Orígenes, Sobre os Princípios · Livro III
A liberdade da vontade: o que nos move e o que depende de nós, e as passagens da Escritura que parecem negá-la.
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1. Uma vez que a pregação da Igreja inclui a doutrina de um justo juízo de Deus, a qual, quando crida como verdadeira, incita os que a ouvem a viver virtuosamente e a fugir do pecado de todas as maneiras, visto que reconhecem com clareza que as coisas dignas de louvor e de censura estão em nosso poder, vamos discutir à parte alguns pontos a respeito do livre-arbítrio, questão mais necessária que todas as outras. E, para entendermos o que é o livre-arbítrio, é preciso desdobrar a sua noção,2 a fim de que, declarada esta com precisão, o assunto seja posto diante de nós.
2. Das coisas que se movem, algumas têm em si mesmas a causa do seu movimento; outras, por sua vez, são movidas apenas de fora. Ora, só as coisas transportáveis são movidas de fora, como pedaços de madeira, pedras e toda matéria que se mantém coesa apenas pela sua constituição.3 E deixe-se de lado aquela opinião que chama de movimento o fluxo dos corpos, pois ela não é necessária para o nosso propósito presente. Mas os animais e as plantas têm em si mesmos a causa do seu movimento, e em geral tudo o que se mantém coeso por uma natureza e por uma alma, classe de coisas à qual, segundo dizem, também pertencem os metais. Além destes, também o fogo se move por si mesmo, e talvez também as fontes de água. Ora, das coisas que têm em si mesmas a causa do seu movimento, algumas, dizem, são movidas a partir de si mesmas, outras por si mesmas: as coisas sem vida, a partir de si mesmas; as coisas animadas, por si mesmas. Pois as coisas animadas são movidas por si mesmas quando surge nelas uma representação4 que as incita ao impulso. E, em certos animais, formam-se representações que despertam um impulso, a natureza representativa5 estimulando o impulso de maneira ordenada; assim, na aranha se forma a representação de tecer, e segue-se a tentativa de tecer, pois a natureza da sua representação incita o inseto de maneira ordenada a isso somente. E, além da sua natureza representativa, nada mais se crê que pertença ao inseto.6 E na abelha se forma a representação de produzir cera.
3. O animal racional, porém, tem, além da natureza representativa, também a razão, que julga as representações, desaprova algumas e aceita outras, para que o animal seja conduzido de acordo com elas. Portanto, como há na natureza da razão auxílios para a contemplação da virtude e do vício, seguindo os quais, depois de contemplar o bem e o mal, escolhemos um e evitamos o outro, somos dignos de louvor quando nos entregamos à prática da virtude, e censuráveis quando fazemos o contrário. Não devemos ignorar, contudo, que a maior parte da natureza atribuída a todas as coisas é uma quantidade variável7 entre os animais, em grau maior ou menor; de modo que o instinto dos cães de caça e dos cavalos de guerra se aproxima de algum modo, por assim dizer, da faculdade da razão. Ora, cair sob alguma dessas causas externas que despertam em nós esta ou aquela representação, reconhecidamente não é uma das coisas que dependem de nós; mas decidir que usaremos o ocorrido desta ou daquela maneira não é prerrogativa de nenhuma outra coisa senão da razão que há em nós, a qual, conforme as ocasiões,8 nos desperta para impulsos que incitam ao que é virtuoso e conveniente, ou nos desvia para o contrário.
