Justino Mártir, Diálogo com Trifão · Diálogo com Trifão
Este Deus se encarnou e nasceu da virgem; as fábulas pagãs imitam a verdade; os textos que os judeus retiraram da Escritura.
#T06
E Trifão disse: “Este ponto me foi provado com vigor e por muitos argumentos, meu amigo. Resta, então, provar que ele se sujeitou a tornar-se homem por meio da Virgem, segundo a vontade do seu Pai, e a ser crucificado e morrer. Prove também com clareza que depois disso ele ressuscitou e subiu ao céu.”
Respondi: “Também isso já foi demonstrado por mim nas palavras das profecias citadas anteriormente, meus amigos; e, recordando-as e explicando-as por amor de vocês, procurarei levá-los a concordar comigo também neste assunto. A passagem, então, que Isaías registra, ‘Quem declarará a sua geração? Pois a sua vida é tirada da terra’ (Is 53.8), não lhes parece referir-se a alguém que, não tendo descendência humana, foi entregue por Deus à morte, como se diz, pelas transgressões do povo? A respeito do sangue dele, Moisés (como já mencionei), falando em parábola, disse que ele lavaria as suas vestes no sangue da uva, uma vez que o seu sangue não brotou da semente do homem, mas da vontade de Deus. E depois, o que é dito por Davi: ‘Nos esplendores da tua santidade eu te gerei do ventre, antes da estrela da manhã.1 O Senhor jurou e não voltará atrás: Você é sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque’ (Sl 110.4); isso não lhes declara2 que [ele existia] desde a antiguidade,3 e que o Deus e Pai de todas as coisas determinou que ele fosse gerado por um ventre humano? E, falando com outras palavras, também já citadas, [ele diz]: ‘O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre; cetro de retidão é o cetro do teu reino. Amaste a justiça e odiaste a iniquidade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo de alegria, acima dos teus companheiros. [Ungiu-te] com mirra, óleo e cássia das tuas vestes, dos palácios de marfim, com os quais te alegraram. Filhas de reis estão entre as que te honram. A rainha está à tua direita, vestida com roupas bordadas de ouro.4 Ouve, ó filha, olha e inclina o teu ouvido, e esquece o teu povo e a casa de teu pai; e o Rei desejará a tua formosura, porque ele é o teu Senhor, e tu o adorarás’ (Sl 45.6-11). Portanto, estas palavras atestam explicitamente que aquele que estabeleceu estas coisas5 dá testemunho dele como digno de ser adorado, como Deus e como Cristo. Além disso, que a palavra de Deus fala aos que nele creem como sendo uma só alma, uma só sinagoga e uma só igreja, como a uma filha; que assim se dirige à igreja que brotou do nome dele e participa do seu nome (pois todos somos chamados cristãos), é proclamado de modo igualmente claro nas seguintes palavras, que também nos ensinam a esquecer [os nossos] antigos costumes ancestrais, quando dizem assim:6 ‘Ouve, ó filha, olha e inclina o teu ouvido; esquece o teu povo e a casa de teu pai, e o Rei desejará a tua formosura, porque ele é o teu Senhor, e tu o adorarás'” (Sl 45.10-11).
Aqui Trifão disse: “Que ele seja reconhecido como Senhor, Cristo e Deus, como declaram as Escrituras, por vocês, os gentios, que pelo nome dele foram todos chamados cristãos; mas nós, que somos servos do Deus que fez este mesmo [Cristo], não precisamos confessá-lo nem adorá-lo.”
