Os Pais Apostólicos · Policarpo de Esmirna

Carta aos Filipenses e o Martírio de Policarpo

A carta de Policarpo, bispo de Esmirna, aos Filipenses, e o relato da sua morte, um dos mais antigos relatos de martírio cristão.

Epístola de Policarpo aos Filipenses

Policarpo e os presbíteros que estão com ele, à igreja de Deus que peregrina em Filipos: misericórdia e paz da parte de Deus Todo-Poderoso e de Jesus Cristo, nosso Salvador, lhes sejam multiplicadas.

1. Alegrei-me muito com vocês em nosso Senhor Jesus Cristo, porque receberam os seguidores do verdadeiro Amor e os acompanharam em seu caminho, como lhes convinha; aqueles homens cingidos de santas cadeias, que são os diademas dos verdadeiramente escolhidos de Deus e de nosso Senhor; e porque a raiz firme da fé de vocês, afamada desde os tempos antigos, permanece até agora e dá fruto para nosso Senhor Jesus Cristo, que aceitou enfrentar até a morte pelos nossos pecados, a quem Deus ressuscitou, rompendo as dores do Hades (At 2.24); em quem, sem o terem visto, vocês creem com alegria indescritível e cheia de glória (1Pe 1.8); alegria em que muitos desejam entrar; sabendo que pela graça vocês são salvos, não de obras (Ef 2.8-9), mas pela vontade de Deus, por meio de Jesus Cristo.

2. Por isso, cingindo os seus lombos, sirvam a Deus com temor e em verdade, abandonando a conversa vã e vazia e o erro da multidão, crendo naquele que ressuscitou nosso Senhor Jesus Cristo dentre os mortos e lhe deu glória (1Pe 1.21) e um trono à sua direita; a quem foram sujeitas todas as coisas que há no céu e na terra; a quem serve toda criatura que tem fôlego; que vem como juiz de vivos e de mortos (At 10.42); cujo sangue Deus pedirá aos que lhe são desobedientes.

Ora, aquele que o ressuscitou dentre os mortos também nos ressuscitará (2Co 4.14), se fizermos a sua vontade, andarmos nos seus mandamentos e amarmos as coisas que ele amou, abstendo-nos de toda injustiça, cobiça, amor ao dinheiro, maledicência, falso testemunho; não pagando mal com mal, nem ofensa com ofensa (1Pe 3.9), nem golpe com golpe, nem maldição com maldição; mas lembrando-nos das palavras que o Senhor disse quando ensinava: Não julguem, para que vocês não sejam julgados. Perdoem, e serão perdoados. Tenham misericórdia, para que alcancem misericórdia. Com a medida com que vocês medirem, vocês também serão medidos (Mt 7.1-2; Lc 6.36-38); e ainda: Bem-aventurados os pobres e os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino de Deus (Mt 5.3, 10; Lc 6.20).

3. Estas coisas, irmãos, lhes escrevo a respeito da justiça, não porque eu mesmo me tenha imposto esse encargo, mas porque vocês me convidaram.

Pois nem eu, nem qualquer outro semelhante a mim, é capaz de acompanhar a sabedoria do bem-aventurado e glorioso Paulo, que, quando esteve entre vocês, ensinou face a face aos homens daquele tempo, com exatidão e segurança, a palavra da verdade; e que também, quando ausente, lhes escreveu uma carta, na qual, se vocês a examinarem com atenção, poderão ser edificados na fé que lhes foi dada, a qual é a mãe de todos nós (Gl 4.26), seguida pela esperança e precedida pelo amor, o amor a Deus, a Cristo e ao próximo. Pois, se alguém se ocupa dessas coisas, cumpriu o mandamento da justiça; porque quem tem amor está longe de todo pecado.

4. Mas o amor ao dinheiro é o princípio de todas as aflições (1Tm 6.10). Sabendo, pois, que nada trouxemos para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele (1Tm 6.7), armemo-nos com as armas da justiça e ensinemos primeiro a nós mesmos a andar no mandamento do Senhor; e depois também as nossas mulheres, a andarem na fé que lhes foi dada, no amor e na pureza, querendo bem a seus maridos com toda a sinceridade e amando a todos igualmente, com toda a castidade, e a educarem seus filhos na disciplina do temor de Deus.

