais estreita, fundada no ideal de algum exemplo notável num gênero de pregação, no gosto de determinada época ou em qualquer noção de estilo clássico e de correção, não passa de uma invenção para tolher e acorrentar aquilo que deve ser eternamente livre: a palavra de homens que vêm nos falar de todas as coisas infinitas.
Por outro lado, aquilo que hoje em dia se chama intelectualismo não parece consistir tanto na posse e no exercício de faculdades superiores, quanto na arte de lançar coisas comuns em moldes elaborados, e de vestir cada verdade familiar, que em trajes simples todos reconheceriam como velha amiga, com tais adornos que os que não olham de perto podem tomá-la por uma estrangeira ilustre. É verdade que pensamentos que excedem a estatura comum naturalmente se vestem com nobreza; mas toda névoa ou extravagância no estilo dos sábios existirá a despeito deles mesmos. Eles sempre farão o melhor esforço, primeiro para clarear as ideias na própria mente e depois para torná-las claras aos outros. Muitas vezes gastarão muito trabalho para reduzir aquilo que brotou dos seus pensamentos fecundos, do seu esplendor original, a algo mais simples e transparente, algo talvez menos próprio para deslumbrar, porém mais próprio para iluminar.
Algumas inteligências são, entre as comuns, o que uma estufa é num jardim: um santuário especial que recebe os raios do céu através de um meio de cristal, numa atmosfera de alta temperatura, dentro da qual florescem frutos e flores que não cresceriam no solo comum; frutos e flores de terras mais luminosas, maravilhosos aos nossos olhos, os quais, porém, embora no princípio criados ali, podem com o tempo aclimatar-se e tornar-se belezas familiares nos quintais de milhares. É manifestamente vontade da Providência criar tais inteligências; e, ainda que não tivéssemos a Bíblia para lançar luz sobre o seu propósito, pareceria sem dúvida extremamente improvável que ele as criasse apenas para enfeitar de flores o caminho largo e descendente do mundo. Alguns homens sempre tratam a riqueza de estilo como se fosse resultado de esforço; como se o pinho, que sempre deve a sua cor à arte, dissesse ao mogno, ao bordo ou ao jacarandá: “Que trabalho deve ter custado produzir todos esses veios!” Trabalho nenhum: está tudo na própria fibra da madeira.
Ao mesmo tempo, o intelectualismo dos nossos dias é algo tão inteiramente alheio ao exercício do poder da mente, que nos parece mais uma tentativa de fabricar grandes inteligências do que um esforço honesto de aproveitar da melhor maneira a inteligência que Deus deu. O uso do poder artificial é fazer coisas comuns assomarem numa grandeza nebulosa; o uso do poder real é tornar concepções fortes, novas, raras ou vastas claras ao olhar comum, ou levar ao coração comum o que pareciam frias abstrações intelectuais. Considerado apenas como amostra de poder natural, que admirável o efeito daquele único toque pelo qual o homem mais simples da cristandade, desde o tempo do nosso Senhor até hoje, tem sido capaz de ver nas belas vestes de um lírio uma garantia do cuidado da providência com a sua roupa, e de ouvir, no gorjeio alegre de um pardal, uma garantia do mesmo cuidado em alimentar a ele e a seus filhos. Tudo o que for usado com o fim de tornar a verdade divina clara ao entendimento dos homens, de impor a lei divina à consciência ou de recomendar o amor divino ao coração, com isso o Espírito operará e a isso dará vida; mas tudo o que for usado meramente para provocar espanto ou admiração pelas faculdades de quem fala será abandonado por aquele Poder sagrado que se move, nunca para glorificar um homem aos olhos de outro, mas para revelar as coisas de Deus às suas criaturas extraviadas.
É muito provável que não poucos se enganem com a ideia de sublime de Burke, segundo a qual uma ideia clara não é senão outro nome para uma ideia pequena; noção que ele sustenta citando a visão de Elifaz e atribuindo o sentimento de sublime que essa descrição imediatamente transmite à névoa e ao mistério com que o assunto é envolvido. Mas ele perde de vista o fato principal: o mistério está não no meio, mas no objeto. Numa linguagem clara como a luz do céu, aquele objeto é apresentado à mente; e, olhando através desse meio puro e iluminado, vemos o que se pode ver do objeto. Isso basta apenas para nos dizer que não é coisa comum, mas algum ser misterioso, indício de todo um mundo de espíritos invisíveis; e é isso que traz consigo a ideia do terrível e do infinito e, portanto, do sublime. Se ele tivesse dito que a compreensão completa em nossa mente indica um objeto finito, sem dúvida teria acertado; mas, para que a nossa impressão da infinitude de um objeto seja profunda, algum sinal de infinitude tem de ser claro.
Que aqueles, então, que querem exercer poder sobre nós apresentem à nossa mente objetos tão grandes, se quiserem, que só possamos vislumbrar alguma parte inferior ou posterior deles; mas que esse vislumbre seja tal que nos dê uma noção do todo tão claramente quanto um raio perdido da luz da manhã traz consigo toda a ideia do sol e do céu. Que os seus grandes pensamentos se vistam de qualquer linguagem, por mais simples ou por mais esplêndida, contanto que seja clara, que o meio não obscureça a nossa visão do objeto a ser contemplado, confundindo a nossa percepção da sua natureza ou das suas dimensões; e contanto também que fique evidente que a ideia que os governa não é literária, mas religiosa: não “sair-se bem” e agradar ao auditório, mas produzir impressões religiosas imediatas e duradouras. Que tragam diante da nossa alma as alturas, as profundidades, os comprimentos e as larguras das glórias reveladas de Deus. Sejam eles simples no estilo como o mais humilde camponês que passa à nossa porta, sem uma única ideia poética na mente nem uma única expressão poética no vocabulário além das que a sua Bíblia lhe deu (e muitos desses homens simples serão sempre empregados nas mais eminentes e gloriosas obras de Deus); ou tenham todas as suas expressões o ardor de um fervor sobre-humano ou o brilho de uma imaginação sobre-humana, rivalizando com os profetas antigos na riqueza das imagens, na sua púrpura, no seu escarlate, no seu ouro, nas suas pedras preciosas, no seu incenso e na sua mirra: em qualquer caso produzirão em nós efeitos saudáveis, alimentarão o nosso espírito com o pão dos anjos ou encantarão as nossas meditações com a providência de Deus, com a sua obra da graça ou com as moradas eternas preparadas para os que o amam.
