J. A. Wood · Amor Perfeito · Seção XXVII e conclusão
O relato da experiência de J. A. Wood, da conversão à inteira santificação, e a conclusão do livro.
A experiência do autor
201. Você me contaria a sua experiência quanto à regeneração e à inteira santificação?
Contarei, pois sinto que devo dez mil talentos ao meu bendito Salvador, e o seu amor me constrange a falar, em toda oportunidade, do modo bondoso como ele tratou a minha alma.
Diz o sr. Fletcher: “Quando você é solenemente chamado a dar testemunho da verdade e a dizer que grandes coisas Deus fez por você, seria covardia ou falsa prudência deixar de fazê-lo, com humildade.”
Aprouve ao Senhor chamar-me bem cedo na vida a buscar o perdão e a graça da conversão. Creio que aos dez anos de idade provei pela primeira vez as alegrias da graça redentora e do amor de um Salvador. Lembro-me de ter experimentado já naquele tempo uma doce satisfação e um prazer na oração e no esforço para obedecer a Deus.
Aos treze anos, tornei-me membro da igreja. Pela bênção e pela graça de Deus, desde então encontrei um lar na igreja que escolhi na minha juventude.
Durante os primeiros cinco ou seis anos da minha experiência, muitas vezes fiquei perplexo e aflito com dúvidas quanto à realidade da minha conversão, que nasciam do fato de eu não conseguir determinar o momento exato em que a mudança se operou. Muitas vezes eu via pessoas se converterem com poder e as ouvia contar o lugar e o momento em que suas cadeias caíram e suas almas ficaram livres. O tentador então me sussurrava ao ouvido: “Você não sabe dizer quando se converteu, e nunca teve aquelas convicções profundas nem aqueles exercícios marcantes da experiência religiosa de que muitos falam.”
Isso me trouxe não pouca aflição, e por vezes, durante vários anos, achei extremamente difícil conservar firme a minha confiança. Depois de muitas e duras provas nesse ponto, o Senhor me capacitou a resolver a questão; e mil graças ao seu bendito nome, porque já se passaram muitos anos desde que duvidei, por um momento sequer, da veracidade da minha conversão na infância.
O Senhor removeu as minhas dúvidas mostrando-me que saber o momento exato da minha conversão tinha pouquíssima importância, ao passo que a grande questão que eu precisava resolver era esta: Tenho a evidência de que agora estou convertido?
Depois que fui levado a ver que poder saber o momento exato da minha conversão pouco me importava, e que a minha grande preocupação era saber que agora estou num estado de conversão, a questão logo se resolveu quando apreendi a abundante evidência que Deus sempre dá de um estado de salvação. Descobri que uma coisa era ter a evidência de um estado justificado e convertido, e outra bem diferente era apreender e compreender essa evidência.
Desse tempo até 7 de setembro de 1858, mantive o propósito geral de obedecer a Deus e recebi muitos refrigérios espirituais da presença do Senhor, sofrendo poucas dúvidas quanto à minha justificação e à minha condição de membro da família de Deus.
Nesse período fui muitas vezes convencido da corrupção que restava no meu coração e da minha necessidade de pureza. Eu desejava ser um cristão decidido e um membro útil da igreja, mas muitas vezes tinha consciência de males interiores profundamente arraigados e de tendências do meu coração hostis à piedade. Descobri que os inimigos do meu peito me perturbavam mais do que todos os inimigos de fora. Lutavam pelo domínio. Estragavam a minha paz. Obscureciam a minha visão espiritual. Eram instrumentos de dura tentação. Interrompiam a minha comunhão com Deus. Tolhiam os meus esforços para fazer o bem. Invariavelmente tomavam o partido de Satanás. Ocupavam no meu coração um lugar que eu sabia que devia ser possuído pelo Espírito Santo. Eram os maiores obstáculos ao meu crescimento na graça e tornavam apenas parcial o meu serviço a Deus.