As nossas viúvas devem ser sensatas quanto à fé do Senhor, intercedendo sem cessar por todos, abstendo-se de toda calúnia, maledicência, falso testemunho, amor ao dinheiro e de todo mal, sabendo que são o altar de Deus, que todos os sacrifícios são examinados com cuidado e que nada lhe escapa, nem dos pensamentos, nem das intenções, nem de qualquer dos segredos do coração.

5. Sabendo, pois, que de Deus não se zomba (Gl 6.7), devemos andar de modo digno do seu mandamento e da sua glória.

Do mesmo modo, os diáconos devem ser irrepreensíveis diante da sua justiça, como diáconos de Deus e de Cristo, e não dos homens; não caluniadores, não de língua dobre, não amantes do dinheiro, moderados em tudo, compassivos, diligentes, andando segundo a verdade do Senhor, que se fez ministro (diácono) de todos. Pois, se lhe agradarmos neste mundo presente, receberemos também o mundo futuro, conforme ele nos prometeu ressuscitar-nos dentre os mortos; e, se nos conduzirmos de modo digno dele, também reinaremos com ele (2Tm 2.12), se de fato tivermos fé.

Do mesmo modo, também os jovens devem ser irrepreensíveis em tudo, cuidando da pureza acima de tudo e refreando-se de todo mal. Pois é bom refrear-se das paixões no mundo, porque toda paixão faz guerra contra o Espírito, e nem os imorais, nem os afeminados, nem os homossexuais herdarão o Reino de Deus (1Co 6.9-10), nem os que praticam coisas perversas. Por isso é justo abster-se de todas essas coisas, sujeitando-se aos presbíteros e diáconos, como a Deus e a Cristo. As virgens devem andar com consciência irrepreensível e pura.

6. Também os presbíteros devem ser compassivos, misericordiosos para com todos, reconduzindo as ovelhas desgarradas (Ez 34.4), visitando todos os enfermos, não descuidando da viúva, do órfão ou do pobre; mas procurando sempre o que é honroso diante de Deus e dos homens (2Co 8.21), abstendo-se de toda ira, acepção de pessoas, juízo injusto, estando longe de todo amor ao dinheiro, não sendo rápidos em crer em algo contra alguém, nem precipitados no julgamento, sabendo que todos somos devedores do pecado.

Se, pois, pedimos ao Senhor que nos perdoe, também nós devemos perdoar; pois estamos diante dos olhos do nosso Senhor e Deus, e todos temos de comparecer diante do tribunal de Cristo, e cada um prestará contas de si mesmo (2Co 5.10; Rm 14.12).

Sirvamos-lhe, portanto, com temor e toda reverência, como ele mesmo ordenou, e também os apóstolos, que nos pregaram o evangelho, e os profetas, que anunciaram de antemão a vinda de nosso Senhor; sendo zelosos do que é bom, abstendo-nos dos escândalos, dos falsos irmãos e dos que levam com hipocrisia o nome do Senhor, os quais desencaminham os insensatos.

7. Pois todo aquele que não confessa que Jesus Cristo veio em carne é anticristo (1Jo 4.2-3); e quem não confessa o testemunho da cruz é do diabo; e quem torce os oráculos do Senhor segundo as suas próprias paixões, e diz que não há ressurreição nem juízo, esse é o primogênito de Satanás.

Por isso, abandonemos a vaidade da multidão e os seus falsos ensinos e voltemo-nos para a palavra que nos foi transmitida desde o princípio, sendo sóbrios para a oração e perseverantes nos jejuns, suplicando ao Deus que tudo vê que não nos deixe cair em tentação (Mt 6.13), conforme disse o Senhor: O espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca (Mt 26.41).

8. Apeguemo-nos, pois, sem cessar à nossa esperança e ao penhor da nossa justiça, que é Jesus Cristo, o qual carregou, em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados (1Pe 2.24); ele não cometeu pecado, nem foi encontrado engano em sua boca (1Pe 2.22); mas por nós suportou todas as coisas, para que vivêssemos nele.

Tornemo-nos, pois, imitadores da sua perseverança; e, se sofrermos por causa do seu nome, glorifiquemo-lo. Pois ele nos deu esse exemplo em sua própria pessoa, e nós cremos nisso.

