Irineu de Lião · Contra as Heresias, Livro V (continuação)
A tradição da Igreja contra os hereges; a vitória de Cristo sobre o tentador; o Anticristo segundo Daniel e Paulo.
1. Ora, todos estes [hereges] são muito posteriores aos bispos a quem os apóstolos confiaram as Igrejas, fato que me empenhei ao máximo em demonstrar no terceiro livro. Segue-se, então, naturalmente, que esses hereges já mencionados, visto que são cegos para a verdade e se desviam do caminho [reto], andarão por caminhos diversos; e por isso as pegadas da sua doutrina estão espalhadas aqui e ali, sem concordância nem conexão. Mas o caminho dos que pertencem à Igreja abrange o mundo inteiro, pois possui a tradição segura dos apóstolos, e nos permite ver que a fé de todos é uma só e a mesma, já que todos recebem um só e o mesmo Deus Pai, creem na mesma dispensação da encarnação do Filho de Deus, conhecem o mesmo dom do Espírito, praticam os mesmos mandamentos, conservam a mesma forma de constituição eclesiástica,1 esperam a mesma vinda do Senhor e aguardam a mesma salvação do homem completo, isto é, da alma e do corpo. E, sem dúvida, a pregação da Igreja é verdadeira e firme, e nela se mostra em todo o mundo um só e o mesmo caminho de salvação. Pois a ela foi confiada a luz de Deus; e por isso a “sabedoria” de Deus, por meio da qual ela salva todos os homens, “é anunciada na [sua] saída; profere [a sua voz] fielmente nas ruas, é pregada no alto das muralhas e fala continuamente às portas da cidade”.2 Pois a Igreja prega a verdade em toda parte, e ela é o candelabro de sete braços que leva a luz de Cristo.
2. Os que abandonam a pregação da Igreja, portanto, põem em dúvida o conhecimento dos santos presbíteros, sem considerar quanto mais vale um homem religioso, ainda que em condição privada, do que um sofista blasfemo e atrevido.3 Ora, tais são todos os hereges e os que imaginam ter descoberto algo além da verdade, de modo que, seguindo as coisas já mencionadas, andando pelo seu caminho de modo variado, desarmônico e insensato, sem se manter sempre nas mesmas opiniões sobre as mesmas coisas, como cegos guiados por cegos, cairão merecidamente no fosso da ignorância que jaz no seu caminho, sempre buscando e nunca encontrando a verdade.4 Convém-nos, portanto, evitar as suas doutrinas e tomar cuidado para não sofrermos dano algum da parte deles; mas fugir para a Igreja, ser criados no seu seio e ser nutridos com as Escrituras do Senhor. Pois a Igreja foi plantada como um jardim (paradisus) neste mundo; por isso diz o Espírito de Deus: “De toda árvore do jardim você pode comer livremente”,5 isto é: Comam de toda Escritura do Senhor; mas não comam com espírito altivo, nem toquem em discórdia herética alguma. Pois esses homens professam ter eles mesmos o conhecimento do bem e do mal, e colocam a sua mente ímpia acima do Deus que os fez. Formam, portanto, opiniões sobre o que está além dos limites do entendimento. Por isso também o apóstolo diz: “Não sejam sábios além do que convém ser sábios, mas sejam sábios com prudência”,6 para que não sejamos lançados fora do paraíso da vida por comer do “conhecimento” desses homens (aquele conhecimento que sabe mais do que deveria). Neste paraíso o Senhor introduziu os que obedecem ao seu chamado, “fazendo convergir em si todas as coisas, tanto as do céu como as da terra”;7 mas as coisas do céu são espirituais, enquanto as da terra constituem a dispensação na natureza humana (secundum hominem est dispositio). Estas coisas, portanto, ele recapitulou em si: unindo o homem ao Espírito e fazendo o Espírito habitar no homem, ele mesmo se torna a cabeça do Espírito e dá o Espírito para ser a cabeça do homem; pois por meio dele (o Espírito) vemos, ouvimos e falamos.
