Orígenes, Sobre os Princípios · Livro III

Capítulo 2: os poderes adversos

Os poderes adversos, a luta do cristão contra eles e o socorro de Deus nas tentações.

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Capítulo II. Sobre os poderes adversos

1. Devemos agora observar, de acordo com as afirmações da Escritura, como os poderes adversos, ou o próprio diabo, combatem o gênero humano, incitando e instigando os homens ao pecado. E, em primeiro lugar, no livro de Gênesis (Gn 3) se descreve que a serpente seduziu Eva; a respeito dela, na obra intitulada A Ascensão de Moisés1 (um pequeno tratado que o apóstolo Judas menciona em sua Epístola), o arcanjo Miguel, ao disputar com o diabo acerca do corpo de Moisés, diz que a serpente, inspirada pelo diabo, foi a causa da transgressão de Adão e Eva. Alguns também investigam isto, a saber, quem era o anjo que, falando do céu a Abraão, disse: “Agora sei que você teme a Deus e que, por minha causa, não poupou o seu filho amado, a quem você amava” (Gn 22.12).2 Pois ele é claramente descrito como um anjo que disse saber, naquele momento, que Abraão temia a Deus e não havia poupado seu filho amado, como declara a Escritura, embora não tenha dito que Abraão fizera isso por causa de Deus, mas por causa dele, isto é, de quem falava. Devemos também averiguar quem é aquele de quem se diz, no livro de Êxodo, que quis matar Moisés quando este partia para o Egito (cf. Êx 4.24-26); e depois, também, quem é o chamado anjo exterminador,3 assim como aquele que no livro de Levítico é chamado Apopompeu, isto é, Afastador, a respeito do qual a Escritura diz: “Uma sorte para o Senhor e uma sorte para Apopompeu, isto é, o Afastador” (Lv 16.8).4 Também no primeiro livro dos Reis se diz que um espírito mau sufocava5 Saul; e no terceiro livro o profeta Micaías diz: “Vi o Senhor de Israel assentado no seu trono, e todo o exército do céu estava junto dele, à sua direita e à sua esquerda. E o Senhor disse: Quem enganará Acabe, rei de Israel, para que suba e caia em Ramote-Gileade? E um dizia de um modo, e outro dizia de outro. E saiu um espírito, apresentou-se diante do Senhor e disse: Eu o enganarei. E o Senhor lhe perguntou: Com quê? E ele respondeu: Sairei e serei um espírito mentiroso na boca de todos os seus profetas. E ele disse: Você o enganará e também prevalecerá; saia e faça isso depressa. Agora, pois, o Senhor pôs um espírito mentiroso na boca de todos estes seus profetas; o Senhor falou o mal a seu respeito” (1Rs 22.19-23). Ora, por esta última citação se mostra claramente que certo espírito, por sua própria vontade (livre) e escolha, decidiu enganar (Acabe) e operar a mentira, para que o Senhor conduzisse o rei à morte, pois ele merecia sofrer. Também no primeiro livro das Crônicas se diz: “O diabo, Satanás, levantou-se contra Israel e incitou Davi a contar o povo” (1Cr 21.1). Nos Salmos, além disso, se diz que um anjo mau atormenta6 certas pessoas. No livro de Eclesiastes, também, Salomão diz: “Se o espírito do governante se levantar contra você, não deixe o seu lugar, porque a saúde refreará muitas transgressões” (Ec 10.4).7 Em Zacarias (Zc 3.1) lemos que o diabo estava à direita de Josué e lhe resistia. Isaías diz que a espada do Senhor se levanta contra o dragão, a serpente tortuosa8 (Is 27.1). E que direi de Ezequiel, que em sua segunda visão profetiza de modo inconfundível ao príncipe de Tiro acerca de um poder adverso, e que diz também que o dragão habita nos rios do Egito (Ez 28.12ss)? Mais ainda: de que outra coisa se ocupa o conteúdo de toda a obra escrita sobre Jó, senão dos (feitos) do diabo, que pede que lhe seja dado poder sobre tudo o que Jó possui, sobre os seus filhos e até sobre a sua pessoa? E, no entanto, o diabo é derrotado pela paciência de Jó. Nesse livro o Senhor, por meio de suas respostas, transmitiu muitas informações sobre o poder daquele dragão que se opõe a nós. Tais são, por ora, as afirmações feitas no Antigo Testamento, até onde podemos lembrá-las no momento, a respeito de poderes hostis que ou são nomeados na Escritura, ou são apresentados como adversários do gênero humano e depois submetidos a castigo.