9. Exorto, portanto, a todos vocês que obedeçam à palavra da justiça e pratiquem toda perseverança, como vocês viram com os próprios olhos não só no bem-aventurado Inácio, em Zósimo e em Rufo, mas também em outros que eram do meio de vocês, bem como no próprio Paulo e nos demais apóstolos; convencidos de que todos estes não correram em vão (Fp 2.16), mas na fé e na justiça, e de que estão no lugar que lhes é devido, junto do Senhor, com quem também sofreram. Pois não amaram o presente século (2Tm 4.10), mas aquele que morreu por nós e foi ressuscitado por Deus em nosso favor.

10. Permaneçam, pois, firmes nestas coisas e sigam o exemplo do Senhor, firmes na fé e inabaláveis, amando-se uns aos outros com amor fraternal, companheiros da verdade, antecipando-se uns aos outros na mansidão do Senhor, não desprezando ninguém.

Quando puderem fazer o bem, não o adiem, porque a compaixão livra da morte. Sejam todos sujeitos uns aos outros, tendo conduta irrepreensível no meio dos gentios (1Pe 2.12), para que, por suas boas obras, vocês recebam louvor e o Senhor não seja blasfemado em vocês.

Mas ai daquele por meio de quem o nome do Senhor é blasfemado. Ensinem, portanto, a todos a sobriedade, na qual vocês mesmos também andam.

11. Fiquei profundamente entristecido por causa de Valente, que antes era presbítero entre vocês, porque desconhece tanto o cargo que lhe foi confiado. Advirto-os, pois, que se guardem da avareza e que sejam puros e verdadeiros. Guardem-se de todo mal.

Mas quem não consegue governar a si mesmo nessas coisas, como pode recomendá-las a outro? Se alguém não se guarda da avareza, será contaminado pela idolatria e será julgado como um dos gentios, que não conhecem o juízo do Senhor. Ou não sabemos que os santos hão de julgar o mundo (1Co 6.2), como ensina Paulo?

Mas nada disso encontrei em vocês, nem ouvi falar disso, vocês entre os quais trabalhou o bem-aventurado Paulo, e que foram as cartas dele no princípio. Pois ele se gloria de vocês em todas aquelas igrejas que, naquele tempo, eram as únicas que conheciam a Deus; pois nós ainda não o conhecíamos.

Por isso, fico profundamente entristecido por ele e por sua mulher; que o Senhor lhes conceda verdadeiro arrependimento. Sejam, pois, também vocês sóbrios nesta questão e não considerem tais pessoas como inimigas, mas reconduzam-nas como membros frágeis e extraviados, para que salvem o corpo inteiro de vocês. Pois, agindo assim, vocês edificam uns aos outros.

12. Pois estou convencido de que vocês são bem instruídos nas Sagradas Escrituras e de que nada lhes é oculto. A mim, porém, isso não foi concedido. Apenas, como se diz nessas Escrituras: Fiquem irados e não pequem; e: Não deixem que o sol se ponha sobre a ira de vocês (Ef 4.26). Bem-aventurado aquele que se lembra disso; e confio que isso esteja em vocês.

Ora, que o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo e o próprio Sumo Sacerdote eterno, o [Filho de] Deus Jesus Cristo, os edifiquem na fé e na verdade, em toda mansidão, em toda isenção de ira, na tolerância, na longanimidade, na paciente perseverança e na pureza; e lhes conceda sorte e parte entre os seus santos, e a nós com vocês, e a todos os que estão debaixo do céu e que hão de crer em nosso Senhor e Deus Jesus Cristo e em seu Pai, que o ressuscitou dentre os mortos.

Orem por todos os santos (Ef 6.18). Orem também pelos reis (1Tm 2.2), pelas autoridades e pelos príncipes, pelos que os perseguem (Mt 5.44) e odeiam e pelos inimigos da cruz (Fp 3.18), para que o fruto de vocês seja manifesto entre todos (1Tm 4.15), a fim de que vocês sejam perfeitos nele.

13. Vocês me escreveram, tanto vocês mesmos como Inácio, pedindo que, se alguém fosse à Síria, levasse para lá também as cartas de vocês. E isso farei, se tiver oportunidade, ou eu mesmo, ou aquele que eu enviar como embaixador também em nome de vocês.

As cartas de Inácio que ele nos enviou, e outras quantas tínhamos conosco, nós as enviamos a vocês, como pediram; elas vão anexas a esta carta, e delas vocês poderão tirar grande proveito. Pois tratam da fé, da perseverança e de toda espécie de edificação que diz respeito a nosso Senhor. Além disso, quanto ao próprio Inácio e aos que estavam com ele, se tiverem alguma notícia segura, informem-nos.

