Os Pais Apostólicos · Inácio de Antioquia (conclusão)
A célebre carta aos Romanos, em que Inácio pede que não impeçam o seu martírio, e as cartas aos Filadelfianos, aos Esmirniotas e ao bispo Policarpo.
Inácio, que também se chama Teóforo, àquela que alcançou misericórdia na magnificência do Pai Altíssimo e de Jesus Cristo, seu Filho unigênito; à igreja amada e iluminada pela vontade daquele que quis todas as coisas que existem, pela fé e pelo amor para com Jesus Cristo, nosso Deus; àquela que preside na terra da região dos romanos, digna de Deus, digna de honra, digna de felicitação, digna de louvor, digna de êxito, digna na pureza, e que preside no amor, que anda na lei de Cristo e traz o nome do Pai; igreja que também saúdo em nome de Jesus Cristo, o Filho do Pai; aos que, na carne e no espírito, estão unidos a cada um dos seus mandamentos, cheios da graça de Deus sem vacilar e filtrados de toda mancha estranha: saudações abundantes, de modo irrepreensível, em Jesus Cristo, nosso Deus.
1. Visto que, em resposta à minha oração a Deus, me foi concedido ver os rostos de vocês, dignos de Deus, de modo que obtive até mais do que pedi (pois, preso em Cristo Jesus, espero saudá-los, se for da vontade divina que eu seja considerado digno de chegar até o fim); pois o começo está bem encaminhado, se eu alcançar a meta, para receber sem impedimento a minha herança. Pois temo o próprio amor de vocês, que ele me cause dano; pois para vocês é fácil fazer o que quiserem, mas para mim é difícil alcançar a Deus, se vocês não me pouparem.
2. Pois não quero que vocês procurem agradar aos homens, mas a Deus, como de fato o agradam. Pois nem eu mesmo terei jamais uma ocasião como esta de alcançar a Deus, nem vocês, se ficarem calados, poderão ter o crédito de uma obra mais nobre. Pois, se ficarem calados e me deixarem em paz, serei uma palavra de Deus; mas, se desejarem a minha carne, voltarei a ser um simples grito. [Pelo contrário,] não me concedam nada além de ser derramado como libação a Deus, enquanto ainda há um altar preparado, para que, formando um coro no amor, cantem ao Pai em Jesus Cristo, porque Deus se dignou fazer que o bispo da Síria fosse achado no Ocidente, chamando-o do Oriente. É bom que eu me ponha como o sol, deixando o mundo rumo a Deus, para que nele eu volte a nascer.
3. Vocês nunca tiveram inveja de ninguém; foram mestres de outros. E o meu desejo é que tenham valor também as lições que vocês, como mestres, ordenam. Peçam apenas que eu tenha força interior e exterior, para que não somente o diga, mas também o queira; para que não somente seja chamado cristão, mas também seja achado cristão. Pois, se for achado, também poderei ser chamado, e então ser fiel quando já não for visível ao mundo. Nada do que é visível é bom. Pois o nosso Deus, Jesus Cristo, estando no Pai, se manifesta ainda mais. A Obra não é questão de persuasão; o cristianismo é coisa de força, sempre que é odiado pelo mundo.
4. Escrevo a todas as igrejas e faço saber a todos que de livre vontade morro por Deus, se vocês não o impedirem. Exorto vocês: não sejam para mim uma bondade inoportuna. Deixem que eu seja entregue às feras, pois por meio delas posso alcançar a Deus. Sou trigo de Deus e sou moído pelos dentes das feras, para que seja achado pão puro [de Cristo]. Antes, aticem as feras, para que se tornem o meu sepulcro e não deixem nada do meu corpo, para que, depois de adormecido, eu não seja um peso para ninguém. Então serei verdadeiramente discípulo de Jesus Cristo, quando o mundo nem sequer vir o meu corpo. Supliquem ao Senhor por mim, para que, por meio desses instrumentos, eu seja achado um sacrifício para Deus. Não lhes dou ordens como Pedro e Paulo. Eles eram Apóstolos; eu sou um condenado. Eles eram livres; eu, até esta hora, sou escravo. Mas, se eu sofrer, serei um liberto de Jesus Cristo e ressuscitarei livre nele. Agora, nas minhas cadeias, estou aprendendo a renunciar a todo desejo.