Muitas vezes fui mais fortemente convencido da minha necessidade de pureza interior do que jamais tinha sido da minha necessidade de perdão.
Deus muitas vezes me mostrou a importância e a necessidade da santidade com a clareza de um raio de sol. Raramente eu estudava a Bíblia sem ficar convencido da minha falta por não alcançar o padrão bíblico de salvação.
Muitas vezes comecei a buscar a santidade, mas em nenhum momento fiz grande progresso; pois, enquanto eu lia e orava, aparecia algum dever que eu não estava disposto a cumprir, e assim eu recaía na indiferença.
Nunca li Uma Explicação Clara da Perfeição Cristã, do sr. Wesley, nem nenhuma das obras-padrão do metodismo sobre a santidade, nem as memórias de Fletcher, Bramwell, Carvosso, Stoner, nem as da sra. Hester Ann Rogers ou de Lady Maxwell, sem uma profunda convicção sobre o assunto e algum esforço, maior ou menor, para alcançá-la.
Vejo agora que muitas vezes estive a ponto de agarrar o prêmio, e então recuava, sofria a derrota e entrava em outro período de relativa indiferença sobre o assunto. Fui muitas vezes levado a ver a minha necessidade de pureza enquanto estudava para o ministério com o rev. William Hill, de Cambridgeport, Vt.
O irmão Hill era um hábil ministro presbiteriano e, durante alguns anos, foi pastor de uma igreja presbiteriana em Newburg, N. Y. Convenceu-se da sua necessidade de inteira santificação e obteve a bênção numa reunião para a promoção da santidade na casa da sra. Palmer, na cidade de Nova York. Ele a viveu, a testemunhou e a pregou, e por isso foi expulso do Presbitério de Hudson River, em abril de 1844. O rev. Henry Belden foi expulso ao mesmo tempo pela mesma causa. Ambos se uniram à igreja congregacional. O irmão Belden é hoje pastor de uma igreja em Brooklyn, N. Y. O irmão Hill morreu em santo triunfo em Bristol, Conn., em 31 de julho de 1851, no trigésimo sétimo ano de vida.
O convívio e a influência daquele homem santo foram uma grande bênção para mim. Creio que mais de cem vezes me prostrei com ele em oração no seu escritório e tive doce comunhão com Deus. Aqueles momentos de devoção ainda permanecem na minha memória como algumas das horas mais preciosas do início do meu ministério.
Por ser convencido tantas vezes da minha necessidade do amor perfeito e não conseguir obtê-lo, depois de algum tempo (como muitos outros, receio) tornei-me um tanto cético quanto à doutrina wesleyana da inteira santificação como bênção distinta, posterior à regeneração. (Veja a seção II deste livro.) Eu não tinha ideias claras ou definidas sobre a bênção do amor perfeito; passei a pensar nela e a ensiná-la apenas como uma obra mais profunda da graça, ou um pouco mais de religião. Eu ensinava, como muitos ensinam, um crescimento gradual até a santidade, o gradualismo moderno. Lancei toda a questão no mundo do indefinido e das generalidades vagas. Esperava crescer até a santidade de algum modo, em algum lugar e em algum tempo, mas não sabia como, nem onde, nem quando. Insistia com os crentes para que buscassem uma obra mais profunda da graça e adquirissem mais religião, mas raramente lhes dizia: “Sejam santos” (1Pe 1.16), “a vontade de Deus é a santificação de vocês” (1Ts 4.3), ou: busquem “o perfeito amor” (1Jo 4.18).
Passei a ter certo preconceito até contra os termos bíblicos “santificação”, “santidade”, “perfeição”, e não gostava nada de ouvir as pessoas usá-los ao falar da sua experiência. Eu me opunha ao testemunho da santidade como bênção distinta da regeneração.
