William Arthur · A Língua de Fogo · Capítulo VIII (conclusão)

A influência do Espírito na conversão e os dons que permanecem

A influência do Espírito Santo na conversão dos pecadores e os dons essenciais que permanecem na igreja.

Viii. A influência do Espírito Santo na conversão

Intimamente ligada à questão do poder ministerial está outra questão vital: se a igreja deve ou não conservar a influência do Espírito Santo na conversão em algo semelhante à escala original. Aqui, mais uma vez, não nos limitamos a combater opiniões formalmente declaradas, mas tratamos de sentimentos vagos, indefinidos, não expressos ou apenas meio expressos, que não estão incorporados ao credo de nenhuma igreja, mas se percebem no tom habitual tanto da conversa religiosa como da literatura e da pregação. Não é um sentimento muito difundido que esperar um número muito grande de conversões de uma só vez é extravagante; que, se um ministro espera que muitos se convertam enquanto ele prega o sermão que tem em mãos, isso indica uma mente pouco equilibrada; que há muito a dizer contra as conversões repentinas; que devemos ficar contentes se a obra de Deus avançar lentamente, e exultar se os homens bons de qualquer comunidade guardarem alguma proporção respeitável em relação ao número dos que se esquecem de Deus?

É manifesto que as conversões realizadas pela igreja primitiva foram muito numerosas, em comparação com os seus meios e recursos; variando grandemente conforme os tempos e os lugares, mas, no geral, avançando com poder crescente. A diferença entre a conversão de um judeu à fé e à santidade do evangelho e a conversão de um cristão nominal à mesma fé e santidade é uma diferença, não de natureza, mas de grau; e o grau não é tão grande como à primeira vista se poderia supor. O judeu cria nos oráculos de Deus e nas verdades neles contidas, até onde os conhecia. O mesmo faz o cristão nominal. Ambos detêm a verdade em injustiça: a injustiça da rebelião declarada ou da justiça própria farisaica. Ambos são levados a conhecer o amor de Deus na redenção do homem, a arrepender-se, a crer no Messias crucificado como seu Salvador e a andar em comunhão com o Pai e com o Filho.

A conversão de um pagão envolvia muito mais esclarecimento intelectual e, no conjunto, apresentava maior dificuldade e maior mudança; mas não vemos que os apóstolos jamais apontem diferença alguma na operação do Espírito na conversão de um escriba judeu e de um feiticeiro pagão, de um centurião romano e de uma viúva de Jerusalém. O mesmo grande poder convenceu a todos do pecado, da justiça e do juízo, e os nivelou pelas feridas de um espírito abatido; então, como os que tinham diversas enfermidades, que vinham todos a Cristo e eram todos curados, vieram bárbaro e cita, escravo e livre, judeu e grego, instruído e ignorante.

Se tomarmos os cento e vinte discípulos que formavam a igreja no dia de Pentecostes, e depois tomarmos o número de cristãos antes do fim do primeiro século, vemos como “a palavra do Senhor crescia e prevalecia poderosamente” (At 19.20). Suponhamos então, por um momento, a possibilidade de que, pelo mesmo poder espiritual, a igreja tivesse multiplicado os seus convertidos na mesma proporção: poucas épocas teriam passado antes que toda a terra fosse renovada em justiça. Mas o poder de fazer santos diminuiu; e multidões de cristãos tornaram-se pouco melhores, embora ainda melhores, do que multidões de pagãos. Essa perda de eficácia se deveu à infidelidade dos homens e, portanto, pode ser recuperada pela volta aos meios originais de oração insistente e fé forte? Ou se deveu a um desígnio do Cabeça da igreja e, portanto, é irrecuperável?

Numa questão tão vital para os interesses da humanidade, nenhuma mente deveria deixar-se levar pela corrente dominante sem adotar uma convicção ponderada. A conversão de milhares em Jerusalém, de multidões em Éfeso, em Samaria, Antioquia, Corinto, Roma e outros lugares, foi uma prova, de uma vez por todas, do que Deus podia fazer para salvar este mundo perdido, prova que ele pretendia nunca repetir e que os seus filhos seriam presunçosos em esperar ver outra vez? Essas multidões, tão depressa reunidas do mundo, deveriam representar, nas épocas futuras, apenas pequenos grupos de verdadeiros crentes, aos quais os acréscimos seriam muito graduais e que nunca alcançariam a maioria esmagadora? Se é assim, então a dispensação cristã foi deliberadamente planejada no alto para começar com um nascer do sol, mas, em vez de ir brilhando mais e mais até ser dia claro, logo empalidecer num crepúsculo e depois escurecer numa longa, longa noite, em que as estrelas salpicariam esparsamente uma vasta extensão de trevas.

