Orígenes, Sobre os Princípios · Livro III

Capítulo 1: o livre-arbítrio (seções 16 em diante)

O endurecimento do coração, o vaso de honra e de desonra, e como a graça de Deus e a nossa vontade concorrem.

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16. Vinha depois disso a passagem do Evangelho em que o Salvador disse que falava por parábolas aos de fora justamente por esta razão: para que, “vendo, não vejam e, ouvindo, não entendam; para que não se convertam e lhes sejam perdoados os pecados” (Mc 4.12). Ora, o nosso oponente dirá: “Se algumas pessoas certamente se convertem ao ouvir palavras mais claras, de modo que se tornam dignas da remissão dos pecados, e se não depende delas mesmas ouvir essas palavras mais claras, mas de quem ensina, e ele por esta razão não as anuncia a elas com mais nitidez, para que não vejam nem entendam, então não está no poder delas ser salvas; e, se é assim, não possuímos livre-arbítrio no que diz respeito à salvação e à perdição.” De fato, seria eficaz a resposta a tais argumentos, se não fosse o acréscimo: “para que não se convertam e lhes sejam perdoados os pecados”, isto é, que o Salvador não queria que os que não haveriam de se tornar bons e virtuosos entendessem as partes mais místicas (do seu ensino), e por esta razão lhes falava por parábolas; mas agora, por causa das palavras “para que não se convertam e lhes sejam perdoados os pecados”, a defesa é mais difícil. Em primeiro lugar, então, devemos observar a passagem no que ela toca aos hereges, que vão à caça daqueles trechos do Antigo Testamento em que se mostra, como eles mesmos ousadamente afirmam, a crueldade1 do Criador do mundo2 no seu propósito de vingar e castigar os maus,3 ou por qualquer outro nome que queiram dar a tal qualidade, falando assim apenas para poderem dizer que não existe bondade no Criador; e que não tratam o Novo Testamento de modo semelhante, nem com espírito de boa-fé,4 mas passam por cima de lugares semelhantes àqueles que consideram censuráveis no Antigo Testamento. Pois manifestamente, e segundo o Evangelho, o Salvador se mostra, como eles afirmam, pelas suas palavras anteriores, não falando com clareza justamente para que os homens não se convertessem e, convertidos, não se tornassem merecedores da remissão dos pecados; e essa declaração, por si só, em nada é inferior5 às passagens do Antigo Testamento que eles impugnam. E, se procuram defender o Evangelho, devemos perguntar-lhes se não agem de modo censurável ao tratar de maneira diferente as mesmas questões; e se, enquanto não tropeçam no Novo Testamento, mas procuram defendê-lo, não deixam de acusar o Antigo em pontos semelhantes, quando deveriam oferecer uma defesa das passagens do Antigo do mesmo modo que das do Novo. E por isso os forçaremos, por causa das semelhanças, a considerar todos como escritos de um só Deus. Vamos, pois, e, na medida das nossas forças, demos uma resposta à questão que nos foi proposta.

