Os Pais Apostólicos · Inácio de Antioquia
As primeiras cartas de Inácio, bispo de Antioquia, levado preso a Roma: a unidade da igreja em torno dos seus pastores, a verdadeira encarnação de Cristo e a vida em Cristo.
Inácio, que também se chama Teóforo, àquela que foi abençoada em grandeza pela plenitude de Deus Pai; que foi predestinada antes dos séculos a existir para sempre, para uma glória duradoura e imutável, unida e eleita numa paixão verdadeira, pela vontade do Pai e de Jesus Cristo, nosso Deus; à igreja que está em Éfeso [da Ásia], digna de toda felicitação: saudações abundantes em Cristo Jesus e numa alegria irrepreensível.
1. Ao acolher em Deus o [seu] amadíssimo nome, que vocês trazem por direito natural, [num espírito reto e virtuoso,] pela fé e pelo amor em Cristo Jesus, nosso Salvador (sendo imitadores de Deus e tendo os corações inflamados no sangue de Deus, vocês cumpriram perfeitamente a obra que lhes é própria; pois, quando souberam que eu vinha da Síria, preso por causa do Nome e da esperança que temos em comum, e que esperava, pelas orações de vocês, conseguir lutar com as feras em Roma, para que, conseguindo-o, pudesse ser discípulo, vocês se apressaram a visitar-me); visto, então, que em nome de Deus recebi toda a comunidade de vocês na pessoa de Onésimo, cujo amor é inexprimível e que é, além disso, o bispo de vocês [na carne] (e oro para que vocês o amem segundo Jesus Cristo e que todos sejam semelhantes a ele; pois bendito aquele que lhes concedeu, conforme o merecimento de vocês, ter um bispo assim):
2. Quanto ao meu conservo Burro, que pela vontade de Deus é diácono de vocês, abençoado em todas as coisas, oro para que permaneça comigo, para honra de vocês e do seu bispo. E também Croco, digno de Deus e de vocês, a quem recebi como exemplo do amor que vocês me têm, me reconfortou de todos os modos (assim também o Pai de Jesus Cristo o reconforte), juntamente com Onésimo, Burro, Euplo e Frontão; neles vi a todos vocês com os olhos do amor. Que eu sempre tenha alegria em vocês, se for digno disso. Convém, portanto, que vocês glorifiquem de todos os modos a Jesus Cristo, que os glorificou, para que, perfeitamente unidos numa só submissão, submetendo-se ao bispo e ao presbitério, sejam santificados em todas as coisas.
3. Não lhes dou ordens como se eu fosse alguém. Pois, ainda que esteja preso por causa do Nome, ainda não fui aperfeiçoado em Jesus Cristo. [Pois] agora estou começando a ser discípulo e falo a vocês como a meus condiscípulos. Pois eu é que precisaria ser preparado por vocês para a luta, na fé, na admoestação, na perseverança, na longanimidade. Mas, já que o amor não me permite calar a respeito de vocês, por isso me adiantei a exortá-los a que corram em harmonia com o pensamento de Deus. Pois também Jesus Cristo, a nossa vida inseparável, é o pensamento do Pai, assim como os bispos estabelecidos nos confins da terra estão no pensamento de Jesus Cristo.
4. Convém, portanto, que vocês corram em harmonia com o pensamento do bispo, como de fato já fazem. Pois o presbitério de vocês, digno de renome e digno de Deus, está afinado com o bispo como as cordas com a lira. Por isso, na concórdia e no amor harmonioso de vocês, Jesus Cristo é cantado. E vocês, cada um e todos, formem um coro, para que, harmoniosos na concórdia, tomando de Deus o tom, cantem em uníssono, a uma só voz, por meio de Jesus Cristo ao Pai, para que ele os ouça e os reconheça, pelas boas obras, como membros do seu Filho. É, pois, proveitoso para vocês estar numa unidade irrepreensível, para que também participem sempre de Deus.