Repetimos: não é de algum estilo particular, seja a extrema simplicidade, seja a alta elaboração, seja o que for, que esperamos que o ministério adquira um poder capaz de renovar o mundo. Que o estilo seja regido pelos dotes naturais de cada um; mas, quaisquer que sejam esses dotes, que todos sejam empregados numa única direção: cumprir uma embaixada de Deus às almas dos homens pecadores. Quanto maior a variedade de talento e de estilo, mais o púlpito se parecerá com a Bíblia, e mais eficazmente se fará a sua obra; mas que nenhuma forma de talento jamais seja aceita no lugar do poder. Pois precisamos de poder: poder que os piedosos acolherão como próprio para transmitir graça aos que ouvem; poder que os ímpios temerão, como certo de torná-los inquietos nos seus pecados ou então de obrigá-los a endurecer o coração, como quem recusa a voz de Deus.
Tirem do ministro o poder espiritual e, ainda que nos deem o porte mais distinto, a eloquência mais rica, a especulação mais sutil e fascinante, vocês nos deixam sem nenhuma sensação de estar ouvindo um homem de Deus. Se as multidões da igreja cristã dessem a isso o devido valor e pusessem a correção e o intelectualismo no seu devido lugar, a ideia de que um homem poderia passar honrosamente por ministro apenas por executar com cuidado uma cerimônia, ou por tecer teias de linguagem curiosa e engenhosa, estaria tão longe da mente dos homens quanto está hoje a ideia de que alguém possa ganhar renome como soldado sem coragem, como pintor sem habilidade de mão ou como músico sem ouvido para a melodia.
O efeito mais baixo (pois menos que isso é efeito nenhum, ou um efeito negativo) que um ministro cristão pode produzir é simplesmente agradar ao auditório; logo depois vem o de espantá-lo; pois ambos os efeitos terminam nele mesmo, e, quando certa quantidade de admiração foi gasta com ele, toda a colheita do seu trabalho está recolhida: uma colheita pobre e escassa, que basta apenas para fazer passar a hora presente, mas não deixa semente para a semeadura futura nem provisão para o tempo vindouro. A criatura que cobiça e alcança a recompensa de ser tida por “pregador aceitável” (louvor miserável, próprio apenas de um orador impotente e sem alma), mas não abala o coração de nenhum pecador, não traz de volta aos braços de nenhum pai um filho pródigo, não alegra a alma de nenhuma mãe com a conversão dos seus filhos, nem jamais faz um crente sentir que a sua pregação inaugurou uma era nova e feliz na sua vida espiritual, pode tecer belos parágrafos para a mortalha das almas que estão morrendo em suas mãos; pode celebrar sobre almas mortas as solenidades do “sepultamento cristão”; mas, quando o corpo também morrer, e depois, quando a trombeta soar e as sepulturas forem abertas, que recompensa coroará a sua ressurreição?
Assim como nenhuma variedade de talento é eficaz para os fins do ministério sem poder espiritual, assim também, quando acompanhada desse poder, toda forma de talento o é. Os refinados estão prontos a exigir certo estilo comedido, no qual, acima de tudo, não haja extravagância alguma, nem na composição nem na apresentação. Por outro lado, os pobres custam a reconhecer o poder, a menos que venha acompanhado de força de voz e de veemência física. Alguns dão pouco valor ao que é apenas exortativo ou declamatório; outros, por sua vez, não conseguem imaginar que uma argumentação cerrada, ainda que ilumine, possa jamais despertar ou converter. E assim a maioria das pessoas corre o perigo de traçar um círculo ideal estreito, dentro do qual gostariam que o Espírito cooperasse com a ação do homem.
Muitas vezes nos dizem, com grande seriedade, qual é o melhor estilo para pregar; mas o fato é que aquilo que seria o melhor estilo para um homem talvez fosse o pior possível para outro. Na declamação mais ardente, os princípios mais profundos podem ser expostos e aplicados com força; no raciocínio mais calmo e lógico, motivos poderosos podem ser impostos de perto aos sentimentos; ao discutir algum princípio geral, porções preciosas do texto da Escritura podem ser esclarecidas; e na exposição simples, princípios gerais podem ser apresentados com eficácia. Basta que as faculdades dadas a qualquer homem atuem com toda a sua força, ajudadas por todo o tesouro de conhecimento divino que aquisições contínuas, colhidas da sua fonte e dos seus canais mais puros, lhe possam proporcionar; e, estando presente o fogo, o fogo do poder e da influência do Espírito, os efeitos espirituais virão.
A discussão sobre o estilo equivale em grande parte a discutir se o rifle, a carabina, a pistola ou o canhão é a melhor arma. Cada um é o melhor no seu lugar. O ponto principal é que cada um use a arma que mais lhe convém, que a carregue bem e cuide de que esteja em condições de disparar. As críticas que muitas vezes ouvimos se reduzem a isto: admitimos que fulano é um bom pregador exortativo, ou um bom pregador doutrinário, ou um bom pregador prático, ou um bom pregador expositivo; mas, porque não tem as qualidades de outro (qualidades talvez opostas às suas), fazemos pouco caso dele. Isto é, admitimos que a carabina é uma boa carabina; mas, porque não é um rifle, nós a condenamos; e, porque o rifle não é um canhão, também o condenamos.