5. Da Síria até Roma luto com feras, por terra e por mar, de noite e de dia, acorrentado no meio de dez leopardos, isto é, um destacamento de soldados, que se tornam piores quando são bem tratados. Contudo, pelos maus-tratos deles, torno-me mais plenamente discípulo; “mas nem por isso me dou por justificado” (1Co 4.4). Que eu tenha alegria das feras que estão preparadas para mim; e oro para que as encontre prontas; e até as atiçarei para que me devorem prontamente, e não façam como fizeram com alguns, a quem não tocaram por medo. E, se elas por si mesmas não quiserem, estando eu disposto, eu mesmo as forçarei. Tenham paciência comigo. Sei o que me convém. Agora estou começando a ser discípulo. Que nada, das coisas visíveis ou invisíveis, tenha inveja de mim, para que eu alcance Jesus Cristo. Venham fogo e cruz e lutas com feras, [cortes e dilacerações,] deslocamento de ossos, mutilação de membros, esmagamento de todo o meu corpo, venham sobre mim os cruéis tormentos do diabo: contanto que eu alcance Jesus Cristo.
6. De nada me servirão os confins do universo nem os reinos deste mundo. É melhor para mim morrer por Jesus Cristo do que reinar sobre os confins da terra. Busco aquele que morreu por nós; desejo aquele que ressuscitou [por nossa causa]. As dores de um novo nascimento estão sobre mim. Tenham paciência comigo, irmãos. Não me impeçam de viver; não desejem a minha morte. Não entreguem ao mundo quem deseja ser de Deus, nem o seduzam com coisas materiais. Deixem-me receber a luz pura. Quando eu chegar lá, então serei homem. Permitam-me ser imitador da paixão do meu Deus. Se alguém o tem dentro de si, compreenda o que desejo e tenha compaixão de mim, porque sabe o que me aflige.
7. O príncipe deste mundo quer me despedaçar e corromper o meu pensamento voltado para Deus. Que nenhum de vocês que estão presentes o ajude. Antes, fiquem do meu lado, isto é, do lado de Deus. Não falem de Jesus Cristo e, ao mesmo tempo, desejem o mundo. Que a inveja não tenha morada em vocês. Ainda que eu mesmo, quando estiver com vocês, lhes suplique, não me obedeçam; antes, deem crédito a estas coisas que lhes escrevo. [Pois] escrevo a vocês em plena vida, mas desejando a morte. O meu desejo foi crucificado, e não há em mim fogo de amor pelas coisas materiais, mas somente água viva †e que fala† em mim, dizendo dentro de mim: “Vem para o Pai.” Não tenho prazer no alimento da corrupção nem nos deleites desta vida. Desejo o pão de Deus, que é a carne de Cristo, que era da descendência de Davi; e, como bebida, desejo o seu sangue, que é amor incorruptível.
8. Não quero mais viver segundo o modo dos homens; e assim será, se vocês o quiserem. Queiram-no, para que vocês mesmos também sejam queridos. Numa breve carta lhes suplico: creiam em mim. E Jesus Cristo lhes manifestará estas coisas, que digo a verdade; Jesus Cristo, a boca infalível pela qual o Pai falou [verdadeiramente]. Peçam por mim, para que eu alcance [pelo Espírito Santo]. Não lhes escrevo segundo a carne, mas segundo o pensamento de Deus. Se eu sofrer, terá sido pelo desejo de vocês; se eu for rejeitado, terá sido pelo ódio de vocês.
9. Lembrem-se nas suas orações da igreja que está na Síria, que, em meu lugar, tem Deus por pastor. Somente Jesus Cristo será o seu bispo, ele e o amor de vocês. Quanto a mim, tenho vergonha de ser contado entre eles, pois não sou digno, sendo o último deles e um nascido fora de tempo; mas alcancei misericórdia para ser alguém, se eu alcançar a Deus. O meu espírito os saúda, e também o amor das igrejas que me receberam em nome de Jesus Cristo, não como um simples viajante; pois até as igrejas que não estavam no meu caminho, segundo a carne, me precediam de cidade em cidade.
