Justino Mártir, Diálogo com Trifão · Diálogo com Trifão

Capítulos 54 a 62

O Deus que apareceu a Abraão, a Jacó e a Moisés é distinto do Pai; a Sabedoria gerada pelo Pai, como fogo de fogo.

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Capítulo LIV. O que significa o sangue da uva

“E aquela expressão que foi registrada por escrito1 por Moisés, e profetizada pelo patriarca Jacó, a saber: ‘lavará as suas roupas no vinho e a sua capa, em sangue de uvas’ (Gn 49.11), significava que ele lavaria com o seu próprio sangue os que nele creem. Pois o Espírito Santo chamou de suas roupas aqueles que por meio dele recebem a remissão dos pecados; no meio deles ele está sempre presente em poder, mas estará presente de modo manifesto na sua segunda vinda. Que a Escritura mencione o sangue da uva foi evidentemente intencional, porque o Cristo não tira o seu sangue da semente do homem, mas do poder de Deus. Pois assim como foi Deus, e não o homem, quem produziu o sangue da videira, assim também [a Escritura] predisse que o sangue de Cristo não seria da semente do homem, mas do poder de Deus. Esta profecia que repeti, senhores, prova que o Cristo não é homem nascido de homens, gerado segundo o curso comum da humanidade.”

Capítulo LV. Trifão pede que se prove que o Cristo é Deus, porém sem metáfora. Justino promete fazê-lo

E Trifão respondeu: “Lembraremos esta sua exposição, se você reforçar com outros argumentos [a sua solução para] esta dificuldade; mas agora retome o discurso e mostre-nos que o Espírito de profecia admite outro Deus além do Criador de todas as coisas, tomando o cuidado de não falar do sol e da lua, que, conforme está escrito,2 Deus deu às nações para que os adorassem como deuses; e muitas vezes os profetas, empregando3 esse modo de falar, dizem que ‘o teu Deus é Deus dos deuses e Senhor dos senhores’, acrescentando com frequência: ‘o grande, forte e temível [Deus]’ (Dt 10.17). Pois essas expressões não são usadas como se eles fossem realmente deuses, mas porque a Escritura nos ensina que o verdadeiro Deus, que fez todas as coisas, é o único Senhor daqueles que são tidos por deuses e senhores. E, para que o Espírito Santo [nos] convencesse disso, disse por meio do santo Davi: ‘Os deuses das nações, tidos por deuses, são ídolos de demônios, e não deuses’ (Sl 96.5); e ele lança maldição sobre os que os adoram.”

E eu repliquei: “Eu não apresentaria estas provas, Trifão, pelas quais sei que são condenados os que adoram esses [ídolos] e coisas semelhantes, mas sim [provas] tais que ninguém poderia objetar contra elas. Elas lhes parecerão estranhas, embora vocês as leiam todos os dias; de modo que, mesmo por esse fato, nós4 entendemos que, por causa da maldade de vocês, Deus lhes negou a capacidade de discernir a sabedoria das suas Escrituras; há, contudo, algumas exceções, às quais, segundo a graça da sua longanimidade, como disse Isaías, ele deixou uma semente de5 salvação, para que a raça de vocês não fosse inteiramente destruída, como Sodoma e Gomorra. Prestem atenção, portanto, ao que vou registrar das santas Escrituras, as quais6 não precisam ser explicadas, mas apenas ouvidas.

Capítulo LVI. O Deus que apareceu a Moisés é distinto de Deus, o Pai

“Moisés, pois, o bem-aventurado e fiel servo de Deus, declara que aquele que apareceu a Abraão debaixo do carvalho de Manre é Deus, enviado com os dois anjos que o acompanhavam para julgar Sodoma por Outro, que permanece sempre nos lugares supercelestes, invisível a todos os homens, sem manter trato pessoal com ninguém, a quem cremos ser o Criador e Pai de todas as coisas; pois ele fala assim: ‘Deus apareceu a ele debaixo do carvalho de Manre, quando estava sentado à porta da tenda, ao meio-dia. E, levantando os olhos, olhou, e eis que três homens estavam diante dele; e, ao vê-los, correu da porta da sua tenda ao encontro deles, prostrou-se em terra e disse:’ ” (Gn 18.1-2) (e assim por diante;)7 “‘Abraão levantou-se de madrugada e foi ao lugar onde estivera diante do Senhor; e olhou para Sodoma e Gomorra e para a região vizinha, e viu, e eis que uma chama subia da terra, como a fumaça de uma fornalha.’ ” E, quando terminei de citar essas palavras, perguntei-lhes se as tinham entendido.