5. Pois, se eu, em pouco tempo, tive tal convivência com o bispo de vocês, que não foi segundo o modo humano, mas no Espírito, quanto mais felicito a vocês, que estão intimamente unidos a ele como a Igreja a Jesus Cristo e como Jesus Cristo ao Pai, para que todas as coisas estejam em harmonia na unidade. Que ninguém se engane: se alguém não estiver dentro do recinto do altar, fica privado do pão [de Deus]. Pois, se a oração de uma ou duas pessoas tem tanta força, quanto mais a do bispo e de toda a Igreja. Quem, portanto, não vem à assembleia, com isso já mostra o seu orgulho e se separou; pois está escrito: “Deus resiste aos soberbos” (Tg 4.6). Tenhamos, pois, o cuidado de não resistir ao bispo, para que, pela nossa submissão, nos entreguemos a Deus.
6. E, quanto mais alguém vê que o seu bispo guarda silêncio, tanto mais o tema. Pois todo aquele que o Dono da casa envia para administrar a sua própria casa, devemos recebê-lo como àquele que o enviou. É claro, portanto, que devemos olhar para o bispo como para o próprio Senhor. Ora, o próprio Onésimo louva muito a boa ordem de vocês em Deus, porque todos vivem segundo a verdade e nenhuma heresia tem morada entre vocês; pelo contrário, vocês nem sequer dão ouvidos a alguém que fale de outra coisa senão de Jesus Cristo em verdade.
7. Pois alguns costumam, com dolo malicioso, apregoar o Nome por toda parte, enquanto praticam outras coisas indignas de Deus. Esses homens vocês devem evitar como a feras; pois são cães raivosos, que mordem às escondidas; contra eles vocês devem estar de sobreaviso, porque são difíceis de curar. Há um só médico, carnal e espiritual, gerado e não gerado, Deus no homem, verdadeira Vida na morte, Filho de Maria e Filho de Deus, primeiro passível e depois impassível, Jesus Cristo, nosso Senhor.
8. Que ninguém, portanto, engane a vocês, como de fato não são enganados, visto que pertencem inteiramente a Deus. Pois, quando não há em vocês nenhum desejo estabelecido que tenha poder de atormentá-los, então vocês vivem verdadeiramente segundo Deus. Eu me consagro por vocês e me ofereço como oferta pela igreja de vocês, efésios, que é famosa por todos os séculos. Os que são da carne não podem fazer as coisas do Espírito, nem os que são do Espírito as coisas da carne; assim como a fé não pode fazer as coisas da infidelidade, nem a infidelidade as coisas da fé. Pelo contrário, até o que vocês fazem segundo a carne é espiritual, porque fazem todas as coisas em Jesus Cristo.
9. Mas soube que certas pessoas vindas de lá passaram por vocês trazendo uma doutrina má; vocês não as deixaram semear entre vocês e taparam os ouvidos para não receber a semente lançada por elas, visto que vocês são pedras de um templo, preparadas de antemão para o edifício de Deus Pai, içadas às alturas pela máquina de Jesus Cristo, que é a Cruz, usando como corda o Espírito Santo; a fé de vocês é o guindaste, e o amor é o caminho que conduz a Deus. Assim, todos vocês são companheiros de viagem, levando o seu Deus e o seu santuário, o seu Cristo e as suas coisas santas, adornados da cabeça aos pés com os mandamentos de Jesus Cristo. E eu também, tomando parte na festa, tenho a permissão de acompanhá-los por carta e de me alegrar com vocês, porque não põem o seu amor em nada que pertença à vida comum dos homens, mas somente em Deus.
10. E orem também sem cessar pelo resto da humanidade (pois há neles uma esperança de arrependimento), para que encontrem a Deus. Permitam, pois, que aprendam ao menos pelas obras de vocês. Diante das explosões de ira deles, sejam mansos; diante das suas palavras soberbas, sejam humildes; às suas injúrias oponham as suas orações; diante dos seus erros, sejam firmes na fé; diante da sua ferocidade, sejam gentis. E não tenham pressa em imitá-los pagando na mesma moeda. Mostremo-nos irmãos deles pela nossa paciência; mas tenhamos zelo em ser imitadores do Senhor, competindo uns com os outros para ver quem sofrerá a maior injustiça, quem será defraudado, quem será desprezado; para que nenhuma erva do diabo se ache em vocês; mas, com toda pureza e moderação, permaneçam em Cristo Jesus, na carne e no espírito.