14. Escrevo-lhes estas coisas por meio de Crescente, que há pouco lhes recomendei e agora recomendo de novo; pois ele se portou de modo irrepreensível entre nós, e creio que também entre vocês. Também a irmã dele lhes será recomendada, quando for até vocês. Passem bem no Senhor Jesus Cristo, na graça, vocês e todos os seus. Amém.

Carta dos Esmirniotas ou martírio de Policarpo

A igreja de Deus que peregrina em Esmirna, à igreja de Deus que peregrina em Filomélio e a todas as comunidades da santa igreja universal que peregrinam em todo lugar: misericórdia, paz e amor da parte de Deus Pai e de nosso Senhor Jesus Cristo lhes sejam multiplicados.

1. Escrevemos a vocês, irmãos, um relato do que aconteceu aos que sofreram o martírio e especialmente ao bem-aventurado Policarpo, que pôs fim à perseguição, como que selando-a com o seu martírio. Pois quase todos os acontecimentos anteriores se deram para que o Senhor nos mostrasse mais uma vez um exemplo de martírio conforme o evangelho.

Pois ele esperou para ser entregue, assim como o Senhor, a fim de que também nós fôssemos imitadores dele, não tendo em vista somente o que nos diz respeito, mas também o que diz respeito ao nosso próximo (Fp 2.4). Pois é próprio do amor verdadeiro e firme não desejar somente a própria salvação, mas também a de todos os irmãos.

2. Bem-aventurados, portanto, e nobres são todos os martírios que aconteceram segundo a vontade de Deus (pois convém sermos muito escrupulosos e atribuir a Deus o poder sobre todas as coisas).

Pois quem não admiraria a nobreza deles, a sua paciente perseverança e a sua lealdade ao Mestre? Quando estavam tão dilacerados pelos açoites que a estrutura da sua carne se via até às veias e artérias interiores, eles suportaram com paciência, de modo que até os que estavam por perto se compadeciam e choravam; enquanto eles mesmos chegaram a tal grau de coragem que nenhum deles soltou um grito ou um gemido, mostrando assim a todos nós que naquela hora os mártires de Cristo, enquanto eram torturados, estavam ausentes da carne, ou melhor, que o Senhor estava ao lado deles e conversava com eles.

E, atentos à graça de Cristo, desprezavam as torturas deste mundo, comprando ao preço de uma hora a libertação do castigo eterno. E o fogo dos seus torturadores desumanos lhes parecia frio, pois punham diante dos olhos a fuga do fogo eterno, que nunca se apaga; enquanto, com os olhos do coração, contemplavam os bens reservados aos que perseveram com paciência, coisas que nem ouvidos ouviram, nem olhos viram, nem jamais penetraram em coração humano (1Co 2.9), mas que o Senhor lhes mostrava, pois já não eram homens, mas anjos.

Do mesmo modo também os que foram condenados às feras suportaram castigos terríveis: eram obrigados a deitar-se sobre conchas afiadas e eram atormentados com muitas outras formas de tortura, para que o diabo, se possível, pela persistência do castigo, os levasse a negar a fé; pois ele tramou contra eles muitas astúcias.

3. Mas graças a Deus, pois ele de fato prevaleceu contra todas. O nobilíssimo Germânico fortaleceu a timidez deles com a constância que havia nele; e lutou com as feras de modo notável. Pois, quando o procônsul quis persuadi-lo e lhe pediu que tivesse pena da sua juventude, ele, com violência, puxou a fera para si, desejando livrar-se mais depressa da vida injusta e iníqua deles.

Então, depois disso, toda a multidão, admirada com a coragem da raça dos cristãos, amada por Deus e temente a Deus, levantou um grito: “Fora com os ateus! Procurem Policarpo!”

4. Mas um homem, chamado Quinto, frígio recém-chegado da Frígia, ao ver as feras, acovardou-se. Fora ele quem forçara a si mesmo e a alguns outros a se apresentarem espontaneamente. O procônsul, com muitas súplicas, persuadiu esse homem a prestar o juramento e a oferecer incenso. Por isso, irmãos, não louvamos os que se entregam por conta própria, pois o evangelho não ensina assim.