E eles disseram que as tinham entendido, mas que as passagens apresentadas não traziam prova alguma de que haja outro Deus ou Senhor além do Criador de todas as coisas, nem de que o Espírito Santo o diga.

Então eu repliquei: “Tentarei persuadi-los, já que entenderam as Escrituras, [da verdade] do que digo: que existe, e que se diz existir, outro Deus e Senhor sujeito ao8 Criador de todas as coisas; o qual é também chamado Anjo, porque anuncia aos homens tudo o que o Criador de todas as coisas, acima do qual não há outro Deus, quer anunciar-lhes.” E, citando mais uma vez a passagem anterior, perguntei a Trifão: “Você pensa que Deus apareceu a Abraão debaixo do carvalho de Manre, como afirma a Escritura?”

Ele disse: “Certamente.”

“Era ele um daqueles três”, eu disse, “que Abraão viu e que o Espírito Santo de profecia descreve como homens?”

Ele disse: “Não; mas Deus apareceu a ele antes da visão dos três. Depois, aqueles três que a Escritura chama de homens eram anjos; dois deles enviados para destruir Sodoma, e um para anunciar a Sara a alegre notícia de que ela daria à luz um filho; para isso ele foi enviado e, tendo cumprido a sua missão, foi embora.”9

“Como, então”, disse eu, “aquele dos três que estava na tenda e que disse: ‘Voltarei a você mais tarde, e Sara terá um filho’ (Gn 18.10), aparece tendo voltado quando Sara deu à luz um filho, e ali é declarado Deus pela palavra profética? Mas, para que vocês discirnam claramente o que digo, ouçam as palavras empregadas expressamente por Moisés; são estas: ‘E Sara viu o filho de Agar, a escrava egípcia, que ela tinha dado a Abraão, brincando com Isaque, seu filho, e disse a Abraão: Mande embora esta escrava e o filho dela, porque o filho desta escrava não terá parte na herança de meu filho Isaque. E isso pareceu muito penoso aos olhos de Abraão, por causa de seu filho. Mas Deus disse a Abraão: Não lhe pareça penoso por causa do menino e por causa da escrava. Em tudo o que Sara lhe disser, ouça a voz dela; porque por meio de Isaque será chamada a sua descendência’ (Gn 21.9-12). Vocês perceberam, então, que aquele que disse debaixo do carvalho que voltaria, já que sabia que seria necessário aconselhar Abraão a fazer o que Sara desejava, voltou como está escrito; e é Deus, como declaram as palavras, quando dizem assim: ‘Deus disse a Abraão: Não lhe pareça penoso por causa do menino e por causa da escrava’?”, perguntei. E Trifão disse: “Certamente; mas você não provou com isso que exista outro Deus além daquele que apareceu a Abraão e que também apareceu aos outros patriarcas e profetas. Provou, contudo, que estávamos errados ao crer que os três que estavam na tenda com Abraão eram todos anjos.”

Repliquei de novo: “Se eu não pudesse ter provado a vocês pelas Escrituras que um daqueles três é Deus e é chamado Anjo,10 porque, como já disse, leva mensagens àqueles a quem Deus, o Criador de todas as coisas, quer [que sejam levadas mensagens], então, a respeito daquele que apareceu a Abraão na terra em forma humana, do mesmo modo que os dois anjos que vieram com ele, e que era Deus já antes da criação do mundo, seria razoável que vocês mantivessem a mesma crença que é mantida por toda a sua nação.”

“Certamente”, disse ele, “pois até este momento essa tem sido a nossa crença.”

Então repliquei: “Voltando às Escrituras, procurarei persuadi-los de que aquele que se diz ter aparecido a Abraão, a Jacó e a Moisés, e que é chamado Deus, é distinto daquele que fez todas as coisas; distinto em número, quero dizer, não [distinto] em vontade. Pois afirmo que ele nunca, em tempo algum, fez11 coisa alguma que aquele que fez o mundo, acima do qual não há outro Deus, não quisesse que ele fizesse e de que se ocupasse.”

E Trifão disse: “Prove agora que é assim, para que também nós concordemos com você. Pois não entendemos que você afirme que ele tenha feito ou dito alguma coisa contrária à vontade do Criador de todas as coisas.”

Então eu disse: “A Escritura que acabo de citar tornará isso claro para vocês. Ela diz assim: ‘O sol havia nascido sobre a terra, e Ló entrou em Segor (Zoar); e o Senhor fez chover sobre Sodoma enxofre e fogo, da parte do Senhor, desde o céu, e destruiu estas cidades e toda a vizinhança’ ” (Gn 19.23-25).

