Justino Mártir, Diálogo com Trifão · Diálogo com Trifão

Capítulos 86 a 99

As figuras do madeiro e da cruz no Antigo Testamento; a maldição que Cristo tomou sobre si; o Salmo 22 e as palavras de Cristo na cruz.

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Capítulo LXXXVI. Há no antigo testamento várias figuras do madeiro da cruz, pelo qual Cristo reinou

E, depois de citar isso, acrescentei: “Ouçam, então, como este Homem, de quem as Escrituras declaram que voltará em glória depois da sua crucificação, foi simbolizado tanto pela árvore da vida, que se diz ter sido plantada no paraíso, como pelos acontecimentos que haveriam de suceder a todos os justos. Moisés foi enviado com uma vara para realizar a redenção do povo; e, tendo-a nas mãos, à frente do povo, dividiu o mar. Por meio dela viu a água jorrar da rocha; e, quando lançou um madeiro nas águas de Mara, que eram amargas, tornou-as doces. Jacó, pondo varas nos bebedouros, fez conceber as ovelhas do seu tio, de modo a obter as crias delas. Com a sua vara o mesmo Jacó se gloria de ter atravessado o rio. Disse ter visto uma escada, e a Escritura declarou que Deus estava em pé acima dela. Mas que este não era o Pai, já o provamos pelas Escrituras. E Jacó, tendo derramado azeite sobre uma pedra naquele mesmo lugar, recebe o testemunho do próprio Deus que lhe apareceu, de que ungira uma coluna ao Deus que lhe havia aparecido. E que a pedra proclamava simbolicamente o Cristo, também o provamos por muitas passagens da Escritura; e que o unguento, quer fosse de azeite, quer de estoraque, quer de qualquer outro bálsamo aromático composto, se referia a ele, também o provamos,1 visto que a palavra diz: ‘Por isso, Deus, o seu Deus, o ungiu com o óleo de alegria, como a nenhum dos seus companheiros’ (Sl 45.7). Pois, de fato, todos os reis e ungidos receberam dele a sua participação nos nomes de reis e de ungidos, assim como ele mesmo recebeu do Pai os títulos de Rei, e Cristo, e Sacerdote, e Anjo, e outros títulos semelhantes que ele tem ou teve. A vara de Arão, que floresceu, declarou-o sumo sacerdote. Isaías profetizou que uma vara sairia da raiz de Jessé, [e esta era] o Cristo. E Davi diz que o justo é ‘como árvore plantada junto a uma corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha’ (Sl 1.3). E também se diz que o justo floresce como a palmeira. Deus apareceu a Abraão desde uma árvore, como está escrito, junto ao carvalho de Manre. O povo encontrou setenta salgueiros e doze fontes depois de atravessar o Jordão.2 Davi afirma que Deus o consolou com uma vara e um cajado. Eliseu, lançando um pedaço de pau3 no rio Jordão, recuperou o ferro do machado com que os filhos dos profetas tinham ido cortar árvores para construir a casa onde desejavam ler e estudar a lei e os mandamentos de Deus; assim também o nosso Cristo, sendo crucificado no madeiro e purificando[-nos] com água, nos redimiu, embora mergulhados nas mais terríveis ofensas que havíamos cometido, e fez [de nós] uma casa de oração e de adoração. Além disso, foi uma vara que indicou Judá como pai dos filhos de Tamar, por um grande mistério.”

Capítulo LXXXVII. Trifão objeta com estas palavras: “e repousará sobre ele” etc. Justino as explica

Então Trifão, depois que eu disse essas palavras, falou: “Não pense agora que, ao perguntar o que pergunto, estou tentando derrubar as afirmações que você fez; o que desejo é receber esclarecimento justamente sobre os pontos a respeito dos quais agora indago. Diga-me, então: quando a Escritura afirma, por Isaías, ‘Sairá uma vara da raiz de Jessé, e uma flor brotará da raiz de Jessé; e o Espírito de Deus repousará sobre ele, o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de poder, o espírito de conhecimento e de piedade; e o espírito do temor do Senhor o encherá’ (Is 11.1-3) (ora, você me admitiu”, prosseguiu ele, “que isto se referia a Cristo, e sustenta que ele é Deus preexistente e que, tendo se encarnado pela vontade de Deus, nasceu homem da Virgem), como se pode demonstrar que era preexistente aquele que é cheio dos poderes do Espírito Santo que a Escritura, por Isaías, enumera, como se ele tivesse falta deles?”

