Orígenes, Sobre os Princípios · Livro II
A ressurreição do corpo, o juízo, o fogo eterno e os castigos; as promessas e a vida dos santos.
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1. Mas, já que a exposição nos trouxe à lembrança os temas do juízo futuro, da retribuição e dos castigos dos pecadores, segundo as ameaças da Santa Escritura e o conteúdo do ensino da Igreja (a saber, que, quando chegar o tempo do juízo, o fogo eterno, as trevas exteriores, uma prisão, uma fornalha e outros castigos semelhantes foram preparados para os pecadores), vejamos qual deve ser a nossa opinião sobre esses pontos. Mas, para chegarmos a esses temas na devida ordem, parece-me que devemos considerar primeiro a natureza da ressurreição, para sabermos o que é aquilo (o corpo) que há de ir para o castigo, ou para o descanso, ou para a felicidade. Essa questão nós a discutimos mais longamente em outros tratados que compusemos sobre a ressurreição, e ali mostramos qual era a nossa opinião a respeito. Mas agora também, por amor da ordem lógica do nosso tratado, não será absurdo repetir alguns pontos daquelas obras, sobretudo porque alguns se escandalizam com o credo da Igreja, como se a nossa fé na ressurreição fosse tola e de todo desprovida de sentido; e esses são principalmente os hereges, aos quais, penso eu, se deve responder da seguinte maneira. Se também eles admitem que há uma ressurreição dos mortos, respondam-nos isto: o que é que morreu? Não foi um corpo? É, portanto, do corpo que haverá ressurreição. Digam-nos em seguida se pensam que havemos de usar corpos ou não. Penso que, quando o apóstolo Paulo diz: “Semeia-se corpo natural, ressuscita corpo espiritual” (1Co 15.44),1 eles não podem negar que é um corpo que ressuscita, nem que na ressurreição havemos de usar corpos. Que dizer então? Se é certo que havemos de usar corpos, e se se declara que os corpos que caíram ressuscitarão (pois só do que antes caiu se pode dizer com propriedade que se levanta de novo), ninguém pode duvidar de que eles ressuscitam para que sejamos revestidos deles uma segunda vez na ressurreição. Uma coisa está estreitamente ligada à outra. Pois, se os corpos ressuscitam, sem dúvida ressuscitam para nos servirem de cobertura; e, se é necessário que sejamos revestidos de corpos, como certamente é, não devemos ser revestidos de outros senão dos nossos. Mas, se é verdade que estes ressuscitam, e que ressuscitam corpos “espirituais”, não pode haver dúvida de que se diz que ressuscitam dos mortos depois de lançarem fora a corrupção e deporem a mortalidade; do contrário, parecerá vão e supérfluo que alguém ressuscite dos mortos para morrer uma segunda vez. E isso, enfim, pode ser compreendido com mais clareza deste modo: se alguém considerar com cuidado quais são as qualidades de um corpo animal, o qual, semeado na terra, recupera as qualidades de um corpo espiritual. Pois é do corpo animal que o próprio poder e a graça da ressurreição fazem sair o corpo espiritual, quando o transformam de uma condição de desonra numa condição de glória.
2. Como os hereges, porém, se julgam pessoas de grande erudição e sabedoria, perguntaremos a eles se todo corpo tem alguma forma, isto é, se é configurado segundo algum feitio. E, se disserem que corpo é aquilo que não é configurado segundo feitio algum, mostrarão ser os mais ignorantes e insensatos dos homens. Pois ninguém negará isso, a não ser quem não tem instrução nenhuma. Mas, se disserem, como é natural, que todo corpo é certamente configurado segundo algum feitio definido, perguntaremos se são capazes de nos mostrar e descrever o feitio de um corpo espiritual, coisa que de modo algum podem fazer. Perguntaremos ainda sobre as diferenças entre os que ressuscitam. Como mostrarão ser verdadeira aquela afirmação de que há “uma carne das aves, outra dos peixes; corpos celestes e corpos terrestres; que uma é a glória dos celestes e outra a dos terrestres; que uma é a glória do sol, outra a glória da lua, outra a glória das estrelas; que uma estrela difere de outra estrela em glória; e que assim é a ressurreição dos mortos” (1Co 15.39-42)? Segundo a gradação, então, que existe entre os corpos celestes, mostrem-nos as diferenças na glória dos que ressuscitam; e, se de algum modo tiverem procurado imaginar um princípio que corresponda às diferenças entre os corpos celestes, pediremos que indiquem as diferenças na ressurreição pela comparação com os corpos terrestres. O nosso entendimento da passagem, de fato, é este: o apóstolo, querendo descrever a grande diferença entre os que ressuscitam em glória, isto é, os santos, tomou uma comparação dos corpos celestes, dizendo: “Uma é a glória do sol, outra a glória da lua, outra a glória das estrelas”. E, querendo também nos ensinar as diferenças entre os que chegarão à ressurreição sem se terem purificado nesta vida, isto é, os pecadores, tomou uma ilustração das coisas terrestres, dizendo: “Uma é a carne das aves, outra a dos peixes”. Pois as coisas celestes se comparam dignamente aos santos, e as terrestres, aos pecadores. Essas afirmações são feitas em resposta aos que negam a ressurreição dos mortos, isto é, a ressurreição dos corpos.