10. Escrevo-lhes estas coisas de Esmirna, por meio dos efésios, dignos de toda felicitação. Está também comigo, com muitos outros, Croco, um nome muito querido para mim.
Quanto aos que me precederam da Síria a Roma para a glória de Deus, creio que vocês já receberam informações; avisem-lhes que estou perto, pois todos são dignos de Deus e de vocês, e convém que vocês os reconfortem em todas as coisas. Escrevo-lhes isto no nono dia antes das calendas de setembro. Passem bem até o fim, na paciente espera de Jesus Cristo.
Inácio, que também se chama Teóforo, à igreja de Deus Pai e de Jesus Cristo que está em Filadélfia, da Ásia, que alcançou misericórdia e está firmemente estabelecida na concórdia de Deus, e que se alegra sem vacilar na paixão do nosso Senhor e na sua ressurreição, plenamente segura em toda misericórdia; igreja que saúdo no sangue de Jesus Cristo, que é alegria eterna e duradoura, sobretudo se estiverem em unidade com o bispo, com os presbíteros que estão com ele e com os diáconos designados segundo o pensamento de Jesus Cristo, aos quais ele, segundo a sua própria vontade, confirmou e firmou pelo seu Espírito Santo.
1. Descobri que este bispo de vocês exerce o ministério que diz respeito ao bem comum, não por si mesmo nem por meio de homens, nem por vanglória, mas no amor de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo. E estou admirado da sua brandura; o seu silêncio tem mais poder do que a fala dos outros. Pois está afinado com os mandamentos como a lira com as suas cordas. Por isso a minha alma bendiz o seu pensamento voltado para Deus, pois descobri que é virtuoso e perfeito: o seu temperamento imperturbável e sereno, vivendo em toda a brandura de Deus.
2. Como filhos [da luz] da verdade, portanto, fujam da divisão e das más doutrinas; e onde está o pastor, sigam-no ali como ovelhas. Pois muitos lobos de aparência digna de confiança, com prazeres funestos, levam cativos os que correm na corrida de Deus; mas, onde vocês estiverem unidos, eles não terão lugar.
3. Abstenham-se das ervas nocivas, que Jesus Cristo não cultiva, porque não são plantação do Pai. Não que eu tenha encontrado divisão entre vocês, mas sim depuração. Pois todos os que são de Deus e de Jesus Cristo estão com o bispo; e todos os que se arrependerem e entrarem na unidade da Igreja, esses também serão de Deus, para que vivam segundo Jesus Cristo. Não se enganem, meus irmãos: se alguém segue quem provoca cisma, “não herdará o Reino de Deus” (1Co 6.9-10). Se alguém anda em doutrina estranha, não tem comunhão com a paixão.
4. Tenham, pois, o cuidado de celebrar uma só eucaristia (pois há uma só carne de nosso Senhor Jesus Cristo e um só cálice para a união no seu sangue; há um só altar, assim como há um só bispo, com o presbitério e os diáconos, meus conservos), para que tudo o que fizerem, o façam segundo Deus.
5. Meus irmãos, o meu coração transborda inteiramente de amor por vocês; e, alegrando-me sem medida, cuido da segurança de vocês; não eu, mas Jesus Cristo, cujas cadeias carrego e por isso temo ainda mais, porque ainda não fui aperfeiçoado. Mas a oração de vocês me tornará perfeito [para Deus], para que eu alcance a herança em que alcancei misericórdia, refugiando-me no Evangelho como na carne de Jesus, e nos Apóstolos como no presbitério da Igreja. Sim, e amamos também os profetas, porque também eles, na sua pregação, apontaram para o Evangelho, puseram nele a sua esperança e o aguardaram; e, crendo nele, foram salvos na unidade de Jesus Cristo, sendo santos dignos de todo amor e admiração, aprovados por Jesus Cristo e contados no Evangelho da nossa esperança comum.