5. Ora, o glorioso Policarpo, a princípio, quando ouviu isso, longe de se perturbar, desejava permanecer na cidade; mas a maioria o persuadiu a retirar-se. Retirou-se, então, para uma propriedade rural não muito distante da cidade; e ali ficou com alguns companheiros, não fazendo outra coisa noite e dia senão orar por todos e pelas igrejas do mundo inteiro, pois esse era o seu costume constante.

E, enquanto orava, cai em êxtase três dias antes da sua prisão; e viu o seu travesseiro ardendo em fogo. E, voltando-se, disse aos que estavam com ele: “É necessário que eu seja queimado vivo.”

6. E, como os que o procuravam insistiam, ele partiu para outra propriedade; e logo chegaram os que o procuravam; e, não o encontrando, prenderam dois rapazes escravos, um dos quais confessou sob tortura; pois era impossível que ele ficasse escondido, visto que os próprios que o traíam eram pessoas da sua casa. E o chefe da polícia, que por acaso tinha o mesmo nome, pois se chamava Herodes, tinha pressa de levá-lo ao estádio, para que ele cumprisse a sua sorte designada, tornando-se participante de Cristo, enquanto eles, os seus traidores, sofressem o castigo do próprio Judas.

7. Levando, pois, o rapaz consigo, na sexta-feira, por volta da hora da ceia, os guardas e os cavaleiros saíram com as suas armas costumeiras, apressando-se como contra um salteador. E, chegando juntos tarde da noite, encontraram o homem deitado num quarto do andar de cima de uma casinha; e, embora pudesse ter ido dali para outro lugar, ele não quis, dizendo: “Seja feita a vontade de Deus” (At 21.14).

Quando soube que eles haviam chegado, desceu e conversou com eles; os presentes se admiravam da sua idade e da sua constância, e se perguntavam por que haveria tanta pressa em prender um homem tão idoso. Então, logo mandou que lhes servissem uma mesa, para comerem e beberem àquela hora quanto quisessem. E persuadiu-os a lhe concederem uma hora para orar sem ser incomodado; e, consentindo eles, pôs-se de pé e orou, tão cheio da graça de Deus que por duas horas não pôde calar-se; e os que o ouviam ficaram assombrados, e muitos se arrependeram de ter vindo contra um ancião tão venerável.

8. Quando, por fim, terminou a sua oração, depois de lembrar todos os que em algum momento haviam cruzado o seu caminho, pequenos e grandes, ilustres e humildes, e toda a igreja universal espalhada pelo mundo, chegada a hora da partida, puseram-no montado num jumento e o levaram para a cidade; era um grande sábado.

Vieram ao seu encontro Herodes, o chefe da polícia, e seu pai, Nicetes, que o fizeram passar para a carruagem deles e procuraram persuadi-lo, sentados ao seu lado, dizendo: “Ora, que mal há em dizer ‘César é Senhor’ e oferecer incenso”, e mais coisas nesse sentido, “e assim salvar-se?” Ele, a princípio, não lhes respondeu. Mas, como insistiam, disse: “Não vou fazer o que vocês me aconselham.”

Então eles, não conseguindo persuadi-lo, proferiram palavras ameaçadoras e o fizeram descer depressa, de modo que ele feriu a canela ao descer da carruagem. E, sem sequer se voltar, seguiu o seu caminho com prontidão e rapidez, como se nada lhe tivesse acontecido, sendo levado ao estádio; e havia tal tumulto no estádio que não se podia ouvir a voz de ninguém.

9. Mas, quando Policarpo entrou no estádio, veio-lhe uma voz do céu: “Seja forte, Policarpo, e porte-se como homem.” Ninguém viu quem falava, mas os nossos que estavam presentes ouviram a voz. E, quando por fim foi conduzido, houve grande tumulto, pois ouviram que Policarpo tinha sido preso.

Quando, então, foi levado à presença dele, o procônsul perguntou se ele era o homem. E, ao confessar que era, procurava persuadi-lo a negar, dizendo: “Respeite a sua idade”, e outras coisas semelhantes, como costumam dizer: “Jure pelo gênio de César; arrependa-se e diga: Fora com os ateus!” Então Policarpo, com semblante grave, olhou para toda a multidão de pagãos iníquos que estava no estádio, acenou-lhes com a mão e, gemendo e olhando para o céu, disse: “Fora com os ateus!”

