William Arthur · A Língua de Fogo · Capítulo IX (conclusão)

A medida das nossas esperanças e a conversão do mundo

A medida das nossas esperanças de êxito, a possibilidade da conversão do mundo inteiro e o chamado final ao trabalho, com a oração pelo novo Pentecostes.

Iii. A escala em que devem ser medidas as nossas expectativas de êxito

Na nossa época, a invenção, com o auxílio da ciência natural, muitas vezes parece saltar quase para dentro dos limites do sobrenatural. As impossibilidades dos nossos pais estão desaparecendo, uma se tornando comércio e outra, passatempo. Isso produziu um estado de espírito em que nada parece impossível à ciência natural. Junto com isso surgiu uma tendência a trazer o progresso e a ação espirituais para dentro de limites naturais. Orgulhamo-nos do nosso conhecimento das leis do reino natural e não toleramos nenhum fenômeno que não possa ser julgado por elas. No entanto, não fazemos objeção a julgar o reino vegetal por leis totalmente diferentes das que aplicamos ao mineral, e o animal por leis totalmente diferentes das que aplicamos ao vegetal, e os fluidos que tudo permeiam1 por leis diferentes das que aplicamos a qualquer desses três reinos. Recuar diante das maravilhas da vida vegetal porque são inexplicáveis por princípios químicos, ou diante das do instinto porque são mistérios insondáveis por princípios botânicos, ou diante das do intelecto porque são inexplicáveis pelas leis da história natural, ou diante dos mistérios da luz porque não podem ser analisados e definidos metafisicamente, não seria mais insensato do que recuar diante das maravilhas do reino espiritual porque não podem ser julgadas pelas leis do natural. O sobrenatural tem as suas próprias leis, e há um sobrenatural.

Em vez de procurar manter os movimentos espirituais rebaixados ao nível da explicação natural, numa época em que as maravilhas naturais chegam quase ao milagre, deveríamos antes ser impelidos a orar para que eles assumam um caráter mais impressionante de manifestação sobrenatural. Hoje é necessário muito mais para levar à mente da multidão a convicção clara de que “é a mão de Deus” do que era necessário em outras épocas. Quando os homens viam poucas maravilhas da ciência natural, prontamente atribuíam cada maravilha à ação divina; mas agora, que estão acostumados a vê-las todos os dias, as maravilhas morais precisam crescer além de todo pretexto de explicação natural antes que sejam sentidas como vindas de Deus. Temos os pés firmes? Estamos de pé, ou trememos? Deve o cristianismo sentar-se no círculo da ação natural, ou levantar-se do pó e provar que há um Deus em Israel? Devemos recuar diante do extraordinário? Devemos ter medo de qualquer coisa que leve homens céticos ou que não oram a zombar? Devemos desejar que o Espírito nos use e opere em nós só até o ponto em que nunca atraia sobre nós um sorriso de desprezo, e orar, como um escritor do continente representa o pensamento de alguns: “Dá-nos do Espírito Santo; mas não demais, para que o povo não diga que estamos cheios de vinho novo”?2

Para o cristianismo, esta é por excelência a época da oportunidade. Nunca antes o mundo lhe ofereceu nada parecido com o campo aberto que oferece neste momento. Há apenas um século, quanto mais limitado era o seu acesso à mente dos homens! Dentro do nosso próprio país, tão favorecido, um pregador zeloso teria sido então expulso de muitos lugares onde hoje seria saudado com alegria. No continente europeu, a França inteira foi aberta à pregação da palavra, ainda que com algumas restrições. Na Bélgica, na Sardenha e em outros campos, pode-se dizer agora que a palavra de Deus não está algemada (2Tm 2.9). Há um século, o império chinês, o mundo maometano e a África, que juntos contêm uma maioria tão preponderante da raça humana, estavam todos fechados ao evangelho de Cristo. A China está aberta em vários pontos. Todo o império do Grão-Mogol é um campo onde a oportunidade e a proteção convidam o evangelista. A própria Turquia foi acrescentada às esferas em que ele pode trabalhar. Ao redor das costas selvagens da África, e bem adentro do seu interior ocidental, oriental e meridional, foram estabelecidos postos avançados do cristianismo. Vastos territórios mais além o convidam a avançar. Nos mares do Sul, várias regiões que há cem anos ainda não tinham sido dadas a conhecer pelas viagens de Cook estão hoje ocupadas de modo regular. Se as igrejas da Inglaterra e da América pudessem enviar amanhã cem mil pregadores do evangelho, cada um deles encontraria uma esfera, já aberta pela mão forte da Providência, onde há um século nenhum deles poderia ter chegado sem perigo.

A época, se não é tão notável pelos agentes quanto pela oportunidade, é ainda assim muito notável nesse aspecto, quando comparada a qualquer outra que a tenha precedido. Se, por um lado, podemos muito bem nos humilhar porque, depois de tão longo lapso de tempo, os cristãos são tão poucos e as obras cristãs tão fracas, por outro, medindo os nossos dias com os da geração que nos precedeu, podemos devotamente engrandecer o nosso Deus. Qualquer uma das três grandes divisões de cristãos na Inglaterra (a Igreja Estabelecida, os metodistas ou os dissidentes) pode hoje fornecer um número tal de ministros fiéis, que ensinam a verdade no temor de Deus e desejam ser instrumentos na salvação de almas, apoiados por um número de leigos espirituais prontos para toda boa obra, que, se tivessem sido apresentados a John Wesley como toda a força de homens piedosos do país, o teriam feito sentir como se o exército para a conquista do mundo inteiro já estivesse levantado. Só a Escócia poderia hoje apresentar uma hoste de soldados leais, prontos e capazes de travar a guerra do Redentor, tal que no tempo dele lhe teria parecido quase suficiente para concluir a conquista. A Irlanda também ofereceria nesse aspecto um avanço espantoso. Na França, onde, ao fim da grande Paz, mal se encontravam pregadores fervorosos, eles agora podem ser contados às centenas; e na Alemanha, apesar de todas as suas névoas e pragas, não poucos estão crescendo em vigor.

