Atanásio, A Encarnação do Verbo · Seções 36 a 45
Resposta aos judeus pelas profecias que só Cristo cumpre; resposta aos gregos: o Verbo, que governa o universo, pôde habitar num corpo humano.
#A04
Pois que rei jamais houve que, antes de ter forças para chamar pai ou mãe, tenha reinado e alcançado triunfos sobre os seus inimigos (Is 8.4)1? Não subiu Davi ao trono com trinta anos de idade, e Salomão, quando já era rapaz? Não assumiu Joás o reino aos sete anos, e Josias, rei ainda mais tardio, não recebeu o governo por volta dos sete anos de idade? E, no entanto, nessa idade eles já tinham forças para chamar pai ou mãe. 2. Quem é, então, aquele que reinava e despojava os seus inimigos quase antes de nascer? Ou que rei desse tipo houve jamais em Israel e em Judá (digam-nos os judeus, que investigaram a questão), em quem todas as nações tenham posto a sua esperança e tido paz, em vez de estarem em inimizade com eles por todos os lados? 3. Pois, enquanto Jerusalém esteve de pé, houve guerra sem trégua entre eles, e todos combatiam contra Israel: os assírios os oprimiam, os egípcios os perseguiam, os babilônios caíam sobre eles; e, coisa estranha, até os sírios, seus vizinhos, estavam em guerra contra eles. Ou não guerreou Davi contra os de Moabe e não feriu os sírios? Josias não se guardava dos seus vizinhos, e Ezequias não se acovardou diante da jactância de Senaqueribe? Amaleque não fez guerra contra Moisés, os amorreus não se lhe opuseram, e os habitantes de Jericó não se puseram em armas contra Jesus, filho de Num? Numa palavra, não havia lugar para tratados de amizade entre as nações e Israel. Vale a pena, então, ver quem é aquele em quem as nações hão de pôr a sua esperança. Pois é preciso que exista alguém assim, já que é impossível que o profeta tenha falado falsamente. 4. Mas qual dos santos profetas ou dos antigos patriarcas morreu na cruz pela salvação de todos? Ou quem foi ferido e destruído para a cura de todos? Ou qual dos justos, ou dos reis, desceu ao Egito, de modo que à sua chegada caíssem os ídolos do Egito2? Pois Abraão foi para lá, e a idolatria continuou a prevalecer em toda parte do mesmo modo. Moisés nasceu lá, e o culto iludido do povo continuou ali do mesmo jeito.
Ou quem, dentre os que são mencionados na Escritura, foi traspassado nas mãos e nos pés, ou sequer foi pendurado num madeiro e sacrificado numa cruz pela salvação de todos? Pois Abraão morreu, terminando a vida num leito; Isaque e Jacó também morreram com os pés recolhidos sobre o leito; Moisés e Arão morreram no monte; Davi, em sua casa, sem ser alvo de nenhuma conspiração por parte do povo; é verdade que foi perseguido por Saul, mas foi preservado ileso. Isaías foi serrado ao meio, mas não pendurado num madeiro. Jeremias foi tratado de modo vergonhoso, mas não morreu condenado; Ezequiel sofreu, mas não pelo povo, e sim para indicar o que haveria de sobrevir ao povo. 2. Além disso, esses, mesmo quando sofreram, eram homens semelhantes a todos na natureza comum; mas aquele que, segundo a Escritura, sofre em favor de todos não é chamado simplesmente homem, mas a Vida de todos, ainda que de fato fosse semelhante aos homens na natureza. Pois ela diz: “Vocês verão3 a sua Vida pendurada diante dos seus olhos” (Dt 28.66); e: “Quem declarará a sua geração?” (Is 53.8). Pois é possível averiguar a genealogia de todos os santos e declará-la desde o princípio, e de quem cada um nasceu; mas a geração daquele que é a Vida, as Escrituras a apresentam como algo que não se pode declarar. 3. Quem é, pois, aquele de quem as divinas Escrituras dizem isso? Ou quem é tão grande que até os profetas predizem a respeito dele coisas tão grandes? Ora, não se encontra nas Escrituras nenhum outro senão o Salvador comum de todos, o Verbo de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo. Pois é ele que procedeu de uma virgem e apareceu como homem sobre a terra, e cuja geração segundo a carne não se pode declarar. Pois não há quem possa dizer quem é o seu pai segundo a carne, já que o seu corpo não procede de um homem, mas somente de uma virgem; 4. de modo que ninguém pode declarar a geração corporal do Salvador a partir de um homem, do mesmo modo que se pode traçar a genealogia de Davi, de Moisés e de todos os patriarcas. Pois foi ele que fez também a estrela assinalar o nascimento do seu corpo; uma vez que convinha que o Verbo, descendo do céu, tivesse também do céu o seu astro, e era conveniente que o Rei da criação, ao vir a público, fosse reconhecido abertamente por toda a criação. 