J. A. Wood · Amor Perfeito · Seção X

O testemunho do amor perfeito

O testemunho do Espírito e o testemunho público do amor perfeito.

Seção décima

O testemunho do amor perfeito

74. As Escrituras autorizam o testemunho da santidade?

Que as seguintes passagens respondam. Davi diz: “Venham e escutem, todos vocês que temem a Deus, e eu contarei o que ele tem feito por minha alma” (Sl 66.16). Jesus disse a alguém que ele havia curado: “Vá para a sua casa, para os seus parentes, e conte-lhes tudo o que o Senhor fez por você e como teve compaixão de você. Então ele foi e começou a proclamar em Decápolis tudo o que Jesus lhe tinha feito; e todos se admiravam” (Mc 5.19-20). Paulo diz: “Se com a boca você confessar Jesus como Senhor e em seu coração crer que Deus o ressuscitou dentre os mortos, você será salvo. Porque com o coração se crê para a justiça [santidade] e com a boca se confessa para a salvação” (Rm 10.9-10). Na sua Carta a Timóteo, jovem ministro do evangelho, ele diz que Timóteo “fez a boa confissão diante de muitas testemunhas” (1Tm 6.12). Paulo diz que as mulheres devem enfeitar-se com roupas modestas, e não com ouro ou pérolas etc., “porém com boas obras, como convém a mulheres que professam ser piedosas” (1Tm 2.10). O apóstolo exorta os irmãos hebreus desta maneira: “Conservemos firmes a nossa confissão” (Hb 4.14).

O Salvador diz: “Vocês são a luz do mundo” (Mt 5.14). Não se pode dizer que as palavras da nossa boca não têm parte na iluminação do mundo. Davi diz: “Todas as tuas obras te renderão graças, Senhor; e os teus santos te bendirão. Falarão da glória do teu reino e confessarão o teu poder, para que os filhos dos homens conheçam os teus feitos poderosos e a glória da majestade do teu reino” (Sl 145.10-12).

75. A igreja em geral reconhece o testemunho da religião como dever dos crentes?

Reconhece. Professar a religião é dever reconhecido de todos os verdadeiros cristãos. Isso é admitido em todos os ramos da igreja protestante. Crer com o coração e confessar com a boca estão intimamente ligados; e ninguém tem o direito de separar “o que Deus ajuntou” (Mt 19.6). A boca deve falar, e falará, quando o coração crê para a justiça; pois “a boca fala do que está cheio o coração” (Mt 12.34). A fé e a experiência do coração e a confissão da boca devem andar juntas. A posse do amor perfeito e o desejo de difundi-lo são inseparáveis, e esse desejo leva ao testemunho.

76. Uma graça tão rica não merece um reconhecimento humilde, fiel e agradecido?

Se alguém tem a obrigação de confessar e testemunhar, é a alma santificada. Se alguém tem o direito de relatar a sua experiência, é quem foi purificado pelo sangue de Jesus. E, se o relato de alguma experiência religiosa é útil à igreja e agradável a Deus, há de ser aquela que é clara e forte, profunda e inteiramente evangélica. Quando a alma é batizada com o Espírito Santo, o pecado é totalmente destruído e o amor, o amor puro e perfeito, enche todo o coração, há as mais solenes obrigações de dar fiel testemunho a favor de Deus. O rev. William Bramwell escreveu a um amigo: “Viva na pureza de coração. Seja salvo de todo pecado e declare isso em toda ocasião apropriada.”

77. A Bíblia não proclama que os cristãos são testemunhas de Deus?

Proclama. “Vocês são as minhas testemunhas, diz o Senhor” (Is 43.10). A testemunha deve testificar do que sabe. As testemunhas de Deus devem testificar do que sabem, da sua experiência. O testemunho e o conhecimento de que o mundo precisa dizem respeito ao Reino de Deus, que é “justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17). Devemos professar a verdade na exata medida em que a entendemos. Quem menciona a obra de Cristo deve contar exatamente o que ele fez. Todos admitem isso quanto à justificação e à regeneração; por que não quanto à santificação? Por que não declarar tudo o que Deus fez por nós, na medida em que há evidência clara de que foi realizado, e não só uma parte? Não é vontade de Deus que as suas testemunhas deem pleno testemunho do seu poder salvador? Devem elas reter a parte mais clara e melhor do seu testemunho? Moisés não entendia assim o nosso dever. Ele não pensava que devêssemos guardar a nossa religião para nós mesmos, sem professá-la. Ele diz, referindo-se à lei, às obras e à bondade de Deus: “delas falará quando estiver sentado em sua casa, andando pelo caminho, ao deitar-se e ao levantar-se” (Dt 6.7). A igreja de Deus precisa hoje, e deveria ter, um milhão de testemunhas vivas de uma salvação presente e plena.