Seja nos trabalhos diretos do púlpito, seja em movimentos conjuntos de esclarecimento, seja no alívio bondoso das necessidades da sociedade humana, nunca, nunca o sol brilhou sobre tantos agentes, tanta organização, tanta liberdade, tanto esforço sincero. Se pudéssemos nos permitir criar o nosso próprio mundo e pensar apenas em todos os homens bons, nas boas sociedades e nas boas obras sobre os quais os olhos podem pousar, poderíamos nos alegrar com uma alegria sem interrupção, proclamar a plena chegada do reino de Deus e nos sentir lançados numa época benigna e fraterna. Mas, ai! ai! o vasto mundo segue rolando, como uma torrente turva e gelada. Quando olhamos primeiro para a nossa pequena terra e depois para a vasta terra inteira, descobrimos que, para cada um que teme a Deus e pratica a justiça, há milhares que se esquecem de Deus e praticam a maldade. A ação cristã não existe, portanto, como alguns teóricos amáveis parecem pensar, principalmente para formar os que nasceram cristãos, ou foram feitos cristãos no batismo, e que não precisam de nada mais além das ordenanças da igreja e de um céu aberto quando morrerem. É uma ação levantada para levar adiante a grande obra de conversão que o Senhor começou dentro das terras da cristandade, e depois levar a bandeira avante até que toda nação debaixo do céu se curve sob ela.

É também uma época de progresso, tanto quanto de oportunidade ou de agentes. Que avanço o cristianismo fez no último século quanto à marca deixada nos costumes da nossa nação! Sobre as nossas classes mais altas e sobre as mais baixas, sobre os que amam a Deus e os que não o amam, ele impôs muitos freios. Os vícios que restam tornam-se a cada dia mais hediondos aos olhos do público. Quão diferente a medida de piedade revelada em oficiais e soldados pelos horrores da última guerra, em comparação com tudo o que já se conheceu antes num exército inglês! Quão diferente a condição espiritual de muitos dos nossos distritos rurais e fabris em comparação com o que eram há um século! Que mudança na moral da Corte, na temperança das recepções particulares! Quão mais promissor o aspecto da Irlanda! Quão mais animada a religião da Escócia! Que avanço incalculável na América! E, nesse período, as Índias Ocidentais, a Austrália, a Nova Zelândia, as ilhas da Sociedade, as ilhas Sandwich, as ilhas dos Amigos, as ilhas dos Navegadores, uma parte considerável de Fiji e extensões da África meridional e ocidental podem ser registradas como províncias acrescentadas à cristandade. Embora em alguns desses lugares ainda reste muita impiedade, na maioria deles existe um estado de coisas muito mais promissor do que o que se conheceu em qualquer país entre os primeiros dias do cristianismo e o século passado.

Em outros países, fizeram-se começos e colheram-se primícias; por exemplo, na Índia, na China e no norte da África. Ao mesmo tempo, todo sistema religioso que não se diz cristão entrou em decadência. O maometismo, o bramanismo, o budismo e o paganismo perderam território, adeptos e poder. Ao todo, pode-se perguntar se mesmo o progresso do primeiro século não foi igualado, em quantidade absoluta, pelo do último. Mas, quando olhamos para os agentes, os meios e os recursos de que se dispôs durante o último século em comparação com o primeiro, e para a rapidez com que os crentes se multiplicaram nos dois períodos, sentimos de imediato que, quanto ao poder de propagação diante de circunstâncias adversas e de recursos pequenos, não há comparação entre eles.

Por um lado, é tão errado e tão perigoso desconsiderar o êxito que Deus deu à sua palavra na última época, ou as aberturas sem paralelo que prometem à igreja conquistas futuras, quanto é, por outro, descansar nas nossas posses atuais como se a conquista estivesse completa. O que foi feito basta para despertar a nossa mais viva gratidão; mas, se nos detivermos só nisso, ficaremos enfraquecidos e descuidados. O que resta a fazer basta para despertar a nossa mais profunda inquietação; mas, se olharmos só para isso, ficaremos desanimados e sem forças. Até na Inglaterra tudo está manchado: o nosso comércio, corrupto; a nossa política, terrena; os nossos costumes sociais, formados sobretudo segundo a vontade do “deus deste mundo” (2Co 4.4); as nossas ruas clamando vergonha contra nós; muitos dos nossos lugarejos, escuros, ignorantes e imorais; as nossas cidades, devassas e entregues à bebida.

Em meio a isso existe muito bem, com o qual de fato nos alegramos, sim, e nos alegraremos; mas, oh, o mal, o mal está, dia após dia, partindo milhares de corações, arruinando milhares de caracteres e destruindo milhares de almas! Olhando para fora, além da pequena esfera da Grã-Bretanha e da América, que nós, orgulhosos jactanciosos das duas nações, tendemos a considerar quase o mundo inteiro (embora não sejamos nem a vigésima parte da raça humana), quão triste e quão solitária se sente a alma do cristão ao pairar em imaginação sobre o resto da terra! Aquela Europa, tão culta, tão esplêndida, tão valente: que miséria junto às suas lareiras! que manchas na sua consciência! que superstição, estoicismo ou desespero em volta dos seus leitos de morte! E lá adiante a velha e brilhante Ásia, onde a “língua de fogo” falou pela primeira vez: quão raras e quão poucas são as cenas de beleza moral que ali se oferecem aos olhos! Em lugar da família, o harém; em lugar da religião, a superstição; em lugar da paz, a opressão; em lugar do empreendimento, a guerra; em lugar da moral, as cerimônias; em lugar de um Deus, os ídolos; em lugar de refinamento e crescimento, corrupção e ruína; aqui e ali, semeados de longe em longe e mal se avistando uns aos outros, uma escola, um livro, um homem de Deus: uma estrela num céu de trevas. E a pobre África! que será da presente geração dos seus filhos? Espalhados ao longo das suas costas há começos de coisas boas; mas, oh, o sangue e as trevas, a desgraça, a superstição vil e as crueldades miseráveis sob as quais a maioria dos seus jovens está sendo agora criada, e em meio às quais os seus velhos estão descendo à sepultura!