Então o quarto dos que tinham ficado com Trifão disse: “É12 necessário, portanto, dizer que um dos dois anjos que foram a Sodoma, e que Moisés na Escritura chama de Senhor, é diferente daquele que também é Deus e apareceu a Abraão.”13

“Não é só por esse motivo”, disse eu, “que se deve admitir absolutamente que algum outro é chamado Senhor pelo Espírito Santo além daquele que é considerado o Criador de todas as coisas; não só [pelo que é dito] por Moisés, mas também [pelo que é dito] por Davi. Pois está escrito por ele: ‘O Senhor diz ao meu Senhor: Sente-se à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés’ (Sl 110.1), como já citei. E de novo, em outras palavras: ‘O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre. Cetro de equidade é o cetro do teu reino; amaste a justiça e odiaste a iniquidade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo de alegria acima dos teus companheiros’ (Sl 45.6-7). Se, portanto, vocês afirmam que o Espírito Santo chama Deus e Senhor algum outro, além do Pai de todas as coisas e do seu Cristo, respondam-me; pois me comprometo a provar a vocês pelas próprias Escrituras que aquele a quem a Escritura chama Senhor não é um dos dois anjos que foram a Sodoma, mas aquele que estava com eles e é chamado Deus, que apareceu a Abraão.”

E Trifão disse: “Prove isso; pois, como você vê, o dia avança, e não estamos preparados para respostas tão arriscadas; já que nunca ouvimos homem algum investigar, ou examinar, ou provar essas questões; nem teríamos tolerado a sua conversa se você não remetesse tudo às Escrituras; pois você é muito zeloso em apresentar provas a partir delas, e é de opinião que não há Deus acima do Criador de todas as coisas.”

Então repliquei: “Vocês sabem, pois, que a Escritura diz: ‘E o Senhor disse a Abraão: Por que Sara riu, dizendo: Será que de fato conceberei? Pois sou velha. Há alguma coisa impossível para Deus? No tempo determinado voltarei a você, segundo o tempo da vida, e Sara terá um filho’ (Gn 18.13-14). E, pouco depois: ‘E os homens se levantaram dali e olharam para Sodoma e Gomorra; e Abraão ia com eles, para os encaminhar. E o Senhor disse: Não esconderei de Abraão, meu servo, o que vou fazer’ (Gn 18.16-17). E de novo, pouco depois, diz assim: ‘O Senhor disse: O clamor de Sodoma e Gomorra é grande,14 e os seus pecados são muito graves. Descerei agora e verei se fizeram de todo segundo o clamor deles que chegou até mim; e, se não, para que eu saiba. E os homens se afastaram dali e foram para Sodoma. Mas Abraão ficou de pé diante do Senhor; e Abraão se aproximou e disse: Destruirás o justo com o ímpio?’ ” (Gn 18.20-23) (e assim por diante,15 pois não julgo conveniente escrever de novo as mesmas palavras, tendo-as escrito todas antes, mas darei necessariamente aquelas com que estabeleci a prova para Trifão e seus companheiros. Então passei ao que se segue, em que estão registradas estas palavras:) “‘E o Senhor seguiu o seu caminho logo que acabou de falar com Abraão; e [Abraão] voltou para o seu lugar. E chegaram à tarde dois anjos a Sodoma. E Ló estava sentado à porta de Sodoma’ (Gn 18.33; 19.1); e o que se segue até: ‘Mas os homens estenderam as mãos, puxaram Ló para dentro de casa, para junto deles, e fecharam a porta da casa’ (Gn 19.10); e o que se segue até: ‘E os anjos tomaram pela mão a ele, e a sua mulher, e as suas filhas, sendo-lhe o Senhor misericordioso. E aconteceu que, depois de os levarem para fora, disseram: Salve, salve a sua vida. Não olhe para trás, nem pare em toda a vizinhança; fuja para o monte, para que não seja levado junto [com eles]. E Ló lhes disse: Rogo-[te], ó Senhor, já que o teu servo achou graça aos teus olhos, e engrandeceste a tua justiça, que mostras para comigo salvando a minha vida; mas não posso fugir para o monte, para que o mal não me alcance e eu morra. Eis que esta cidade está perto para fugir para ela, e é pequena; ali estarei a salvo, já que é pequena; e a minha alma viverá. E ele lhe disse: Eis que também nisto eu o atendi,16 para não destruir a cidade pela qual você falou. Apresse-se em salvar-se ali; pois nada farei até que você chegue lá. Por isso ele chamou o nome da cidade Segor (Zoar). O sol havia nascido sobre a terra, e Ló entrou em Segor (Zoar). E o Senhor fez chover sobre Sodoma e Gomorra enxofre e fogo, da parte do Senhor, desde o céu; e destruiu estas cidades e toda a vizinhança’ ” (Gn 19.16-25). E, depois de outra pausa, acrescentei: “E agora não perceberam, meus amigos, que um dos três, que é Deus e Senhor, e serve àquele que está nos céus, é Senhor dos dois anjos? Pois, quando [os anjos] seguiram para Sodoma, ele ficou para trás e conversou com Abraão com as palavras registradas por Moisés; e, quando ele partiu depois da conversa, Abraão voltou para o seu lugar. E, quando ele chegou [a Sodoma], já não eram os dois anjos que conversavam com Ló, mas ele mesmo, como a Escritura deixa evidente; e ele é o Senhor que recebeu do Senhor que [permanece] nos céus, isto é, o Criador de todas as coisas, a incumbência de infligir a Sodoma e Gomorra os [juízos] que a Escritura descreve nestes termos: ‘O Senhor fez chover sobre Sodoma e Gomorra enxofre e fogo, da parte do Senhor, desde o céu.’ “