Não ficariam espantados muitos dos que recuam diante dessa conclusão ao verem um homem que tem diante de si uma congregação de mil pessoas, qualquer uma das quais ficaria embaraçada se lhe perguntassem: “Você poderia, com segurança, apontar cinquenta pessoas nesta congregação que vivem como herdeiros do céu?”, se esse homem, depois de simplesmente lhes dizer qual é o seu estado, continuasse dizendo que todos eles poderiam, naquela mesma manhã, tornar-se filhos de Deus e viver, “no tempo que lhes resta” (1Pe 4.2), uma vida nova e bem-aventurada? Se isso fosse feito com a formalidade oficial que logo indicasse tratar-se apenas de algo que convém crer e até dizer de vez em quando, muito provavelmente não provocaria comentário algum; mas, se fosse feito com o ar decidido de um homem que pensava seriamente o que dizia e esperava, ali mesmo e naquela hora, resultados correspondentes, não ficariam muitos sobressaltados? Mas por quê? Se não é verdade que Deus retirou do cristianismo o poder de conversão do Espírito Santo, por quê? Ou afirmem o seu princípio, ou abandonem o hábito de pensamento que vocês formaram com base nesse princípio. Se vocês veem que há morte para a igreja, ou morte para as almas, no princípio, por que não ver que há morte também em pressupô-lo e agir de acordo com ele, como se estivesse claramente anunciado, sem afirmá-lo?

Alguns que ficariam satisfeitos em ver a expectativa de uma conversão, ou de algumas, ficariam no entanto perturbados com a expectativa manifesta de um grande número. Por que seria assim? Se o ministro do evangelho não deve hoje apresentar-se diante de uma multidão com a garantia franca e fervorosa de que cada um deles que apenas se arrepender e crer poderá “receber o dom do Espírito Santo”, isso só pode ser porque a nossa dispensação mudou terrivelmente desde o seu início. A primeira multidão que esteve diante de um pregador do cristianismo jamais pode ser considerada como representando apenas a si mesma. Quando dela se levantou o clamor: “Que faremos?” (At 2.37), não foram apenas os homens ali presentes que perguntaram. Fomos vocês, e eu, e todo homem que alguma vez vem a um pregador do evangelho para ouvir o que ele tem a dizer sobre o grande assunto da nossa salvação. A resposta que Pedro deu àquela multidão não foi só para eles, mas para nós e para os nossos filhos, para todos, de todas as épocas e de todas as nações, que fazem a pergunta que eles fizeram. A resposta foi: “Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos seus pecados, e vocês receberão o dom do Espírito Santo” (At 2.38). Ele não lhes promete que seriam simplesmente admitidos como membros da igreja, simplesmente considerados cristãos, ou que depois da morte herdariam a felicidade eterna; mas, em palavras simples e fortes, diz-lhes que receberão aquela bênção que constitui a substância do evangelho: “vocês receberão o dom do Espírito Santo”; e isso não a “alguns de vocês”, mas a “cada um de vocês”, sem nenhuma condição além de que se “arrependam” e sejam “batizados”.

Deve-se supor que Pedro teria alterado essa resposta se vocês, e eu, e os nossos filhos estivéssemos ali? Ou que, se a imagem das gerações futuras se tivesse erguido diante dos seus olhos, como que de pé atrás daqueles a quem ele falava e representadas por eles, ele teria restringido a sua grande promessa e tomado o cuidado de balbuciar algo cauteloso, em vez de dizer claramente: “Vocês receberão o dom do Espírito Santo”? Aqueles que temem considerar essa promessa tão aplicável a nós quanto a eles, leiam apenas as palavras com que ele a completa: “Porque a promessa é para vocês e para os seus filhos, e para todos os que ainda estão longe, isto é, para todos aqueles que o Senhor, nosso Deus, chamar” (At 2.39). Na ocasião seguinte em que se dirige a uma multidão, ele usa esta linguagem: “Tendo Deus ressuscitado o seu Servo, enviou-o primeiramente a vocês para abençoá-los, no sentido de que cada um abandone as suas maldades” (At 3.26). Aqui a graça de Cristo que converte é proclamada sem hesitação a todos os que estão diante dele.