Tudo isso existia há um século, mas não era então conhecido como o conhecemos agora. O mundo ainda não foi explorado pela igreja, muito menos ocupado; mas ao menos a exploração foi levada tão longe que conhecemos as suas pragas como os nossos pais não as conheciam; e, se o nosso coração fosse tocado como deve, choraríamos sobre elas como eles nunca choraram; pois, embora a expansão do cristianismo tenha multiplicado grandemente o número de cristãos, o aumento da população foi tal que há hoje mais homens pecando e sofrendo do que há cem anos.

Tomando as forças da igreja, comparando-as com o comprimento e a largura do mundo e perguntando então: “Serão estes um dia os meios de converter a todos?”, sentimos que só a promessa de Deus poderia inspirar tal esperança. Mas essa promessa é tão confirmada, ilustrada e exaltada pelo êxito do século passado que, quando olhamos para trás, para os poucos homens fiéis deste país e da América, homens de circunstâncias diferentes e de opiniões diferentes, que então começaram a sério a chamar as igrejas para a sua obra, e vemos quanto os trabalhos deles e dos seus filhos espirituais fizeram o reino de Cristo avançar além de onde então estava, somos levados a dizer: “Suponhamos que todos os homens bons, que hoje amam a Deus e desejam a sua glória, fossem multiplicados durante o próximo século na mesma proporção em que aqueles poucos o foram durante o último século: que passo espantoso seria dado rumo à conversão do mundo inteiro!”

Será isso esperar demais? Devemos concluir que a força do Espírito que dá vida se esgotou e que uma época de fraqueza deve suceder a uma de poder? Fazê-lo é descrer terrivelmente, ao mesmo tempo, da bondade e da fidelidade do nosso Deus. Alguns dizem que, como as populações se familiarizaram com as verdades do evangelho, não devemos esperar os mesmos efeitos de conversão de quando essas verdades eram novas. Se é assim, seria melhor abrirmos caminho para uma geração de racionalistas e formalistas, para preparar de novo o terreno para o cultivo espiritual! Alguns dizem que, como a época é tão instruída, intelectual, científica e indagadora, os homens não são tão suscetíveis à influência do cristianismo. Devemos, então, esperar por uma época menos esclarecida e menos instruída? Alguns dizem que a época é ativa em excesso, levando o empreendimento e o comércio ao ponto de absorver todo homem, até que a religião é posta de lado. Devemos, então, esperar por um tempo mais apático e mais letárgico? Alguns dizem que o Senhor não nos dá grande êxito para que não nos ensoberbeçamos. É o seu modo de promover a humildade dar resultados pequenos a grandes meios, ou dar grandes resultados a meios pequenos? E resultados na escala de Pentecostes não fariam qualquer dos nossos meios parecer pequeno? Essas são miseráveis cordas de vime com que amarrar a gigantesca igreja de Deus. Fora com todas elas! Depois de percorrer todas as razões que se costuma ouvir para explicar o maior êxito direto dos pregadores do século passado em comparação com os de agora, a nossa mente só encontra descanso naquela única razão, que traz um mundo de repreensão e de humilhação para nós mesmos: eles produziram efeitos maiores simplesmente por causa do maior poder de Deus dentro deles.

Todo raio de verdade do evangelho que existe em qualquer homem está do nosso lado. Toda inteligência, toda atividade intelectual, todo vigor de caráter estão mais a nosso favor do que estariam os seus opostos. De fato, eles são em grande parte o fruto, o fruto indireto e secundário, dos triunfos passados da religião; pois é impossível que a verdadeira piedade se espalhe entre qualquer povo sem estimular as suas energias intelectuais e sociais. É difícil imaginar uma sátira ao evangelho mais amarga do que dizer que ele é poderoso quando é novo para os homens e impotente quando lhes é familiar; que é bom para os meio bárbaros, mas não para aqueles que ele mesmo refinou; capaz de cativar os inertes, mas incapaz de dominar os varonis e os enérgicos. Esperamos épocas não menos instruídas na doutrina cristã, mas muito mais instruídas; não intelectualmente mais apáticas, mas mais ativas; não mais obscuras quanto à ciência e à literatura, mas inconcebivelmente mais brilhantes; não mais lentas quanto à invenção, ao empreendimento e ao progresso, mas muito mais vigorosas. E devo eu voltar-me para “o evangelho da glória do Deus bendito” (1Tm 1.11), ao qual sinto que eu e os meus, a minha parentela, o meu país, a raça de que procedo, as terras por onde viajei, todos devemos o que temos de mais puro e mais brilhante, e dizer-lhe: “Quando chegarem essas épocas brilhantes, tu ficarás para trás, talvez lembrado como um dos instrutores da infância do mundo, mas deixado para trás pelo progresso do homem”? Que os que apontam para a nossa falta de fruto razões que francamente semeiam as sementes do racionalismo se preparem para prestar contas quando chegar a hora de colher o fruto da sua semeadura.

