Os Pais Apostólicos · Homilia antiga

A chamada Segunda Carta de Clemente

Uma das mais antigas pregações cristãs conservadas depois do Novo Testamento: um chamado ao arrependimento, à pureza e à firmeza na esperança.

Uma antiga homilia de autor desconhecido, comumente chamada segunda epístola de Clemente

1. Irmãos, devemos pensar em Jesus Cristo como pensamos em Deus, como no Juiz dos vivos e dos mortos. E não devemos ter pensamentos mesquinhos a respeito da nossa salvação, pois, quando pensamos mesquinhamente a respeito dele, também esperamos receber coisas mesquinhas. E os que ouvem como se se tratasse de coisas pequenas cometem erro; e nós mesmos erramos quando não sabemos de onde, por quem e para que lugar fomos chamados, e quantas coisas Jesus Cristo aceitou sofrer por nossa causa. Que retribuição, então, daremos a ele? Ou que fruto digno do dom que ele mesmo nos deu? E quantas misericórdias lhe devemos! Pois ele nos concedeu a luz; falou conosco como um pai fala aos filhos; salvou-nos quando estávamos perecendo. Que louvor, então, lhe daremos? Ou que pagamento em retribuição pelo que recebemos? Nós, que éramos aleijados no entendimento e adorávamos paus e pedras, ouro, prata e bronze, obras de homens; e toda a nossa vida não era outra coisa senão morte. Enquanto estávamos assim envoltos em trevas e oprimidos por essa névoa espessa na nossa visão, recobramos a vista, despindo, pela vontade dele, a nuvem que nos envolvia. Pois ele teve misericórdia de nós e, na sua compaixão, nos salvou, tendo visto em nós muito erro e perdição, quando não tínhamos nenhuma esperança de salvação, a não ser a que vinha dele. Pois ele nos chamou quando não existíamos e quis que, do não ser, passássemos a ser.

2. “Alegra-te, ó estéril, que não dás à luz; rompe em brados e clama, tu que não sentes as dores de parto; porque mais são os filhos da desamparada do que os da que tem marido” (Is 54.1). Quando disse: “Alegra-te, ó estéril, que não dás à luz”, falou de nós, pois a nossa Igreja era estéril antes que lhe fossem dados filhos. E quando disse: “Clama, tu que não sentes as dores de parto”, quer dizer isto: não nos cansemos, como as mulheres que estão de parto, de oferecer com simplicidade as nossas orações a Deus. E ainda, quando disse: “Porque mais são os filhos da desamparada do que os da que tem marido”, falou assim porque o nosso povo parecia desamparado e abandonado por Deus, ao passo que agora, tendo crido, nos tornamos mais numerosos do que aqueles que pareciam ter Deus. E outra Escritura diz ainda: “Pois não vim chamar justos, e sim pecadores” (Mt 9.13). Quer dizer isto: que é justo salvar os que estão perecendo. Pois esta é, de fato, uma obra grande e maravilhosa: firmar, não as coisas que estão de pé, mas as que estão caindo. Assim também Cristo quis salvar o que estava perecendo. E salvou a muitos, vindo e chamando a nós, que já estávamos perecendo.

3. Visto, então, que ele nos concedeu tão grande misericórdia: primeiro, que nós, os vivos, não sacrificamos a esses deuses mortos nem os adoramos, mas por meio dele conhecemos o Pai da verdade. Que outra coisa é esse conhecimento para com ele, senão não negar aquele por meio de quem o conhecemos? Sim, ele mesmo diz: “Quem me confessar, eu o confessarei diante do Pai” (Mt 10.32). Esta é, pois, a nossa recompensa, se de fato confessarmos aquele por meio de quem fomos salvos. Mas em que o confessamos? Quando fazemos o que ele diz e não desobedecemos aos seus mandamentos, e o honramos não só com os lábios, mas de todo o coração e de todo o entendimento. Pois ele diz também em Isaías: “Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Is 29.13).