A carta pastoral da Conferência Geral de 1832 apresenta o seguinte sobre o tema da santidade:

“Quando falamos de santidade, queremos dizer aquele estado em que Deus é amado de todo o coração e servido com todas as forças. Isso, como metodistas, temos dito, é privilégio do cristão nesta vida; e temos dito ainda que esse privilégio pode ser alcançado instantaneamente por um ato de fé, como o foi a justificação.

“Por que, então, temos tão poucas testemunhas vivas de que ‘o sangue de Jesus Cristo purifica de todo pecado’ (1Jo 1.7)? Entre os metodistas primitivos, pode-se dizer com justiça que a experiência dessa elevada conquista na religião era comum; agora raramente se encontra entre nós quem a professe.

“Não é tempo de, ao menos nesta questão, voltarmos aos primeiros princípios? Não é tempo de nos livrarmos da acusação de incoerência que pesa sobre nós neste assunto? Basta que todos os que nasceram do Espírito e provaram a boa palavra de Deus busquem ser aperfeiçoados no amor com o mesmo ardor com que buscaram o perdão dos seus pecados, e logo as nossas reuniões de classe e festas de amor serão alegradas pelo relato de experiências desse elevado caráter, como agora o são pelas que falam de justificação e do novo nascimento. E, quando isso vier a acontecer, podemos esperar um aumento correspondente das nossas alegrias cristãs e da força da influência religiosa que exerceremos sobre os outros.”

Leitor, aqui você encontra o verdadeiro som do metodismo primitivo: metodismo simples, direto, sem rodeios, exatamente como deve ser, e não como os preconceitos e costumes do povo gostariam que fosse.

Não pretendemos tomar uma posição extrema quanto ao testemunho do amor perfeito, mas apresentar a verdade e o dever a esse respeito, conforme os entendemos. Cremos com toda a firmeza que uma confissão honesta, humilde e plena do amor perfeito é bíblica, wesleyana e honrosa para Deus, e como tal deve receber a nossa atenção e ocupar o lugar que lhe cabe.

78. A bênção da inteira santificação pode ser conservada sem que seja testemunhada em todas as ocasiões apropriadas?

1. O rev. William Bramwell dá a sua opinião sobre essa questão da seguinte forma: “Penso que tal bênção não pode ser conservada sem que seja professada em toda oportunidade adequada; pois assim glorificamos a Deus e com a boca fazemos confissão para a salvação.”

2. A sra. Phoebe Palmer diz: “Ora, embora eu saiba bem que essa bênção é dom de Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo, creio plenamente que, se eu não tivesse cedido às minhas convicções quanto à confissão, não a teria conservado.”

3. O rev. Asa Kent, que pertenceu à Conferência de Providence, diz: “Tenho razão para crer que há cinquenta e seis anos, neste mês, o Senhor tomou plena posse do meu coração e me encheu de amor puro.” E acrescenta: “Parecia demais para um verme como eu confessar, e esperei para ver se a bênção permanecia; desse modo perdi o testemunho.” Depois diz: “Durante sete anos tive duras tentações e conflitos com os poderes das trevas. Depois desses sete anos de vida no deserto, o Senhor renovou a certeza do seu amor no meu coração, muito além de tudo o que eu conhecera antes.”

4. O santo Fletcher perdeu essa bênção quatro ou cinco vezes por não testemunhá-la. Reteve o seu testemunho, escondeu a luz e perdeu a bênção. Ouça o que ele diz, e acautele-se: “Meus queridos irmãos e irmãs, Deus está aqui; eu o sinto neste lugar; mas eu quisera esconder o rosto no pó, porque tive vergonha de declarar o que ele fez por mim. Durante muitos anos entristeci o seu Espírito; mas estou profundamente humilhado, e ele restaurou de novo a minha alma. Na quarta-feira passada, à noite, ele me falou por estas palavras: ‘Considerem-se mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus’ (Rm 6.11). Obedeci à voz de Deus; obedeço-lhe agora; e digo a todos vocês, para louvor do seu amor: estou livre do pecado. Sim, alegro-me em declará-lo e em dar testemunho da glória da sua graça: estou morto para o pecado e vivo para Deus, por meio de Jesus Cristo, que é o meu Senhor e Rei. Recebi essa bênção quatro ou cinco vezes antes, mas a perdi por não observar a ordem de Deus, que nos disse: ‘Com o coração se crê para a justiça e com a boca se confessa para a salvação’ (Rm 10.10). Mas o inimigo ofereceu a sua isca sob várias cores para me impedir de declarar publicamente o que o meu Senhor tinha feito.