Olhemos agora também para o Novo Testamento, onde Satanás se aproxima do Salvador e o tenta; onde também se afirma que espíritos maus e demônios imundos, que se haviam apoderado de muitíssimas pessoas, foram expulsos pelo Salvador dos corpos dos que sofriam, e destes se diz também que foram libertados por ele. Até mesmo Judas, quando o diabo já lhe havia posto no coração trair a Cristo, recebeu depois Satanás inteiramente em si; pois está escrito que, depois do pedaço de pão, “Satanás entrou nele” (cf. Jo 13.27). E o apóstolo Paulo nos ensina que não devemos dar lugar ao diabo; mas “vistam-se”, diz ele, “com toda a armadura de Deus, para que vocês possam ficar firmes contra as ciladas do diabo” (Ef 6.11), mostrando que os santos têm uma luta que “não é contra o sangue e a carne, mas contra os principados e as potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestiais” (Ef 6.12). Mais ainda: diz que o próprio Salvador foi crucificado pelos príncipes deste mundo, que serão reduzidos a nada (cf. 1Co 2.6), e cuja sabedoria, diz ele, não é a que ele fala. Por tudo isso, portanto, a santa Escritura nos ensina que há certos inimigos invisíveis que lutam contra nós, e contra os quais ela nos manda armar-nos. Daí também que os mais simples entre os que creem no Senhor Cristo pensam que todos os pecados cometidos pelos homens são causados pelos esforços persistentes desses poderes adversos sobre a mente dos pecadores, porque naquela luta invisível esses poderes se mostram superiores (ao homem). Pois, se, por exemplo, não houvesse diabo, nenhum ser humano9 se desviaria.

