William Arthur · A Língua de Fogo · Capítulo IX
Lições práticas: a fonte do poder e o caminho para obtê-lo.
Lições práticas
Houve um tempo em que pretendíamos nos deter bastante nas lições práticas ligadas ao nosso assunto; mas este livro já está maior do que desejávamos, e por isso tocaremos apenas em três temas. Podemos aprender uma lição sobre A FONTE DO PODER; outra sobre O CAMINHO PARA OBTER O PODER; e outra sobre A ESCALA EM QUE DEVEM SER MEDIDAS AS NOSSAS EXPECTATIVAS DE ÊXITO.
No uso de qualquer instrumento, nenhum erro pode ser mais fatal do que aquele que diz respeito à fonte do poder. Para voltar a uma ilustração já usada, qualquer raciocínio sobre armas explosivas que tomasse a elasticidade como a fonte do poder levaria a um engano completo. Se isso deve ser observado em todas as coisas, deve sê-lo especialmente no que diz respeito à regeneração do mundo. Nos processos meramente naturais, quem se propõe a influir nos sentimentos da humanidade precisa depender muito da sua influência, da sua riqueza e dos seus recursos. Os cristãos frequentemente se deixam cair num estado de espírito em que a falta de todas essas coisas, ou de qualquer uma delas, é tida como fatal às suas perspectivas de êxito, e a sua aquisição, como o primeiro passo para causar alguma impressão. Mas riqueza, influência e recursos, por maiores que sejam, nunca garantiram resultados na conversão espiritual dos homens; ao passo que os triunfos mais notáveis do cristianismo muitas vezes foram alcançados na ausência total de todos eles.
Outros, ou os mesmos homens em ocasiões diferentes, preferem depositar as suas esperanças na ordem, no talento ou na verdade. Mas tampouco são estes a fonte do poder. A ordem é tão necessária ao cristianismo quanto os ossos, os ligamentos e a pele ao homem; o talento é tão necessário quanto o cérebro, e a verdade, quanto o sangue. Mas é possível ter tudo isso e ter um paralítico; sim, é possível ter tudo isso e não ter senão um cadáver. É preciso ter tanto o espírito que respira quanto aquele algo indescritível que chamamos de “poder”. De fato, a ordem da igreja cristã deveria ser tal, e a sua estrutura exterior construída de tal modo, que ela não fosse como um edifício, que, embora pareça mais alegre quando há vida dentro, continua de pé quando não há nenhuma; mas antes como um corpo, que cai no momento em que o espírito o abandona e tende à decomposição. Nenhuma igreja deveria ser construída de outra forma senão em total dependência da presença do Espírito vivo em todos os seus arranjos ministeriais. A sua estrutura não deveria corresponder a nenhuma definição que servisse a um corpo inorgânico, mas corresponder exatamente à célebre definição de um corpo orgânico, a saber, “aquele em que cada parte é, ao mesmo tempo, meio e fim”. A presença do Espírito, que tudo permeia, deveria ser pressuposta, de modo que, se ela faltar, as dores da morte se apoderem imediatamente da igreja e lhe arranquem o clamor: “Senhor, salva-me, ou pereço!”
Precisamos trazer de novo à memória aquele silêncio tão maravilhoso de dez dias, aquela longa, longa pausa da igreja já comissionada, à vista do mundo que perecia. Nunca a solenidade daquele silêncio deveria sair dos pensamentos de nenhum dos que pertencem ao povo de Deus. Ele está bem na linha de frente da nossa história, como o protesto antecipado, o mais memorável e comovente, do Senhor: que nenhuma autoridade debaixo do céu, nenhum preparo, nenhuma ordenação poderia habilitar homens a propagar o evangelho sem o batismo do Espírito Santo. Em cada um daqueles dez dias solenes e silenciosos, o mundo que perecia poderia ter batido à porta da igreja e perguntado: “Que esperas, ó noiva do Noivo que subiu aos céus? Por que não dizes: ‘Vem’? Por que nos deixas continuar dormindo, sem chamado, sem aviso, sem bênção, enquanto tu, com as tuas boas-novas, permaneces aí inativa? Que esperas?” E a cada momento a resposta teria sido: “Estamos esperando ser ‘revestidos do poder que vem do alto’ (Lc 24.49); estamos esperando ser batizados ‘com o Espírito Santo e com fogo’ (Mt 3.11).”