Então respondi: “Você perguntou com muito discernimento e muita prudência, pois na verdade parece haver aí uma dificuldade; mas escute o que digo, para que perceba também a razão disto. A Escritura diz que esses poderes do Espírito, assim enumerados, vieram sobre ele, não porque ele precisasse deles, mas porque haveriam de repousar nele, isto é, de encontrar nele o seu cumprimento, de modo que não haveria mais profetas na nação de vocês segundo o antigo costume; e este fato vocês percebem claramente. Pois depois dele nenhum profeta se levantou entre vocês. Ora, para [que você saiba que] os seus profetas, recebendo cada um algum poder ou dois da parte de Deus, fizeram e disseram as coisas que aprendemos nas Escrituras, preste atenção às seguintes observações minhas. Salomão possuía o espírito de sabedoria; Daniel, o de entendimento e de conselho; Moisés, o de poder e de piedade; Elias, o de temor; e Isaías, o de conhecimento; e assim os demais: cada um possuía um só poder, ou um alternadamente unido a outro; e também Jeremias, e os doze [profetas], e Davi, e, numa palavra, todos os outros que houve entre vocês. Por isso ele4 repousou, isto é, cessou, quando veio aquele depois de quem, nos tempos desta dispensação realizada por ele entre os homens,5 era necessário que tais dons cessassem entre vocês; e, tendo encontrado nele o seu repouso, haveriam de tornar-se de novo, como fora predito, dons que, pela graça do poder do seu Espírito, ele concede aos que nele creem, conforme julga cada um digno deles. Já disse, e digo outra vez, que fora profetizado que isso seria feito por ele depois da sua ascensão ao céu. Diz-se, pois:6 ‘Ele subiu ao alto, levou cativo o cativeiro, deu dons aos filhos dos homens’ (Sl 68.18). E outra vez, em outra profecia, se diz: ‘E acontecerá, depois disso, que derramarei o meu Espírito sobre toda a humanidade, e sobre os meus servos e sobre as minhas servas, e eles profetizarão’ (Jl 2.28-29).

Capítulo LXXXVIII. Cristo não recebeu o Espírito Santo por carência

“Ora, é possível ver entre nós mulheres e homens que possuem dons do Espírito de Deus; de modo que foi profetizado que os poderes enumerados por Isaías viriam sobre ele, não porque ele precisasse de poder, mas porque esses poderes não continuariam depois dele. E que lhes sirva de prova o que eu lhes contei que fizeram os magos da Arábia, que, logo que o Menino nasceu, vieram adorá-lo; pois já no seu nascimento ele estava de posse do seu poder; e, crescendo como todos os outros homens, usando os meios apropriados, atribuiu a cada fase do desenvolvimento as suas próprias [exigências], e foi sustentado por toda espécie de alimento, e esperou trinta anos, mais ou menos, até que João apareceu diante dele como o arauto da sua vinda e o precedeu no caminho do batismo, como já mostrei. E então, quando Jesus foi ao rio Jordão, onde João batizava, e entrou na água, acendeu-se um fogo7 no Jordão; e, quando ele saiu da água, o Espírito Santo pousou sobre ele como uma pomba, [como] escreveram os apóstolos deste nosso Cristo. Ora, sabemos que ele não foi ao rio porque precisasse do batismo ou da descida do Espírito como pomba; assim como se submeteu a nascer e a ser crucificado, não porque tivesse necessidade dessas coisas, mas por causa do gênero humano, que desde Adão havia caído sob o poder da morte e o engano da serpente, e cada um de cujos membros havia cometido transgressão pessoal. Pois Deus, querendo que tanto os anjos como os homens, dotados de livre-arbítrio e senhores de si mesmos, fizessem tudo aquilo para que havia capacitado cada um, assim os fez: se escolhessem o que lhe é agradável, ele os guardaria livres da morte e do castigo; mas, se praticassem o mal, castigaria cada um como lhe parecesse bem. Pois não foi a sua entrada em Jerusalém montado num jumento, a qual mostramos que fora profetizada, que lhe deu o poder de ser o Cristo; mas ela forneceu aos homens uma prova de que ele é o Cristo; assim como foi necessário, no tempo de João, que os homens tivessem uma prova, para que soubessem quem é o Cristo. Pois, quando João permanecia8 junto ao Jordão e pregava o batismo de arrependimento, vestindo apenas um cinto de couro e uma veste de pelos de camelo, sem comer nada além de gafanhotos e mel silvestre, os homens supunham que ele fosse o Cristo; mas ele lhes clamava: ‘Eu não sou o Cristo, mas a voz do que clama; pois virá aquele que é mais forte do que eu, cujas sandálias não sou digno de carregar’ (Jo 1.20,23; Mt 3.11). E, quando Jesus veio ao Jordão, era tido como filho de José, o carpinteiro; e apareceu sem formosura, como as Escrituras declaravam; e era considerado carpinteiro (pois, quando estava entre os homens, costumava trabalhar como carpinteiro, fazendo arados e jugos, com o que ensinava os símbolos da justiça e de uma vida ativa); mas então o Espírito Santo, e isto por causa do homem, como eu disse antes, pousou sobre ele em forma de pomba, e no mesmo instante veio dos céus uma voz, que também foi pronunciada por Davi quando falou, na pessoa de Cristo, o que o Pai lhe diria: ‘Você é meu Filho, hoje eu gerei você’ (Sl 2.7); [o Pai] dizendo que a geração dele se daria para os homens no tempo em que viessem a conhecê-lo: ‘Você é meu Filho, hoje eu gerei você’.”9

