As Apologias de Justino Mártir · Primeira Apologia
Justino se dirige ao imperador e pede justiça: que os cristãos sejam julgados pelos seus atos, e não pelo nome; a acusação de ateísmo, a vida dos cristãos e o ensino de Cristo.
Capítulo I. Dedicatória
Ao imperador Tito Élio Adriano Antonino Pio Augusto César, a seu filho Veríssimo, o filósofo, e a Lúcio, o filósofo, filho natural de César e filho adotivo de Pio, amante do saber, ao sacro senado e a todo o povo dos romanos, eu, Justino, filho de Prisco e neto de Báquio, naturais de Flávia Neápolis, na Palestina, apresento esta exposição e petição em favor dos homens de todas as nações que são injustamente odiados e caluniados sem motivo, sendo eu mesmo um deles.
A razão manda que os verdadeiramente piedosos e filósofos honrem e amem somente o que é verdadeiro, recusando-se a seguir as opiniões herdadas,1 se estas não tiverem valor. Pois a razão sadia não apenas manda que recusemos a orientação dos que fizeram ou ensinaram algo errado, mas também impõe ao amante da verdade que escolha, de todos os modos, e ainda que seja ameaçado de morte, acima da sua própria vida, fazer e dizer o que é justo. Vocês, portanto, que são chamados piedosos e filósofos, guardiões da justiça e amantes do saber, prestem bem atenção e escutem a minha exposição; e, se de fato são assim, isso ficará manifesto. Pois não viemos para lisonjeá-los com este escrito, nem para agradá-los com a nossa exposição, mas para pedir que julguem depois de uma investigação exata e minuciosa, sem se deixarem levar pelo preconceito ou pelo desejo de agradar a homens supersticiosos, nem arrastar por impulso irracional ou por boatos maldosos que há muito circulam, a ponto de pronunciar uma sentença que se voltará contra vocês mesmos. Quanto a nós, entendemos que nenhum mal nos pode ser feito, a não ser que sejamos convencidos de malfeitores ou provados homens perversos; e vocês, vocês podem nos matar, mas não nos fazer mal.
Mas, para que ninguém pense que estas são palavras insensatas e temerárias, pedimos que as acusações contra os cristãos sejam investigadas e que, se forem comprovadas, eles sejam punidos como merecem; [ou melhor, nós mesmos os puniremos.]2 Mas, se ninguém pode nos convencer de coisa alguma, a verdadeira razão proíbe que vocês, por causa de um boato maldoso, cometam injustiça contra homens inocentes, e, na verdade, antes contra vocês mesmos, que julgam conveniente dirigir os negócios não pelo juízo, mas pela paixão. E toda pessoa sensata declarará que este é o único acordo justo e equitativo: que os súditos prestem conta irrepreensível da sua própria vida e doutrina, e que, por outro lado, os governantes deem a sua sentença em obediência não à violência e à tirania, mas à piedade e à filosofia. Pois assim tanto os governantes como os governados colheriam benefício. Pois até um dos antigos disse em algum lugar: “Se tanto os governantes como os governados não filosofarem, é impossível tornar felizes as cidades”.3 É tarefa nossa, portanto, oferecer a todos a oportunidade de examinar a nossa vida e os nossos ensinos, para que, por causa dos que costumam ignorar o que nos diz respeito, não incorramos nós mesmos na pena que lhes cabe pela cegueira da mente;4 e é dever de vocês, quando nos ouvirem, mostrar-se, como a razão exige, bons juízes. Pois, se depois de conhecerem a verdade não fizerem o que é justo, ficarão sem desculpa diante de Deus.