Deve-se notar que aquilo que ele aqui declara ser o modo pelo qual Cristo abençoa os homens está na própria conversão, em que cada um “abandone as suas maldades”. O que quer que o evangelho possa fazer indiretamente pelo esclarecimento e pela elevação de um homem, enquanto ele continua servo do pecado não lhe conferiu nenhuma vantagem eterna. “Vocês são servos daquele a quem obedecem” (Rm 6.16) é uma palavra que há de permanecer para sempre. Aquele que ainda está fazendo a obra de Satanás é servo dele e com ele há de receber a sua recompensa. E é também digno de nota que ele fala de Jesus como enviado para abençoá-los depois de ter sido ressuscitado; anunciando assim uma missão de Cristo posterior à sua ressurreição, mas que já se realizava naqueles dias. Deve ser aquela presença de Cristo que ele lhes prometeu quando estava para partir, dizendo, no próprio ato de deixá-los: “E eis que estou com vocês todos os dias até o fim dos tempos” (Mt 28.20).

“Com vocês”, não mais naquele corpo que o prendia ao lugar exato onde os Doze estavam, mas “com vocês” pelo poder do seu Espírito, que é representado no Apocalipse como os “olhos do Cordeiro”. “Então vi, no meio do trono e dos quatro seres viventes e entre os anciãos, em pé, um Cordeiro que parecia que tinha sido morto. Ele tinha sete chifres, bem como sete olhos, que são os sete espíritos de Deus enviados por toda a terra” (Ap 5.6). Aqui temos o Cordeiro entronizado, mas “como tendo sido morto”, com os sinais da morte e da expiação sobre ele; e ainda “tendo sete chifres”, os sinais da realeza universal, “e sete olhos, que são os sete espíritos de Deus enviados por toda a terra”. Majestade, mediação e presença espiritual “por toda a terra” nos são aqui gloriosamente apresentadas; e o Cordeiro, embora já não esteja corporalmente presente com um grupo de discípulos, está presente com todos pelo seu Espírito, que se move no coração dos que o servem como se fosse o olhar do Senhor. Ele subiu para poder estar com todos nós e conosco sempre, assim como um príncipe, na véspera da batalha, se retiraria de uma divisão qualquer do seu exército e subiria acima deles para poder estar presente com todos; pois estaria presente com cada batalhão que tivesse sob a vista. E, assim como aquele príncipe lançaria o seu próprio espírito, pelo olhar, no peito de cada seguidor, assim o nosso Rei lança o seu no peito de todos os que esperam diante do seu trono.

A única bênção, portanto, que o Mediador exaltado tem para conferir a este mundo está em levar os homens a abandonar “as suas maldades” (At 3.26), em converter os pecadores do erro do seu caminho, em aproximar dele os que estão longe de Deus e fazer dos que agora vivem no pecado “herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo” (Rm 8.17); restaurando, de fato, a imagem de Deus na terra, manifestando o ideal divino da humanidade em nosso “corpo mortal” (Rm 8.11), formando comunidades que com propriedade serão chamadas “filhos do Pai que está nos céus” (Mt 5.45): comunidades cuja natureza dominante não será a do Adão caído, mas que terão em si o mesmo modo de pensar de Cristo Jesus, tornando-se coparticipantes da natureza divina, e, como prova disso, amando os que os odeiam, abençoando os que os amaldiçoam, orando pelos que os maltratam e os perseguem; e assim, retribuindo bons sentimentos por maus sentimentos, boas palavras por más palavras, boas ações por más ações, mostrando que são filhos do seu Pai que está nos céus. O triunfo e a glória de Cristo estão em renovar de tal modo a face da terra que essa imagem de Deus se torne a característica predominante da humanidade, que a paz e a boa vontade se apoderem das nações, que a justiça e a verdade floresçam nos lares de todos.