Capítulo LXXXIX. Só a cruz escandaliza Trifão, por causa da maldição; no entanto, ela prova que Jesus é o Cristo

Então Trifão observou: “Fique certo de que toda a nossa nação espera o Cristo; e admitimos que todas as Escrituras que você citou se referem a ele. Além disso, admito também que o nome de Jesus, pelo qual era chamado o filho de Nave (Num), me inclinou muito fortemente a adotar essa opinião. Mas se o Cristo devia ser crucificado de modo tão vergonhoso, disso duvidamos. Pois a lei diz que todo aquele que é crucificado é maldito, de modo que sou extremamente incrédulo neste ponto. É bem claro, de fato, que as Escrituras anunciam que o Cristo tinha de sofrer; mas queremos saber se você pode nos provar que foi pelo sofrimento amaldiçoado na lei.”

Respondi-lhe: “Se o Cristo não devesse sofrer, e os profetas não tivessem predito que ele seria levado à morte por causa dos pecados do povo, e seria desonrado e açoitado, e contado entre os transgressores, e, como ovelha, levado ao matadouro, ele, cuja geração, diz o profeta, ninguém pode declarar, então vocês teriam boa razão para se admirar. Mas, se estas coisas devem caracterizá-lo e assinalá-lo diante de todos, como nos é possível fazer outra coisa senão crer nele com toda a confiança? E não dirão todos os que entenderam os escritos dos profetas, sempre que ouvirem simplesmente que ele foi crucificado, que este é ele e nenhum outro?”

Capítulo xc. As mãos estendidas de Moisés significavam de antemão a cruz

“Conduza-nos, então”, disse [Trifão], “pelas Escrituras, para que também nós sejamos persuadidos por você; pois sabemos que ele devia sofrer e ser levado como ovelha. Mas prove-nos se ele devia ser crucificado e morrer de modo tão vergonhoso e tão desonroso, pela morte amaldiçoada na lei. Pois nós não conseguimos sequer conceber isso.”

“Vocês sabem”, disse eu, “que o que os profetas disseram e fizeram, eles o velaram em parábolas e figuras, como vocês nos admitiram; de modo que não era fácil a todos entender a maior parte [do que disseram], pois por esses meios ocultavam a verdade, para que os que se empenham em descobri-la e aprendê-la o conseguissem com muito trabalho.”

Eles responderam: “Admitimos isso.”

“Escutem, portanto”, digo eu, “o que se segue; pois Moisés foi o primeiro a mostrar esta aparente maldição do Cristo pelos sinais que fez.”

“De que [sinais] você fala?”, disse ele.

“Quando o povo”, respondi eu, “fazia guerra contra Amaleque, e o filho de Nave (Num), de nome Jesus (Josué), conduzia o combate, o próprio Moisés orava a Deus, estendendo ambas as mãos, e Hur, com Arão, as sustentou durante todo o dia, para que não caíssem quando ele se cansasse. Pois, se ele abandonava em alguma parte este sinal, que era uma imitação da cruz, o povo era derrotado, como está registrado nos escritos de Moisés; mas, se permanecia nesta posição, Amaleque era vencido na mesma proporção, e quem prevalecia prevalecia pela cruz. Pois não era porque Moisés orava assim que o povo se tornava mais forte, mas porque, enquanto alguém que levava o nome de Jesus (Josué) estava na linha de frente da batalha, ele mesmo fazia o sinal da cruz. Pois quem de vocês não sabe que a oração de quem a acompanha com lamento e lágrimas, com o corpo prostrado ou de joelhos dobrados, é a que mais aplaca a Deus? Mas desse modo nem ele nem qualquer outro orou jamais sentado sobre uma pedra. Nem mesmo a pedra simbolizava o Cristo, como já mostrei.