4. Não nos limitemos, pois, a chamá-lo Senhor, porque isso não nos salvará. Pois ele diz: “Nem todo o que me diz: ‘Senhor, Senhor!’ será salvo, mas aquele que pratica a justiça” (Mt 7.21). Portanto, irmãos, confessemo-lo pelas nossas obras: amando-nos uns aos outros, não cometendo adultério, não falando mal uns dos outros, não tendo inveja, mas sendo moderados, misericordiosos, bondosos. Devemos ter compaixão uns dos outros e não ser avarentos. Por essas obras o confessemos, e não pelas contrárias. E não devemos temer mais aos homens do que a Deus. Por isso, se vocês fizerem essas coisas, o Senhor disse: “Ainda que vocês estejam reunidos comigo no meu seio, se não cumprirem os meus mandamentos, eu os lançarei fora e lhes direi: Afastem-se de mim; não sei de onde vocês são, praticantes da iniquidade.”

5. Por isso, irmãos, deixemos a nossa peregrinação neste mundo e façamos a vontade daquele que nos chamou, e não tenhamos medo de partir deste mundo. Pois o Senhor diz: “Vocês serão como cordeiros no meio de lobos” (Lc 10.3). Pedro, porém, respondeu e lhe disse: “E se os lobos despedaçarem os cordeiros?” Jesus disse a Pedro: “Os cordeiros não precisam temer os lobos depois de mortos; e vocês também não temam os que os matam e nada mais podem lhes fazer; temam, porém, aquele que, depois que vocês estiverem mortos, tem poder sobre a alma e o corpo, para lançá-los na geena de fogo.” E vocês sabem, irmãos, que a peregrinação desta carne neste mundo é mesquinha e breve, mas a promessa de Cristo é grande e maravilhosa: o descanso do reino que há de vir e da vida eterna. Que podemos, então, fazer para alcançar essas coisas, senão andar em santidade e justiça, considerar alheias a nós as coisas deste mundo e não desejá-las? Pois, quando desejamos obter essas coisas, nos desviamos do caminho justo.

6. Mas o Senhor diz: “Nenhum servo pode servir a dois senhores” (Lc 16.13). Se quisermos servir a Deus e a Mamom, isso não nos traz proveito. “De que adiantará uma pessoa ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mt 16.26). Ora, este século e o vindouro são dois inimigos. Um fala de adultério, impureza, avareza e engano; o outro se despede dessas coisas. Não podemos, portanto, ser amigos dos dois, mas devemos nos despedir de um e manter companhia com o outro. Consideremos que é melhor odiar as coisas daqui, porque são mesquinhas, breves e perecíveis, e amar as de lá, porque são boas e imperecíveis. Pois, se fizermos a vontade de Cristo, encontraremos descanso; do contrário, nada nos livrará do castigo eterno, se desobedecermos aos seus mandamentos. E a Escritura também diz em Ezequiel: “Ainda que Noé, Jó e Daniel se levantassem, não livrariam os seus filhos” no cativeiro (Ez 14.14-20). Mas, se nem mesmo homens tão justos como esses podem, pelas suas obras de justiça, livrar os próprios filhos, com que confiança nós, se não guardarmos puro e imaculado o nosso batismo, entraremos no reino de Deus? Ou quem será o nosso advogado, se não formos achados com obras santas e justas?

7. Portanto, meus irmãos, lutemos, sabendo que a competição está próxima e que, embora muitos acorram às competições corruptíveis, nem todos são coroados, mas apenas os que se esforçaram muito e lutaram com bravura. Lutemos, pois, para que todos sejamos coroados. Por isso, corramos na pista reta, a competição incorruptível. Acorramos a ela em multidão e lutemos, para que também sejamos coroados. E, se não pudermos todos ser coroados, cheguemos ao menos perto da coroa. Devemos saber que quem compete na competição corruptível, se for apanhado em fraude, é primeiro açoitado e depois retirado e expulso do estádio. Que lhes parece? Que se fará àquele que cometeu fraude na competição da incorruptibilidade? Pois, a respeito dos que não guardaram o selo, ele diz: “O seu verme não morrerá, e o seu fogo não se apagará, e eles serão um espetáculo para toda carne” (Is 66.24).

