Irineu de Lião · Contra as Heresias, Livro V (continuação)
A carne de Cristo e a nossa; a obra do Criador na cura do cego; a obediência na árvore da cruz; Maria, advogada de Eva.
1. E, visto que o apóstolo não se pronunciou contra a própria substância da carne e do sangue, como se ela não pudesse herdar o reino de Deus, o mesmo apóstolo adotou em toda parte a expressão “carne e sangue” com respeito ao Senhor Jesus Cristo, em parte para estabelecer a sua natureza humana (pois ele mesmo falava de si como o Filho do Homem), e em parte para confirmar a salvação da nossa carne. Pois, se a carne não estivesse em condições de ser salva, o Verbo de Deus de modo algum se teria feito carne. E, se o sangue dos justos não houvesse de ser requerido, certamente o Senhor não teria tido sangue [na sua constituição]. Mas, visto que o sangue clama (vocalis est) desde o princípio [do mundo], Deus disse a Caim, quando este matou o irmão: “A voz do sangue do seu irmão clama a mim”.1 E, como o sangue deles há de ser requerido, disse aos que estavam com Noé: “Pois requererei o sangue de vocês, o sangue da vida de vocês, [até] da mão de todos os animais”;2 e ainda: “Quem derramar o sangue de um homem,3 o seu sangue será derramado por isso”. Do mesmo modo, também, o Senhor disse aos que haveriam de derramar o seu sangue: “Será requerido todo o sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem vocês mataram entre o santuário e o altar. Em verdade lhes digo que todas estas coisas hão de vir sobre a presente geração”.4 Assim ele indica a recapitulação que se faria na sua própria pessoa do derramamento de sangue desde o princípio, de todos os justos e dos profetas, e que por meio dele mesmo o sangue deles seria requerido. Ora, esse [sangue] não poderia ser requerido se não tivesse também a capacidade de ser salvo; nem o Senhor teria resumido em si estas coisas, se ele mesmo não se tivesse feito carne e sangue segundo o modo da formação original [do homem], salvando na sua própria pessoa, no fim, aquilo que no princípio havia perecido em Adão.
2. Mas, se o Senhor se encarnou por alguma outra ordem de coisas e tomou carne de alguma outra substância, então não resumiu em sua própria pessoa a natureza humana, nem, nesse caso, pode ser chamado carne. Pois a carne foi verdadeiramente feita [para consistir na] transmissão daquilo que foi modelado originalmente do pó. Mas, se lhe tivesse sido necessário tirar o material [do seu corpo] de outra substância, o Pai teria, no princípio, modelado o material [da carne] de uma substância diferente [daquela que de fato usou]. Agora, porém, o caso é este: o Verbo salvou aquilo que realmente era [criado, isto é,] a humanidade que havia perecido, efetuando por meio de si mesmo aquela comunhão que com ela devia ser mantida e buscando a sua salvação. Ora, aquilo que havia perecido possuía carne e sangue. Pois o Senhor, tomando pó da terra, modelou o homem; e foi em favor dele que se deu toda a dispensação da vinda do Senhor. Ele mesmo, portanto, teve carne e sangue, recapitulando em si não alguma outra, mas aquela obra original das mãos do Pai, buscando aquilo que havia perecido. E por isso o apóstolo, na Epístola aos Colossenses, diz: “E, embora antes vocês estivessem alienados e fossem inimigos do seu conhecimento pelas obras más, agora foram reconciliados no corpo da sua carne, mediante a sua morte, para se apresentarem santos, castos e sem culpa diante dele”.5 Ele diz: “Vocês foram reconciliados no corpo da sua carne”, porque a carne justa reconciliou aquela carne que estava sendo mantida em servidão no pecado e a trouxe à amizade com Deus.
3. Se, então, alguém alegar que nisto a carne do Senhor era diferente da nossa, porque ela de fato não cometeu pecado, nem se achou engano na sua alma, ao passo que nós, ao contrário, somos pecadores, esse diz o que é verdade. Mas, se pretender que o Senhor possuía outra substância de carne, as palavras sobre a reconciliação não lhe servirão. Pois é reconciliado aquilo que antes estava em inimizade. Ora, se o Senhor tivesse tomado carne de outra substância, não teria, ao fazê-lo, reconciliado com Deus aquela que se tornara inimiga pela transgressão. Agora, porém, por meio da comunhão consigo, o Senhor reconciliou o homem com Deus Pai, reconciliando-nos consigo pelo corpo da sua própria carne e redimindo-nos pelo seu próprio sangue, como o apóstolo diz aos efésios: “Nele temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados”;6 e de novo, aos mesmos, diz: “Vocês, que antes estavam longe, foram aproximados pelo sangue de Cristo”;7 e ainda: “Abolindo na sua carne as inimizades, [isto é,] a lei dos mandamentos [contida] em ordenanças”.8 E em toda epístola o apóstolo testemunha claramente que fomos salvos pela carne de nosso Senhor e pelo seu sangue.