Há em todo movimento uma tendência natural a perder intensidade à medida que ganha extensão. Quando a piedade se torna o hábito de grandes números, não é conforme às leis da natureza humana que ela conserve, em cada indivíduo, todo o fervor que precisa manter para simplesmente existir quando é a marca de pouquíssimos. Mas, se esse fato deve ser reconhecido, é preciso lembrar que a desvantagem que ele apresenta é facilmente vencida pelo poder da graça; e, de fato, a essa tendência ao arrefecimento na religião prática se opõe um contrapeso natural, numa tendência igualmente natural ao acúmulo. Aquela diminuição da distinção entre a igreja e o mundo, tantas vezes notada, não vem inteiramente de a igreja se tornar menos cristã, mas em parte também de o mundo se tornar menos perverso. O testemunho de um grande número de homens decididos impõe ao mundo, aos poucos e silenciosamente, um respeito pelos princípios cristãos, até que o mundo aceite tacitamente, das mãos da igreja, muitas das suas leis morais e dos seus padrões sociais. Toda concessão desse tipo é uma vantagem para os cristãos que pretendem conquistar a todos, ao passo que é uma sedução para os que descansam na ideia de converter uma pequena parte do povo, deixando o resto viver no pecado.

Ponham os ímpios em minoria, e o vício se torna uma mancha social, além de espiritual, e a religião, um conforto exterior, além de interior. À medida que a multidão dos cristãos vai crescendo, há um poder acumulado do exemplo, um poder acumulado do ensino, um poder acumulado das orações, um poder acumulado da formação cristã nas famílias, um poder acumulado da pureza dos hábitos, tudo tendendo numa só direção: pôr o sentimento público sob o domínio de Cristo. Existem neste país cidades e aldeias onde, na memória de homens ainda vivos, se encontravam pouquíssimas pessoas piedosas; mas hoje um décimo, um sétimo e, em alguns casos, até um quinto da sua população adulta professa seguir a Cristo e vive de modo mais ou menos digno dessa profissão. Pode alguém deixar de sentir que as pessoas não convertidas de uma cidade assim têm muito mais probabilidade de se converter do que as que vivem onde a proporção dos piedosos não passa de um em cem, ou de um em mil? Quem não sentiria, quem não reconheceria na prática o sentimento do poder acumulado do progresso cristão, se tivesse de decidir em qual de duas cidades o seu filho não convertido deveria estabelecer-se para a vida toda: uma com um crente para cada mil habitantes, ou outra com um crente para cada dez? Ele diria de imediato: “No segundo lugar, as perspectivas da conversão do meu filho são imensamente maiores do que no outro.” O que sentiríamos num caso individual, devemos senti-lo em grande escala: devemos tirar dos êxitos passados força e esperança, não fraqueza, e tornar-nos especialmente impacientes com a permanência dos pecadores naqueles campos onde já se alcançaram triunfos notáveis da graça. O que os cananeus eram para os israelitas de outrora, os não convertidos que moram nas nossas cidades e aldeias são para nós hoje. Eles nos confundem e enfraquecem, nos seduzem, nos enredam, desviam os nossos filhos, roubam-nos o fruto das nossas escolas, esfriam o zelo dos nossos jovens convertidos, atraem famílias para práticas mundanas, tentam os nossos comerciantes, contaminam as nossas igrejas; e nunca, enquanto não forem totalmente desarraigados, a paz e a justiça poderão florescer nos nossos territórios. Impacientes com a sua obstinação em toda parte, devemos sê-lo especialmente onde as vitórias conquistadas pelos que nos precederam nos deixam comparativamente pouco a fazer: pois a batalha morro acima já foi travada, a posição vantajosa já foi conquistada, e agora, que venha o poder para completar o triunfo! A conversão completa da Inglaterra e da América nos próximos cinquenta anos não seria obra tão grande para os cristãos que hoje existem quanto o progresso feito nos últimos cem anos foi para os cristãos que então existiam. É racional crer que Deus abençoará menos os seus servos neste século XIX do que no que passou, se forem igualmente fiéis? Ou que derramará sobre esta nossa geração bênçãos menos marcantes do que derramou sobre aquela à qual devemos tanto?

IV. A conversão do mundo inteiro é possível

A simples consideração do progresso passado basta para provar que, com base na experiência, não temos o direito de concluir que a conversão do mundo inteiro é impossível. Por mais que se argumente com a lentidão do progresso passado do cristianismo, o último século mudou de tal modo o aspecto das coisas que agora lança decisivamente o peso do argumento da experiência no prato da esperança. Muitos, porém, continuarão a considerar ilusória qualquer expectativa coerente da conversão geral dos homens: alguns fundam as suas objeções na sua visão da constância da natureza humana, que, segundo pensam, há de apresentar no futuro, como no passado, grande número de opositores invencíveis à santidade; outros se colocam num terreno mais alto e creem que a conversão geral da nossa raça é contrária ao propósito de Deus.

Quando a pergunta “É possível a conversão do mundo inteiro?” é posta com justiça, a resposta simples é obviamente esta: “É possível, a menos que seja contrária à vontade de Deus.” Se ele ordenou que ela não aconteça, um obstáculo infinito se lhe opõe; se não o ordenou, os obstáculos que se lhe opõem são finitos e, portanto, superáveis. Os cristãos podem vencer todas as coisas, menos um decreto de Deus.

Deu-nos ele, então, alguma declaração de que não pretende renovar a terra, como um todo, em justiça? Não pretendemos manter controvérsia com os que adotaram deliberadamente a opinião de que a dispensação cristã é uma espécie de intervalo entre a vida do Senhor na terra e um futuro reinado terreno, dando testemunho em seu nome nesse meio-tempo: um testemunho para a conversão de poucos e a condenação de muitos. Deixamos a eles o mérito de serem perfeitamente coerentes ao esperar pequenos resultados da pregação do evangelho, e a responsabilidade de olhar para esse evangelho sob uma luz que autoriza pouca fé.