8. Enquanto estamos na terra, portanto, arrependamo-nos, pois somos barro na mão do artífice. Assim como o oleiro, quando está fazendo um vaso e este se entorta ou se quebra nas suas mãos, o molda de novo, mas, uma vez que o tenha posto no forno ardente, já não o pode consertar, assim também nós, enquanto estamos neste mundo, arrependamo-nos de todo o coração das coisas más que fizemos na carne, para que sejamos salvos pelo Senhor enquanto ainda temos tempo para o arrependimento. Pois, depois que tivermos partido do mundo, já não poderemos lá confessar nem nos arrepender. Por isso, irmãos, se tivermos feito a vontade do Pai, guardado pura a carne e observado os mandamentos do Senhor, receberemos a vida eterna. Pois o Senhor diz no Evangelho: “Se vocês não guardaram o pouco, quem lhes dará o muito? Pois eu lhes digo que quem é fiel no mínimo também é fiel no muito” (Lc 16.10-12). Ele quer dizer, então, isto: guardem pura a carne e imaculado o selo, para que recebamos a vida.

9. E nenhum de vocês diga que esta carne não é julgada nem ressuscita. Entendam: em que vocês foram salvos? Em que recobraram a vista, senão estando nesta carne? Devemos, portanto, guardar a carne como templo de Deus. Pois, assim como vocês foram chamados na carne, também virão na carne. Se Cristo, o Senhor que nos salvou, sendo primeiro espírito, se fez carne e assim nos chamou, do mesmo modo também nós receberemos nesta carne a nossa recompensa. Amemo-nos, pois, uns aos outros, para que todos cheguemos ao reino de Deus. Enquanto temos tempo de ser curados, entreguemo-nos nas mãos de Deus, o médico, dando-lhe uma retribuição. Que retribuição? O arrependimento de um coração sincero. Pois ele discerne de antemão todas as coisas e conhece o que há no nosso coração. Demos-lhe, portanto, louvor eterno, não só dos lábios, mas também do coração, para que ele nos receba como filhos. Pois o Senhor também disse: “Meus irmãos são estes, os que fazem a vontade de meu Pai” (Mt 12.50).

10. Por isso, meus irmãos, façamos a vontade do Pai que nos chamou, para que vivamos; busquemos antes a virtude e abandonemos o vício, precursor dos nossos pecados, e fujamos da impiedade, para que os males não nos alcancem. Pois, se formos diligentes em fazer o bem, a paz nos seguirá. Por esta razão o homem é incapaz de †alcançar a felicidade†, visto que eles dão lugar aos temores humanos, preferindo o gozo daqui à promessa que há de vir. Pois não sabem quão grande tormento traz o gozo daqui e que deleite traz a promessa que há de vir. E, se de fato fizessem essas coisas somente eles, ainda seria tolerável; mas agora continuam ensinando o mal a almas inocentes, sem saber que terão a sua condenação dobrada, tanto eles quanto os seus ouvintes.

11. Sirvamos, pois, a Deus com coração puro, e seremos justos; mas, se não o servirmos, por não crermos na promessa de Deus, seremos miseráveis. Pois a palavra profética também diz: “Miseráveis são os de ânimo dobre, que duvidam no coração e dizem: Estas coisas ouvimos há muito tempo, também no tempo dos nossos pais, mas esperamos dia após dia e nada disso vimos. Insensatos! Comparem-se a uma árvore; tomem uma videira. Primeiro ela perde as folhas, depois vem o broto, em seguida o fruto verde e, por fim, a uva madura. Assim também o meu povo teve tumultos e aflições, mas depois receberá coisas boas.” Por isso, meus irmãos, não sejamos de ânimo dobre, mas perseveremos com paciência na esperança, para que também alcancemos a nossa recompensa. “Pois fiel é aquele que prometeu” (Hb 10.23) pagar a cada um a retribuição das suas obras. Se, portanto, tivermos praticado a justiça diante de Deus, entraremos no seu reino e receberemos as promessas que “ouvidos não ouviram, nem olhos viram, nem jamais penetraram em coração humano” (1Co 2.9).