Pela simples aplicação de um nome nada se decide, nem de bom nem de mau, à parte das ações que o nome implica; e, de fato, a julgar pelo nome de que somos acusados, somos gente excelentíssima.5 Mas, assim como não julgamos justo pedir absolvição por causa do nome, se formos convencidos de malfeitores, assim também, se se verificar que não cometemos delito algum, nem no fato de nos chamarmos assim nem na nossa conduta de cidadãos, cabe a vocês guardar-se com todo o empenho de incorrer em justo castigo, punindo injustamente os que não foram convencidos de culpa. Pois de um nome não poderia nascer razoavelmente nem louvor nem castigo, a não ser que se prove alguma ação excelente ou vil. Os acusados dentre vocês, vocês não os punem antes que sejam convencidos; mas, no nosso caso, recebem o nome como prova contra nós, e isso embora, no que depende do nome, devessem antes punir os nossos acusadores. Pois somos acusados de ser cristãos, e odiar o que é excelente (chrestiano) é injusto. Além disso, se algum dos acusados nega o nome e diz que não é cristão, vocês o absolvem, por não terem prova contra ele como malfeitor; mas, se alguém confessa que é cristão, vocês o punem por causa dessa confissão. A justiça exige que investiguem a vida tanto de quem confessa como de quem nega, para que, pelas suas obras, fique evidente que espécie de homem é cada um. Pois, assim como alguns, ensinados pelo Mestre, Cristo, a não negá-lo, dão ânimo aos outros quando são interrogados, assim também, com toda a probabilidade, os que levam vida perversa dão ocasião aos que, sem reflexão, se encarregam de acusar todos os cristãos de impiedade e maldade. E também isso não é correto. Pois também da filosofia alguns tomam o nome e o traje sem fazer nada digno da sua profissão; e vocês sabem bem que aqueles dentre os antigos cujas opiniões e ensinos eram inteiramente diversos são, ainda assim, chamados todos pelo mesmo nome de filósofos. E alguns deles ensinaram o ateísmo; e os poetas que floresceram entre vocês fazem rir com as torpezas de Júpiter com os seus próprios filhos. E os que agora adotam semelhante ensino não são reprimidos por vocês; pelo contrário, vocês concedem prêmios e honras aos que insultam os deuses com belas palavras.
Por que, então, há de ser assim? No nosso caso, nós que nos comprometemos a não praticar nenhuma maldade nem a sustentar essas opiniões ateias, vocês não examinam as acusações feitas contra nós; mas, cedendo a uma paixão irracional e à instigação de demônios malignos, nos punem sem reflexão nem julgamento. Pois a verdade será dita: desde antigamente esses demônios malignos, produzindo aparições de si mesmos, tanto corromperam mulheres como perverteram meninos, e mostraram aos homens visões tão terríveis que os que não usavam a razão para julgar as ações praticadas ficaram tomados de terror; e, arrastados pelo medo e sem saber que aqueles eram demônios, chamaram-nos deuses e deram a cada um o nome que cada demônio escolhera para si. E quando Sócrates, pela verdadeira razão e pelo exame, procurou trazer essas coisas à luz e livrar os homens dos demônios, os próprios demônios, por meio de homens que se alegravam na iniquidade, tramaram a sua morte, como ateu e ímpio, sob a acusação de que “introduzia novas divindades”; e no nosso caso eles mostram atividade semelhante. Pois não somente entre os gregos a razão (Logos) prevaleceu para condenar essas coisas por meio de Sócrates, mas também entre os bárbaros elas foram condenadas pela própria Razão (ou o Verbo, o Logos), que tomou forma, se fez homem e foi chamado Jesus Cristo; e, em obediência a ele, não só negamos que sejam deuses6 os que fizeram tais coisas, mas afirmamos que são demônios7 malignos e ímpios, cujas ações não suportam comparação nem mesmo com as dos homens desejosos de virtude.
Por isso somos chamados ateus. E confessamos que somos ateus no que diz respeito a deuses dessa espécie, mas não em relação ao Deus verdadeiríssimo, Pai da justiça, da temperança e das demais virtudes, que está livre de toda impureza. Mas a ele, e ao Filho (que dele saiu e nos ensinou estas coisas, e à multidão dos outros anjos bons que o seguem e se tornam semelhantes a ele),8 e ao Espírito profético, nós cultuamos e adoramos, conhecendo-os em razão e verdade, e declarando sem reservas a todo aquele que deseja aprender, como fomos ensinados.
