Irineu de Lião · Contra as Heresias, Livro V (conclusão)

Capítulos 33 a 36: as promessas da terra renovada e a visão de Deus

As promessas da terra renovada, segundo os profetas e os presbíteros que viram João; a visão de Deus e o fim da obra.

Capítulo XXXIII. Novas provas da mesma proposição, tiradas das promessas feitas por Cristo, quando declarou que beberia do fruto da videira com os seus discípulos no reino de seu Pai, ao mesmo tempo que prometeu recompensá-los cem vezes mais e fazê-los participar de banquetes. A bênção pronunciada por Jacó já havia apontado isso, como papias e os anciãos o interpretaram

1. Por esta razão, quando estava para sofrer, a fim de anunciar a Abraão e aos que estavam com ele a boa-nova da herança que se abria, [Cristo], depois de dar graças segurando o cálice, de beber dele e de dá-lo aos discípulos, disse-lhes: “Bebam todos dele: isto é o meu sangue da nova aliança, que será derramado por muitos para remissão de pecados. Mas eu lhes digo que de agora em diante não beberei mais do fruto desta videira, até aquele dia em que o beberei novo com vocês no Reino de meu Pai.”1 Assim, pois, ele mesmo renovará a herança da terra e reorganizará o mistério da glória dos [seus] filhos; como diz Davi: “Aquele que renovou a face da terra.”2 Ele prometeu beber do fruto da videira com os seus discípulos, indicando assim estas duas coisas: a herança da terra, na qual se bebe o novo fruto da videira, e a ressurreição dos seus discípulos na carne. Pois a carne nova que ressuscita é a mesma que também recebeu o cálice novo. E de modo algum se pode entender que ele beba do fruto da videira estando instalado com os seus [discípulos] lá em cima, num lugar supraceleste; nem, por outro lado, aqueles que o bebem são desprovidos de carne, pois beber daquilo que procede da videira é próprio da carne, e não do espírito.

2. E por esta razão o Senhor declarou: “Quando você der um jantar ou uma ceia, não convide os seus amigos, nem os seus vizinhos, nem os seus parentes, para que não o convidem por sua vez e assim o recompensem. Mas convide os coxos, os cegos e os pobres, e você será bem-aventurado, porque eles não têm com que recompensá-lo, mas a recompensa lhe será dada na ressurreição dos justos.”3 E outra vez ele diz: “Todo aquele que tiver deixado campos, ou casas, ou pais, ou irmãos, ou filhos por minha causa, receberá neste mundo cem vezes mais, e no mundo vindouro herdará a vida eterna.”4 Pois o que são as [recompensas] de cem vezes mais neste mundo, os banquetes oferecidos aos pobres e as ceias pelas quais se recebe retribuição? Elas [terão lugar] nos tempos do Reino, isto é, no sétimo dia, que foi santificado, no qual Deus descansou de todas as obras que criou, o qual é o verdadeiro sábado dos justos, em que não se ocuparão em nenhum trabalho terreno, mas terão uma mesa posta, preparada para eles por Deus, que os suprirá com toda sorte de iguarias.