Passei a ter preconceito contra os defensores especiais da santidade; e nos acampamentos e em outros lugares eu me sentia inclinado a desencorajar e a combater os esforços diretos para a promoção da santidade. Se um irmão piedoso exortava os pregadores a buscar a santificação, ou os membros a deixar o mundanismo, o fumo e os enfeites vistosos e buscar a santidade, eu ficava aflito de espírito e disposto a criticar.
Durante vários anos, esse foi mais ou menos o meu estado de espírito sobre o assunto. E deixe-me registrar aqui que, embora centenas de pecadores se convertessem a Deus por meio do meu fraco ministério, não me lembro de um único caso de crente inteiramente santificado sob o meu trabalho durante os primeiros nove anos do meu ministério, até 7 de setembro de 1858. Deixe-me acrescentar ainda que, nesse tempo, eu me entristecia, ano após ano, ao ver o que poderia espantar o inferno e encher o céu de lamento: grupo após grupo de jovens convertidos entrando em igrejas desviadas e não santificadas, primeiro para se admirar, depois para se entristecer por algum tempo, mas por fim para acrescentar mais uma camada à estratificação dos desviados.
Em maio de 1858, fui designado para a Igreja da Court Street, em Binghamton. Fui para lá com muito preconceito contra os que testemunhavam a santidade naquela igreja, e eles, sem dúvida, tinham algum preconceito contra mim, pois tinham motivo para crer que eu me oporia a eles na questão da santidade. Logo descobri, nas minhas visitas pastorais, que onde moravam as pessoas que testemunhavam a bênção da santidade, ali eu sentia mais a influência e o poder de Deus. Experimentava naquelas famílias uma liberdade na oração e um acesso a Deus que não experimentava em outros lugares.
E deixe-me observar que, embora eu tivesse preconceito contra a santidade como bênção distinta e contra os seus defensores especiais, eu desejava uma piedade profunda, completa e viva, e cria nela, e estava pronto a simpatizar com ela onde quer que a encontrasse. Poucas vezes eu havia frequentado as reuniões de oração e de classe quando vi claramente que havia naquela sociedade pessoas cuja experiência e piedade possuíam uma riqueza, um poder e uma profundidade que eu não tinha.
Quanto mais eu os conhecia, mais me convencia desse fato e mais profundamente era convencido da depravação que ainda restava em mim e da minha necessidade de ser purificado no sangue de Cristo. Também me convenci de que aqueles que testemunhavam a santidade eram wesleyanos na sua fé, na sua experiência e na sua prática, ao passo que eu tinha me afastado um tanto da teoria bíblica e wesleyana da perfeição cristã.
Durante todo o verão de 1858, busquei a santidade, mas guardei a questão inteiramente para mim. Nesse tempo nenhum dos que testemunhavam a santidade me disse nada sobre o assunto, mas, como soube depois, oravam por mim noite e dia. Só Deus sabia as duras lutas que travei naquele longo verão, durante muitas horas do qual fiquei prostrado com o rosto em terra no meu escritório, suplicando a Jesus que purificasse o meu pobre coração não santificado; e, apesar disso, eu não estava disposto a declarar publicamente o que sentia, nem a pedir as orações do povo de Deus pela minha santificação.
O acampamento do distrito de Binghamton começou naquele ano no dia 1º de setembro. Cerca de oitenta membros da minha congregação foram comigo àquela reunião. Durante seis dias do acampamento, a santificação da minha alma esteve constantemente diante da minha mente, e, no entanto, eu não insisti com ninguém para que a buscasse, nem dei a entender a ninguém as minhas convicções e lutas sobre o assunto. O resultado foram seis dias de humilhação tão profunda, de aflição tão dura e de lutas tão árduas como eu nunca tinha suportado antes.