Mas alguém dirá: Alguns já foram presos e convencidos de malfeitores. Pois vocês condenam muitos, muitas vezes, depois de investigar a vida de cada um dos acusados em particular, mas não por causa daqueles de quem estivemos falando.9 E isto reconhecemos: assim como entre os gregos os que ensinam as teorias que lhes agradam são todos chamados pelo mesmo nome de “filósofo”, embora as suas doutrinas sejam diversas, assim também entre os bárbaros este nome, sobre o qual se acumulam as acusações, é propriedade comum dos que são sábios e dos que parecem sê-lo. Pois todos são chamados cristãos. Por isso pedimos que sejam julgadas as obras de todos os que são acusados diante de vocês, a fim de que cada um que for convencido seja punido como malfeitor, e não como cristão; e, se ficar claro que alguém é inocente, que seja absolvido, já que pelo simples fato de ser cristão não comete nenhum mal.10 Pois não exigiremos que vocês punam os nossos acusadores;11 eles já são suficientemente punidos pela sua maldade presente e pela sua ignorância do que é justo.
E considerem que é por causa de vocês que temos dito estas coisas; pois está ao nosso alcance, quando somos interrogados, negar que somos cristãos; mas não queremos viver mentindo. Pois, impelidos pelo desejo da vida eterna e pura, buscamos a morada que está junto de Deus, o Pai e Criador de todas as coisas, e apressamo-nos a confessar a nossa fé, persuadidos e convencidos como estamos de que os que provaram a Deus12 pelas suas obras que o seguiram e amaram permanecer com ele, onde não há pecado que cause perturbação, podem alcançar essas coisas. Isto, pois, para falar em poucas palavras, é o que esperamos, aprendemos de Cristo e ensinamos. E Platão, de modo semelhante, costumava dizer que Radamanto e Minos castigariam os maus que comparecessem diante deles; e nós dizemos que o mesmo acontecerá, mas pela mão de Cristo, e sobre os maus nos mesmos corpos unidos de novo aos seus espíritos, que hão de sofrer castigo eterno; e não somente, como disse Platão, por um período de mil anos. E se alguém disser que isto é inacreditável ou impossível, esse nosso erro diz respeito somente a nós mesmos, e a nenhuma outra pessoa, enquanto vocês não puderem nos convencer de fazer algum mal.
Tampouco honramos com muitos sacrifícios e grinaldas de flores as divindades que os homens moldaram, colocaram em santuários e chamaram deuses; pois vemos que elas são sem alma e mortas, e não têm a forma de Deus (pois não pensamos que Deus tenha uma forma como a que alguns dizem imitar em sua honra), mas têm os nomes e as formas daqueles demônios malignos que apareceram. Pois que necessidade temos de dizer a vocês, que já o sabem, em que formas os artífices, entalhando e cortando, fundindo e martelando, modelam a matéria? E muitas vezes, de vasos destinados a usos desonrosos, apenas mudando a forma e fazendo uma imagem com o feitio requerido, fazem aquilo a que chamam deus; o que consideramos não apenas insensato, mas até ofensivo a Deus, que, tendo glória e forma inefáveis, vê assim o seu nome ligado a coisas corruptíveis, que precisam de cuidado constante. E que os artífices dessas coisas são intemperantes e, para não entrar em pormenores, praticados em todo vício, vocês o sabem muito bem; corrompem até as próprias moças que trabalham com eles. Que desvario! Dizer que homens dissolutos moldam e fazem deuses para o culto de vocês, e que vocês ponham tais homens como guardiões dos templos onde eles estão instalados, sem reconhecer que é ilícito até pensar ou dizer que homens sejam guardiões de deuses.