A realização, em grau considerável, desse grande propósito constituiu a glória singular da igreja primitiva. A uma comunidade na cidade de Roma se podia dizer: “Vocês eram escravos do pecado; agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, o fruto que vocês colhem é para a santificação. E o fim, neste caso, é a vida eterna” (Rm 6.20, 22). A outro grupo, na cidade de Corinto, se podia dizer, depois de descrever as várias classes de pecadores que não podiam ver o Reino de Deus: “Alguns de vocês eram assim. Mas vocês foram lavados, foram santificados, foram justificados no nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus” (1Co 6.11). A alguns na cidade de Éfeso se podia dizer: “Ele lhes deu vida, quando vocês estavam mortos em suas transgressões e pecados, nos quais vocês andaram noutro tempo, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência. Entre eles também nós todos andamos no passado, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como também os demais. Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossas transgressões, nos deu vida juntamente com Cristo (pela graça vocês são salvos), e juntamente com ele nos ressuscitou e com ele nos fez assentar nas regiões celestiais em Cristo Jesus. Deus fez isso para mostrar nos tempos vindouros a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus” (Ef 2.1-7). A alguns na cidade de Colossos se podia dizer: “dando graças ao Pai, que os capacitou a participar da herança dos santos na luz. Ele nos libertou do poder das trevas e nos transportou para o Reino do seu Filho amado” (Cl 1.12-13). A alguns em Tessalônica se podia dizer: “E vocês se tornaram nossos imitadores e do Senhor, recebendo a palavra com a alegria que vem do Espírito Santo, apesar dos muitos sofrimentos. Assim, vocês se tornaram modelo para todos os crentes na Macedônia e na Acaia” (1Ts 1.6-7). E, quando o nosso Senhor olhou do céu para as sete igrejas da Ásia, os seus próprios olhos de chama, contemplando a própria igreja de Sardes, viram que havia ali “umas poucas pessoas que não contaminaram as suas vestes” (Ap 3.4). Supor que esse poder de regenerar o homem e, por meio disso, melhorar a sociedade humana tenha sido retirado da igreja pela vontade e determinação do seu adorável Cabeça é supor, de fato, que o único fim prático do cristianismo foi voluntariamente abandonado: aquele fim que consiste em glorificar a Deus na terra e salvar a alma dos homens. Se o cristianismo não pode renovar os homens à imagem de Deus, deixa de ter qualquer distinção especial acima das outras religiões, exceto a de possuir mais sabedoria e mais virtude. A sua missão aqui era vencer Satanás no domínio em que até então ele havia triunfado, restabelecer o império de Deus sobre o coração e a vida de uma raça que se havia afastado dele, e preparar, dentre os filhos dessa raça, herdeiros aptos para um reino puro e imortal.

Não só seria abandonado esse fim prático, mas também cessaria a prova permanente do cristianismo. Os milagres e as profecias do tempo passado são uma prova do cristianismo como sistema de verdade; mas, se ele for apenas um sistema de verdade, e não também um poder para a salvação, não faz senão aumentar a culpa dos homens aqui, aumentando a sua luz, e a sua miséria no além, aumentando os seus açoites. Nenhum milagre, nenhuma profecia, nenhum acúmulo de argumentos debaixo do céu pode demonstrar aos nossos vizinhos, neste momento, que o cristianismo é um poder capaz de tornar realmente os homens superiores às suas próprias circunstâncias e aos seus próprios pecados; capaz de tomar homens deste século dezenove, homens com pecado no sangue, pecado nos ossos, pecado nos hábitos, pecado no seu sentar-se e no seu levantar-se, pecado contra Deus, pecado contra o próximo, pecado contra si mesmos, pecados de interesse próprio e pecados contra o próprio interesse, pecados em busca da felicidade e pecados que arruínam a felicidade; e, desses homens, vivendo ainda nas mesmas circunstâncias em que passaram o tempo anterior, fazer “servos de Deus, libertados do pecado”, cujo fruto “é para a santificação”, e cujo “fim” é “a vida eterna” (Rm 6.22).

A prova disso, a única prova real e eficaz, são homens vivos que foram regenerados e cujas boas obras declaram claramente que são do nosso Pai que está nos céus. Nós também podemos dizer que “Deus enviou o seu Servo Jesus para abençoar” os nossos vizinhos, “no sentido de que cada um abandone as suas maldades” (At 3.26); mas quão pouco impressionaria o nosso dizer, se não houvesse ninguém para quem pudéssemos apontá-los, acrescentando: “Estes são as nossas cartas, conhecidas e lidas por todos” (2Co 3.2).