Tratamos com os que consideram o evangelho, de boa-fé, como “boas-novas” para toda criatura: “boas-novas” que os que as ouviram antes de mim tinham o dever de me contar; “boas-novas” que eu tenho o dever de contar a toda criatura viva, na medida das minhas oportunidades; “boas-novas” de que “a graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos” (Tt 2.11); notícia que não me poderia ser dada como boa se deixasse alguma dúvida sobre se era ou não para mim; “boas-novas” para toda criatura: “um evangelho para você”.

Tomamos os dois primeiros anúncios feitos por um pregador sob a dispensação cristã a auditórios de pecadores como destinados à nossa instrução e imitação: “Arrependam-se, e CADA UM DE VOCÊS seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos seus pecados” (At 2.38); “Tendo Deus ressuscitado o seu Servo, enviou-o a vocês para abençoá-los, no sentido de que CADA UM abandone as suas maldades” (At 3.26). Não temos nenhuma espécie de autoridade para fazer declarações menos diretas, pessoais ou abrangentes do que essas. Devemos ordenar “a todas as pessoas, em todos os lugares, que se arrependam” (At 17.30), chamar cada uma delas a crer, assegurar a cada uma delas que Cristo foi “enviado para abençoá-la, no sentido de que abandone as suas maldades”.

Nem devemos fazer tais proclamações com o sentimento de que, embora seja nosso dever fazê-las, não há da parte de Deus nenhuma intenção de apoiar o nosso testemunho e torná-lo eficaz. A esperança no resultado sustentava o apóstolo na sua obra, segundo a sua própria declaração; pois ele diz: “É para esse fim que trabalhamos e sofremos opróbrio, porque temos posto a nossa esperança no Deus vivo, Salvador de todos, especialmente dos que creem” (1Tm 4.10) [N. do T.: assim na King James (“labour and suffer reproach”); a NAA traz “trabalhamos e nos esforçamos”.]. Essa confiança no Deus e Salvador de todos bastava para animar qualquer homem no trabalho e sob o opróbrio; e a uma confiança assim nunca deveríamos renunciar.

A questão de saber se devemos ou não olhar para as conversões das primeiras épocas como um padrão a almejar é resolvida por uma das passagens já citadas. Depois de descrever com alegria a conversão da igreja em Éfeso, onde “a palavra do Senhor crescia e prevalecia poderosamente” (At 19.20), São Paulo diz que Deus fez isso “PARA MOSTRAR NOS TEMPOS VINDOUROS A SUPREMA RIQUEZA DA SUA GRAÇA, em bondade para conosco, em Cristo Jesus” (Ef 2.7). Estamos vivendo naquilo que, então, eram “os tempos vindouros”. Sobre nós brilha a luz daquela “suprema riqueza da graça”, brilhando para o nosso encorajamento, brilhando para que creiamos que, em cidades pagãs onde se adoram grandes Dianas, também nós veremos “a palavra de Deus crescer e prevalecer poderosamente”, os ritos pagãos abandonados, os livros maus queimados e o ofício dos fabricantes de ídolos destruído.

Enquanto esse número coletivo de conversões nos é dado como encorajamento, a mais notável de todas as conversões individuais é posta diante de nós à mesma luz. “Mas”, diz São Paulo, “por esta mesma razão, me foi concedida misericórdia, para que, em mim, que sou o principal pecador, Cristo Jesus pudesse mostrar a sua completa longanimidade, e eu servisse de modelo para todos os que hão de crer nele para a vida eterna” (1Tm 1.16). Assim somos deliberadamente advertidos a tomar a conversão mais singular que já ocorreu na igreja primitiva, não como motivo de desânimo por causa da sua singularidade, mas como manifestação intencional da graça maravilhosa do Redentor, com a qual todo pecador de todas as épocas que deseje “achar misericórdia” pode encorajar-se. O perseguidor Paulo, convertido e perdoado, serve de modelo para os crentes individuais “nos tempos vindouros”. A grande multidão de “filhos da ira” (Ef 2.3) em Éfeso, que Deus fez “assentar nas regiões celestiais em Cristo Jesus” (Ef 2.6), é também para nós, dos “tempos vindouros”, um modelo da “suprema riqueza da graça”. Seja a nossa fé provada quanto à possibilidade da conversão de um indivíduo tão improvável quanto Saulo, seja quanto à de um número tão grande quanto o da igreja de Éfeso, em ambos os casos devemos crer que a antiga graça é livre e poderosa hoje. Confiando assim no “Deus vivo, Salvador de todos”, iremos com alegria “trabalhar e sofrer opróbrio”.

A mesma relação que mostramos existir entre a esperança e o trabalho nos é também apontada como existente entre a esperança e a oração. “Antes de tudo, peço que se façam súplicas, orações, intercessões e ações de graças em favor de todas as pessoas” (1Tm 2.1). Aqui ninguém duvida de que nos é ordenado literalmente orar por todo ser humano; mas, se não prestássemos atenção cuidadosa ao contexto, poderíamos sair com a ideia vaga de que só devemos orar como expressão de boa vontade, e isso por bênçãos temporais e nacionais, sobretudo porque se faz alusão aos “reis e a todos os que exercem autoridade” (1Tm 2.2); que, de fato, as “súplicas, orações, intercessões e ações de graças em favor de todas as pessoas” não significam que devemos orar, suplicar e interceder para que todos sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade: pois isso seria apenas pedir o que Deus quer que nunca aconteça e, portanto, o que não lhe poderia ser aceitável. Mas, como que para antecipar expressamente essa incredulidade, o apóstolo acrescenta: “Isto é bom e aceitável diante de Deus, nosso Salvador, que deseja que todos sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade. Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e a humanidade, Cristo Jesus, homem, que deu a si mesmo em resgate por todos, testemunho que se deve dar em tempos oportunos” (1Tm 2.3-6).