Mas recebemos por tradição que Deus não precisa das ofertas materiais que os homens podem dar, visto que ele mesmo é o provedor de todas as coisas. E fomos ensinados, estamos convencidos e cremos que ele aceita somente os que imitam as excelências que nele residem: a temperança, a justiça, o amor aos homens e tantas virtudes quantas são próprias de um Deus que não é chamado por nenhum nome próprio. E fomos ensinados que ele, no princípio, na sua bondade, criou todas as coisas de matéria informe por causa do homem; e, se os homens pelas suas obras se mostrarem dignos desse desígnio dele, serão julgados dignos, assim recebemos, de reinar em companhia dele, livres da corrupção e do sofrimento. Pois, assim como no princípio ele nos criou quando não existíamos, assim consideramos que, de modo semelhante, os que escolhem o que lhe agrada são, por causa da sua escolha, julgados dignos da incorruptibilidade e da comunhão com ele. Pois vir a existir no princípio não estava em nosso poder; mas, para que sigamos as coisas que lhe agradam, escolhendo-as por meio das faculdades racionais com que ele mesmo nos dotou, ele nos persuade e nos conduz à fé. E pensamos que é para o proveito de todos os homens que não sejam impedidos de aprender estas coisas, mas até incitados a isso. Pois o freio que as leis humanas não conseguiram pôr, o Verbo, por ser divino, o teria posto, se os demônios malignos, tomando por aliada a concupiscência do mal que existe em cada homem e que o arrasta de várias maneiras para toda espécie de vício, não tivessem espalhado muitas acusações falsas e ímpias, nenhuma das quais nos diz respeito.
E quando vocês ouvem que esperamos um reino, supõem, sem fazer nenhuma investigação, que falamos de um reino humano; ao passo que falamos daquele que está com Deus, como se vê também pela confissão de fé feita pelos que são acusados de ser cristãos, embora saibam que a morte é a pena reservada a quem assim confessa. Pois, se esperássemos um reino humano, também negaríamos o nosso Cristo, para não sermos mortos, e procuraríamos escapar à descoberta, para alcançar o que esperamos. Mas, como os nossos pensamentos não estão fixados no presente, não nos inquietamos quando os homens nos tiram a vida; uma vez que a morte é também uma dívida que de qualquer modo tem de ser paga.
E, mais do que todos os outros homens, somos auxiliares e aliados de vocês na promoção da paz, visto que sustentamos esta convicção: que é igualmente impossível ao perverso, ao avarento, ao conspirador e ao virtuoso escapar à atenção de Deus, e que cada homem vai para o castigo eterno ou para a salvação segundo o valor das suas ações. Pois, se todos os homens soubessem disso, ninguém escolheria a maldade nem por pouco tempo, sabendo que vai para o castigo eterno do fogo; mas de todos os modos se refrearia e se adornaria de virtude, para alcançar os bons dons de Deus e escapar aos castigos. Pois os que, por causa das leis e dos castigos que vocês impõem, procuram não ser descobertos quando delinquem (e delinquem também na suposição de que é perfeitamente possível escapar à atenção de vocês, que não passam de homens), essas pessoas, se aprendessem e se convencessem de que nada, seja efetivamente feito, seja apenas intencionado, pode escapar ao conhecimento de Deus, viveriam de todos os modos com decência por causa das penas ameaçadas, como vocês mesmos hão de admitir. Mas vocês parecem temer que todos os homens se tornem justos e que já não tenham ninguém a quem punir. Essa seria a preocupação de carrascos públicos, mas não de bons príncipes. Mas, como dissemos antes, estamos persuadidos de que estas coisas são instigadas por espíritos maus, que exigem sacrifícios e serviço até dos que vivem sem razão; quanto a vocês, presumimos que, aspirando como aspiram a [uma reputação de] piedade e filosofia, nada farão de irracional. Mas, se também vocês, como os insensatos, preferem o costume à verdade, façam o que está em seu poder. Mas os governantes que estimam a opinião mais do que a verdade têm tanto poder quanto os salteadores têm num deserto. E que vocês não terão êxito, declara-o o Verbo, do qual sabemos que, depois de Deus que o gerou, não há governante mais régio e justo. Pois, assim como todos recusam herdar a pobreza, os sofrimentos ou a obscuridade dos seus pais, assim também o homem sensato não escolherá o que o Verbo nos proíbe escolher. Que todas estas coisas aconteceriam, digo, predisse-o o nosso Mestre, ele que é Filho e Apóstolo de Deus, o Pai de todos e Soberano, Jesus Cristo; de quem também recebemos o nome de cristãos. Por isso ficamos mais seguros de todas as coisas que ele nos ensinou, já que tudo o que ele predisse que aconteceria se vê de fato acontecer; e esta é a obra de Deus: anunciar uma coisa antes que aconteça e, assim como foi predita, mostrá-la acontecendo. Seria possível parar aqui e não acrescentar mais nada, considerando que pedimos o que é justo e verdadeiro; mas, como sabemos bem que não é fácil mudar de repente uma mente dominada pela ignorância, pretendemos acrescentar algumas coisas, a fim de persuadir os que amam a verdade, sabendo que não é impossível pôr em fuga a ignorância apresentando a verdade.