Pedro, voltando à condição real do Salvador, disse: “Deus, porém, com a sua mão direita, o exaltou a Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão de pecados. E nós somos testemunhas destes fatos, nós e o Espírito Santo, que Deus deu aos que lhe obedecem” (At 5.31-32). Aqui está a dupla prova: a dos apóstolos e a do Espírito nos convertidos vivos. Nós, hoje, somos também testemunhas de Cristo, de que ele foi “exaltado a Príncipe e Salvador, a fim de conceder o arrependimento e a remissão de pecados” (At 5.31); mas o nosso testemunho tem de ser corroborado por aqueles que, tendo recebido o Espírito Santo, vivem no Espírito e andam no Espírito.

Pedro, falando do testemunho que os profetas deram de Cristo, resume-o assim: “Dele todos os profetas dão testemunho de que, por meio do seu nome, todo o que nele crê recebe remissão dos pecados” (At 10.43). Quando damos esse testemunho, devemos esperar a mesma confirmação que Pedro viu no seu auditório gentio e que ele depois citou para provar que também eles haviam recebido a salvação, assim como os judeus, a saber: “não estabeleceu distinção alguma entre nós” (os primeiros convertidos judeus) “e eles, purificando-lhes o coração por meio da fé” (At 15.9). Onde quer que se possam apontar homens cujo coração foi purificado pela fé, cuja vida é exemplo manifesto de salvação do pecado, ali está a prova permanente de que o cristianismo é “o poder de Deus para a salvação” (Rm 1.16); e nenhuma outra espécie de prova, como já dissemos, pode demonstrar isso. É concebível que Cristo tenha retirado da sua igreja, ou diminuído, aquele poder que mostraria continuamente que ele “salvará o seu povo dos pecados deles” (Mt 1.21)?

O poder de conversão é também a grande atração da igreja. É verdade que alguns querem atrair os homens com cerimônias, ou talento, ou os encantos da arquitetura ou da música: atraí-los para convertê-los; ao passo que a verdadeira ordem é: converter, para atrair. A primeira é a ordem do charlatão, que confia em seduções artificiais para atrair o público, na esperança de curar alguns; a outra, a ordem do verdadeiro médico, que confia no fato de curar alguns como meio de atrair outros. Sempre que a igreja envia a uma família um novo convertido ardendo de amor e alegria, acende uma luz que, com toda a probabilidade, iluminará a todos os que estão na casa. Sempre que é o meio de levar um balconista a deixar os seus pecados e a mostrar aos companheiros um quadro de vida santa, com toda a probabilidade logo terá outros daquela loja junto aos seus altares. Sempre que leva uma operária de fábrica a sentar-se, como Maria, aos pés de Jesus, muito provavelmente dentro em pouco outras Marias estarão com ela.

Em qualquer situação, os novos convertidos são a atração mais poderosa que jamais age sobre os que ainda estão no mundo. Parece haver um poder espiritual peculiar ligado ao primeiro amor, e uma força de impressão nas palavras dos novos convertidos, reforçada pela mudança manifesta neles, que nada mais consegue exercer. A casa de Deus que se torna conhecida numa vizinhança como lugar em que muitos pecadores foram transformados “pela renovação da mente” (Rm 12.2) logo se tornará, por certo instinto da nossa humanidade redimida, um centro de atração, não só para os que, quase sem luz, andam tateando em busca da verdade, mas até para muitos que ainda seguem obstinadamente no pecado. A maior fama do cristianismo é a fama das curas que ele opera; a sua maior glória, a glória dos santos que forma; o seu renome exclusivo, o renome de pecadores renovados à imagem de Deus. E, onde quer que obras desse tipo sejam divulgadas numa comunidade, ali não faltarão ouvintes ao pregador, ali não faltará campo ao semeador.