12. Esperemos, pois, a cada hora o reino de Deus em amor e justiça, visto que não sabemos o dia da manifestação de Deus. Pois o próprio Senhor, ao ser interrogado por alguém sobre quando viria o seu reino, disse: “Quando os dois forem um, e o de fora como o de dentro, e o macho com a fêmea, nem macho nem fêmea.” Ora, os dois são um quando falamos a verdade entre nós e, em dois corpos, houver uma só alma, sem fingimento. E por “o de fora como o de dentro” ele quer dizer isto: por “o de dentro” entende a alma e por “o de fora”, o corpo. Portanto, assim como o teu corpo é visível, assim também a tua alma se manifeste nas suas boas obras. E por “o macho com a fêmea, nem macho nem fêmea” ele quer dizer isto: que um irmão, ao ver uma irmã, não pense nela como mulher, e que uma irmã, ao ver um irmão, não pense nele como homem. “Se vocês fizerem essas coisas”, diz ele, “virá o reino de meu Pai.”

13. Portanto, irmãos, arrependamo-nos sem demora. Sejamos sóbrios para o bem, pois estamos cheios de muita insensatez e maldade. Apaguemos de nós os pecados passados, arrependamo-nos de toda a alma e sejamos salvos. E não sejamos achados bajuladores de homens. Nem desejemos agradar somente uns aos outros, mas também aos de fora, pela nossa justiça, para que o Nome não seja blasfemado por nossa causa. Pois o Senhor diz: “Por toda parte o meu nome é blasfemado entre todos os gentios” (Is 52.5); e ainda: “Ai daquele por cuja causa o meu nome é blasfemado.” Em que é blasfemado? Em que vocês não fazem o que eu desejo. Pois os gentios, quando ouvem da nossa boca os oráculos de Deus, se maravilham da sua beleza e grandeza; depois, quando descobrem que as nossas obras não são dignas das palavras que dizemos, passam logo à blasfêmia, dizendo que se trata de uma fábula e de um engano. Pois, quando ouvem de nós que Deus diz: “Não há mérito para vocês se amarem os que os amam; mas há mérito se amarem os seus inimigos e os que os odeiam” (Lc 6.32-35), quando ouvem essas coisas, digo, maravilham-se da sua extraordinária bondade; mas, quando veem que nós não só não amamos os que nos odeiam, mas nem mesmo os que nos amam, zombam de nós, e o Nome é blasfemado.

14. Por isso, irmãos, se fizermos a vontade de Deus, nosso Pai, seremos da primeira Igreja, a espiritual, que foi criada antes do sol e da lua; mas, se não fizermos a vontade do Senhor, seremos da Escritura que diz: “A minha casa se tornou um covil de salteadores” (Jr 7.11). Escolhamos, pois, antes ser da Igreja da vida, para que sejamos salvos. E não suponho que vocês ignorem que a Igreja viva é o corpo de Cristo, pois a Escritura diz: “Deus fez o ser humano, homem e mulher” (Gn 1.27). O homem é Cristo, e a mulher é a Igreja. E os Livros e os Apóstolos declaram claramente que a Igreja não existe só agora, mas desde o princípio; pois ela era espiritual, como também o nosso Jesus era espiritual, mas se manifestou nos últimos dias para nos salvar. Ora, a Igreja, sendo espiritual, manifestou-se na carne de Cristo, mostrando-nos com isso que, se algum de nós a guardar na carne e não a contaminar, a receberá de volta no Espírito Santo; pois esta carne é a contrapartida e a cópia do espírito. Ninguém, portanto, que tiver contaminado a cópia receberá como sua parte o original. É isto, pois, o que ele quer dizer, irmãos: guardem a carne, para que participem do espírito. Mas, se dissermos que a carne é a Igreja e o espírito é Cristo, então quem tiver tratado a carne de modo devasso terá tratado a Igreja de modo devasso. Esse, portanto, não participará do espírito, que é Cristo. Tão excelentes são a vida e a imortalidade que esta carne pode receber como sua parte, se o Espírito Santo estiver unido a ela. Ninguém pode declarar nem dizer “as coisas que o Senhor preparou” para os seus eleitos (1Co 2.9).