4. Mas, se alguém sustentar que essa mesma causa externa é de tal natureza que é impossível resistir a ela quando vem de certo modo, que volte a atenção para os seus próprios sentimentos e movimentos e veja se não há uma aprovação, um assentimento e uma inclinação do princípio diretor para algum objeto por causa de certos argumentos especiosos.9 Pois, para dar um exemplo, uma mulher que se apresentou a um homem que decidiu ser casto e abster-se da união carnal, e que o incitou a agir contra o seu propósito, não é causa completa10 da anulação da sua decisão. Pois ele, comprazendo-se inteiramente com a sedução e o atrativo do prazer, e não querendo resistir a ele nem manter o seu propósito, comete um ato de libertinagem. Outro homem, por sua vez (quando as mesmas coisas acontecem a quem recebeu mais instrução e se disciplinou11), depara de fato com atrativos e seduções; mas a sua razão, por estar fortalecida em grau mais elevado, cuidadosamente exercitada e firmada nas suas convicções rumo a uma conduta virtuosa, ou por estar perto dessa firmeza,12 repele a incitação e extingue o desejo.
5. Sendo assim, dizer que somos movidos de fora e afastar de nós a culpa, declarando que somos semelhantes a pedaços de madeira e a pedras, arrastados de um lado para outro pelas causas que agem sobre eles de fora, não é verdadeiro nem conforme à razão, mas é a afirmação de quem quer destruir13 a noção de livre-arbítrio. Pois, se perguntássemos a alguém assim o que é o livre-arbítrio, ele diria que consiste nisto: que, quando nos propomos fazer alguma coisa, nenhuma causa externa venha incitar ao contrário. Mas, por outro lado, culpar a mera constituição do corpo14 é absurdo; pois a razão educadora,15 tomando os mais intemperantes e selvagens (se eles quiserem seguir a sua exortação), opera uma transformação, de modo que a alteração e a mudança para melhor é muito grande: os homens mais libertinos frequentemente se tornam melhores do que aqueles que antes não pareciam ser assim por natureza, e os homens mais selvagens passam a tal estado de mansidão16 que aqueles que nunca foram tão selvagens quanto eles parecem selvagens em comparação, tão grande foi o grau de brandura produzido neles. E vemos outros homens, muito firmes e respeitáveis, arrancados do seu estado de respeitabilidade e firmeza pelo convívio com maus costumes, a ponto de caírem em hábitos de libertinagem, muitas vezes começando a sua maldade na meia-idade e precipitando-se na desordem depois de passado o tempo da juventude, que, no que depende da sua natureza, é instável. A razão demonstra, portanto, que os acontecimentos externos não dependem de nós, mas que é tarefa nossa usá-los desta ou da maneira oposta, tendo recebido a razão como juíza e examinadora17 do modo como devemos enfrentar os acontecimentos que vêm de fora.
6. Ora, que viver virtuosamente é tarefa nossa, e que Deus nos pede isso como algo que não depende dele nem de nenhum outro, nem, como alguns pensam, do destino, mas como obra nossa, o profeta Miqueias o provará quando diz: “Se foi anunciado a você, ó homem, o que é bom, ou o que o Senhor pede de você, senão que pratique a justiça e ame a misericórdia?” (Mq 6.8). Também Moisés: “Pus diante da sua face o caminho da vida e o caminho da morte: escolha o que é bom e ande nele” (cf. Dt 30.15-16,19). Também Isaías: “Se estiverem dispostos e me ouvirem, vocês comerão o melhor desta terra; mas, se não quiserem e não me ouvirem, a espada os devorará; porque a boca do Senhor o disse” (Is 1.19-20). E nos Salmos: “Se o meu povo me tivesse ouvido, e Israel tivesse andado nos meus caminhos, eu teria reduzido a nada os seus inimigos e teria posto a minha mão sobre os que os afligiam” (Sl 81.13-14), mostrando que estava no poder do seu povo ouvir e andar nos caminhos de Deus. E também o Salvador, quando ordena: “Eu, porém, lhes digo: Não resistam ao perverso” (Mt 5.39); e: “Todo aquele que se irar contra o seu irmão estará sujeito a julgamento” (Mt 5.22); e: “Todo o que olhar para uma mulher com intenção impura, já cometeu adultério com ela no seu coração” (Mt 5.28); e por qualquer outro mandamento que dá, declara que depende de nós guardar o que é ordenado, e que