Mas, como o magistrado insistia, dizendo: “Preste o juramento, e eu o soltarei; amaldiçoe o Cristo”, Policarpo disse: “Há oitenta e seis anos eu o sirvo, e ele nunca me fez mal algum. Como posso blasfemar contra o meu Rei, que me salvou?”

10. Mas, como ele insistia de novo, dizendo: “Jure pelo gênio de César”, Policarpo respondeu: “Se você vãmente supõe que vou jurar pelo gênio de César, como diz, e finge não saber quem eu sou, ouça claramente: eu sou cristão. Mas, se quiser aprender a doutrina do cristianismo, marque um dia e me ouça.”

O procônsul disse: “Convença o povo.” Mas Policarpo disse: “A você eu teria considerado digno de uma explicação; pois fomos ensinados a prestar, como convém, aos governantes e às autoridades estabelecidas por Deus a honra que não nos cause dano; mas a estes não os considero dignos de que eu me defenda diante deles.”

11. Então o procônsul disse: “Tenho feras aqui, e vou lançá-lo a elas, se você não se arrepender.” Mas ele disse: “Mande trazê-las; pois o arrependimento do melhor para o pior é uma mudança que não nos é permitida; mas é nobre mudar da perversidade para a justiça.”

Então ele lhe disse de novo: “Farei que você seja consumido pelo fogo, se desprezar as feras, a menos que se arrependa.” Mas Policarpo disse: “Você me ameaça com um fogo que arde por algum tempo e logo depois se apaga; pois ignora o fogo do juízo vindouro e do castigo eterno, reservado aos ímpios. Mas por que demora? Vamos, faça o que quiser.”

12. Dizendo essas e outras coisas, ele se enchia de coragem e de alegria, e o seu rosto se encheu de graça, de modo que não só não se abateu de espanto diante do que lhe diziam, mas, ao contrário, o procônsul ficou atônito e mandou o seu próprio arauto proclamar três vezes no meio do estádio: “Policarpo confessou ser cristão.”

Quando o arauto proclamou isso, toda a multidão, tanto de gentios como de judeus que moravam em Esmirna, gritou com ira incontrolável e em alta voz: “Este é o mestre da Ásia, o pai dos cristãos, o destruidor dos nossos deuses, que ensina muitos a não sacrificar nem adorar.” Dizendo essas coisas, gritavam e pediam ao asiarca Filipe que soltasse um leão contra Policarpo. Mas ele disse que não lhe era permitido, pois já havia encerrado os jogos.

Então resolveram gritar a uma só voz que Policarpo fosse queimado vivo. Pois era necessário que se cumprisse a visão que lhe fora mostrada a respeito do seu travesseiro, quando o viu em chamas enquanto orava e, voltando-se, disse profeticamente aos fiéis que estavam com ele: “É necessário que eu seja queimado vivo.”

13. Essas coisas aconteceram com tanta rapidez, mais depressa do que se pode contar, que logo a multidão juntou, das oficinas e dos banhos, lenha e gravetos, e os judeus, mais que todos, ajudavam nisso com zelo, como é costume deles.

Quando a fogueira ficou pronta, ele tirou todas as suas vestes de cima e soltou o cinto, e procurou também tirar as sandálias, embora antes não tivesse o costume de fazer isso, porque todos os fiéis, em todo tempo, disputavam com empenho quem tocaria primeiro a sua carne. Pois, já antes de ter cabelos brancos, ele era tratado com toda honra por causa da sua vida santa.

Logo, então, colocaram ao seu redor os instrumentos preparados para a fogueira; e, quando iam também pregá-lo ao poste, ele disse: “Deixem-me como estou; pois aquele que me concede suportar o fogo me concederá também permanecer imóvel na fogueira, mesmo sem a segurança que vocês buscam com os pregos.”

14. Assim, não o pregaram, mas o amarraram. Então ele, com as mãos para trás e amarrado ao poste, como um nobre carneiro tirado de um grande rebanho para oferta, holocausto preparado e aceitável a Deus, olhando para o céu, disse:

“Ó Senhor, Deus Todo-Poderoso,
Pai do teu amado e bendito Filho Jesus Cristo,
por meio de quem recebemos o conhecimento de ti,
Deus dos anjos, das potestades e de toda a criação
e de toda a raça dos justos que vivem na tua presença;

eu te bendigo porque me concedeste este dia e esta hora,
para que eu receba uma parte no número dos mártires,
no cálice do [teu] Cristo, para a ressurreição da vida eterna,
tanto da alma como do corpo,
na incorruptibilidade do Espírito Santo.
Que eu seja recebido hoje entre eles na tua presença,
como sacrifício rico e aceitável,
assim como o preparaste e revelaste de antemão
e o cumpriste,
tu que és o Deus fiel e verdadeiro.