2. Nós, porém, que vemos com mais clareza a razão (da coisa), não sustentamos essa opinião, levando em conta aqueles (pecados) que manifestamente se originam como consequência necessária da nossa constituição corporal.10 Devemos, de fato, supor que o diabo é a causa de sentirmos fome ou sede? Ninguém, penso eu, se atreverá a afirmar isso. Se, então, ele não é a causa de sentirmos fome e sede, que diferença há quando cada indivíduo chega à idade da puberdade e esse período desperta os estímulos do calor natural? Seguir-se-á sem dúvida que, assim como o diabo não é a causa de sentirmos fome e sede, também não é a causa daquele apetite que surge naturalmente no tempo da maturidade, a saber, o desejo da união sexual. Ora, é certo que essa causa nem sempre é posta em movimento pelo diabo, de modo que fôssemos obrigados a supor que os corpos não teriam desejo de uma união dessa espécie se o diabo não existisse. Consideremos, em seguida, se, como já mostramos, o alimento é desejado pelos seres humanos não por sugestão do diabo, mas por uma espécie de instinto natural, se seria possível, caso não houvesse diabo, que a experiência humana mostrasse tal moderação no tomar alimento que nunca ultrapassasse os limites devidos; isto é, que ninguém tomasse alimento de modo diferente do que a situação exigisse, nem mais do que a razão permitisse; e assim resultaria que os homens, guardando a devida medida e moderação no comer, nunca errariam. Não penso, de fato, que os homens pudessem guardar tão grande moderação (ainda que não houvesse nenhuma instigação do diabo que os incitasse a isso) a ponto de nenhum indivíduo, ao tomar alimento, ir além da devida medida e contenção, antes de ter aprendido a fazê-lo pelo longo uso e pela experiência. Qual é, então, a situação? Quanto a comer e beber, era possível errarmos, mesmo sem nenhuma incitação do diabo, se acontecesse sermos menos temperantes ou menos cuidadosos (do que devíamos); e havemos de supor, então, que no apetite da união sexual, ou na contenção dos nossos desejos naturais, a nossa condição não é algo semelhante?11 Sou de opinião, de fato, que o mesmo raciocínio deve aplicar-se a outros movimentos naturais, como os da cobiça, da ira, da tristeza, ou de todos aqueles em geral que, pelo vício da intemperança, ultrapassam os limites naturais da moderação. Há, portanto, razões manifestas para sustentar a opinião de que, assim como nas coisas boas a vontade humana12 é por si mesma fraca para realizar qualquer bem (pois é com a ajuda divina que ela é levada à perfeição em tudo), assim também, nas coisas de natureza oposta, recebemos certos elementos iniciais e, por assim dizer, sementes de pecados, a partir das coisas que usamos de acordo com a natureza;13 mas, quando as satisfizemos além do que convém e não resistimos aos primeiros movimentos da intemperança, então o poder hostil, aproveitando a ocasião dessa primeira transgressão, nos incita e nos pressiona de todas as maneiras, procurando estender os nossos pecados por um campo mais vasto e fornecendo a nós, seres humanos, ocasiões e começos de pecados, que esses poderes hostis espalham por toda parte e, se possível, além de todo limite. Assim, quando os homens a princípio desejam um pouco de dinheiro, a cobiça começa a crescer à medida que a paixão aumenta, e por fim acontece a queda na avareza. E depois disso, quando a cegueira da mente sucedeu à paixão e os poderes hostis, com as suas sugestões, arrastam a mente, o dinheiro já não é apenas desejado, mas roubado, e adquirido pela força ou até derramando sangue humano. Por fim, uma prova confirmatória de que vícios de tal gravidade procedem dos demônios pode ver-se facilmente nisto: aqueles que são oprimidos por um amor imoderado, por uma ira incontrolável ou por uma tristeza excessiva não sofrem menos do que os que são atormentados corporalmente pelos demônios. Pois se registra em certas histórias que alguns caíram na loucura por causa do amor, outros por causa da ira, não poucos por causa da tristeza, e até por causa de uma alegria excessiva; o que resulta, penso eu, de que aqueles poderes adversos, isto é, aqueles demônios, tendo conseguido alojar-se na mente dessas pessoas, já aberta para eles pela intemperança, apoderaram-se completamente da sua natureza sensitiva,14 sobretudo quando nenhum sentimento da glória da virtude as despertou para a resistência.