17. Afirmamos também, quando examinávamos o caso do Faraó, que às vezes uma cura rápida não é vantajosa para os que são curados, se, depois de atacados por doenças penosas, se livrassem facilmente daquelas em que estavam enredados. Pois, desprezando o mal como coisa fácil de curar, e não se guardando uma segunda vez de cair nele, acabarão envolvidos nele (de novo). Por isso, no caso dessas pessoas, o Deus eterno, o Conhecedor dos segredos, que conhece todas as coisas antes que existam, em conformidade com a sua bondade, demora a enviar-lhes um socorro mais rápido e, por assim dizer, ajudando-as, não as ajuda, sendo este último procedimento o que lhes é vantajoso. É provável, então, que aqueles “de fora” de que estamos falando, tendo sido previstos pelo Salvador, segundo a nossa suposição, como pessoas que não (haveriam de) permanecer firmes na sua conversão,6 se ouvissem com mais clareza as palavras que eram ditas, foram tratados pelo Salvador de (tal) modo que não ouvissem distintamente as (coisas) mais profundas (do seu ensino),7 para que, depois de uma conversão rápida, e depois de curados pela obtenção da remissão dos pecados, não desprezassem as feridas da sua maldade como leves e fáceis de curar, e não recaíssem nelas outra vez em pouco tempo. E talvez também, sofrendo o castigo pelas suas transgressões anteriores contra a virtude, que tinham cometido quando a abandonaram, ainda não tivessem completado o tempo (inteiro); a fim de que, abandonados pela superintendência divina e saciados8 em maior medida dos próprios males que tinham semeado, sejam depois chamados a um arrependimento mais estável, de modo a não se enredarem depressa outra vez naqueles males em que antes se tinham envolvido, quando trataram com insolência as exigências da virtude e se entregaram a coisas piores. Aqueles, pois, de quem se diz que estão “de fora” (evidentemente em comparação com os “de dentro”), não estando muito longe dos “de dentro”, enquanto os “de dentro” ouvem com clareza, eles mesmos ouvem de modo indistinto, porque se lhes fala por parábolas; mas, ainda assim, ouvem. Outros, por sua vez, dentre os “de fora”, os que são chamados tírios, embora se soubesse de antemão que se teriam arrependido há muito tempo, assentados em pano de saco e cinza, se o Salvador tivesse chegado perto das suas fronteiras, não ouvem nem mesmo as palavras que são ouvidas pelos “de fora” (estando, como é provável, muito abaixo dos “de fora” em mérito9), a fim de que, em outra ocasião, depois de lhes ter sido mais tolerável do que aos que não receberam a palavra (entre os quais ele mencionou também os tírios), ouvindo a palavra num tempo mais oportuno, alcancem um arrependimento mais duradouro. Mas observe se, além do nosso desejo de investigar (a verdade), não nos esforçamos antes por manter em tudo uma atitude de piedade a respeito de Deus e do seu Cristo,10 visto que procuramos por todos os meios provar que, em assuntos tão grandes e tão singulares da variada providência de Deus, ele cuida da alma imortal. Se, de fato, alguém perguntasse, a respeito das coisas que se objetam, por que os que viram maravilhas e ouviram palavras divinas não tiram proveito delas, ao passo que os tírios se teriam arrependido se tais coisas tivessem sido feitas e ditas entre eles; e perguntasse, dizendo: Por que o Salvador anunciou tais coisas a essas pessoas, para dano delas mesmas, de modo que o seu pecado lhes fosse imputado como mais grave? Devemos dizer, em resposta a essa pessoa, que aquele que conhece as disposições11 de todos os que criticam a sua providência (alegando que é por causa dela que não creram, porque não lhes permitiu ver o que deu a outros contemplar, e não dispôs que ouvissem aquelas palavras das quais outros, ao ouvi-las, tiraram proveito), querendo provar que a defesa deles não se apoia na razão, concede aquelas vantagens que pediram os que censuram a sua administração; a fim de que, depois de as obterem, sejam ainda assim convencidos da maior impiedade, por não se terem deixado beneficiar nem mesmo então, e cessem de tal audácia; e, libertados quanto a este mesmo ponto, aprendam que Deus, às vezes, ao conceder benefícios a certas pessoas, demora e adia, não lhes concedendo o favor de ver e ouvir aquelas coisas que, uma vez vistas e ouvidas, tornariam o pecado dos que não creram, depois de obras tão grandes e singulares, mais pesado e mais grave.