1. Ele, portanto, na sua obra de recapitulação, resumiu todas as coisas, tanto travando guerra contra o nosso inimigo como esmagando aquele que no princípio nos levara cativos em Adão, e pisou a sua cabeça, como você pode perceber no Gênesis, onde Deus disse à serpente: “E porei inimizade entre você e a mulher, e entre a sua descendência e a descendência dela; ele estará à espreita (observabit8) da sua cabeça, e você à espreita do calcanhar dele”.9 Pois desde aquele tempo aquele que haveria de nascer de uma mulher, [a saber,] da Virgem, à semelhança de Adão, foi anunciado como quem espreitava a cabeça da serpente. Esta é a descendência de que o apóstolo fala na Epístola aos Gálatas: “que a lei das obras foi estabelecida até que viesse a descendência a quem se fez a promessa”.10 Isso se mostra numa luz ainda mais clara na mesma epístola, onde ele fala assim: “Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher”.11 Pois, de fato, o inimigo não teria sido vencido com justiça, se não tivesse sido um homem [nascido] de mulher quem o venceu. Pois foi por meio de uma mulher que ele levou vantagem sobre o homem no princípio, apresentando-se como adversário do homem. E por isso o Senhor se declara o Filho do Homem, compreendendo em si aquele homem original do qual a mulher foi formada (ex quo ea quæ secundum mulierem est plasmatio facta est), para que, assim como a nossa espécie desceu à morte por meio de um homem vencido, assim subamos de novo à vida por meio de um vencedor; e, assim como por meio de um homem a morte recebeu a palma [da vitória] contra nós, assim de novo por meio de um homem recebamos a palma contra a morte.
2. Ora, o Senhor não teria recapitulado em si aquela antiga e primeira inimizade contra a serpente, cumprindo a promessa do Criador (Demiurgi) e executando a sua ordem, se tivesse vindo de outro Pai. Mas, como é um só e o mesmo aquele que nos formou no princípio e enviou o seu Filho no fim, o Senhor executou a sua ordem, nascendo de mulher, tanto destruindo o nosso adversário como aperfeiçoando o homem segundo a imagem e semelhança de Deus. E por essa razão não tirou de nenhuma outra fonte os meios de confundi-lo senão das palavras da Lei, e serviu-se do mandamento do Pai como auxílio para a destruição e a confusão do anjo apóstata. Jejuando quarenta dias, como Moisés e Elias, teve fome depois, primeiro, para que percebamos que ele era homem real e verdadeiro, pois é próprio do homem sentir fome quando jejua; e, em segundo lugar, para que o seu adversário tivesse ocasião de atacá-lo. Pois, assim como no princípio foi por meio do alimento que [o inimigo] persuadiu o homem, embora este não sofresse fome, a transgredir os mandamentos de Deus, assim no fim não conseguiu persuadir aquele que tinha fome a tomar o alimento que procedia de Deus. Pois, ao tentá-lo, disse: “Se você é o Filho de Deus, mande que estas pedras se transformem em pão”.12 Mas o Senhor o repeliu com o mandamento da Lei, dizendo: “Está escrito: O homem não vive só de pão”.13 Quanto àquelas palavras [do seu inimigo]: “Se você é o Filho de Deus”, [o Senhor] nada comentou; mas, reconhecendo assim a sua natureza humana, frustrou o adversário e esgotou a força do seu primeiro ataque por meio da palavra do seu Pai. A corrupção do homem, portanto, ocorrida no paraíso pelo comer [dos nossos primeiros pais, ambos], foi desfeita pela privação de alimento [do Senhor] neste mundo.14 Mas ele, vencido assim pela Lei, tentou de novo um ataque, citando ele mesmo um mandamento da Lei. Pois, levando-o ao ponto mais alto do templo, disse-lhe: “Se você é o Filho de Deus, jogue-se daqui. Porque está escrito: Deus dará ordens aos seus anjos a seu respeito, e eles o sustentarão nas suas mãos, para que você não tropece em alguma pedra”,15 escondendo assim uma falsidade sob a aparência da Escritura, como fazem todos os hereges. Pois de fato estava escrito: “Que ele deu ordens aos seus anjos a respeito dele”; mas “jogue-se daqui” nenhuma Escritura disse a respeito dele: esse tipo de persuasão o diabo tirou de si mesmo. Por isso o Senhor o refutou pela Lei, quando disse: “Também está escrito: Não ponha à prova o Senhor, seu Deus”,16 indicando pela palavra contida na Lei aquilo que é dever do homem, que não ponha Deus à prova; e, quanto a si mesmo, visto que aparecera em forma humana, [declarando] que não poria à prova o Senhor, seu Deus.17 O orgulho da razão, portanto, que havia na serpente, foi anulado pela humildade encontrada no homem [Cristo], e já por duas vezes o diabo foi vencido pela Escritura, quando foi descoberto aconselhando coisas contrárias ao mandamento de Deus e se mostrou inimigo de Deus pela [expressão dos] seus pensamentos. Então ele, assim vencido de modo notável, e depois, por assim dizer, concentrando as suas forças e pondo em ordem todo o poder de que dispunha para a falsidade, em terceiro lugar “mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória deles”,18 dizendo, como relata Lucas: “Tudo isto lhe darei (porque me foi entregue, e o dou a quem eu quiser), se, prostrado, você me adorar”. O Senhor, então, expondo-o no seu verdadeiro caráter, diz: “Vá embora, Satanás, porque está escrito: Adore o Senhor, seu Deus, e preste culto somente a ele”.19 Com esse nome ele tanto o desmascarou como mostrou [ao mesmo tempo] quem ele mesmo era. Pois a palavra hebraica “Satanás” significa apóstata. E assim, vencendo-o pela terceira vez, rejeitou-o de si definitivamente, como vencido pela Lei; e foi desfeita aquela violação do mandamento de Deus ocorrida em Adão, por meio do preceito da Lei que o Filho do Homem observou, ele que não transgrediu o mandamento de Deus.