Capítulo xci. A cruz foi predita nas bênçãos de josé e na serpente que foi levantada

“E Deus, por meio de Moisés, mostra de outro modo a força do mistério da cruz, quando disse na bênção com que José foi abençoado: ‘Da bênção do Senhor é a sua terra; pelas estações do céu, e pelos orvalhos, e pelas fontes profundas de baixo, e pelos frutos sazonados do sol,10 e pelo concurso dos meses, e pelos cumes dos montes eternos, e pelos cumes das colinas, e pelos rios perenes, e pelos frutos da fartura da terra; e as coisas aceitas por aquele que apareceu na sarça venham sobre a cabeça e a coroa de José. Seja ele glorificado entre os seus irmãos;11 a sua formosura é [como] a do primogênito de um novilho; os seus chifres, os chifres de um unicórnio; com eles escorneará as nações de uma extremidade da terra à outra’ (Dt 33.13-17). Ora, ninguém poderia dizer ou provar que os chifres de um unicórnio representam qualquer outro fato ou figura senão a figura que retrata a cruz. Pois uma das traves é posta de pé, e a sua extremidade mais alta se ergue como um chifre, quando a outra trave é ajustada nela; e as pontas aparecem dos dois lados como chifres unidos ao único chifre. E a parte que se fixa no centro, na qual ficam suspensos os que são crucificados, também se projeta como um chifre; e também ela parece um chifre ligado e fixado aos outros chifres. E a expressão ‘Com eles escorneará, como com chifres, as nações de uma extremidade da terra à outra’ indica o que agora de fato acontece entre todas as nações. Pois alguns de todas as nações, pelo poder deste mistério, tendo sido assim escorneados, isto é, compungidos no coração, se converteram dos ídolos vãos e dos demônios para servir a Deus. Mas a mesma figura se revela para a destruição e condenação dos incrédulos; assim como Amaleque foi derrotado e Israel saiu vitorioso, quando o povo saiu do Egito, por meio da figura das mãos estendidas de Moisés e do nome de Jesus (Josué), pelo qual era chamado o filho de Nave (Num). E parece que a figura e o sinal que foi erguido contra as serpentes que mordiam Israel destinava-se à salvação dos que creem que a morte fora declarada como destino da serpente dali em diante, por meio daquele que havia de ser crucificado, e a salvação aos que tinham sido mordidos por ela e se haviam refugiado naquele que enviou o seu Filho ao mundo para ser crucificado. Pois o Espírito de profecia, por Moisés, não nos ensinou a crer na serpente, já que nos mostra que ela foi amaldiçoada por Deus desde o princípio; e em Isaías nos diz que ela será morta como inimiga pela espada poderosa, que é o Cristo.

Capítulo xcii. Se as Escrituras não forem entendidas pela grande graça de Deus, Deus não parecerá ter ensinado sempre a mesma justiça

“Portanto, se alguém não recebe, pela grande graça de Deus, o poder de entender o que foi dito e feito pelos profetas, de nada lhe adiantará a aparência de ser capaz de repetir as palavras ou os feitos, se não puder explicar o seu sentido. E não parecerão eles, por certo, desprezíveis a muitos, já que são relatados por quem não os entendeu? Pois, se alguém quisesse perguntar a vocês por que, tendo Enoque, Noé com os seus filhos e todos os outros em circunstâncias semelhantes, que nem foram circuncidados nem guardaram o sábado, agradado a Deus, Deus exigiu, por meio de outros líderes e pela promulgação da lei depois de passadas tantas gerações, que os que viveram entre os tempos de Abraão e de Moisés fossem justificados pela circuncisão, e que os que viveram depois de Moisés fossem justificados pela circuncisão e pelas outras ordenanças, a saber, o sábado, os sacrifícios, as libações12 e as ofertas; [Deus será caluniado] a menos que vocês mostrem, como já disse, que Deus, que sabe de antemão, sabia que a nação de vocês mereceria a expulsão de Jerusalém, e que a ninguém seria permitido entrar nela. (Pois13 vocês não se distinguem de nenhum outro modo senão pela circuncisão da carne, como observei antes. Pois Abraão foi declarado justo por Deus, não por causa da circuncisão, mas por causa da fé. Pois, antes que ele fosse circuncidado, foi feita a seu respeito a seguinte declaração: ‘Abraão creu em Deus, e isso lhe foi atribuído para justiça’ (Gn 15.6). E nós, portanto, na incircuncisão da nossa carne, crendo em Deus por meio de Cristo e tendo aquela circuncisão que é proveitosa a nós que a recebemos, isto é, a do coração, esperamos aparecer justos e agradáveis diante de Deus, visto que já recebemos o seu testemunho pelas palavras dos profetas.) [E, além disso, Deus será caluniado a menos que vocês mostrem] que lhes foi ordenado guardar o sábado e apresentar ofertas, e que o Senhor consentiu em ter um lugar chamado pelo nome de Deus, a fim de que, como já se disse, vocês não se tornassem ímpios e sem Deus, adorando ídolos e esquecendo-se de Deus, como de fato sempre parecem ter sido. (Ora, que Deus prescreveu as ordenanças dos sábados e das ofertas por estas razões, eu o provei no que disse anteriormente; mas, por causa dos que vieram hoje, quero repetir quase tudo.) Pois, se não for assim, Deus será caluniado14 como quem não tem presciência e não ensina todos os homens a conhecer e a praticar os mesmos atos de justiça (pois muitas gerações de homens parecem ter existido antes de Moisés); e não é verdadeira a Escritura que afirma: ‘Deus é verdadeiro e justo, e todos os seus caminhos são juízo, e nele não há injustiça’ (Dt 32.4). Mas, como a Escritura é verdadeira, Deus sempre quer que mesmo pessoas como vocês não sejam insensatas nem amantes de si mesmas, a fim de que alcancem a salvação de Cristo,15 que agradou a Deus e recebeu testemunho dele, como já disse, apresentando provas das santas palavras da profecia.