Aqui o nosso encorajamento na oração, na súplica e na intercessão por todas as pessoas se funda, em primeiro lugar, na declaração clara de que tal oração é “boa e aceitável diante de Deus, nosso Salvador”; e “nosso Salvador” dá intensidade à expressão, como que nos lembrando de que aquele que nos salvou há de ser alguém para quem é bom e aceitável que busquemos a salvação de todos. Funda-se, além disso, na declaração expressa da sua vontade a respeito dos outros: ele “deseja que todos sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade”. Aqui está não só a garantia de que estamos certos ao orar para que sejam salvos, mas também certos ao orar para que a verdade seja levada a todos e para que sejam salvos por meio dela; orando, de fato, pela difusão universal do evangelho de Cristo e, em consequência, pela salvação universal dos homens. Apoia-se, ainda, na unidade de Deus, na unidade do Mediador entre Deus e os homens e na unidade da humanidade tal como considerada pela sua expiação mediadora: “Há um só Deus e um só Mediador entre Deus e a humanidade, Cristo Jesus, homem, que deu a si mesmo em resgate por todos, testemunho que se deve dar em tempos oportunos.”3

Temos, então, o exemplo claro dos primeiros pregadores, a declaração expressa de que as primeiras conversões eram como um modelo para os tempos vindouros, a afirmação de que a confiança em Deus como Salvador de todos era a força que animava o trabalho e o opróbrio apostólicos, a ordem de orar por todos e a garantia, apresentada da forma mais solene, para que tais orações se apoderem ousadamente das promessas de Deus.

Muitos que admitem que o argumento bíblico aponta nessa direção, olhando, no entanto, para a natureza humana, a condição presente da humanidade, a proporção entre os agentes cristãos e a população e a história passada do homem, concluirão, afinal, que não se deve esperar a conversão do mundo. Também nos perguntarão como podemos conciliar tal expectativa com o livre-arbítrio do homem. Não lhes responderemos senão lembrando o fato de que toda conversão a mais muda em alguma medida, por pequena que seja, a condição da sociedade e, com isso, afeta os motivos que agem sobre os não convertidos, lançando um peso maior do lado do bem. Mais alguns avanços decisivos da igreja em certos países da cristandade lançariam um peso preponderante de motivos sociais do lado da piedade, deixando pouco contra que lutar além da depravação natural do coração humano, a qual, mesmo na condição mais pura da sociedade, bastaria para exigir o cuidado mais zeloso pela conversão de cada ser humano.

Isso diz respeito, primeiro, à questão geral dos motivos naturais e, depois, à questão particular de conciliar a fé na regeneração geral dos homens com o seu livre-arbítrio. Admitimos de bom grado que logicamente não podemos conciliá-los, e certamente não temos pressa em tentá-lo. Todas as dificuldades que nos enfrentam quando esperamos com sobriedade a conversão do mundo inteiro nos enfrentam igualmente quando esperamos com sobriedade a conversão de uma família inteira. Toda questão de livre-arbítrio, de motivos, de natureza humana, de experiência passada que entra numa entra também na outra, ainda que em escala menor. Mas só a escala é diferente; os elementos são os mesmos. E, no entanto, quem, tendo sentido dentro de si a fé e o amor de Cristo e tendo parentes queridos ao seu coração, não pediu repetidas vezes que todos eles pudessem comparecer “sem nenhum extraviado perdido, uma família no céu”? Quem não sente que exercer fé de que tal oração será atendida é bom, sábio e aceitável a Deus? Na verdade, toda a dificuldade existe já quanto à fé na conversão de um só indivíduo.

A diferença entre pregar o evangelho na plena expectativa de não fazer mais do que salvar pequenos grupos de santos do meio de multidões de pecadores, sobre cujo naufrágio não se há de exercer nenhuma influência além de lhes segurar uma luz para afundarem, e olhar para cada homem convertido como alguém resgatado de um perigo comum, que deve imediatamente juntar-se ao resgate dos demais, é tal que, no primeiro caso, quando se realiza um pouco, isso é visto como aquilo que o evangelho foi enviado para fazer; enquanto, no outro caso, cada pouco é tomado apenas como penhor do muito, e o muito, como penhor do universal. Enquanto almejarmos poucos, ganharemos apenas poucos; pois a lei universal do serviço de Cristo é que os nossos êxitos tomem as suas proporções da nossa fé.

Se estivermos errados nas nossas opiniões; se for contrário ao desígnio do nosso Senhor converter toda a nossa raça pela pregação da sua palavra e pelo derramamento do seu Espírito; se for propósito dele deixar a terra mais ou menos como está até encerrar a sua triste história em trovões de juízo; se essa consumação estiver próxima e a última trombeta já estiver começando a encher-se com o sopro do arcanjo; ainda assim, certamente, se nós, sob a ilusão da nossa crença, formos encontrados ofegantes, orando, trabalhando, para ver se de algum modo salvamos alguns, aquele toque poderá causar-nos uma dor pelas multidões que encontrou sem aviso; mas nenhuma dor por termos estado ocupados em advertir, exortar e rogar; nenhuma dor por termos feito isso na fé de que o nosso Senhor queria que todos chegassem ao conhecimento da verdade.