Esta é a única e exclusiva fonte do nosso poder. Sem ela, a nossa riqueza, influência e recursos são navios de guerra e munição sem canhões nem homens; a nossa ordem, talento e verdade são homens e canhões sem fogo. O que nos falta nesta época, acima de todas as faltas, é fogo, o santo fogo de Deus, ardendo no coração dos homens, agitando-lhes a mente, impelindo-lhes as emoções, vibrando-lhes na língua, resplandecendo-lhes no semblante, pulsando nas suas ações, expandindo as suas faculdades intelectuais mais do que jamais o poderiam fazer os ardores do gênio, da argumentação ou do partido, e fundindo todo o seu conhecimento, lógica e retórica numa torrente ardente. Todo recurso acessório, todo instrumento de utilidade, a igreja possui hoje num grau e numa excelência jamais conhecidos em nenhuma outra época; e não nos falta senão um batismo de fogo supremo e glorioso para exibir ao mundo um espetáculo que faria subir dez mil aleluias para a glória do nosso Rei.
Basta que desça esse batismo, e milhares de nós que, até hoje, não temos passado de ministros comuns ou fracos, desses que facilmente se apagam da memória da humanidade, nos tornaríamos então poderosos. Os homens se admirariam de nós, como se tivéssemos sido feitos de novo; e nós nos admiraríamos, não de nós mesmos, mas da graça de Deus capaz de nos transformar assim.
Suponhamos que víssemos um exército acampado diante de um forte de granito, e que nos dissessem que pretendem pô-lo abaixo: poderíamos perguntar-lhes: “Como?” Eles apontam para uma bala de canhão; bem, mas não há poder nenhum nela; é pesada, mas não passa de uns vinte e cinco quilos, ou talvez cinquenta: se todos os homens do exército a atirassem contra o forte, não lhe causariam nenhum dano. Eles dizem: “Não; mas olhe o canhão.” Bem, não há poder nenhum nele. Uma criança pode montar nele, um pássaro pode pousar na sua boca; é uma máquina e nada mais. “Mas olhe a pólvora.” Bem, não há poder nenhum nela; uma criança pode derramá-la, um pardal pode bicá-la. No entanto, essa pólvora sem poder e essa bala sem poder são postas no canhão sem poder; uma faísca de fogo entra nele; e então, num abrir e fechar de olhos, aquela pólvora é um clarão de relâmpago e aquela bala, um raio que fere como se tivesse sido enviado do céu. Assim é hoje com a maquinaria da nossa igreja: temos todos os instrumentos necessários para destruir fortalezas, e oh, que venha o batismo de fogo!
Quanto ao caminho pelo qual esse poder pode ser obtido, aqui só precisamos recordar a lição dos Dez Dias: “Todos estes perseveravam unânimes em oração” (At 1.14). Oração fervorosa, oração unida e oração perseverante: essas são as condições; e, cumpridas elas, seremos seguramente “revestidos do poder que vem do alto”. Nunca devemos esperar que o poder caia sobre nós só porque acontece de acordarmos uma vez e pedirmos por ele. Tampouco alguma comunidade de cristãos tem o direito de esperar uma grande manifestação do Espírito, se não estiverem todos prontos a se unir em súplica e, “unânimes”, a esperar e orar como se a causa fosse de cada um. O murmurador que sempre explica a esterilidade da igreja pelas faltas dos outros pode ter certeza de que o seu caminho mais curto para o poder espiritual, se esse for de fato o seu objetivo, está em unir todos, como um só coração, para orar sem cessar.
Acima de tudo, não devemos esperá-lo sem oração perseverante. A oração que toma o fato de as orações passadas ainda não terem sido respondidas como razão para esmorecer já deixou de ser a oração da fé. Para esta, o fato de as orações continuarem sem resposta é apenas a prova de que o momento da resposta está tanto mais perto. Do princípio ao fim, os ensinos e o exemplo do nosso Senhor nos dizem que a oração que não sabe perseverar, insistir no seu pedido com importunação, renovar-se e renovar-se de novo, e ganhar forças com cada súplica anterior, não é a oração que prevalecerá.