4. Se, portanto, a carne e o sangue são as coisas que nos obtêm a vida, não foi dito da carne e do sangue, no sentido literal (proprie) dos termos, que não podem herdar o reino de Deus; mas [essas palavras se aplicam] àquelas obras carnais já mencionadas, que, desviando o homem para o pecado, o privam da vida. E por isso ele diz, na Epístola aos Romanos: “Não reine, portanto, o pecado no corpo mortal de vocês, para estarem sob o seu domínio; nem ofereçam os seus membros ao pecado como instrumentos de injustiça; mas ofereçam a si mesmos a Deus, como vivos dentre os mortos, e os seus membros a Deus como instrumentos de justiça”.9 Nesses mesmos membros, portanto, com que servíamos ao pecado e produzíamos fruto para a morte, ele quer que [obedeçamos] à justiça, para que produzamos fruto para a vida. Lembre-se, portanto, meu amado amigo, de que você foi redimido pela carne de nosso Senhor, restabelecido10 pelo seu sangue; e, “retendo a Cabeça, a partir da qual todo o corpo da Igreja, bem ajustado, cresce”11 (isto é, reconhecendo a vinda na carne do Filho de Deus e [a sua] divindade (deum), e aguardando com firmeza a sua natureza humana12 (hominem), valendo-se também destas provas tiradas da Escritura), você derruba facilmente, como mostrei, todas aquelas noções dos hereges que foram inventadas depois.
1. Ora, que aquele que no princípio criou o homem lhe prometeu um segundo nascimento depois da sua dissolução na terra, Isaías o declara assim: “Os mortos ressuscitarão, e os que estão nos túmulos se levantarão, e os que estão na terra se alegrarão. Pois o orvalho que vem de ti é saúde para eles”.13 E ainda: “Eu os consolarei, e em Jerusalém vocês serão consolados; vocês verão, e o coração de vocês se alegrará, e os seus ossos florescerão como a erva; e a mão do Senhor será conhecida dos que o adoram”.14 E Ezequiel fala assim: “Veio sobre mim a mão do Senhor, e o Senhor me levou no Espírito e me deixou no meio da planície, e este lugar estava cheio de ossos. E ele me fez passar ao redor deles; e eis que eram muitos na superfície da planície, e muito secos. E ele me disse: Filho do homem, será que estes ossos podem viver? E eu disse: Senhor, tu, que os fizeste, o sabes. E ele me disse: Profetize sobre estes ossos e diga-lhes: Ossos secos, ouçam a palavra do Senhor. Assim diz o Senhor a estes ossos: Eis que farei vir sobre vocês o espírito de vida, porei tendões sobre vocês, farei subir de novo carne sobre vocês, estenderei pele sobre vocês, porei em vocês o meu Espírito, e vocês viverão; e saberão que eu sou o Senhor. E profetizei como o Senhor me havia ordenado. E aconteceu, enquanto eu profetizava, que eis um terremoto, e os ossos se ajuntaram, cada um à sua articulação; e olhei, e eis que os tendões e a carne se formaram sobre eles, e as peles subiram ao redor deles, mas não havia fôlego neles. E ele me disse: Profetize ao fôlego, filho do homem, e diga ao fôlego: Assim diz o Senhor: Venha dos quatro ventos (spiritibus) e sopre sobre estes mortos, para que vivam. Profetizei, pois, como o Senhor me havia ordenado, e o fôlego entrou neles; e eles viveram e se puseram em pé, uma multidão extremamente grande”.15 E ainda diz: “Assim diz o Senhor: Eis que abrirei as sepulturas de vocês e os farei sair delas, e os levarei à terra de Israel; e vocês saberão que eu sou o Senhor, quando eu abrir os seus sepulcros, para trazer de novo o meu povo para fora dos sepulcros; e porei em vocês o meu Espírito, e vocês viverão; e os estabelecerei na sua terra, e vocês saberão que eu sou o Senhor. Eu falei e o farei, diz o Senhor”.16 Como percebemos de imediato que o Criador (Demiurgo) é representado nesta passagem vivificando os nossos corpos mortos e prometendo-lhes a ressurreição e o despertar dos seus sepulcros e túmulos, conferindo-lhes também a imortalidade (ele diz: “Pois os seus dias serão como os da árvore da vida”17), mostra-se que ele é o único Deus que realiza essas coisas, e que ele mesmo é o Pai bom, que benignamente confere a vida aos que não têm a vida de si mesmos.