Nada pode levar mais diretamente ao desperdício de poder do que a tentativa de desviar a mente do seu curso natural de ação para outro para o qual ela não é apta. Em vez de recorrer a isso com a ideia de moldar todos segundo algum modelo preconcebido, seria melhor ensinar todos a reconhecer, na variedade dos caracteres individuais, mais uma prova da multiforme sabedoria de Deus.
Às vezes é notável quão pequena porção de poder intelectual ou literário se combina com um poder espiritual considerável, ou mesmo dominante. Um homem que, pelo talento natural, impressionaria um auditório menos do que a maioria, pode, pela unção superior do Espírito, produzir impressões religiosas e fazer brotar frutos religiosos que homens mais sábios e maiores poderiam invejar. Possuindo isso, os seus outros defeitos têm comparativamente pouca importância. Um general pode ter muitos defeitos de caráter, de temperamento e de hábitos sem perder o comando sobre os seus homens; mas, se os seus defeitos forem contrários ao ofício de soldado, se, acima de tudo, lhe faltar coragem, então inevitavelmente declina a sua autoridade sobre eles. Assim também um estadista pode ter mil defeitos que não afetem diretamente a arte de governar e ainda assim manter o seu ascendente sobre a mente da nação; mas, se mostrar falta de sagacidade política, logo o seu ascendente desaparece. Do mesmo modo, se um ministro do evangelho for com justiça descrito como “árido”, isto é, se der a ouvintes piedosos e sinceros a impressão de que habitualmente transmite as verdades divinas sem nenhuma unção que comova a sua própria alma ou as dos outros, a falha é fatal. É o que a covardia é para o soldado, a insensatez para o estadista ou a coxeadura para o corredor. A influência de um homem assim sobre a consciência há de se perder sem remédio. Que tenhamos antes o homem do mais humilde talento ou da mais simples instrução, que consiga dizer-nos uma palavra que faça estremecer a alma dentro de nós, do que aquele que não possui tal poder, ainda que saiba lutar contra todo preconceito ou estimular e fascinar todas as faculdades.
Sendo o poder de que falamos nada mais nada menos que a cooperação do Espírito Santo com o pregador, aquilo que é essencial à sua presença deve estar, primeiro, no estado do coração do pregador; segundo, na substância do seu discurso. É preciso haver uma alma que esteja ela mesma em comunhão com o Santo, e é preciso haver raios de verdade, a própria verdade de Deus, irradiados dessa alma para os outros, ao longo dos quais a influência secreta do Espírito possa ser comunicada de coração a coração. O pregador deve primeiro absorver o fogo divino e depois guardá-lo no coração, como uma garrafa de Leyden guarda a eletricidade invisível; e, feito isso, deve ter um condutor para comunicá-lo aos que estão diante dele. A menos que a verdade de Deus seja proferida e dirigida na direção certa, dirigida ao auditório, à sua consciência, seja pela via da imaginação, do entendimento ou das emoções, ainda que ele mesmo tivesse o poder do Espírito, não conseguiria transmiti-lo aos outros. Há um só condutor, e esse é a palavra da vida.
Suponham que uma pessoa que deseja enviar uma mensagem de Londres a Edimburgo pelo raio saiba construir uma bateria elétrica; mas, quando vai pensar em como transmitirá o impulso através de centenas de milhas, olha para um fio de ferro e diz: “Isto é opaco, insensível, frio, não tem afinidade alguma com a luz; é antinatural, na verdade irracional, imaginar que esta coisa escura possa levar uma mensagem relâmpago num instante.” Daí ela se volta e olha para um prisma. Ele resplandece com o raio de sol de muitas cores. Ela poderia dizer: “Isto tem afinidade com a luz”, e no seu brilho imaginar que via a prova de que a sua mensagem correria através dele; mas, quando faz a experiência, descobre que o prisma brilhante não transmite nenhum toque do seu fogo silencioso, ao passo que o ferro opaco o levará até o extremo mais distante do país. Assim é com a santa verdade de Deus, e só com ela. Ela é apta para levar à alma do homem o fogo secreto que escreve, diante dos olhos interiores da alma, uma mensagem do Invisível que está nos céus. Outros condutores propostos podem cintilar mais à luz vistosa, mas não transmitirão o fogo invisível.