3. Quem é, então, este Senhor Deus de quem Cristo dá testemunho, a quem ninguém porá à prova, a quem todos devem adorar e só a ele prestar culto? É, sem sombra de dúvida, aquele Deus que também deu a Lei. Pois essas coisas tinham sido preditas na Lei, e pelas palavras (sententiam) da Lei o Senhor mostrou que a Lei de fato anuncia o Verbo de Deus da parte do Pai; e o anjo apóstata de Deus é destruído pela sua voz, sendo exposto nas suas verdadeiras cores e vencido pelo Filho do Homem, que guarda o mandamento de Deus. Pois, assim como no princípio ele seduziu o homem a transgredir a lei do seu Criador e com isso o pôs sob o seu poder (e o seu poder consiste na transgressão e na apostasia, e com elas amarrou o homem [a si]), assim, por outro lado, era necessário que, por meio do próprio homem, ele, vencido, fosse amarrado com as mesmas correntes com que amarrara o homem, para que o homem, posto em liberdade, voltasse ao seu Senhor, deixando a ele (Satanás) aquelas amarras com que ele mesmo fora acorrentado, isto é, o pecado. Pois, quando Satanás é amarrado, o homem é posto em liberdade; visto que “ninguém pode entrar na casa do valente e roubar-lhe os bens, sem primeiro amarrar o próprio valente”.20 O Senhor, portanto, o expõe como quem fala contra a palavra daquele Deus que fez todas as coisas e o subjuga por meio do mandamento. Ora, a Lei é o mandamento de Deus. O Homem prova que ele é fugitivo da Lei e transgressor dela, e também apóstata de Deus. Depois [de o Homem ter feito isso], o Verbo o amarrou com segurança como fugitivo de si mesmo e saqueou os seus bens, isto é, aqueles homens que ele mantinha em servidão e de quem se servia injustamente para os seus fins. E com justiça, de fato, é levado cativo aquele que injustamente levara os homens à servidão; ao passo que o homem, que fora levado cativo em tempos passados, foi arrancado das mãos do seu possuidor, segundo a terna misericórdia de Deus Pai, que teve compaixão da obra das suas mãos e lhe deu a salvação, restaurando-a por meio do Verbo, isto é, por Cristo, para que o homem aprendesse por prova efetiva que recebe a incorruptibilidade não de si mesmo, mas pelo dom gratuito de Deus.
1. Assim, pois, o Senhor mostra claramente que era o verdadeiro Senhor e o único Deus aquele que fora apresentado pela Lei; pois aquele que a Lei proclamava como Deus, esse mesmo Cristo apontou como o Pai, a quem também convém que só os discípulos de Cristo sirvam. Por meio das palavras da Lei ele confundiu inteiramente o nosso adversário; e a Lei nos manda louvar a Deus Criador (Demiurgum) e só a ele servir. Sendo assim, não devemos buscar outro Pai além dele ou acima dele, pois há um só Deus, que justifica o circunciso pela fé e o incircunciso por meio da fé.21 Pois, se houvesse algum outro Pai perfeito acima dele, ele (Cristo) de modo algum teria derrubado Satanás por meio das palavras e dos mandamentos dele. Pois uma ignorância não pode ser desfeita por meio de outra ignorância, assim como um defeito não o pode por outro defeito. Se, portanto, a Lei se deve à ignorância e ao defeito, como poderiam as palavras nela contidas reduzir a nada a ignorância do diabo e vencer o valente? Pois o valente não pode ser vencido por um inferior nem por um igual, mas por alguém que possua poder maior. Ora, o Verbo de Deus é o superior acima de todos, ele que é proclamado em alta voz na Lei: “Escute, Israel, o Senhor, seu Deus, é um só Deus”; e: “Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração”; e: “A ele você adorará, e só a ele servirá”.22 Depois, no Evangelho, abatendo a apostasia por meio dessas expressões, ele tanto venceu o valente pela voz do seu Pai como reconhece que o mandamento da Lei exprime o seu próprio pensamento, quando diz: “Não ponha à prova o Senhor, seu Deus”.23 Pois não confundiu o adversário pela palavra de algum outro, mas pela que pertencia ao seu próprio Pai, e assim venceu o valente.