Vários dos membros da minha congregação ali presentes tinham desfrutado a bênção um dia e a tinham perdido. Alguns que testemunhavam desfrutá-la estavam se calando sobre o assunto. Com pouquíssimas exceções, nós, como igreja, estávamos na prática adiando e ignorando a doutrina e o dever da inteira santificação. O Senhor estava claramente descontente conosco e de tal modo nos fechou que as nossas reuniões de oração, na nossa grande tenda da sociedade, literalmente se esgotaram. Os irmãos e as irmãs ficaram insatisfeitos consigo mesmos e uns com os outros. Alguns chegaram a ser tentados a desmontar as tendas e voltar para casa.
Na última noite do acampamento, poucos minutos antes da pregação, um membro fiel da igreja veio a mim chorando e disse: “Irmão Wood, não adianta tentar fugir desta questão. O senhor conhece o seu dever, e tanto faz começar a buscar a santidade agora como depois. Se o senhor tomar a frente e definir a sua posição como alguém que busca a inteira santificação, verá que muitos membros da sua congregação têm vontade de fazer o mesmo.” O Senhor tinha humilhado tanto o meu coração que eu estava disposto a fazer quase qualquer coisa para obter alívio. Depois de refletir alguns instantes, respondi: “Logo depois da pregação vou marcar uma reunião nesta tenda sobre o tema da santidade e vou pedir as orações da igreja pela minha própria alma.”
Glória a Deus! O Rubicão fora atravessado. Num instante senti no meu coração um ceder tão perceptível e poderoso que parecia mais físico do que espiritual. Um momento depois, senti uma doçura indescritível penetrando todo o meu ser. Era uma doçura tão real e tão perceptível à minha alma quanto o mel mais doce jamais foi ao meu paladar. Subi imediatamente ao palanque. O presbítero presidente me pediu que fizesse a exortação depois do seu sermão. Respondi: “Farei, se o Senhor me ajudar.” No exato momento em que ele anunciou o seu texto, “De tudo o que se ouviu, a conclusão é esta” etc. (Ec 12.13), o batismo de fogo e de poder desceu sobre mim.
É de todo impossível descrever o que experimentei então. Foi algo que não preciso tentar descrever aos que o sentiram e provaram, e que não posso descrever de modo a ser compreendido por aqueles cujo coração nunca o experimentou.
O mais de que tive consciência foi que Jesus me tinha nos braços e que o céu dos céus jorrava através da minha alma, de lado a lado, em tais raios de luz, de amor e de glória avassaladores, que jamais se podem exprimir. Nem a metade jamais poderá ser contada!
Foi como entrar marchando pelas portas da cidade até o seio de Jesus e beber um gole pleno do rio da vida.
Aleluia! Glória! Glória! Tenho motivo para exultar pela obra daquela hora preciosa.
Foi uma era memorável na história do meu período de prova, uma época gloriosa na minha experiência religiosa, que nunca, nunca será esquecida. Ali mesmo, naquela hora, Jesus (toda a glória ao seu bendito nome!) santificou para si, de modo doce, completo e poderosíssimo, a minha alma e o meu corpo. Ele derreteu, purificou, encheu e fez vibrar a minha fraca e indigna alma com um poder santo, que consome o pecado.
Glória a Deus! O amor perfeito é o amor mais rico, mais doce e mais puro deste lado do Paraíso. Os anjos não têm nada melhor.
Bem pode o poeta cantar:
“Por este amor, que rochas e montes
Rompam o seu longo silêncio,
E todas as línguas humanas, em harmonia,
Falem os louvores do Salvador!”
Eu sempre tivera muito preconceito contra as pessoas que perdiam as forças; por isso, como era de esperar, quando o Espírito Santo desceu sobre mim no palanque, cercado de uns trinta pregadores, foi da vontade de Deus tomar o controle do corpo e da alma e me tragar no grande abismo da sua presença e do seu poder.
Depois de cerca de três horas, recobrei forças suficientes para ir a pé até a tenda, e começamos uma reunião para a promoção da santidade. Contei aos irmãos e às irmãs o meu propósito de pedir as suas orações como alguém que buscava a santidade, e que Jesus se antecipara ao meu intento, aceitando a minha alma no momento em que consenti em me levantar pela santidade e me dispus a ser qualquer coisa ou fazer qualquer coisa para obtê-la.