com razão18 estaremos sujeitos à condenação se o transgredirmos. Por isso acrescenta: “Todo aquele que ouve estas minhas palavras e as pratica será comparado a um homem prudente que construiu a sua casa sobre a rocha” etc.; “mas aquele que as ouve e não as pratica é semelhante a um homem insensato que construiu a sua casa sobre a areia” etc. (Mt 7.24,26). E, quando diz aos que estão à sua direita: “Venham, benditos de meu Pai” etc.; “porque tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber” (Mt 25.34-35), é muitíssimo claro que dá as promessas a estes como dignos de louvor. Mas, ao contrário, aos outros, como censuráveis em comparação com aqueles, diz: “Afastem-se, malditos, para o fogo eterno!” (Mt 25.41). E observemos como também Paulo discorre19 conosco como quem tem livre-arbítrio e como sendo nós mesmos a causa da ruína ou da salvação, quando diz: “Você despreza a riqueza da sua bondade, da sua tolerância e da sua paciência, ignorando que a bondade de Deus leva você ao arrependimento? Mas, segundo a sua dureza e o seu coração impenitente, você acumula para si mesmo ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus, que retribuirá a cada um segundo as suas obras: a vida eterna aos que, perseverando em fazer o bem, procuram glória e imortalidade; mas aos que são contenciosos e não creem na verdade, mas creem na injustiça, ira, indignação, tribulação e angústia, sobre toda alma humana que pratica o mal, ao judeu primeiro e também ao grego; mas glória, honra e paz a todo aquele que pratica o bem, ao judeu primeiro e também ao grego” (Rm 2.4-10). Há, na verdade, inúmeras passagens nas Escrituras que estabelecem com extrema clareza a existência do livre-arbítrio.
7. Mas, como certas declarações do Antigo Testamento e do Novo levam à conclusão oposta, a saber, que não depende de nós guardar os mandamentos e ser salvos, ou transgredi-los e ser perdidos, apresentemo-las uma a uma e vejamos as suas explicações, para que, a partir das que apresentarmos, qualquer pessoa, selecionando de modo semelhante todas as passagens que parecem anular o livre-arbítrio, considere o que se diz delas a título de explicação. Ora, as afirmações a respeito de Faraó têm perturbado a muitos, pois sobre ele Deus declarou várias vezes: “Eu vou endurecer o coração de Faraó” (Êx 4.21; cf. 7.3). Pois, se ele é endurecido por Deus e comete pecado em consequência de ser endurecido, não é ele a causa do pecado para si mesmo; e, se é assim, então nem Faraó possui livre-arbítrio. E alguém dirá que, de modo semelhante, os que perecem não têm livre-arbítrio e não perecerão por si mesmos. Também a declaração de Ezequiel: “Tirarei deles os corações de pedra e porei neles corações de carne, para que andem nos meus preceitos e guardem os meus mandamentos” (Ez 11.19-20) poderia levar alguém a pensar que era Deus quem dava o poder de andar nos seus mandamentos e guardar os seus preceitos, retirando o obstáculo, o coração de pedra, e implantando um melhor, um coração de carne. Vejamos também a passagem do Evangelho, a resposta que o Salvador dá aos que perguntavam por que ele falava à multidão por parábolas. Estas são as suas palavras: “Para que, vendo, não vejam; e, ouvindo, ouçam e não entendam; para que não se convertam e os seus pecados lhes sejam perdoados” (cf. Mc 4.12; Lc 8.10). Também a passagem de Paulo: “Não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus, que tem misericórdia” (Rm 9.16). Também as declarações, em outros lugares, de que “tanto o querer como o realizar vêm de Deus” (cf. Fp 2.13); de que “Deus tem misericórdia de quem quer e também endurece a quem ele quer. Mas você vai me dizer: ‘Por que Deus ainda se queixa? Pois quem pode resistir à sua vontade?'” (Rm 9.18-19). “A persuasão vem daquele que chama, e não de nós” (Gl 5.8). “Mas quem é você, ó homem, para discutir com Deus? Será que o objeto pode perguntar a quem o fez: ‘Por que você me fez assim?’ Será que o oleiro não tem direito sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” (Rm 9.20-21). Ora, essas passagens bastam por si mesmas para perturbar a multidão, como se o homem não possuísse livre-arbítrio, mas fosse Deus quem salva e destrói a quem quer.