2. E por essa razão o Senhor manifestou com toda a clareza a si mesmo e ao Pai aos seus discípulos, para que não buscassem outro Deus além daquele que formou o homem e lhe deu o fôlego de vida, e para que os homens não chegassem a tal grau de loucura que imaginassem outro Pai acima do Criador. E assim também curou com uma palavra todos os outros que estavam enfermos por causa do pecado, aos quais também disse: “Olhe, você foi curado. Não peque mais, para que não lhe aconteça coisa pior”,18 mostrando com isso que as enfermidades sobrevieram aos homens por causa do pecado da desobediência. Àquele homem, porém, que era cego de nascença, deu a vista, não por meio de uma palavra, mas por uma ação exterior; e fez isso não sem propósito, nem por acaso, mas para mostrar a mão de Deus, aquela que no princípio modelou o homem. E por isso, quando os seus discípulos lhe perguntaram por que causa o homem nascera cego, se por culpa dele ou dos pais, ele respondeu: “Nem ele pecou, nem os pais dele; mas isso aconteceu para que nele se manifestem as obras de Deus”.19 Ora, a obra de Deus é a formação do homem. Pois, como diz a Escritura, ele fez [o homem] por uma espécie de processo: “E o Senhor tomou barro da terra e formou o homem”.20 Por isso também o Senhor cuspiu no chão, fez barro e o passou sobre os olhos, mostrando a formação original [do homem], como se deu, e manifestando a mão de Deus aos que podem entender por qual [mão] o homem foi formado do pó. Pois aquilo que o artífice, o Verbo, deixara de formar no ventre [a saber, os olhos do cego], ele então supriu em público, para que as obras de Deus se manifestassem nele, a fim de que não procurássemos outra mão pela qual o homem tenha sido formado, nem outro Pai, sabendo que esta mão de Deus que nos formou no princípio, e que nos forma no ventre, nos últimos tempos nos buscou, a nós que estávamos perdidos, reconquistando o que era seu, tomando a ovelha perdida sobre os ombros e com alegria restituindo-a ao aprisco da vida.
3. Ora, que o Verbo de Deus nos forma no ventre, ele o diz a Jeremias: “Antes de formá-lo no ventre materno, eu já o conhecia; e, antes de você sair do ventre, eu o consagrei e o constituí profeta entre as nações”.21 E Paulo também diz do mesmo modo: “Mas, quando aprouve a Deus, que me separou desde o ventre de minha mãe, que eu o anunciasse entre as nações”.22 Como, portanto, somos formados pelo Verbo no ventre, este mesmo Verbo formou a faculdade da vista naquele que era cego de nascença, mostrando abertamente quem é que nos forma em segredo, já que o próprio Verbo se havia manifestado aos homens; e declarando a formação original de Adão, o modo como foi criado e por qual mão foi formado, indicando o todo a partir de uma parte. Pois o Senhor que formou a faculdade da vista é aquele que fez o homem inteiro, cumprindo a vontade do Pai. E, visto que o homem, quanto àquela formação que veio depois de Adão, tendo caído em transgressão, precisava do lavar da regeneração, [o Senhor] lhe disse [àquele a quem dera a vista], depois de lhe ter passado barro sobre os olhos: “Vá lavar-se em Siloé”,23 restituindo-lhe assim tanto a [perfeita] confirmação como aquela regeneração que se dá por meio do lavar. E por isso, quando se lavou, voltou vendo, para que tanto conhecesse aquele que o havia formado, como o homem aprendesse [a conhecer] aquele que lhe conferiu a vida.