Capítulo xciii. A mesma espécie de justiça é concedida a todos. Cristo a resume em dois preceitos

“Pois [Deus] põe diante de toda raça humana aquilo que é sempre e universalmente justo, assim como toda a justiça; e toda raça sabe que o adultério, a fornicação, o homicídio16 e coisas semelhantes são pecado; e, embora todos pratiquem tais coisas, não escapam à consciência de que agem injustamente sempre que o fazem, com exceção dos que estão possuídos por um espírito imundo e dos que foram corrompidos pela educação, por costumes perversos e por instituições pecaminosas, e que perderam, ou antes, apagaram e sufocaram as suas noções naturais. Pois podemos ver que tais pessoas não querem sofrer as mesmas coisas que infligem aos outros, e se acusam mutuamente, com consciências hostis, pelos atos que praticam. E por isso penso que o nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo falou bem quando resumiu toda a justiça e piedade em dois mandamentos. São estes: ‘Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração e de todas as suas forças, e o seu próximo como a si mesmo’ (Mt 22.37-39). Pois o homem que ama a Deus de todo o coração e de todas as forças, estando cheio de uma mente temente a Deus, não reverenciará nenhum outro deus; e, uma vez que Deus o quer, reverenciaria aquele anjo que é amado pelo mesmo Senhor e Deus. E o homem que ama o seu próximo como a si mesmo desejará para ele os mesmos bens que deseja para si, e nenhum homem deseja males para si mesmo. Por conseguinte, quem ama o seu próximo oraria e trabalharia para que o seu próximo possuísse os mesmos benefícios que ele. Ora, nada mais é próximo do homem do que aquele ser de iguais afetos e dotado de razão: o homem. Portanto, sendo toda a justiça dividida em dois ramos, a saber, enquanto diz respeito a Deus e aos homens, quem, diz a Escritura, ama o Senhor Deus de todo o coração e de todas as forças, e o seu próximo como a si mesmo, seria verdadeiramente um homem justo. Mas vocês nunca demonstraram ter amizade ou amor nem para com Deus, nem para com os profetas, nem para com vocês mesmos; antes, como é evidente, sempre se acham idólatras e assassinos de homens justos, a ponto de terem posto as mãos até no próprio Cristo; e até o dia de hoje permanecem na sua maldade, amaldiçoando os que provam que este homem que vocês crucificaram é o Cristo. E, mais do que isso, supõem que ele foi crucificado como inimigo de Deus e amaldiçoado por ele, suposição que é produto da mente de vocês, totalmente irracional. Pois, embora tenham os meios de entender, pelos sinais dados por Moisés, que este homem é o Cristo, não o querem; e, além disso, imaginando que nós não podemos ter argumentos, fazem qualquer pergunta que lhes venha à mente, enquanto vocês mesmos ficam sem argumentos sempre que encontram algum cristão firmemente estabelecido.