2. Ele ensinou pelo seu mandamento que nós, que fomos libertados, devemos, quando temos fome, tomar o alimento que é dado por Deus; e que, colocados na posição elevada de toda graça [que se pode receber], não devemos, nem confiando em obras de justiça, nem quando adornados com [dons de] ministério extraordinários, de modo algum nos ensoberbecer, nem pôr Deus à prova, mas devemos ter humildade em todas as coisas e ter à mão [esta palavra]: “Não ponha à prova o Senhor, seu Deus”.24 Como também o apóstolo ensinou, dizendo: “Não aspirando a coisas altas, mas acomodando-se às humildes”,25 para que não sejamos enredados pelas riquezas, nem pela glória mundana, nem pela fantasia do momento, mas saibamos que devemos “adorar o Senhor, seu Deus, e prestar culto somente a ele” (Mt 4.10), e não dar ouvidos àquele que prometeu falsamente coisas que não eram suas, quando disse: “Tudo isso lhe darei se, prostrado, você me adorar” (Mt 4.9). Pois ele mesmo confessa que adorá-lo e fazer a sua vontade é cair da glória de Deus. E de que coisa agradável ou boa pode participar aquele que caiu? Ou que outra coisa pode tal pessoa esperar ou aguardar, senão a morte? Pois a morte é vizinha próxima daquele que caiu. Daí se segue também que ele não dará o que prometeu. Pois como pode fazer concessões àquele que caiu? Além disso, visto que Deus governa os homens e também a ele, e sem a vontade do nosso Pai que está nos céus nem um pardal cai no chão,26 segue-se que a sua declaração: “Tudo isto me foi entregue, e o dou a quem eu quiser”, procede dele quando inchado de orgulho. Pois a criação não está sujeita ao seu poder, visto que ele mesmo não passa de uma entre as coisas criadas. Nem dará ele aos homens o governo sobre os homens; mas tanto todas as outras coisas como todos os assuntos humanos são ordenados segundo a disposição de Deus Pai. Além disso, o Senhor declara que “o diabo é mentiroso desde o princípio, e a verdade não está nele”.27 Se, então, ele é mentiroso e a verdade não está nele, certamente não disse a verdade, mas uma mentira, quando disse: “Pois tudo isto me foi entregue, e o dou a quem eu quiser”.28
1. Ele já estava, de fato, acostumado a mentir contra Deus, com o propósito de desencaminhar os homens. Pois no princípio, quando Deus deu ao homem uma variedade de coisas para alimento, ao mesmo tempo que lhe ordenou não comer de uma só árvore, como a Escritura nos diz que Deus disse a Adão: “De toda árvore que está no jardim você comerá o alimento; mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, desta vocês não comerão; pois no dia em que dela comerem, morrerão de morte”;29 ele então, mentindo contra o Senhor, tentou o homem, como a Escritura diz que a serpente disse à mulher: “Deus disse de fato isto: Vocês não comerão de nenhuma árvore do jardim?”30 E, quando ela desmascarou a falsidade e relatou simplesmente a ordem, como ele a havia dado: “De toda árvore do jardim comeremos; mas do fruto da árvore que está no meio do jardim Deus disse: Vocês não comerão dele, nem tocarão nele, para que não morram”,31 tendo [assim] aprendido da mulher a ordem de Deus, pôs em ação a sua astúcia e por fim a enganou com uma falsidade, dizendo: “Vocês não morrerão de morte; pois Deus sabia que, no dia em que dele comerem, os seus olhos se abrirão, e vocês serão como deuses, conhecendo o bem e o mal”.32 Em primeiro lugar, então, no jardim de Deus disputou acerca de Deus, como se Deus não estivesse ali, pois ignorava a grandeza de Deus; e depois, em segundo lugar, tendo sabido pela mulher que Deus dissera que eles morreriam se provassem da árvore mencionada, abrindo a boca, proferiu a terceira falsidade: “Vocês não morrerão de morte”. Mas que Deus era verdadeiro e a serpente mentirosa, provou-o o resultado, pois a morte passou sobre os que comeram. Pois, juntamente com o fruto, caíram também sob o poder da morte, porque comeram em desobediência; e a desobediência a Deus acarreta a morte. Por isso, como se tornaram devedores à morte, desde aquele [momento] foram entregues a ela.