Quando João, no Apocalipse, viu o Cordeiro no trono, diante daquele trono estavam acesas as sete tochas de fogo, “que são os sete espíritos de Deus enviados por toda a terra” (Ap 4.5; 5.6); e é só esperando diante daquele trono da graça que ficamos impregnados do santo fogo; mas quem espera ali longamente e com fé absorverá esse fogo e sairá da sua comunhão com Deus trazendo os sinais de onde esteve. Para o crente individual e, acima de tudo, para todo trabalhador na vinha do Senhor, o único modo de obter poder espiritual é esperar em secreto diante do trono de Deus pelo batismo do Espírito Santo. Cada momento passado em oração verdadeira é um momento passado em reavivar o fogo de Deus dentro da alma. Dissemos antes que esse fogo não pode ser simulado; nada mais produzirá os seus efeitos. Tampouco podem ser fingidos os meios de obtê-lo. Nada senão os meios que o próprio Senhor designou, nada senão “esperar diante do trono”, nada senão manter o coração sob “os olhos do Cordeiro”, para ser penetrado pelo seu Espírito outra vez, e outra vez, e outra vez, pode pôr a alma naquela condição em que ela é instrumento apropriado para comunicar a luz e o poder de Deus a outros homens.
Quando um conferencista que trata de eletricidade quer mostrar o exemplo de um corpo humano sobrecarregado do seu fogo, coloca uma pessoa sobre um banco de pernas de vidro. O vidro serve para isolá-la da terra, porque não conduz o fogo, isto é, o fluido elétrico: não fosse isso, por mais que se derramasse nele, tudo seria levado embora pela terra; mas, isolado dela desse modo, ele retém tudo o que entra nele. Você não vê fogo nenhum, não ouve fogo nenhum; mas lhe dizem que ele está sendo derramado naquela pessoa. Logo você é desafiado a tirar a prova: pedem que se aproxime e ponha a mão perto do corpo dela; quando você o faz, uma faísca de fogo salta na sua direção. Se você, então, quer ter a alma sobrecarregada do fogo de Deus, de modo que os que se aproximarem de você sintam alguma influência misteriosa saindo de você, precisa se aproximar da fonte desse fogo, do trono de Deus e do Cordeiro, e fechar-se para o mundo, esse mundo frio que tão depressa nos rouba o fogo. Entre no seu quarto, feche a porta (Mt 6.6) e ali, isolado, “diante do trono”, aguarde o batismo; então o fogo encherá você, e, quando você sair, um santo poder o acompanhará, e você trabalhará não na sua própria força, mas “em demonstração do Espírito e de poder” (1Co 2.4).
Assim como este é o único caminho para que o indivíduo obtenha poder espiritual, é também o único caminho para as igrejas. Oração, oração, toda forma de oração: oração poderosa, importuna, repetida, unida; os ricos e os pobres, os instruídos e os sem instrução, os pais e os filhos, os pastores e o povo, os bem-dotados e os simples, todos unidos para clamar ao Deus do alto que venha e os toque como nos dias da destra do Altíssimo, que os encha do Espírito de Cristo, que os aqueça, os inflame e os torne como uma chama de fogo, e que ponha poderosamente a sua mão direita sobre os pecadores que os cercam e os converta a ele em verdade. Tais súplicas, unidas e repetidas, certamente alcançarão o seu fim, e “o poder de Deus”, descendo, fará de cada um desses grupos como que um bando de gigantes revigorados pelo vinho novo.
Se a fonte do nosso poder e o caminho para obtê-lo são tão claros, como pode ser tão rara a “língua de fogo”? Quais são os obstáculos? Será porque, como muitos parecem pensar, nada é tão difícil de obter quanto a graça do Espírito Santo? Ouvimos dizer com frequência: Todo esforço há de fracassar sem a bênção de Deus, sem o poder do Espírito que o acompanhe; e o tom com que isso se diz indica que, por isso, convém não esperar grandes resultados, como se o poder do Espírito que acompanha o esforço fosse a única coisa com que não se pode contar. Reconhecer a nossa impotência sem o Espírito e a absoluta necessidade da sua presença e do seu poder é tão necessário quanto reconhecer o fato de que, sem sol e sem chuva, todo trabalho e toda habilidade não conseguiriam preservar a raça humana por uma só estação. Mas o sol e a chuva são justamente as coisas que nada custam e com as quais podemos contar sempre. Assim é com o batismo e o poder do Espírito Santo. Mais gratuito do que o ar que respiramos, mais gratuito do que os ricos raios do sol, mais gratuito do que qualquer outra dádiva de Deus, porque é a que mais lhe custou e a que mais abençoa os seus filhos, esse dom está sempre à mão; e, quando fizemos o que o Senhor nos manda fazer, é desonrá-lo nutrir o sentimento secreto de que ele, sendo bom e não mau, reluta em derramar o seu Espírito e em fazer bem aos seus filhos.