Capítulo LVII. O judeu objeta: por que se diz que ele comeu, se é deus? resposta de Justino

Então, como eu me calasse, Trifão disse: “Que a Escritura nos obriga a admitir isso é evidente; mas há uma questão sobre a qual ficamos com razão perplexos, a saber, o que foi dito no sentido de que [o Senhor] comeu o que Abraão preparou e pôs diante dele; e você haveria de admitir isso.”

Respondi: “Está escrito que eles comeram; e, se crermos17 que se diz que os três comeram, e não só os dois, que eram realmente anjos e se alimentam nos céus, como nos é evidente, ainda que não se alimentem de comida semelhante à que os mortais usam (pois, a respeito do sustento do maná que alimentou os pais de vocês no deserto, a Escritura fala assim: que eles comeram alimento de anjos); [se crermos que três comeram], então eu diria que a Escritura que afirma que eles comeram tem o mesmo sentido de quando dizemos do fogo que devorou todas as coisas; e, contudo, não se entende com certeza que eles comeram, mastigando com dentes e maxilas. De modo que nem mesmo aqui deveríamos ficar perplexos com coisa alguma, se conhecemos, ainda que pouco, os modos figurados de expressão e somos capazes de elevar-nos acima deles.”

E Trifão disse: “É possível que [a questão] sobre o modo de comer seja explicada assim, [isto é, o modo] pelo qual está escrito que eles tomaram e comeram o que Abraão havia preparado; de modo que agora você pode passar a nos explicar como esse Deus que apareceu a Abraão, e que é ministro de Deus, o Criador de todas as coisas, tendo nascido da Virgem, se fez homem, sujeito às mesmas paixões que todos, como você disse anteriormente.”

Então repliquei: “Permita-me primeiro, Trifão, reunir algumas outras provas sobre este ponto, para que você, pela grande quantidade delas, se convença [da verdade] disso; depois explicarei o que você pergunta.”

E ele disse: “Faça como lhe parecer bem; pois ficarei inteiramente satisfeito.”

Capítulo LVIII. O mesmo se prova pelas visões que apareceram a Jacó

Então continuei: “Proponho-me citar-lhes as Escrituras, não porque eu esteja ansioso por fazer mera exibição artificiosa de palavras; pois não possuo tal habilidade, mas só a graça de Deus me foi concedida para o entendimento das suas Escrituras, graça da qual exorto todos a se tornarem participantes livre e abundantemente, para que não incorram, por falta dela,18 em condenação no juízo que Deus, o Criador de todas as coisas, há de realizar por meio de meu Senhor Jesus Cristo.”

E Trifão disse: “O que você faz é digno do culto a Deus; mas parece-me que finge ignorância quando diz que não possui um estoque de palavras artificiosas.”

Repliquei de novo: “Seja assim, já que você pensa assim; contudo, estou persuadido de que falo a verdade.19 Mas preste-me atenção, para que eu apresente agora, de preferência, as provas restantes.”

“Prossiga”, disse ele.