5. Ora, ele nasceu na Judeia, e homens da Pérsia vieram adorá-lo. É ele que, mesmo antes da sua manifestação no corpo, alcançou a vitória sobre os demônios que lhe eram adversários e o triunfo sobre a idolatria. De fato, todos os pagãos, de todas as regiões, renegando a tradição que herdaram e a impiedade dos ídolos, estão agora pondo a sua esperança em Cristo e alistando-se sob ele, coisa que você pode ver com os próprios olhos. 6. Pois em nenhum outro tempo cessou a impiedade dos egípcios, senão quando o Senhor de todos, como que montado numa nuvem, desceu ali no corpo, reduziu a nada o engano dos ídolos e atraiu todos a si mesmo e, por meio de si, ao Pai. 7. É ele que foi crucificado tendo por testemunhas o sol e toda a criação, e diante dos que o mataram; e pela sua morte veio a salvação a todos, e toda a criação foi resgatada. Ele é a Vida de todos, e é ele que, como ovelha, entregou à morte o seu corpo como substituto, para a salvação de todos, ainda que os judeus não creiam.
Pois, se não julgam suficientes essas provas, que se deixem persuadir ao menos por outras razões, tiradas dos oráculos que eles mesmos possuem. Pois de quem dizem os profetas: “Manifestei-me aos que não me buscavam, fui achado pelos que não perguntavam por mim; eu disse: Eis-me aqui, à nação que não tinha invocado o meu nome; estendi as mãos a um povo desobediente e rebelde” (Is 65.1-2; cf. Rm 10.20-21)? 2. Quem é, então, se poderia perguntar aos judeus, aquele que se manifestou? Pois, se é o profeta, digam quando ele esteve escondido para depois aparecer de novo. E que espécie de profeta é esse, que não apenas se manifestou saindo da obscuridade, mas também estendeu as mãos na cruz? Certamente nenhum dos justos, senão somente o Verbo de Deus, que, sendo incorpóreo por natureza, apareceu por nossa causa no corpo e sofreu por todos. 3. Ou, se nem isso lhes basta, que ao menos se calem diante de outra prova, vendo quão clara é a sua força demonstrativa. Pois a Escritura diz: “Fortaleçam-se, mãos frouxas e joelhos vacilantes; consolem-se, vocês, desalentados de ânimo; sejam fortes, não tenham medo. Eis que o nosso Deus retribui com juízo; ele virá e nos salvará. Então se abrirão os olhos dos cegos, e os ouvidos dos surdos ouvirão; então o coxo saltará como o cervo, e a língua dos gagos falará com clareza” (Is 35.3-6). 4. Ora, que podem dizer a isso, ou como ousarão sequer encará-lo? Pois a profecia não apenas indica que Deus há de vir habitar aqui, mas anuncia os sinais e o tempo da sua vinda. Pois ela liga os cegos que recobram a vista, os coxos que andam, os surdos que ouvem e a língua dos gagos que se solta à vinda divina que há de acontecer. Digam, então, quando tais sinais aconteceram em Israel, ou onde, na terra dos judeus, ocorreu algo semelhante. 5. Naamã, um leproso, foi purificado, mas nenhum surdo ouviu, nem coxo andou. Elias ressuscitou um morto, e também Eliseu; mas nenhum cego de nascença recobrou a vista. Pois, na verdade, ressuscitar um morto é coisa grande, mas não se compara ao prodígio realizado pelo Salvador. Ora, se a Escritura não deixou de lado o caso do leproso e o do filho morto da viúva, certamente, se tivesse acontecido que também um coxo andasse e um cego recobrasse a vista, a narrativa não teria deixado de mencioná-lo. Visto, pois, que nada se diz nas Escrituras, é evidente que essas coisas nunca tinham acontecido antes. 6. Quando, então, aconteceram, senão quando o próprio Verbo de Deus veio no corpo? Ou quando ele veio, senão quando os coxos andaram, os gagos foram levados a falar com clareza, os surdos ouviram e os cegos de nascença recobraram a vista? Pois era isso mesmo que diziam os judeus que então o presenciaram, porque não tinham ouvido falar que tais coisas tivessem acontecido em nenhum outro tempo: “Desde que o mundo existe, jamais se ouviu que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. Se este homem não fosse de Deus, não poderia ter feito nada” (Jo 9.32-33).