11. Estes são os últimos tempos. Daqui em diante, tenhamos reverência; temamos a longanimidade de Deus, para que ela não se converta em juízo contra nós. Pois, ou temamos a ira que há de vir, ou amemos a graça presente, uma ou outra coisa, contanto que sejamos achados em Cristo Jesus para a verdadeira vida. Que nada brilhe aos olhos de vocês fora dele, em quem carrego as minhas cadeias, as minhas pérolas espirituais, nas quais eu gostaria de ressuscitar pela oração de vocês, da qual eu possa sempre participar, para que seja achado na companhia daqueles cristãos de Éfeso que, além disso, sempre estiveram de acordo com os Apóstolos no poder de Jesus Cristo.
12. Sei quem sou e a quem escrevo. Eu sou um condenado; vocês alcançaram misericórdia. Eu estou em perigo; vocês estão firmes. Vocês são a estrada por onde passam os que vão morrer para Deus. Vocês são companheiros de iniciação nos mistérios com Paulo, que foi santificado, que obteve bom testemunho, que é digno de toda felicitação; em cujas pegadas eu gostaria de ser achado andando quando alcançar a Deus; ele, que em cada carta faz menção de vocês em Cristo Jesus.
13. Esforcem-se, portanto, para se reunir com mais frequência para a ação de graças a Deus e para a sua glória. Pois, quando vocês se reúnem com frequência, os poderes de Satanás são derrubados, e a sua obra de destruição se desfaz na concórdia da fé de vocês. Nada há melhor do que a paz, na qual é abolida toda guerra dos seres celestiais e terrenos.
14. Nada disso fica oculto a vocês, se forem perfeitos na fé e no amor para com Jesus Cristo, pois estes são o princípio e o fim da vida: a fé é o princípio, e o amor é o fim; e os dois, unidos, são Deus, enquanto todas as demais coisas os seguem rumo à verdadeira nobreza. Ninguém que professa a fé peca, e ninguém que possui o amor odeia. “A árvore se conhece pelo seu fruto” (Mt 12.33); assim, os que professam ser de Cristo serão reconhecidos pelas suas ações. Pois a Obra agora não é questão de profissão, mas se vê quando alguém é achado no poder da fé até o fim.
15. É melhor calar e ser do que falar e não ser. É bom ensinar, se quem fala pratica. Ora, há um só Mestre, que “falou, e tudo se fez” (Sl 33.9); e até as coisas que ele fez em silêncio são dignas do Pai. Quem possui de verdade a palavra de Jesus é capaz de ouvir também o seu silêncio, para que seja perfeito; para que aja por meio do que fala e seja conhecido por meio do que cala. Nada está oculto ao Senhor; até os nossos segredos estão perto dele. Façamos, pois, todas as coisas como quem sabe que ele habita em nós, para que sejamos seus templos e ele mesmo esteja em nós como nosso Deus. E assim é, e isso se tornará claro diante dos nossos olhos pelo amor que, com razão, lhe temos.
16. Não se enganem, meus irmãos: os corruptores de lares “não herdarão o Reino de Deus” (1Co 6.9-10). Se, pois, os que fazem essas coisas segundo a carne são condenados à morte, quanto mais alguém que, por doutrina má, corrompe a fé de Deus, pela qual Jesus Cristo foi crucificado. Esse homem, tendo-se contaminado, irá para o fogo que não se apaga; e do mesmo modo também quem lhe dá ouvidos.