4. Todos os seguidores de Valentim, portanto, perdem a causa quando dizem que o homem não foi formado desta terra, mas de uma substância fluida e difusa. Pois é evidente que da mesma terra da qual o Senhor formou olhos para aquele homem também o homem foi formado no princípio. Pois seria incoerente que os olhos fossem formados de uma fonte e o resto do corpo de outra; como tampouco seria coerente que um [ser] formasse o corpo e outro os olhos. Mas ele, o mesmo que formou Adão no princípio, com quem também o Pai falou, [dizendo]: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”,24 revelando-se nestes últimos tempos aos homens, formou os órgãos da vista (visionem) para aquele que era cego [no corpo que recebera] de Adão. Por isso também a Escritura, indicando o que havia de acontecer, diz que, quando Adão se escondeu por causa da sua desobediência, o Senhor veio a ele à tarde, chamou-o e disse: “Onde você está?”25 Isso significa que nos últimos tempos o mesmo Verbo de Deus veio chamar o homem, lembrando-lhe as suas obras, vivendo nas quais ele se escondera do Senhor. Pois, assim como naquele tempo Deus falou a Adão à tarde, procurando-o, assim nos últimos tempos, pela mesma voz, procurando a sua descendência, ele a visitou.
1. E, visto que Adão foi modelado desta terra a que pertencemos, a Escritura nos diz que Deus lhe disse: “No suor do seu rosto você comerá o seu pão, até que volte ao pó de onde foi tirado”.26 Se, então, depois da morte, os nossos corpos voltam a alguma outra substância, segue-se que também dela têm a sua substância. Mas, se é a esta mesma [terra], é manifesto que também foi dela que a estrutura do homem foi criada; como também o Senhor mostrou claramente, quando desta mesma substância formou olhos para o homem [a quem deu a vista]. E assim se mostrou claramente a mão de Deus, pela qual Adão foi formado e nós também fomos formados; e, uma vez que há um só e o mesmo Pai, cuja voz, desde o princípio até o fim, está presente junto à obra das suas mãos, e a substância da qual fomos formados é claramente declarada pelo Evangelho, não devemos, portanto, buscar outro Pai além dele, nem [procurar] outra substância da qual tenhamos sido formados, além da que foi mencionada antes e mostrada pelo Senhor; nem outra mão de Deus além daquela que, desde o princípio até o fim, nos forma e nos prepara para a vida, e está presente junto à obra das suas mãos, e a aperfeiçoa segundo a imagem e semelhança de Deus.
2. E então, de novo, este Verbo se manifestou quando o Verbo de Deus se fez homem, assemelhando-se ao homem e assemelhando o homem a si, para que, por meio da sua semelhança com o Filho, o homem se tornasse precioso ao Pai. Pois em tempos passados se dizia que o homem fora criado à imagem de Deus, mas isso não era [efetivamente] mostrado; pois o Verbo, à imagem de quem o homem foi criado, era ainda invisível. Por isso também o homem perdeu facilmente a semelhança. Quando, porém, o Verbo de Deus se fez carne, confirmou ambas as coisas: pois mostrou verdadeiramente a imagem, tornando-se ele mesmo aquilo que era a sua imagem; e restabeleceu de modo seguro a semelhança, assemelhando o homem ao Pai invisível por meio do Verbo visível.
3. E não somente pelas coisas acima ditas o Senhor se manifestou, mas [o fez] também por meio da sua paixão. Pois, desfazendo [os efeitos] daquela desobediência do homem que ocorrera no princípio por ocasião de uma árvore, “ele se tornou obediente até a morte, e morte de cruz”,27 corrigindo aquela desobediência que se dera por causa de uma árvore mediante aquela obediência que foi [realizada] sobre o madeiro [da cruz]. Ora, ele não teria vindo desfazer, por meio daquela mesma [imagem], a desobediência cometida contra o nosso Criador, se anunciasse outro Pai. Mas, assim como foi por estas coisas que desobedecemos a Deus e não demos crédito à sua palavra, assim também foi por estas mesmas que ele introduziu a obediência e o assentimento à sua Palavra; e por elas mostra claramente o próprio Deus, a quem de fato ofendemos no primeiro Adão, quando ele não cumpriu o seu mandamento. No segundo Adão, porém, somos reconciliados, tornando-nos obedientes até a morte. Pois não éramos devedores de nenhum outro senão daquele cujo mandamento havíamos transgredido no princípio.