Esse sentimento de incredulidade, onde quer que seja nutrido, há de ser, segundo os princípios do evangelho, fatal a todo poder. Somente quem engrandece a gratuidade, a plenitude e a eficácia presente da graça do Senhor pode, pelo Espírito Santo, realizar maravilhas. Confiança, confiança firme, franca, confiança de criança, é a condição eterna de toda cooperação com Deus. Ele não usará, não abençoará, não habitará o coração que, no momento em que lhe apresenta um pedido, diz: “Duvido de ti”.
Nesta época de fé no natural e de aversão ao sobrenatural, precisamos sobretudo enfrentar o mundo inteiro com este credo: “Creio no Espírito Santo”. Espero ver santos tão belos quanto qualquer um dos que são descritos nas Escrituras, porque creio no Espírito Santo. Espero ver pregadores tão poderosos para expor Cristo crucificado diante dos olhos dos homens (Gl 3.1), tão poderosos para traspassar a consciência, persuadir, convencer e converter quanto qualquer um dos que já abalaram as multidões de Jerusalém, ou de Corinto, ou de Roma, porque creio no Espírito Santo. Espero ver igrejas cujos membros sejam, cada um, dotados de dons espirituais, e todos em atividade espiritual, animando-se e edificando-se uns aos outros, recomendando-se à consciência do mundo pelas suas boas obras e recomendando-lhe o seu Salvador por um testemunho que cativa o coração, porque creio no Espírito Santo. Espero ver aldeias onde hoje todas as pessoas respeitáveis se opõem à religião, o proprietário é ímpio, o pastor nominal é mundano, e todos os que estão à frente se põem contra o cristianismo vivo; espero ver essas aldeias convocadas, abaladas, divididas e depois reunidas, pela sujeição de toda a população a Cristo, porque creio no Espírito Santo. Espero ver cidades varridas de ponta a ponta, os seus costumes elevados, o seu comércio purificado, a sua política cristianizada, a sua população criminosa regenerada, os seus pobres levados a sentir que vivem entre irmãos: justiça nas ruas, paz nos lares, um altar junto a cada lareira, porque creio no Espírito Santo. Espero ver o mundo inundado do conhecimento de Deus; ver chegar o dia em que ninguém precisará dizer ao seu próximo: “Conheça o Senhor”, mas em que todos o conhecerão, “desde o menor até o maior” (Hb 8.11); oriente e ocidente, norte e sul unidos para louvar o nome do único Deus e do único Mediador, porque creio no Espírito Santo.
A incredulidade e o descuido da oração geralmente andam juntos como impedimentos do poder espiritual. Que todos nós que temos a dolorosa consciência de que os resultados que acabamos de apontar nunca serão alcançados por meio de homens na condição em que nos encontramos simplesmente perguntemos a nós mesmos: Por quanto tempo, quantas vezes, com que importunação temos esperado diante do trono do Salvador pelo derramamento do Espírito? Que os nossos quartos de oração respondam. “Os olhos do Cordeiro”, que agora mesmo nos penetram, tomaram nota. Oh! será de admirar que tantas vezes não tenhamos tido poder algum, e que tantas vezes tenhamos tido só “pouca força” (Ap 3.8)?
A falta de fé verdadeira e o descuido da oração certamente abrem lugar para a fé no instrumento, em vez da fé no poder. Quando não estamos vivendo perto do trono, a nossa mente se ocupa de questões de ordem, de talento ou de verdade; ou, se descemos a um estado ainda mais baixo, de questões de recursos, de influência ou de riqueza. Esta reforma da igreja será seguida de grande bem; o desenvolvimento claro de tal ou tal doutrina nos traria avivamento; mais brilho ou força de talento no ministério garantiria o progresso. Só esperamos que se removam tais e tais obstáculos para abrir esta porta; que venham recursos financeiros, e veremos o bem ser feito ali; ou que entre na igreja alguma pessoa influente, e a obra de Deus prosperará acolá. A fé é tristemente desperdiçada quando depositada em tais coisas. Deem a elas o seu justo valor, nunca as subestimem, ponham-nas onde Deus as pôs; mas o fato de vocês confiarem nelas mostra que o seu coração não está certo. Não esperem por essas coisas, porque o poder não está nelas; esperem pelo batismo de fogo.