Capítulo xciv. Em que sentido é maldito aquele que é pendurado num madeiro

“Pois digam-me: não foi Deus quem ordenou, por meio de Moisés, que não se fizesse imagem nem semelhança de coisa alguma que há em cima no céu ou que há na terra, e, no entanto, foi ele quem mandou que Moisés fizesse a serpente de bronze no deserto e a levantasse como sinal, pelo qual se salvavam os que eram mordidos pelas serpentes? E, contudo, ele está livre de injustiça. Pois por meio disso, como observei antes, ele proclamou o mistério pelo qual declarou que quebraria o poder da serpente que ocasionou a transgressão de Adão, e [traria] aos que creem naquele [que era prefigurado] por este sinal, isto é, naquele que havia de ser crucificado, a salvação das presas da serpente, que são as más obras, as idolatrias e os outros atos injustos. Se a questão não for entendida assim, deem-me uma razão por que Moisés levantou a serpente de bronze como sinal e mandou que os que eram mordidos olhassem para ela, e os feridos eram curados; e isto quando ele mesmo havia ordenado que não se fizesse semelhança de coisa alguma.”

Diante disso, outro dos que tinham vindo no segundo dia disse: “Você falou a verdade: não sabemos dar uma razão. Pois muitas vezes interroguei os mestres sobre este assunto, e nenhum deles me deu uma razão; continue, portanto, o que está dizendo, pois estamos atentos enquanto você expõe o mistério por causa do qual as doutrinas dos profetas são falsamente caluniadas.”

Então respondi: “Assim como Deus ordenou que se fizesse o sinal por meio da serpente de bronze, e, no entanto, é irrepreensível, assim também, embora haja na lei uma maldição contra os que são crucificados, nenhuma maldição pesa sobre o Cristo de Deus, por quem são salvos todos os que cometeram coisas dignas de maldição.

Capítulo xcv. Cristo tomou sobre si a maldição que nos era devida

“Pois todo o gênero humano se achará debaixo de maldição. Porque está escrito na lei de Moisés: ‘Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no livro da lei, para praticá-las’ (Dt 27.26). E ninguém as cumpriu todas com exatidão, nem vocês ousarão negar isto; mas uns mais e outros menos observaram as ordenanças prescritas. Mas, se os que estão sob esta lei parecem estar debaixo de maldição por não terem observado todos os preceitos, quanto mais parecerão estar debaixo de maldição todas as nações, que praticam a idolatria, corrompem os jovens e cometem outros crimes? Se, pois, o Pai de todos quis que o seu Cristo, em favor de toda a família humana, tomasse sobre si as maldições de todos, sabendo que, depois de crucificado e morto, o ressuscitaria, por que vocês discutem a respeito dele, que se submeteu a sofrer estas coisas segundo a vontade do Pai, como se fosse maldito, em vez de lamentarem a si mesmos? Pois, embora o seu Pai o tenha feito sofrer estas coisas em favor da família humana, vocês não cometeram o crime em obediência à vontade de Deus. Pois não praticavam a piedade quando mataram os profetas. E que nenhum de vocês diga: ‘Se o seu Pai quis que ele sofresse isto, para que pelas suas feridas o gênero humano fosse curado, nós não cometemos injustiça alguma.’ Se, de fato, vocês se arrependerem dos seus pecados, e o reconhecerem como o Cristo, e guardarem os seus mandamentos, então poderão afirmar isso; pois, como eu disse antes, a remissão dos pecados será de vocês. Mas, se vocês o amaldiçoam, a ele e aos que nele creem, e, quando têm o poder, os matam, como é possível que não se peçam contas a vocês, como a homens injustos e pecadores, de todo endurecidos e sem entendimento, por terem posto as mãos nele?

Capítulo xcvi. Aquela maldição era uma predição do que os judeus haviam de fazer

“Pois a declaração da lei, ‘Maldito todo aquele que é pendurado num madeiro’ (Dt 21.23), confirma a nossa esperança, que depende do Cristo crucificado, não porque aquele que foi crucificado seja maldito por Deus, mas porque Deus predisse o que seria feito por todos vocês e pelos que são semelhantes a vocês, que não sabem17 que este é aquele que existia antes de todas as coisas, que é o Sacerdote eterno de Deus, e Rei, e Cristo. E vocês veem claramente que isto se cumpriu. Pois vocês amaldiçoam nas suas sinagogas todos os que, por causa dele, são chamados18 cristãos; e as outras nações executam efetivamente a maldição, matando os que simplesmente confessam ser cristãos; a todos os quais dizemos: ‘Vocês são nossos irmãos; reconheçam antes a verdade de Deus.’ E, enquanto nem eles nem vocês são persuadidos por nós, mas se esforçam com empenho para nos fazer negar o nome de Cristo, nós preferimos a morte e a ela nos submetemos, na plena certeza de que Deus nos recompensará com todo o bem que prometeu por meio de Cristo. E, além de tudo isto, oramos por vocês, para que Cristo tenha misericórdia de vocês. Pois ele nos ensinou a orar também pelos nossos inimigos, dizendo: ‘Amem os seus inimigos; sejam bondosos e misericordiosos, como o Pai celestial de vocês é’ (Lc 6.35-36). Pois vemos que o Deus todo-poderoso é bondoso e misericordioso, fazendo nascer o seu sol sobre os ingratos e sobre os justos, e enviando a chuva sobre os santos e sobre os maus; e ele nos ensinou que a todos estes há de julgar.