6. Mas, se alguém lhes propuser o judaísmo, não lhe deem ouvidos; pois é melhor ouvir o cristianismo de um homem circuncidado do que o judaísmo de um incircunciso. Mas, se um ou outro não falarem de Jesus Cristo, eu os considero lápides e sepulcros de mortos, sobre os quais estão escritos apenas nomes de homens. Fujam, portanto, das más artes e das maquinações do príncipe deste mundo, para que não sejam esmagados pelos seus ardis e não enfraqueçam no amor. Mas reúnam-se todos juntos, com coração indiviso. E dou graças ao meu Deus por ter boa consciência no meu trato com vocês, e ninguém pode se gabar, nem em segredo nem abertamente, de que eu tenha sido um peso para alguém, em coisas pequenas ou grandes. E, quanto a todos aqueles entre os quais falei, oro para que não transformem isso num testemunho contra si mesmos.
7. Pois, ainda que alguns quisessem me enganar segundo a carne, o espírito não se engana, porque vem de Deus; pois “sabe de onde vem e para onde vai” (Jo 3.8) e examina as coisas ocultas. Clamei quando estava entre vocês; falei em alta voz, com a própria voz de Deus: “Atendam ao bispo, ao presbitério e aos diáconos.” Houve, porém, quem suspeitasse que eu dizia isso por saber de antemão da divisão de certas pessoas. Mas aquele por quem estou preso é minha testemunha de que não o soube por carne humana; era a pregação do Espírito, que falava assim: “Nada façam sem o bispo; guardem a sua carne como templo de Deus; amem a união; fujam das divisões; sejam imitadores de Jesus Cristo, como ele mesmo o é do seu Pai.”
8. Fiz, pois, a minha parte, como homem dedicado à união. Mas onde há divisão e ira, ali Deus não habita. Ora, o Senhor perdoa a todos os que se arrependem, se, arrependendo-se, voltarem à unidade de Deus e ao conselho do bispo. Confio na graça de Jesus Cristo, que soltará de vocês toda corrente; e exorto vocês: nada façam por espírito de facção, mas segundo o ensino de Cristo. Pois ouvi alguns dizerem: “Se não o encontro nos arquivos, não creio no Evangelho.” E, quando lhes respondi: “Está escrito”, retrucaram: “Essa é a questão.” Mas, para mim, os arquivos são Jesus Cristo; os arquivos invioláveis são a sua cruz, a sua morte, a sua ressurreição e a fé por meio dele; e é nisso que desejo ser justificado pelas orações de vocês.
9. Os sacerdotes também eram bons, mas melhor é o Sumo Sacerdote, a quem foi confiado o Santo dos Santos; pois somente a ele foram confiadas as coisas ocultas de Deus; ele mesmo é a porta do Pai, pela qual entram Abraão, Isaque e Jacó, os Profetas, os Apóstolos e toda a Igreja; todas essas coisas se unem na unidade de Deus. Mas o Evangelho tem uma excelência singular: a vinda do Salvador, nosso Senhor Jesus Cristo, a sua paixão e a sua ressurreição. Pois os amados Profetas, na sua pregação, apontaram para ele; mas o Evangelho é a consumação da imortalidade. Todas as coisas juntas são boas, se vocês crerem por meio do amor.
10. Visto que, em resposta à oração de vocês e à terna compaixão que têm em Cristo Jesus, me foi comunicado que a igreja que está em Antioquia da Síria tem paz, convém que vocês, como igreja de Deus, designem um diácono para ir até lá como embaixador de Deus, para felicitá-los quando estiverem reunidos e glorificar o Nome. Bem-aventurado em Jesus Cristo aquele que for considerado digno de tal ministério; e vocês mesmos serão glorificados. Ora, se vocês quiserem, não lhes é impossível fazer isso pelo nome de Deus, assim como as igrejas mais próximas enviaram bispos, e outras, presbíteros e diáconos.
11. Quanto a Fílon, o diácono da Cilícia, homem de bom testemunho, que agora também me serve na palavra de Deus, juntamente com Reo Agatopo, um eleito que me segue desde a Síria, tendo renunciado a esta vida presente, os mesmos que também dão testemunho de vocês (e eu mesmo dou graças a Deus por vocês, porque os receberam, como espero que o Senhor receba a vocês). Mas que os que os trataram com desonra sejam redimidos pela graça de Jesus Cristo. Saúda-os o amor dos irmãos que estão em Trôade, de onde também lhes escrevo por meio de Burro, que foi enviado comigo pelos efésios e pelos esmirnenses como sinal de honra. O Senhor os honrará, isto é, Jesus Cristo, em quem esperam na carne, na alma e no espírito, pela fé, pelo amor, pela concórdia. Passem bem em Cristo Jesus, nossa esperança comum.