3. Voltamos agora a nossa atenção para alguns dos nossos (fiéis) que, por fraqueza de inteligência ou por falta da devida instrução, adotam uma visão muito baixa e rasteira da ressurreição do corpo. Perguntamos a essas pessoas de que maneira entendem que um corpo animal há de ser mudado pela graça da ressurreição e tornar-se espiritual; e como aquilo que é semeado em fraqueza ressuscitará em poder; como aquilo que é plantado em desonra ressuscitará em glória; e aquilo que foi semeado em corrupção será mudado para um estado de incorrupção. Porque, se creem no apóstolo que um corpo que ressuscita em glória, em poder e em incorruptibilidade já se tornou espiritual, parece absurdo e contrário ao pensamento dele dizer que esse corpo pode de novo enredar-se nas paixões da carne e do sangue, visto que o apóstolo declara abertamente que “a carne e o sangue não podem herdar o Reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção” (1Co 15.50). Mas como entendem a declaração do apóstolo: “Todos seremos transformados” (1Co 15.51)? Essa transformação certamente deve ser esperada segundo a ordem que ensinamos acima; e nela, sem dúvida, convém que esperemos algo digno da graça divina. E cremos que isso se dará na ordem em que o apóstolo descreve a semeadura na terra de um “simples grão de trigo, ou de qualquer outro fruto”, ao qual “Deus dá um corpo como lhe apraz” (1Co 15.37-38), logo que o grão de trigo morre. Pois do mesmo modo se deve supor que também os nossos corpos caem na terra como um grão; e (estando implantado neles aquele germe que contém a substância corporal), embora os corpos morram, se corrompam e se dispersem, pela palavra de Deus aquele mesmo germe, que está sempre a salvo na substância do corpo, os levanta da terra, os restaura e os refaz, assim como a força que há no grão de trigo, depois da sua corrupção e morte, refaz e restaura o grão num corpo com haste e espiga. E assim também, para aqueles que merecerem obter herança no Reino dos céus, aquele germe da restauração do corpo, que mencionamos antes, por ordem de Deus restaura, a partir do corpo terreno e animal, um corpo espiritual, capaz de habitar nos céus; ao passo que a cada um daqueles que forem de mérito inferior, ou de condição mais baixa, ou mesmo os últimos da escala e de todo rejeitados, é dada ainda, na proporção da dignidade da sua vida e da sua alma, uma glória e uma dignidade de corpo. Isso, no entanto, de tal modo que mesmo o corpo que ressuscita daqueles que estão destinados ao fogo eterno ou a castigos severos é, pela própria mudança da ressurreição, tão incorruptível que não pode ser corrompido nem dissolvido nem mesmo por castigos severos. Se, então, tais são as qualidades daquele corpo que ressuscitará dos mortos, vejamos agora qual é o sentido da ameaça do fogo eterno.
4. Encontramos no profeta Isaías que o fogo com que cada um é castigado é descrito como seu próprio, pois ele diz: “Andem na luz do seu próprio fogo e na chama que vocês acenderam” (Is 50.11). Essas palavras parecem indicar que cada pecador acende para si mesmo a chama do seu próprio fogo, e não é lançado num fogo já aceso por outro ou que existia antes dele. Desse fogo, a lenha e o alimento são os nossos pecados, que o apóstolo Paulo chama de “madeira, feno ou palha” (1Co 3.12). E penso que, assim como a abundância de comida e alimentos de qualidade e quantidade contrárias geram febres no corpo, e febres de tipos e durações diferentes, conforme a proporção em que o veneno acumulado2 fornece matéria e combustível para a doença (sendo a qualidade dessa matéria, juntada de venenos diversos, a causa de uma doença mais aguda ou mais prolongada), assim também, quando a alma juntou uma multidão de obras más e uma abundância de pecados contra si mesma, no tempo oportuno todo esse ajuntamento de males ferve para o castigo e se inflama em punições. Então a própria mente, ou consciência, recebendo na memória, pelo poder divino, todas aquelas coisas cujos sinais e formas imprimiu em si mesma no momento de pecar, verá exposta diante dos seus olhos uma espécie de história de todos os atos torpes, vergonhosos e ímpios que praticou. Então a própria consciência é atormentada e, ferida pelos seus próprios aguilhões, torna-se acusadora e testemunha contra si mesma. E esta, penso eu, era a opinião do próprio apóstolo Paulo quando disse: “Os seus pensamentos mutuamente os acusam ou os defendem, no dia em que Deus julgar os segredos dos homens por Jesus Cristo, segundo o meu evangelho” (Rm 2.15-16). Daí se entende que em torno da substância da alma se produzem certos tormentos pelas próprias afeições nocivas dos pecados.