8. Comecemos, então, pelo que se diz de Faraó, que foi endurecido por Deus para que não deixasse o povo partir; junto com isso será examinada também a afirmação do apóstolo: “Logo, ele tem misericórdia de quem quer e também endurece a quem ele quer” (Rm 9.18). E alguns dos que têm opiniões diferentes abusam dessas passagens, eles também quase destruindo o livre-arbítrio ao introduzir naturezas perdidas, incapazes de salvação, e outras salvas, que é impossível que se percam; e Faraó, dizem eles, sendo de natureza perdida, é por isso endurecido por Deus, que tem misericórdia dos espirituais, mas endurece os terrenos. Vejamos agora o que eles querem dizer. Pois lhes perguntaremos se Faraó era de natureza terrena; e, quando responderem, diremos que quem é de natureza terrena é inteiramente desobediente a Deus; mas, se é desobediente, que necessidade há de que o seu coração seja endurecido, e isso não uma vez, mas muitas? A menos que, talvez, como lhe era possível obedecer (e nesse caso certamente teria obedecido, por não ser terreno, quando pressionado pelos sinais e prodígios), Deus precise que ele seja desobediente em grau maior,20 a fim de manifestar os seus feitos poderosos para a salvação da multidão, e por isso endureça o seu coração. Esta será a nossa resposta a eles, em primeiro lugar, para derrubar a sua suposição de que Faraó era de natureza perdida. E a mesma resposta deve ser dada a eles quanto à afirmação do apóstolo. Pois a quem Deus endurece? Aos que perecem, como se eles fossem obedecer caso não fossem endurecidos, ou claramente aos que seriam salvos porque não são de natureza perdida? E de quem ele tem misericórdia? Dos que hão de ser salvos? E como há necessidade de uma segunda misericórdia para os que foram uma vez preparados para a salvação e que, de qualquer modo, se tornarão bem-aventurados por causa da sua natureza? A menos que, talvez, como são capazes de incorrer na destruição se não recebessem misericórdia, eles obtenham misericórdia, a fim de não incorrerem naquela destruição de que são capazes, mas estarem na condição dos que são salvos. E esta é a nossa resposta a tais pessoas.
9. Mas aos que pensam entender o termo “endurecido” devemos dirigir esta pergunta: o que querem dizer quando afirmam que Deus, pela sua ação, endurece o coração, e com que propósito ele o faz? Pois que observem a noção21 de um Deus que é realmente justo e bom; e, se não quiserem admitir isso, conceda-se a eles por enquanto que ele é justo; e que mostrem como o Deus bom e justo, ou o Deus apenas justo, se mostra justo ao endurecer o coração daquele que perece por ter sido endurecido; e como o Deus justo se torna causa de destruição e de desobediência, quando os homens são castigados por ele por causa da sua dureza e desobediência. E por que ele o repreende, dizendo: “Você não deixará o meu povo ir” (cf. Êx 4.23; 9.17); “Eis que ferirei todos os primogênitos no Egito, inclusive o seu primogênito” (cf. Êx 12.12); e tudo o mais que se registra como dito por Deus a Faraó por intermédio de Moisés? Pois quem crê que as Escrituras são verdadeiras e que Deus é justo deve necessariamente esforçar-se, se for de boa-fé,22 para mostrar como Deus, ao usar tais expressões, pode ser claramente23 entendido como justo. Mas, se alguém se levantasse declarando de cabeça descoberta que o Criador do mundo era inclinado à maldade,24 precisaríamos de outras palavras para lhe responder.