O poder de conversão é também a principal alavanca que o cristianismo pode usar para elevar o nível moral das nações. A instrução é a base de toda ação moral; mas a instrução na moral, como a instrução na ciência, tem pouca força se não for sustentada pela experiência. Digam aos homens tudo o que puderem sobre o dever de retribuir o mal com o bem: eles mal terão uma noção clara disso até verem algum homem beneficiar deliberadamente alguém de quem recebeu uma ofensa deliberada. Um comerciante convertido, que corajosamente se posiciona entre os colegas contra os truques do ofício que ele mesmo usava antes, lança mais vergonha sobre a desonestidade deles do que todas as instruções que já ouviram dos púlpitos; ou, antes, dá a todas elas um gume, uma força e um corpo. Um jovem a quem a religião fortalece para andar em pureza entre companheiros dissolutos lança na consciência deles luzes e ferroadas que a mera instrução não poderia dar, porque lhes mostra que a pureza não é inatingível, como diz a tentação. E assim com todas as virtudes: só ao serem encarnadas na pessoa dos homens é que elas se tornam plenamente compreendidas pela mente pública.

É bem sabido que há nações da mais alta civilização em que tudo o que se precisa dizer sobre a veracidade vem sendo dito há séculos, até que a palavra “verdade” está nos lábios de todos; e, no entanto, é quase impossível encontrar uma só pessoa que tenha algo parecido com uma noção justa do que seja dizer a verdade de modo varonil, coerente e contínuo.

Na exata proporção em que o número de homens convertidos for grande ou pequeno, será a medida de consciência na comunidade em geral. Visto sob essa luz, cada conversão facilita conversões futuras. Cada novo convertido acrescenta algo à influência moral existente entre os homens, e cada milhar a mais melhora grandemente a consciência pública e enfraquece os laços que prendem os homens ao pecado. Onde ninguém é piedoso, as pessoas moderadamente corretas quase se envergonham da sua falta de maldade; onde um décimo dos adultos é piedoso, até os pecadores comuns se envergonham da sua falta de bondade; e onde um quinto ou um terço dos adultos é piedoso, os obstáculos à conversão dos demais não são nada em comparação com os que existem onde as grandes massas ainda vivem nos seus pecados.

O poder de conversão é também o único meio pelo qual o cristianismo levanta agentes para a sua própria propagação. O que se requer de um agente, acima de tudo, é zelo: zelo por Deus, desejo ardente de salvar pecadores. Esse zelo nunca é questão de mera convicção, mas sempre questão de natureza. É “Cristo em vocês” (Cl 1.27). É “o amor de Cristo” que “domina” vocês (2Co 5.14). É a natureza divina, que se deleita em comunicar, em dar, em purificar, em salvar, soprada na alma do homem e impelindo-a no mesmo curso em que o próprio Cristo se moveu. Agentes com essa natureza só podemos ter por sucessivos derramamentos do Espírito de Deus, por constantes acréscimos de novos convertidos.

Quando aqueles que foram grandes pecadores se convertem eles mesmos a Deus, tendo sido muito perdoados, amam muito e frequentemente se tornam poderosos instrumentos para ganhar outros para Cristo. Para a elevada obra do ministério, ou nos contentamos em fabricar ministros por um processo artificial, ou devemos esperar vê-los surgir do meio de multidões de novos convertidos que, na juventude, se voltam para o Senhor e se consagram a fazer a sua vontade. Quando as conversões não são poucas, mas muitas; quando muitos “se convertem ao Senhor” (At 11.21); quando os moradores de uma cidade dizem aos de outra: “Vamos depressa suplicar o favor do Senhor e buscar o Senhor dos Exércitos” (Zc 8.21); quando há muitos se arrependendo e muitos se alegrando, dizendo: “temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados” (Ef 1.7), então certamente aparecerão alguns com sinais claros de que o espírito dos profetas está neles e de que são chamados a espalhar por toda parte a gloriosa salvação de que eles mesmos participam.

Nada reanima tanto o zelo dos cristãos antigos como presenciar a alegria e a simplicidade, a gratidão e o fervor daqueles que nasceram de Deus há pouco tempo. Enquanto o discípulo antigo é para o novo um exemplo de moderação e força, o novo é para o antigo um exemplo de fervor; um derrama sobre o outro uma influência estabilizadora, enquanto recebe em troca uma influência que anima e impulsiona.

É também admirável o quanto a ocorrência de conversões aumenta a eficácia dos homens já empregados no ministério ou em outros setores da obra de Deus. O pregador prega com ânimo novo, o exortador exorta com sentimento renovado, quem ora tem fé e fervor redobrados; e a alegria da conquista sopra novo vigor em todo o exército do Senhor.