5. E, para que o entendimento desta matéria não pareça muito difícil, podemos tirar algumas considerações dos maus efeitos daquelas paixões que costumam acometer algumas almas, como quando uma alma é consumida pelo fogo do amor, ou definhada pelo ciúme ou pela inveja, ou quando se acende a paixão da ira, ou alguém é consumido pela grandeza da sua loucura ou da sua tristeza. Nessas ocasiões, alguns, achando insuportável o excesso desses males, julgaram mais tolerável sujeitar-se à morte do que suportar perpetuamente uma tortura dessa espécie. Você perguntará, de fato, se, no caso daqueles que se enredaram nos males provenientes dos vícios acima enumerados e que, enquanto viviam nesta vida, não conseguiram obter para si melhora alguma e assim partiram deste mundo, basta como castigo que sejam torturados pela permanência neles dessas afeições nocivas, isto é, da ira, ou do furor, ou da loucura, ou da tristeza, cujo veneno mortal não foi abrandado nesta vida por nenhum remédio que cura; ou se, mudadas essas afeições, eles serão submetidos às dores de um castigo geral. Ora, sou de opinião que se pode entender que existe outra espécie de castigo. Pois, assim como sentimos que, quando os membros do corpo se soltam e são arrancados dos seus apoios mútuos, produz-se uma dor das mais lancinantes, assim também, quando a alma se achar fora da ordem, da ligação e da harmonia em que foi criada por Deus para agir e contemplar de modo bom e útil, e não estiver em harmonia consigo mesma na ligação dos seus movimentos racionais, deve-se julgar que ela sofre o castigo e a tortura da sua própria discórdia e sente as penas da sua própria desordem. E, quando essa dissolução e esse dilaceramento da alma tiverem sido provados pela aplicação do fogo, sem dúvida se dará uma consolidação numa estrutura mais firme, e se efetuará uma restauração.
6. Há também muitas outras coisas que escapam à nossa percepção e são conhecidas só daquele que é o médico das nossas almas. Pois, se por causa dos maus efeitos que trazemos sobre nós mesmos comendo e bebendo julgamos necessário, para a saúde do corpo, usar algum remédio desagradável e doloroso, e às vezes até, se a natureza da doença o exigir, recorrer ao duro procedimento do bisturi que amputa; e se a virulência da doença ultrapassar mesmo esses remédios, o mal tem de ser por fim cauterizado a fogo; quanto mais se deve entender que Deus, o nosso Médico, desejando remover os defeitos das nossas almas, que elas contraíram pelos seus diversos pecados e crimes, empregue medidas penais dessa espécie e aplique ainda, além delas, o castigo do fogo àqueles que perderam a saúde da mente! Imagens desse modo de proceder se encontram também na Santa Escritura. No livro de Deuteronômio (Dt 28), a palavra divina ameaça os pecadores com os castigos de febres, de calafrios e de icterícia,3 e com os sofrimentos da vista fraca, da alienação mental, da paralisia, da cegueira e da fraqueza dos rins. Se alguém, então, com vagar, juntar de toda a Escritura todas as enumerações de doenças que, nas ameaças dirigidas aos pecadores, são designadas com nomes de enfermidades corporais, verá que por elas se indicam figuradamente ou os vícios das almas ou os seus castigos. Que Deus, do mesmo modo que os médicos aplicam remédios aos doentes para que, com tratamento cuidadoso, recuperem a saúde, assim procede com os que decaíram e caíram em pecado, prova-se por isto: ordena-se, por meio do profeta Jeremias (cf. Jr 25.15-16), que o cálice do furor de Deus seja oferecido a todas as nações, para que o bebam, fiquem loucas e o vomitem. Ao fazer isso, ele as ameaça, dizendo que, se alguém se recusar a beber, não será purificado (cf. Jr 25.28-29). Com isso certamente se entende que o furor da vingança de Deus é proveitoso para a purificação das almas. Que também o castigo que se diz aplicado pelo fogo se entende aplicado com a finalidade de curar, ensina-o Isaías, que fala assim de Israel: “O Senhor lavará a imundícia dos filhos ou das filhas de Sião e tirará o sangue do meio deles pelo espírito de juízo e pelo espírito de ardor” (Is 4.4). Dos caldeus fala assim: “Tens as brasas de fogo; assenta-te sobre elas: elas te serão de ajuda” (Is 47.14-15). E em outras passagens diz: “O Senhor santificará num fogo ardente” (Is 10.17; cf. Is 66.16); e nas profecias de Malaquias diz: “O Senhor, assentado, soprará, purificará e derramará os filhos de Judá purificados” (cf. Ml 3.3).