Capítulo xcvii. Outras predições da cruz de Cristo

“Pois não foi sem propósito que o profeta Moisés, quando Hur e Arão lhe sustentavam as mãos, permaneceu nesta posição até a tarde. Pois, de fato, o Senhor permaneceu sobre o madeiro quase até a tarde, e o sepultaram ao entardecer; depois, ao terceiro dia, ressuscitou. Isto foi declarado por Davi assim: ‘Com a minha voz clamei ao Senhor, e ele do seu santo monte me ouviu. Eu me deitei e dormi; acordei, porque o Senhor me sustentou’ (Sl 3.4-5). E Isaías também menciona a respeito dele o modo como havia de morrer, assim: ‘Estendi as minhas mãos a um povo desobediente e rebelde, que anda por um caminho que não é bom’ (Is 65.2; cf. Rm 10.21). E que ele havia de ressuscitar, o próprio Isaías o disse: ‘A sua sepultura foi tirada do meio, e eu darei os ricos pela sua morte’ (Is 53.9). E outra vez, com outras palavras, Davi, no salmo vinte e um, refere-se assim ao sofrimento e à cruz, numa parábola de mistério: ‘Traspassaram as minhas mãos e os meus pés; contaram todos os meus ossos. Consideraram-me e fitaram os olhos em mim; repartiram entre si as minhas vestes e lançaram sortes sobre a minha túnica’ (Sl 22.16-18). Pois, quando o crucificaram, cravando os pregos, traspassaram-lhe as mãos e os pés; e os que o crucificaram repartiram entre si as suas vestes, cada um lançando sortes sobre o que escolhia ter e recebendo conforme a decisão da sorte. E vocês sustentam que este mesmo salmo não se refere a Cristo; pois são cegos em tudo e não entendem que ninguém da nação de vocês que tenha sido chamado Rei ou Cristo teve jamais, enquanto vivo, as mãos ou os pés traspassados, nem morreu desta forma misteriosa, isto é, pela cruz, senão este Jesus somente.

Capítulo xcviii. Predições de Cristo no salmo 22

“Vou repetir o salmo inteiro, para que vocês ouçam a sua reverência para com o Pai, e como refere tudo a ele e ora para ser livrado por ele desta morte; declarando ao mesmo tempo, no salmo, quem são os que se levantam contra ele, e mostrando que ele verdadeiramente se tornou homem capaz de sofrer. É assim: ‘Ó Deus, meu Deus, atende-me: por que me desamparaste? As palavras das minhas transgressões estão longe da minha salvação. Ó meu Deus, clamarei a ti de dia, e não me ouvirás; e de noite, e não é por falta de entendimento em mim. Mas tu, o Louvor de Israel, habitas o lugar santo. Nossos pais confiaram em ti; confiaram, e tu os livraste. Clamaram a ti e foram livrados; confiaram em ti e não foram confundidos. Mas eu sou verme, e não homem; opróbrio dos homens e desprezado do povo. Todos os que me veem zombaram de mim; falaram com os lábios, menearam a cabeça: Confiou no Senhor; que ele o livre, que ele o salve, pois tem prazer nele. Pois tu és aquele que me tirou do ventre; minha esperança desde os seios de minha mãe; fui lançado sobre ti desde o ventre. Tu és o meu Deus desde o ventre de minha mãe: não fiques longe de mim, porque a angústia está perto, pois não há quem ajude. Muitos novilhos me cercaram; touros gordos me rodearam. Abriram contra mim a boca, como leão que despedaça e ruge. Todos os meus ossos se derramaram e se espalharam como água. O meu coração se tornou como cera que se derrete no meio das minhas entranhas. A minha força secou como um caco de barro, e a minha língua se apegou à minha garganta; e tu me levaste ao pó da morte. Pois muitos cães me cercaram; a assembleia dos malvados me rodeou. Traspassaram as minhas mãos e os meus pés, contaram todos os meus ossos. Olharam e fitaram os olhos em mim; repartiram entre si as minhas vestes e lançaram sortes sobre a minha túnica. Mas tu, Senhor, não retires de mim o teu socorro; cuida de me ajudar; livra a minha alma da espada, e o meu19 unigênito da mão do cão. Salva-me da boca do leão, e a minha humildade dos chifres dos unicórnios. Anunciarei o teu nome aos meus irmãos; no meio da igreja te louvarei. Vocês que temem o Senhor, louvem-no; toda a descendência de Jacó, glorifique-o. Tema-o toda a descendência de Israel’ (Sl 22.1-23).”