Embora a importância, e de fato a necessidade, do poder de conversão do Espírito possa ser admitida em abstrato, todo o seu valor prático pode ser posto de lado quando se alimenta aversão à ideia de conversões repentinas ou de conversões numerosas. Considera-se sensato esperar conversões algum dia, mas não esperá-las agora; e, como o “agora” se perpetua, e se perpetua, e se perpetua ao longo da vida de uma geração, nunca chega o tempo de esperar a sua conversão, e a geração seguinte herda a mesma lei gélida da incredulidade, cada uma vivendo no “agora” condenado em que não se pode esperar o poder de conversão sem fanatismo.

A preferência, demonstrada com tanto cuidado e até com ostentação por muitos homens bons, pelas chamadas conversões graduais em lugar das repentinas pode ter algum fundamento, mas não na Escritura. Todas as conversões que encontramos mencionadas no Novo Testamento são repentinas. A de Lídia é a única que alguma vez se cita como gradual, e, no entanto, aconteceu durante um só sermão. A expressão “o Senhor lhe abriu o coração” (At 16.14) não pode significar, no máximo, mais do que isto: que a ação sobre o coração dela foi suave; a porta foi aberta, não arrombada; mas não levou três meses para abri-la: foi feito num dia. A conversão repentina é uma operação manifestamente divina. Traz consigo o sinal de algo sobrenatural; e, quando a vida posterior atesta a sua autenticidade, há no próprio fato da sua rapidez uma lembrança perpétua do “grande poder de Deus” (Lc 9.43). A aversão natural do coração a tudo o que lhe impõe a consciência de um poder espiritual e sobrenatural agindo nesta vida presente explica suficientemente a tendência que todos sentimos de preferir algum modo de operação que pareça menos sobrenatural do que as transformações repentinas, para não dizer milagrosas, do pecado para a piedade, que constituem as crônicas corriqueiras da igreja primitiva.

Quanto à questão de saber se os que se convertem repentinamente são ou não tão firmes quanto aqueles em quem a obra é mais gradual, poucos estão em boa posição para julgar; pois todo aquele que se converte repentinamente certamente terá muitos olhos sobre si, e, se recuar, a atenção de todos é despertada; ao passo que muitos que gradualmente adotam uma profissão religiosa gradualmente a abandonam, e quase ninguém o nota. Mas, como quer que se resolva a questão da firmeza, é certo que os exemplos bíblicos de conversão são repentinos; e é igualmente certo que, se devemos esperar apenas conversões graduais, temos de nos conformar deliberadamente em ver milhões e milhões de compatriotas nossos morrerem impenitentes, os quais, se as conversões repentinas se multiplicarem, ainda poderão ser trazidos a Deus antes do fim dos seus dias. O carcereiro foi encontrado no extremo do pecado, no próprio ato de suicidar-se; e, no entanto, naquela mesma noite a salvação lhe foi pregada, foi abraçada por ele e encheu o seu coração de santa alegria.

Alguns não fariam tanta objeção às conversões repentinas se muitas delas não ocorressem ao mesmo tempo. Mas há algo inexplicável no sentimento com que até homens piedosos olham para qualquer movimento em que pareça que um grande número de pecadores se voltou simultaneamente para Deus. Primeiro, mal conseguem crer que a obra seja real. Depois, se são obrigados a crer que é real, começam a profetizar que não será duradoura. Depois, se acham que durou, ainda se inclinam a pensar que é melhor não esperar nada tão extraordinário entre os seus próprios vizinhos, mas seguir firmemente, como dizem, ganhando aos poucos.

Uma objeção simples a essa teoria de “seguir firmemente” (isto é, lentamente) é que ela entrega friamente gerações inteiras ao inferno e nos deixa com o terrível sentimento de que o melhor progresso da obra de Deus é um progresso que deixa a grande maioria dos que hoje vivem irremediavelmente nos seus pecados. Outra objeção a esse “seguir firmemente” é que ele não é pentecostal; não é primitivo; não segue o exemplo do “grande poder de Deus” (Lc 9.43). Na igreja primitiva as conversões eram às centenas e aos milhares; a palavra se espalhava, não com a moderação cara aos homens pequenos e corretos, sempre com medo de serem acusados de extravagância, mas com o ímpeto e a força de um movimento divino, cujos agentes eram levados adiante como nas asas do vento, dispostos a ser motivo de riso para os homens, dispostos a ouvir o clamor de um mundo que eles estavam pondo de pernas para o ar.