3. A bênção de Isaque, com a qual ele abençoou o seu filho mais novo, Jacó, tem o mesmo sentido, quando diz: “Eis que o cheiro do meu filho é como o cheiro de um campo fértil que o Senhor abençoou.”5 Ora, “o campo é o mundo”.6 E por isso ele acrescentou: “Deus lhe dê do orvalho do céu e da fartura da terra, abundância de trigo e de vinho. Que as nações sirvam você, e os reis se curvem diante de você; e seja senhor do seu irmão, e os filhos de seu pai se curvarão diante de você. Maldito seja quem o amaldiçoar, e bendito seja quem o abençoar.”7 Se alguém, pois, não aceita que essas coisas se referem ao Reino estabelecido, necessariamente cairá em muita contradição e incoerência, como acontece com os judeus, que estão envolvidos em completa perplexidade. Pois não somente as nações não serviram a este Jacó nesta vida, mas ele mesmo, depois de ter recebido a bênção, saindo [de casa], serviu ao seu tio Labão, o sírio, durante vinte anos;8 e não somente não foi feito senhor do seu irmão, como ele mesmo se curvou diante do seu irmão Esaú, ao voltar da Mesopotâmia para junto de seu pai, e lhe ofereceu muitos presentes.9 Além disso, de que modo herdou ele aqui muito trigo e vinho, ele que emigrou para o Egito por causa da fome que se abateu sobre a terra em que habitava, e ficou sujeito ao faraó, que então reinava sobre o Egito? A bênção predita pertence, portanto, sem dúvida alguma, aos tempos do Reino, quando os justos reinarão, ao ressuscitarem dentre os mortos;10 quando também a criação, renovada e libertada, frutificará com abundância de toda espécie de alimento, do orvalho do céu e da fertilidade da terra: como os anciãos que viram João, o discípulo do Senhor, contaram ter ouvido dele como o Senhor ensinava a respeito desses tempos, dizendo: Virão dias em que crescerão videiras, cada uma com dez mil ramos, e em cada ramo dez mil galhos, e em cada galho verdadeiro11 dez mil brotos, e em cada broto dez mil cachos, e em cada cacho dez mil uvas, e cada uva, espremida, dará vinte e cinco metretas de vinho. E quando algum dos santos pegar um cacho,12 outro clamará: “Eu sou um cacho melhor, toma-me; bendize o Senhor por meio de mim.” Do mesmo modo [o Senhor declarou] que um grão de trigo produziria dez mil espigas, e que cada espiga teria dez mil grãos, e cada grão daria dez libras (quinque bilibres) de flor de farinha clara, pura e fina; e que todas as demais árvores frutíferas,13 sementes e ervas produziriam em proporções semelhantes (secundum congruentiam iis consequentem); e que todos os animais, alimentando-se [somente] dos produtos da terra, se tornariam [naqueles dias] pacíficos e harmoniosos entre si, e estariam em perfeita sujeição ao homem.

4. E essas coisas são atestadas por escrito por Papias, ouvinte de João e companheiro de Policarpo, no seu quarto livro; pois ele compôs (suntetagmena) cinco livros. E ele acrescenta: “Ora, essas coisas são dignas de fé para os que creem.” E diz que, “como o traidor Judas não lhes dava crédito e perguntou: ‘Como, então, tais produções tão abundantes serão realizadas pelo Senhor?’, o Senhor declarou: ‘Os que chegarem a esses [tempos] verão.'” Profetizando, pois, a respeito desses tempos, Isaías diz: “O lobo também pastará com o cordeiro, e o leopardo repousará com o cabrito; também o bezerro, o touro e o leão comerão juntos; e um menino pequeno os guiará. O boi e a ursa pastarão juntos, e as suas crias viverão em harmonia; e o leão comerá palha como o boi. E a criança de peito meterá a mão na toca da áspide e também no ninho da cria da víbora; e não farão mal nem terão poder de causar dano a coisa alguma no meu santo monte.” E outra vez ele diz, recapitulando: “Lobos e cordeiros pastarão então juntos, e o leão comerá palha como o boi, e a serpente comerá terra como se fosse pão; e não farão mal nem molestarão coisa alguma no meu santo monte, diz o Senhor.”14 Bem sei que alguns procuram aplicar essas palavras ao caso de homens selvagens, de diversas nações e de costumes variados, que vêm a crer e, depois de crerem, vivem em harmonia com os justos. Mas, embora isso seja [verdade] agora em relação a alguns homens que vêm de várias nações para a harmonia da fé, mesmo assim, na ressurreição dos justos, [as palavras se aplicarão também] aos animais mencionados. Pois Deus é rico em todas as coisas. E é justo que, quando a criação for restaurada, todos os animais obedeçam e se sujeitem ao homem e voltem ao alimento originalmente dado por Deus (pois originalmente haviam sido sujeitos em obediência a Adão), isto é, aos produtos da terra. Mas é em outra ocasião, e não na presente, que [se deve buscar] a demonstração de que o leão [então] se alimentará de palha. E isso indica o grande tamanho e a rica qualidade dos frutos. Pois, se aquele animal, o leão, se alimenta de palha [naquele tempo], de que qualidade há de ser o próprio trigo, cuja palha servirá de alimento adequado para os leões?