“Quando recebi essa graça pela primeira vez, Satanás me mandou esperar um pouco, até ver mais frutos. Resolvi fazê-lo; mas logo comecei a duvidar do testemunho que antes sentira no coração, e em pouco tempo percebi que tinha perdido ambos.

“Uma segunda vez, depois de receber essa salvação (com vergonha o confesso), fui impedido de ser testemunha do meu Senhor por esta sugestão: ‘Você é uma figura pública; os olhos de todos estão sobre você; e se, como antes, por algum motivo você perder a bênção, isso será uma desonra para a santidade de coração’ etc. Calei-me, e de novo perdi o dom de Deus.

“Em outra ocasião fui levado a escondê-la por este raciocínio: Quão poucos, mesmo entre os filhos de Deus, receberão este testemunho! Muitos deles supõem que toda transgressão da lei adâmica é pecado; e, portanto, se eu me declarar livre do pecado, todos esses dirão que o meu testemunho é mentira, porque não estou livre no sentido deles; não estou livre de ignorância, de enganos e de várias fraquezas. Por isso, desfrutarei do que Deus operou em mim, mas não direi que sou perfeito no amor. Ai de mim! Logo descobri de novo que ‘daquele servo inútil que esconde o talento do seu senhor e não o faz render será tirado até o que tem’ (Mt 25.28-30).

“Agora, meus irmãos, vocês veem a minha insensatez; confessei-a na presença de vocês; e agora resolvo, diante de todos vocês, confessar o meu Mestre; eu o confessarei ao mundo inteiro; e declaro a vocês, na presença da santa Trindade, que estou agora ‘morto para o pecado’ (Rm 6.11).” Não temos razão para crer que o sr. Fletcher tenha perdido a bênção outra vez depois desse testemunho público e decidido.

Foi nessa ocasião que o santo Fletcher disse à sra. Hester Ann Rogers: “Você, minha irmã, quer ser uma das que espalharão a chama sagrada? Venha, minha amiga, farei aliança com você; nós nos uniremos para engrandecer o Senhor e dar o nosso testemunho diante dos homens e dos anjos. Você quer?” A sra. Rogers respondeu com lágrimas correndo: “Na força de Jesus, eu quero.” E assim fez, em público e em particular, até que a sua alma partiu para o céu.

5. Quando Lady Maxwell foi santificada pela primeira vez, adiou um testemunho público; em consequência, perdeu a evidência da sua pureza e ficou por algum tempo perturbada por dúvidas. Foi levada a ver que as suas dúvidas eram causadas por não declarar humildemente o que Deus tinha feito pela sua alma, e desde então permaneceu como fiel testemunha da plena salvação. O seu biógrafo diz: “Ela se sentiu constrangida a dar o seu testemunho firme, decidido e coerente de que a raiz amarga do pecado fora destruída.”

6. O rev. B. W. Gorham diz: “Descobri que, se quisesse permanecer claro no meu testemunho do amor perfeito, precisava ser específico ao testemunhar; no uso sóbrio dos termos das Escrituras, precisava testificar explicitamente do que o Senhor fez por mim. Muitas vezes achei particularmente crucificante dar esse testemunho, e contudo o achei proveitoso em alto grau. Ele honra a Cristo, encoraja outros a buscar a bênção e, quando dado como convém, mortifica e humilha a alma e produz um apego a Cristo como talvez não se possa experimentar de nenhum outro modo.”

79. Que bem se alcançará testemunhando a bênção da santidade?

1. Um testemunho apropriado obedecerá a Deus e lhe agradará. “Vocês são as minhas testemunhas, diz o Senhor” (Is 43.10).

2. Será um benefício para quem testemunha. Ninguém questiona isso quanto à regeneração; por que haveria de questioná-lo quanto à inteira santificação? O bispo Hamline diz que a confissão da santidade “promove a humildade”, “ajuda a consagração de si mesmo” e “fortalece a própria fé”. James Caughey diz: “Quanto mais frequentemente eu falava dessa grande bênção, confessando-a e insistindo com outros para que a buscassem com empenho, mais clara se tornava a minha evidência.” Lady Maxwell diz: “Sou capacitada a dar um testemunho mais público e decidido da perfeição cristã pelos meus lábios e pela minha pena. Ah, que eu o dê também pela minha vida! Pareço, por assim dizer, posta para a defesa e promoção desse importante ramo da doutrina e da experiência, e vejo que o Senhor me reconhece nisso, pelo menos no que diz respeito à minha própria alma.”