Entre os obstáculos que impedirão alguém de ter a “língua de fogo”, nenhum age mais diretamente do que qualquer mau uso da própria “língua”. Se a porta dos lábios não for vigiada (Sl 141.3), se houver condescendência com conversas sem caridade ou ociosas, se se permitir que discussões políticas ou partidárias provoquem acaloramentos, se dizer “coisas tolas” (Ef 5.4) e gracejar for o meio escolhido para se exibir, não se pode supor que essa mesma língua será o meio em que o fogo sagrado do Espírito terá prazer em habitar. Quem já teve ao mesmo tempo a fama de leviano e a de homem poderoso para sondar consciências?
Outro obstáculo fatal é toda espécie de indulgência sensual. Tudo o que dá ao corpo o menor predomínio sobre o espírito há de, aos poucos, abafar e, por fim, apagar o fogo no coração. Isso se aplica a toda preguiça, a todo hábito de luxo, a todo apetite artificial e a todos os prazeres da mesa. Não deixa de ser notável que, enquanto no dia de Pentecostes o povo, ao ver a agitação e o entusiasmo dos cristãos, dizia: “Estão cheios de vinho novo” [N. do T.: assim na King James (“full of new wine”); a NAA traz “Estão bêbados!” (At 2.13)], o próprio Paulo nos diz: “E não se embriaguem com vinho, pois isso leva à devassidão, mas deixem-se encher do Espírito” (Ef 5.18). Em ambos os casos há uma sugestão, ainda que indireta, mas inquestionavelmente uma sugestão, de alguma analogia entre a condição de estar “embriagado com vinho” e a de estar “cheio do Espírito”.
Nem precisamos ir longe para encontrar os fundamentos dessa analogia. Para os homens do mundo, o vinho é um recurso quando querem algo acima da sua força natural de mente ou de corpo, e nele buscam três coisas: força, ânimo e elevação mental. Sob a sua influência, fazem mais trabalho do que fariam de outro modo, lançam fora as suas preocupações, e as suas faculdades mentais chegam a um estado que eles mesmos chamam de “inspiração”. Que oradores mundanos, mesmo os de mais alta reputação, buscam muitas vezes no vinho a animação das suas faculdades necessária para um grande êxito, é coisa bem conhecida, até demais. A tendência física de buscar elevação numa fonte como essa não pode ser atendida nem de leve sem afetar fatalmente a “língua de fogo”.
Todo cristão que deseja conservar a vida de Deus na sua alma precisa manter todos os prazeres da mesa sob uma lei estrita de atenção à saúde e à temperança. Para a força, o ânimo e a elevação mental que uma aflição extraordinária ou um esforço público possam exigir, ele deve buscar somente o poder do alto, a força, o consolo e a inspiração do Espírito Santo. A simples ideia de buscar qualquer dessas coisas no vinho já denota um coração caído longe na escravidão da carne. Mesmo sem ir tão longe, pode-se facilmente ultrapassar os limites da moderação e beber, não pela saúde, mas por prazer. Se o homem que bebe até a embriaguez é miserável e digno de pena, aquele que aprendeu o mau segredo de “até onde pode ir”, e que até age de acordo com ele, embora talvez nunca se embriague, é diariamente intemperante. Sob certo aspecto, a sua influência social é a mais perigosa de todas; pois, enquanto o que se abstém totalmente e o que bebe sob uma regra rígida de atenção à saúde e à moderação podem, cada um, sustentar que dão o exemplo mais sábio que se pode dar, e enquanto o bêbado pode dizer com verdade que o seu próprio excesso é uma advertência para todos à sua volta, aquele que habitualmente mostra que bebe tanto quanto é seguro beber é uma isca e um incentivo para levar a indulgência tão longe quanto se possa ir sem naufrágio do caráter.