18. Vejamos a seguir a passagem: “Assim, pois, isto não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus, que tem misericórdia” (Rm 9.16). Pois os que criticam dizem: Se “isto não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus, que tem misericórdia”, a salvação não depende de nós, mas da constituição12 dada por aquele que nos formou13 tais como somos, ou da decisão14 daquele que tem misericórdia quando lhe agrada. Ora, devemos fazer a essas pessoas as seguintes perguntas: desejar o que é bom é virtuoso ou vicioso? E o desejo de correr para alcançar a meta na busca do que é bom é digno de louvor ou de censura? Se disserem que é digno de censura, darão uma resposta absurda,15 visto que os santos desejam e correm, e evidentemente, agindo assim, nada fazem de censurável. Mas, se disserem que é virtuoso desejar o que é bom e correr atrás do que é bom, perguntaremos como é que uma natureza destinada à perdição deseja as coisas melhores;16 pois isso seria como uma árvore má produzindo bons frutos, já que desejar as coisas melhores é um ato virtuoso. Darão (talvez) uma terceira resposta: que desejar o que é bom e correr atrás dele é uma das coisas indiferentes,17 nem belas18 nem más. Ora, a isso devemos dizer que, se desejar o que é bom e correr atrás dele é coisa indiferente, então também o contrário é coisa indiferente, a saber, desejar o que é mau e correr atrás dele. Mas não é coisa indiferente desejar o que é mau e correr atrás dele. Portanto, também desejar o que é bom e correr atrás dele não é coisa indiferente. Tal é, pois, a defesa que penso podermos oferecer quanto à declaração de que “isto não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus, que tem misericórdia” (Rm 9.16). Salomão diz no livro dos Salmos (pois é dele o Cântico dos Degraus,19 do qual citaremos as palavras): “Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam. Se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela” (Sl 127.1); não nos dissuadindo de edificar, nem nos ensinando a não vigiar para guardar a cidade que está na nossa alma, mas mostrando que o que se edifica sem Deus, e não recebe dele guarda, é edificado em vão e vigiado inutilmente, porque Deus poderia com razão ser chamado o Senhor da edificação, e o Governador de todas as coisas, o Comandante da guarda da cidade. Assim, pois, se disséssemos que tal edificação não é obra do construtor, mas de Deus, e que não foi graças ao esforço bem-sucedido do vigia, mas ao Deus que está acima de todos, que tal cidade não sofreu dano algum dos inimigos, não estaríamos errados,20 subentendendo-se que algo também foi feito por meios humanos, mas atribuindo-se com gratidão o benefício a Deus, que o realizou; assim também, visto que o simples desejo humano não basta para alcançar o fim, e que a corrida dos que são, por assim dizer, atletas não os capacita a ganhar o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus (pois estas coisas se cumprem com o auxílio de Deus), bem se diz que “isto não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus, que tem misericórdia”. É como se também se dissesse a respeito da lavoura aquilo que de fato está escrito: “Eu plantei, Apolo regou, mas o crescimento veio de Deus. De modo que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento” (1Co 3.6-7). Ora, não poderíamos, com piedade, afirmar que a produção de colheitas fartas foi obra do lavrador ou de quem regou, mas sim obra de Deus. Assim também a nossa própria perfeição se realiza, não como se nós mesmos nada fizéssemos;21 pois não é levada a termo22 por nós, mas é Deus quem produz a maior parte dela. E, para que esta afirmação se creia com mais clareza, tomaremos uma ilustração da arte da navegação. Pois, em comparação com o efeito dos ventos,23 a amenidade do clima24 e a luz das estrelas, cooperando todos para a preservação da tripulação, que proporção25 se poderia dizer que tem a arte da navegação em levar o navio ao porto? Pois nem os próprios marinheiros, por piedade, se atrevem muitas vezes a afirmar que foram eles que salvaram o navio, mas atribuem tudo a Deus; não como se nada tivessem feito, mas porque o que foi feito pela Providência foi infinitamente26 maior do que o que foi realizado pela arte deles. E, no que diz respeito à nossa salvação, o que é feito por Deus é infinitamente maior do que o que é feito por nós; e por isso, penso eu, é que se diz que “isto não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus, que tem misericórdia”. Pois, se tivéssemos de interpretar27 do modo como eles imaginam a declaração de que “isto não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus, que tem misericórdia”, os mandamentos seriam supérfluos; e seria em vão que o próprio Paulo censura alguns por terem caído e aprova outros por terem permanecido firmes, e estabelece leis para as igrejas; seria em vão também que nos entregamos a desejar as coisas melhores, e em vão também (tentar) correr. Mas não é em vão que Paulo dá tais conselhos, censurando uns e aprovando outros; nem é em vão que nos entregamos ao desejo das coisas melhores e à busca das que são mais excelentes. Eles, portanto, não explicaram bem o sentido da passagem.28