3. Que há, porém, certos pecados que não procedem dos poderes adversos, mas têm seu começo nos movimentos naturais do corpo, declara-o manifestamente o apóstolo Paulo nesta passagem: “Porque a carne luta contra o Espírito, e o Espírito luta contra a carne, porque são opostos entre si, para que vocês não façam o que querem” (Gl 5.17). Se, pois, a carne luta contra o Espírito e o Espírito contra a carne, temos de lutar às vezes contra a carne e o sangue, isto é, enquanto somos homens, andamos segundo a carne e não somos capazes de ser tentados por tentações maiores que as humanas; visto que se diz a nosso respeito: “Não sobreveio a vocês nenhuma tentação que não fosse humana; mas Deus é fiel e não permitirá que vocês sejam tentados além do que podem suportar” (1Co 10.13). Pois, assim como os presidentes dos jogos públicos não permitem que os competidores entrem na arena ao acaso ou indiscriminadamente, mas, depois de cuidadoso exame, emparelham um com outro segundo um critério imparcialíssimo de tamanho ou de idade, por exemplo, meninos com meninos, homens com homens, que sejam próximos uns dos outros em idade ou em força, assim também devemos entender o procedimento da divina providência, que dispõe segundo princípios imparcialíssimos todos os que descem às lutas desta vida humana, conforme a natureza da força de cada indivíduo, que só é conhecida daquele que, sozinho, vê o coração dos homens: de modo que um indivíduo luta contra uma tentação da carne,15 outro contra outra; um fica exposto à sua influência por tanto tempo, outro só por tanto; um é tentado pela carne a esta ou àquela satisfação, outro a uma de espécie diferente; um tem de resistir a este ou àquele poder hostil, outro tem de combater dois ou três ao mesmo tempo; ou ora esta influência hostil, ora aquela; numa ocasião tendo de resistir a um inimigo, noutra a outro diferente; ficando exposto, depois de praticar certos atos, a um grupo de inimigos, e depois de outros, a um segundo grupo. E observe se não é algo assim que indicam as palavras do apóstolo: “Deus é fiel e não permitirá que vocês sejam tentados além do que podem suportar” (1Co 10.13), isto é, cada um é tentado na proporção da medida da sua força ou do seu poder de resistência.16 Ora, embora tenhamos dito que é por justo juízo de Deus que cada um é tentado segundo a medida da sua força, nem por isso devemos supor que aquele que é tentado deva de todo modo sair vitorioso da luta; do mesmo modo que quem luta na arena, ainda que emparelhado com seu adversário segundo um justo princípio de distribuição, nem por isso sairá necessariamente vencedor. Mas, a não ser que as forças dos combatentes sejam iguais, o prêmio do vencedor não será ganho com justiça, nem a culpa recairá com justiça sobre o vencido, porque ele permite, sim, que sejamos tentados, mas não “além do que podemos suportar”: pois é na proporção da nossa força que somos tentados; e não está escrito que, na tentação, ele proverá também livramento para que a suportemos, mas livramento para que possamos suportá-la.17 Mas depende de nós usar com energia ou com fraqueza esse poder que ele nos deu. Pois não há dúvida de que, em toda tentação, temos poder de resistência, se empregarmos devidamente a força que nos é concedida. Mas não é a mesma coisa possuir o poder de vencer e ser vitorioso, como o próprio apóstolo mostrou em linguagem muito cautelosa, dizendo: “Deus proverá livramento, para que vocês a possam suportar” (1Co 10.13), e não que vocês a suportarão. Pois muitos não sustentam a tentação, mas são vencidos por ela. Ora, Deus nos concede não sustentar (a tentação) (do contrário pareceria não haver luta), mas ter o poder de sustentá-la.18 Mas esse poder que nos é dado para que possamos vencer pode ser usado, segundo a nossa faculdade de livre-arbítrio, ou de modo diligente, e então saímos vitoriosos, ou de modo preguiçoso, e então somos derrotados. Pois, se nos fosse dado um poder tal que tivéssemos de vencer de todo modo e nunca ser derrotados, que razão para a luta poderia restar a quem não pode ser vencido? Ou que mérito há numa vitória em que se tira o poder de resistir com êxito?19 Mas, se a possibilidade de vencer é concedida igualmente a todos nós, e se está em nosso poder o modo de usar essa possibilidade, isto é, com diligência ou com preguiça, então o vencido será censurado com justiça e o vencedor louvado merecidamente. Ora, destes pontos que discutimos do melhor modo que pudemos, fica, penso eu, claramente evidente que há certas transgressões que de modo algum cometemos sob a pressão dos poderes malignos, enquanto há outras, por sua vez, às quais somos incitados por instigação deles a uma satisfação excessiva e imoderada. Daí se segue que temos de investigar como esses poderes adversos produzem em nós essas incitações.