Outro obstáculo fatal é o que se pode chamar de “buscar efeito literário”. Quando a pregação, a oração ou qualquer outro exercício religioso da língua é governado pela ideia de composição, perde o caráter de dom divino. Segundo essa concepção, a palavra, em especial, vem pelo auxílio do Espírito Santo. Com os que encaram a pregação cristã como um exercício de talento natural, não entramos em discussão. Falamos somente aos que buscam a “língua de fogo”, aos que creem que a verdadeira pregação cristã só se realiza com a ajuda de Deus. A eles, e a nós mesmos, dizemos que nada roubará com mais certeza o fogo das nossas frases do que a ansiedade de proferi-las exatamente como foram compostas de antemão, ou de compô-las de antemão com estudada atenção à elegância literária. O estudo do estilo, das palavras, da força, das formas e das leis da linguagem, nós, naturalmente, o recomendamos. Os esforços de cada um para alcançar o melhor estilo que a sua natureza permite, o mais conciso, o mais forte, o mais claro, o mais breve, nós igualmente os recomendamos. Buscar, como Bunyan, “palavras escolhidas e compactas” é o instinto de quem ensina. Até o estudo da arte de falar, contra o qual o preconceito vulgar é tão forte, nós o incentivaríamos, com Wesley e Whitefield. Declamadores afetados podem tê-lo desacreditado, mas isso não é razão para que centenas de nós tenham a saúde arruinada antes da meia-idade pelo falar em público, quando poderíamos ter feito o mesmo trabalho, e feito melhor, sem o menor dano, se tivéssemos aproveitado a ciência dos que estudaram a voz de modo sistemático e ensinaram sobre ela.1
Entretanto, embora sustentemos que é dever de todos os que têm alguma parte no ensino trabalhar ao máximo por toda qualificação útil à sua obra, duas coisas devem ser excluídas para sempre e com cuidado. Uma é buscar dar prazer intelectual em vez de produzir impressão religiosa; a outra, preocupar-se com as palavras no púlpito a ponto de interferir na dependência de Deus quanto ao que dizer. No gabinete de estudo, a atenção ao estilo deve ter em vista não a beleza, mas o poder. No púlpito, todo pensamento sobre estilo é pensamento desperdiçado, e até pior. O dom de profetizar, na sua própria concepção, exclui que se dependa de um manuscrito ou da memória para falar. Ele é a entrega da verdade com a ajuda de Deus. O sentimento de todo homem que se levanta em nome do Senhor deveria ser: “Não estou aqui para me sair bem, nem para fazer um bom discurso; mas, depois de ter feito o melhor esforço para estudar e digerir a verdade, estou aqui para dizer exatamente o que Deus me capacitar a dizer, para ter a palavra ampliada ou restringida, conforme a ele agradar me dar ou não o que dizer.”
Com esse sentimento do pregador todas as aparências devem condizer. Deve ficar evidente que, embora ele tenha feito o que estava ao seu alcance para estar plenamente preparado, confia no auxílio do alto para ter o que dizer, e não o garante por meios naturais, seja um manuscrito, seja a memória. Juntamos esses dois porque não vemos que exista entre eles nenhuma diferença real. A alegação de que o manuscrito é mais honesto do que a pregação decorada tem alguma força, mas certamente não muita; pois quem lê da memória está, para o sentimento e o instinto dos seus ouvintes, lendo tanto quanto quem lê do manuscrito. Em nenhum dos dois casos os pensamentos e sentimentos estão jorrando diretamente da mente e se revestindo de palavras à medida que vêm. A mente está apanhando palavras do papel ou da memória e fazendo o melhor que pode para animá-las com sentimento. Mesmo do ponto de vista intelectual, a operação é essencialmente diferente de falar, e a diferença é sentida por todos. Para fins literários, para deleite intelectual, ambos levam nítida vantagem sobre o falar; mas para o propósito de suplicar, rogar, conquistar e criar um senso de comunhão, para impelir e despertar, para fazer o bem, o falar é o instrumento natural, isto é, o instrumento do Criador.
Nunca dizemos, nem pensamos em dizer, que Deus não abençoará sermões lidos, seja do manuscrito, seja da memória; pois temos certeza de que ambos esses modos são usados por servos seus santos e fervorosos, que buscam a sua bênção e a obtêm para a salvação de muitas almas. Tudo o que dizemos da leitura, seja do manuscrito, seja da memória, é que ela não é pregação bíblica. Não é ministrar segundo o modo do cristianismo de Pentecostes; é um afastamento do precedente bíblico, a adoção de uma ordem inferior de ministração pública e uma declaração solene de que a segurança na palavra, obtida por apoios naturais, é preferida ao risco de ser humilhado por confiar na ajuda do Senhor. Tem as suas vantagens claras e as suas perdas claras. Ganha elegância à custa da naturalidade; acabamento, à custa da liberdade; precisão, à custa do poder; e prazer literário, à custa da impressão religiosa.