3. Beneficiará outros. “Muitos verão essas coisas, temerão e confiarão no Senhor” (Sl 40.3). Levará ao despertamento de pecadores e à santificação de crentes. Despertará as almas da igreja e inspirará nos desanimados a esperança da vitória. O dr. Jesse T. Peck diz: “Esse testemunho, dado com humildade e veracidade, tocará o coração dos outros como nada mais pode tocar. Vimos até multidões movidas e derretidas, e pecadores despertados sob a sua influência, como se o sopro de Deus estivesse nele.”

80. O espírito, a conversa e o exemplo não mostrarão o que a graça fez por nós, de modo a dispensar a necessidade do testemunho?

Essas coisas são importantes e indispensáveis, mas não são todo o nosso dever. Se a alma santificada pode, por esse motivo, ser dispensada de testemunhar a santidade, então o pecador convertido pode, pelo mesmo motivo e com igual razão, ser dispensado de qualquer testemunho, e não teríamos nenhum professante. Se isso fosse todo o nosso dever, seriam considerados santificados alguns cujo coração nunca foi purificado e que têm consciência do pecado inato. A vida, se bem ordenada, pode testificar da pureza dos seus costumes. Pode provar que você é honesto, trabalhador e bom vizinho; mas tudo isso pode existir sem justificação e sem santificação. Multidões apenas parcialmente santificadas desejam saber se alguém já experimentou a libertação do pecado inato, e seriam encorajadas a buscar a bênção por um testemunho claro, dado no espírito da santidade. Qualquer argumento contra o testemunho da inteira santificação seria igualmente conclusivo contra o testemunho da justificação.

81. A santidade deve ser testemunhada diante de um auditório heterogêneo?

Nenhum estado religioso dispensa um sadio discernimento. Deve-se exercer prudência e juízo nisto, como em todos os demais deveres cristãos. Reivindicamos para o testemunho da bênção do “amor perfeito” a mesma prudência e o mesmo juízo que reivindicaríamos para a bênção da justificação, quanto ao tempo, ao lugar etc. Cristo mandou que os seus discípulos não jogassem “as suas pérolas diante dos porcos” (Mt 7.6), indicando um discernimento apropriado quanto às circunstâncias e aos ouvintes. Pode haver tempos e ocasiões em que será sábio e útil dar testemunho diante de todo tipo de pessoas. Mas esse testemunho, assim como o da justificação, deve normalmente ser dado entre os piedosos e nas reuniões de comunhão.

82. Quais são os termos melhores e mais seguros para testemunhar a santidade?

Estamos sempre mais seguros quando nos mantemos perto da Bíblia. Podemos razoavelmente inferir que o Espírito Santo escolheu os melhores termos para expressar qualquer obra da graça operada na alma. Os termos bíblicos são menos propensos a desorientar as pessoas do que os que nós mesmos escolhemos. Embora não pensemos haver autoridade alguma para prender alguém a uma forma particular de expressão, não temos o direito de ignorar os termos inspirados que designam essa bênção. A palavra “perfeição” e as palavras afins ocorrem cento e uma vezes nas Escrituras. Em mais de cinquenta desses casos ela é atribuída ao caráter humano sob a operação da graça. A palavra “santificar” e os seus derivados ocorrem mais de cem vezes em referência a pessoas e coisas, no sentido de separá-las para algum serviço especial. A palavra “santo” e os seus derivados ocorrem nada menos que cento e vinte vezes aplicados a pessoas e coisas. A palavra “justificar” e os seus derivados ocorrem setenta e quatro vezes aplicados a pessoas. A palavra “perdão” e os seus derivados, aplicados a pecadores arrependidos, ocorrem apenas dezessete vezes. À luz desses fatos, não vejo nenhuma boa razão para que os professantes deem voltas em torno das palavras inspiradas ao falar da experiência cristã, e falem de “mais religião”, de “uma obra mais profunda da graça” e de “fazer progressos na vida divina”. Essas expressões estão bem no seu lugar, mas não devem tomar o lugar das palavras profundamente significativas da inspiração. Cristo diz: “Quem se envergonhar de mim e das minhas palavras, dele se envergonhará o Filho do Homem, quando vier na sua glória e na glória do Pai e dos santos anjos” (Lc 9.26). “E ali haverá uma estrada, um caminho que será chamado de CAMINHO SANTO. Os impuros não passarão por ele” (Is 35.8).

Permita-me concluir esta resposta com as palavras de Adam Clarke: “Por que, então, há tantos, mesmo entre ministros e fiéis sinceros e piedosos, que se opõem tanto aos termos e se alarmam tanto com o testemunho?”