E deixe-me dizer aqui que a disposição de me humilhar, de tomar posição decidida pela santidade, de enfrentar a oposição a ela dentro da igreja e de suportar o descrédito de ser alguém que testemunha a santidade em Binghamton, onde aquela doutrina vinha sendo arrastada no pó havia anos, constituiu para mim o ponto decisivo. Depois de chegar a esse ponto, eu parecia não ter nenhuma consciência especial de crer, ou de me submeter, ou de fazer qualquer esforço; todo o meu ser parecia ser levado a Jesus simplesmente e sem esforço.
A nossa reunião continuou a noite inteira; e uma noite como aquela eu nunca havia vivido. Um grande número dos meus principais membros ali presentes começou a buscar a santidade; e mais ou menos a cada meia hora, durante toda aquela noite, o glorioso poder de Deus descia do oceano lá do alto em torrentes doces como o céu. Por vezes era indizível e quase insuportável. Era de uma doçura opressiva, um peso de glória.
Cada vez que vinha o poder de Deus, uma ou mais almas entravam na terra de Beulá, a Canaã do amor perfeito. Uns gritavam de alegria; outros riam; outros choravam; e um grande número ficou prostrado de três a cinco horas, sem forças para gritar ou chorar. Aleluia ao grande Deus! Os que ali estavam jamais esquecerão aquela noite de poder que refina e santifica.
O que recebi quando Jesus santificou a minha alma foi apenas uma gota no balde, comparado ao que desde então lhe aprouve conceder. Desde aquela hora, a comunhão profunda e sólida que a minha alma tem tido com Deus e os ricos batismos de amor e de poder têm sido “indescritíveis e cheios de glória” (1Pe 1.8).
“Ó felicidade incomparável do amor perfeito!
Ele me eleva às coisas do alto;
Leva-me sobre asas de águia;
Dá um banquete à minha alma arrebatada
E faz de mim aqui um conviva constante,
Com Jesus, os sacerdotes e os reis.”
Por vezes tive um senso avassalador da presença divina, e uma unção sagrada impregnou todo o meu ser. Essa tem sido a minha experiência especialmente quando sou chamado a testemunhar ou defender esta gloriosa salvação. Ah, como Deus tem estado ao meu lado e me ajudado a defender a doutrina e o testemunho da santidade! Muitas vezes senti que, se houvesse um único homem no mundo para se levantar pela santidade, em nome de Deus eu seria esse homem.
A fragrância divina comunicada à minha alma quando o Salvador a purificou e a encheu de amor puro, nunca a perdi por uma hora sequer, e confio e oro para que nunca a perca. A lembrança daquela hora sempre traz à minha alma uma doçura indescritível. Registro isto para a glória de Deus. Glória, honra e louvor eterno ao seu bendito nome, para todo o sempre! O seu próprio braço trouxe salvação à minha alma fraca e desamparada. E eu amo, sim, o Senhor meu Deus de todo o meu coração, alma e forças. Contudo, eu nada sou, e Jesus é o meu tudo. Doce porção! Ó, a bem-aventurança deste reino interior e espiritual! Ó, as profundezas de paz sólida que a minha alma tem sentido! Muitas vezes tem sido
“Um temor sagrado que não ousa mover-se,
E todo o silencioso céu do amor.”
Ah, saber que Deus é meu; sentir que ele habita no meu coração e governa a minha vontade, os meus afetos, os meus desejos; saber que ele me ama dez mil vezes mais do que eu o amo: ah, que felicidade sólida é esta!
“Conhecer o meu Jesus e sentir o seu sangue fluir
É a vida eterna, é o céu aqui embaixo.”