Suponhamos, por outro lado, que haja ao menos a possibilidade de estarmos certos: que a graça de Deus que se manifestou a nós seja realmente “boas-novas” para toda criatura; que a verdade tão preciosa para a nossa nação e para a nossa própria alma não tenha sido, por decreto do grande Salvador que está acima de nós, afastada de nenhuma parte da família humana; que ele de fato queira que, literalmente, toda criatura a ouça dos lábios dos seus servos, que, literalmente, a terra inteira se encha do conhecimento do Senhor, que, literalmente, “os tempos vindouros” tomem as primeiras conversões como o modelo das suas expectativas e abarquem todas as pessoas nas suas súplicas e nos seus trabalhos; se tudo isso for verdade, e nós gastarmos as nossas forças observando as nuvens, os juízos e as trombetas, dizendo aos que estão chamando as nações que podem chamar, mas que com isso pouco conseguirão, e assim, no que depende de nós, roubando o vigor do seu braço e o fogo da sua voz; se morrermos no meio disso e descobrirmos que os “tempos vindouros” ainda seguem adiante, então talvez sintamos que negligenciamos a Escritura que diz: “Quem somente observa o vento nunca semeará, e o que olha para as nuvens nunca fará a colheita” (Ec 11.4). O futuro, os juízos e os desígnios da Providência estão dentro do domínio exclusivo de Deus; e ninguém precisa fazer da tarefa de fixá-los ou averiguá-los a sua principal preocupação. Um mundo de homens que pecam e sofrem, cada um deles meu próprio irmão, me chama para o trabalho, trabalho, trabalho. Posso confiar o futuro, e o tempo da restauração de Israel, a mãos melhores do que as minhas.

V. Levantemo-nos e mãos à obra

Com esperança ou sem esperança, levantemo-nos e mãos à obra. Há encorajamentos por todo lado, e também ameaças. Os esclarecidos, os sinceros, os zelosos são muitos; os perversos e os preguiçosos são assustadoramente mais. O número dos primeiros tem crescido por meio de conversões; o dos últimos, mais depressa, pelo aumento natural da população. Os meios para a propagação cristã são vastos; a fé de muitos na sua eficácia, fraca. As doutrinas do cristianismo são conhecidas e apreciadas por multidões que nunca as conheceram antes; mas, por outro lado, poucas são as igrejas em cujo próprio coração essas doutrinas não são traídas. Um quer nos roubar a encarnação de Deus; outro, o Espírito de Deus; outro, uma expiação; outro, a providência; outro, a oração; uns, a graça regeneradora; uns, a unção ministerial; uns, o fervor primitivo; uns, o dia do Senhor; alguns querem nos lançar num mar de pensamento sem um guia inspirado; outros, num universo moral sem castigo para o mal; assim, quase toda verdade que distingue o sistema do cristianismo das invenções terrenas é atacada por minas ou por bombardeio. Não excluímos que a verdade seja às vezes dita sem que daí resulte muito bem; mas temos certeza de que o erro nunca é lançado no mundo sem causar dano; e há homens fortes fazendo agora uma obra pela qual, a menos que outros, fortalecidos pelo poder de Deus, a desfaçam, as gerações futuras terão motivo para chorar. Para todos os que não suportam ver a cruz traída, o Espírito Santo entristecido, os oráculos de Deus rebaixados, a obra do Espírito na alma humana reduzida a um processo de motivos e emoções, e todo laço divino que nos une, como raça redimida, a um Pai redentor, habilmente cortado; para os que não estão dispostos a ver as igrejas da Inglaterra e da América passarem por pragas como as que caíram sobre as igrejas da Suíça, da Alemanha e de outras regiões protestantes do continente, este é um momento em que o ar parece cheio de toques de trombeta, em que cada passo dado em terreno doutrinário faz ecoar uma advertência. E, ai!, muitos que repelem dogmaticamente o erro se evaporam em intelectualismo; outros se deterioram sob um mofo prateado de respeitabilidade; e outros, professando buscar o cristianismo antigo, contentam-se em enfeitar o sepulcro em que a Idade Média o sepultou, em vez de buscar que os seus primeiros pregadores, na pessoa de outros homens, mas no “espírito e poder” (Lc 1.17) de Pedros e Paulos, sejam levantados mais uma vez!

Abençoaremos todo trabalhador por qualquer serviço prestado à preservação e ao avanço da verdade, por toda boa palavra dita, todo argumento sólido proferido do púlpito, toda página de verdade evangélica escrita e toda repreensão aplicada, de qualquer modo, aos que querem falsificar a nossa fé; mas estejam eles certos de que, mais do que todos os outros serviços, afastar muitos da iniquidade há de contrariar e confundir as tentativas de reduzir o cristianismo de sistema divino a sistema humano. Essa é a resposta prática às dificuldades e objeções. Tenhamos tão somente multidões de cristãos recém-nascidos, fervorosos na fé e na esperança, cheios de amor e de boas obras, e os racionalistas expliquem o fenômeno como quiserem; mas a consciência comum da humanidade sentirá que Deus está nele. “Vendo que o homem que havia sido curado estava com eles, nada tinham a dizer em contrário” (At 4.14).

A razão para ser zeloso pela doutrina cristã que de tal modo supera todas as outras que ao lado dela elas se tornam como nada é a que São Paulo dá a Timóteo: “Cuide de você mesmo e da doutrina. Continue nestes deveres, porque, fazendo assim, você salvará tanto a si mesmo como aos que o ouvem” (1Tm 4.16). Que motivo! Salvar, primeiro, a nós mesmos; depois, os que nos ouvem: o sublime não pode ir mais longe! Aqui temos postos diante do nosso coração, solicitando-nos a avançar, motivos que reconhecemos terem já movido o próprio coração da Divindade. Salvar! como instrumento, é verdade; mas, oh, quão infinitamente glorioso, mesmo como instrumento, salvar! e isso não só a nós mesmos, mas a outros! Se, por um lado, guardar “a doutrina” é o único meio de conservar na igreja o poder de salvar, por outro, nenhuma guarda sobre a doutrina jamais será eficaz a menos que consigamos levantar uma sucessão de homens salvos.