Mas talvez, incapazes também eles de lutar continuamente contra fatos evidentes, sustentem, sem negar o que está escrito, que estão à espera dessas coisas e que o Verbo de Deus ainda não veio. Pois é nessa tecla que eles batem sem cessar, sem se envergonhar de sustentá-la descaradamente diante de fatos evidentes. 2. Mas neste ponto, acima de todos, serão refutados ainda mais, não por nós, mas pelo sapientíssimo Daniel, que assinala tanto a data exata como a divina estada do Salvador, dizendo: “Setenta semanas foram abreviadas sobre o teu povo e sobre a cidade santa, para que se dê fim completo ao pecado, para que se selem os pecados, para apagar as iniquidades, para fazer expiação pelas iniquidades, para trazer a justiça eterna, para selar a visão e o profeta e para ungir um Santo dos Santos; e saberás e entenderás que, desde a saída da palavra para restaurar4 e para edificar Jerusalém, até Cristo, o Príncipe” (Dn 9.24-25). 3. Talvez, quanto às outras profecias, consigam até achar desculpas e remeter o que está escrito a um tempo futuro. Mas que podem dizer a isto, ou podem sequer encará-lo? Aqui não só se faz referência ao Cristo, mas aquele que há de ser ungido é declarado não simplesmente homem, mas Santo dos Santos; e Jerusalém há de permanecer até a sua vinda, e daí em diante cessam em Israel o profeta e a visão. 4. Davi foi ungido outrora, e também Salomão e Ezequias; mas então, apesar disso, Jerusalém e o lugar continuaram de pé, e os profetas profetizavam: Gade, Asafe e Natã; e, mais tarde, Isaías, Oseias, Amós e outros. Além disso, os próprios homens que foram ungidos eram chamados santos, e não Santo dos Santos. 5. Mas, se eles se escudarem no cativeiro e disserem que por causa dele Jerusalém deixou de existir, que podem dizer também dos profetas? Pois, de fato, quando o povo desceu pela primeira vez a Babilônia, Daniel e Jeremias estavam lá, e Ezequiel, Ageu e Zacarias profetizavam.