7. Mas também aquela sorte que nos Evangelhos se menciona como reservada aos administradores infiéis, dos quais se diz que serão divididos e que uma parte deles será posta com os incrédulos, como se a parte que não é deles mesmos devesse ser enviada para outro lugar, indica sem dúvida algum tipo de castigo para aqueles cujo espírito, como me parece, se mostra separado da alma. Pois, se esse Espírito é de natureza divina, isto é, se se entende que é um Espírito Santo, entenderemos que isso se diz do dom do Espírito Santo: quando, seja pelo batismo, seja pela graça do Espírito, a palavra de sabedoria, ou a palavra de conhecimento, ou qualquer outro dom foi concedido a um homem e não foi bem administrado, isto é, foi enterrado na terra ou amarrado num lenço, o dom do Espírito certamente será retirado da sua alma, e a outra parte que resta, isto é, a substância da alma, terá o seu lugar com os incrédulos, dividida e separada daquele Espírito com o qual, unindo-se ao Senhor, deveria ter sido um só espírito. Se, porém, isso não se deve entender do Espírito de Deus, mas da natureza da própria alma, será chamada a sua parte melhor aquela que foi feita à imagem e semelhança de Deus; ao passo que a outra parte, aquela que depois, pela sua queda no exercício do livre-arbítrio, foi assumida contra a natureza da sua condição original de pureza, essa parte, como amiga e amante da matéria, é castigada com a sorte dos incrédulos. Há ainda um terceiro sentido em que se pode entender aquela separação, a saber: assim como se diz que cada fiel, ainda que o mais humilde na Igreja, é assistido por um anjo, que, segundo declara o Salvador, contempla sempre a face de Deus Pai, e assim como esse anjo certamente era um só com aquele que estava sob a sua guarda, assim também, se este se torna indigno pela sua falta de obediência, diz-se que o anjo de Deus lhe é tirado; e então aquela parte dele (a saber, a parte que pertence à sua natureza humana), arrancada da parte divina, recebe um lugar com os incrédulos, porque não observou fielmente as advertências do anjo que Deus lhe havia designado.
8. Mas as trevas exteriores, a meu juízo, devem ser entendidas não tanto como uma atmosfera escura sem luz alguma, mas como aquelas pessoas que, mergulhadas nas trevas de uma profunda ignorância, foram postas fora do alcance de toda luz do entendimento. Devemos ver também se não é este, talvez, o sentido da expressão: assim como os santos receberão, depois da ressurreição, brilhantes e gloriosos, aqueles corpos em que viveram em santidade e pureza nas moradas desta vida, assim também os ímpios, que nesta vida amaram as trevas do erro e a noite da ignorância, talvez sejam revestidos, depois da ressurreição, de corpos escuros e negros, para que a própria névoa da ignorância que nesta vida se apoderou da mente deles, por dentro, apareça no futuro como a cobertura exterior do corpo. Semelhante é a opinião que se deve ter acerca da prisão. Bastem para a presente ocasião estas observações, feitas o mais brevemente possível, para que entretanto se preservasse a ordem da nossa exposição.