1. Ora, este ser é o Criador (Demiurgus), que, em razão do seu amor, é o Pai; em razão do seu poder, é Senhor; e, em razão da sua sabedoria, é o nosso Criador e Modelador; e, transgredindo o seu mandamento, tornamo-nos seus inimigos. E por isso, nos últimos tempos, o Senhor nos restituiu à amizade pela sua encarnação, tornando-se “o Mediador entre Deus e os homens”,28 propiciando por nós o Pai contra quem havíamos pecado e anulando (consolatus) a nossa desobediência com a sua própria obediência, conferindo-nos também o dom da comunhão com o nosso Criador e da submissão a ele. Por isso também nos ensinou a dizer na oração: “E perdoa-nos as nossas dívidas”,29 pois de fato ele é o nosso Pai, de quem éramos devedores, por termos transgredido os seus mandamentos. Mas quem é este Ser? É algum desconhecido, um Pai que não dá mandamento a ninguém? Ou é o Deus que é anunciado nas Escrituras, de quem éramos devedores por termos transgredido o seu mandamento? Ora, o mandamento foi dado ao homem pelo Verbo. Pois Adão, como se diz, “ouviu a voz do Senhor Deus”.30 Com razão, então, o seu Verbo diz ao homem: “Os seus pecados estão perdoados”;31 ele, o mesmo contra quem havíamos pecado no princípio, concede o perdão dos pecados no fim. Mas, se de fato tivéssemos desobedecido à ordem de algum outro, e fosse um ser diferente quem disse: “Os seus pecados estão perdoados”,32 esse tal não é bom, nem verdadeiro, nem justo. Pois como pode ser bom quem não dá do que é seu? Ou como pode ser justo quem arrebata os bens de outro? E de que modo podem os pecados ser verdadeiramente perdoados, a não ser que aquele contra quem pecamos tenha ele mesmo concedido o perdão “pela profunda misericórdia de nosso Deus”, na qual “ele nos visitou”33 por meio do seu Filho?
2. E por isso, quando ele curou o paralítico, [o evangelista] diz: “O povo, vendo isto, deu glória a Deus, que tinha dado tal autoridade aos homens”.34 Que Deus, então, glorificaram os presentes? Seria aquele Pai desconhecido inventado pelos hereges? E como poderiam glorificar aquele que lhes era inteiramente desconhecido? É evidente, portanto, que os israelitas glorificaram aquele que foi anunciado como Deus pela Lei e pelos Profetas, que é também o Pai de nosso Senhor; e por isso ele ensinou os homens, pela evidência dos seus sentidos, mediante os sinais que realizava, a dar glória a Deus. Se, porém, ele mesmo tivesse vindo de outro Pai, e os homens glorificassem um Pai diferente ao contemplar os seus milagres, ele [nesse caso] os teria tornado ingratos para com aquele Pai que enviara o dom da cura. Mas, como o Filho unigênito tinha vindo, para a salvação do homem, daquele que é Deus, ele tanto incitava os incrédulos, pelos milagres que costumava realizar, a dar glória ao Pai, como disse aos fariseus, que não admitiam a vinda do seu Filho e que, por isso, não criam no perdão [dos pecados] concedido por ele: “Para que vocês saibam que o Filho do Homem tem autoridade para perdoar pecados”.35 E, tendo dito isto, ordenou ao paralítico que tomasse o leito em que estava deitado e fosse para casa. Com esta sua obra confundiu os incrédulos e mostrou que ele mesmo é a voz de Deus, pela qual o homem recebeu mandamentos, que transgrediu, tornando-se pecador; pois a paralisia viera como consequência dos pecados.
3. Portanto, perdoando os pecados, ele de fato curou o homem, e ao mesmo tempo manifestou quem ele era. Pois, se ninguém pode perdoar pecados senão Deus somente, e o Senhor os perdoava e curava os homens, é claro que ele mesmo era o Verbo de Deus feito Filho do Homem, recebendo do Pai o poder de perdoar pecados; visto que era homem e visto que era Deus, para que, assim como, homem, sofreu por nós, assim, Deus, tivesse compaixão de nós e nos perdoasse as nossas dívidas, com as quais nos tornamos devedores de Deus, nosso Criador. E por isso Davi disse de antemão: “Bem-aventurados aqueles cujas iniquidades são perdoadas e cujos pecados são cobertos. Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não atribui pecado”,36 indicando assim aquele perdão dos pecados que se segue à sua vinda, pela qual “ele destruiu o escrito” da nossa dívida e “o cravou na cruz”;37 para que, assim como por meio de uma árvore nos tornamos devedores de Deus, [assim também] por meio de uma árvore obtenhamos o perdão da nossa dívida.