Capítulo XXXIV. Ele reforça as suas opiniões sobre o reino temporal e terreno dos santos depois da sua ressurreição com os vários testemunhos de Isaías, ezequiel, jeremias e Daniel, e também com a parábola dos servos vigilantes, a quem o Senhor prometeu que os serviria

1. Também o próprio Isaías declarou claramente que haverá alegria dessa natureza na ressurreição dos justos, quando diz: “Os mortos ressuscitarão; também os que estão nos túmulos se levantarão, e os que estão na terra se alegrarão. Porque o orvalho que vem de ti é saúde para eles.”15 E isso também Ezequiel diz: “Eis que abrirei os túmulos de vocês e os farei sair das suas sepulturas; quando eu tirar o meu povo dos sepulcros, porei em vocês fôlego, e vocês viverão; e os estabelecerei na sua própria terra, e vocês saberão que eu sou o Senhor.”16 E outra vez o mesmo fala assim: “Assim diz o Senhor: Congregarei Israel de todas as nações para onde foram dispersos, e serei santificado neles à vista dos filhos das nações; e habitarão na sua própria terra, que dei ao meu servo Jacó. E nela habitarão em paz; edificarão casas, plantarão vinhas e habitarão em esperança, quando eu fizer cair o juízo sobre todos os que os desonraram, sobre os que os cercam ao redor; e saberão que eu sou o Senhor, o seu Deus, e o Deus de seus pais.”17 Ora, mostrei há pouco que a Igreja é a descendência de Abraão; e por isso, para que saibamos que aquele que no Novo Testamento “suscita das pedras filhos a Abraão”18 é o mesmo que, segundo o Antigo Testamento, há de congregar de todas as nações os que serão salvos, Jeremias diz: “Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que não dirão mais: Vive o Senhor, que conduziu os filhos de Israel desde o norte e de todas as regiões para onde haviam sido dispersos; ele os fará voltar à sua própria terra, que deu a seus pais.”19

2. Que toda a criação, segundo a vontade de Deus, alcançará um grande aumento, para produzir e sustentar frutos tais [como os que mencionamos], Isaías o declara: “E haverá sobre todo monte alto e sobre toda colina elevada água correndo por toda parte naquele dia, quando muitos perecerem, quando os muros caírem. E a luz da lua será como a luz do sol, sete vezes a luz do dia, quando ele curar a angústia do seu povo e acabar com a dor do seu golpe.”20 Ora, “a dor do golpe” significa aquele que foi infligido no princípio ao homem desobediente em Adão, isto é, a morte; [golpe] esse que o Senhor curará quando nos ressuscitar dentre os mortos e restaurar a herança dos pais, como Isaías diz outra vez: “E você terá confiança no Senhor, e ele o fará passar por toda a terra e o alimentará com a herança de Jacó, seu pai.”21 É isto que o Senhor declarou: “Bem-aventurados aqueles servos que o Senhor, quando vier, encontrar vigilantes. Em verdade lhes digo que ele se cingirá, os fará sentar-se [à mesa] e, aproximando-se, os servirá. E se vier na vigília da tarde e assim os encontrar, bem-aventurados são, porque os fará sentar-se e os servirá; ou se for na segunda, ou na terceira, bem-aventurados são.”22 Também João diz exatamente o mesmo no Apocalipse: “Bem-aventurado e santo é aquele que tem parte na primeira ressurreição.”23 Também Isaías declarou o tempo em que esses acontecimentos se darão; ele diz: “E eu disse: Senhor, até quando? Até que as cidades sejam assoladas e fiquem sem habitantes, e as casas fiquem sem homens, e a terra seja deixada deserta. E depois dessas coisas o Senhor afastará para longe a nós, os homens (longe nos faciet Deus homines), e os que restarem se multiplicarão sobre a terra.”24 Depois Daniel também diz isto mesmo: “E o reino, o domínio e a grandeza dos que estão debaixo do céu são dados aos santos do Deus Altíssimo, cujo reino é eterno, e todos os domínios o servirão e lhe obedecerão.”25 E, para que a promessa mencionada não fosse entendida como referente a este tempo, foi dito ao profeta: “E venha você, e fique na sua sorte, na consumação dos dias.”26