1. Vejamos agora brevemente que opinião devemos formar acerca das promessas. É certo que não há ser vivo que possa ficar de todo inativo e imóvel, mas que não se deleite em movimento de toda espécie e em atividade e vontade contínuas; e essa natureza, penso eu, é evidente que está em todos os seres vivos. Muito mais, então, o animal racional, isto é, a natureza do homem, tem de estar em contínuo movimento e atividade. Se, de fato, ele se esquece de si mesmo e ignora o que lhe convém, todos os seus esforços se voltam para servir às necessidades do corpo, e em todos os seus movimentos se ocupa dos seus próprios prazeres e desejos corporais. Mas, se for alguém que se empenha em cuidar ou prover do bem comum, então, seja zelando pelo interesse do Estado, seja obedecendo aos magistrados, ele se esforça por aquilo, seja o que for, que pareça certamente promover o proveito público. E, se agora alguém for de natureza tal que entenda haver algo melhor do que aquilo que parece corpóreo, e assim dedicar o seu esforço à sabedoria e à ciência, então sem dúvida voltará toda a sua atenção para estudos dessa espécie, para que, investigando a verdade, possa conhecer as causas e a razão das coisas. Assim, pois, como nesta vida um homem julga ser o bem supremo gozar dos prazeres do corpo, outro, zelar pelo interesse da comunidade, e um terceiro, dedicar-se ao estudo e à erudição, investiguemos se naquela vida que é a verdadeira (da qual se diz que está escondida com Cristo em Deus (Cl 3.3), isto é, naquela vida eterna) haverá para nós alguma ordem e condição de existência semelhante.
2. Certas pessoas, pois, recusando o trabalho de pensar e adotando uma visão superficial da letra da lei, e cedendo antes, em certa medida, à satisfação dos seus próprios desejos e paixões, sendo discípulos só da letra, pensam que o cumprimento das promessas do futuro deve ser esperado em prazer e luxo corporais. Por isso desejam sobretudo ter de novo, depois da ressurreição, estruturas corporais5 tais que nunca estejam privadas da capacidade de comer, beber e exercer todas as funções da carne e do sangue, sem seguir a opinião do apóstolo Paulo sobre a ressurreição de um corpo espiritual. E, por conseguinte, dizem que depois da ressurreição haverá casamentos e geração de filhos, imaginando que a cidade terrena de Jerusalém há de ser reconstruída, com os alicerces assentados em pedras preciosas, os muros construídos de jaspe e as ameias de cristal; que há de ter uma muralha composta de muitas pedras preciosas, como jaspe, safira, calcedônia, esmeralda, sardônica, ônix, crisólito, crisópraso, jacinto e ametista. Além disso, pensam que os naturais de outros países lhes serão dados como servos dos seus prazeres, aos quais empregarão como lavradores do campo ou construtores de muros, e por meio dos quais a sua cidade arruinada e caída será de novo levantada. E pensam que receberão as riquezas das nações para viver delas, e que terão o domínio sobre os seus bens; que até os camelos de Midiã e de Quedar virão e lhes trarão ouro, incenso e pedras preciosas. E pensam estabelecer essas opiniões sobre a autoridade dos profetas, por meio daquelas promessas que estão escritas acerca de Jerusalém, e também daquelas passagens em que se diz que os que servem ao Senhor comerão e beberão, mas os pecadores terão fome e sede; que os justos se alegrarão, mas a tristeza se apoderará dos ímpios. E do Novo Testamento também citam a palavra do Salvador em que ele faz aos seus discípulos uma promessa a respeito da alegria do vinho, dizendo: “Desde agora não beberei deste cálice até que o beba novo com vocês no Reino de meu Pai” (Mt 26.29). Acrescentam ainda aquela declaração em que o Salvador chama bem-aventurados os que agora têm fome e sede (Mt 5.6), prometendo-lhes que serão saciados; e muitas outras passagens da Escritura são alegadas por eles, sem perceberem que o seu sentido deve ser tomado figuradamente. Depois, ainda, conforme a forma das coisas desta vida e segundo as gradações das dignidades ou posições deste mundo, ou a grandeza dos seus poderes, pensam que hão de ser reis e príncipes, como os monarcas terrenos que agora existem, sobretudo, ao que parece, por causa daquela expressão do Evangelho: “Tenha autoridade sobre cinco cidades” (cf. Lc 19.19, 17). E, para dizer em poucas palavras, segundo o modo das coisas desta vida em todos os assuntos semelhantes, desejam o cumprimento de tudo o que se espera nas promessas, isto é, que aquilo que agora existe venha a existir de novo. Tais são as opiniões daqueles que, embora creiam em Cristo, entendem as divinas Escrituras num sentido de certo modo judaico, sem tirar delas nada que seja digno das promessas divinas.