4. Quanto aos pensamentos que procedem do nosso coração, ou à lembrança das coisas que fizemos, ou à contemplação de quaisquer coisas ou causas, verificamos que às vezes procedem de nós mesmos, e às vezes são originados pelos poderes adversos; não raro também são sugeridos por Deus ou pelos santos anjos. Ora, tal afirmação talvez pareça inacreditável,20 a não ser que seja confirmada pelo testemunho da santa Escritura. Que os pensamentos, então, surgem dentro de nós mesmos, Davi o atesta nos Salmos, dizendo: “O pensamento do homem te confessará, e o restante do pensamento te celebrará um dia de festa” (Sl 76.10).21 Que isso, porém, também é produzido pelos poderes adversos, Salomão o mostra no livro de Eclesiastes da seguinte maneira: “Se o espírito do governante se levantar contra você, não deixe o seu lugar, porque a saúde refreia grandes ofensas” (Ec 10.4). O apóstolo Paulo também dará testemunho do mesmo ponto com estas palavras: “Destruindo raciocínios e toda altivez que se levantava contra o conhecimento de Cristo” (2Co 10.5). Que é, contudo, um efeito devido a Deus, declara-o Davi quando diz nos Salmos: “Bem-aventurado o homem cujo auxílio está em ti, Senhor; as tuas subidas (estão) no seu coração” (Sl 84.5).22 E o apóstolo diz que Deus “pôs no coração de Tito” (2Co 8.16). Que certos pensamentos são sugeridos ao coração dos homens por anjos bons ou maus, mostram-no tanto o anjo que acompanhou Tobias como as palavras do profeta, quando diz: “E o anjo que falava em mim respondeu” (Zc 1.14).23 O livro do Pastor24 declara o mesmo, dizendo que cada indivíduo é acompanhado por dois anjos; que, sempre que surgem bons pensamentos em nosso coração, são sugeridos pelo anjo bom; mas, quando são de espécie contrária, são instigação do anjo mau. O mesmo declara Barnabé em sua Epístola,25 onde diz que há dois caminhos, um de luz e outro de trevas, sobre os quais, afirma, estão postos certos anjos: os anjos de Deus sobre o caminho da luz, os anjos de Satanás sobre o caminho das trevas. Não devemos imaginar, contudo, que daquilo que é sugerido ao nosso coração, seja bom ou mau, resulte outra coisa senão apenas uma comoção (mental) e uma incitação que nos instiga ao bem ou ao mal. Pois está perfeitamente ao nosso alcance, quando um poder maligno começou a incitar-nos ao mal, lançar para longe de nós as sugestões perversas, resistir aos incentivos vis e não fazer nada que mereça qualquer censura. E, por outro lado, é possível, quando um poder divino nos chama a coisas melhores, não obedecer ao chamado; a nossa liberdade da vontade fica preservada em ambos os casos. Dissemos, de fato, nas páginas anteriores, que certas lembranças de ações boas ou más nos eram sugeridas ou pela ação da divina providência ou pelos poderes adversos, como se mostra no livro de Ester, quando Artaxerxes não se lembrara dos serviços daquele homem justo, Mardoqueu, mas, cansado de suas vigílias noturnas, teve posto por Deus em sua mente o desejo de que lhe lessem os anais dos seus grandes feitos; e então, lembrado dos benefícios recebidos de Mardoqueu, mandou enforcar o seu inimigo Hamã, conferir a ele esplêndidas honras e conceder a toda a nação santa a isenção do perigo que a ameaçava. Por outro lado, porém, devemos supor que foi pela influência hostil do diabo que se introduziu na mente dos sumos sacerdotes e dos escribas a sugestão que fizeram a Pilatos, quando vieram e disseram: “Senhor, nós lembramos que aquele enganador, enquanto vivia, disse: ‘Depois de três dias ressuscitarei'” (Mt 27.63). O desígnio de Judas, também, quanto à traição do nosso Senhor e Salvador, não se originou só da maldade da sua mente. Pois a Escritura atesta que “o diabo já havia posto no coração” dele “que traísse Jesus” (Jo 13.2). E por isso Salomão ordenou com razão, dizendo: “De tudo o que se deve guardar, guarde bem o seu coração” (Pv 4.23). E o apóstolo Paulo nos adverte: “Por esta razão, importa que nos apeguemos, com mais firmeza, às verdades ouvidas, para que delas jamais nos desviemos” (Hb 2.1). E, quando diz: “nem deem lugar ao diabo” (Ef 4.27), mostra com essa ordem que é por certos atos, ou por uma espécie de preguiça mental, que se abre espaço para o diabo, de modo que, se ele entrar uma vez em nosso coração, ou se apoderará de nós, ou ao menos poluirá a alma, se não obteve domínio completo sobre ela, lançando contra nós os seus dardos inflamados; e por eles somos às vezes profundamente feridos e às vezes apenas inflamados. Raramente, de fato, e só em poucos casos, esses dardos inflamados são apagados, de modo a não encontrar lugar onde ferir, isto é, quando alguém está coberto pelo forte e poderoso escudo da fé. A declaração da Epístola aos Efésios, “a nossa luta não é contra o sangue e a carne, mas contra os principados e as potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestiais” (Ef 6.12), deve ser entendida como se “nós” significasse: “Eu, Paulo, e vocês, efésios, e todos os que não têm de lutar contra a carne e o sangue”; pois esses têm de lutar contra os principados e as potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, não como os coríntios, cuja luta ainda era contra a carne e o sangue, e aos quais não sobreviera nenhuma tentação que não fosse humana.