83. Os que testemunham essa bênção não devem ser precisos e usar os termos das Escrituras que não induzam a erro?

Não devemos ser tão vagos, nem escolher termos tais, que equivalham a uma negação real ou virtual da obra, ou a uma recusa de assumir a responsabilidade dessa “alta e santa vocação”. É a verdade que devemos professar, a verdade exata, tão de perto quanto pudermos expressá-la. O dr. Adam Clarke diz: “Essa aptidão, portanto, para comparecer diante de Deus, e a preparação completa para a glória eterna, é o que defendo, aquilo por que oro e o que recomendo de coração a todos os verdadeiros crentes, sob o nome de perfeição cristã. Se eu tivesse um nome melhor, mais enérgico, de maior plenitude de significado, mais digno da eficácia do sangue que comprou a nossa paz e purifica de toda injustiça, eu o adotaria e usaria com alegria.”

84. Alguns não testemunham essa bênção em termos seriamente censuráveis?

Sem dúvida isso às vezes acontece, assim como não há dever cristão que não tenha sido abusado por homens irrefletidos, precipitados e insensatos. O mesmo se dá quanto ao testemunho da justificação. Não se pode esperar que o testemunho da santidade neste mundo esteja inteiramente livre de manifestações da fragilidade humana. O mundo está cheio de homens incultos, descuidados, precipitados, irrefletidos e impetuosos, e o testemunho da santidade, como todos os outros deveres cristãos, está sujeito a muito abuso da parte deles. O abuso do testemunho da santidade, porém, não prova nada contra o dever de testemunhar, assim como o abuso da oração não prova nada contra a oração como dever.

Há alguns que testemunham a santidade com muito descuido e usam termos censuráveis e imprudentes. Esses, na maioria dos casos, são aqueles cuja vida e espírito dão uma pobre ideia da santidade cristã. Essas pessoas muitas vezes testemunham a santidade com expressões como estas e semelhantes: “Sou perfeito”, “Há tantos anos não cometo um pecado”, e outras assim. A declaração descuidada de tais afirmações por alguns dos que se dizem amigos da santidade muito tem feito para prejudicar esta preciosa doutrina e desacreditar o seu testemunho. Foi assim no tempo do sr. Wesley, e é assim no nosso tempo. Nenhum estado de graça dispensa o bom senso, que, diga-se de passagem, parece ser artigo muito escasso em algumas pessoas.

85. Não devemos dar a maior importância ao espírito com que se dá o testemunho?

Esse é certamente o ponto mais importante no testemunho da santidade. O testemunho deve ser dado num espírito humilde, manso, amoroso, que exalte a Cristo e rebaixe o eu. Tudo o que tenha sabor de autocongratulação, de importância pessoal ou de jactância vaidosa é seriamente censurável. O espírito do amor perfeito é justamente o espírito que deve caracterizar o seu testemunho.

86. O testemunho da santidade não é tido por alguns, por si mesmo, como evidência de orgulho espiritual da parte de quem o dá?

O rev. Charles G. Finney diz: “Parece quase impossível, com as ideias atuais da igreja, que uma pessoa realmente chegue a esse estado e declare viver sem pecado conhecido de maneira tão humilde que não seja, naturalmente, suspeita de enorme orgulho espiritual. Essa consideração tem sido uma armadilha para alguns que hesitaram, e até deixaram, de declarar o que Deus tinha feito pela sua alma, com medo de serem acusados de orgulho espiritual. E isso tem causado sério dano à sua piedade.”

87. O sr. Wesley testemunhou o amor perfeito?

Não me lembro de nenhum caso, e tem-se sustentado que ele não fez tal testemunho. Mas eu observaria:

1. É de supor que o sr. Wesley tenha dito mil coisas a respeito da sua experiência pessoal que não chegaram até nós, e pode-se muito bem supor que o seu testemunho do amor perfeito estivesse entre elas.

2. Se ele não testemunhou o amor perfeito, foi incoerente consigo mesmo, pois insistia com os outros para que o testemunhassem como dever. Quem pode duvidar de que o sr. Wesley desfrutava dessa bênção? Por que se esforçaria tanto para obter testemunho explícito da parte de outros, se ele mesmo não fosse testemunha dessa graça? Se ele não testemunhou o amor perfeito, centenas de pessoas que ele interrogou de perto e exortou a dar testemunho explícito sobre o assunto teriam dito: “Por que nos interroga com tanto cuidado, se julga conveniente reter o testemunho dos seus próprios lábios?” (Veja a Seção VII, p. 74.) O suposto não testemunho do sr. Wesley, portanto, é um exemplo a não ser seguido.

3. “Deve-se lembrar”, diz o rev. W. McDonald, “que o sr. Wesley não registrou a sua experiência religiosa pessoal nos seus diários. Ele não diz mais sobre a sua justificação (exceto que em Aldersgate sentiu o ‘coração estranhamente aquecido’) do que sobre a sua santificação. Devemos concluir disso que ele nunca testemunhou a graça justificadora?”