Capítulo xcix. No começo do salmo estão as palavras de Cristo ao morrer

E, depois de dizer estas palavras, continuei: “Agora vou demonstrar a vocês que o salmo inteiro se refere assim a Cristo, pelas palavras que de novo explicarei. O que se diz primeiro, ‘Ó Deus, meu Deus, atende-me: por que me desamparaste?’ (Sl 22.1), anunciou desde o princípio aquilo que havia de ser dito no tempo de Cristo. Pois, quando crucificado, ele disse: ‘Ó Deus, meu Deus, por que me desamparaste?’ (Mt 27.46). E o que segue: ‘As palavras das minhas transgressões estão longe da minha salvação. Ó meu Deus, clamarei a ti de dia, e não me ouvirás; e de noite, e não é por falta de entendimento em mim’ (Sl 22.1-2). Estas palavras foram ditas, assim como as coisas que ele havia de fazer. Pois, no dia em que havia de ser crucificado, tendo levado três dos seus discípulos ao monte chamado das Oliveiras, situado diante do templo em Jerusalém, orou com estas palavras: ‘Pai, se é possível, que passe de mim este cálice’ (Mt 26.39). E outra vez orou: ‘Não seja como eu quero, e sim como tu queres’ (Mt 26.39); mostrando com isso que se tornara verdadeiramente um homem sujeito ao sofrimento. Mas, para que ninguém dissesse ‘Ele não sabia então que tinha de sofrer’, acrescenta logo no salmo: ‘E não é por falta de entendimento em mim’ (Sl 22.2). Assim como não havia ignorância da parte de Deus quando perguntou a Adão onde ele estava, ou perguntou a Caim onde estava Abel, mas [isso se fez] para convencer cada um de que espécie de homem era, e para que, pelo registro [da Escritura], tivéssemos conhecimento de tudo; assim também Cristo declarou que a ignorância não estava do seu lado, mas do lado deles, que pensavam que ele não era o Cristo e imaginavam que o matariam e que ele, como um mortal qualquer, permaneceria no Hades.

Notas

1. Provavelmente no cap. LXIII, onde se cita o mesmo salmo.

2. O mar Vermelho, e não o Jordão.

3. Literalmente, “uma árvore”.

4. Ele, isto é, o Espírito. O “ele” seguinte é Cristo.

5. Ou “realizada entre o seu povo”. Assim Otto.

6. Literalmente, “Ele disse, pois”.

7. Justino soube disto ou pela tradição ou por livros apócrifos. Faz-se menção de um fogo tanto no Evangelho dos ebionitas como em outro escrito chamado Pauli prædicatio, cujos leitores e usuários negavam que o rito do batismo tivesse sido devidamente realizado, a menos que, quam mox in aquam descenderunt, statim super aquam ignis appareat. [N. do T.: em latim, “assim que descessem à água, aparecesse logo um fogo sobre a água”.]

8. Literalmente, “estava sentado”.

9. A repetição parece de todo supérflua.

10. Há aqui uma variante de leitura: ou abussou pegon katothen katharon, ou abussou pegon katothen, kai kath’ horan gennematon, k.t.l., que preferimos.

11. A tradução no texto reproduz a Septuaginta. Os manuscritos de Justino trazem: “Sendo glorificado como o primogênito entre os seus irmãos”.

12. Ou “cinzas”: spodon em vez de spondon.

13. Adotamos o parêntese inserido por Maranus. Langus inseriria antes dele ti hexete apokrinasthai: “Que terão vocês a responder?”

14. Acrescentamos esta frase duas vezes acima.

15. Literalmente, salvação junto com Cristo, isto é, salvação com o auxílio de Cristo.

16. Nos manuscritos lê-se andromania em vez de androphonia.

17. Lemos epistamenōn em vez de epistamenon. De outro modo, se traduziria: “Deus predisse aquilo que vocês não sabiam” etc.

18. legomenon em vez de genomenon.

19. Provavelmente deveria ser “o teu”.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Marcus Dods e George Reith (Ante-Nicene Fathers, vol. 1, Buffalo, 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são dos tradutores ingleses; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Justino cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.