5. Não devemos supor, porém, que cada indivíduo tenha de lutar contra todos esses (adversários). Pois é impossível a qualquer homem, ainda que fosse santo, sustentar a luta contra todos eles ao mesmo tempo. Se isso de algum modo acontecesse, como certamente é impossível que aconteça, a natureza humana de modo algum poderia suportá-lo sem sofrer uma destruição completa.26 Mas assim como, por exemplo, se cinquenta soldados dissessem que iam combater contra outros cinquenta, não se entenderia que um deles tivesse de lutar contra os cinquenta inteiros, mas cada um diria com razão que “a nossa batalha era contra cinquenta”, todos contra todos; assim também se deve entender o que o apóstolo quer dizer: que todos os atletas e soldados de Cristo têm de lutar e combater contra todos os adversários enumerados, devendo a luta, sim, ser sustentada contra todos, mas por indivíduos isolados, seja com poderes isolados, seja ao menos da maneira que for determinada por Deus, que é o justo presidente da luta. Pois sou de opinião que há certo limite para as forças da natureza humana, ainda que haja um Paulo, de quem se diz: “este é para mim um instrumento escolhido” (At 9.15); ou um Pedro, contra quem as portas do inferno não prevalecem; ou um Moisés, o amigo de Deus: contudo, nenhum deles poderia sustentar, sem destruição de si mesmo,27 o assalto simultâneo e total desses poderes adversos, a não ser que operasse nele somente a força daquele que disse: “tenham coragem: eu venci o mundo” (Jo 16.33). E por isso Paulo exclama com confiança: “Tudo posso em Cristo, que me fortalece” (Fp 4.13); e ainda: “trabalhei muito mais do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo” (1Co 15.10). Por causa, então, desse poder, que certamente não é de origem humana, operando e falando nele, Paulo podia dizer: “Porque estou persuadido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem as coisas do presente, nem as do porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem o poder, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8.38-39).28 Pois não penso que a natureza humana possa, sozinha e por si mesma, sustentar uma luta contra os anjos, contra os poderes da altura e do abismo29 e contra qualquer outra criatura; mas, quando sente a presença do Senhor habitando dentro de si, a confiança no auxílio divino a levará a dizer: “O Senhor é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei? O Senhor é o protetor da minha vida; de quem terei medo? Quando os inimigos se aproximam de mim para comer a minha carne, os meus inimigos que me perturbam, eles tropeçaram e caíram. Ainda que um exército se acampe contra mim, o meu coração não temerá; ainda que a guerra se levante contra mim, nele terei confiança” (Sl 27.1-3). Daí concluo que talvez o homem nunca fosse capaz de vencer por si mesmo um poder adverso, se não tivesse o benefício do auxílio divino. Por isso também se diz que o anjo lutou com Jacó. Aqui, porém, entendo que o escritor quer dizer que não era a mesma coisa o anjo ter lutado com Jacó e ter lutado contra ele; mas o anjo que luta com ele é aquele que estava presente com ele para garantir a sua segurança, o qual, conhecendo também o seu progresso moral, lhe deu além disso o nome de Israel; isto é, ele está com Jacó na luta e o ajuda no combate; visto que havia, sem dúvida, outro anjo contra o qual ele lutava e contra o qual tinha de sustentar o combate. Por fim, Paulo não disse que lutamos com os príncipes ou com as potestades, mas contra os principados e as potestades. E por isso, embora Jacó tenha lutado, foi sem dúvida contra algum daqueles poderes que, como declara Paulo, resistem e combatem o gênero humano, e especialmente os santos. E por isso, finalmente, a Escritura diz dele que “lutou com o anjo e teve poder com Deus”, de modo que a luta é sustentada com a ajuda do anjo, mas o prêmio da vitória conduz o vencedor a Deus.