15. Ora, não penso ter dado um conselho de pouco valor a respeito da continência; e quem o puser em prática não se arrependerá, mas salvará a si mesmo e a mim, seu conselheiro. Pois não é pequena recompensa converter uma alma errante e que está perecendo, para que seja salva. Esta é a retribuição que podemos pagar a Deus, que nos criou: que quem fala e quem ouve falem e ouçam com fé e amor. Permaneçamos, pois, nas coisas em que cremos, em justiça e santidade, para que possamos pedir com confiança a Deus, que diz: “Enquanto ainda estiveres falando, eu direi: Eis-me aqui” (Is 58.9). Pois esta palavra é sinal de uma grande promessa, porque o Senhor diz de si mesmo que está mais pronto a dar do que quem pede está a pedir. Visto, então, que somos participantes de tão grande bondade, não regateemos a nós mesmos a conquista de tantos bens. Pois, na mesma medida em que é grande o prazer que essas palavras trazem aos que as cumpriram, assim também é grande a condenação que trazem aos que desobedeceram.

16. Portanto, irmãos, visto que encontramos uma oportunidade nada pequena de arrependimento, já que temos tempo, voltemo-nos para Deus, que nos chamou, enquanto ainda temos quem nos receba. Pois, se nos despedirmos desses prazeres e vencermos a nossa alma, recusando-nos a satisfazer os seus maus desejos, seremos participantes da misericórdia de Jesus. Mas vocês sabem que o dia do juízo já vem “como uma fornalha ardente” (Ml 4.1), e “os poderes dos céus se derreterão” (Is 34.4), e toda a terra, como chumbo que se derrete no fogo; e então aparecerão as obras secretas e as públicas dos homens. A esmola, portanto, é coisa boa, assim como o arrependimento do pecado. O jejum é melhor que a oração, mas a esmola é melhor que ambos. E “o amor cobre a multidão de pecados” (1Pe 4.8), mas a oração feita de boa consciência livra da morte. Bem-aventurado todo aquele que for achado cheio dessas coisas. Pois a esmola alivia o fardo do pecado.

17. Arrependamo-nos, pois, de todo o coração, para que nenhum de nós pereça pelo caminho. Pois, se recebemos ordens de fazer também disto a nossa tarefa, arrancar os homens dos ídolos e instruí-los, quanto mais é errado que pereça uma alma que já conhece a Deus! Ajudemo-nos, portanto, uns aos outros, para que também conduzamos para o alto os fracos no que diz respeito ao bem, a fim de que todos sejamos salvos; e convertamos e admoestemos uns aos outros. E não pensemos em prestar atenção e crer somente agora, enquanto somos admoestados pelos presbíteros; mas também, quando tivermos voltado para casa, lembremo-nos dos mandamentos do Senhor e não nos deixemos arrastar para o outro lado pelos desejos mundanos; antes, vindo aqui com mais frequência, esforcemo-nos para avançar nos mandamentos do Senhor, para que todos, tendo o mesmo sentimento, sejamos reunidos para a vida. Pois o Senhor disse: “Venho para reunir todas as nações, tribos e línguas” (Is 66.18). Com isso ele fala do dia da sua manifestação, quando virá e nos resgatará, cada um segundo as suas obras. “E os incrédulos verão a sua glória” (Is 66.18) e o seu poder, e ficarão espantados ao ver o reino do mundo entregue a Jesus, dizendo: “Ai de nós, porque eras tu, e não o sabíamos, e não cremos, e não obedecemos aos presbíteros quando nos falavam da nossa salvação.” E “o seu verme não morrerá, e o seu fogo não se apagará, e eles serão um espetáculo para toda carne” (Is 66.24). Ele fala daquele dia do juízo, quando os homens verão os que, entre nós, viveram de modo ímpio e falsearam os mandamentos de Jesus Cristo. Mas os justos, que praticaram o bem, suportaram tormentos e odiaram os prazeres da alma, quando virem os que se desviaram e negaram Jesus por palavras ou por obras sendo castigados com tormentos terríveis em fogo que não se apaga, darão glória a Deus, dizendo: “Haverá esperança para quem serviu a Deus de todo o coração.”