E continuei: “Está escrito ainda por Moisés, meus irmãos, que aquele que é chamado Deus e apareceu aos patriarcas é chamado tanto Anjo como Senhor, para que por isso vocês entendam que ele é ministro do Pai de todas as coisas, como já admitiram, e permaneçam firmes, persuadidos por argumentos adicionais. A palavra de Deus, portanto, [registrada] por Moisés, referindo-se a Jacó, neto de Abraão, fala assim: ‘E aconteceu que, quando as ovelhas conceberam, eu as vi com os meus olhos em sonho; e eis que os bodes e os carneiros que cobriam as ovelhas e as cabras eram malhados de branco, e salpicados, e pintalgados de pardo. E o Anjo de Deus me disse em sonho: Jacó, Jacó. E eu disse: Que é, Senhor? E ele disse: Levante os seus olhos e veja que os bodes e os carneiros que cobrem as ovelhas e as cabras são malhados de branco, salpicados e pintalgados de pardo. Pois vi o que Labão lhe faz. Eu sou o Deus que lhe apareceu em Betel,20 onde você ungiu uma coluna e me fez um voto. Agora, pois, levante-se, saia desta terra e vá para a terra do seu nascimento, e eu estarei com você’ (Gn 31.10-13). E de novo, em outras palavras, falando do mesmo Jacó, diz assim: ‘E, levantando-se naquela noite, tomou as duas mulheres, e as duas servas, e os seus onze filhos, e passou o vau do Jaboque; e tomou-os e atravessou o ribeiro, e fez passar tudo o que lhe pertencia. Mas Jacó ficou para trás sozinho, e um Anjo21 lutou com ele até a manhã. E ele viu que não prevalecia contra ele, e tocou-lhe a parte larga da coxa; e a parte larga da coxa de Jacó ficou rígida enquanto lutava com ele. E ele disse: Deixe-me ir, pois rompe o dia. Mas ele disse: Não te deixarei ir se não me abençoares. E ele lhe disse: Qual é o seu nome? E ele disse: Jacó. E ele disse: O seu nome não será mais chamado Jacó, mas Israel será o seu nome; pois você prevaleceu com Deus, e com os homens será poderoso. E Jacó lhe perguntou e disse: Dize-me o teu nome. Mas ele disse: Por que você pergunta pelo meu nome? E o abençoou ali. E Jacó chamou o nome daquele lugar Peniel,22 pois vi Deus face a face, e a minha alma se alegrou’ (Gn 32.22-30). E de novo, em outros termos, referindo-se ao mesmo Jacó, diz o seguinte: ‘E Jacó chegou a Luz, na terra de Canaã, que é Betel, ele e todo o povo que estava com ele. E ali edificou um altar e chamou o nome daquele lugar Betel; pois ali Deus lhe aparecera quando fugia da face de seu irmão Esaú. E Débora, a ama de Rebeca, morreu e foi sepultada abaixo de Betel, debaixo de um carvalho; e Jacó lhe chamou o nome de Carvalho do Pranto. E Deus apareceu outra vez a Jacó em Luz, quando ele veio da Mesopotâmia da Síria, e o abençoou. E Deus lhe disse: O seu nome não será mais chamado Jacó, mas Israel será o seu nome’ (Gn 35.6-10). Ele é chamado Deus, e é e será Deus.” E, como todos concordaram com esses fundamentos, continuei: “Além disso, considero necessário repetir-lhes as palavras que narram como aquele que é ao mesmo tempo Anjo, e Deus, e Senhor, e que apareceu como homem a Abraão, e que lutou em forma humana com Jacó, foi visto por ele quando fugia de seu irmão Esaú. São as seguintes: ‘E Jacó saiu do poço do juramento23 e foi em direção a Carrã.24 E chegou a um lugar e dormiu ali, porque o sol já se havia posto; e tomou das pedras do lugar e as pôs debaixo da cabeça. E dormiu naquele lugar; e sonhou, e eis que uma escada estava posta na terra, cujo topo chegava ao céu; e os anjos de Deus subiam e desciam por ela. E o Senhor estava25 em cima dela e disse: Eu sou o Senhor, o Deus de Abraão, seu pai, e de Isaque; não tenha medo; a terra em que você está deitado, eu a darei a você e à sua descendência; e a sua descendência será como o pó da terra e se estenderá para o ocidente, e para o sul, e para o norte, e para o oriente; e em você e na sua descendência serão benditas todas as famílias da terra. E eis que estou com você, guardando-o em todo caminho por onde você andar, e o trarei de volta a esta terra; pois não o deixarei até que eu tenha feito tudo o que lhe disse. E Jacó despertou do seu sono e disse: Na verdade o Senhor está neste lugar, e eu não o sabia. E teve medo e disse: Quão temível é este lugar! Este não é outro senão a casa de Deus, e esta é a porta do céu. E Jacó se levantou de manhã, tomou a pedra que tinha posto debaixo da cabeça, erigiu-a como coluna e derramou azeite sobre o topo dela; e Jacó chamou o nome do lugar Casa de Deus, e o nome da cidade era antes Ulammaus’ ” (Gn 28.10-19).