6. Nem devemos supor, de fato, que lutas dessa espécie se travam pelo exercício da força corporal e das artes da escola de luta;30 mas o espírito combate com o espírito, segundo a declaração de Paulo de que a nossa luta é contra os principados, as potestades e os dominadores deste mundo tenebroso. Mais ainda: a natureza dessas lutas deve ser entendida da seguinte maneira: quando, por exemplo, nos sobrevêm perdas e perigos, ou se levantam contra nós calúnias e falsas acusações, o objetivo dos poderes hostis não é apenas que soframos essas (provações), mas que, por meio delas, sejamos levados ou ao excesso da ira ou da tristeza, ou ao extremo do desespero; ou ao menos, o que é pecado maior, sejamos forçados, cansados e vencidos por quaisquer aborrecimentos, a queixar-nos de Deus, como de quem não governa a vida humana com justiça e equidade; e a consequência disso é que a nossa fé se enfraqueça, ou as nossas esperanças se frustrem, ou sejamos obrigados a abandonar a verdade das nossas convicções, ou sejamos levados a nutrir sentimentos irreligiosos a respeito de Deus. Pois algumas coisas assim estão escritas a respeito de Jó, depois que o diabo pediu a Deus que lhe fosse dado poder sobre os seus bens. Com isso também somos ensinados que não é por ataques fortuitos que somos assaltados sempre que nos sobrevém alguma perda de bens desse tipo, nem que se deve ao acaso quando um de nós é levado prisioneiro, ou quando desabam as casas em que são esmagados até a morte aqueles que nos são queridos; pois, a respeito de todos esses acontecimentos, todo crente deve dizer: “O senhor não teria nenhuma autoridade sobre mim se de cima não lhe fosse dada” (Jo 19.11). Pois observe que a casa de Jó não caiu sobre os seus filhos antes que o diabo tivesse recebido poder contra eles; nem os cavaleiros teriam feito uma incursão em três bandos31 para levar os seus camelos, os seus bois e o restante do gado, se não tivessem sido instigados por aquele espírito ao qual se haviam entregado como servos da sua vontade. Nem aquele fogo, como parecia ser, ou raio, como se julgou, teria caído sobre as ovelhas do patriarca, antes que o diabo dissesse a Deus: “Não fizeste uma cerca ao redor de tudo o que está fora e dentro da sua casa e ao redor de todo o restante dos seus bens? Mas agora estende a tua mão e toca em tudo o que ele tem, (e vê) se ele não te renega na tua face” (cf. Jó 1.10-11).32

7. O resultado de todas as observações precedentes é mostrar que todos os acontecimentos do mundo que são considerados de espécie intermediária, sejam tristes ou não, são produzidos não por Deus, é verdade, e contudo não sem ele; e ele não só não impede aqueles poderes perversos e adversos que desejam produzir essas coisas (de realizar o seu propósito), mas até lhes permite fazê-lo, embora só em certas ocasiões e com certos indivíduos, como se diz a respeito do próprio Jó, que por certo tempo foi deixado cair sob o poder de outros e teve a sua casa saqueada por pessoas injustas. E por isso a santa Escritura nos ensina a receber tudo o que acontece como enviado por Deus, sabendo que sem ele nenhum acontecimento ocorre. Pois como podemos duvidar de que é assim, a saber, que nada chega ao homem sem (a vontade de) Deus, quando o nosso Senhor e Salvador declara: “Não se vendem dois pardais por uma moedinha? E nenhum deles cairá no chão sem o Pai de vocês, que está nos céus” (Mt 10.29). Mas a necessidade do assunto nos levou a uma longa digressão sobre a luta que os poderes hostis travam contra os homens e sobre aqueles acontecimentos mais tristes que sobrevêm à vida humana, isto é, as suas tentações (segundo a declaração de Jó: “Não é toda a vida do homem sobre a terra uma tentação?” (cf. Jó 7.1)33), para que ficasse claramente mostrado o modo como ocorrem e o espírito com que devemos encará-los. Vejamos em seguida como os homens caem no pecado do falso conhecimento, ou com que objetivo os poderes adversos costumam suscitar conflito conosco acerca dessas coisas.