Repetimos ainda que esse fogo pode combinar-se com qualquer forma de talento e com qualquer estilo de composição. Quem não viu um homem tranquilo, cujo tom raramente se elevava à paixão e nunca ia além do gosto mais severo; cujo pensamento, porte e expressões respiravam todos um espírito manso e tranquilo; e, no entanto, com o fluxo plácido da instrução ou da exposição, uma influência celestial deslizava silenciosamente, penetrava nas veias do coração, difundindo um calor sagrado, um desejo de ser mais santo, um senso da proximidade de Deus, um refrigério de todos os bons princípios que havia em vocês, um freio e uma contenção sobre todo o mal? Vocês também já viram um homem que começa com algum argumento calmo, passa a outro ponto rigorosamente raciocinado, o qual por sua vez o leva a outro golpe bem dirigido contra algum erro ou preconceito; nenhum jogo de imaginação, nenhum golpe direto ao coração de vocês, mas um único e firme corpo a corpo com o intelecto: um discurso que seria declarado “árido”, não fosse um poder misterioso que o acompanha, não nas frases, não nos silogismos, não nos gestos, não no tom, mas um espírito infundido em tudo, que faz o raciocínio transformar-se em poder espiritual e parece pôr a lei de Deus na mente de vocês e, ao mesmo tempo, escrevê-la no coração. Vocês veem ainda um homem que começa logo com quadros e, da história, da natureza, da Bíblia, da ciência, faz surgir diante de vocês uma sucessão de cenas encantadoras ou comoventes, brincando o tempo todo com a fantasia de vocês como um poeta poderia fazer; e, no entanto, cada quadro leva algum impulso sagrado à alma e deixa para trás uma lição moral e força moral. Outro homem avança simplesmente numa exposição direta de alguma grande doutrina, desdobrando os seus diversos ramos, definindo, cercando de salvaguardas a sua definição, protegendo-a de possíveis mal-entendidos, estabelecendo distinções sutis, e parecendo ocupado principalmente em dar a uma verdade uma forma compacta e portátil na mente de vocês; mas, de algum modo, essa única verdade que ele assim explica e define desperta no peito de vocês as vozes de todas as outras verdades e faz brotar, de cada coisa sagrada que vocês já conheceram, um apelo em favor da vida santa. Outro supõe que vocês já sabem tudo o que é preciso saber; e, apoderando-se das verdades que estão dentro de vocês, da consciência com a sua luz, do temor, da esperança ou do amor, do instinto de conservação ou de algum outro dos princípios imortais da natureza de vocês, derrama sobre vocês uma sucessão de declamações ardentes, exortando-os àquilo que é reto. Não lhes dá nada que amplie o conhecimento, nada que alimente ou sequer exercite as faculdades de raciocínio, nada que enriqueça o tesouro da fantasia ou aperfeiçoe a concepção da verdade; e, no entanto, a sua declamação traz um poder santo que os domina mais do que a força de homens de mente vigorosa; e boas resoluções e esperanças, muitas vezes vencidas em dias passados, levantam-se outra vez à voz desse homem simples, e vocês o seguem até os pés do Salvador.
Vem, pois, com a voz que quiseres, tu, mensageiro do meu Redentor revestido de poder. Vem com o trovão na língua ou com a doce “lira de dez cordas” (Sl 33.2); vem a nós simples como uma criancinha ou sábio como um escriba instruído por Deus; mas, ah, deixa-nos apenas sentir na tua mensagem aquele fogo que não está nas frases nem no tom, mas num coração inflamado do alto, que derrama fogo no nosso coração.
Assim como encontramos todos esses tipos de homens revestidos de poder divino, assim também encontramos cada um deles desprovido dele. Vocês têm o homem manso, longe de qualquer extravagância, que nunca atrai sobre si uma palavra de censura nem causa ao auditório um só sentimento de inquietação; mas, ah, quão tristemente passam sobre ele anos e anos! Anos preciosos, e nenhuma alma é convertida, nenhum rebanho cresce; o campo onde ele trabalha nunca está maduro para a colheita, e para ele é sempre tempo de semear! Muito provavelmente ele se contenta com isso e lhes dirá que, na sua esfera, embora nada de extraordinário esteja acontecendo, as coisas são animadoras. Placidamente segue adiante, embora saiba bem, e todos os que observam a sua trajetória saibam bem, que por longos, longos anos seria difícil dizer que vida espiritual floresceu sob a sua mão. Assim também vocês podem encontrar o argumentador, claro, convincente e vigoroso, que os alista do seu lado, talvez os inflame a favor dele, talvez os incite contra tudo o que se opõe ao seu sistema; mas nenhum pecador se torna santo pelo seu raciocínio; e ainda assim ele repousa bem satisfeito sobre o miserável resultado de ter defendido habilmente o seu ponto de vista: um advogado que mostrou ao júri que é mestre em direito, mas perdeu a vida do seu cliente. E vocês podem encontrar o expositor, que abre parágrafo após parágrafo com rara sutileza de análise, enquanto os seus ouvintes aprendem alguma coisa da palavra de Deus e, nessa medida, ficam mais preparados para ser bons cristãos, se um dia se converterem; mas com a sua exposição nunca vem nenhum poder de conversão: talvez, de fato, ele nem pense que a sua vocação seja converter pecadores. Vocês podem encontrar também o homem de imaginação, que toca brilhantemente os diversos instrumentos da natureza e da ciência. O seu auditório fica deslumbrado, talvez arrebatado; mas quem dentre eles vai para casa, para o seu quarto, buscar o seu Salvador, ou se levanta anos depois para bendizer o pregador? Ele foi enviado para combater, mas soltou fogos de artifício diante do inimigo, e este, em vez de fugir ou cair, apenas disse: “Que espetáculo!” Também podem ouvir o declamador, cujas exortações parecem tender todas para o único ponto de produzir um resultado prático; há gritaria, e o ímpeto e a convulsão de grande veemência; mas é como o estampido oco de um canhão sem bala.
Essa ausência de poder às vezes é tão evidente que a alma que veio à casa de Deus em busca de pão sente dolorosamente que está recebendo uma pedra; e esse sentimento nunca é tão doloroso como quando tudo o que deveria acompanhar o poder espiritual está presente, a verdade bem entendida e bem exposta, todos os traços e a forma exterior que nos levariam a esperar vida, mas, quando nos aproximamos, não há fôlego nela. Às vezes se pode ver que essa coisa sem alma não é uma figura de cera que nunca respirou, mas um cadáver do qual a vida se foi. As verdades, hoje proferidas com tamanha impotência, um dia fizeram estremecer os homens ao saírem daqueles lábios; os apelos que agora rangem como um carrilhão de sinos rachados um dia arrastaram multidões. Em dias passados muitos se levantaram para bendizer esse homem como mensageiro de Deus; hoje as suas palavras são como uma história contada duas vezes. Talvez, consciente da perda do poder real, ele se esforce por compensá-la com maior força de oratória física, esporeando-se até a impetuosidade ou inflando-se até uma imponência elevada e solene; mas é como quando um navio, na calmaria, faz as velas se enfunarem com o balanço: elas batem e farfalham, mas não há força nelas, como quando, cheias do vento silencioso, levavam o navio adiante.