A isso respondi: “Se eu fosse briguento e leviano como você, Trifão, não continuaria mais a conversar com você, já que está disposto não a entender o que foi dito, mas apenas a devolver alguma resposta capciosa;7 mas agora, como temo o juízo de Deus, não emito uma opinião precipitada sobre nenhum dos membros da sua nação, quanto a se alguns deles podem ou não ser salvos pela graça do Senhor dos Exércitos. Por isso, ainda que você aja injustamente, continuarei a responder a qualquer proposição que apresentar e a qualquer objeção que fizer; e, de fato, faço exatamente o mesmo com todos os homens de qualquer nação que queiram examinar comigo este assunto ou me interrogar a respeito dele. Assim, se você tivesse prestado atenção às Escrituras que citei antes, já teria entendido que os que são salvos da sua própria nação são salvos por meio deste [homem] e participam da sua herança; e certamente não me teria feito essa pergunta. Repetirei mais uma vez as palavras de Davi que citei antes, e peço a vocês que as compreendam, e que não ajam injustamente, incitando-se uns aos outros a dar apenas alguma contradição. As palavras que Davi diz são estas: ‘O Senhor reinou; irem-se as nações. [É] ele quem está sentado sobre os querubins; abale-se a terra. O Senhor é grande em Sião, e está exaltado acima de todas as nações. Confessem o teu grande nome, pois é temível e santo; e a honra do rei ama o juízo. Tu preparaste a equidade; juízo e justiça executaste em Jacó. Exaltem o Senhor, nosso Deus, e adorem diante do estrado dos seus pés, porque ele é santo. Moisés e Arão entre os seus sacerdotes, e Samuel entre os que invocam o seu nome; clamavam ao Senhor, e ele os ouvia. Na coluna de nuvem lhes falava, pois guardavam os seus testemunhos e os mandamentos que lhes deu’ (Sl 99.1-7). E pelas outras palavras de Davi, também citadas antes, que vocês afirmam tolamente referir-se a Salomão, [porque] estão intituladas para Salomão, pode-se provar que não se referem a Salomão, e que este [Cristo] existia antes do sol, e que os da sua nação que são salvos serão salvos por meio dele. [As palavras] são estas: ‘Ó Deus, dá ao rei o teu juízo, e ao filho do rei a tua justiça. Ele julgará8 o teu povo com justiça, e os teus pobres com juízo. Os montes trarão paz ao povo, e as colinas, justiça. Ele julgará os pobres do povo, salvará os filhos dos necessitados e humilhará o caluniador; e permanecerá com o sol, e diante da lua, por todas as gerações’; e assim por diante, até: ‘O seu nome permanece diante do sol, e todas as tribos da terra serão abençoadas nele. Todas as nações o chamarão bem-aventurado. Bendito seja o Senhor, o Deus de Israel, o único que faz maravilhas; e bendito seja o seu glorioso nome para todo o sempre; e toda a terra se encherá da sua glória. Amém, amém’ (Sl 72.1-5,17-19). E vocês se lembram, por outras palavras também ditas por Davi e que já mencionei, de como se declara que ele sairia dos mais altos céus e voltaria de novo aos mesmos lugares, para que vocês o reconheçam como Deus que vem do alto e homem que vive entre os homens; e [de como se declara] que ele aparecerá de novo, e os que o traspassaram o verão e o prantearão. [As palavras] são estas: ‘Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos. Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. Não são falas nem palavras cujas vozes se ouçam. O seu som saiu por toda a terra, e as suas palavras até os confins do mundo. No sol pôs a sua habitação; e ele, como um noivo que sai dos seus aposentos, se alegrará como um gigante a percorrer o seu caminho; do mais alto céu é a sua saída, e ao mais alto céu ele volta, e não há quem se esconda do seu calor'” (Sl 19.1-6).
E Trifão disse: “Abalado9 por tantas Escrituras, não sei o que dizer sobre a Escritura que Isaías escreve, na qual Deus diz que não dá a sua glória a outro, falando assim: ‘Eu sou o Senhor Deus; este é o meu nome; não darei a outro a minha glória, nem as minhas virtudes'” (Is 42.8).