17. Foi para isto que o Senhor recebeu unguento sobre a cabeça: para soprar incorruptibilidade sobre a Igreja. Não se deixem ungir com o mau cheiro da doutrina do príncipe deste mundo, para que ele não os leve cativos e não os roube da vida que lhes está proposta. E por que não andamos todos com prudência, recebendo o conhecimento de Deus, que é Jesus Cristo? Por que perecemos na nossa insensatez, sem reconhecer o dom da graça que o Senhor verdadeiramente enviou?
18. O meu espírito se fez refugo em favor da Cruz, que é escândalo para os incrédulos, mas para nós é salvação e vida eterna. “Onde está o sábio? Onde está o questionador?” (1Co 1.20). Onde está a jactância dos que se dizem prudentes? Pois o nosso Deus, Jesus, o Cristo, foi concebido no ventre de Maria segundo uma dispensação, da descendência de Davi, mas também do Espírito Santo; e nasceu e foi batizado para purificar a água pela sua paixão.
19. E ficaram ocultos ao príncipe deste mundo a virgindade de Maria e o seu parto, e também a morte do Senhor: três mistérios a serem proclamados em alta voz, que foram realizados no silêncio de Deus. Como, então, foram manifestados aos séculos? Uma estrela brilhou no céu, acima de todas as estrelas; a sua luz era indescritível, e a sua novidade causava espanto; e todos os demais astros, com o sol e a lua, formaram um coro em torno da estrela; mas a própria estrela ultrapassava de longe a todos em brilho; e havia perplexidade para saber de onde vinha aquela aparição estranha, tão diferente deles. Desde então, toda magia e todo encantamento foram desfeitos, a ignorância da maldade desapareceu, o antigo reino foi derrubado, quando Deus se manifestou em forma humana para a “novidade de vida” eterna (Rm 6.4); e aquilo que fora consumado nos conselhos de Deus começou a se cumprir. Por isso todas as coisas se agitaram, porque se empreendia a abolição da morte.
20. Se Jesus Cristo me considerar digno pela oração de vocês, e se for a vontade divina, no segundo escrito que pretendo lhes enviar exporei mais a dispensação de que comecei a falar, a respeito do novo homem, Jesus Cristo, que consiste na fé nele e no amor a ele, na sua paixão e ressurreição, sobretudo se o Senhor me revelar alguma coisa. Reúnam-se em comum, cada um de vocês em particular, um por um, na graça, numa só fé e num só Jesus Cristo, que segundo a carne era da linhagem de Davi, que é Filho do Homem e Filho de Deus, para que obedeçam ao bispo e ao presbitério com o pensamento indiviso, partindo um só pão, que é o remédio da imortalidade e o antídoto para não morrermos, mas vivermos para sempre em Jesus Cristo.
21. Sou dedicado a vocês e àqueles que, para a honra de Deus, vocês enviaram a Esmirna, de onde também lhes escrevo, dando graças ao Senhor, amando Policarpo como amo também a vocês. Lembrem-se de mim, assim como desejo que Jesus Cristo também se lembre de vocês. Orem pela igreja que está na Síria, de onde sou levado prisioneiro para Roma, eu que sou o último dos fiéis de lá, conforme fui considerado digno de ser achado para a honra de Deus. Passem bem em Deus Pai e em Jesus Cristo, nossa esperança comum.
Inácio, que também se chama Teóforo, àquela que foi abençoada pela graça de Deus Pai em Cristo Jesus, nosso Salvador, no qual saúdo a igreja que está em Magnésia, junto ao Meandro, e lhe desejo saudações abundantes em Deus Pai e em Jesus Cristo.
1. Quando soube da excelente ordem do amor de vocês nos caminhos de Deus, alegrei-me e decidi dirigir-me a vocês na fé de Jesus Cristo. Pois, tendo sido considerado digno de trazer um nome muito piedoso, nestas cadeias que carrego canto o louvor das igrejas; e oro para que haja nelas a união da carne e do espírito, que são de Jesus Cristo, nossa vida que não se acaba; a união da fé e do amor, ao qual nada se prefere; e, o que é mais que tudo, a união com Jesus e com o Pai, no qual, se suportarmos com paciência todos os ultrajes do príncipe deste mundo e escaparmos deles, alcançaremos a Deus.