Capítulo LIX. Deus distinto do Pai conversou com Moisés

Tendo dito essas palavras, continuei: “Permitam-me ainda mostrar-lhes, pelo livro do Êxodo, como este mesmo, que é Anjo, e Deus, e Senhor, e homem, e que apareceu em forma humana a Abraão e a Isaque,26 apareceu numa chama de fogo saída da sarça e conversou com Moisés.” E, depois que disseram que ouviriam de bom grado, com paciência e com avidez, prossegui: “Estas palavras estão no livro que tem o título de Êxodo: ‘E, depois de muitos dias, o rei do Egito morreu, e os filhos de Israel gemiam por causa dos trabalhos’ (Êx 2.23); e assim por diante até: ‘Vá e reúna os anciãos de Israel, e diga-lhes: O Senhor, o Deus de seus pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, me apareceu, dizendo: Certamente tenho visto vocês e o que lhes aconteceu no Egito’ ” (Êx 3.16). Além dessas palavras, prossegui: “Perceberam, senhores, que este mesmo Deus, de quem Moisés fala como de um Anjo que conversou com ele na chama de fogo, declara a Moisés que é o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó?”

Capítulo LX. Opiniões dos judeus a respeito daquele que apareceu na sarça

Então Trifão disse: “Não percebemos isso pela passagem que você citou, mas [apenas isto]: que foi um anjo que apareceu na chama de fogo, mas Deus que conversou com Moisés; de modo que havia realmente duas pessoas juntas, um anjo e Deus, que apareceram naquela visão.”

Repliquei de novo: “Ainda que fosse assim, meus amigos, que um anjo e Deus estivessem juntos na visão vista por Moisés, mesmo assim, como já lhes foi provado pelas passagens citadas antes, não será o Criador de todas as coisas o Deus que disse a Moisés que era o Deus de Abraão, e o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó, mas será aquele que já lhes foi provado ter aparecido a Abraão, servindo à vontade do Criador de todas as coisas e executando igualmente o seu conselho no julgamento de Sodoma; de modo que, ainda que seja como vocês dizem, que havia dois, um anjo e Deus, quem tiver a mínima inteligência não se atreverá a afirmar que o Criador e Pai de todas as coisas, tendo deixado todas as coisas supercelestes, se tornou visível numa pequena porção da terra.”

E Trifão disse: “Visto que já se provou antes que aquele que é chamado Deus e Senhor, e que apareceu a Abraão, recebeu do Senhor que está nos céus aquilo que infligiu à terra de Sodoma, ainda que um anjo tenha acompanhado o Deus que apareceu a Moisés, perceberemos que o Deus que falou com Moisés desde a sarça não era o Criador de todas as coisas, mas aquele que se mostrou ter se manifestado a Abraão, e a Isaque, e a Jacó; o qual também é chamado, e se entende ser, o Anjo de Deus, o Criador de todas as coisas, porque divulga aos homens as ordens do Pai e Criador de todas as coisas.”

E repliquei: “Agora certamente, Trifão, mostrarei que, na visão de Moisés, só este mesmo, que é chamado Anjo e que é Deus, apareceu a Moisés e falou com ele. Pois a Escritura diz assim: ‘O Anjo do Senhor lhe apareceu numa chama de fogo saída da sarça; e ele vê que a sarça arde em fogo, mas a sarça não se consumia. E Moisés disse: Vou desviar-me e ver esta grande visão, porque a sarça não se queima. E, quando o Senhor viu que ele se desviava para olhar, o Senhor o chamou do meio da sarça’ (Êx 3.2-4). Do mesmo modo, portanto, que a Escritura chama de Anjo aquele que apareceu a Jacó em sonho, e depois [diz] que o mesmo Anjo que apareceu no sonho lhe falou, dizendo: ‘Eu sou o Deus que lhe apareceu quando você fugia da face de Esaú, seu irmão’; e [ainda] diz que, no julgamento que sobreveio a Sodoma nos dias de Abraão, o Senhor infligira o castigo27 do Senhor que [habita] nos céus; assim também aqui a Escritura, ao anunciar que o Anjo do Senhor apareceu a Moisés e ao declarar depois que ele é Senhor e Deus, fala do mesmo, de quem declara, pelos muitos testemunhos já citados, que é ministro de Deus, que está acima do mundo, acima do qual não há outro [Deus].