3. Aqueles, porém, que recebem as representações da Escritura segundo o entendimento dos apóstolos alimentam a esperança de que os santos comerão, sim, mas que será o pão da vida, que nutra a alma com o alimento da verdade e da sabedoria, ilumine a mente e a faça beber do cálice da sabedoria divina, segundo a declaração da Santa Escritura: “A Sabedoria preparou a sua mesa, matou os seus animais, misturou o seu vinho no seu cálice e clama em alta voz: Venham a mim, comam o pão que preparei para vocês e bebam o vinho que misturei” (cf. Pv 9.1-5). Nutrido por esse alimento da sabedoria até uma condição íntegra e perfeita, semelhante àquela em que o homem foi feito no princípio, o entendimento é restaurado à imagem e semelhança de Deus. Assim, ainda que alguém parta desta vida menos perfeitamente instruído, mas tendo feito obras dignas de aprovação,6 será capaz de receber instrução naquela Jerusalém, a cidade dos santos; isto é, será educado e moldado e feito pedra viva, pedra eleita e preciosa, porque suportou com firmeza e constância as lutas da vida e as provas da piedade. E ali chegará a um conhecimento mais verdadeiro e mais claro daquilo que aqui já foi predito, isto é, que “o ser humano não viverá só de pão, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Dt 8.3; Mt 4.4). E também se deve entender que eles são os príncipes e governantes que tanto governam os de posição inferior como os instruem, os ensinam e os formam nas coisas divinas.
4. Mas, se essas opiniões não parecerem encher de um desejo condigno a mente daqueles que esperam tais resultados, voltemos um pouco atrás e, independentemente do anseio natural e inato da mente pela própria coisa, façamos a investigação de modo que possamos enfim descrever, por assim dizer, as próprias formas do pão da vida, a qualidade daquele vinho e a natureza peculiar dos principados, tudo em conformidade com a visão espiritual das coisas.7 Ora, assim como nas artes que costumam ser executadas por trabalho manual a razão por que uma coisa é feita, ou por que tem tal qualidade, ou serve a tal finalidade, é objeto de investigação da mente,8 enquanto a própria obra é exposta à vista pela ação das mãos, assim também, nas obras de Deus criadas por ele, deve-se observar que a razão e o entendimento das coisas que o vemos fazer permanecem ocultos. E, assim como, quando o nosso olho contempla os produtos do trabalho de um artista, a mente, logo que percebe algo de excelência artística incomum, arde por saber de que natureza é, ou como foi formado, ou para que fins foi feito, assim também, em grau muito maior e acima de toda comparação, a mente arde com um desejo inexprimível de conhecer a razão das coisas que vemos ser feitas por Deus. Esse desejo, esse anseio, cremos que sem dúvida foi implantado em nós por Deus; e, assim como o olho busca naturalmente a luz e a visão, e o nosso corpo deseja naturalmente comida e bebida, assim a nossa mente possui um desejo condigno e natural de conhecer a verdade de Deus e as causas das coisas. Ora, recebemos esse desejo de Deus não para que nunca fosse satisfeito nem pudesse sê-lo; do contrário, pareceria que o amor da verdade foi implantado por Deus em nossa mente em vão, se nunca tivesse ocasião de ser satisfeito. Por isso também, já nesta vida, aqueles que se dedicam com grande esforço aos estudos da piedade e da religião, embora obtenham apenas alguns pequenos fragmentos dos numerosos e imensos tesouros do conhecimento divino, tiram grande proveito pelo próprio fato de que a sua mente e a sua alma se ocupam desses estudos e de que, no ardor do seu desejo, ultrapassam a si mesmos; e, porque a sua mente está voltada para o estudo e o amor da investigação da verdade, tornam-se mais aptos para receber a instrução que há de vir. É como quando alguém quer pintar uma imagem: primeiro traça com um lápis leve os contornos do quadro que virá e prepara marcas para receber os traços que serão acrescentados depois, e esse esboço preliminar em contorno prepara o caminho para a aplicação das verdadeiras cores da pintura. Assim também, em certa medida, um contorno e um esboço podem ser traçados nas tábuas do nosso coração pelo lápis de nosso Senhor Jesus Cristo. E por isso talvez se diga: “A todo o que tem será dado e acrescentado” (Lc 19.26; cf. Mt 25.29). Com isso se estabelece que àqueles que possuem nesta vida uma espécie de contorno da verdade e do conhecimento será acrescentada no futuro a beleza de uma imagem perfeita.