2. Visto, então, que me foi permitido ver vocês na pessoa de Damas, o seu bispo digno de Deus, e dos seus dignos presbíteros Basso e Apolônio, e do meu conservo, o diácono Zócion, de quem eu gostaria de ter alegria, porque está sujeito ao bispo como à graça de Deus e ao presbitério como à lei de Jesus Cristo:
3. Sim, convém também a vocês não abusar da juventude do seu bispo, mas, segundo o poder de Deus Pai, prestar-lhe toda reverência, assim como soube que também os santos presbíteros não se aproveitaram da sua condição aparentemente juvenil, mas lhe dão lugar como a alguém prudente em Deus; e não a ele, mas ao Pai de Jesus Cristo, o Bispo de todos. Para honra, portanto, daquele que os quis, convém que vocês obedeçam sem fingimento. Pois não é tanto a este bispo que se vê que alguém engana, mas é àquele outro, o invisível, que tenta lograr; e, nesse caso, não terá de prestar contas à carne, mas a Deus, que conhece as coisas ocultas.
4. Convém, pois, que não somente sejamos chamados cristãos, mas que também o sejamos; assim como há alguns que têm o nome do bispo nos lábios, mas em tudo agem sem ele. Esses não me parecem ter boa consciência, visto que não se reúnem de modo legítimo, segundo o mandamento.
5. Visto, então, que todas as coisas têm um fim, e estas duas, a vida e a morte, estão postas juntas diante de nós, e cada um irá “para o seu próprio lugar” (At 1.25); pois, assim como há duas moedas, uma de Deus e outra do mundo, e cada uma traz gravada a sua própria efígie, os incrédulos trazem a efígie deste mundo, e os fiéis, no amor, a efígie de Deus Pai por meio de Jesus Cristo; e, se não estivermos dispostos, por livre escolha, a morrer para participar da sua paixão, a vida dele não está em nós:
6. Visto, então, que nas pessoas mencionadas contemplei na fé toda a comunidade de vocês e a abracei, eu os aconselho: esforcem-se por fazer todas as coisas na concórdia de Deus, presidindo o bispo à semelhança de Deus, e os presbíteros à semelhança do conselho dos Apóstolos, juntamente com os diáconos, muito queridos para mim, a quem foi confiado o diaconato de Jesus Cristo, que antes dos séculos estava com o Pai e se manifestou no fim dos tempos. Procurem, pois, todos vocês, a conformidade com Deus e respeitem-se uns aos outros; e ninguém olhe para o próximo segundo a carne, mas amem-se sempre uns aos outros em Jesus Cristo. Que não haja entre vocês nada que tenha o poder de dividi-los, mas estejam unidos ao bispo e aos que presidem, como exemplo e lição de incorruptibilidade.
7. Portanto, assim como o Senhor nada fez sem o Pai, [estando unido a ele,] nem por si mesmo nem por meio dos Apóstolos, assim também vocês nada façam sem o bispo e os presbíteros. E não tentem considerar justo o que fazem à parte, por conta própria; mas haja em comum uma só oração, uma só súplica, um só pensamento, uma só esperança, no amor e na alegria irrepreensível, que é Jesus Cristo, do qual nada há melhor. Apressem-se todos a se reunir como num só templo, que é Deus; como junto a um só altar, que é o único Jesus Cristo, que saiu do único Pai, está com o Único e voltou para o Único.
8. Não se deixem seduzir por doutrinas estranhas nem por fábulas antiquadas, que não têm proveito algum. Pois, se até hoje vivemos segundo o judaísmo, confessamos que não recebemos a graça. Pois os divinos profetas viveram segundo Cristo Jesus. Por isso também foram perseguidos, inspirados pela sua graça, para que os desobedientes fossem plenamente convencidos de que há um só Deus, que se manifestou por meio de Jesus Cristo, seu Filho, que é a sua Palavra procedente do silêncio, e que em todas as coisas agradou àquele que o enviou.