10. Mas, como eles dizem que o consideram um Deus justo, e nós o consideramos ao mesmo tempo bom e justo, consideremos como o Deus bom e justo poderia endurecer o coração de Faraó. Veja, então, se, por meio de uma comparação usada pelo apóstolo na Epístola aos Hebreus, somos capazes de provar que, por uma só ação,25 Deus tem misericórdia de um homem enquanto endurece outro, embora sem a intenção de endurecer; mas, (embora) tendo um bom propósito, o endurecimento resulta do princípio de maldade que está subjacente nessas pessoas,26 e assim se diz que ele endurece aquele que é endurecido. “A terra”, diz ele, “que absorve a chuva que frequentemente cai sobre ela e produz plantas úteis para aqueles que a cultivam recebe bênção da parte de Deus; mas, se produz espinhos e ervas daninhas, é rejeitada e está perto da maldição; e o seu fim é ser queimada” (Hb 6.7-8). Quanto à chuva, portanto, há uma só ação; e, havendo uma só ação quanto à chuva, a terra cultivada produz frutos, enquanto a que é descuidada e estéril produz espinhos. Ora, poderia parecer blasfemo27 que aquele que faz chover dissesse: “Eu produzi os frutos e os espinhos que há na terra”; e, no entanto, embora blasfemo, é verdade. Pois, se a chuva não tivesse caído, não haveria nem frutos nem espinhos; mas, tendo caído no tempo certo e com moderação, ambos foram produzidos. A terra, pois, que absorveu a chuva que frequentemente caía sobre ela e, ainda assim, produziu espinhos e ervas daninhas, é rejeitada e está perto da maldição. A bênção da chuva desceu, portanto, também sobre a terra inferior; mas esta, sendo descuidada e não cultivada, produziu espinhos e abrolhos. Do mesmo modo, portanto, as obras maravilhosas feitas por Deus são como a chuva, enquanto os propósitos diferentes são como a terra cultivada e a descuidada, sendo (contudo), como a terra, de uma só natureza.
11. E, assim como, se o sol, emitindo uma voz, dissesse: “Eu derreto e resseco”, sendo o derreter e o ressecar coisas opostas, ele não falaria falsamente quanto ao ponto em questão,28 pois a cera se derrete e a lama se resseca pelo mesmo calor, assim também a mesma ação, realizada por intermédio de Moisés, comprovou de um lado a dureza de Faraó, resultado da sua maldade, e de outro a docilidade da multidão mista de egípcios que partiu com os hebreus. E o breve registro29 de que o coração de Faraó se abrandou, por assim dizer, quando disse: “Mas vocês não irão longe: farão uma viagem de três dias e deixarão as suas mulheres” (cf. Êx 8.28-29), e tudo o mais que ele disse, cedendo pouco a pouco diante dos sinais, prova que os prodígios causaram alguma impressão até sobre ele, mas não realizaram tudo (o que poderiam). Contudo, nem mesmo isso teria acontecido se aquilo que a maioria supõe, o endurecimento do coração de Faraó, tivesse sido produzido pelo próprio Deus. E não é absurdo suavizar tais expressões de acordo com o uso comum:30 pois bons senhores muitas vezes dizem aos seus escravos, quando estes se estragaram pela sua bondade e tolerância: “Eu tornei você mau, e a culpa por faltas tão graves é minha”. Pois devemos atender ao caráter e à força da expressão, e não argumentar de modo capcioso,31 desconsiderando o sentido do que foi dito. Paulo, pois, tendo examinado claramente esses pontos, diz ao pecador: “Ou você despreza a riqueza da sua bondade, da sua tolerância e da sua paciência, ignorando que a bondade de Deus leva você ao arrependimento? Mas, segundo a sua dureza e o seu coração impenitente, você acumula para si mesmo ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus” (Rm 2.4-5). Ora, aplique-se a Faraó o que o apóstolo diz ao pecador, e então se entenderá que os anúncios feitos a ele o foram com especial propriedade, como a alguém que, segundo a sua dureza e o seu coração impenitente, acumulava ira para si mesmo; visto que a sua dureza não teria sido comprovada nem manifestada se não tivessem sido realizados milagres, e milagres de tamanha grandeza e importância.