19. Além dessas, há a passagem: “Tanto o querer como o realizar vêm de Deus” (cf. Fp 2.13). E alguns afirmam que, se o querer vem de Deus e o realizar vem de Deus, e se, quer queiramos o mal, quer façamos o mal, esses (movimentos) nos vêm de Deus, então, sendo assim, não possuímos livre-arbítrio. Mas, por outro lado, quando queremos as coisas melhores e fazemos as que são mais excelentes,29 visto que o querer e o realizar vêm de Deus, não fomos nós que fizemos as coisas mais excelentes; nós apenas parecemos (realizá-las), ao passo que foi Deus quem as concedeu;30 de modo que nem mesmo nesse aspecto possuímos livre-arbítrio. Ora, a isso temos de responder que as palavras do apóstolo não afirmam que querer o mal vem de Deus, ou que querer o bem vem dele (e o mesmo quanto a fazer o melhor e o pior), mas que o querer em sentido geral31 e o correr em sentido geral (vêm dele). Pois, assim como recebemos de Deus (a propriedade) de sermos seres vivos e seres humanos, assim também recebemos a de querer em geral e, por assim dizer, a do movimento em geral. E, assim como, possuindo (a propriedade) da vida e do movimento, e de mover, por exemplo, estes membros, as mãos ou os pés, não poderíamos dizer com razão32 que recebemos de Deus esta espécie particular de movimento33 pela qual nos movemos para ferir, ou destruir, ou tirar os bens alheios, mas sim que recebemos dele simplesmente o poder genérico34 do movimento, que empregamos para fins melhores ou piores; assim também recebemos de Deus (o poder) de agir, enquanto somos seres vivos, e (o poder) de querer, do Criador,35 ao passo que nós empregamos o poder de querer, assim como o de agir, para os fins mais nobres ou para os contrários.

20. Ainda assim, a declaração do apóstolo parecerá arrastar-nos à conclusão de que não possuímos liberdade da vontade, quando, fazendo objeção a si mesmo, ele diz: “Logo, Deus tem misericórdia de quem quer e também endurece a quem ele quer. Mas você vai me dizer: ‘Por que Deus ainda se queixa? Pois quem pode resistir à sua vontade?’ Mas quem é você, ó homem, para discutir com Deus? Será que o objeto pode perguntar a quem o fez: ‘Por que você me fez assim?’ Será que o oleiro não tem direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro para desonra?” (Rm 9.18-21). Pois se dirá: Se o oleiro, da mesma massa, faz uns vasos para honra e outros para desonra, e Deus assim forma uns homens para a salvação e outros para a ruína, então a salvação ou a ruína não depende de nós, nem possuímos livre-arbítrio. Ora, devemos perguntar a quem trata assim essas passagens se é possível conceber o apóstolo contradizendo a si mesmo. Presumo, contudo, que ninguém se atreverá a dizer isso. Se, pois, o apóstolo não profere contradições, como pode ele, segundo quem assim o entende, com razão repreender, censurando o indivíduo de Corinto que tinha cometido imoralidade, ou os que tinham caído e não se tinham arrependido da libertinagem e da impureza de que eram culpados? E como pode ele abençoar aqueles a quem louva por terem agido bem, como faz com a casa de Onesíforo nestas palavras: “Que o Senhor conceda misericórdia à casa de Onesíforo, porque, muitas vezes, me deu ânimo e nunca se envergonhou das minhas algemas. Pelo contrário, quando chegou a Roma, me procurou com persistência até me encontrar. O Senhor lhe conceda que, naquele Dia, ache misericórdia da parte do Senhor” (2Tm 1.16-18)? Não é coerente que o mesmo apóstolo36 censure o pecador como digno de reprovação e louve quem agiu bem como merecedor de aprovação, e, por outro lado, diga, como se nada dependesse de nós, que a causa de um vaso ter sido formado para honra e o outro para desonra estava no Criador.37 E como é correta38 esta declaração: “Porque é necessário que todos nós compareçamos diante do tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito por meio do corpo” (2Co 5.10), se os que praticaram o mal chegaram a esse grau de maldade39 porque foram criados vasos para desonra, ao passo que os que viveram virtuosamente fizeram o bem porque foram criados desde o princípio para esse fim e se tornaram vasos para honra? E, ainda, como não entra em conflito com a opinião que essas pessoas tiram das palavras que citamos (de que é culpa do Criador que um vaso esteja em honra e outro em desonra) a declaração feita em outro lugar, a saber: “que numa grande casa não há somente vasos de ouro e de prata, mas também de madeira e de barro; e uns para honra, outros para desonra. Se, portanto, alguém se purificar, será vaso para honra, santificado e útil ao seu senhor, e preparado para toda boa obra” (2Tm 2.20-21)? Pois, se quem se purifica se torna vaso para honra, e quem consente em permanecer impuro40 se torna vaso para desonra, então, no que depende destas palavras, o Criador não tem culpa nenhuma. Porque o Criador faz vasos de honra e vasos de desonra, não desde o princípio segundo a sua presciência,41 já que não condena nem justifica de antemão42 segundo ela; mas (faz) vasos de honra os que se purificaram, e vasos de desonra os que consentiram em permanecer impuros; de modo que resulta de causas mais antigas43 (que atuaram) na formação dos vasos para honra e para desonra que um tenha sido criado para a primeira condição, e outro para a segunda. Mas, se admitimos uma vez que houve certas causas mais antigas (em ação) na formação de um vaso para honra e de outro para desonra, que absurdo há em remontar à questão da alma e (em supor) que uma causa mais antiga de Jacó ser amado e de Esaú ser odiado existiu, quanto a Jacó, antes de ele assumir um corpo, e, quanto a Esaú, antes de ser concebido no ventre de Rebeca?