3. Ora, que as promessas não foram anunciadas somente aos profetas e aos pais, mas às Igrejas unidas a eles vindas das nações, às quais o Espírito chama também “as ilhas” (porque estão estabelecidas no meio da turbulência, sofrem a tempestade das blasfêmias, são porto seguro para os que estão em perigo e refúgio dos que amam as alturas [do céu] e se esforçam por evitar o Bythus, isto é, o abismo do erro), Jeremias o declara assim: “Ouçam a palavra do Senhor, ó nações, e anunciem-na às ilhas distantes; digam que o Senhor dispersará Israel, e o congregará, e o guardará como quem apascenta o seu rebanho de ovelhas. Porque o Senhor redimiu Jacó e o livrou da mão do que era mais forte do que ele. E virão e se alegrarão no monte Sião, e virão ao que é bom, a uma terra de trigo, e de vinho, e de frutos, de animais e de ovelhas; e a alma deles será como uma árvore que dá fruto, e não terão mais fome. Naquele tempo também as virgens se alegrarão na companhia dos jovens; também os velhos se regozijarão, e transformarei a sua tristeza em alegria; e os farei exultar, e os engrandecerei, e saciarei a alma dos sacerdotes, filhos de Levi; e o meu povo se saciará com a minha bondade.”27 Ora, no livro anterior28 mostrei que todos os discípulos do Senhor são levitas e sacerdotes, eles que no templo costumavam profanar o sábado e são sem culpa.29 Promessas dessa natureza indicam, portanto, da maneira mais clara, o banquete daquela criação no Reino dos justos, que Deus promete que ele mesmo servirá.

4. Além disso, falando de Jerusalém e daquele que nela reina, Isaías declara: “Assim diz o Senhor: Feliz aquele que tem descendência em Sião e servos em Jerusalém. Eis que um rei justo reinará, e os príncipes governarão com juízo.”30 E, quanto ao fundamento sobre o qual ela será reedificada, ele diz: “Eis que disporei para você uma pedra de carbúnculo, e safira para os seus alicerces; e farei os seus baluartes de jaspe, e as suas portas de cristal, e o seu muro de pedras escolhidas; e todos os seus filhos serão ensinados por Deus, e grande será a paz dos seus filhos; e em justiça você será edificada.”31 E ainda outra vez ele diz o mesmo: “Eis que faço de Jerusalém uma alegria, e do meu povo [um júbilo]; pois nela não se ouvirá mais a voz do choro, nem a voz do clamor. Também não haverá ali [criança] imatura, nem velho que não complete o seu tempo; pois o jovem será de cem anos, e o pecador morrerá com cem anos e, mesmo assim, será amaldiçoado. E construirão casas e eles mesmos as habitarão; e plantarão vinhas, e eles mesmos comerão o seu fruto, e beberão vinho. E não construirão para que outros habitem, nem prepararão a vinha para que outros comam. Pois, como os dias da árvore da vida, assim serão os dias do povo em você; porque as obras das suas mãos permanecerão.”32