Capítulo LXI. A sabedoria é gerada do Pai, como fogo de fogo

“Vou dar-lhes outro testemunho das Escrituras, meus amigos”, disse eu, “de que Deus gerou antes de todas as criaturas um Princípio,28 [que era] certa potência racional [procedente] dele mesmo, a qual é chamada pelo Espírito Santo ora a Glória do Senhor, ora o Filho, ora a Sabedoria, ora um Anjo, ora Deus, ora Senhor e Logos; e em outra ocasião ele chama a si mesmo de Comandante, quando apareceu em forma humana a Josué, filho de Nave (Num). Pois ele pode ser chamado por todos esses nomes, já que serve à vontade do Pai e já que foi gerado do Pai por um ato de vontade;29 assim como vemos30 acontecer entre nós mesmos: pois, quando proferimos uma palavra, geramos a palavra; mas não por corte, de modo a diminuir a palavra31 [que permanece] em nós, quando a proferimos; e assim como vemos acontecer também no caso de um fogo, que não diminui quando acende [outro], mas permanece o mesmo; e aquele que foi aceso por ele também parece existir por si mesmo, sem diminuir aquele do qual foi aceso. O Verbo da Sabedoria, que é ele mesmo este Deus gerado do Pai de todas as coisas, e Verbo, e Sabedoria, e Poder, e a Glória daquele que o gerou, dará testemunho em meu favor quando fala por meio de Salomão o seguinte: ‘Se eu lhes declarar o que acontece diariamente, trarei à memória os acontecimentos desde a eternidade e os passarei em revista. O Senhor me fez o princípio dos seus caminhos para as suas obras. Desde a eternidade ele me estabeleceu no princípio, antes de fazer a terra, e antes de fazer os abismos, antes que brotassem as fontes das águas, antes que os montes fossem firmados. Antes de todas as colinas ele me gera. Deus fez a região, e o deserto, e os mais altos lugares habitados debaixo do céu. Quando ele preparava os céus, eu estava junto com ele, e quando estabelecia o seu trono sobre os ventos; quando fortalecia as nuvens do alto e tornava seguras as fontes do abismo, quando fazia os fundamentos da terra, eu estava com ele, pondo tudo em ordem. Eu era aquilo em que ele se alegrava; dia após dia e em todo o tempo eu me deleitava na sua presença, porque ele se deleitava em ter acabado o mundo habitável e se deleitava nos filhos dos homens. Agora, pois, ó filho, ouve-me. Bem-aventurado o homem que me escutar, e o mortal que guardar os meus caminhos, vigiando32 diariamente às minhas portas, observando os umbrais das minhas entradas. Pois as minhas saídas são as saídas da vida, e [a minha] vontade foi preparada pelo Senhor. Mas os que pecam contra mim transgridem contra a própria alma; e os que me odeiam amam a morte’ (Pv 8.21-36).

Capítulo LXII. As palavras “façamos o homem” concordam com o testemunho de provérbios

“E o mesmo pensamento foi expresso, meus amigos, pela palavra de Deus [escrita] por Moisés, quando nos indicou, a respeito daquele que ela apontou,33 que Deus fala na criação do homem com o mesmíssimo propósito, nas seguintes palavras: ‘Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. E tenham domínio sobre os peixes do mar, e sobre as aves do céu, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que rastejam sobre a terra. E Deus criou o homem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou e disse: Cresçam e multipliquem-se, e encham a terra, e tenham poder sobre ela’ (Gn 1.26-28). E, para que vocês não mudem [o sentido d]as palavras que acabo de citar, nem repitam o que afirmam os seus mestres, ou que Deus disse a si mesmo ‘Façamos’, assim como nós, quando estamos para fazer alguma coisa, muitas vezes dizemos a nós mesmos ‘Façamos’, ou que Deus falou aos elementos, a saber, à terra e às outras substâncias semelhantes de que cremos ter sido formado o homem, ‘Façamos’, citarei de novo as palavras narradas pelo próprio Moisés, pelas quais podemos aprender de modo incontestável que [Deus] conversou com alguém numericamente distinto dele mesmo e que era também um Ser racional. Estas são as palavras: ‘E Deus disse: Eis que Adão se tornou como um de nós, para conhecer o bem e o mal’ (Gn 3.22). Ao dizer, pois, ‘como um de nós’, [Moisés] declarou que [há certo] número de pessoas associadas umas com as outras, e que são pelo menos duas. Pois eu não diria que é verdadeiro o dogma daquela heresia34 que se diz existir entre vocês,35 nem que os mestres dela possam provar que [Deus] falou a anjos, ou que o corpo humano foi obra de anjos. Mas este Rebento, que foi verdadeiramente gerado do Pai, estava com o Pai antes de todas as criaturas, e o Pai conversava com ele; como a Escritura deixou claro por meio de Salomão: que aquele a quem Salomão chama Sabedoria foi gerado por Deus como Princípio antes de todas as suas criaturas e como Rebento, o qual também declarou isso mesmo na revelação feita por meio de Josué, filho de Nave (Num). Ouçam, portanto, o seguinte do livro de Josué, para que o que digo se torne manifesto a vocês; é isto: ‘E aconteceu que, quando Josué estava perto de Jericó, levantou os olhos e vê um homem de pé diante dele. E Josué se aproximou dele e disse: És tu dos nossos ou dos nossos adversários? E ele lhe disse: Eu sou o Comandante do exército do Senhor; agora cheguei. E Josué caiu com o rosto em terra e lhe disse: Senhor, que ordenas ao teu servo? E o Comandante do Senhor diz a Josué: Tire as sandálias dos pés, porque o lugar em que você está é terra santa. E Jericó estava fechada e fortificada, e ninguém saía dela. E o Senhor disse a Josué: Eis que entrego nas suas mãos Jericó, e o seu rei, [e] os seus valentes’ ” (Js 5.13-15; 6.1-2).