Inácio, que também se chama Teóforo, à igreja de Deus Pai e de Jesus Cristo, o Amado, que foi misericordiosamente dotada de toda graça, cheia de fé e de amor e sem falta de graça alguma, digníssima de reverência e portadora de santos tesouros; à igreja que está em Esmirna, na Ásia, em espírito irrepreensível e na palavra de Deus, saudações abundantes.
1. Dou glória a Jesus Cristo, o Deus que lhes concedeu tamanha sabedoria; pois percebi que vocês estão firmados numa fé inabalável, como que pregados na cruz do Senhor Jesus Cristo, na carne e no espírito, e solidamente fundados no amor, no sangue de Cristo, plenamente convencidos, quanto ao nosso Senhor, de que ele é verdadeiramente da linhagem de Davi segundo a carne, mas Filho de Deus pela vontade e pelo poder divinos; verdadeiramente nascido de uma virgem e batizado por João, para que toda a justiça fosse cumprida por ele; verdadeiramente pregado na carne por nós, sob Pôncio Pilatos e Herodes, o tetrarca (desse fruto somos nós, isto é, da sua bem-aventuradíssima paixão); para que, por sua ressurreição, levantasse um estandarte para todas as eras, para os seus santos e fiéis, quer entre judeus, quer entre gentios, num só corpo da sua igreja.
2. Pois ele sofreu todas essas coisas por nós [para que fôssemos salvos]; e sofreu verdadeiramente, assim como verdadeiramente ressuscitou a si mesmo; não como dizem certos incrédulos, que ele sofreu só em aparência, sendo eles mesmos mera aparência. E conforme pensam, assim lhes acontecerá, pois são sem corpo e semelhantes a demônios.
3. Pois eu sei e creio que ele estava na carne mesmo depois da ressurreição; e quando veio a Pedro e aos que estavam com ele, disse-lhes: Peguem, apalpem-me e vejam que não sou um demônio sem corpo. E logo o tocaram e creram, unidos à sua carne e ao seu sangue. Por isso também desprezaram a morte; mais ainda, mostraram-se superiores à morte. E depois da sua ressurreição ele [tanto] comeu com eles como bebeu com eles, como alguém que está na carne, embora espiritualmente estivesse unido ao Pai.
4. Dou-lhes essas advertências, amados, sabendo que vocês mesmos pensam assim. Mesmo assim, vigio por vocês de antemão, para protegê-los das feras em forma humana, homens que vocês não só não devem receber, mas, se possível, nem sequer encontrar; apenas orem por eles, para ver se de algum modo se arrependem. Isso, na verdade, é difícil; mas Jesus Cristo, a nossa verdadeira vida, tem poder sobre isso.
Pois, se essas coisas foram feitas por nosso Senhor só em aparência, então também eu sou prisioneiro só em aparência. E por que, então, entreguei a mim mesmo à morte, ao fogo, à espada, às feras? Mas perto da espada, perto de Deus; em companhia das feras, em companhia de Deus. Somente que seja em nome de Jesus Cristo, para que soframos juntamente com ele. Suporto todas as coisas, porque ele mesmo, que é homem perfeito, me fortalece.
5. Mas certas pessoas, por ignorância, o negam, ou melhor, foram negadas por ele, pois são advogados da morte mais do que da verdade; não se deixaram persuadir pelas profecias, nem pela lei de Moisés, nem mesmo, até esta hora, pelo evangelho, nem pelos sofrimentos de cada um de nós em particular; pois pensam o mesmo também a nosso respeito.
Pois de que [me] adianta que alguém me elogie, se blasfema contra o meu Senhor, não confessando que ele foi portador de carne? Quem não afirma isso, por isso mesmo o nega por completo, sendo ele próprio portador de um cadáver.
Mas os nomes deles, por serem incrédulos, não achei conveniente registrar por escrito; longe de mim até mesmo lembrar-me deles, até que se arrependam e voltem à paixão, que é a nossa ressurreição.