21. E, ao mesmo tempo, fica claramente demonstrado que, no que diz respeito à natureza subjacente,44 assim como há um só (pedaço de) barro nas mãos do oleiro, e desse pedaço se formam vasos para honra e para desonra, assim também, estando nas mãos de Deus a natureza única de toda alma e havendo, por assim dizer, (uma só) massa de seres racionais,45 certas causas de data mais antiga levaram a que uns fossem criados vasos para honra e outros vasos para desonra. Mas, se as palavras do apóstolo contêm uma censura quando ele diz: “Mas quem é você, ó homem, para discutir com Deus?”, isso nos ensina que aquele que tem confiança diante de Deus, é fiel e viveu virtuosamente não ouviria as palavras: “Quem é você para discutir com Deus?” Alguém como era, por exemplo, Moisés: “Pois Moisés falava, e Deus lhe respondia com uma voz” (cf. Êx 19.19); e, assim como Deus responde a Moisés, assim também o santo responde a Deus. Mas aquele que não possui essa confiança, evidentemente porque a perdeu ou porque investiga essas questões não por amor ao conhecimento, mas por espírito de contenda,46 e que por isso diz: “Por que Deus ainda se queixa? Pois quem pode resistir à sua vontade?”, mereceria as palavras de censura que dizem: “Mas quem é você, ó homem, para discutir com Deus?”

Ora, aos que introduzem naturezas diferentes e se servem da declaração do apóstolo (para apoiar a sua opinião), esta deve ser a nossa resposta. Se eles sustentam47 que os que se perdem e os que são salvos são formados de uma só massa, e que o Criador dos que são salvos é também o Criador dos que se perdem, e se é bom aquele que cria não só as (naturezas) espirituais, mas também as terrenas (pois isso decorre da opinião deles), ainda assim é possível que aquele que, em consequência de certas ações justas anteriores,48 tinha sido feito agora vaso de honra, mas que (depois) não agiu de modo semelhante, nem fez coisas dignas de um vaso de honra, tenha sido convertido, em outro mundo, em vaso de desonra; assim como, por outro lado, é possível que aquele que, por causas mais antigas do que a vida presente, foi aqui vaso de desonra, depois de corrigido se torne, na nova criação, “vaso para honra, santificado e útil ao seu senhor, preparado para toda boa obra”. E talvez os que agora são israelitas, não tendo vivido de modo digno da sua ascendência, sejam privados da sua posição, mudados, por assim dizer, de vasos de honra em vasos de desonra; e muitos dos atuais egípcios e idumeus que se aproximaram de Israel, quando tiverem dado fruto em maior medida, entrarão na igreja do Senhor, não sendo mais contados como egípcios e idumeus, mas tornando-se israelitas; de modo que, segundo este modo de ver, é por causa das suas (diversas) escolhas que uns avançam de uma condição pior para uma melhor, e outros caem da melhor para a pior; enquanto outros, ainda, se conservam num caminho virtuoso ou sobem do bom para o melhor; e outros, ao contrário, permanecem num caminho de maldade ou, de maus, se tornam piores, à medida que a sua maldade se derrama.