Capítulo XXXV. Ele sustenta que os testemunhos já alegados não podem ser entendidos alegoricamente como bênçãos celestes, mas que se cumprirão depois da vinda do Anticristo e da ressurreição, na Jerusalém terrestre. Às profecias anteriores acrescenta outras, tiradas de Isaías, de jeremias e do apocalipse de João

1. Se, porém, alguns tentarem alegorizar [profecias] dessa espécie, não se mostrarão coerentes consigo mesmos em todos os pontos e serão refutados pelo ensino das próprias expressões [em questão]. Por exemplo: “Quando as cidades” dos gentios “estiverem desoladas, de modo que não sejam habitadas, e as casas, de modo que não haja homens nelas, e a terra for deixada desolada.”33 “Pois eis”, diz Isaías, “que o dia do Senhor vem sem remédio, cheio de furor e de ira, para assolar a cidade da terra e dela exterminar os pecadores.”34 E outra vez ele diz: “Seja tirado, para que não veja a glória de Deus.”35 E, quando essas coisas estiverem feitas, ele diz: “Deus afastará para longe os homens, e os que restarem se multiplicarão na terra.”36 “E construirão casas e eles mesmos as habitarão; e plantarão vinhas e eles mesmos comerão delas.”37 Pois todas essas e outras palavras foram ditas, sem dúvida alguma, em referência à ressurreição dos justos, que acontece depois da vinda do Anticristo e da destruição de todas as nações sob o seu domínio; [nos tempos da] qual [ressurreição] os justos reinarão na terra, crescendo em força pela visão do Senhor; e por meio dele se acostumarão a participar da glória de Deus Pai, e desfrutarão no Reino do convívio e da comunhão com os santos anjos e da união com os seres espirituais; e [quanto] àqueles que o Senhor encontrar na carne, esperando-o do céu, e que sofreram tribulação e também escaparam das mãos do Maligno. Pois é a respeito deles que o profeta diz: “E os que restarem se multiplicarão sobre a terra” (Is 6.12). E o profeta Jeremias38 mostrou que todos os crentes que Deus preparou para esse fim, para multiplicar os que restarem sobre a terra, estarão sob o governo dos santos para servir a essa Jerusalém, e que o [seu] Reino estará nela, dizendo: “Olhe ao redor, Jerusalém, para o oriente, e veja a alegria que lhe vem do próprio Deus. Eis que vêm os seus filhos, que você enviou; virão reunidos desde o oriente até o ocidente, pela palavra daquele Santo, alegrando-se naquele esplendor que vem do seu Deus. Ó Jerusalém, tire a sua veste de luto e de aflição e revista-se daquela beleza do esplendor eterno que vem do seu Deus. Cinja-se com a dupla veste daquela justiça que procede do seu Deus; ponha sobre a sua cabeça a mitra da glória eterna. Pois Deus mostrará a sua glória a toda a terra que está debaixo do céu. Pois o seu nome será chamado para sempre pelo próprio Deus: Paz da justiça e glória para quem adora a Deus. Levante-se, Jerusalém, fique no alto, olhe para o oriente e veja os seus filhos, desde o nascer do sol até o ocidente, pela palavra daquele Santo, alegrando-se na própria lembrança de Deus. Pois os que andavam a pé saíram de você, quando foram levados pelo inimigo. Deus os trará de volta a você, carregados com glória como o trono de um reino. Pois Deus decretou que todo monte alto seja abaixado, e também as colinas eternas, e que os vales sejam aterrados, para que a superfície da terra fique plana, a fim de que Israel, a glória de Deus, ande em segurança. Também os bosques darão sombra, e toda árvore aromática estará à disposição do próprio Israel, por ordem de Deus. Pois Deus irá adiante com alegria, na luz do seu esplendor, com a misericórdia e a justiça que procedem dele.”