E eu respondi: “Se você disse essas palavras, Trifão, e depois se calou com simplicidade e sem má intenção, sem repetir o que vem antes nem acrescentar o que vem depois, deve ser perdoado; mas, se [o fez] porque imaginou que poderia lançar dúvida sobre a passagem, para que eu dissesse que as Escrituras se contradizem, você errou. Mas eu não me atreverei a supor nem a dizer tal coisa; e, se for apresentada uma Escritura que pareça ser desse tipo, e houver pretexto [para dizer] que é contrária [a alguma outra], como estou inteiramente convencido de que nenhuma Escritura contradiz outra, admitirei antes que não entendo o que está registrado, e procurarei persuadir os que imaginam que as Escrituras são contraditórias a pensarem antes como eu. Com que intenção, então, você apresentou a dificuldade, Deus o sabe. Mas vou lembrar-lhe o que diz a passagem, para que reconheça, por este mesmo [lugar], que Deus dá glória somente ao seu Cristo. E tomarei algumas passagens curtas, senhores, as que estão em conexão com o que foi dito por Trifão e as que se lhes seguem em ordem consecutiva. Pois não repetirei as de outra seção, mas as que estão unidas num só trecho. Prestem-me também vocês atenção. [As palavras] são estas: ‘Assim diz o Senhor, o Deus que criou os céus e os firmou,10 que estabeleceu a terra e o que nela há, e deu fôlego ao povo que está sobre ela e espírito aos que andam nela: Eu, o Senhor Deus, te chamei em justiça, e te tomarei pela mão, e te fortalecerei; e te dei como aliança do povo, como luz dos gentios, para abrir os olhos dos cegos, para tirar das correntes os que estão presos, e da prisão os que estão sentados em trevas. Eu sou o Senhor Deus; este é o meu nome; não darei a outro a minha glória, nem as minhas virtudes às imagens de escultura. Eis que as primeiras coisas aconteceram; coisas novas eu anuncio, e antes que sejam anunciadas elas se manifestam a vocês. Cantem ao Senhor um cântico novo: o seu domínio [vai] desde a extremidade da terra. [Cantem], vocês que descem ao mar e continuamente navegam11 [nele]; vocês, ilhas, e os seus habitantes. Alegra-te, ó deserto, e as tuas aldeias e as casas; e os habitantes de Quedar se alegrarão, e os habitantes da rocha clamarão do alto dos montes; darão glória a Deus; anunciarão as suas virtudes nas ilhas. O Senhor Deus dos Exércitos sairá, destruirá completamente a guerra, despertará o zelo e clamará com força contra os inimigos'” (Is 42.5-13). E, depois de repetir isso, eu lhes disse: “Perceberam, meus amigos, que Deus diz que dará glória àquele que estabeleceu como luz dos gentios, e a nenhum outro; e não, como Trifão disse, que Deus estava retendo a glória para si mesmo?”
Então Trifão respondeu: “Também isso percebemos; passe, portanto, ao restante do discurso.”
E eu, retomando o discurso onde o havia deixado12 numa etapa anterior, quando provava que ele nasceu de uma virgem e que o seu nascimento de uma virgem fora predito por Isaías, citei de novo a mesma profecia. Ela diz o seguinte: “‘E o Senhor falou outra vez a Acaz, dizendo: Pede para ti um sinal ao Senhor, teu Deus, nas profundezas ou nas alturas. E Acaz disse: Não pedirei, nem tentarei o Senhor. E Isaías disse: Ouçam, pois, ó casa de Davi: Acaso é pouco para vocês contender com os homens? E como contendem com o Senhor? Portanto, o Senhor mesmo lhes dará um sinal: eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe chamarão Emanuel. Comerá manteiga e mel; antes que conheça ou prefira o mal, escolherá o bem. Pois, antes que o menino conheça o mal ou o bem, rejeita o mal escolhendo o bem. Pois, antes que o menino saiba chamar pai ou mãe, receberá o poder de Damasco e os despojos de Samaria, diante do rei da Assíria. E será abandonada a terra que13 tu suportarás com dificuldade por causa da presença dos seus dois reis. Mas Deus trará sobre ti, sobre o teu povo e sobre a casa de teu pai dias que ainda não vieram sobre ti, desde o dia em que Efraim tirou de Judá o rei da Assíria.'”14 E continuei: “Ora, é evidente a todos que, na descendência de Abraão segundo a carne, ninguém nasceu de uma virgem, nem se diz que tenha nascido [de uma virgem], a não ser este nosso Cristo.”
E Trifão respondeu: “A Escritura não diz: ‘Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho’, mas: ‘Eis que a jovem conceberá e dará à luz um filho’ (Is 7.14), e assim por diante, como você citou. Mas toda a profecia se refere a Ezequias, e está provado que se cumpriu nele, segundo os termos desta profecia. Além disso, nas fábulas dos que são chamados gregos, está escrito que Perseu foi gerado de Dânae, que era virgem, tendo descido sobre ela, em forma de chuva de ouro, aquele que entre eles era chamado Zeus. E vocês deveriam envergonhar-se de fazer afirmações semelhantes às deles; [deveriam] antes dizer que este Jesus nasceu homem, de homens. E, se você provar pelas Escrituras que ele é o Cristo, e que por ter levado uma vida conforme a lei, e perfeita, mereceu a honra de ser eleito para ser o Cristo, [está bem]; mas não se atreva a contar prodígios monstruosos, para não ser apanhado falando tolices como os gregos.”