Cada um dos efeitos que decorrem da operação do poder espiritual no ministério é indizivelmente precioso; e deve ser penoso para Deus, como é manifestamente prejudicial ao homem, menosprezar qualquer espécie de fruto. Um declara-se tão empenhado em progredir na vida espiritual que a pregação eficaz somente para a conversão de pecadores lhe parece elementar e pobre. Outro está tão exclusivamente ocupado com a condição tenebrosa dos não salvos que a pregação que tende apenas a amadurecer a santidade dos já convertidos lhe parece fora de propósito. Um procura especialmente a pregação que atinja os jovens; outro, a que satisfaça os homens de idade e experiência. Mas todos deveriam aprender que cada tipo de utilidade é valioso demais para ser tratado com leviandade. Aquele que de algum modo é usado como instrumento para beneficiar a alma de qualquer dos meus companheiros de peregrinação aqui deve ser estimado pelo meu coração como um amigo precioso meu.
Onde existe poder espiritual real, ele não ficará inteiramente restrito a uma só classe de efeitos. Aquele que conduz os crentes a uma santidade mais radiante certamente levará os pecadores a ver algo da pecaminosidade dos seus pecados; e aquele que é o meio de converter um pecador do erro do seu caminho é, nesse mesmo ato, o meio de ajudar o progresso de todos os que estão ao seu redor; pois cada um que é separado do mundo e alistado do lado da piedade torna-se uma ajuda para a causa geral do cristianismo no país.
Na nossa época e na nossa nação, não hesitamos em dizer que a forma particular de poder espiritual de que temos mais urgente necessidade é aquela pela qual os homens que conhecem a verdade são levados ao ponto de decidir-se por Deus e de partir com seriedade no caminho do céu. Corremos o perigo de trabalhar como se o terreno ainda precisasse ser semeado, quando os campos estão maduros para a colheita e só precisam de um ceifeiro. Corremos o perigo de pregar como se o povo ou estivesse todo servindo a Deus, ou estivesse todo tão longe da possibilidade de converter-se em breve que fosse preciso abordá-lo como de longe, estabelecendo princípios e deixando-os agir, para que deem fruto depois de muito tempo; quando o fato é que em toda parte o terreno está semeado. Encontramos relativamente poucos homens em cuja mente não haja verdade bastante para despertar a consciência e apontá-los para a cruz, se ao menos essa verdade lhes fosse levada ao coração com poder. Homens aptos como instrumentos para usar o que o povo crê e sabe, a fim de levá-lo a uma decisão por Deus, são os que os interesses da nossa geração reclamam em voz mais alta. Ensinados pelo cristianismo, mas levados cativos pelo pecado, os homens descem aos milhares e às dezenas de milhares, ao mesmo tempo na luz e nas trevas, conhecendo a vontade do seu Senhor, mas não a fazendo; descem para o castigo de muitos açoites. Aquele, pois, que consegue fazer essas multidões parar e pensar, sentir aquilo que creem, agir conforme aquilo que sentem, clamar: “Senhor, salve-me! Estou perecendo!” (Mt 8.25; 14.30), esse é o mais distinto e o mais bem-aventurado de todos os servos que o Senhor honra.
Curar o leproso, abrir os olhos do cego, fazer andar o coxo e fortalecer o paralítico eram obras grandes e benditas; mas todos esses sofredores eram homens vivos; e, por maior que fosse a obra de curá-los, ressuscitar os mortos era muito maior. Bem-aventurados são vocês entre os homens, a quem o nosso Senhor e Mestre concede a honra de ajudar, curar ou restaurar qualquer das almas que estão vivas, mas não em perfeita saúde; mas três vezes bem-aventurado és tu, meu irmão, cuja feliz sorte é estender a tua alma sobre uma alma morta, como Eliseu se estendeu sobre o filho morto da sunamita, e levantá-la respirando e invocando a Deus! Ah, quem nos dera mil homens revestidos de poder para converter! Melhor eles do que dez mil vezes esse número, por mais dotados, por mais instruídos, por mais agradáveis que sejam, que estejam desprovidos dessa graça suprema do mensageiro de Deus!
O nosso Senhor disse: “Aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço e outras maiores fará, porque eu vou para junto do Pai” (Jo 14.12). Por “obras maiores” ele não podia referir-se a milagres mais assombrosos; pois as maravilhas operadas pelas suas próprias mãos tinham atingido os limites do possível. Milagres maiores do que ressuscitar os mortos e fazer que os ventos e os mares lhe obedecessem não seriam realizados. Além disso, mostra-se que as “obras maiores” a serem feitas têm um caráter especial pelo fato de que deviam existir em conexão com uma nova ordem de coisas: “porque eu vou para junto do Pai”. Não temos dúvida quanto àquilo que dependia especialmente da sua ascensão. Era o batismo do Espírito Santo. E podemos, portanto, concluir razoavelmente que a “obra maior” do que todas as outras obras que se pudessem fazer era aquela obra que ele mesmo, do céu, anunciou ao seu servo Paulo como o propósito da sua missão: “para abrir os olhos deles e convertê-los das trevas para a luz e do poder de Satanás para Deus, a fim de que eles recebam remissão de pecados e herança entre os que são santificados pela fé em mim” (At 26.18). Esse foi o fim da sua própria vida e morte, essa foi a coroa da sua própria glória: “você porá nele o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles” (Mt 1.21). Somente em homens realmente salvos dos seus pecados a sua alma, aflita e ferida, previu o fruto do seu trabalho, com o qual ficaria satisfeita. Somente em homens realmente salvos dos seus pecados enquanto ainda na carne, enquanto cercados de tentação, podia ele prever a possibilidade de glorificar o seu Pai na terra, pelos seus próprios ramos dando muito fruto, pela sua própria vida, “a vida de Cristo manifestada em corpos mortais” (2Co 4.10-11). Somente por isso podia ele ver aquilo que comprou tão caro: uma igreja santa formada dos filhos caídos de Adão. Somente por isso podia jamais ser assegurada a sua alegria particular, a alegria que lhe estava proposta, a alegria de “conduzir muitos filhos à glória” (Hb 2.10). Para esse único resultado apontava toda a sua obra; sobre isso giravam todos os interesses do seu reino.