9. Se, pois, os que viviam segundo as práticas antigas chegaram a uma nova esperança, não guardando mais os sábados, mas vivendo segundo o dia do Senhor, no qual também a nossa vida se levantou por meio dele e da sua morte, que alguns negam (mistério pelo qual chegamos à fé e por causa do qual perseveramos com paciência, para sermos achados discípulos de Jesus Cristo, nosso único Mestre), se assim é, como poderemos viver sem ele, se até os profetas, sendo seus discípulos, o esperavam pelo Espírito como seu Mestre? E por isso aquele a quem eles com razão esperavam, quando veio, ressuscitou-os dentre os mortos.
10. Não sejamos, pois, insensíveis à sua bondade. Pois, se ele nos imitasse segundo as nossas obras, estaríamos perdidos. Por isso, já que nos tornamos seus discípulos, aprendamos a viver como convém ao cristianismo. Pois quem é chamado por outro nome além deste não é de Deus. Lancem fora, portanto, o fermento ruim, que envelheceu e azedou, e passem ao novo fermento, que é Jesus Cristo. Sejam salgados nele, para que nenhum de vocês apodreça, pois pelo cheiro vocês serão provados. É absurdo falar de Jesus Cristo e praticar o judaísmo. Pois não foi o cristianismo que creu no judaísmo, mas o judaísmo no cristianismo, no qual toda língua que creu foi reunida para Deus.
11. Digo essas coisas, meus amados, não porque soube que alguns de vocês pensam assim; mas, sendo eu menor do que qualquer um de vocês, quero que estejam de sobreaviso desde já, para não caírem nos laços da doutrina vã, mas estejam plenamente convencidos do nascimento, da paixão e da ressurreição, que aconteceram no tempo do governo de Pôncio Pilatos; pois essas coisas foram verdadeira e certamente realizadas por Jesus Cristo, nossa esperança; e que nenhum de vocês venha a se desviar dessa esperança.
12. Que eu tenha alegria em vocês em todas as coisas, se for digno. Pois, ainda que esteja preso, não sou comparável a nenhum de vocês, que estão livres. Sei que vocês não se ensoberbecem, porque têm Jesus Cristo em vocês mesmos. E, quando os elogio, sei que só sentem mais vergonha, como está escrito: “O justo é acusador de si mesmo” (Pv 18.17).
13. Esforcem-se, portanto, por se firmar nas ordenanças do Senhor e dos Apóstolos, para que “prosperem em tudo o que fizerem” (Sl 1.3) na carne e no espírito, pela fé e pelo amor, no Filho, no Pai e no Espírito, no princípio e no fim, com o seu reverendíssimo bispo, com a coroa espiritual bem tecida do seu presbitério e com os diáconos que andam segundo Deus. Sejam submissos ao bispo e uns aos outros, como Jesus Cristo ao Pai [segundo a carne], e os Apóstolos a Cristo e ao Pai, para que haja união tanto da carne como do espírito.
14. Sabendo que vocês estão cheios de Deus, exortei-os brevemente. Lembrem-se de mim nas suas orações, para que eu alcance a Deus; e lembrem-se também da igreja que está na Síria, da qual não sou digno de ser chamado membro. Pois preciso da oração unânime e do amor de vocês em Deus, para que seja concedido à igreja que está na Síria ser refrigerada pelo orvalho da súplica fervorosa de vocês.
15. Os efésios, que estão em Esmirna, de onde também lhes escrevo, saúdam vocês. Estão aqui comigo para a glória de Deus, como também vocês, e me reconfortaram em todas as coisas, juntamente com Policarpo, bispo dos esmirnenses. Também todas as outras igrejas os saúdam na honra de Jesus Cristo. Passem bem na concórdia de Deus, possuindo um espírito firme, que é Jesus Cristo.