12. Mas, como tais narrativas dificilmente obtêm assentimento32 e são consideradas forçadas,33 vejamos também, pelas declarações proféticas, o que dizem aqueles que, embora tenham experimentado a grande bondade de Deus, não viveram virtuosamente, mas depois pecaram. “Por que, Senhor, nos fizeste desviar dos teus caminhos? Por que endureceste o nosso coração, para que não temêssemos o teu nome? Volta, por amor dos teus servos, das tribos da tua herança, para que herdemos uma pequena porção do teu santo monte” (Is 63.17-18). E em Jeremias: “Tu me enganaste, Senhor, e eu fui enganado; foste mais forte e prevaleceste” (Jr 20.7). Pois a expressão “Por que endureceste o nosso coração, para que não temêssemos o teu nome?”, dita por aqueles que suplicam receber misericórdia, é, na sua natureza, a seguinte: “Por que nos poupaste tanto tempo, não nos visitando por causa dos nossos pecados, mas nos abandonando, até que as nossas transgressões chegassem ao auge?” Ora, ele deixa sem castigo a maior parte dos homens, tanto para que os hábitos de cada um sejam examinados, no que depende de nós, e os virtuosos sejam manifestados em consequência da prova aplicada, quanto para que os outros, não escapando ao conhecimento de Deus (pois ele conhece todas as coisas antes que existam), mas ao da criação racional e ao deles mesmos, possam depois obter os meios de cura, visto que não teriam conhecido o benefício se não se tivessem condenado a si mesmos. É vantajoso para cada um perceber a sua própria condição peculiar34 e a graça de Deus. Pois quem não percebe a sua própria fraqueza e o favor divino, embora receba um benefício, não tendo feito prova de si mesmo nem se condenado a si mesmo, imaginará que o benefício que lhe foi concedido pela graça do céu é obra sua. E essa imaginação, produzindo também a vaidade,35 será causa de uma queda; e isso, segundo pensamos, foi o que aconteceu com o diabo, que atribuiu a si mesmo a primazia que possuía quando estava em estado sem pecado.36 “Porque todo o que se exalta será humilhado; e o que se humilha será exaltado” (Lc 14.11). E observe que por esta razão as coisas divinas foram ocultadas aos sábios e entendidos, para que, como diz o apóstolo, “nenhuma carne se glorie na presença de Deus” (1Co 1.29); e foram reveladas aos pequeninos, àqueles que, depois da infância, chegaram a coisas melhores e que se lembram de que não é tanto pelo seu próprio esforço, mas pela inefável bondade (de Deus), que alcançaram o maior grau possível de bem-aventurança.
13. Não é sem razão, portanto, que aquele que é abandonado é abandonado ao juízo divino, e que Deus é paciente com certos pecadores; mas é porque lhes será vantajoso, com respeito à imortalidade da alma e ao mundo sem fim,37 não serem levados depressa38 a um estado de salvação, mas serem conduzidos a ele mais lentamente, depois de terem experimentado muitos males. Pois, assim como os médicos, que podem curar um homem depressa, quando suspeitam que existe um veneno oculto no corpo, fazem o contrário de curar, tornando a cura mais segura justamente pelo seu desejo de curar, julgando melhor manter o paciente por um tempo considerável em inflamação e doença, para que ele recupere a saúde com mais segurança, do que parecer produzir uma rápida recuperação e depois causar uma recaída, e (assim) aquela cura apressada durar apenas por um tempo; do mesmo modo também Deus, que conhece os segredos do coração e prevê os acontecimentos futuros, na sua paciência permite (que certas coisas aconteçam) e, por meio das coisas que acontecem de fora, extrai o mal oculto, a fim de purificar aquele que por descuido recebeu as sementes do pecado, para que, tendo-as vomitado quando vieram à superfície, ainda que tenha estado profundamente envolvido em males, possa depois obter a cura da sua maldade e ser renovado.39 Pois Deus governa as almas não em vista, por assim dizer, dos cinquenta40 anos da vida presente, mas em vista de uma era sem limites:41 pois ele fez o princípio pensante imortal por natureza e aparentado a si mesmo; e a alma racional não é, como nesta vida, excluída da cura.