2. Assim, pois, no dia em que comeram, nesse mesmo morreram e se tornaram devedores da morte, visto que era um só dia da criação. Pois está dito: “Houve tarde e houve manhã, um só dia” (Gn 1.5). Ora, nesse mesmo dia em que comeram, nesse também morreram. Mas, segundo o ciclo e o curso dos dias, conforme os quais um é chamado primeiro, outro segundo e outro terceiro, se alguém procurar com diligência saber em que dia, dos sete, Adão morreu, o encontrará examinando a dispensação do Senhor. Pois, resumindo em si todo o gênero humano desde o princípio até o fim, resumiu também a sua morte. Daí fica claro que o Senhor sofreu a morte, em obediência ao seu Pai, naquele dia em que Adão morreu ao desobedecer a Deus. Ora, ele morreu no mesmo dia em que comeu. Pois Deus disse: “No dia em que dela comerem, morrerão de morte” (Gn 2.17). O Senhor, portanto, recapitulando em si este dia, sofreu a sua paixão no dia anterior ao sábado, isto é, o sexto dia da criação, dia em que o homem foi criado, concedendo-lhe assim, por meio da sua paixão, uma segunda criação, que é aquela [criação] a partir da morte. E há ainda alguns que situam a morte de Adão no milésimo ano; pois, visto que “um dia do Senhor é como mil anos”,33 ele não ultrapassou os mil anos, mas morreu dentro deles, cumprindo assim a sentença do seu pecado. Seja, portanto, com respeito à desobediência, que é a morte; seja [considerando] que, por causa dela, foram entregues à morte e feitos seus devedores; seja com respeito [ao fato de que] num só e mesmo dia em que comeram também morreram (pois é um só dia da criação); seja [considerando este ponto]: que, quanto a este ciclo de dias, morreram no dia em que também comeram, isto é, o dia da preparação, que se chama “a ceia pura”, isto é, o sexto dia da festa, que o Senhor também mostrou quando sofreu nesse dia; seja [refletindo] que ele (Adão) não ultrapassou os mil anos, mas morreu dentro do seu limite; segue-se que, em relação a todos esses significados, Deus é de fato verdadeiro. Pois morreram os que provaram da árvore; e a serpente se prova mentirosa e assassina, como o Senhor disse dela: “Pois ele é assassino desde o princípio, e a verdade não está nele”.34
1. Assim, pois, como o diabo mentiu no princípio, assim também mentiu no fim, quando disse: “Tudo isto me foi entregue, e o dou a quem eu quiser”.35 Pois não é ele quem estabeleceu os reinos deste mundo, mas Deus; pois “o coração do rei está na mão de Deus”.36 E o Verbo também diz por meio de Salomão: “Por meio de mim os reis reinam, e os príncipes administram a justiça. Por meio de mim os chefes são elevados, e por meio de mim os reis governam a terra”.37 Também o apóstolo Paulo diz sobre este mesmo assunto: “Estejam sujeitos a todas as autoridades superiores; pois não há autoridade que não venha de Deus, e as que existem foram ordenadas por Deus”.38 E ainda, a respeito delas, diz: “Pois não é sem motivo que a autoridade traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar quem pratica o mal”.39 Ora, que ele disse estas palavras não a respeito de poderes angélicos, nem de governantes invisíveis, como alguns se atrevem a expor a passagem, mas a respeito das autoridades humanas propriamente ditas, [ele o mostra quando] diz: “É por isso também que vocês pagam impostos, porque são ministros de Deus, atendendo a este mesmo serviço”.40 Isso também o Senhor confirmou, quando não fez aquilo a que o diabo o tentava, mas mandou que se pagasse o imposto aos cobradores por si e por Pedro;41 porque “são ministros de Deus, atendendo a este mesmo serviço”.