Inácio, que também se chama Teóforo, àquela que é amada por Deus, o Pai de Jesus Cristo; à santa igreja que está em Trales, da Ásia, eleita e digna de Deus, que tem paz na carne e no espírito pela paixão de Jesus Cristo, que é a nossa esperança por meio da nossa ressurreição para ele; igreja que também saúdo na plenitude divina, à maneira apostólica, e à qual desejo saudações abundantes.
1. Soube que vocês têm um ânimo irrepreensível e firme na paciência, não por hábito, mas por natureza, conforme me informou Políbio, o bispo de vocês, que pela vontade de Deus e de Jesus Cristo me visitou em Esmirna; e tanto se alegrou comigo nas minhas cadeias em Cristo Jesus que nele contemplei toda a comunidade de vocês. Tendo, pois, recebido das mãos dele a benevolência de vocês, segundo Deus, dei glória, porque descobri que vocês são imitadores de Deus, como eu tinha sabido.
2. Pois, quando vocês se submetem ao bispo como a Jesus Cristo, fica evidente para mim que vivem não segundo os homens, mas segundo Jesus Cristo, que morreu por nós, para que, crendo na sua morte, vocês escapem da morte. É necessário, portanto, como já é costume entre vocês, que nada façam sem o bispo; e sejam submissos também ao presbitério, como aos Apóstolos de Jesus Cristo, nossa esperança; pois, se vivermos nele, também seremos achados nele. E também os que são diáconos dos mistérios de Jesus Cristo devem agradar a todos de todos os modos. Pois não são diáconos de comidas e bebidas, mas servos da Igreja de Deus. É justo, portanto, que se guardem de toda acusação como do fogo.
3. Da mesma forma, todos respeitem os diáconos como a Jesus Cristo, assim como devem respeitar o bispo, que é figura do Pai, e os presbíteros como o conselho de Deus e o colégio dos Apóstolos. Sem eles não há nem sequer o nome de igreja. E estou convencido de que vocês pensam assim a respeito dessas coisas, pois recebi o exemplo do amor de vocês, e o tenho comigo, na pessoa do seu bispo, cujo próprio porte é uma grande lição, e cuja mansidão é poder: um homem a quem, penso, até os ímpios reverenciam. Porque os amo, poupo-os assim, embora pudesse escrever com mais severidade em favor dele; mas não me julguei competente para isto, que eu, um condenado, lhes desse ordens como se fosse um Apóstolo.
4. Tenho muitos pensamentos profundos em Deus, mas tomo a minha própria medida, para não perecer pela minha jactância. Pois agora devo temer ainda mais e não dar ouvidos aos que querem me envaidecer; pois os que me dizem essas coisas são para mim um açoite. Pois, embora eu deseje sofrer, não sei se sou digno; pois a inveja do diabo não é vista por muitos, mas contra mim trava uma guerra mais feroz. Peço, portanto, mansidão, pela qual o príncipe deste mundo é reduzido a nada.
5. Será que não sou capaz de lhes escrever sobre as coisas celestiais? Mas temo causar-lhes dano, sendo vocês criancinhas. Então, tenham paciência comigo, para que, não podendo recebê-las, vocês não se engasguem. Pois eu mesmo, embora esteja preso e possa compreender as coisas celestiais, as ordens dos anjos e as fileiras dos principados, as coisas visíveis e as invisíveis, nem por isso já sou discípulo. Pois nos faltam muitas coisas, para que não nos falte Deus.
6. Exorto vocês, portanto (não eu, mas o amor de Jesus Cristo): alimentem-se somente de comida cristã e abstenham-se de erva estranha, que é a heresia. Pois esses homens chegam a misturar veneno com Jesus Cristo, impondo-se aos outros com aparência de honestidade, como quem dá uma droga mortal misturada com vinho adoçado com mel, de modo que quem não sabe, sem nada temer, bebe a morte com um prazer funesto.
7. Guardem-se, portanto, desses homens. E assim será, se vocês não se envaidecerem e se forem inseparáveis de [Deus] Jesus Cristo, do bispo e das ordenanças dos Apóstolos. Quem está dentro do santuário é puro; mas quem está fora do santuário não é puro, isto é, quem faz alguma coisa sem o bispo, o presbitério e os diáconos, esse não é puro de consciência.