88. O sr. Wesley incentivava o testemunho da santidade?

Incentivava. Darei a você várias citações dos seus diários e cartas que tratam dessa questão.

1. “Uma razão por que os que foram salvos do pecado devem declará-lo livremente aos crentes é que nada os incita com mais força a buscar a mesma bênção. E devemos, por todos os meios possíveis, insistir com todo crente sério para que esqueça as coisas que ficam para trás e, com todo empenho, avance para a perfeição.”

2. “Você nunca falará com força ou clareza demais sobre o tema da perfeição cristã. Se falar apenas de modo fraco e indireto, ninguém se ofenderá e ninguém será beneficiado. Mas, se falar abertamente, embora alguns provavelmente fiquem irritados, outros logo encontrarão o poder de Deus para a salvação.”

3. “É necessário um grande grau de vigilância para conservar o amor perfeito de Deus; e um grande meio de conservá-lo é declarar francamente o que Deus lhe deu e exortar com empenho todos os crentes que você encontrar a buscar a plena salvação.”

4. “Na festa de amor o sr. C. relatou o modo como Deus o aperfeiçoou no amor, testemunho que é sempre acompanhado de uma bênção peculiar.”

5. “Pelo silêncio, ele poderia evitar muitas cruzes que natural e necessariamente se seguirão se ele simplesmente declarar, mesmo entre os crentes, o que Deus operou na sua alma. Se, portanto, essa pessoa consultasse a carne e o sangue, ficaria inteiramente calada. Mas isso não poderia ser feito com a consciência limpa, pois sem dúvida ela deve falar.”

6. “Sem dúvida seria uma cruz declarar o que Deus fez pela sua alma; sim, e depois Satanás a acusaria por isso, dizendo: ‘Você fez isso por orgulho.’ Sim, e algumas das suas irmãs a censurariam, e talvez dessem a mesma interpretação ao fato. Contudo, se você o fizer com intenção sincera, isso será muito agradável a Deus.”

7. “À noite falei aos que em Manchester criam que Deus havia purificado o seu coração. Eram sessenta e três, e contra cerca de sessenta deles não pude achar nenhuma objeção razoável.”

8. “Algumas testemunhas do amor puro ainda permanecem ali, mas várias já foram para o seio de Abraão. Encoraje os que desfrutam dele em Macclesfield a dizer explicitamente o que de fato experimentam, e a seguir adiante até conhecerem todo aquele ‘amor’ de Deus ‘que excede todo entendimento’ (Ef 3.19).”

9. A sra. Hester Ann Rogers diz: “O sr. Wesley veio a Macclesfield, e eu o vi e conversei com ele pela primeira vez. Tratou-me com ternura paternal e alegrou-se muito com a bondade do Senhor para com a minha alma; encorajou-me a permanecer firme e a declarar o que o Senhor tinha feito.”

10. “Há cerca de três anos ele [Joseph Norbury] testifica com humildade e ousadia que Deus o salvou de todo pecado.”

11. Ele escreve ao seu irmão Charles, que estava para visitar Macclesfield, onde havia grande número de pessoas que testemunhavam a santidade: “Creio que você antes os encorajará a falar, com humildade e modéstia, palavras de verdade e de bom senso. Que o seu conhecimento dirija o fogo, e não o apague. Isso já se fez demais.”

12. Não se encontra uma só palavra de oposição ao testemunho da plena salvação em nenhum dos escritos do sr. Wesley. As suas regras de prudência quanto ao testemunho da santidade, dadas na sua “Exposição Simples” e tantas vezes citadas por alguns, são todas boas e apropriadas no seu lugar, e cremos que são normalmente observadas pelos que testemunham a santidade e pelos seus amigos. Se alguém alegar que essas regras entram em conflito com a ideia de um testemunho da santidade igual ao da justificação, respondo: (1.) Nunca consegui ver como elas entram de algum modo em conflito com o testemunho da plena salvação, no lugar certo, no momento certo e no espírito certo, tal como o da justificação. (2.) Se houver um conflito aparente, lembre-se de que essas regras foram dadas no início do ministério do sr. Wesley, antes do grande avivamento da santidade por volta de 1760, o qual, é preciso admitir, modificou um pouco as suas ideias sobre a experiência e o testemunho da santidade. (Veja a Seção XIII, pergunta 97.)