Um ideal literário de pregação é vicioso. Pessoas de meia instrução se orgulham de admirar o que consideram intelectual, ou “esplêndido”. Para homens de verdadeira inteligência e verdadeira instrução, buscar efeito literário é tão desagradável, de um lado, quanto o são os traços de descuido, desleixo ou vulgaridade, do outro. Homens de grande talento ou refinamento, quando falam grandes verdades sob santa inspiração, não podem deixar de ser eloquentes, ou agradáveis. Mas um “banquete intelectual” está longe de ser o ideal da pregação. Já ouvimos esforços desse tipo muito elogiados, até por ministros idosos e veneráveis, que, quando nos lembramos deles depois de passados os anos, sentimos que nem deveriam ter sido chamados de sermões. Eram discursos que mostravam como determinado assunto podia ser tratado, mas que nunca tiveram a intenção de realizar obra alguma. Um filósofo agudo e profundo, olhando para o púlpito da cátedra do professor de história, trata deste ponto nas seguintes palavras notáveis:
“Comparem, peço-lhes, senhores, a eloquência sagrada do século VI com a eloquência moderna do púlpito, mesmo nos seus dias mais gloriosos, no século XVII. Eu disse há pouco que, nos séculos VII e VIII, o caráter da literatura tinha sido o de deixar de ser uma literatura, o de ter-se tornado de fato um poder; que, ao escrever e ao falar, os homens só se ocupavam de resultados positivos e imediatos; que não buscavam nem a ciência nem o prazer intelectual; e que, por isso, a época não tinha produzido senão sermões ou obras semelhantes. Esse fato, que se mostra na literatura em geral, está impresso nos próprios sermões. Os dos tempos modernos têm um caráter evidentemente mais literário do que prático. O orador aspira muito mais à beleza da linguagem, à satisfação intelectual do seu auditório, do que a agir sobre o fundo das almas, a produzir efeitos reais, reformas notáveis, conversões eficazes. Nada disso, nada do caráter literário nos sermões de que acabo de lhes falar; nem um pensamento de se exprimir com elegância, de combinar imagens e ideias com arte. O orador vai direto ao ponto; quer realizar uma obra; volta e torna a voltar no mesmo círculo; não teme a repetição, nem a familiaridade, nem mesmo a vulgaridade. Fala pouco, mas recomeça todas as manhãs. ISTO NÃO É ELOQUÊNCIA SAGRADA; É PODER RELIGIOSO.”2
Sempre que formos tentados a pensar que só se deve esperar fruto quando há qualificações superiores, deveria surgir diante dos nossos olhos a imagem de Pedro pregando em Jerusalém e daquela vasta multidão em lágrimas diante dele. Com que reverência, não sem mistura de tristeza, muitas vezes olhamos para trás, para os pregadores de dias já passados, talvez para alguns que os nossos próprios ouvidos abençoaram quando os ouvimos; mas sobretudo para aqueles de cujas vozes poderosas apanhamos ecos fracos, ressoando no peito de homens encanecidos que os ouviram na juventude e nunca deixaram de ouvi-los, embora a língua deles há muito esteja calada! Quando notamos os nossos pobres esforços; quando vemos com que falta de vigor os preceitos do Sinai ou os cânticos de Belém caíram dos nossos lábios sobre os homens; quando vemos que, depois da nossa reflexão mais cuidadosa, parecemos como quem desfere golpes no ar (1Co 9.26); que, depois de buscar convertidos, só ganhamos reputação; que, quando esperávamos que multidões fossem tomadas pelo pensamento: “Que devo fazer para que seja salvo?” (At 16.30), apenas as despedimos para discutir os nossos defeitos ou os nossos méritos, com talvez aqui e ali um coração tocado e contrito; quando os anos assim se passaram, e nenhuma fortaleza do pecado foi derrubada, nenhuma província foi completamente conquistada ao Príncipe das trevas, nenhum grande despertamento mostrou que havia um PODER e um DEUS no meio da igreja; quando vimos tudo isso, e muito mais do mesmo gênero, não foi muitas vezes a nossa disposição abrir um cálculo das nossas próprias capacidades e das dificuldades à nossa frente, concluindo, afinal, que gente como nós não deve esperar fazer coisas que só os poderosos poderiam fazer? Como lábios como os nossos poderiam mover a humanidade? É verdade que apóstolos e profetas a moveram. É verdade que Whitefield e Wesley, e centenas dos seus colaboradores, perto dos nossos próprios dias e no nosso próprio país, a moveram. Mas eles eram as maravilhas da sua época, os serafins da terra. Mas o que os fez serafins? Houve um tempo em que não eram mais poderosos do que os outros para converter almas. Não batizados com fogo, ou apenas levemente tocados, a sua língua poderia ter encantado, fascinado, posto o mundo a discutir os seus dons e a exaltar as suas capacidades; mas nunca teriam lançado fogo na alma dos homens, fogo que, queimando-os, faria o insensível bramir e o estoico derreter-se, o sisudo bater no peito e o corrupto purificar-se “de toda impureza, tanto da carne como do espírito” (2Co 7.1). Talvez, sem o batismo de fogo, nunca tivessem alcançado nem mesmo a fama passageira de oradores. A sua própria eloquência pode ter vindo principalmente do Espírito de Deus. Seja como for, foi aquele fogo que elevou o orador a apóstolo e fez as suas palavras soarem como se os primeiros mensageiros de Cristo tivessem ressuscitado dos mortos.