2. Ora, sendo todas essas coisas o que são, não podem ser entendidas em referência a realidades supracelestes; “pois Deus”, diz-se, “mostrará a sua glória a toda a terra que está debaixo do céu”. Mas nos tempos do Reino a terra terá sido chamada de novo por Cristo [à sua condição primitiva], e Jerusalém reedificada segundo o modelo da Jerusalém lá de cima, da qual diz o profeta Isaías: “Eis que desenhei os seus muros nas minhas mãos, e você está sempre diante de mim.”39 E também o apóstolo, escrevendo aos gálatas, diz do mesmo modo: “Mas a Jerusalém lá de cima é livre e ela é a nossa mãe.”40 Ele não diz isso pensando em algum Éon errante, nem em alguma outra potência que se afastou do Pleroma, nem em Prunicos, mas na Jerusalém que foi desenhada nas mãos [de Deus]. E no Apocalipse João viu essa nova [Jerusalém] descendo sobre a nova terra.41 Pois, depois dos tempos do Reino, ele diz: “Vi um grande trono branco e aquele que está sentado nele. A terra e o céu fugiram da presença dele, e não se achou lugar para eles.”42 E ele expõe também as coisas relacionadas com a ressurreição geral e o juízo, mencionando “os mortos, os grandes e os pequenos”. “O mar”, diz ele, “entregou os mortos que nele estavam, e a morte e o inferno entregaram os mortos que neles havia; e os livros foram abertos. Além disso”, diz ele, “foi aberto o Livro da Vida, e os mortos foram julgados pelo que estava escrito nos livros, segundo as suas obras; e a morte e o inferno foram lançados no lago de fogo, a segunda morte.”43 Ora, isso é o que se chama Geena, que o Senhor denominou fogo eterno.44 “E, se alguém não foi achado inscrito no Livro da Vida, esse foi lançado no lago de fogo.”45 E depois disso ele diz: “Vi um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram; e o mar já não existe. E vi a cidade santa, a nova Jerusalém, descendo do céu, como uma noiva enfeitada para o seu marido.” “E ouvi”, diz-se, “uma grande voz que vinha do trono e dizia: Eis o tabernáculo de Deus com os homens, e ele habitará com eles; e eles serão o seu povo, e o próprio Deus estará com eles como o seu Deus. E ele lhes enxugará dos olhos toda lágrima; e já não haverá morte, nem tristeza, nem clamor, nem haverá mais dor, porque as primeiras coisas passaram.”46 Isaías também declara exatamente o mesmo: “Pois haverá um novo céu e uma nova terra; e não haverá lembrança das coisas anteriores, nem o coração pensará nelas, mas acharão nela alegria e exultação.”47 Ora, isso é o que foi dito pelo apóstolo: “Porque a aparência deste mundo passa.”48 No mesmo sentido declarou também o Senhor: “Passará o céu e a terra.”49 Quando, pois, essas coisas passarem acima da terra, João, o discípulo do Senhor, diz que a nova Jerusalém lá de cima [então] descerá, como uma noiva enfeitada para o seu marido; e que esse é o tabernáculo de Deus, no qual Deus habitará com os homens. Desta Jerusalém a anterior é uma imagem: aquela Jerusalém da terra anterior, na qual os justos são preparados de antemão para a incorruptibilidade e dispostos para a salvação. E deste tabernáculo Moisés recebeu o modelo no monte;50 e nada é passível de ser alegorizado, mas todas as coisas são firmes, verdadeiras e reais, feitas por Deus para o deleite dos homens justos. Pois, assim como é verdadeiramente Deus quem ressuscita o homem, assim também o homem verdadeiramente ressuscita dentre os mortos, e não alegoricamente, como mostrei repetidas vezes. E, assim como ressuscita de fato, assim também será de fato preparado de antemão para a incorruptibilidade, e avançará e florescerá nos tempos do Reino, a fim de se tornar capaz de receber a glória do Pai. Então, quando todas as coisas forem feitas novas, ele habitará verdadeiramente na cidade de Deus. Pois está escrito: “Aquele que está sentado no trono disse: Eis que faço novas todas as coisas. E o Senhor diz: Escreva tudo isso, porque estas palavras são fiéis e verdadeiras. E ele me disse: Está feito.”51 E esta é a verdade da questão.