Nenhuma glória do Eterno é mais elevada do que esta: “poderoso para salvar” (Is 63.1); nenhum nome da Divindade é mais adorável do que o de “SALVADOR“; nenhum lugar entre os servos de Deus pode ser tão glorioso como o de instrumento de salvação. “O que ganha almas é sábio” (Pv 11.30). “Os que conduzirem muitos à justiça brilharão como as estrelas, sempre e eternamente” (Dn 12.3). Sob a nova dispensação, os mensageiros do Senhor, abundantemente cheios do Espírito, tendo a cruz como tema e o batismo de fogo como impulso, deviam sair como homens com quem Deus operaria, acompanhando a sua palavra com os sinais que se seguiam. Era grande expulsar demônios do corpo; é maior expulsá-los das almas e da sociedade. Era grande curar os enfermos ou alimentar os pobres; é maior curar as fontes da doença e da miséria, convertendo corações pecadores à pureza. Aquele ao redor de quem continuamente surgem novos convertidos do pecado para a santidade; aquele cuja voz muitos bendizem como tendo sido para eles a trombeta de Deus; aquele que, no grande dia, terá como coroa de alegria dezenas, centenas ou milhares de pessoas para as quais muitos outros foram “instrutores”, mas somente ele foi “pai” (1Co 4.15): esse se eleva a tal alegria e dignidade que pode olhar para trás, para os melhores e mais honrados dos antigos servos de Deus, e sentir que, em comparação com eles, só tem de ser grato pela sua própria sorte, mais bem-aventurada. Não precisa invejar a vara de Moisés, nem a harpa de Davi, nem o manto de Elias, nem a sabedoria de Salomão; pois a sua própria coroa e o seu próprio prêmio são os mais altos a que o homem pode aspirar. Quão perto o servo é trazido do Mestre! O Mestre é Salvador; o servo, o instrumento da salvação.
Quando falamos de poder ministerial, nunca se deve entender que estejamos dando a entender que qualquer medida de poder no ministro há de necessariamente subjugar os seus ouvintes. O que se pode esperar com plena confiança como resultado do poder que habita no ministro é que ele fará cada ouvinte sentir que um poder espiritual está lutando com ele, levando-o ou a ceder à voz que o adverte, ou a erguer uma resistência consciente. “Por pouco você me convence” (At 26.28) é a linguagem de quem mal consegue impedir-se de ceder à força que o impele para Cristo. Félix ficou amedrontado e disse: “Por agora, você pode retirar-se, e, quando eu tiver oportunidade, mandarei chamá-lo” (At 24.25). Eis um homem conscientemente sob o impulso de um poder que o empurra para um resultado que ele teme; e, para escapar à sua influência, adota o recurso habitual de “adiar por algum tempo”. Mas o próprio despertar dessa resistência consciente, o estabelecimento dessa luta no peito dos homens, é em si mesmo uma prova de poder; e aquele que consegue fazer isso, embora tenha os seus Agripas e os seus Félix por quem lamentar, terá sem dúvida muitos outros com quem se alegrar.
Um lavrador que a vida inteira semeou, mas nunca levou para casa em segurança um só feixe de trigo; um jardineiro que sempre podou e conduziu as plantas, mas nunca colheu um só cesto de frutos; um comerciante que negociou a vida inteira, mas nunca encerrou um ano com lucro líquido; um advogado a quem foram confiadas, por anos e anos, as causas mais importantes, e que nunca ganhou uma só; o médico que foi consultado por milhares de doentes e nunca devolveu a saúde a um só paciente; o filósofo que passou a vida propondo princípios e tentando experiências todos os dias, mas nunca conseguiu uma só demonstração: todos esses seriam homens envergonhados e humilhados. Andariam pelo mundo de cabeça baixa, reconheceriam ser fracassos, não ousariam levantar os olhos entre os da sua própria profissão; e, quanto a serem respeitados pelos outros, a compaixão seria tudo o que poderiam receber. E, no entanto, ah, não há casos em que homens cuja vocação é curar almas passam anos e anos, e raramente, se é que alguma vez, se pode ver algum fruto do seu trabalho? Ainda assim mantêm a cabeça erguida e têm boas razões para explicar por que não são úteis; e essas razões geralmente estão, não neles mesmos, mas em outro lugar: na época, na vizinhança, na agitação ou na apatia, na ignorância ou no excesso de instrução, na falta da luz do evangelho ou na abundância da luz do evangelho, ou em alguma outra razão pela qual a maioria dos que os ouvem deva continuar não convertida, e pela qual eles possam ficar olhando em repouso, sem bater no peito e clamar dia e noite a Deus que sopre sobre eles um poder pelo qual possam despertar os que dormem. Provavelmente têm coisas sábias a dizer sobre a inconveniência de ficar ansioso demais pelo fruto e sobre a vantagem de que a obra avance firme e lentamente, em vez de buscar a agitação e uma enxurrada de convertidos. Mas, enquanto eles assim cochilam, os pecadores vão para o inferno.