Então eu disse a isso: “Trifão, quero persuadir você e, em suma, todos os homens disto: ainda que vocês digam coisas piores, em zombaria e gracejo, não me demoverão do meu propósito firme; mas sempre apresentarei, a partir das próprias palavras que vocês julgam poder apresentar como prova [das suas opiniões], a demonstração do que afirmei, juntamente com o testemunho das Escrituras. Você, porém, não está agindo com justiça nem com verdade ao tentar desfazer aquilo em que sempre houve acordo entre nós, a saber, que certos mandamentos foram instituídos por Moisés por causa da dureza do coração do seu povo. Pois você disse que, por ter vivido em conformidade com a lei, ele foi eleito e se tornou o Cristo, se de fato se provasse que ele o é.”
E Trifão disse: “Você nos admitiu15 que ele foi circuncidado e observou as demais cerimônias legais ordenadas por Moisés.”
E eu respondi: “Admiti e admito; mas admiti que ele suportou todas essas coisas não como se fosse justificado por elas, mas cumprindo a dispensação que o seu Pai, o Criador de todas as coisas, Senhor e Deus, quis que ele [cumprisse]. Pois admito que ele suportou a crucificação e a morte, a encarnação e o sofrimento de todas as aflições que a sua nação lhe impôs. Mas, como você de novo discorda daquilo com que há pouco concordou, Trifão, responda-me: os patriarcas justos que viveram antes de Moisés, que não observaram nenhuma daquelas [ordenanças] que, como a Escritura mostra, receberam de Moisés o começo da [sua] instituição, são salvos [e alcançaram] a herança dos bem-aventurados?”
E Trifão disse: “As Escrituras me obrigam a admiti-lo.”
“Do mesmo modo, pergunto-lhe outra vez”, disse eu: “Deus ordenou aos pais de vocês que apresentassem as ofertas e os sacrifícios porque precisava deles, ou por causa da dureza do coração deles e da sua inclinação à idolatria?”
“Esta última”, disse ele, “as Escrituras igualmente nos obrigam a admitir.”
“Do mesmo modo”, disse eu, “as Escrituras não predisseram que Deus prometeu estabelecer uma nova aliança, além da que [foi estabelecida] no monte Horebe?”
Também isto, respondeu ele, fora predito.
Então eu disse de novo: “A antiga aliança não foi imposta aos pais de vocês com medo e tremor, de modo que não conseguiam dar ouvidos a Deus?”
Ele o admitiu.
“E então?”, disse eu. “Deus prometeu que haveria outra aliança, não como aquela antiga, e disse que seria imposta a eles sem medo, sem tremor e sem relâmpagos, e que seria tal que mostraria que espécie de mandamentos e obras Deus sabe serem eternos e adequados a toda nação, e que mandamentos ele deu ajustando-os à dureza do coração do seu povo, como ele também clama por meio dos profetas.”
“Também a isto”, disse ele, “os que amam a verdade, e não a contenda, devem certamente assentir.”
Então respondi: “Não sei por que você fala de pessoas muito amigas da contenda, [quando] você mesmo muitas vezes agiu claramente desse mesmo modo, contradizendo com frequência aquilo com que tinha concordado.”
E Trifão disse: “Você se esforça por provar uma coisa incrível e quase impossível, [a saber], que Deus suportou nascer e tornar-se homem.”
“Se eu me propusesse”, disse eu, “a provar isso por doutrinas ou argumentos humanos, vocês não deveriam suportar-me. Mas, se cito frequentemente as Escrituras, e tantas delas, referentes a este ponto, e lhes peço que as compreendam, vocês é que são duros de coração para reconhecer o pensamento e a vontade de Deus. Mas, se quiserem permanecer assim para sempre, eu não seria prejudicado em nada; e, conservando para sempre as mesmas [opiniões] que tinha antes de encontrar vocês, eu os deixarei.”
E Trifão disse: “Veja, meu amigo, você se assenhoreou dessas [verdades] com muito trabalho e esforço. E nós, por isso, devemos examinar diligentemente tudo o que encontramos, a fim de dar o nosso assentimento àquilo que as Escrituras nos obrigam [a crer].”
Então eu disse a isso: “Não lhes peço que deixem de se esforçar de todos os modos ao investigar as questões em exame; mas [peço] que, quando não tiverem nada a dizer, não contradigam aquilo que disseram ter admitido.”
E Trifão disse: “Assim procuraremos fazer.”
Continuei de novo: “Além das perguntas que acabo de fazer a vocês, quero fazer outras; pois, por meio dessas perguntas, procurarei levar o discurso a um rápido término.”
E Trifão disse: “Faça as perguntas.”
Então eu disse: “Vocês acham que algum outro é dito digno de adoração e chamado Senhor e Deus nas Escrituras, exceto o Criador de tudo e o Cristo, que por tantas Escrituras ficou provado a vocês que se tornou homem?”