Por isso, e também por todas as coisas,
eu te louvo, eu te bendigo,
eu te glorifico, por meio do eterno e celestial Sumo Sacerdote,
Jesus Cristo, teu Filho amado,
por meio de quem, com ele e com o Espírito Santo, seja a glória
agora [e sempre] e pelos séculos vindouros. Amém.”

15. Quando ele disse o amém e terminou a sua oração, os encarregados do fogo acenderam a fogueira. E, levantando-se uma grande chama, nós, a quem foi dado ver, vimos uma maravilha; e fomos preservados para contar aos demais o que aconteceu.

O fogo, tomando a forma de uma abóbada, como a vela de um navio enfunada pelo vento, fez um muro ao redor do corpo do mártir; e ele estava no meio, não como carne que se queima, mas como [pão no forno, ou como] ouro e prata refinados na fornalha. E sentimos um perfume tão agradável como se fosse o aroma do incenso ou de algum outro bálsamo precioso.

16. Por fim, os iníquos, vendo que o seu corpo não podia ser consumido pelo fogo, ordenaram a um carrasco que se aproximasse e o golpeasse com um punhal. E, quando ele fez isso, saiu [uma pomba e] tanto sangue que apagou o fogo; e toda a multidão se admirou de que houvesse tão grande diferença entre os incrédulos e os eleitos.

Entre estes estava este homem, o glorioso mártir Policarpo, que se mostrou em nosso tempo um mestre apostólico e profético, bispo da santa igreja que está em Esmirna. Pois toda palavra que saiu da sua boca se cumpriu e se cumprirá.

17. Mas o Maligno, ciumento e invejoso, o adversário da raça dos justos, tendo visto a grandeza do seu martírio e a sua vida irrepreensível desde o princípio, e como ele foi coroado com a coroa da imortalidade e alcançou um prêmio incontestável, providenciou que nem mesmo o seu pobre corpo fosse levado por nós, embora muitos desejassem fazer isso e tocar a sua santa carne.

Assim, incitou Nicetes, pai de Herodes e irmão de Alce, a pedir ao magistrado que não entregasse o corpo, “para que”, dizia-se, “não abandonem o crucificado e comecem a adorar este homem”. Isso foi feito por instigação e insistência dos judeus, que também vigiavam quando estávamos para tirá-lo do fogo; não sabiam que nunca nos será possível nem abandonar o Cristo, que sofreu pela salvação do mundo inteiro dos que são salvos, sofreu sem culpa pelos pecadores, nem adorar outro qualquer.

Pois a ele, que é o Filho de Deus, adoramos; mas aos mártires, como discípulos e imitadores do Senhor, amamos como merecem, por sua incomparável afeição ao seu próprio Rei e Mestre. Que também nos seja dado ser participantes e condiscípulos deles.

18. O centurião, então, vendo a oposição levantada pelos judeus, colocou-o no meio e o queimou, segundo o costume deles.

Assim, depois recolhemos os seus ossos, mais valiosos do que pedras preciosas e mais finos do que o ouro refinado, e os depositamos num lugar conveniente; ali o Senhor nos permitirá reunir-nos, como pudermos, com alegria e júbilo, e celebrar o aniversário do seu martírio, em memória dos que já combateram e para exercício e preparação dos que hão de combater no futuro.

19. Assim aconteceu ao bem-aventurado Policarpo, que, tendo sofrido o martírio em Esmirna com os de Filadélfia, doze ao todo, é lembrado por todos mais especialmente que os outros, de modo que até os pagãos falam dele em todo lugar; pois ele se mostrou não só um mestre notável, mas também um mártir insigne, cujo martírio todos desejam imitar, pois foi segundo o modelo do evangelho de Cristo.

Tendo vencido pela perseverança o governante injusto no combate e recebido assim a coroa da imortalidade, ele se alegra com os apóstolos e com todos os justos, glorifica a Deus Pai Todo-Poderoso e bendiz nosso Senhor Jesus Cristo, salvador das nossas almas, timoneiro dos nossos corpos e pastor da igreja universal espalhada pelo mundo.