Que homem sensato, então, não reconhecerá que não somos ateus, nós que cultuamos o Criador deste universo e declaramos, como fomos ensinados, que ele não precisa de torrentes de sangue, de libações nem de incenso; a quem louvamos, na medida das nossas forças, com orações e ações de graças por todas as coisas de que somos supridos, pois fomos ensinados que a única honra digna dele não é consumir pelo fogo o que ele trouxe à existência para o nosso sustento, mas usá-lo para nós mesmos e para os necessitados, e, com gratidão a ele, oferecer-lhe ações de graças com invocações e hinos13 pela nossa criação, por todos os meios de saúde, pelas várias qualidades das diferentes espécies de coisas e pelas mudanças das estações; e apresentar-lhe súplicas para que voltemos a existir na incorruptibilidade por meio da fé nele. O nosso mestre nestas coisas é Jesus Cristo, que também nasceu para isso e foi crucificado sob Pôncio Pilatos, procurador da Judeia, no tempo de Tibério César; e provaremos que o cultuamos com razão, tendo aprendido que ele é o Filho do próprio Deus verdadeiro, e que o colocamos em segundo lugar, e o Espírito profético em terceiro. Pois eles proclamam que a nossa loucura consiste nisto: em darmos a um homem crucificado o segundo lugar depois do Deus imutável e eterno, Criador de todas as coisas; pois não discernem o mistério que aqui existe, ao qual, enquanto o tornamos claro para vocês, pedimos que prestem atenção.
Pois os prevenimos para que fiquem de sobreaviso, a fim de que aqueles demônios que estivemos acusando não os enganem e não os desviem totalmente de ler e entender o que dizemos. Pois eles se esforçam por mantê-los como seus escravos e servos; e, ora por aparições em sonhos, ora por imposturas mágicas, subjugam todos os que não opõem forte resistência em favor da sua própria salvação. E assim também nós, desde que fomos persuadidos pelo Verbo, nos afastamos deles (isto é, dos demônios) e seguimos o único Deus não gerado, por meio do seu Filho: nós que antes nos deleitávamos na imoralidade sexual, agora abraçamos somente a castidade; nós que antes usávamos artes mágicas, agora nos consagramos ao Deus bom e não gerado; nós que acima de tudo valorizávamos a aquisição de riquezas e bens, agora pomos em comum o que temos e repartimos com todo necessitado; nós que nos odiávamos e nos destruíamos uns aos outros e, por causa dos costumes diferentes, não queríamos conviver14 com homens de outra raça, agora, desde a vinda de Cristo, vivemos em familiaridade com eles, oramos pelos nossos inimigos e procuramos persuadir os que nos odeiam injustamente a viver de acordo com os bons preceitos de Cristo, a fim de que se tornem participantes conosco da mesma alegre esperança de uma recompensa da parte de Deus, o soberano de todas as coisas. Mas, para não parecer que raciocinamos sofisticamente, julgamos conveniente, antes de dar a explicação prometida,15 citar alguns preceitos dados pelo próprio Cristo. E cabe a vocês, como governantes poderosos, investigar se fomos ensinados e ensinamos verdadeiramente estas coisas. Palavras breves e concisas saíram dos seus lábios, pois ele não era sofista, mas a sua palavra era o poder de Deus.