E Trifão respondeu: “Como podemos admitir isso, quando instituímos uma investigação tão grande sobre se existe algum outro além do Pai somente?”
Então eu disse outra vez: “Preciso perguntar-lhes também isto, para saber se vocês são ou não de opinião diferente daquela que admitiram há algum tempo.”16
Ele respondeu: “Não é diferente, senhor.”
Então eu de novo: “Já que vocês certamente admitem estas coisas, e já que a Escritura diz: ‘Quem declarará a sua geração?’ (Is 53.8), não deveriam agora supor que ele não é semente de raça humana?”
E Trifão disse: “Como, então, a palavra diz a Davi que dos lombos dele Deus tomará para si um Filho, estabelecerá o seu reino e o assentará no trono da sua glória?”
E eu disse: “Trifão, se a profecia que Isaías pronunciou, ‘Eis que a virgem conceberá’ (Is 7.14), fosse dita não à casa de Davi, mas a outra casa das doze tribos, talvez a questão tivesse alguma dificuldade; mas, como esta profecia se refere à casa de Davi, Isaías explicou como aconteceria aquilo que fora dito por Deus a Davi em mistério. Mas talvez vocês não saibam disto, meus amigos: houve muitas palavras escritas de modo obscuro, ou em parábolas, ou misteriosamente, e também ações simbólicas, que os profetas que viveram depois das pessoas que as disseram ou fizeram explicaram.”
“Certamente”, disse Trifão.
“Se, portanto, eu mostrar que esta profecia de Isaías se refere ao nosso Cristo, e não a Ezequias, como vocês dizem, não os obrigarei também nisto a não crer nos seus mestres, que se atrevem a afirmar que a tradução feita pelos seus setenta anciãos que estavam com Ptolomeu, rei dos egípcios, é falsa em certos pontos? Pois algumas afirmações das Escrituras, que parecem convencê-los explicitamente de uma opinião tola e vã, essas eles se atrevem a dizer que não foram escritas assim. Mas outras afirmações, que imaginam poder distorcer e harmonizar com ações humanas,17 essas, dizem, não se referem a este nosso Jesus Cristo, mas àquele a quem lhes agrada aplicá-las. Assim, por exemplo, ensinaram a vocês que esta Escritura que agora discutimos se refere a Ezequias; e nisso, como prometi, mostrarei que estão errados. E, quando são obrigados, concordam que algumas Escrituras que lhes mencionamos, e que provam expressamente que o Cristo havia de sofrer, de ser adorado e [de ser chamado] Deus, e que já recitei a vocês, se referem de fato ao Cristo; mas se atrevem a afirmar que este homem não é o Cristo. Admitem, porém, que ele virá para sofrer, reinar, ser adorado e ser Deus;18 e mostrarei igualmente que essa opinião é ridícula e tola. Mas, como sou instado a responder primeiro ao que você disse em gracejo, responderei a isso, e depois darei resposta ao que se segue.
“Fique bem certo, então, Trifão”, continuei, “de que sou firmado no conhecimento das Escrituras e na fé nelas por aquelas contrafações que, segundo se diz, aquele que é chamado diabo realizou entre os gregos, assim como algumas foram operadas pelos magos no Egito e outras pelos falsos profetas nos dias de Elias. Pois, quando contam que Baco, filho de Júpiter, foi gerado da união [de Júpiter] com Sêmele, e que foi o descobridor da videira; e quando relatam que, despedaçado e morto, ele ressuscitou e subiu ao céu; e quando introduzem o vinho19 nos seus mistérios, não percebo eu que [o diabo] imitou a profecia anunciada pelo patriarca Jacó e registrada por Moisés? E, quando contam que Hércules era forte e percorreu o mundo inteiro, e que foi gerado por Júpiter de Alcmena, e subiu ao céu quando morreu, não percebo eu que a Escritura que fala do Cristo, ‘forte como um gigante para percorrer o seu caminho’ (Sl 19.5), foi igualmente imitada? E, quando ele [o diabo] apresenta Esculápio como o que ressuscita os mortos e cura todas as doenças, não posso dizer que também nisso ele imitou as profecias sobre o Cristo? Mas, como não lhes citei nenhuma Escritura que diga que o Cristo fará essas coisas, preciso necessariamente lembrar-lhes uma delas, pela qual vocês podem entender como, aos que eram destituídos do conhecimento de Deus, refiro-me aos gentios, que, ‘tendo olhos, não viam, e tendo