Credos, catecismos e confissões não devem ser tratados como agora está na moda tratá-los em muitos círculos; mas, quando mantidos no seu devido lugar, como humanos e falíveis, e fortes somente quando concordam com os santos oráculos de Deus, têm grande utilidade. Mas a ideia de confiar neles para conservar a verdade em qualquer igreja é tão bem fundada quanto seria a ideia de confiar num bom código militar para defender uma nação. Um exército de covardes interpretaria qualquer código rebaixando-o ao seu próprio nível, e igrejas de homens não convertidos rebaixarão igualmente qualquer confissão de fé. Para resgatar almas, para repreender a blasfêmia, para edificar a santa igreja de Deus, para glorificar na terra o nome do Salvador, para a nossa própria alegria e coroa de glória, para a bem-aventurança de cobrir uma multidão de pecados (Tg 5.20), para a delícia eterna de ter salvado da morte uma alma, almejemos uma só obra: trazer pecadores das trevas para a luz. De todos os registros de louvor que o nosso misericordioso Senhor dará aos seus servos, quem não cobiçaria acima de tudo que o seu fosse este: “A verdadeira instrução esteve na sua boca, e nenhuma injustiça se achou em seus lábios. Ele andou comigo em paz e em retidão, E AFASTOU MUITOS DA INIQUIDADE!” (Ml 2.6)?

Vocês que são luzes e pais no ministério, cujo próprio nome é um poder, cujo tom determina o de muitos jovens evangelistas, cujo padrão de fé e de êxito regula as expectativas práticas de muitos cristãos humildes: oh, mostrem-nos o caminho da vitória, conduzam-nos a conquistas completas sobre este mundo frio e pecador! E se, antes de partirem daqui, vocês deixassem aos seus sucessores uma tradição gloriosa de multidões quebrantadas sob o poder da palavra, de pecadores notórios subitamente transformados em exemplos brilhantes da graça, de multidões de interessados perguntando com lágrimas pelo caminho do céu, de igrejas antes moribundas facilmente despertadas, por meio de vocês, para um zelo apostólico? Se deixarem atrás de si tradições como essas, para serem contadas e recontadas aos filhos e aos filhos dos filhos, a “língua de fogo” de vocês estará se multiplicando nos lares do seu povo quando a sua voz há muito estiver calada, e o fruto do seu trabalho continuará a se propagar até que soe a trombeta do arcanjo.

Vocês que apenas estão entrando na obra do ministério, ou que ainda são jovens nas suas fileiras, escolham, entre todos os que os precederam, a fama de quem vocês prefeririam. Tomem a multidão dos que brincaram com a cruz, com a inspiração, com a queda e a redenção do homem, com a obra do Espírito ou com qualquer outra das doutrinas vitais da nossa religião; e, se encontrarem entre eles um só homem cujo nome, passadas as gerações, seja querido de uma nação, sagrado nos lares de milhares de pessoas para cujos antepassados ele foi uma bênção, então sigam-no. Se encontrarem, entre os que se entregaram aos prazeres intelectuais e se achavam acima do trabalho simples e rude dos avivamentos e despertamentos, um que tenha deixado uma memória até hoje abençoada, levantando ainda agora filhos espirituais que perpetuem os seus frutos para outras gerações, podem segui-lo. Mas certamente vocês nunca pensariam em seguir a trilha daqueles cujos trabalhos foram sucedidos por uma praga, ou cujos nomes, se é que são lembrados, o são não como uma bênção para o mundo, mas simplesmente como exemplo de talento? Certamente vocês prefeririam ser daqueles de quem os avós falarão aos netos como tendo sido o meio de salvar tal homem, de acender tal avivamento, de introduzir uma nova era religiosa na história de tal aldeia, ou de levar pela primeira vez o evangelho a algum povo para quem Cristo era um estranho. Vocês verão que todos aqueles sobre cuja memória repousam as bênçãos dos vivos foram os que mais se entregaram a realizar a salvação dos pecadores, que se gloriaram na cruz, que confiaram no Espírito Santo e que, fosse a sua língua a de um Boanerges, fosse a de um Barnabé, sempre tiveram o cuidado, esperando a sós diante do trono do Redentor, de tê-la tão impregnada do Espírito Santo que ela fosse, no mínimo, uma “língua de fogo”.

Não sentimos que dissemos o que tínhamos a dizer. Ao rever este pequeno livro, mal podemos crer que seja tudo o que produziram os sentimentos e pensamentos com que o começamos. Mas, tal como é, que saia para o mundo, para ser repreendido onde erra, ignorado onde é fraco e abençoado onde é verdadeiro e forte.

E agora, adorável Espírito, que procedes do Pai e do Filho, desce sobre todas as igrejas, renova o Pentecostes nesta nossa época e batiza o teu povo em geral; oh, batiza-o mais uma vez com línguas de fogo! Coroa este século XIX com um avivamento da “religião pura e sem mácula” (Tg 1.27) maior do que o do século passado, maior do que o do primeiro, maior do que qualquer “demonstração do Espírito” (1Co 2.4) já concedida aos homens!

Notas

1. A água, o ar, a luz, a eletricidade etc., que não se podem classificar convenientemente em nenhuma das três divisões (vegetal, mineral e animal) que costumam ser tidas como abrangendo todos os objetos naturais.

2. O pastor Augustin Bost.

3. Damos a leitura da margem, que é uma tradução literal; a outra é “para ser testificado no devido tempo”.

Tradução para o português a partir de William Arthur, The Tongue of Fire; or, The True Power of Christianity (1856), na edição de Londres (C. H. Kelly, c. 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.