Sobre a castidade, ele proferiu sentenças como estas:16 “Todo aquele que olhar para uma mulher com intenção impura já cometeu adultério com ela no seu coração diante de Deus”. E: “Se o seu olho direito o faz tropeçar, arranque-o; pois é melhor para você entrar no reino dos céus com um só olho do que, tendo dois olhos, ser lançado no fogo eterno”. E: “Aquele que casar com a mulher repudiada por outro marido comete adultério”.17 E: “Há alguns que foram feitos eunucos pelos homens, e alguns que nasceram eunucos, e alguns que se fizeram eunucos por causa do reino dos céus; mas nem todos podem aceitar esta palavra”.18 De modo que todos os que, pela lei humana, contraem segundo casamento19 são pecadores aos olhos do nosso Mestre, assim como os que olham para uma mulher com intenção impura. Pois por ele é rejeitado não somente aquele que comete adultério de fato, mas também aquele que deseja cometer adultério, já que não somente as nossas obras, mas também os nossos pensamentos estão patentes diante de Deus. E muitos, homens e mulheres, que foram discípulos de Cristo desde a infância, permanecem puros aos sessenta ou setenta anos; e me glorio de que poderia apresentar pessoas assim de toda raça de homens. Que direi ainda da multidão incontável dos que abandonaram hábitos intemperantes e aprenderam estas coisas? Pois Cristo não chamou ao arrependimento os justos nem os castos, mas os ímpios, os devassos e os injustos, dizendo: “Não vim chamar justos, e sim pecadores ao arrependimento”.20 Pois o Pai celestial prefere o arrependimento do pecador ao seu castigo. E, sobre o nosso amor a todos, ensinou assim: “Se vocês amam os que os amam, que fazem de novo? Pois até os imorais fazem isso. Eu, porém, lhes digo: orem pelos seus inimigos, amem os que os odeiam, abençoem os que os amaldiçoam e orem pelos que os maltratam”.21 E, para que repartíssemos com os necessitados e nada fizéssemos por glória, disse: “Dê a quem lhe pede e não se afaste de quem quer tomar emprestado; pois, se vocês emprestam àqueles de quem esperam receber, que fazem de novo? Até os publicanos fazem isso. Não acumulem para vocês tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde os ladrões arrombam; mas ajuntem para vocês tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem corroem. Pois de que adiantará a um homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará um homem em troca dela? Ajuntem, pois, tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem corroem”.22 E: “Sejam bondosos e misericordiosos, como também o Pai de vocês é bondoso e misericordioso, e faz o seu sol nascer sobre os pecadores, os justos e os maus. Não se preocupem com o que vão comer ou com o que vão vestir: não valem vocês mais do que as aves e os animais? E Deus os alimenta. Não se preocupem, pois, com o que vão comer ou com o que vão vestir; porque o Pai celestial de vocês sabe que vocês precisam dessas coisas. Mas busquem o reino dos céus, e todas estas coisas lhes serão acrescentadas. Pois onde está o seu tesouro, aí está também a mente do homem”.23 E: “Não façam estas coisas para serem vistos pelos homens; do contrário, não terão recompensa junto do Pai de vocês, que está nos céus”.24
E, quanto a sermos pacientes diante das injúrias, prontos a servir a todos e livres da ira, foi isto o que ele disse: “A quem lhe bate numa face, ofereça também a outra; e a quem lhe tira a capa ou a túnica, não o impeça. E todo aquele que se irar estará sujeito ao fogo. E, se alguém obrigar você a andar uma milha com ele, vá com ele duas. E brilhem as boas obras de vocês diante dos homens, para que estes, vendo-as, glorifiquem o Pai de vocês, que está nos céus”.25 Pois não devemos contender; nem ele quis que fôssemos imitadores dos maus, mas nos exortou a conduzir todos os homens, pela paciência e pela mansidão, para longe da vergonha e do amor ao mal. E isto, de fato, se comprova no caso de muitos que antes pensavam como vocês, mas mudaram a sua disposição violenta e tirânica, vencidos pela constância que observaram na vida dos seus vizinhos,26 ou pela extraordinária tolerância que notaram nos seus companheiros de viagem quando eram lesados, ou pela honestidade daqueles com quem fizeram negócios.