14. Vamos, então, usar a seguinte imagem42 do Evangelho. Há certa rocha com um pouco de terra na superfície, sobre a qual, se caem sementes, elas brotam depressa; mas, uma vez brotadas, por não terem raiz, são queimadas e secam quando o sol se levanta. Ora, essa rocha é uma alma humana, endurecida por causa da sua negligência e convertida em pedra por causa da sua maldade; pois ninguém recebe de Deus um coração criado de pedra, mas ele se torna assim em consequência da maldade. Se alguém, então, censurasse o lavrador por não semear mais cedo a sua semente no solo pedregoso, ao ver outro terreno pedregoso que havia recebido semente florescendo, o lavrador responderia: “Semearei esta terra mais devagar, lançando sementes que sejam capazes de se firmar, pois este método mais lento é melhor para a terra e mais seguro do que aquele que recebe a semente de modo mais rápido e mais na superfície”. (Quem o censurava) daria o seu assentimento ao lavrador, como a alguém que falou com sólida razão e agiu com habilidade; assim também o grande Lavrador de toda a natureza adia aquele benefício que poderia ser considerado prematuro,43 para que não se mostre superficial. Mas é provável que aqui alguém nos objete quanto a isto: “Por que algumas das sementes caem sobre a terra que tem solo superficial, sendo a alma, por assim dizer, uma rocha?” Ora, devemos dizer em resposta que era melhor para essa alma, que desejou as coisas melhores de modo precipitado,44 e não por um caminho que conduzisse a elas, obter o que desejava, para que, condenando-se a si mesma por isso, depois de muito tempo suporte receber o cultivo que é segundo a natureza. Pois as almas são, por assim dizer, inumeráveis; e inumeráveis são os seus hábitos, e os seus movimentos, e os seus propósitos, e os seus ataques, e os seus esforços, dos quais há um só administrador admirável, que conhece tanto a ocasião como os auxílios apropriados, as vias e os caminhos, a saber, o Deus e Pai de todas as coisas, que sabe como conduz até Faraó por meio de acontecimentos tão grandes e pelo afogamento no mar, acontecimento este com o qual não cessa o seu cuidado por Faraó. Pois ele não foi aniquilado quando se afogou: “Porque na mão de Deus estamos nós e as nossas palavras; também toda a sabedoria e o conhecimento do ofício” (cf. Sb 7.16). E esta é uma defesa moderada quanto à afirmação de que “o coração de Faraó foi endurecido” e de que “Deus tem misericórdia de quem quer e também endurece a quem ele quer”.