2. Pois, visto que o homem, afastando-se de Deus, chegou a tal grau de furor que passou a considerar o próprio irmão como inimigo, e se entregou sem temor a toda espécie de conduta turbulenta, ao homicídio e à avareza, Deus impôs ao gênero humano o temor do homem, já que não reconheciam o temor de Deus, para que, sujeitos à autoridade dos homens e contidos pelas suas leis, alcançassem algum grau de justiça e exercessem a tolerância mútua por medo da espada suspensa bem à vista, como diz o apóstolo: “Pois não é sem motivo que a autoridade traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar quem pratica o mal” (Rm 13.4). E por essa razão também os próprios magistrados, tendo as leis como veste de justiça, sempre que agem de modo justo e legítimo, não serão chamados a prestar contas da sua conduta, nem estarão sujeitos a castigo. Mas tudo o que fizerem para a subversão da justiça, de modo iníquo, ímpio, ilegal e tirânico, nessas coisas também perecerão; pois o justo juízo de Deus vem igualmente sobre todos e em nenhum caso falha. O governo terreno, portanto, foi estabelecido por Deus para o benefício das nações, e não pelo diabo, que nunca está em repouso e que nem sequer gosta de ver as nações viverem de modo tranquilo; foi estabelecido para que, sob o temor do governo humano, os homens não se devorem uns aos outros como peixes, mas, por meio do estabelecimento de leis, contenham o excesso de maldade entre as nações. E, considerados deste ponto de vista, os que nos cobram impostos são “ministros de Deus, atendendo a este mesmo propósito” (Rm 13.6).
3. Como, pois, “as autoridades que existem são ordenadas por Deus” (Rm 13.1), é claro que o diabo mentiu quando disse: “Estas coisas me foram entregues, e as dou a quem eu quiser” (Lc 4.6). Pois pela lei do mesmo Ser que chama os homens à existência são também estabelecidos os reis, adequados aos homens que naquele tempo estão postos sob o seu governo. Alguns desses [governantes] são dados para a correção e o benefício dos súditos e para a preservação da justiça; outros, para fins de temor, castigo e repreensão; outros, conforme [os súditos] o merecem, são para engano, desonra e orgulho; ao passo que o justo juízo de Deus, como já observei, passa igualmente sobre todos. O diabo, porém, como é o anjo apóstata, só pode ir até este ponto, como fez no princípio: [a saber,] enganar e desencaminhar a mente do homem para que desobedeça aos mandamentos de Deus, e ir obscurecendo pouco a pouco o coração dos que procurassem servi-lo, para que esqueçam o verdadeiro Deus e o adorem a ele como Deus.
4. Assim como alguém que, sendo apóstata e apoderando-se de modo hostil do território de outro homem, atormentasse os seus habitantes, a fim de reivindicar para si a glória de rei entre os que ignoram a sua apostasia e o seu roubo; assim também o diabo, sendo um dos anjos postos sobre o espírito do ar, como o apóstolo Paulo declarou na sua Epístola aos Efésios,42 tornando-se invejoso do homem, fez-se apóstata da lei divina; pois a inveja é coisa alheia a Deus. E, como a sua apostasia foi exposta pelo homem, e o homem se tornou [o meio de] sondar os seus pensamentos (et examinatio sententiæ ejus, homo factus est), ele se aplicou a isso com determinação cada vez maior, em oposição ao homem, invejando a sua vida e desejando envolvê-lo no seu próprio poder apóstata. O Verbo de Deus, porém, o Criador de todas as coisas, vencendo-o por meio da natureza humana e mostrando que ele é apóstata, colocou-o, ao contrário, sob o poder do homem. Pois diz: “Eis que eu dou a vocês o poder de pisar serpentes e escorpiões e sobre todo o poder do inimigo”,43 para que, assim como ele obteve domínio sobre o homem pela apostasia, assim de novo a sua apostasia fosse privada de poder por meio do homem que se volta outra vez para Deus.
1. E não somente pelos pormenores já mencionados, mas também por meio dos acontecimentos que se darão no tempo do Anticristo, se mostra que ele, sendo apóstata e ladrão, deseja ser adorado como Deus; e que, embora não passe de um escravo, quer ser proclamado rei. Pois ele (o Anticristo), dotado de todo o poder do diabo, virá, não como rei justo, nem como rei legítimo, [isto é, um rei] submisso a Deus, mas como ímpio, injusto e sem lei; como apóstata, iníquo e homicida; como ladrão, concentrando em si [toda] a apostasia satânica, e pondo de lado os ídolos para persuadir [os homens] de que ele mesmo é Deus, erguendo-se a si mesmo como o único ídolo e tendo em si os múltiplos erros dos outros ídolos. Faz isso para que os que [agora] adoram o diabo por meio de muitas abominações o sirvam a ele por meio deste único ídolo; dele fala o apóstolo assim na segunda Epístola aos Tessalonicenses: “A não ser que venha primeiro a apostasia, e seja revelado o homem do pecado, o filho da perdição, o qual se opõe e se exalta acima de tudo o que se chama Deus ou é objeto de culto, a ponto de assentar-se no santuário de Deus, apresentando-se como se fosse Deus” (2Ts 2.3-4). O apóstolo, portanto, indica claramente a sua apostasia, e que ele se eleva acima de tudo o que se chama Deus ou é objeto de culto, isto é, acima de todo ídolo (pois estes são de fato assim chamados pelos homens, mas não são [realmente] deuses); e que ele procurará de modo tirânico apresentar-se como Deus.