6. Ninguém se engane. Até os seres celestiais, a glória dos anjos e os principados visíveis e invisíveis, se não crerem no sangue de Cristo [que é Deus], também eles serão julgados. Quem é apto para aceitar, que aceite (Mt 19.12). Que nenhum cargo encha alguém de orgulho; pois a fé e o amor são tudo em todos, e nada se prefere a eles.
Observem, porém, os que têm doutrina estranha a respeito da graça de Jesus Cristo que veio a nós, como são contrários ao pensamento de Deus. Não se importam com o amor, nem com a viúva, nem com o órfão, nem com o aflito, nem com o preso, nem com o faminto ou o sedento. Abstêm-se da eucaristia (ação de graças) e da oração, porque não admitem que a eucaristia seja a carne do nosso Salvador Jesus Cristo, carne que sofreu pelos nossos pecados e que o Pai, em sua bondade, ressuscitou.
7. Assim, os que contradizem o bom dom de Deus perecem em suas disputas. Mas lhes seria proveitoso ter amor, para que também ressuscitem.
Convém, portanto, que vocês se afastem dessas pessoas e não falem delas, nem em particular nem em público, mas deem atenção aos profetas e, especialmente, ao evangelho, no qual a paixão nos é mostrada e a ressurreição é consumada.
8. [Mas] fujam das divisões, como do princípio dos males. Sigam todos o seu bispo, como Jesus Cristo seguia o Pai, e o presbitério, como aos apóstolos; e respeitem os diáconos, como ao mandamento de Deus. Ninguém faça coisa alguma do que diz respeito à igreja à parte do bispo. Tenha-se por eucaristia válida aquela que é celebrada sob o bispo ou por aquele a quem ele a confiar.
Onde quer que o bispo apareça, ali esteja o povo; assim como onde estiver Jesus, ali está a igreja universal. Não é lícito, à parte do bispo, nem batizar nem celebrar o ágape; mas tudo o que ele aprovar, isso também é agradável a Deus, para que tudo o que vocês fizerem seja seguro e válido.
9. É razoável que, daqui em diante, despertemos para a sobriedade, enquanto [ainda] temos tempo para nos arrepender e voltar para Deus. É bom reconhecer a Deus e ao bispo. Quem honra o bispo é honrado por Deus; quem faz alguma coisa sem o conhecimento do bispo presta serviço ao diabo.
Que todas as coisas, portanto, lhes abundem em graça, pois vocês são dignos. Vocês me reconfortaram em tudo, e Jesus Cristo os reconfortará. Na minha ausência e na minha presença, vocês me trataram com carinho. Que Deus os recompense; e, se por causa dele suportarem todas as coisas, chegarão até ele.
10. Fílon e Reo Agatópode, que me seguiram na causa de Deus, vocês fizeram bem em recebê-los como ministros de [Cristo] Deus; eles também dão graças ao Senhor por vocês, porque vocês os reconfortaram de todas as maneiras. Nada disso se perderá para vocês.
O meu espírito se consagra por vocês, como também as minhas cadeias, que vocês não desprezaram nem delas se envergonharam. Nem se envergonhará de vocês aquele que é a fidelidade perfeita, Jesus Cristo.
11. A oração de vocês chegou até a igreja que está em Antioquia da Síria; de lá venho prisioneiro, em cadeias digníssimas de Deus, e saúdo a todos, embora eu não seja digno de pertencer a ela, sendo o último de todos. Pela vontade divina isso me foi concedido, não por concurso meu, mas pela graça de Deus, a qual peço que me seja dada em plenitude, para que, pelas orações de vocês, eu chegue a Deus.
Portanto, para que a obra de vocês seja perfeita tanto na terra como no céu, convém que a igreja de vocês designe, para honra de Deus, um embaixador de Deus, que vá até a Síria e os felicite porque estão em paz, recobraram a sua própria estatura e lhes foi restituído o seu próprio corpo.
Pareceu-me, portanto, coisa conveniente que vocês enviassem um dos seus com uma carta, para que se unisse a eles em dar glória pela calma que, pela vontade de Deus, lhes sobreveio, e porque, pelas orações de vocês, já estavam chegando ao porto. Já que vocês são perfeitos, que também os seus propósitos sejam perfeitos; pois, se desejarem fazer o bem, Deus está pronto a dar os meios.