Quando as conversões são muito numerosas em proporção aos instrumentos humanos, a ação de Deus se manifesta de modo muito mais impressionante do que quando são poucas. Embora o homem que sabe por experiência própria o que é passar das trevas para a luz veja uma prova do poder do Espírito Santo em toda e qualquer conversão verdadeira, os que não têm essa experiência facilmente evitam concluir que um poder sobrenatural está em ação, enquanto puderem traçar uma suposta proporção entre os meios e os resultados. Se algumas pessoas são afastadas dos seus pecados por muitos pregadores, isso não parece mais do que natural; se alguns homens santos são encontrados numa multidão, é apenas mais uma prova, pensam eles, de que sempre haverá certo número de pessoas boas entre os ímpios. Mas, se um grande número de jovens irrefletidos ou de pecadores endurecidos se consagra a Deus por meio de um único pregador, e se isso se estende de vizinhança em vizinhança, apodera-se dos espectadores o sentimento de que o fato não se explica por raciocínios sobre proporção, mas pela operação de um poder superior.

Basta que os resultados da pregação, quanto ao número e à rapidez das conversões, ultrapassem certo ponto (que o número seja de milhares, e o tempo, um dia) para que a ideia de atribuir isso ao poder de alguns homens nem sequer entre na mente. Quem jamais, ao ler que três mil judeus se converteram no dia de Pentecostes e viveram depois vidas santas, pensou em exclamar: “Que pregador era Pedro!”? A grandeza do efeito sugere imediatamente uma causa sobre-humana. Se o resultado tivesse sido pequeno, o homem teria sido glorificado; mas, quando tomou proporções tão vastas, ele foi lançado na sombra, e só “o grande poder de Deus” (Lc 9.43) ocupa a mente. Quando um clarão de luz cai sobre o nosso caminho na rua, à noite, logo pensamos num lampião, porque a própria superfície iluminada indica alguma origem desse tipo. Mas, se vemos uma luz cair sobre um monte e passar por montes sucessivos até que toda uma região fique iluminada, pensamos no sol.

Conversões demais ocorrem hoje, homens verdadeiramente convertidos demais se encontram, para permitir que alguém creia que o poder de conversão do Espírito foi inteiramente retirado da igreja. A sua presença no nosso meio é atestada por muitas testemunhas; mas a questão prática para nós é esta: é contrário ao desígnio de Deus que os verdadeiros crentes se multipliquem hoje tão rapidamente, em proporção, quanto se multiplicaram depois do dia de Pentecostes? Se for, então, não importa que meios se usem, esse resultado não pode ser alcançado; mas, se não for, então somos obrigados a esperar que, usando-se os mesmos meios (a mesma oração, a mesma fé e o mesmo zelo da parte da igreja), a mesma bênção do Espírito Santo será concedida.

IX. Todos os dons essenciais permanecem

Sobre toda a questão de quais benefícios permanentes restam à igreja da dispensação do Espírito, sustentamos que tudo o que há de essencial implicado no dom do Espírito Santo permanece intacto. Tudo o que é necessário à santidade do indivíduo, à vida espiritual e aos dons ministeriais da igreja, ou à conversão do mundo, é herança do povo de Deus tanto nos últimos dias como nos primeiros. Não vemos que os efeitos milagrosos que se seguiram ao Pentecostes sejam prometidos a todas as épocas e a todos os povos, e por isso não esperamos que reapareçam; mas estamos convencidos de que aquele que espera o dom de curar, o dom de línguas ou qualquer outra manifestação milagrosa do Espírito Santo, além daquelas bênçãos essenciais de que estes foram, como dissemos, os introdutores e os arautos, tem dez vezes mais base espiritual para fundamentar a sua expectativa do que têm para a sua incredulidade aqueles que não esperam força santificadora sobrenatural para o crente, ajuda sobrenatural na pregação, na exortação e na oração para os pastores e os membros dotados, e poder sobrenatural de conversão sobre a mente dos que ainda são do mundo.

Tradução para o português a partir de William Arthur, The Tongue of Fire; or, The True Power of Christianity (1856), na edição de Londres (C. H. Kelly, c. 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.