4. Isso foi mostrado de modo notável por muitos outros, e especialmente por meio do profeta Eliseu. Pois, quando os seus companheiros profetas estavam cortando madeira para a construção de uma tenda, e o ferro, solto do machado, caiu no Jordão e eles não conseguiam encontrá-lo, Eliseu, chegando ao lugar e sabendo o que acontecera, lançou um pedaço de madeira na água. E, feito isso, o ferro do machado subiu à tona, e eles recolheram da superfície da água o que antes haviam perdido.38 Com esse ato o profeta mostrou que a palavra segura de Deus, que por negligência havíamos perdido por meio de uma árvore e que não tínhamos como reencontrar, haveríamos de receber de novo pela dispensação de uma árvore [a saber, a cruz de Cristo]. Pois que a palavra de Deus é comparada a um machado, João Batista o declara [quando diz] a respeito dela: “E o machado já está posto à raiz das árvores”.39 Também Jeremias diz no mesmo sentido: “A palavra de Deus fende a rocha como um machado”.40 Esta palavra, pois, que nos estava oculta, a dispensação da árvore a tornou manifesta, como já observei. Pois, assim como a perdemos por meio de uma árvore, por meio de uma árvore, de novo, ela se tornou manifesta a todos, mostrando em si a altura, o comprimento, a largura e a profundidade; e, como observou um dos nossos predecessores, “pela extensão das mãos de uma pessoa divina,41 reunindo os dois povos a um só Deus”. Pois havia duas mãos, porque havia dois povos dispersos até os confins da terra; mas havia uma só cabeça no meio, como há um só Deus, que está acima de todos, e por meio de todos, e em todos nós.
1. E tal e tão importante dispensação ele não a realizou por meio das criaturas de outros, mas pelas suas próprias; nem por coisas criadas por ignorância e defeito, mas por aquelas que tinham a sua substância na sabedoria e no poder do seu Pai. Pois ele não era injusto, a ponto de cobiçar a propriedade alheia; nem necessitado, a ponto de não poder, com os seus próprios meios, dar vida aos seus e servir-se da sua própria criação para a salvação do homem. Pois, de fato, a criação não o poderia ter sustentado [na cruz] se ele tivesse enviado [simplesmente por encargo] o que era fruto da ignorância e do defeito. Ora, mostramos repetidas vezes que o Verbo de Deus encarnado foi suspenso num madeiro, e até os próprios hereges reconhecem que ele foi crucificado. Como, então, poderia o fruto da ignorância e do defeito sustentar aquele que contém o conhecimento de todas as coisas e é verdadeiro e perfeito? Ou como poderia aquela criação que estava oculta ao Pai e muito afastada dele ter sustentado o seu Verbo? E, se este mundo foi feito pelos anjos (pouco importa se supomos que eles ignoravam ou conheciam o Deus supremo), quando o Senhor declarou: “Pois eu estou no Pai, e o Pai está em mim”,42 como poderia esta obra dos anjos ter suportado ser carregada ao mesmo tempo com o Pai e com o Filho? E como, ainda, poderia aquela criação que está fora do Pleroma ter contido aquele que contém o Pleroma inteiro? Visto, então, que todas essas coisas são impossíveis e não podem ser provadas, somente é verdadeira aquela pregação da Igreja [que anuncia] que a sua própria criação o carregou, a qual subsiste pelo poder, pela arte e pela sabedoria de Deus; que é sustentada, de fato, de modo invisível pelo Pai, mas, ao contrário, de modo visível carregou o seu Verbo: e este é o [Verbo] verdadeiro.