15. Vejamos também a declaração de Ezequiel, que diz: “Tirarei deles os corações de pedra e porei neles corações de carne, para que andem nos meus estatutos e guardem os meus preceitos” (Ez 11.19-20). Pois, se Deus, quando quer, tira os corações de pedra e implanta corações de carne, de modo que os seus preceitos sejam obedecidos e os seus mandamentos observados, não está em nosso poder afastar a maldade. Pois tirar os corações de pedra não é outra coisa senão tirar a maldade, segundo a qual alguém é endurecido, daquele de quem Deus quer tirá-la; e implantar um coração de carne, para que o homem ande nos preceitos de Deus e guarde os seus mandamentos, que outra coisa é senão tornar-se um tanto dócil e sem resistência à verdade, e capaz de praticar as virtudes? E, se Deus promete fazer isso, e se, antes que ele tire os corações de pedra, nós não os depomos, é claro que não depende de nós afastar a maldade; e, se não somos nós que fazemos alguma coisa para a formação, dentro de nós, do coração de carne, mas se isso é obra de Deus, viver de acordo com a virtude não será ato nosso, mas inteiramente (resultado da) graça divina. Tais serão as afirmações de quem, a partir das meras palavras (da Escritura), anula o livre-arbítrio.45 Mas nós responderemos dizendo que devemos entender essas passagens assim: como um homem, por exemplo, que fosse ignorante e sem instrução, ao perceber os seus próprios defeitos, seja em consequência de uma exortação do seu mestre, seja de algum outro modo, se entregasse espontaneamente àquele que considera capaz de conduzi-lo46 à instrução e à virtude; e, ao entregar-se, o seu instrutor lhe promete que tirará a sua ignorância e implantará a instrução, não como se o fato de ele ter vindo para ser curado não contribuísse em nada para a sua formação e para o afastamento da ignorância, mas porque o instrutor prometeu melhorar aquele que desejava ser melhorado; assim, do mesmo modo, o Verbo de Deus promete tirar a maldade, que ele chama de coração de pedra, daqueles que vêm a ele, não se forem relutantes, mas (somente) se se submeterem ao Médico dos doentes, como nos Evangelhos se encontram os doentes vindo ao Salvador e pedindo para obter a cura, e assim são curados. E, por assim dizer, a recuperação da vista pelos cegos é, no que diz respeito ao seu pedido, ato daqueles que creem que podem ser curados; mas, no que diz respeito à restauração da vista, é obra do nosso Salvador. Assim, pois, o Verbo de Deus promete implantar o conhecimento naqueles que vêm a ele, tirando o coração de pedra e duro, que é a maldade, para que se ande nos mandamentos divinos e se guardem as determinações divinas.
1. peri tou autexousiou.
2. ten ennoian autou anaptuxai.
3. hupo hexeos mones.
4. phantasias.
5. phuseos phantastikes.
6. kai oudenos allou meta ten phantastiken autou phusin pepisteumenou tou zoou.
7. posos.
8. para tas aphormas.
9. dia tasde tas pithanotetas.
10. autoteles.
11. eskekoti.
12. engus ge tou bebaiothenai gegenemenos.
13. paracharattein.
14. psilen ten kataskeuen.
15. logou paideutikou.
16. hemerotetos.
17. exetasten.
18. eulogos.
19. dialegetai.
20. chrezei de autou ho Theos…epi pleion apeithountos.
21. ennoian.
22. eugnomone.
23. tranos.
24. apograpsamenos tis gumne te kephale histato pros to poneron einai ton demiourgon.
25. energeia.
26. dia to tes kakias hupokeimenon tou par’ heautois kakou.
27. dusphemon.
28. para to hupokeimenon.
29. kai to kata to brachu de anagegraphthai.
30. ouk atopon de kai apo sunetheias ta toiauta paramuthesasthai.
31. sukophantein.
32. duspeitheis.
33. biaioi.
34. idiotetos.
35. phusiosin.
36. amomos.
37. ton apeiron aiona.
38. sunergethenai.
39. anastoicheiothenai.
40. pentekontaetian. Rufino traz “sexaginta annos“.
41. aperanton aiona.
42. eikoni.
43. tachion.
44. propetesteron, kai ouchi hodo ep’ auta hodeusase.
45. apo ton psilon rheton to eph’ hemin anairon.
46. cheiragogesein.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Frederick Crombie (Ante-Nicene Fathers, vol. 4, Buffalo, 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução, feita do latim de Rufino e, nos capítulos III.1 e IV.1, do grego conservado. As notas são do tradutor inglês; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Orígenes cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.