coração, não entendiam’, adorando as imagens de madeira, [como mesmo a eles] a Escritura profetizou que renunciariam a essas [vaidades] e esperariam neste Cristo. Está escrito assim: ‘Alegra-te, deserto sedento; exulte o deserto e floresça como o lírio; os desertos do Jordão florescerão e exultarão; e foi-lhe dada a glória do Líbano e a honra do Carmelo. E o meu povo verá a exaltação do Senhor e a glória de Deus. Fortaleçam-se, mãos descuidadas e joelhos enfraquecidos. Consolem-se, vocês que estão desfalecidos na alma; sejam fortes, não tenham medo. Eis que o nosso Deus dá, e dará, o juízo da retribuição. Ele virá e nos salvará. Então se abrirão os olhos dos cegos, e os ouvidos dos surdos ouvirão. Então o coxo saltará como o cervo, e a língua dos gagos falará com clareza; pois a água irrompeu no deserto, e um vale na terra sedenta; e o chão ressequido se tornará lagos, e uma fonte de água [brotará] na terra sedenta’ (Is 35.1-7). A fonte de água viva que jorrou de Deus na terra destituída do conhecimento de Deus, isto é, a terra dos gentios, era este Cristo, que também apareceu na nação de vocês e curou os que eram aleijados, surdos e coxos de corpo desde o nascimento, fazendo-os saltar, ouvir e ver pela sua palavra. E, tendo ressuscitado os mortos e feito que vivessem, obrigou por suas obras os homens daquele tempo a reconhecê-lo. Mas, embora vissem tais obras, afirmavam que era arte mágica. Pois ousaram chamá-lo de mago e enganador do povo. Ele, porém, realizou tais obras e persuadiu os que [haviam de] crer nele; pois, ainda que alguém sofra de algum defeito no corpo, se for observador das doutrinas que ele transmitiu, ele o ressuscitará na sua segunda vinda perfeitamente são, depois de torná-lo imortal, incorruptível e livre de dor.
“E, quando os que registram os mistérios de Mitra dizem que ele foi gerado de uma rocha, e chamam de caverna o lugar onde são iniciados os que creem nele, não percebo eu aqui que a palavra de Daniel, de que uma pedra foi cortada de um grande monte sem auxílio de mãos, foi imitada por eles, e que tentaram igualmente imitar todas as palavras de Isaías?2021 Pois eles22 maquinaram que também as palavras de justiça fossem citadas por eles.23 Mas preciso repetir a vocês as palavras de Isaías a que me refiro, para que por elas saibam que essas coisas são assim. São estas: ‘Ouçam, vocês que estão longe, o que eu fiz; os que estão perto conhecerão o meu poder. Os pecadores em Sião foram afastados; o tremor se apoderará dos ímpios. Quem lhes anunciará o lugar eterno? O homem que anda em justiça, fala pelo caminho reto, odeia o pecado e a injustiça, e conserva as mãos limpas de subornos, tapa os ouvidos para não ouvir o julgamento injusto de sangue, fecha os olhos para não ver a injustiça: ele habitará na alta caverna da rocha forte. O pão lhe será dado, e a sua água [será] segura. Vocês verão o Rei com glória, e os seus olhos olharão para longe. A alma de vocês buscará com diligência o temor do Senhor. Onde está o escriba? Onde estão os conselheiros? Onde está o que conta os que são sustentados, o povo pequeno e grande? Com quem eles não se aconselharam, nem conheceram a profundidade das vozes, de modo que não ouviram. O povo que se tornou desprezado, e não há entendimento naquele que ouve’ (Is 33.13-19). Ora, é evidente que nesta profecia [se alude] ao pão que o nosso Cristo nos deu para comer,24 em memória de ter-se feito carne por causa dos que nele creem, pelos quais também sofreu; e ao cálice que nos deu para beber,25 em memória do seu próprio sangue, com ação de graças. E esta profecia prova que veremos este mesmo Rei com glória; e os próprios termos da profecia proclamam em alta voz que o povo de quem se conhecia de antemão que creria nele era também conhecido de antemão como quem buscaria com diligência o temor do Senhor. Além disso, estas Escrituras dizem com igual clareza que os que têm fama de conhecer os escritos das Escrituras, e que ouvem as profecias, não têm entendimento. E, quando ouço, Trifão”, disse eu, “que Perseu foi gerado de uma virgem, entendo que a serpente enganadora contrafez também isto.