Os judeus, portanto, falam à toa, e o tempo em questão, que eles remetem ao futuro, já chegou. Pois quando cessaram de Israel o profeta e a visão, senão quando veio Cristo, o Santo dos Santos? Pois é um sinal, e uma prova importante, da vinda do Verbo de Deus que Jerusalém já não esteja de pé, nem se levante profeta algum, nem se lhes revele visão alguma; e isso com toda a naturalidade. 2. Pois, quando já tinha vindo aquele que era significado, que necessidade havia ainda de alguém que o significasse? Quando a verdade estava presente, que necessidade havia ainda da sombra? Pois era esta a razão de profetizarem: que o fizessem até que viesse a verdadeira Justiça e aquele que haveria de resgatar os pecados de todos. E por isso Jerusalém permaneceu de pé até então, para que ali se exercitassem nas figuras como preparação para a realidade. 3. Assim, quando veio o Santo dos Santos, naturalmente a visão e a profecia foram seladas e o reino de Jerusalém cessou. Pois os reis só haviam de ser ungidos entre eles até que fosse ungido o Santo dos Santos; e Jacó profetiza que o reino dos judeus seria estabelecido até ele, nestes termos: “Não faltará governante de Judá, nem príncipe dos seus lombos, até que venha aquilo que lhe está reservado; e ele é a expectativa das nações” (Gn 49.10). 4. Por isso também o próprio Salvador clamou e disse: “A Lei e os Profetas profetizaram até João” (Mt 11.13; cf. Lc 16.16). Se, pois, existe agora entre os judeus rei, ou profeta, ou visão, fazem bem em negar o Cristo que veio. Mas, se não há rei nem visão, e desde então toda profecia está selada, e a cidade e o templo foram tomados, por que são tão ímpios e tão perversos que veem o que aconteceu e, no entanto, negam a Cristo, que realizou tudo isso? Ou por que, quando veem até os pagãos abandonando os seus ídolos e pondo a sua esperança, por meio de Cristo, no Deus de Israel, negam a Cristo, que nasceu da raiz de Jessé segundo a carne e daí em diante é Rei? Pois, se as nações estivessem adorando algum outro Deus, e não confessassem o Deus de Abraão, de Isaque, de Jacó e de Moisés, então, mais uma vez, fariam bem em alegar que Deus não veio. 5. Mas, se os gentios honram o mesmo Deus que deu a lei a Moisés e fez a promessa a Abraão, e cuja palavra os judeus desonraram, por que eles ignoram, ou antes, por que escolhem ignorar, que o Senhor predito pelas Escrituras resplandeceu sobre o mundo e lhe apareceu em forma corpórea, como disse a Escritura: “O Senhor Deus resplandeceu sobre nós”5; e ainda: “Enviou o seu Verbo e os sarou” (Sl 107.20); e ainda: “Não um mensageiro, não um anjo, mas o próprio Senhor os salvou” (Is 63.9)6? 6. O estado deles pode ser comparado ao de alguém fora de si, que vê a terra iluminada pelo sol, mas nega o sol que a ilumina. Pois que mais resta fazer àquele que eles esperam, quando vier? Chamar os pagãos? Mas eles já foram chamados. Fazer cessar a profecia, o rei e a visão? Também isso já aconteceu. Desmascarar a impiedade da idolatria? Já está desmascarada e condenada. Ou destruir a morte? Ela já foi destruída. 7. Que coisa, então, não aconteceu, que o Cristo tenha de fazer? Que resta por cumprir, para que os judeus agora descreiam impunemente? Pois se, digo, como de fato vemos, já não há entre eles rei, nem profeta, nem Jerusalém, nem sacrifício, nem visão, mas até a terra inteira está cheia do conhecimento de Deus, e os gentios, deixando a sua impiedade, estão agora se refugiando no Deus de Abraão, por meio do Verbo, nosso Senhor Jesus Cristo, então deve ser claro, mesmo para os mais obstinados, que o Cristo veio e que iluminou absolutamente todos com a sua luz e lhes deu o verdadeiro e divino ensino acerca do seu Pai. 8. Assim, pode-se com justiça refutar os judeus com esses e com outros argumentos tirados das divinas Escrituras.