2. Além disso, ele (o apóstolo) indicou também aquilo que mostrei de muitos modos: que o templo em Jerusalém foi feito por ordem do verdadeiro Deus. Pois o próprio apóstolo, falando em seu próprio nome, chamou-o claramente templo de Deus. Ora, mostrei no terceiro livro que ninguém é chamado Deus pelos apóstolos, quando falam por si mesmos, senão aquele que verdadeiramente é Deus, o Pai de nosso Senhor, por cujas ordens o templo que está em Jerusalém foi construído para aqueles fins que já mencionei; no qual [templo] o inimigo se assentará, procurando apresentar-se como o Cristo, como também o Senhor declara: “Quando, pois, vocês virem a abominação da desolação, de que falou o profeta Daniel, situada no lugar santo (quem lê entenda), então os que estiverem na Judeia fujam para os montes; e quem estiver no terraço não desça para tirar alguma coisa de sua casa; pois haverá então grande tribulação, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem jamais haverá”.44
3. Também Daniel, olhando adiante para o fim do último reino, isto é, os dez últimos reis, entre os quais o reino daqueles homens será repartido e sobre os quais virá o filho da perdição, declara que dez chifres brotarão da besta, e que outro chifre pequeno se levantará no meio deles, e que três dos primeiros serão arrancados diante dele. Ele diz: “E eis que neste chifre havia olhos como olhos de homem, e uma boca que falava grandes coisas, e o seu aspecto era mais robusto que o dos seus companheiros. Eu olhava, e este chifre fazia guerra contra os santos e prevalecia contra eles, até que veio o Ancião de Dias e fez justiça aos santos do Deus altíssimo, e chegou o tempo, e os santos possuíram o reino”.45 Depois, mais adiante, na interpretação da visão, foi-lhe dito: “A quarta besta será o quarto reino sobre a terra, que superará todos os outros reinos, e devorará a terra inteira, e a pisará, e a fará em pedaços. E os seus dez chifres são dez reis que se levantarão; e depois deles se levantará outro, que superará em más obras todos os que vieram antes dele, e derrubará três reis; e falará palavras contra o Deus altíssimo, e oprimirá os santos do Deus altíssimo, e pretenderá mudar os tempos e as leis; e [tudo] será entregue nas suas mãos por um tempo, tempos e metade de um tempo”,46 isto é, por três anos e seis meses, tempo durante o qual, quando vier, reinará sobre a terra. Dele também o apóstolo Paulo, falando de novo na segunda [Epístola] aos Tessalonicenses e anunciando ao mesmo tempo a causa da sua vinda, diz assim: “E então será revelado o iníquo, a quem o Senhor Jesus matará com o sopro de sua boca e destruirá pela manifestação de sua vinda; cuja vinda [isto é, a do iníquo] é segundo a ação de Satanás, com todo poder, sinais e prodígios da mentira, e com todo engano de injustiça para os que perecem, porque não acolheram o amor da verdade para serem salvos. E por isso Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam na mentira; a fim de que sejam julgados todos os que não creram na verdade, mas consentiram na iniquidade”.47
4. O Senhor também falou assim aos que não criam nele: “Eu vim em nome de meu Pai, e vocês não me recebem; quando outro vier em seu próprio nome, a esse vocês receberão”,48 chamando o Anticristo de “o outro”, porque ele está alheio ao Senhor. Este é também o juiz injusto que o Senhor mencionou como alguém “que não temia a Deus, nem respeitava homem algum”,49 ao qual a viúva, no seu esquecimento de Deus (isto é, a Jerusalém terrena), recorreu para ser vingada do seu adversário. E isso ele também fará no tempo do seu reino: transferirá o seu reino para aquela [cidade] e se assentará no templo de Deus, desencaminhando os que o adoram, como se ele fosse o Cristo. Neste sentido Daniel diz ainda: “E ele assolará o lugar santo; e o pecado foi dado como sacrifício,50 e a justiça foi lançada por terra; e ele agiu (fecit) e prosperou”.51 E o anjo Gabriel, ao explicar a sua visão, declara a respeito desta pessoa: “E perto do fim do reino deles se levantará um rei de semblante ferocíssimo, que entende questões [obscuras], extremamente poderoso, cheio de prodígios; e ele corromperá, dirigirá, influenciará (faciet) e abaterá os fortes, e também o povo santo; e o seu jugo será dirigido como uma coroa [em volta do pescoço deles]; o engano estará na sua mão, e ele se exaltará no seu coração; também arruinará a muitos pelo engano e levará muitos à perdição, esmagando-os na sua mão como ovos”.52 E então indica o tempo que durará a sua tirania, durante o qual serão postos em fuga os santos, os que oferecem a Deus um sacrifício puro: “E na metade da semana”, diz ele, “o sacrifício e a libação serão tirados, e a abominação da desolação [será trazida] ao templo; e até a consumação do tempo a desolação será completa”.53 Ora, três anos e seis meses constituem a metade da semana.