12. O amor dos irmãos que estão em Trôade os saúda; de lá também lhes escrevo por meio de Burro, que vocês enviaram comigo, juntamente com os efésios, seus irmãos. Ele me reconfortou de todas as maneiras. E eu gostaria que todos o imitassem, pois ele é um modelo do ministério de Deus. A graça divina o recompensará em todas as coisas.
Saúdo o seu piedoso bispo, o seu venerável presbitério [e] os diáconos, meus conservos, e a todos vocês, um por um e em conjunto, em nome de Jesus Cristo, na sua carne e no seu sangue, na sua paixão e ressurreição, que foi tanto carnal como espiritual, na unidade de Deus e de vocês. Graça, misericórdia, paz e paciência a vocês, sempre.
13. Saúdo as famílias dos meus irmãos, com suas esposas e filhos, e as virgens que são chamadas viúvas. Despeço-me de vocês no poder do Pai. Fílon, que está comigo, os saúda.
Saúdo a família de Gávia e peço que ela seja firmada na fé e no amor, tanto da carne como do espírito. Saúdo Alce, nome muito querido para mim, e Dafno, o incomparável, e Eutecno, e a todos pelo nome. Passem bem na graça de Deus.
Inácio, que também se chama Teóforo, a Policarpo, bispo da igreja dos esmirniotas, ou melhor, que tem por seu bispo a Deus Pai e a Jesus Cristo, saudações abundantes.
1. Acolhendo a sua mente piedosa, fundada como que sobre uma rocha inabalável, dou imensa glória por me ter sido concedido ver o seu rosto irrepreensível, do qual eu gostaria de desfrutar em Deus. Exorto você, pela graça de que está revestido, a prosseguir na sua carreira e a exortar a todos para que sejam salvos. Honre o seu cargo com toda diligência, da carne e do espírito. Cuide da união, pois nada há melhor do que ela. Suporte a todos, como o Senhor também suporta você. Tolere a todos em amor, como você já faz.
Entregue-se a orações incessantes. Peça uma sabedoria maior do que a que você tem. Vigie, e guarde o seu espírito da sonolência. Fale a cada um em particular, à maneira de Deus. Carregue as enfermidades de todos, como atleta perfeito. Onde há mais trabalho, há muito ganho.
2. Se você ama os bons discípulos, isso não é mérito seu. Antes, traga à submissão, com mansidão, os mais nocivos. Nem toda ferida se cura com o mesmo unguento. Alivie as dores agudas com compressas.
Seja prudente como a serpente em todas as coisas e sempre simples como a pomba (Mt 10.16). Por isso você é feito de carne e espírito, para que trate com brandura as coisas que aparecem diante dos seus olhos; e, quanto às invisíveis, ore para que lhe sejam reveladas, a fim de que nada lhe falte, mas abunde em todo dom espiritual.
O tempo requer você, como os pilotos requerem os ventos e como o marinheiro sacudido pela tempestade requer um porto, para que ele chegue a Deus. Seja sóbrio, como atleta de Deus. O prêmio é a incorrupção e a vida eterna, das quais você também está convencido. Em todas as coisas estou consagrado a você, eu e as minhas cadeias, que você tratou com carinho.
3. Não deixe que o perturbem aqueles que parecem dignos de crédito e, no entanto, ensinam doutrina estranha. Permaneça firme, como a bigorna quando é golpeada. É próprio de um grande atleta receber golpes e vencer. Mas, sobretudo, devemos suportar todas as coisas por amor de Deus, para que ele também nos suporte.
Seja mais diligente do que é. Observe os tempos. Aguarde aquele que está acima de todo tempo, o Eterno, o Invisível, que por nós se tornou visível; o Impalpável, o Impassível, que por nós sofreu, que por nós suportou tudo de todas as maneiras.
4. Não sejam desamparadas as viúvas. Depois do Senhor, seja você o protetor delas. Nada se faça sem o seu consentimento; nem faça você coisa alguma sem o consentimento de Deus, como de fato não faz. Seja firme.
Que as reuniões se realizem com mais frequência. Procure a todos pelo nome.