E agora, depois de mais de seis anos e meio para examinar e provar a obra daquela hora, sou constrangido a dizer que sei que o sangue de Jesus pode purificar de todo pecado. Digo isto com profundo senso da minha fraqueza e da minha indignidade; pois
“É tudo misericórdia, imensa e livre,
Pois, ó meu Deus, ela me encontrou.”
Ah, se eu pudesse descrever os sentimentos de gratidão do meu coração para com Deus pelas misericórdias passadas, pelos favores presentes e pelas perspectivas futuras!
Bem pode o poeta exclamar:
“Ah, como podem as palavras, com igual ardor,
Declarar a gratidão
Que arde no meu coração arrebatado!
Mas tu podes lê-la ali.”
Alguns dos preciosos resultados do poder purificador de Jesus na minha alma têm sido estes:
1. Uma proximidade sagrada com Deus, meu Salvador. A distância entre Deus e a minha alma parece ter sido aniquilada, e a glória e a presença da divindade muitas vezes me pareceram como uma torrente de luz do sol que rodeia, penetra e impregna todo o meu ser. Glória a Deus porque até o mais indigno pode ser “aproximado pelo sangue de Cristo” (Ef 2.13).
2. Um senso de doçura indescritível em Cristo. O fato de ele ser “a rosa de Sarom”, “o lírio dos vales” (Ct 2.1), “o resplendor da glória [do Pai]” (Hb 1.3) e “totalmente desejável” (Ct 5.16) por vezes penetrou de tal modo a minha alma que a fez vibrar e a encheu de êxtase arrebatador. Ah, como o querido Salvador se mostrou glorioso e amável à minha alma, e como foi forte a atração que o meu coração sentiu por ele! Muitas vezes a sua glória brilhou sobre a minha alma sem nenhuma nuvem.
3. Um senso profundo e vívido da realidade das coisas espirituais. A verdade bíblica pareceu transformada em realidade sólida. As doutrinas do evangelho se tornaram para mim fatos palpáveis, e a minha alma triunfou nelas como numa verdade eterna.
4. Uma riqueza e uma plenitude de sentido surpreendentes nas Escrituras, que eu não havia percebido antes. Muitas partes da palavra, que até então eu pouco entendia e pelas quais tinha pouco interesse, agora pareciam cheias de sentido e extremamente preciosas para a minha alma. As passagens seguintes foram aplicadas muitas vezes à minha alma com grande poder: “E eu pedirei ao Pai, e ele lhes dará outro Consolador, a fim de que esteja com vocês para sempre: é o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece. Vocês o conhecem, porque ele habita com vocês e estará em vocês” (Jo 14.16-17)… “Se alguém me ama, guardará a minha palavra; e o meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada” (Jo 14.23)… “Vocês já estão limpos por causa da palavra que lhes tenho falado. Permaneçam em mim, e eu permanecerei em vocês. Como o ramo não pode produzir fruto de si mesmo se não permanecer na videira, assim vocês não podem dar fruto se não permanecerem em mim” (Jo 15.3-4)… “Se andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1Jo 1.7)… “Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele. Nisto o amor é aperfeiçoado em nós, para que, no Dia do Juízo, mantenhamos confiança; pois, assim como ele é, também nós somos neste mundo. No amor não existe medo; pelo contrário, o perfeito amor lança fora o medo. Porque o medo envolve castigo, e quem teme não é aperfeiçoado no amor” (1Jo 4.16-18).
5. Uma satisfação completa e um descanso em Cristo. Desde então não houve dentro de mim nenhuma resposta favorável às tentações de fora. Antes, muitas vezes eu encontrava no meu coração elementos que tomavam o partido do tentador e sentia que nem tudo estava bem por dentro. Parecia haver um vazio dolorido, um lugar na minha alma que a graça nunca havia alcançado.
Mas, desde que Jesus fez passar o fogo refinador através do meu pobre coração, de lado a lado, tenho tido a doce certeza de que a graça penetrou cada faculdade e cada fibra do meu ser e espalhou luz, amor e poder salvador por todas as partes. Aleluia a Deus! Encontrei satisfação, descanso e exultação em Cristo.