5. De todas estas passagens se nos revelam não somente os pormenores da apostasia e [as obras] daquele que concentra em si todo erro satânico, mas também que há um só e o mesmo Deus Pai, que foi anunciado pelos profetas, mas manifestado por Cristo. Pois, se o que Daniel profetizou acerca do fim foi confirmado pelo Senhor, quando disse: “Quando vocês virem a abominação da desolação, de que falou o profeta Daniel”54 (e o anjo Gabriel deu a Daniel a interpretação das visões, e ele é o arcanjo do Criador (Demiurgi), que também anunciou a Maria a vinda visível e a encarnação de Cristo), então se indica do modo mais manifesto um só e o mesmo Deus, que enviou os profetas, fez a promessa55 do Filho e nos chamou ao seu conhecimento.
1. “Et eandem figuram ejus quæ est erga ecclesiam ordinationis custodientibus.” Grabe supõe que isto se refere ao ministério ordenado da Igreja, mas Harvey pensa que se refere, mais provavelmente, à sua constituição geral.
2. Pv 1.20-21.
3. Isto é, o cristão comum em contraste com o sofista das escolas.
4. 2Tm 3.7.
5. Gn 2.16.
6. Rm 12.3.
7. Ef 1.10.
8. τηρήσει e τερέσει provavelmente foram confundidos.
9. Gn 3.15.
10. Gl 3.19.
11. Gl 4.4.
12. Mt 4.3.
13. Dt 8.3.
14. O latim desta frase obscura é: Quæ ergo fuit in Paradiso repletio hominis per duplicem gustationem, dissoluta est per eam, quæ fuit in hoc mundo, indigentiam. Harvey pensa que repletio é um erro do tradutor, que leu anaplerosis em vez de anaperosis. Essa conjectura foi adotada acima.
15. Sl 91.11-12.
16. Dt 6.16.
17. Esta frase é de grande obscuridade.
18. Lc 4.6-7.
19. Mt 4.10.
20. Mt 12.29; Mc 3.27.
21. Rm 3.30.
22. Dt 6.4-5, 13.
23. Mt 4.7.
24. Dt 6.16.
25. Rm 12.16.
26. Mt 10.29.
27. Jo 8.44.
28. Lc 4.6.
29. Gn 2.16-17.
30. Gn 3.1.
31. Gn 3.2-3.
32. Gn 3.4.
33. 2Pe 3.8.
34. Jo 8.44.
35. Mt 4.9; Lc 4.6.
36. Pv 21.1.
37. Pv 8.15-16.
38. Rm 13.1.
39. Rm 13.4.
40. Rm 13.6.
41. Mt 17.27.
42. Ef 2.2.
43. Lc 10.19.
44. Mt 24.15-17, 21.
45. Dn 7.8, 20-22.
46. Dn 7.23-25.
47. 2Ts 2.8-12.
48. Jo 5.43.
49. Lc 18.2.
50. Isto pode referir-se a Antíoco Epífanes, protótipo do Anticristo, que ofereceu porcos sobre o altar do templo em Jerusalém. A versão da Septuaginta traz: edothe epi ten thusian hamartia, isto é, o pecado foi dado contra (ou sobre) o sacrifício.
51. Dn 8.11-12.
52. Dn 8.23-25.
53. Dn 9.27.
54. Mt 24.15.
55. Os manuscritos trazem “præmisit”, mas Harvey sugere “promisit”, que adotamos.
Tradução para o português a partir das versões inglesas de J. Armitage Robinson (The Demonstration of the Apostolic Preaching, Londres, SPCK, 1920, traduzida do armênio) e de Alexander Roberts e W. H. Rambaut (Against Heresies, Livro V, Ante-Nicene Fathers, vol. 1, Buffalo, 1885), conferidas com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são dos tradutores ingleses; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Irineu cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.