5. Um desejo assim, penso eu, foi indicado por aquele que disse: “Estou cercado pelos dois lados, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor” (Fp 1.23), sabendo que, quando voltasse para Cristo, conheceria então com mais clareza as razões de todas as coisas que se fazem na terra, seja a respeito do homem, ou da alma do homem, ou da mente, seja a respeito de qualquer outro assunto, como, por exemplo, o que é o Espírito que opera, o que é também o espírito vital, ou o que é a graça do Espírito Santo que é dada aos fiéis. Então também entenderá o que Israel parece ser, ou o que significa a diversidade das nações; o que significam as doze tribos de Israel, e o que significa cada povo de cada tribo. Então também entenderá a razão dos sacerdotes e levitas e das diferentes ordens sacerdotais, cujo tipo estava em Moisés, e também qual é o verdadeiro sentido dos jubileus e das semanas de anos junto de Deus. Verá também as razões dos dias de festa e dos dias santos, e de todos os sacrifícios e purificações. Perceberá também a razão da purificação da lepra, e quais são os diferentes tipos de lepra, e a razão da purificação dos que perdem o seu sêmen. Chegará a conhecer, além disso, quais são as influências boas,9 e a sua grandeza, e as suas qualidades; e também as de espécie contrária, e qual é o afeto das primeiras e qual a rivalidade, causadora de discórdia, das segundas para com os homens. Contemplará também a natureza da alma e a diversidade dos animais (sejam os que vivem na água, sejam as aves, sejam os animais selvagens), e por que cada um dos gêneros se subdivide em tantas espécies; e que intenção do Criador, ou que propósito da sua sabedoria, está oculto em cada coisa. Conhecerá também a razão por que certas propriedades se acham associadas a certas raízes ou ervas, e por que, por outro lado, efeitos maus são afastados por outras ervas e raízes. Conhecerá, além disso, a natureza dos anjos apóstatas, e a razão por que têm poder de lisonjear em algumas coisas aqueles que não os desprezam com toda a força da fé, e por que existem para enganar e desviar os homens. Aprenderá também o juízo da Providência divina sobre cada coisa; e que, dos acontecimentos que sobrevêm aos homens, nenhum ocorre por acidente ou acaso, mas segundo um plano tão cuidadosamente considerado e tão admirável que não deixa de lado nem mesmo o número dos cabelos da cabeça, não só dos santos, mas talvez de todos os seres humanos; e esse plano do governo providencial se estende até a cuidar da venda de dois pardais por um denário, quer se entendam ali os pardais em sentido figurado, quer literal. Agora, de fato, esse governo providencial ainda é objeto de investigação, mas então será plenamente manifestado. De tudo isso devemos supor que, entretanto, não pouco tempo poderá passar até que a razão apenas das coisas que estão na terra seja mostrada aos dignos e merecedores, depois da sua partida desta vida, para que, pelo conhecimento de todas essas coisas e pela graça do pleno conhecimento, gozem de uma alegria indizível. Então, se aquela atmosfera que está entre o céu e a terra não é desprovida de habitantes, e estes de natureza racional, como diz o apóstolo: “Nos quais vocês andaram noutro tempo, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência” (Ef 2.2).10 E diz ainda: “Seremos arrebatados nas nuvens para o encontro com Cristo nos ares, e assim estaremos para sempre com o Senhor” (1Ts 4.17).
6. Devemos supor, portanto, que os santos permanecerão ali até reconhecerem o duplo modo de governo nas coisas que se realizam no ar. E, quando digo “duplo modo”, quero dizer isto: quando estávamos na terra, víamos animais ou árvores e observávamos as diferenças entre eles, e também a enorme diversidade entre os homens; mas, embora víssemos essas coisas, não entendíamos a razão delas. A diversidade visível nos sugeria apenas que examinássemos e investigássemos segundo que princípio essas coisas foram criadas ou dispostas de modo diverso. E, tendo concebido na terra um zelo ou desejo de conhecimento dessa espécie, a plena compreensão e entendimento disso nos serão concedidos depois da morte, se de fato o resultado corresponder às nossas expectativas. Quando, portanto, tivermos compreendido plenamente a sua natureza, entenderemos de duplo modo o que vimos na terra. Algo assim, então, devemos pensar acerca dessa morada no ar. Penso, portanto, que todos os santos que partem desta vida permanecerão em algum lugar situado na terra, que a Santa Escritura chama paraíso, como num lugar de instrução e, por assim dizer, numa sala de aula ou escola das almas, em que serão instruídos sobre todas as coisas que viram na terra e receberão também alguma informação sobre as coisas que hão de seguir-se no futuro, assim como, já nesta vida, tinham obtido em certa medida indícios dos acontecimentos futuros, embora “como num espelho, de forma obscura” (1Co 13.12); e tudo isso é revelado aos santos com mais clareza e nitidez no tempo e no lugar próprios. Se alguém, de fato, for puro de coração, santo de mente e mais exercitado na percepção, subirá depressa, progredindo mais rapidamente, a um lugar no ar e chegará ao Reino dos céus, passando por aquelas moradas, por assim dizer, nos diversos lugares que os gregos chamaram esferas, isto é, globos, mas que a Santa Escritura chamou céus. Em cada um deles verá primeiro com clareza o que ali se faz e, em segundo lugar, descobrirá a razão por que as coisas se fazem assim; e assim passará em ordem por todas as gradações, seguindo aquele que penetrou os céus, Jesus, o Filho de Deus, que disse: “Quero que, onde eu estou, também estes estejam” (Jo 17.24). E é dessa diversidade de lugares que ele fala quando diz: “Na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14.2). Ele mesmo está em toda parte e passa velozmente por todas as coisas; e já não devemos entendê-lo como existindo naqueles limites estreitos em que outrora esteve confinado por nossa causa, isto é, não naquele corpo circunscrito que ocupou na terra quando habitava entre os homens, segundo o qual se poderia considerá-lo encerrado num só lugar.