E, quanto a não jurarmos de modo nenhum e dizermos sempre a verdade, ele ordenou o seguinte: “Não jurem de modo nenhum; mas que o seu sim seja sim, e o seu não, não; pois o que passar disto vem do mal”.27 E que devemos adorar somente a Deus, ele nos persuadiu assim: “O maior mandamento é: Adore o Senhor, seu Deus, e só a ele preste culto, de todo o seu coração e com toda a sua força, o Senhor Deus que o criou”.28 E, quando certo homem se aproximou dele e disse: “Bom Mestre”, ele respondeu: “Ninguém é bom senão somente Deus, que fez todas as coisas”.29 E os que não forem encontrados vivendo como ele ensinou sejam reconhecidos como não cristãos, ainda que professem com os lábios os preceitos de Cristo; pois não os que fazem profissão, mas os que praticam as obras serão salvos, segundo a sua palavra: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Pois quem me ouve e pratica as minhas palavras ouve aquele que me enviou. E muitos me dirão: Senhor, Senhor, não comemos e bebemos em teu nome e não fizemos maravilhas? E então lhes direi: Afastem-se de mim, vocês que praticam a iniquidade. Então haverá choro e ranger de dentes, quando os justos resplandecerão como o sol e os maus forem lançados no fogo eterno. Pois muitos virão em meu nome, vestidos por fora com pele de ovelha, mas por dentro sendo lobos vorazes. Pelas suas obras vocês os conhecerão. E toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada no fogo”.30 E, quanto aos que não vivem de acordo com estes ensinos dele e são cristãos apenas de nome, pedimos que todos esses sejam punidos por vocês.
E em toda parte nós, mais prontamente do que todos os homens, procuramos pagar aos que vocês nomeiam os impostos, tanto os ordinários como os extraordinários,31 como fomos ensinados por ele; pois naquele tempo alguns vieram a ele e lhe perguntaram se era preciso pagar tributo a César; e ele respondeu: “Digam-me: de quem é a imagem que a moeda traz?”. E eles disseram: “De César”. E de novo ele lhes respondeu: “Deem, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.32 Por isso somente a Deus prestamos culto, mas nas demais coisas servimos a vocês com alegria, reconhecendo-os como reis e governantes dos homens, e orando para que, junto com o poder real, se verifique que vocês possuem também juízo sadio. Mas, se não fizerem caso das nossas orações e das nossas explicações francas, não sofreremos nenhum prejuízo, pois cremos (ou melhor, estamos persuadidos) de que cada homem sofrerá castigo no fogo eterno segundo o mérito das suas obras e prestará contas segundo o poder que recebeu de Deus, como Cristo deu a entender quando disse: “Àquele a quem Deus deu mais, mais lhe será exigido”.33
1. Literalmente, “as opiniões dos antigos”.
2. Thirlby considerou interpolação a oração entre colchetes. Há considerável divergência de opinião quanto ao sentido exato das palavras entre os que as têm por genuínas.
3. Platão, República, v. 18.
4. Isto é: se os cristãos se recusassem a dar a conhecer suas verdadeiras opiniões e práticas, ou se descuidassem disso, compartilhariam a culpa daqueles a quem assim mantinham nas trevas.
5. Justino aproveita aqui a semelhança de som entre as palavras Christos (Cristo) e chrestos (bom, digno, excelente). O jogo com essas palavras continua por todo este parágrafo e nem sempre pode ser reproduzido na tradução.
6. A palavra daimon significa em grego um deus, mas os cristãos usavam a palavra para designar um espírito mau. Justino usa aqui a mesma palavra para deus e para demônio. A ligação que Justino e outros escritores cristãos supunham existir entre os espíritos maus e os deuses dos pagãos ficará clara pelas próprias declarações de Justino. A palavra diabolos, diabo, não se aplica a esses demônios. Há um só diabo, mas muitos demônios.