Capítulo XXXVI. Os homens serão realmente ressuscitados; o mundo não será aniquilado, mas haverá várias moradas para os santos, segundo a posição concedida a cada um. Todas as coisas estarão sujeitas a Deus Pai, e assim ele será tudo em todos

1. Pois, uma vez que os homens são reais, real também há de ser o seu estabelecimento (plantationem), para que não se desvaneçam entre coisas inexistentes, mas progridam entre as que têm existência real. Pois nem a substância nem a essência da criação são aniquiladas (pois fiel e verdadeiro é aquele que a estabeleceu), mas “a aparência deste mundo passa”,52 isto é, aquelas coisas entre as quais ocorreu a transgressão, visto que nelas o homem envelheceu. E por isso esta aparência [presente] foi formada temporária, conhecendo Deus de antemão todas as coisas; como indiquei no livro anterior,53 onde também mostrei, na medida do possível, a causa da criação deste mundo de coisas temporais. Mas, quando esta aparência [presente das coisas] passar, e o homem tiver sido renovado e florescer num estado incorruptível, de modo a excluir a possibilidade de envelhecer, [então] haverá o novo céu e a nova terra, nos quais o homem novo permanecerá [continuamente], mantendo sempre um convívio renovado com Deus. E, visto que (ou: que) essas coisas continuarão para sempre, sem fim, Isaías declara: “Pois, assim como os novos céus e a nova terra que eu faço permanecem diante de mim, diz o Senhor, assim permanecerão a descendência e o nome de vocês.”54 E, como dizem os presbíteros, então os que forem considerados dignos de uma morada no céu irão para lá, outros desfrutarão das delícias do paraíso, e outros possuirão o esplendor da cidade; pois em toda parte o Salvador55 será visto conforme forem dignos os que o veem.

2. [Dizem, além disso,] que há esta distinção entre a habitação dos que produzem cem por um, a dos que produzem sessenta por um e a dos que produzem trinta por um: os primeiros serão levados aos céus, os segundos habitarão no paraíso, os últimos habitarão a cidade; e que por isso o Senhor declarou: “Na casa de meu Pai há muitas moradas.”56 Pois todas as coisas pertencem a Deus, que provê a todos uma habitação adequada; assim como diz o seu Verbo, que a todos é concedida pelo Pai uma parte, conforme cada um é ou será digno. E este é o leito em que se reclinarão os convidados, chamados às bodas.57 Os presbíteros, discípulos dos apóstolos, afirmam que esta é a gradação e a ordem dos que são salvos, e que eles avançam por degraus dessa natureza; e também que sobem pelo Espírito ao Filho, e pelo Filho ao Pai, e que no devido tempo o Filho entregará a sua obra ao Pai, como diz o apóstolo: “Porque é necessário que ele reine até que tenha posto todos os inimigos debaixo dos seus pés. O último inimigo a ser destruído é a morte.”58 Pois nos tempos do Reino o homem justo que está sobre a terra se esquecerá então de morrer. “E, quando diz que todas as coisas lhe estão sujeitas, certamente exclui aquele que tudo lhe sujeitou. Quando, porém, todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então o próprio Filho também se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos.”59