18. Sejamos, pois, também nós achados entre os que dão graças, entre os que serviram a Deus, e não entre os ímpios que são julgados. Pois eu mesmo, sendo um pecador completo e ainda não livre da tentação, mas ainda no meio das máquinas de guerra do diabo, procuro com diligência seguir a justiça, para que consiga ao menos chegar perto dela, temendo o juízo vindouro.

19. Portanto, irmãos e irmãs, depois de ouvido o Deus da verdade, leio para vocês uma exortação, a fim de que prestem atenção ao que está escrito, para que salvem tanto a si mesmos como aquele que lê no meio de vocês. Pois lhes peço, como recompensa, que se arrependam de todo o coração, dando a si mesmos salvação e vida. Fazendo isso, estabeleceremos uma meta para todos os jovens que desejam empenhar-se no estudo da piedade e da bondade de Deus. E não nos aborreçamos nem nos irritemos, insensatos que somos, sempre que alguém nos admoesta e nos desvia da injustiça para a justiça. Pois às vezes, quando praticamos o mal, não o percebemos por causa do ânimo dobre e da incredulidade que há no nosso peito, e temos o entendimento obscurecido pelos nossos desejos vãos. Pratiquemos, pois, a justiça, para que sejamos salvos até o fim. Bem-aventurados os que obedecem a estas ordenanças. Ainda que sofram aflição por pouco tempo neste mundo, colherão o fruto imortal da ressurreição. Que o piedoso, portanto, não se entristeça se for infeliz nos tempos presentes: um tempo bem-aventurado o aguarda. Ele viverá de novo no céu com os pais e se alegrará por uma eternidade sem tristeza.

20. Tampouco se deixem perturbar por verem os injustos possuírem riquezas e os servos de Deus passarem necessidade. Tenhamos fé, irmãos e irmãs. Estamos competindo na arena de um Deus vivo e somos treinados pela vida presente, para que sejamos coroados com a futura. Nenhum justo colheu fruto depressa, mas o espera. Pois, se Deus pagasse depressa a recompensa dos justos, logo estaríamos nos exercitando no comércio e não na piedade; pareceríamos justos, embora estivéssemos buscando não o que é piedoso, mas o que é lucrativo. E é por isso que o juízo divino alcança o espírito que não é justo e o carrega de correntes.

Ao único Deus invisível, o Pai da verdade, que nos enviou o Salvador e Príncipe da imortalidade, por meio de quem também nos manifestou a verdade e a vida celestial, a ele seja a glória para todo o sempre. Amém.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de J. B. Lightfoot (The Apostolic Fathers, Londres, Macmillan, 1891, ed. J. R. Harmer), conferida com as imagens das páginas; os prefácios de Wesley, a partir de A Christian Library, vol. 1 (1749; reimpr. 1755); domínio público. Os originais são gregos: esta é, portanto, tradução de tradução. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando o autor antigo cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.