6. Um grande aumento de poder espiritual. Tenho experimentado isso nas minhas devoções em secreto, nos meus deveres pastorais e especialmente no ministério da bendita verdade. Bendito seja o Senhor, aprendi por experiência que os homens podem receber o Espírito Santo numa medida limitada apenas pela sua capacidade de receber e pela sua fraca capacidade de suportar. Deus poderia facilmente abençoar os homens além do que o corpo é capaz de suportar e continuar vivo, se quisesse levá-los ao céu desse modo.
Esse aumento de poder me livrou de todo medo servil dos homens ou de males futuros. Deu-me tal amor ao Salvador e ao seu glorioso evangelho que todos os meus deveres se tornaram doces e agradáveis. Verdadeiramente, “os seus caminhos são caminhos agradáveis, e todas as suas veredas são paz” (Pv 3.17).
7. Um testemunho claro e distinto de pureza pelo sangue de Jesus. O testemunho do Espírito Santo e do meu próprio espírito quanto à inteira santificação da minha alma tem sido mais claro e convincente do que qualquer testemunho que eu já tive da minha regeneração, embora eu não tivesse dúvidas sobre ela havia anos, antes que o Senhor extirpasse da minha alma o pecado inato. “A evidência do meio-dia põe a dúvida em fuga.”
Querido leitor, como eu gostaria de lhe dizer com que clareza e doçura a luz da pureza tem brilhado nas profundezas da minha alma! Como eu gostaria de lhe contar a satisfação completa que tenho experimentado desde que obtive esta pérola de grande valor! Se eu pudesse ao menos lhe dizer tudo sobre o amor pleno e perfeito de Cristo! Mas, ah, isso jamais poderá ser contado! A sua plenitude, a sua riqueza e a sua doçura jamais poderão ser expressas! Você só pode conhecê-lo por experiência, e esse é o seu dever solene e o seu mais elevado privilégio. Você não vai buscá-lo? Não vai começar agora? Uma vida santa é a vida mais feliz, a mais fácil e a mais segura que você pode viver. Ah, deixe-se persuadir a resolver a questão de uma vez e comece agora a buscar a pureza, e nunca abandone a luta até obter a gloriosa vitória!
Pode lhe custar uma luta dura, mas a vitória será sua, se você apenas perseverar. Quando você estiver plenamente decidido a nunca deixar de se consagrar, de orar e de crer até obter a bênção, terá vencido a sua maior dificuldade, e não tardará que as correntes do amor puro fluam pelas profundezas da sua alma.
Mas, querido leitor cristão, ao buscar esta bênção inestimável, não tente se medir por algo peculiar na experiência de quem escreve ou de qualquer outra pessoa. (Veja a seção IX, pergunta 67.) A Bíblia é a nossa única regra de fé e prática. Há diversas operações do Espírito para efetuar a mesma obra no coração humano.
Nesta narrativa da minha experiência religiosa, procurei fazer uma simples exposição dos fatos, sem me importar com o que homens bons enganados, ou homens ímpios, possam pensar ou dizer. Para mim, fugir diante do escândalo da cruz, ou vacilar e acovardar-me diante do opróbrio de Cristo, seria o mesmo que negar a Deus. Como Pedro e João, eu “não posso deixar de falar das coisas que vi e ouvi” (At 4.20). Creio plenamente que, para continuar desfrutando o amor perfeito, devo confessar tudo e aceitar as consequências. Chame-o de ilusão quem quiser; para a minha alma é uma realidade bendita. Eu o sei. Eu o sinto. Eu o provei, e preciso declará-lo. Sou constrangido a
“contar a todos ao redor
Do querido Salvador que encontrei.”
Pela graça de Deus, pretendo “ficar de pé, firme, por Jesus”, ainda que
“os demônios se enfureçam e o inferno ataque,
Abrirei caminho lutando;
Ainda que os inimigos se unam e todos os amigos falhem,
Tomarei a coroa que tenho à vista.”