3. João, portanto, previu distintamente a primeira “ressurreição dos justos”60 e a herança no Reino da terra; e o que os profetas profetizaram a respeito dela está em harmonia [com a sua visão]. Pois também o Senhor ensinou essas coisas, quando prometeu que tomaria o cálice misturado, novo, com os seus discípulos no Reino. Também o apóstolo confessou que a criação será libertada do cativeiro da corrupção, [para passar] à liberdade dos filhos de Deus.61 E em todas essas coisas, e por meio de todas elas, se manifesta o mesmo Deus Pai, que formou o homem e prometeu aos pais a herança da terra, que a fez sair (a criação) [do cativeiro] na ressurreição dos justos e cumpre as promessas para o Reino do seu Filho; concedendo depois, de modo paternal, aquelas coisas que nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram, nem [o pensamento a respeito delas] penetrou no coração do homem.62 Pois há um só Filho, que cumpriu a vontade do Pai, e um só gênero humano, no qual se realizam os mistérios de Deus, “coisas essas que anjos desejam contemplar”;63 e eles não são capazes de investigar a sabedoria de Deus, por meio da qual a obra das suas mãos, confirmada e incorporada ao seu Filho, é levada à perfeição; para que a sua prole, o Verbo primogênito, descesse à criatura (facturam), isto é, àquilo que fora modelado (plasma), e fosse contido por ela; e, por outro lado, a criatura contivesse o Verbo e subisse até ele, ultrapassando os anjos, e fosse feita segundo a imagem e semelhança de Deus.64

Notas

1. Mt 26.27-29.

2. Sl 104.30.

3. Lc 14.12-14.

4. Mt 19.29; Lc 18.29-30.

5. Gn 27.27 ss.

6. Mt 13.38.

7. Gn 27.28-29.

8. Gn 31.41.

9. Gn 33.3.

10. Daqui até o fim da seção existe uma versão armênia, que se encontra no Spicilegium Solesmense, vol. I, p. 1, editado por M. Pitra (Paris, 1852), o qual a tirou de um manuscrito armênio da Biblioteca Mequitarista de Veneza, descrito como sendo do século XII.

11. A palavra “verdadeiro” não se encontra no armênio.

12. Ou, seguindo a versão armênia: “Mas, se alguém pegar um cacho santo”.

13. Segue-se aqui a versão armênia; o latim antigo traz: “Et reliqua autem poma.”

14. Is 11.6-9; 65.25.

15. Is 26.19.

16. Ez 37.12-14.

17. Ez 28.25-26.

18. Mt 3.9.

19. Jr 23.7-8.

20. Is 30.25-26.

21. Is 58.14.

22. Lc 12.37-38.

23. Ap 20.6.

24. Is 6.11-12.

25. Dn 7.27.

26. Dn 12.13.

27. Jr 31.10-14.

28. Contra as Heresias IV.8.3.

29. Mt 12.5.

30. Is 31.9; 32.1.

31. Is 54.11-14.

32. Is 65.18-22.

33. Is 6.11.

34. Is 13.9.

35. Is 26.10.

36. Is 6.12.

37. Is 65.21.

38. A longa citação que se segue não se encontra em Jeremias, mas no livro apócrifo de Baruc (Br 4.36 ss. e todo o capítulo 5).

39. Is 49.16.

40. Gl 4.26.

41. Ap 21.2.

42. Ap 20.11.

43. Ap 20.12-14.

44. Mt 25.41.

45. Ap 20.15.

46. Ap 21.1-4.

47. Is 65.17-18.

48. 1Co 7.31.

49. Mt 24.35.

50. Êx 25.40.

51. Ap 21.5-6.

52. 1Co 7.31.

53. Contra as Heresias IV.5, 6.

54. Is 66.22.

55. Assim num fragmento grego; no latim antigo, Deus.

56. Jo 14.2.

57. Mt 22.10.

58. 1Co 15.25-26.

59. 1Co 15.27-28.

60. Lc 14.14.

61. Rm 8.21.

62. 1Co 2.9; Is 64.4.

63. 1Pe 1.12.

64. Grabe e outros supõem que parte da obra se perdeu, de modo que o trecho acima não seria a sua conclusão original.

Tradução para o português a partir das versões inglesas de J. Armitage Robinson (The Demonstration of the Apostolic Preaching, Londres, SPCK, 1920, traduzida do armênio) e de Alexander Roberts e W. H. Rambaut (Against Heresies, Livro V, Ante-Nicene Fathers, vol. 1, Buffalo, 1885), conferidas com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são dos tradutores ingleses; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Irineu cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.