2. Pois o Pai carrega ao mesmo tempo a criação e o seu próprio Verbo, e o Verbo carregado pelo Pai concede o Espírito a todos, como o Pai quer.43 A alguns ele dá, segundo o modo da criação, o que é feito;44 mas a outros [ele dá], segundo o modo da adoção, isto é, o que vem de Deus, a saber, a geração. E assim se declara um só Deus Pai, que está acima de todos, e por meio de todos, e em todos. O Pai está, de fato, acima de todos, e ele é a Cabeça de Cristo; mas o Verbo está por meio de todas as coisas e é ele mesmo a Cabeça da Igreja; enquanto o Espírito está em todos nós, e ele é a água viva,45 que o Senhor concede aos que creem nele retamente e o amam, e que sabem que “há um só Pai, que está acima de todos, e por meio de todos, e em todos nós”.46 E disso dá testemunho também João, o discípulo do Senhor, quando assim fala no Evangelho: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e, sem ele, nada se fez”.47 E depois disse do próprio Verbo: “Ele estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome”.48 E ainda, mostrando a dispensação relativa à sua natureza humana, João disse: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós”.49 E, continuando, diz: “E vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14). Assim ele indica claramente aos que querem ouvir, isto é, aos que têm ouvidos, que há um só Deus, o Pai sobre todos, e um só Verbo de Deus, que está por meio de todos, por quem todas as coisas foram feitas; e que este mundo lhe pertence e foi feito por ele, segundo a vontade do Pai, e não por anjos; nem por apostasia, defeito e ignorância; nem por algum poder de Prunico, a quem alguns deles também chamam “a Mãe”; nem por algum outro fazedor do mundo que ignorasse o Pai.
3. Pois o Criador do mundo é verdadeiramente o Verbo de Deus; e este é o nosso Senhor, que nos últimos tempos se fez homem, existindo neste mundo, e que de modo invisível contém todas as coisas criadas e está presente em toda a criação, visto que o Verbo de Deus governa e dispõe todas as coisas; e por isso veio para o que era seu de modo visível50 e se fez carne, e foi suspenso no madeiro, para resumir em si todas as coisas. “E o seu próprio povo não o recebeu”, como Moisés declarou isso mesmo entre o povo: “E a sua vida estará suspensa diante dos seus olhos, e você não crerá na sua vida”.51 Portanto, os que não o receberam não receberam a vida. “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus”.52 Pois é ele quem tem do Pai o poder sobre todas as coisas, visto que é o Verbo de Deus e verdadeiro homem, comunicando-se com os seres invisíveis à maneira do intelecto e estabelecendo uma lei observável pelos sentidos exteriores, para que todas as coisas permaneçam cada uma na sua ordem; e ele reina manifestamente sobre as coisas visíveis e pertencentes aos homens, e traz sobre todos um juízo justo e merecido; como também Davi, apontando claramente para isso, diz: “O nosso Deus virá abertamente e não guardará silêncio”.53 Depois mostra também o juízo que é trazido por ele, dizendo: “Um fogo arderá diante dele, e uma forte tempestade rugirá ao seu redor. Ele convocará o céu lá em cima, e a terra, para julgar o seu povo”.
1. Que o Senhor, então, vinha manifestamente para o que era seu, e o sustentava por meio daquela criação que é sustentada por ele mesmo, e fazia a recapitulação daquela desobediência que se dera em relação a uma árvore, mediante a obediência que foi [demonstrada por ele quando esteve suspenso] num madeiro, sendo desfeitos [os efeitos] também daquele engano pelo qual a virgem Eva, já desposada com um homem, foi infelizmente desencaminhada, isso foi felizmente anunciado, por meio da verdade [dita] pelo anjo à Virgem Maria, que estava [também desposada] com um homem.54 Pois, assim como aquela foi desencaminhada pela palavra de um anjo, de modo que fugiu de Deus depois de transgredir a sua palavra, assim esta, por uma comunicação angélica, recebeu a boa-nova de que haveria de trazer (portaret) Deus, sendo obediente à sua palavra. E, se aquela desobedeceu a Deus, esta foi persuadida a obedecer a Deus, para que a Virgem Maria se tornasse a advogada (advocata) da virgem Eva. E assim, como o gênero humano caiu na servidão da morte por meio de uma virgem, assim é resgatado por uma virgem, tendo sido a desobediência virginal contrabalançada, no prato oposto da balança, pela obediência virginal. Pois do mesmo modo o pecado do primeiro homem criado (protoplasti) recebe emenda pela correção do Primogênito, e a vinda da serpente é vencida pela simplicidade da pomba, sendo desatados aqueles laços pelos quais estávamos presos à morte.