20. Vocês pediram que os acontecimentos lhes fossem expostos mais extensamente; mas nós, por ora, os informamos como que em resumo, por meio do nosso irmão Marciano. Quando, pois, estiverem informados destas coisas, enviem a carta também aos irmãos que estão mais longe, para que também eles glorifiquem o Senhor, que escolhe dentre os seus próprios servos.

Àquele que, por sua graça e generosidade, pode conduzir a todos nós ao seu reino eterno, por meio do seu Filho unigênito, Jesus Cristo, seja a glória, a honra, o poder e a grandeza para sempre. Saúdem todos os santos. Os que estão conosco os saúdam, e também Evaresto, que escreveu a carta, com toda a sua casa.

21. Ora, o bem-aventurado Policarpo sofreu o martírio no segundo dia da primeira parte do mês de Xântico, no sétimo dia antes das calendas de março, num grande sábado, à oitava hora. Foi preso por Herodes, quando Filipe de Trales era sumo sacerdote, no proconsulado de Estácio Quadrato, mas no reinado do Rei eterno, Jesus Cristo. A ele seja a glória, a honra, a grandeza e o trono eterno, de geração em geração. Amém.

22. (1) Desejamos que passem bem, irmãos, enquanto andam segundo a palavra de Jesus Cristo, conforme o evangelho; com ele seja a glória a Deus pela salvação dos seus santos eleitos; assim como o bem-aventurado Policarpo sofreu o martírio, que nos seja dado ser achados em suas pegadas no reino de Jesus Cristo.

(2) Este relato, Caio o copiou dos escritos de Ireneu, discípulo de Policarpo. Ele também viveu com Ireneu.

(3) E eu, Sócrates, o transcrevi em Corinto, da cópia de Caio. A graça seja com todos.

(4) E eu, Piônio, por minha vez o transcrevi da cópia mencionada, depois de procurá-la (pois o bem-aventurado Policarpo ma mostrou numa revelação, como contarei adiante), juntando-a quando já estava quase gasta pelo tempo, para que o Senhor Jesus Cristo também me reúna com os seus eleitos no seu reino celestial; a ele seja a glória com o Pai e o Espírito Santo, para todo o sempre. Amém.

Os três parágrafos anteriores, conforme o manuscrito de Moscou

(2) Este relato, Caio o copiou dos escritos de Ireneu. Ele viveu com Ireneu, que fora discípulo do santo Policarpo. Pois esse Ireneu, estando em Roma no tempo do martírio do bispo Policarpo, instruiu muitos; e muitos tratados seus, excelentíssimos e ortodoxos, estão em circulação. Neles ele faz menção de Policarpo, dizendo que foi ensinado por ele. E refutou com competência toda heresia e transmitiu a regra católica da igreja tal como a recebera do santo. Menciona também este fato: quando Marcião, de quem os marcionitas tomam o nome, encontrou certa vez o santo Policarpo e disse: “Reconheça-nos, Policarpo”, ele respondeu a Marcião: “Sim, reconheço o primogênito de Satanás.” Também se afirma nos escritos de Ireneu que, no mesmo dia e hora em que Policarpo sofreu o martírio em Esmirna, Ireneu, estando na cidade dos romanos, ouviu uma voz como de trombeta, que dizia: “Policarpo foi martirizado.”

(3) Destes escritos de Ireneu, pois, como já foi dito, Caio fez uma cópia, e da cópia de Caio Isócrates fez outra, em Corinto.

(4) E eu, Piônio, por minha vez o transcrevi da cópia de Isócrates, depois de procurá-la em obediência a uma revelação do santo Policarpo, juntando-a quando estava quase gasta pelo tempo, para que o Senhor Jesus Cristo também me reúna com os seus eleitos no seu reino celestial; a ele seja a glória com o Pai, o Filho e o Espírito Santo, para todo o sempre. Amém.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de J. B. Lightfoot (The Apostolic Fathers, Londres, Macmillan, 1891, ed. J. R. Harmer), conferida com as imagens das páginas; os prefácios de Wesley, a partir de A Christian Library, vol. 1 (1749; reimpr. 1755); domínio público. Os originais são gregos: esta é, portanto, tradução de tradução. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando o autor antigo cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.