8. Não que eu tenha sabido de alguma coisa assim entre vocês; mas os guardo desde já, como meus amados, porque prevejo os laços do diabo. Armem-se, portanto, de mansidão e recuperem-se na fé, que é a carne do Senhor, e no amor, que é o sangue de Jesus Cristo. Nenhum de vocês guarde rancor contra o próximo. Não deem ocasião aos gentios, para que, por causa de alguns insensatos, a multidão piedosa não seja blasfemada; pois: “Ai daquele por cuja causa o meu nome é blasfemado em vão diante de alguns.”
9. Sejam surdos, portanto, quando alguém lhes falar à parte de Jesus Cristo, que era da linhagem de Davi, que era filho de Maria, que verdadeiramente nasceu, comeu e bebeu, foi verdadeiramente perseguido sob Pôncio Pilatos, foi verdadeiramente crucificado e morreu, à vista dos que estão no céu, dos que estão na terra e dos que estão debaixo da terra; que, além disso, ressuscitou verdadeiramente dentre os mortos, tendo-o ressuscitado o seu Pai, o qual, da mesma maneira, também ressuscitará a nós, que cremos nele (o seu Pai, digo, nos ressuscitará), em Cristo Jesus, sem o qual não temos a verdadeira vida.
10. Mas se, como dizem alguns que são ímpios, isto é, incrédulos, ele sofreu apenas na aparência, sendo eles mesmos mera aparência, por que estou preso? E por que desejo lutar com as feras? Então morro em vão. Então, de fato, minto contra o Senhor.
11. Fujam, portanto, desses rebentos ruins, que geram um fruto mortal: quem o prova morre imediatamente. Pois esses homens não são plantação do Pai. Se fossem, mostrariam ser ramos da Cruz, e o seu fruto seria imperecível; a Cruz pela qual ele, na sua paixão, nos convida, a nós, que somos seus membros. Ora, não é possível encontrar uma cabeça sem membros, visto que Deus promete a união, e essa união é ele mesmo.
12. Saúdo vocês de Esmirna, juntamente com as igrejas de Deus que estão aqui comigo, homens que me reconfortaram de todos os modos, tanto na carne como no espírito. Exortam-nos as minhas cadeias, que carrego por causa de Jesus Cristo, pedindo para alcançar a Deus: permaneçam na concórdia de vocês e na oração uns com os outros. Pois convém a cada um de vocês, e especialmente aos presbíteros, reconfortar a alma do bispo, para honra do Pai, [e para honra] de Jesus Cristo e dos Apóstolos. Oro para que vocês me ouçam com amor, para que eu não seja, por ter escrito assim, um testemunho contra vocês. E orem também por mim, que preciso do amor de vocês na misericórdia de Deus, para que eu seja considerado digno da sorte que anseio alcançar, para que não seja achado reprovado.
13. Saúda-os o amor dos esmirnenses e dos efésios. Lembrem-se nas suas orações da igreja que está na Síria, da qual [também] não sou digno de ser chamado membro, sendo o último deles. Passem bem em Jesus Cristo, submetendo-se ao bispo como ao mandamento, e igualmente ao presbitério; e cada um de vocês ame aos outros com coração indiviso. O meu espírito se oferece por vocês, não só agora, mas também quando eu alcançar a Deus. Pois ainda estou em perigo; mas o Pai é fiel em Jesus Cristo para cumprir o meu pedido e o de vocês. Que sejamos achados irrepreensíveis nele.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de J. B. Lightfoot (The Apostolic Fathers, Londres, Macmillan, 1891, ed. J. R. Harmer), conferida com as imagens das páginas; os prefácios de Wesley, a partir de A Christian Library, vol. 1 (1749; reimpr. 1755); domínio público. Os originais são gregos: esta é, portanto, tradução de tradução. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando o autor antigo cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.