7. A palavra daimon significa em grego um deus, mas os cristãos usavam a palavra para designar um espírito mau. Justino usa aqui a mesma palavra para deus e para demônio. A ligação que Justino e outros escritores cristãos supunham existir entre os espíritos maus e os deuses dos pagãos ficará clara pelas próprias declarações de Justino. A palavra diabolos, diabo, não se aplica a esses demônios. Há um só diabo, mas muitos demônios.
8. Esta é a tradução literal e óbvia das palavras de Justino. Mas, pelos caps. 13, 16 e 61, é evidente que ele não pretendia inculcar o culto aos anjos. Somos, portanto, obrigados a adotar outra tradução desta passagem, ainda que um tanto forçada. Foram propostas duas traduções: a primeira liga “nos” e “a multidão dos outros anjos bons” como objeto comum do verbo “ensinou”; a segunda liga “estas coisas” a “a multidão de” etc., fazendo destas duas, juntas, o assunto ensinado. No primeiro caso a tradução seria: “ensinou estas coisas a nós e à multidão” etc.; no segundo, seria: “nos ensinou acerca destas coisas e acerca da multidão dos outros que o seguem, a saber, os anjos bons”.
9. Isto é, segundo Otto, “não por causa dos cristãos sinceros de quem estivemos falando”. Segundo Trollope, “não por causa (ou por instigação) dos demônios antes mencionados”.
10. Ou “como cristão que não cometeu nenhum mal”.
11. Compare-se o Rescrito de Adriano anexado a esta Apologia.
12. Literalmente, “persuadiram a Deus”.
13. pompas kai humnous. “Grabe, e com razão, ao que parece, entende pompas como orações solenes. … Ele observa também que os humnoi eram ou salmos de Davi, ou alguns daqueles salmos e cânticos compostos pelos primeiros cristãos, que são mencionados em Eusébio, História Eclesiástica, v. 28.” (Trollope).
14. Literalmente, “não queríamos usar o mesmo lar ou fogo”.
15. Veja-se o fim do cap. xii.
16. O leitor notará que Justino cita de memória, de modo que há algumas pequenas discrepâncias entre as palavras de Jesus tal como aqui citadas e os mesmos ditos tal como registrados nos nossos Evangelhos.
17. Mt 5.28, 29, 32.
18. Mt 19.12.
19. digamias poioumenoi, literalmente, “contraindo duplo casamento”. Há três espécies de duplo casamento: a primeira, o casamento com uma segunda esposa enquanto a primeira ainda vive e é reconhecida como esposa legítima, ou bigamia; a segunda, o casamento com uma segunda esposa depois do divórcio da primeira; e a terceira, o casamento com uma segunda esposa depois da morte da primeira. Pensa-se que Justino se refere aqui ao segundo caso.
20. Mt 9.13.
21. Mt 5.46, 44; Lc 6.28.
22. Lc 6.30, 34; Mt 6.19; Mt 16.26; Mt 6.20.
23. Lc 6.36; Mt 5.45; Mt 6.25, 26, 33, 21.
24. Mt 6.1.
25. Lc 6.29; Mt 5.22, 41, 16.
26. Isto é, vizinhos cristãos.
27. Mt 5.34, 37.
28. Mc 12.30.
29. Mt 19.16, 17.
30. Mt 7.21 e segs.; Lc 13.26; Mt 13.42; Mt 7.15, 16, 19.
31. phorous kai eisphoras. O primeiro é o tributo anual; o segundo, qualquer contribuição ocasional. Veja-se a nota de Otto e Tucídides, iii. 19.
32. Mt 22.17, 19, 20, 21.
33. Lc 12.48.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Marcus Dods e George Reith na coleção Ante-Nicene Fathers, vol. 1 (Buffalo, 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. Os originais são gregos: esta é, portanto, tradução de tradução. As notas são dos tradutores ingleses; as do editor americano foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Justino cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.