Eu desconfiaria do meu próprio testemunho se ele não provocasse o diabo.
Procurei, com toda a humildade, olhar para Deus em busca de direção, e senti a sua bênção repousando sobre mim enquanto escrevia. Não escrevi tanto para os olhos do crítico quanto para aqueles que anseiam pela santidade.
Durante muitos anos da minha experiência religiosa, temi testemunhar demais, ou mais do que eu possuía; mas, desde que o Salvador purificou a minha alma e a encheu de amor perfeito, não tive temores nesse sentido. A intensa doçura, a excelência superior e a glória divina do amor perfeito de Jesus jamais podem ser exageradas, nem, na verdade, plenamente descritas. Milhares na igreja de Deus, que receberam este batismo de amor e de poder, podem testificar que a descrição mais ardente que um mortal possa fazer dele fica infinitamente aquém da realidade.
Quando uma alma pode dizer com verdade, como disse a esposa do presidente Edwards: “A minha alma está cheia e transbordante de luz, de amor e de alegria no Espírito Santo”, não há perigo de exagero. [N. do T.: Sarah Edwards, esposa de Jonathan Edwards.]
Eu poderia ter escrito muito mais sobre a minha fraqueza, a minha indignidade e as minhas imperfeições, e o teria feito se supusesse que isso honraria a Cristo mais do que escrever sobre a plenitude da sua graça e as riquezas do seu amor.
A minha experiência não é minha, e é na esperança de que o meu humilde testemunho da plenitude e da gratuidade da graça concedida a mim, o mais indigno, possa encorajar e levar outros a se valerem dessa plenitude de Cristo que registro a minha experiência do amor perfeito de Cristo. Dei apenas um esboço breve e imperfeito, um mero contorno, das misericórdias que o Senhor tem amontoado sobre o seu pobre servo. A ele seja toda a glória.
Querido leitor, busque a santidade. Busque-a a qualquer custo. Não espere descanso até que a sua alma seja feita “verdadeiramente livre” (Jo 8.36) no sangue de Jesus. E, uma vez que tenha provado a bem-aventurança da pureza, você jamais conseguirá agradecer o bastante por ter sido levado a buscá-la. Se não a buscar, não está longe o tempo em que você jamais conseguirá perdoar a si mesmo pela negligência.
E agora, leitor, “eu o entrego aos cuidados de Deus e à palavra da sua graça, que tem poder para edificá-lo e dar-lhe herança entre todos os que são santificados” (At 20.32).
Para concluir, querido leitor, “eu me ponho de joelhos diante do Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, de quem toda a família, nos céus e na terra, recebe o nome”, pedindo que, “segundo a riqueza da sua glória”, ele “conceda a você que seja fortalecido com poder, mediante o seu Espírito, no seu íntimo”; que, “pela fé, Cristo habite” no seu coração; que você, “enraizado e alicerçado em amor”, possa “compreender, com todos os santos, qual é a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento”, para que fique “cheio de toda a plenitude de Deus. Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo o que pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre” (Ef 3.14-21). [N. do T.: a NAA traz apenas “diante do Pai”; as palavras “de nosso Senhor Jesus Cristo” seguem o texto da versão inglesa citada pelo autor.] E “o Deus da paz, que tornou a trazer dentre os mortos o nosso Senhor Jesus, o grande Pastor das ovelhas, pelo sangue da eterna aliança, aperfeiçoe você em todo o bem, para que possa fazer a vontade dele, operando em você o que é agradável diante dele, por meio de Jesus Cristo, a quem seja a glória para todo o sempre. Amém!” (Hb 13.20-21).
Tradução para o português a partir de J. A. Wood, Perfect Love; or, Plain Things for Those Who Need Them (Filadélfia, Samuel D. Burlock, 1861), conferida com as imagens das páginas; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.