2. Os hereges, sendo todos ignorantes e desconhecendo as disposições de Deus, e não conhecendo aquela dispensação pela qual ele assumiu a natureza humana (inscii ejus quæ est secundum hominem dispensationis), visto que se cegam a respeito da verdade, falam de fato contra a sua própria salvação. Alguns deles introduzem outro Pai além do Criador; outros, por sua vez, dizem que o mundo e a sua substância foram feitos por certos anjos; outros ainda [sustentam] que ele foi amplamente separado por Horos55 daquele que eles apresentam como o Pai, e que brotou (floruisse) de si mesmo e de si mesmo nasceu. Outros, ainda, [afirmam] que ele obteve substância, a partir do defeito e da ignorância, nas coisas contidas pelo Pai; outros, ainda, desprezam a vinda manifesta [aos sentidos] do Senhor, pois não admitem a sua encarnação; enquanto outros, ignorando a disposição [de que ele nascesse] de uma virgem, sustentam que ele foi gerado por José. E há ainda os que afirmam que nem a sua alma nem o seu corpo podem receber a vida eterna, mas apenas o homem interior. Além disso, pretendem que este [homem interior] é aquilo que neles é o entendimento (sensum), e decretam que é a única coisa que sobe “ao perfeito”. Outros [sustentam], como disse no primeiro livro, que, enquanto a alma é salva, o seu corpo não participa da salvação que vem de Deus; e nesse [livro] também expus as hipóteses de todos esses homens, e no segundo mostrei a sua fraqueza e incoerência.
1. Gn 4.10.
2. Gn 9.5-6, LXX.
3. Um dos manuscritos traz aqui: Sanguis pro sanguine ejus effundetur.
4. Mt 23.35-36; Lc 11.50.
5. Cl 1.21-22.
6. Ef 1.7.
7. Ef 2.13.
8. Ef 2.15.
9. Rm 6.12-13.
10. “Et sanguine ejus redhibitus”, que corresponde ao termo grego apokatastatheis. “Redhibere” é propriamente um termo forense, que significa fazer que um objeto seja restituído ao vendedor.
11. Cl 2.19.
12. Harvey restitui o grego assim: kai ton autou anthropon bebaios ekdechomenos, o que, segundo ele, se refere à espera paciente da “segunda vinda de Cristo para julgar o mundo”. A frase também poderia ser traduzida: “e recebendo com firmeza a sua natureza humana”.
13. Is 26.19.
14. Is 66.13-14.
15. Ez 37.1-10.
16. Ez 37.12-14.
17. Is 65.22.
18. Jo 5.14.
19. Jo 9.3.
20. Gn 2.7.
21. Jr 1.5.
22. Gl 1.15-16.
23. Jo 9.7.
24. Gn 1.26.
25. Gn 3.9.
26. Gn 3.19.
27. Fp 2.8.
28. 1Tm 2.5.
29. Mt 6.12.
30. Gn 3.8.
31. Mt 9.2; Lc 5.20.
32. Mt 9.2; Lc 5.20.
33. Lc 1.78.
34. Mt 9.8.
35. Mt 9.6.
36. Sl 32.1-2.
37. Cl 2.14.
38. 2Rs 6.6.
39. Mt 3.10.
40. Jr 23.29.
41. O grego se conservou aqui e diz: dia tes theias ektaseos ton cheiron, literalmente, “pela divina extensão das mãos”. O latim antigo diz apenas: “per extensionem manuum”.
42. Jo 14.11.
43. Desta passagem Harvey infere que Irineu sustentava a procedência do Espírito Santo do Pai e do Filho, doutrina negada pela Igreja oriental em tempos posteriores.
44. Grabe e Harvey inserem as palavras “quod est conditionis”, mas com pouca autoridade.
45. Jo 7.39.
46. Ef 4.6.
47. Jo 1.1-3.
48. Jo 1.10-12.
49. Jo 1.14.
50. O texto traz “invisibiliter”, o que parece claramente um erro.
51. Dt 28.66.
52. Jo 1.12.
53. Sl 50.3-4.
54. O texto aqui é extremamente incerto e obscuro.
55. O texto traz “porro”, o que não faz sentido; por isso Harvey o considera uma corrupção da leitura “per Horum”.
Tradução para o português a partir das versões inglesas de J. Armitage Robinson (The Demonstration of the Apostolic Preaching, Londres, SPCK, 1920, traduzida do armênio) e de Alexander Roberts e W. H. Rambaut (Against Heresies, Livro V, Ante-Nicene Fathers, vol. 1, Buffalo, 1885), conferidas com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são dos tradutores ingleses; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Irineu cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.