7. Quando, então, os santos tiverem chegado às moradas celestes, verão com clareza a natureza das estrelas, uma por uma, e entenderão se são dotadas de vida, ou qual é a sua condição, seja ela qual for. E compreenderão também as outras razões das obras de Deus, que ele mesmo lhes revelará. Pois ele lhes mostrará, como a filhos, as causas das coisas e o poder da sua criação,11 e explicará por que aquela estrela foi posta naquela região particular do céu, e por que foi separada de outra por um intervalo tão grande; qual seria, por exemplo, a consequência se estivesse mais perto ou mais longe; ou, se aquela estrela fosse maior do que esta, como o conjunto das coisas não teria permanecido o mesmo, mas tudo teria sido transformado numa condição de existência diferente. E assim, quando tiverem terminado todos os assuntos ligados às estrelas e às revoluções celestes, chegarão às coisas que não se veem, ou àquelas de que só ouvimos os nomes, e às coisas invisíveis, que o apóstolo Paulo nos informou serem numerosas, embora o que sejam, ou que diferença possa haver entre elas, não possamos sequer conjecturar com a nossa fraca inteligência. E assim a natureza racional, crescendo a cada passo, não como crescia nesta vida na carne, no corpo e na alma, mas ampliada em entendimento e em capacidade de percepção, é elevada, como mente já perfeita, ao conhecimento perfeito, já em nada impedida por aqueles sentidos carnais, mas aumentada em crescimento intelectual. E, contemplando sempre com pureza e, por assim dizer, face a face as causas das coisas, alcança a perfeição: primeiro, aquela pela qual sobe até (a verdade),12 e, em segundo lugar, aquela pela qual permanece nela, tendo os problemas e o entendimento das coisas, e as causas dos acontecimentos, como o alimento com que se banqueteia. Pois, assim como nesta vida os nossos corpos crescem fisicamente até o que são, porque na primeira idade a suficiência de alimento fornece os meios de crescimento, mas, depois de atingida a devida estatura, já não usamos o alimento para crescer, mas para viver e ser por ele conservados em vida, assim também penso que a mente, quando atingiu a perfeição, come e se serve de alimento apropriado e conveniente em tal medida que nada deve faltar nem sobrar. E em todas as coisas esse alimento deve ser entendido como a contemplação e o entendimento de Deus, numa medida apropriada e conveniente a esta natureza, que foi feita e criada; e essa medida convém que seja observada por cada um daqueles que começam a ver a Deus, isto é, a entendê-lo pela pureza de coração.
1. Natural, animale (psuchikon).
2. Intemperies.
3. Aurigine [aurugine].
4. Repromissionibus.
5. Carnes.
6. Opera probabilia.
7. A passagem é um tanto obscura, mas a tradução no texto parece transmitir o sentido pretendido.
8. Versatur in sensu.
9. Virtutes.
10. Há uma evidente omissão de algumas palavras no texto, como “eles entrarão nela” etc.
11. Virtutem suæ conditionis. Seine Schöpferkraft (Schnitzer).
12. In id: àquele estado da alma em que ela contempla com pureza as causas das coisas.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Frederick Crombie (Ante-Nicene Fathers, vol. 4, Buffalo, 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução, feita do latim de Rufino e, nos capítulos III.1 e IV.1, do grego conservado. As notas são do tradutor inglês; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Orígenes cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.