É lamentável ver um ministro que, a vida inteira, julgado pelo fruto do seu trabalho, esteve desprovido do poder do Espírito; mas há algo ainda mais tocante de ver, como, infelizmente, às vezes vemos: alguém que em seus primeiros dias tinha verdadeiramente um dom de Deus em si tornar-se fraco como os outros homens, sem unção e sem fruto. O dom, não reavivado, se foi; o poder, não renovado e renovado outra vez por novos suprimentos, o abandonou. Talvez, desejoso de maior eficiência, tenha acumulado conhecimento; não conhecimento demais, pois ninguém pode ter conhecimento demais; mas não manteve a devida proporção entre a aquisição de conhecimento e a aquisição de poder espiritual. É como quem despeja carvão sobre um fogo fraco, com a ideia de fazer um grande fogo, até que as poucas brasas vivas fiquem sufocadas sob uma massa negra. Talvez outro tenha ido justamente ao extremo oposto e, com medo de abafar o seu fogo vivo, deixou-o arder sem alimentá-lo constantemente com verdade, conhecimento, experiência e reflexão; e o seu fogo se extinguiu. Talvez outro, começando a desconfiar da sua arma simples, que não tinha enfeites e só sabia acertar em cheio, tenha arranjado para si uma espada cravejada de joias, de lâmina de ouro, mas descobre que o fio se entorta à menor resistência. Talvez outro, que costumava trovejar como um segundo Batista e fazer ressoar nos ouvidos de almas adormecidas, com um poder sobrenatural e despertador, as verdades da lei eterna, da ressurreição, do juízo e do mundo vindouro, comece a desejar algo mais sedutor, menos penoso para os sensíveis, mais aceitável para os circunspectos, mais “atraente”, como se diz; e agora vocês podem encontrá-lo numa absurda combinação de força e fraqueza: um artilheiro operando canhões pesados, mas com canos de prata, pólvora perfumada e balas de mel congelado.
No decorrer da vida de um homem, muitas vezes acontecerá que surjam grandes variações na sua utilidade; mas, se ele andar com Deus, conservar a sua integridade e progredir firmemente no conhecimento e na fé, embora a forma da sua utilidade possa mudar, ela nunca se transformará em inutilidade. Quando o rubor e o calor do ardor juvenil desaparecerem, serão substituídos, não pela insipidez ou pela mansidão sem vida, mas por mais daquela unção que eleva e santifica. Há uma lei da mecânica, cuja contrapartida moral vemos em tais homens: o que se perde em velocidade se ganha em força. E, no entanto, esses homens, embora possam ser abençoados com grande utilidade, se não virem conversões como as que alegraram os seus primeiros dias, sempre olharão para trás com saudade e humilhação. Nunca deixarão de honrar, acima de todos os seus irmãos, aqueles a quem Deus honra fazendo deles instrumentos de muitas conversões; nem de cobiçar, com um desejo mais ardente do que poderiam sentir por qualquer outra distinção, alegria ou dom, que lhes seja restituído o poder de persuadir os pecadores a se reconciliarem com Deus.
Não pode haver coisa mais lamentável do que ver um homem que, ele mesmo desprovido de poder ministerial, não só não tem consciência de quão miserável criatura é, mas está até pronto a fazer pouco da utilidade dos outros e, na sua conversa comum, a pôr aqueles a quem o Senhor honra como instrumentos da conversão de pecadores abaixo do que ele chama de homens “intelectuais”, finos monologadores ou especuladores curiosos, que distribuem iguarias do púlpito, mas não fazem nenhuma obra que viva depois que eles morrerem. Esse modo de depreciar os úteis e os fervorosos, penoso em qualquer pessoa, torna-se assustador quando sai dos lábios de um homem que, numa fase da sua própria vida, foi notavelmente útil, mas perdeu o seu fogo, e que, em vez de lamentar e procurar recuperá-lo, é capaz até de fazer pouco dos que conservaram o deles. “Não é difícil converter criadas”, e outras expressões depreciativas como essa podem escapar levianamente de um lábio irrefletido; mas afetarão os ouvintes e serão lembradas no grande dia. E quão diferentes parecerão os dois homens: aquele cujo trabalho humilde foi o meio de converter criadas, e aquele cuja inveja e cujo espírito se derramaram em fazer pouco da obra!
Ah, que aqueles de nós cuja história mostra com clareza demais que nenhum poder extraordinário de Deus repousou sobre nós; que podemos olhar para trás e ver anos de trabalho que, se não foram absolutamente estéreis, em comparação com o que outros colheram têm de ser chamados anos de esterilidade; que não deixemos de bendizer e de honrar, no nosso próprio coração, aqueles que nesse meio-tempo nos têm feito bem com as notícias que de vez em quando nos chegam do fruto do seu trabalho. Acima de tudo, olhemos para os nossos anos de esterilidade com a mais terna e contrita humilhação, clamando com fervor a Deus que tire de nós o nosso opróbrio entre os homens e nos dê muitos, muitos filhos.
Um ministro nunca pode ser responsável pelo êxito, mas é responsável pelo poder; responsável não só por apresentar a verdade ao povo (no que muitos parecem pensar que termina a sua responsabilidade), mas responsável também por isto: que a verdade que apresenta não seja árida, mas acompanhada de alguma energia do Espírito. Se o Espírito estiver no homem, brilhando sobre a sua alma com a luz de Deus, mais ou menos de fogo santo acompanhará a palavra. Um corpo com força muscular, mas sem energia nervosa; um rosto de linhas graciosas, mas sem expressão; uma agulha de bússola sem magnetismo: nada disso é mais defeituoso do que a exposição da verdade religiosa sem o poder do Espírito Santo que a acompanhe. Esse poder foi pressuposto na primeira entrada do homem no ministério. Ele está ali em virtude da sua solene declaração, diante de Deus e dos homens, de que o sentia no coração; e é obrigado a reavivar o dom de Deus que está nele, a manter a lâmpada preparada e a luz acesa, e a abastecê-la sempre de óleo santo.