Notas

1. Esta obra apócrifa, intitulada em hebraico Petirat Mosheh e em grego Analepsis ou Anabasis Mouseos, é mencionada por vários escritores antigos; por exemplo, por Atanásio, na sua Synopsis Sacræ Scripturæ; por Nicéforo de Constantinopla na sua Esticometria, anexada à Crônica de Eusébio (onde diz que a Analepsis continha 1400 versos), nas Atas do Concílio de Niceia etc. (Ruæus).

2. A redação do texto segue a Septuaginta e a Vulgata, com exceção das palavras “quem dilexisti”, que são um acréscimo.

3. Êx 12.23, exterminator. Percussor, Vulgata; olothreuon, Septuaginta.

4. Apopompaios é a leitura da Septuaginta, “Caper emissarius” a da Vulgata, azazel a do texto massorético. Cf. Fürst e Gesenius, s.v. Rufino traduz Apopompeu por “transmissor”.

5. 1Sm 18.10, effocare. A Septuaginta tem epese; a Vulgata, “invasit”; o texto massorético, titslach, caiu sobre.

6. Atterere.

7. “Porque a brandura aplaca grandes ofensas.” As palavras do texto são: “Quoniam sanitas compescet multa peccata”. A Vulgata tem: “Curatio faciet cessare peccata maxima”. A Septuaginta traz: Iama katapausei hamartias megalas; já o texto massorético tem marpe (curatio).

8. Perversum.

9. Nemo hominum omnino.

10. Ex corporali necessitate descendunt.

11. Quod non simile aliquid pateremur?

12. Propositum.

13. Quæ in usu naturaliter habentur.

14. Sensum eorum penitus possederint.

15. Carnem talem.

16. Pro virtutis suæ quantitate, vel possibilitate.

17. Nec tamen scriptum est, quia faciet in tentatione etiam exitum sustinendi, sed exitum ut sustinere possimus.

18. Ut sustinere possimus.

19. Repugnandi vincendique.

20. Fabulosum.

21. Tal é a leitura da Vulgata e da Septuaginta. A versão inglesa autorizada segue o texto massorético.

22. As palavras do texto são: Beatus vir, cujus est susceptio apud te, Domine, adscensus in corde ejus. A Vulgata traz: Beatus vir, cujus est auxilium abs te: ascensiones in corde suo disposuit. A Septuaginta, o mesmo. O texto massorético tem mesillot (“marcha ou procissão festiva”: Fürst). Provavelmente a Septuaginta e a Vulgata tinham diante de si maalot, e a semelhança entre o sámek e o áyin explica o erro de transcrição.

23. A Vulgata, a Septuaginta e o texto massorético têm todos “em mim”, embora a versão inglesa autorizada traga “comigo”.

24. Pastor de Hermas, Mandamento VI.2.

25. Epístola de Barnabé.

26. Sine maxima subversione sui.

27. Sine aliquâ pernicie sui.

28. A palavra “virtus”, dunamis, que ocorre no texto, não se encontra no textus receptus. Tischendorf lê Dunameis neste lugar (7ª ed.). Assim também o Códice Sinaítico.

29. Excelsa et profunda.

30. Palæstricæ artis exercitiis.

31. Tribus ordinibus.

32. “Nisi in faciem benedixerit tibi.” O verbo hebraico barak tem o duplo significado de “abençoar” e “amaldiçoar”. Cf. o Comentário de Davidson sobre Jó, p. 7. Septuaginta: eulogesei.

33. A Septuaginta traz poteron ouchi peiraterion etc.; a Vulgata, “militia”; o texto massorético tem tsaba. Cf. o Comentário de Davidson sobre Jó, in loc.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Frederick Crombie (Ante-Nicene Fathers, vol. 4, Buffalo, 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução, feita do latim de Rufino e, nos capítulos III.1 e IV.1, do grego conservado. As notas são do tradutor inglês; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Orígenes cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.