“Mas estou longe de confiar nos seus mestres, que se recusam a admitir que é correta a tradução feita pelos setenta anciãos que estavam com Ptolomeu, [rei] dos egípcios, e tentam fazer outra. E quero que vocês observem que eles retiraram completamente muitas Escrituras das traduções feitas por aqueles setenta anciãos que estavam com Ptolomeu, pelas quais se prova que este mesmo homem que foi crucificado foi apresentado expressamente como Deus e homem, como crucificado e como morrendo; mas, como sei que isso é negado por todos os da sua nação, não me ocupo desses pontos, mas passo26 a conduzir as minhas discussões por meio das passagens que ainda são admitidas por vocês. Pois vocês concordam com as que trouxe à sua atenção, exceto que contestam a afirmação ‘Eis que a virgem conceberá’ e dizem que se deve ler ‘Eis que a jovem conceberá’ (Is 7.14). E prometi provar que a profecia se referia não, como lhes ensinaram, a Ezequias, mas a este meu Cristo; e agora passarei à prova.”
Aqui Trifão observou: “Pedimos a você, antes de tudo, que nos diga algumas das Escrituras que, segundo afirma, foram completamente suprimidas.”
E eu disse: “Farei como quiserem. Das palavras que Esdras disse a respeito da lei da Páscoa, eles retiraram o seguinte: ‘E Esdras disse ao povo: Esta Páscoa é o nosso Salvador e o nosso refúgio. E, se vocês entenderam, e o coração de vocês acolheu, que o havemos de humilhar sobre um estandarte e27 depois esperar nele, então este lugar não será abandonado para sempre, diz o Deus dos Exércitos. Mas, se não crerem nele nem ouvirem a sua proclamação, vocês serão motivo de zombaria para as nações.’28 E das palavras de Jeremias cortaram o seguinte: ‘Eu [era] como um cordeiro levado ao matadouro; tramaram uma trama contra mim, dizendo: Venham, lancemos madeiro no seu pão e o eliminemos da terra dos viventes, e o seu nome não será mais lembrado’ (Jr 11.19). E, como esta passagem das palavras de Jeremias ainda está escrita em algumas cópias [das Escrituras] nas sinagogas dos judeus (pois faz pouco tempo que foram cortadas), e como por estas palavras se demonstra que os judeus deliberaram a respeito do próprio Cristo, para crucificá-lo e matá-lo, ele mesmo é declarado levado como ovelha ao matadouro, como fora predito por Isaías, e aqui é representado como um cordeiro inofensivo; mas, vendo-se em dificuldade a respeito delas, eles se entregam à blasfêmia. E, de novo, das palavras do mesmo Jeremias foram cortadas estas: ‘O Senhor Deus lembrou-se dos seus mortos do povo de Israel, que jaziam nos sepulcros; e desceu para lhes pregar a sua própria salvação.’29
“E do Salmo noventa e cinco (noventa e seis) retiraram esta breve expressão das palavras de Davi: ‘Desde o madeiro’.30 Pois, quando a passagem dizia: ‘Digam entre as nações: O Senhor reinou desde o madeiro’, eles deixaram: ‘Digam entre as nações: O Senhor reinou’ (Sl 96.10). Ora, de ninguém do povo de vocês jamais se disse que reinou como Deus e Senhor entre as nações, com exceção somente daquele que foi crucificado, de quem também o Espírito Santo afirma, no mesmo Salmo, que foi ressuscitado e libertado [do sepulcro], declarando que não há ninguém como ele entre os deuses das nações, pois são ídolos de demônios. Mas repetirei a vocês o Salmo inteiro, para que percebam o que foi dito. É assim: ‘Cantem ao Senhor um cântico novo; cantem ao Senhor, toda a terra. Cantem ao Senhor e bendigam o seu nome; anunciem a sua salvação dia após dia. Proclamem entre as nações a sua glória, entre todos os povos as suas maravilhas. Porque o Senhor é grande e digno de ser muito louvado; ele é temível acima de todos os deuses. Porque todos os deuses das nações são demônios, mas o Senhor fez os céus. Confissão e beleza estão na sua presença; santidade e magnificência, no seu santuário. Tragam ao Senhor, ó regiões das nações, tragam ao Senhor glória e honra, tragam ao Senhor glória ao seu nome. Tomem sacrifícios e entrem nos seus átrios; adorem o Senhor no seu santo templo. Comova-se diante dele toda a terra; digam entre as nações: O Senhor reinou.31 Pois ele firmou o mundo, que não será abalado; julgará as nações com equidade. Alegrem-se os céus, e exulte a terra; agite-se o mar e a sua plenitude. Rejubilem os campos e tudo o que neles há. Alegrem-se todas as árvores do bosque diante do Senhor, porque ele vem, porque vem julgar a terra. Julgará o mundo com justiça, e os povos com a sua verdade'” (Sl 96.1-13).