Notas

1. Literalmente, “investigada”.

2. Dt 4.19, interpretação aparentemente equivocada da passagem.

3. Ou “abusando de”.

4. A leitura comum traz “vocês”, evidentemente errada.

5. Literalmente, “para”.

6. Duas construções: “as quais” pode referir-se às Escrituras como um todo ou ao que ele registra delas. A última é mais provável.

7. Gn 19.27-28; o “e assim por diante” foi inserido provavelmente não por Justino, mas por algum copista, como se vê pelas palavras seguintes.

8. Alguns leem “além do”; mas provavelmente é como acima.

9. Ou “indo embora, partiu”.

10. Ou “Mensageiro”. Nas várias passagens em que Justino dá a razão de Cristo ser chamado anjo ou mensageiro, ele usa também o verbo angello, levar mensagens, anunciar. A semelhança entre angelos e angello não pode ser conservada em inglês e, por isso, o ponto das observações de Justino se perde para o leitor inglês.

11. Alguns acrescentam “ou disse”.

12. Ou: “Devemos necessariamente pensar que, além daquele dos dois anjos que desceu a Sodoma e a quem a Escritura, por meio de Moisés, chama de Senhor, o próprio Deus apareceu a Abraão.”

13. Esta passagem é um tanto confusa: a tradução é necessariamente livre, mas, acredita-se, correta. O amigo de Justino quer sustentar que dois indivíduos distintos são chamados Senhor ou Deus na narrativa.

14. Literalmente, “se multiplicou”.

15. Compare a nota sobre “e assim por diante”, mais acima neste capítulo.

16. Literalmente, “admirei o seu rosto”.

17. Literalmente, “ouvirmos”.

18. Literalmente, “por causa disto”.

19. Ou “falo de outro modo”.

20. Literalmente, “no lugar de Deus”.

21. Alguns leem “um homem”.

22. Literalmente, “a face de Deus”.

23. Ou “Berseba”.

24. Assim a Septuaginta e o Novo Testamento; o hebraico traz “Harã”.

25. Literalmente, “estava firmado”.

26. Alguns conjeturam “Jacó”; outros inserem “Jacó” depois de “Isaque”.

27. Literalmente, “juízo”.

28. Ou “no princípio, antes de todas as criaturas”.

29. O ato de vontade ou volição é da parte do Pai.

30. Ou “Não vemos…?” etc.

31. A palavra logos, traduzida por “palavra”, significa tanto a faculdade de pensar ou razão que produz as ideias como a expressão dessas ideias. E Justino passa aqui de um sentido para o outro. Quando exprimimos um pensamento, a expressão dele não diminui em nós a faculdade de pensar, embora, em certo sentido, o pensamento tenha saído de nós.

32. Os manuscritos de Justino leem “dormindo”, mas isso é considerado erro de algum copista descuidado.

33. Justino, sendo de opinião que o Verbo é o princípio do universo, pensa que, com as palavras “no princípio”, Moisés indicou o Verbo, como muitos outros escritores. Por isso diz também na Primeira Apologia, 23, que Moisés declara que o Verbo “foi gerado primeiro por Deus”. Se esta explicação não satisfizer, leia-se: “a respeito daquele que eu apontei” (Maranus).

34. Heresia ou seita.

35. Ou “entre nós”. Maranus se pronuncia contra esta última leitura pelas seguintes razões: (1) Os judeus tinham as suas próprias heresias, que forneceram muitas coisas às heresias cristãs, especialmente a Menandro e Saturnino. (2) A seita que Justino refuta aqui era de opinião que Deus falou a anjos. Mas esses anjos, como inventaram Menandro e Saturnino, “exortaram-se a si mesmos, dizendo: Façamos” etc. (3) A expressão didaskaloi (mestres) se aplica bem aos rabinos; assim Justino os chama com frequência. (4) Esses mestres parecem ter posto as palavras na boca dos anjos por nenhum outro motivo senão para eliminar o testemunho com que se provavam as pessoas divinas.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Marcus Dods e George Reith (Ante-Nicene Fathers, vol. 1, Buffalo, 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são dos tradutores ingleses; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Justino cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.