Esse poder tem uma só fonte: o Espírito de Deus na alma do homem. É a única coisa que não se pode fingir. Um hipócrita pode possuir a verdade, explicá-la com clareza, insistir nela com força e aplicá-la com paixão. Pode fingir ternura, fingir ardor, fingir todas as paixões; mas não pode fingir o poder que sonda a consciência, que faz os homens sentirem que “Deus está, de fato, no meio de vocês” (1Co 14.25), que os leva, no silêncio do próprio quarto, a molhar o leito com lágrimas e a passar longas noites em arrependimento diante de Deus. Seria o mesmo que tentar fingir vida num olho morto, ou música numa voz rachada, tentar fingir o poder do Espírito Santo numa alma que não espera habitualmente diante do trono da graça até ser revestida do poder que vem do alto.
Aqueles de nós que manifestamente não estamos revestidos de grande poder, que não podemos nos lisonjear de que alguém nos veja como mensageiros abençoados de Deus, ou sob qualquer luz mais elevada do que a de homens bem-intencionados e úteis, por cujo ministério talvez, de vez em quando, a raros intervalos, se possa ouvir falar de algo como a conversão de um pecador, e que ainda assim nos sentimos pouco inclinados a lançar sobre o nosso próprio coração alguma culpa pela nossa esterilidade, somos os mais capazes de julgar quanto tempo foi gasto nos nossos quartos lamentando o estado das almas que perecem diante dos nossos olhos, em forte clamor e lágrimas a Deus pela sua libertação, em importunar e implorar que fôssemos revestidos de poder e capacitados a soprar um toque de despertar e a arrancar multidões das garras do diabo.
Cada um de nós, por si mesmo, é quem melhor pode dizer se os resultados do seu trabalho correspondem de fato à profundidade, à intensidade e à continuidade da sua busca secreta do fogo do Espírito que coopera conosco. Se, ao fazer esse exame, nos parecer claro que muito, muito mais poderia ter sido feito na nossa vida particular com Deus para que a nossa própria alma fosse impregnada do Espírito de Cristo e dos apóstolos de Cristo, então cada um conclua por si mesmo se muito mais poderia ou não ter sido feito para “salvar os que o ouvem” (1Tm 4.16). E, se a conclusão em nossa mente for clara de que mais poderia ter sido feito, muito mais; de que deveria ter sido feito; de que somos verdadeiramente culpados por indolência, por incredulidade, por oração fraca e ineficaz, por duplicidade de propósito ou por qualquer outra falha no cuidado da nossa própria alma como embaixadores de Deus, que a nossa penitência seja profunda e o nosso clamor por perdão, insistente e fervoroso. Mas que ela não tome, nem por um momento, aquela forma que estranhamente enfraquece e debilita um homem, a saber, o estado de espírito em que alguém sente prazer em falar da própria fraqueza e indignidade, ou ao menos encontra alívio suficiente em falar disso. Antes, tenhamos a certeza de que o Deus da graça e da misericórdia ouvirá a nossa voz, responderá à nossa oração, perdoará a nossa infidelidade passada, se aproximará de nós com poder novo e gracioso, e nos capacitará a sair como gigantes revigorados pelo vinho novo, para arrebatar dos braços do adversário, em triunfo e com brados, muitos cordeiros que estão prestes a ser despedaçados.
Não podemos nos contentar em ver o ministro desta hora presente como algo menos, no propósito do nosso Deus e Salvador, do que um instrumento “do grande poder de Deus” (Lc 9.43) [N. do T.: a NAA traz “majestade de Deus”], o poder que é para a salvação. Não esperamos o dom de línguas nem o de milagres, porque esses não eram essenciais à obra do ministério; mas a cooperação ativa, a unção permanente do Espírito Santo, essa é essencial. Se fôssemos obrigados a crer ou que todas as manifestações primitivas do Espírito podem ser alcançadas hoje, ou que todas desapareceram, preferiríamos mil vezes esperar as línguas e os milagres, com o dom de profecia, a abandonar a esperança desta última juntamente com a dos outros dons. Melhor o excesso de fé, mil vezes melhor e mais racional, do que a incredulidade em qualquer promessa que esteja claramente de pé para todas as gerações. Melhor supor que o Senhor quis que todo sinal e toda prova da sua presença continuassem com a sua igreja até o fim, do que supor que todos haviam de ser retirados e que os cristãos dos últimos tempos sofreriam a privação total dos dons ministeriais do Espírito Santo.
Cobiçaremos, cobiçaremos com ardor o bom dom de profecia do Senhor; e cobiçaremos também a “manifestação do Espírito” concedida “visando um fim proveitoso” (1Co 12.7), não só nos pastores da igreja, mas nos membros, dando a um a palavra da sabedoria, a outro a palavra do conhecimento, a outro o espírito da graça e de súplicas, para que homens com fogo no coração vão por toda parte e, em público ou em particular, preguem a palavra, cooperando com eles o Senhor e confirmando a palavra com os sinais que se seguiam. Olhemos para o alto e esperemos ver, não um, ou dois, ou três; não apenas um homem ocasional e extraordinário, brilhando nas igrejas como com uma luz do alto; mas, com sobriedade, constância e oração, esperemos companhias de pregadores, cada um diferente dos seus irmãos, mas todos manifestando de uma forma ou de outra que uma unção que vem do Santo repousa sobre eles, os ensina a respeito de todas as coisas e os capacita a apresentar-se diante dos homens, dizendo não só com palavras, mas, pelos frutos que os recomendam, dizendo à consciência: “Portanto, somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por meio de nós. Em nome de Cristo, pois, pedimos que vocês se reconciliem com Deus” (2Co 5.20). Um só homem assim vale mais do que mil, e dois deles farão fugir dez mil.
Tradução para o português a partir de William Arthur, The Tongue of Fire; or, The True Power of Christianity (1856), na edição de Londres (C. H. Kelly, c. 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.