22. Mas, visto que o apóstolo, num lugar, não alega que tornar-se vaso para honra ou para desonra depende de Deus, mas atribui tudo a nós, dizendo: “Se, pois, alguém se purificar, será vaso para honra, santificado, útil ao seu senhor e preparado para toda boa obra” (2Tm 2.21); e, em outro lugar, nem sequer alega que isso depende de nós, mas parece atribuir tudo a Deus, dizendo: “O oleiro tem direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro para desonra” (Rm 9.21); e como as suas declarações não são contraditórias, devemos conciliá-las e extrair das duas uma única declaração completa. Nem o nosso próprio poder,49 sem o conhecimento50 de Deus, nos impele a progredir; nem o conhecimento de Deus (o faz), a não ser que nós mesmos também contribuamos com alguma coisa para o bom resultado; nem o nosso próprio poder, sem o conhecimento de Deus e sem o uso do poder que dignamente nos pertence,51 faz que um homem se torne (vaso) para honra ou para desonra; nem a vontade de Deus sozinha52 forma um homem para honra ou para desonra, a não ser que ele tenha a nossa vontade por uma espécie de matéria que admite variação53 e que se inclina para uma conduta melhor ou pior. E estas observações que fizemos sobre o livre-arbítrio são suficientes.

Notas

1. omotes.

2. demiourgou.

3. he amuntike kai antapodotike ton cheironon proairesis.

4. eugnomonos.

5. oudenos elatton.

6. heoramenous ou bebaious esesthai en te epistrophe.

7. ton bathuteron.

8. epi pleion emphorethentas.

9. hos eikos mallon porro ontes tes axias ton exo.

10. ei me mallon hemeis pros to exetastiko kai to eusebes pante agonizometha terein peri Theou, etc.

11. diatheseis.

12. kataskeues.

13. kataskeuasantos.

14. proaireseos.

15. para ten enargeian.

16. ta kreittona.

17. ton meson esti.

18. asteion.

19. ode ton anabathmon.

20. ouk an ptaioimen.

21. he hemetera teleiosis ouchi meden hemon praxanton ginetai.

22. apartizetai.

23. pnoen.

24. eukrasian.

25. arithmon.

26. eis huperbolen pollaplasion.

27. eklambanein.

28. exeilephasi ta kata ton topon.

29. ta diapheronta.

30. hemeis men edoxamen, ho de Theos tauta edoresato.

31. to katholou thelein.

32. eulogos.

33. to eidikon tode.

34. to men genikon, to kineisthai.

35. demiourgou.

36. ou kata ton auton de apostolon esti.

37. para ten aitian tou demiourgou.

38. hugies.

39. epi touto praxeos.

40. aperikatharton heauton periidon.

41. prognosin.

42. prokatakrinei e prodikaioi.

43. ek presbuteron aition.

44. hoson epi te hupokeimene phusei.

45. henos phuramatos ton logikon hupostaseon.

46. kata philoneikian.

47. sozousi.

48. ek proteron tinon katorthomaton.

49. to eph’ hemin.

50. episteme: provavelmente no sentido de prognosis.

51. tes katachreseos tou kat’ axian tou eph’ hemin. “Nec sine usu liberi nostri arbitrii, quod peculiare nobis et meriti nostri est” (Redepenning).

52. oute tou epi to Theo monon.

53. hulen tina diaphoras.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Frederick Crombie (Ante-Nicene Fathers, vol. 4, Buffalo, 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução, feita do latim de Rufino e, nos capítulos III.1 e IV.1, do grego conservado. As notas são do tradutor inglês; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Orígenes cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.