89. O sr. Wesley previu que haveria oposição na igreja ao testemunho da santidade?

Previu, e faz a seguinte pergunta: “Mas não há meio de evitar essas cruzes que costumam cair sobre os que falam de terem sido assim salvos?” E responde: “Parece que não podem ser evitadas de todo enquanto tanto da natureza permanecer mesmo nos crentes. Mas algo se poderia fazer se o pregador de cada lugar (1) conversasse francamente com todos os que falam assim; e (2) se esforçasse por impedir o tratamento injusto ou indelicado daqueles a cujo favor há prova razoável.”

Feliz, muito feliz teria sido para a igreja de Deus se todo ministro metodista tivesse seguido este conselho do grande fundador do metodismo. Mas, ai! ai! quantos, em vez de se esforçarem para ajudar e proteger os que testemunharam a santidade cristã, tomaram o partido dos seus opositores e se esforçaram para suprimir o testemunho da santidade na igreja!

William Bramwell escreve da seguinte forma a um jovem pregador: “Viva nela, fale dela, pregue-a e insista nela com toda a paciência, com toda a bondade; e, se fizer isso, o inferno, o mundo e muitos entre os metodistas (sim, alguns líderes, se não pregadores) procurarão de algum modo astuto impedir o seu êxito.”

90. A experiência e o testemunho da santidade eram coisa comum nos primeiros tempos do metodismo?

Eram. Temos registros de testemunhos do amor perfeito em todos os diários dos antigos metodistas. Todos falam de testemunhas da regeneração e também da santificação. Na verdade, o vaso de ouro da biografia metodista está cheio até a borda do maná da experiência santificada.

A carta pastoral da Conferência Geral de 1832 diz: “Entre os metodistas primitivos, pode-se dizer com justiça que a experiência dessa elevada conquista na religião era comum; agora raramente se encontra entre nós quem a professe.”

Darei a você alguns breves extratos dos diários de vários dos primeiros pregadores e membros:

1. William Bramwell. “A obra continuou em quase todas as reuniões, e sessenta pessoas em Dewsberry e arredores receberam a santificação e andaram nessa liberdade.” . . . “Quatro pessoas receberam a santificação, e algumas ficaram em aflição.” . . . O biógrafo do sr. Bramwell diz: “Ele pregava uma salvação presente e plena pela fé no sangue do Redentor; e milhares terão de louvar a Deus na eternidade por terem ouvido dos seus lábios o som de tal evangelho.”

2. William Carvosso. “Três entraram no gozo da inteira santificação e deram um testemunho vivo do poder de Cristo para salvar totalmente.” . . . “Na reunião trimestral, realizada em St. Austell, tivemos uma das melhores festas de amor de que já participei. Os testemunhos dados da realidade e da bem-aventurança da doutrina e da experiência da pureza de coração superaram tudo o que eu tinha visto antes nesse gênero.” . . . “Em toda a minha peregrinação nunca conheci tantos testemunhos claros do poder de Deus para salvar de todo pecado como ultimamente.”

3. A sra. Hester Ann Rogers. “Depois que o sr. Fletcher [o santo John Fletcher] parou de falar, cerca de trinta TESTEMUNHARAM a favor de Jesus que, pela graça, estavam mortos para o pecado.” . . . “Levantei-me cedo para reunir os membros do grupo seleto; e, ao lhes relatar o testemunho do querido servo de Deus, o sr. Fletcher, e o das testemunhas da plena salvação que ouvi em Leeds, sentiram novo desejo de ser inteiramente do Senhor.” . . . “Enquanto você desfrutava da santidade cristã e a testemunhava, vivia pela fé simples, e Cristo vivia em você.” . . . “No grupo, trinta testemunharam que estavam ‘mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus’ (Rm 6.11).”

4. O sr. Wesley. “Só em Londres encontrei seiscentos e cinquenta e dois membros da nossa sociedade que eram extremamente claros na sua experiência, e de cujo testemunho eu não via razão para duvidar. . . . E cada um deles (depois da mais cuidadosa investigação, não encontrei uma única exceção) declarou que a sua libertação do pecado foi instantânea.” Muitas citações poderiam ser dadas do diário do sr. Wesley, mostrando que uma multidão de pessoas testemunhou a santificação sob o seu trabalho, em todas as partes da Inglaterra e da Irlanda.

5. O bispo Asbury diz: “Penso que devemos contar com modéstia o que sentimos, na sua plenitude. Nos últimos dois anos, em meio a inúmeras provações, tenho desfrutado de sensações quase inexprimíveis. O nosso Pentecostes chegou em alguns lugares para a santificação. Tenho boas razões para crer que na costa leste quatro mil se converteram desde o dia primeiro de maio passado, e MIL FORAM SANTIFICADOS.”