Não despreze os escravos, sejam homens ou mulheres. Mas também que eles não se ensoberbeçam; antes, sirvam com mais fidelidade, para a glória de Deus, a fim de alcançarem de Deus uma liberdade melhor. Não desejem ser libertados à custa pública, para que não se tornem escravos da concupiscência.
5. Fuja das artes más, ou melhor, discorra sobre elas. Diga às minhas irmãs que amem o Senhor e se contentem com seus maridos, na carne e no espírito. Do mesmo modo, recomende também aos meus irmãos, em nome de Jesus Cristo, que amem suas esposas, como o Senhor amou a igreja (Ef 5.25).
Se alguém é capaz de permanecer em castidade, em honra da carne do Senhor, permaneça assim sem se gloriar. Se se gloriar, está perdido; e, se isso for conhecido além do bispo, está corrompido. Convém aos homens e também às mulheres, quando se casam, que se unam com o consentimento do bispo, para que o casamento seja segundo o Senhor, e não segundo a concupiscência. Que tudo se faça para a honra de Deus.
6. Deem atenção ao bispo, para que também Deus dê atenção a vocês. Eu me consagro àqueles que estão sujeitos ao bispo, aos presbíteros, aos diáconos. Que me seja concedido ter a minha parte com eles na presença de Deus. Trabalhem juntos uns com os outros, lutem juntos, corram juntos, sofram juntos, deitem-se juntos, levantem-se juntos, como despenseiros, assessores e ministros de Deus.
Agradem ao Comandante em cujo exército vocês servem, de quem também receberão o seu soldo. Que nenhum de vocês seja achado desertor. Que o batismo de vocês permaneça como o seu escudo; a fé, como o seu capacete; o amor, como a sua lança; a paciência, como a sua armadura. Que as suas obras sejam os seus depósitos, para que recebam os haveres que lhes são devidos. Sejam, pois, pacientes uns com os outros, com mansidão, como Deus é com vocês. Que eu possa sempre ter alegria em vocês.
7. Visto que a igreja que está em Antioquia da Síria tem paz, conforme me foi comunicado, graças às orações de vocês, também eu fiquei mais confortado, pois Deus afastou de mim a preocupação; contanto que, pelo sofrimento, eu chegue a Deus, para ser achado discípulo pela intercessão de vocês.
Convém a você, bem-aventuradíssimo Policarpo, reunir um conselho piedoso e eleger alguém entre vocês que seja muito querido e também zeloso, que seja apto para levar o nome de mensageiro de Deus; designá-lo, digo, para que vá à Síria e glorifique o amor zeloso de vocês, para a glória de Deus.
O cristão não tem autoridade sobre si mesmo, mas dedica o seu tempo a Deus. Esta obra é de Deus, e também de vocês, quando a concluírem; pois confio na graça divina que vocês estão prontos para uma boa obra digna de Deus. Conhecendo o fervor da sinceridade de vocês, exortei-os numa carta breve.
8. Como não pude escrever a todas as igrejas, por ter de navegar de repente de Trôade para Neápolis, conforme ordena a vontade divina, você escreverá às igrejas que ficam adiante, como quem possui o pensamento de Deus, para que também elas façam o mesmo: as que puderem enviem mensageiros, e as demais, cartas por meio das pessoas enviadas por você, para que vocês sejam glorificados por um feito sempre memorável; pois isso é digno de você.
Saúdo a todos pelo nome, e especialmente a esposa de Epítropo, com toda a sua casa e a dos seus filhos. Saúdo Átalo, meu amado. Saúdo aquele que for designado para ir à Síria. A graça estará sempre com ele e com Policarpo, que o envia.
Despeço-me de vocês sempre em nosso Deus Jesus Cristo, em quem permaneçam na unidade e sob a supervisão de Deus. Saúdo Alce, nome muito querido para mim. Passem bem no Senhor.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de J. B. Lightfoot (The Apostolic Fathers, Londres, Macmillan, 1891, ed. J. R. Harmer), conferida com as imagens das páginas; os prefácios de Wesley, a partir de A Christian Library, vol. 1 (1749; reimpr. 1755); domínio público. Os originais são gregos: esta é, portanto, tradução de tradução. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando o autor antigo cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.