O espetáculo de Pedro pregando em Jerusalém responde a dez mil argumentos da incredulidade. Quem é aquele camponês galileu, e quem são os do grupo ao lado dele? São homens sujeitos aos mesmos sentimentos que nós (Tg 5.17). Por natureza, por dons, pelas oportunidades da juventude, não podem ser colocados acima da média da humanidade. Embora tivessem sido favorecidos com o ensino pessoal e a companhia de Cristo por três anos inteiros, não tinham, até então, mostrado nenhuma superioridade extraordinária de caráter. Nem mesmo estiveram livres de faltas; tiveram as suas disputas entre si, a sua incredulidade, a sua covardia, as suas contendas pelas coisas do mundo, os seus “falsos irmãos” (Gl 2.4); e, no entanto, são revestidos de um poder de palavra que ultrapassa todo alcance de eloquência até então imaginado.
É racional, quando erguemos os olhos para o Espírito que operou isso neles, duvidar de que esteja no seu poder batizar os seus servos que hoje vivem com um batismo que transforme o comum em extraordinário, o fraco em poderoso? O que é mais fácil para ELE: dizer “Falem em muitas línguas”, ou dizer “Eu lhe darei palavras e sabedoria a que não poderão resistir nem contradizer todos os que se opuserem a você” (Lc 21.15)? O primeiro ELE disse, e homens comuns receberam de imediato o poder; o segundo ele disse, e os mesmos homens comuns receberam o poder. O primeiro poder nós não o buscamos; mas todos nós que temos algum coração para o serviço do nosso Mestre, alguma intenção real de tomar parte na batalha pelo resgate da humanidade, desejamos do fundo do coração, sim, ansiamos com ansiedade dolorosa, uma língua de fogo para falar do amor do Salvador e da desgraça do pecado em tons tais que o ouvido morto venha a zunir. Não é ele capaz de dar o dom agora, como o deu então? Essa desconfiança do seu poder neste ponto, que encontramos tão comum; esse contar com a nossa própria impotência como companheira para a vida inteira; esse falar do que devemos esperar como se o nosso poder tivesse de parar onde param as nossas capacidades naturais; esse achar que é realmente humilde esperar pouco ou nenhum fruto; esse achar que é manso ser feliz sem fruto: é tudo isso uma resposta digna ao batismo e uma recordação digna das línguas de fogo? Não vemos ali o Espírito respondendo para sempre a todas as dúvidas sobre o que homens comuns podem vir a ser, e proclamando a todos os que querem levar uma mensagem de Deus que, se apenas esperarem até serem “revestidos do poder que vem do alto”, o efeito que, mais do que qualquer outro, mostrará a ação desse poder dentro deles será este: serão elevados acima de si mesmos e levados a falar com palavras e sabedoria que, como saberão todos os que os conhecem, não estavam ao alcance dos seus dotes ou das suas aquisições naturais?
1. Costuma-se supor que falar é um exercício natural e que, por isso, não precisa de instrução. A palavra “falar” esconde uma falácia. A conversa em tom moderado e em intervalos curtos é um exercício natural da voz; o falar em público, em tom elevado e durante uma hora seguida, é um exercício artificial. Salvo em casos muito raros de pessoas singularmente favorecidas pela natureza, esse exercício artificial nunca se realiza com a facilidade do natural; e quantas vezes ele prejudica e até destrói a saúde é notório demais para que seja preciso mencioná-lo. Autores como o Sr. Cull e o Dr. Rush mostram que, com o devido treino, falar em público pode tornar-se tão fácil e tão saudável para pessoas de órgãos sãos quanto cantar; e à negligência disso devemos a perda, no auge da vida, de muitos dos melhores e mais capazes pregadores que já existiram.
2. Guizot, Histoire de la Civilisation [História da civilização], vol. II, p. 24. Sexta edição de Paris.
Tradução para o português a partir de William Arthur, The Tongue of Fire; or, The True Power of Christianity (1856), na edição de Londres (C. H. Kelly, c. 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.