6. Benjamin Abbott. “Antes que a reunião terminasse, seis ou sete testemunharam a santificação da alma.” . . . “A oração continuou sem interrupção por três horas; oito almas testemunharam a santificação.” . . . “Ao voltarem a si, todos louvaram a Deus, e não houve uma só alma que não testemunhasse ter recebido a justificação ou a santificação, oito das quais testemunharam esta última.” . . . “Uma jovem exclamou que não era um anjo, mas sabia que Deus lhe havia dado um coração puro e santificado a sua alma.” . . . “Aqui encontrei C. R., uma jovem piedosa que testemunhava a santificação, e a sua vida correspondia a isso.” . . . “Alguns foram justificados, alguns foram santificados, e outros pareciam perdidos no oceano do amor redentor.” . . . “Aqui encontrei Catharine Van Wyck, uma israelita em quem creio não haver dolo; ela testemunha a santidade, e creio que a desfruta.” . . . “Na festa de amor o povo falou da justificação e da santificação, quanto à distinção entre elas, com mais clareza do que qualquer outro que ouvi nestas regiões. Cerca de trinta haviam testemunhado a santificação desde que comecei no circuito até então.” . . . “Alguns testemunharam a santificação, e outros experimentaram a justificação durante a pregação.” . . . “Na festa de amor vários testificaram que Deus havia santificado a sua alma enquanto eu estive no circuito.”

Permita-me dar aqui um extrato das atas da Conferência de Nova York do ano de 1796. Contém o testemunho dos irmãos do sr. Abbott no ministério e mostra a estima e a opinião em que ele era tido pela antiga Conferência de Nova York:

“Pergunta. Quem morreu este ano?

“Resposta. Benjamin Abbott, cerca de vinte e três anos na sociedade; vários anos pregador local. . . . Era homem de simplicidade e sinceridade infantis; de grande fé e confiança inabalável. . . . Foi reconhecido por Deus como instrumento de poder que convence, converte e santifica para muitas almas. . . . Zeloso fora do comum pela bendita obra da santificação, pregava-a em todas as ocasiões e em todas as congregações e, o que era melhor de tudo, vivia-a. Era homem inocente e santo; raramente se ouvia falar de outra coisa senão de Deus e da religião; toda a sua alma era muitas vezes dominada pelo poder de Deus. Era conhecido de centenas como um pregador metodista verdadeiramente primitivo, e homem cheio de fé e do Espírito Santo.”

91. Em que pontos é necessária cautela no testemunho do amor perfeito?

1. Ele pode ser dado cedo demais, antes que a bênção tenha sido realmente alcançada. Nesse caso o testemunho é desastroso tanto para quem o dá quanto para a causa. Os amigos se entristecem, e as objeções ao testemunho da santidade se fortalecem. Mas, ao evitar esse extremo, não corra para o outro, pois, diante da oposição que há na igreja ao testemunho da santidade, há muito mais perigo de você não testemunhá-la cedo o bastante do que de testemunhá-la cedo demais.

2. Ele pode ser dado com pouca humildade de maneiras. Todo descuido ou presunção deve ser evitado no testemunho da santidade. É seu dever, e do seu interesse espiritual, testemunhar toda a graça recebida e todas as vitórias espirituais alcançadas; mas isso deve ser feito com a devida humildade de espírito. Fazê-lo de outro modo é intrinsecamente tão perigoso quanto não testemunhar de modo algum.

3. Ele pode ser dado com excesso de autoconfiança, ou buscando a si mesmo. E a busca de si mesmo é uma das armadilhas mais sutis da alma humana. Precisamos guardar esse ponto com grande cuidado e buscar constantemente a ajuda de Cristo contra ela. Há perigo de buscar a si mesmo até no testemunho da santificação. Devemos buscar a Cristo em todas as coisas e guardar-nos de buscar a nós mesmos.

4. Ele pode ser dado com confiança excessiva no simples testemunho como meio de conservar a santidade. Embora seja um dos meios (e pensamos que indispensável) para conservar a inteira santificação, não deve ser posto no lugar de Cristo, o único que pode guardar a alma no amor perfeito de Deus. Devemos PERMANECER EM CRISTO. Testemunhar só é benéfico para a alma santificada na medida em que tende a obedecer a Cristo e agradar-lhe, e leva a alma a confiar nele mais plenamente. A alma nunca deve descansar, para a sua salvação, em algo que ela mesma tenha feito ou possa fazer, em vez de descansar em Cristo.

Que o seu testemunho seja oportuno, verdadeiro, humilde e para a glória de Deus, e nunca confie nele em lugar de Cristo; assim ele será agradável a Deus, útil à igreja e uma bênção para você mesmo.

Tradução para o português a partir de J. A. Wood, Perfect Love; or, Plain Things for Those Who Need Them (Filadélfia, Samuel D. Burlock, 1861), conferida com as imagens das páginas; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.