Aqui Trifão observou: “Se os chefes do povo apagaram [ou não] alguma parte das Escrituras, como você afirma, Deus o sabe; mas parece incrível.”
“Certamente”, disse eu, “parece incrível. Pois é mais horrível do que o bezerro que fizeram quando estavam saciados de maná na terra, ou do que o sacrifício de crianças aos demônios, ou do que a matança dos profetas. Mas”, disse eu, “vocês não me parecem ter ouvido as Escrituras que eu disse que eles subtraíram. Pois as que foram citadas são mais do que suficientes para provar os pontos em disputa, além das que são conservadas por nós32 e que ainda serão apresentadas.”
1. Observe-se esta bela tradução do Sl 110.3.
2. Ou: “nos”.
3. Em grego, anōthen; na versão latina, antiquitus, que Maranus prefere.
4. Literalmente: “vestes de ouro, matizadas”.
5. A encarnação etc.
6. Literalmente: “sendo assim”.
7. Literalmente: “mas apenas se aguçar para dizer alguma coisa”.
8. Ou: “para julgar”, como no cap. 34.
9. Literalmente: “importunado”.
10. Literalmente: “fixou”.
11. Ou: “vocês, ilhas que navegam nele”; ou sem “continuamente”.
12. Cap. 43.
13. A palavra hēn (“a qual”), que está no cap. 43, foi omitida aqui, mas sem dúvida deve ser inserida.
14. Is 7.10-17, com Is 8.4 inserido entre os versículos 16 e 17.
15. Não vimos onde Justino admitiu isso; mas não se deve supor que se tenha perdido a passagem em que o admitiu, como suspeitou Perionius; pois às vezes Justino remete a passagens de outros lugares que ele não relatou no seu próprio lugar. Maranus.
16. Em grego, teōs (“há algum tempo”); o texto comum traz para Theō (“junto de Deus”), por erro. Otto.
17. O texto está corrompido, e várias emendas foram propostas.
18. Ou: “e ser adorado como Deus”.
19. Ou: “um jumento”. O jumento era consagrado a Baco; e muitos hesitam entre oinon e onon.
20. O texto traz aqui tauta poiēsai homoiōs. Maranus propõe Ēsaiou em lugar de poiēsai; e assim traduzimos.
21. Justino diz que os sacerdotes de Mitra imitaram todas as palavras de Isaías que vão ser citadas; e, para prová-lo, contenta-se com um único exemplo, a saber, os preceitos de justiça, que eles costumavam atribuir a ele, como nestas palavras de Isaías: “Aquele que anda em justiça” etc. Justino omitiu muitas outras passagens, por serem fáceis e óbvias. Pois, como Mitra é o mesmo que o fogo, corresponde manifestamente ao fogo de que Isaías fala. E, como Justino lembrou que os iniciados dizem ser iniciados pelo próprio Mitra, não era necessário lembrar que as palavras de Isaías são imitadas nisto: “Vocês verão o Rei com glória”. Isaías se refere a pão e água; assim também, nesses mistérios de Mitra, Justino atesta que se põem diante deles pão e um cálice de água (Primeira Apologia, 66). Maranus.
22. Isto é, os demônios.
23. Isto é, os sacerdotes de Mitra.
24. Literalmente: “para fazer”, poiein.
25. Literalmente: “para fazer”, poiein.
26. Ou: “professo”.
27. Ou: “mesmo que nós”.
28. Não se sabe de onde vem esta passagem.
29. Isto falta nas nossas Escrituras: é citado por Ireneu, III, 20, sob o nome de Isaías, e em IV, 22, sob o de Jeremias. Maranus.
30. Estas palavras não foram retiradas pelos judeus, mas acrescentadas por algum cristão. Otto.
31. É estranho que não se tenha acrescentado “desde o madeiro”; mas a audácia dos copistas nessas questões é bem conhecida. Maranus.
32. Muitos pensam: “por vocês”.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Marcus Dods e George Reith (Ante-Nicene Fathers, vol. 1, Buffalo, 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são dos tradutores ingleses; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Justino cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.