Mas não se pode deixar de ficar inteiramente espantado com os gentios, que, enquanto riem do que não é motivo de gracejo, são eles mesmos insensíveis à própria desonra, que não percebem ter erguido na forma de troncos e pedras. 2. Contudo, como o nosso argumento não carece de prova demonstrativa, vamos envergonhá-los também com razões sensatas, sobretudo a partir do que nós mesmos também vemos. Pois que há do nosso lado de absurdo ou digno de zombaria? Será só o fato de dizermos que o Verbo se manifestou no corpo? Mas até eles reconhecerão conosco que isso aconteceu sem absurdo algum, se se mostrarem amigos da verdade. 3. Se, pois, negam que exista em absoluto um Verbo de Deus, fazem-no sem fundamento7, zombando do que não conhecem. 4. Mas, se confessam que existe um Verbo de Deus, e que ele é o governante do universo, e que nele o Pai produziu a criação, e que pela sua providência o todo recebe luz, vida e existência, e que ele reina sobre todas as coisas, de modo que é conhecido pelas obras da sua providência, e por meio dele o Pai, considere, peço-lhe, se não estão, sem o perceber, voltando a zombaria contra si mesmos. 5. Os filósofos dos gregos dizem que o universo é um grande corpo8; e com razão. Pois vemos o universo e as suas partes como objetos dos nossos sentidos. Se, pois, o Verbo de Deus está no universo, que é um corpo, e se uniu ao todo e a todas as suas partes, que há de surpreendente ou de absurdo se dissermos que ele se uniu9 também ao homem? 6. Pois, se fosse absurdo que ele estivesse num corpo, seria absurdo também que estivesse unido ao todo e desse luz e movimento a todas as coisas pela sua providência. Pois também o todo é um corpo. 7. Mas, se lhe convém unir-se ao universo e dar-se a conhecer no todo, há de convir-lhe também aparecer num corpo humano, e que por ele este seja iluminado e opere. Pois o gênero humano é parte do todo, tanto quanto o restante. E, se é inconveniente que uma parte tenha sido adotada como seu instrumento para ensinar aos homens a sua divindade, há de ser absurdíssimo que ele seja dado a conhecer até pelo universo inteiro.
Pois assim como, sendo o corpo inteiro vivificado e iluminado pelo homem, se alguém dissesse que é absurdo que a força do homem esteja também no dedo do pé, seria tido por tolo, porque, embora admita que o homem penetra e atua no todo, se recusa a admitir que ele esteja também na parte; assim também quem admite e crê que o Verbo de Deus está no universo inteiro, e que o todo é iluminado e movido por ele, não deve achar absurdo que também um único corpo humano receba dele movimento e luz. 2. Mas, se é por ser o gênero humano uma coisa criada e feita do nada que eles consideram inconveniente aquela manifestação do Salvador no homem de que falamos, já é tempo de o expulsarem também da criação; pois também ela foi trazida à existência pelo Verbo a partir do nada. 3. Mas, se, ainda que a criação seja coisa feita, não é absurdo que o Verbo esteja nela, também não é absurdo que esteja no homem. Pois, qualquer que seja a ideia que façam do todo, têm necessariamente de aplicar a mesma ideia à parte. Pois também o homem, como eu disse antes, é parte do todo. 4. Assim, não é de modo algum inconveniente que o Verbo esteja no homem, quando todas as coisas recebem dele a sua luz, o seu movimento e a sua luz, como também dizem os seus próprios autores: “Nele vivemos, nos movemos e existimos” (At 17.28). 5. Que há, então, de que zombar no que dizemos, se o Verbo usou aquilo em que está como instrumento para se manifestar? Pois, se não estivesse nele, também não poderia tê-lo usado; mas, se já admitimos que ele está no todo e nas suas partes, que há de incrível em que ele se manifeste naquilo em que está? 6. Pois pelo seu próprio poder ele está unido10 inteiramente a cada coisa e a todas, e ordena todas as coisas sem medida, de modo que ninguém poderia dizer que estaria fora de propósito que ele falasse e desse a conhecer a si mesmo e ao seu Pai por meio do sol, se assim quisesse, ou da lua, ou do céu, ou da terra, ou das águas, ou do fogo11; uma vez que ele mantém juntas todas as coisas ao mesmo tempo e está, de fato, não só em todas, mas também na parte em questão, e ali se manifesta invisivelmente. Do mesmo modo, não pode ser absurdo que, ordenando como ordena o todo e dando vida a todas as coisas, e tendo querido dar-se a conhecer por meio dos homens, ele tenha usado como seu instrumento um corpo humano para manifestar a verdade e o conhecimento do Pai. Pois também a humanidade é uma parte real do todo. 7. E, assim como a mente, que penetra o homem por inteiro, é interpretada por uma parte do corpo, refiro-me à língua, sem que ninguém, suponho, diga que por isso a essência da mente fica rebaixada, assim também, se o Verbo, que penetra todas as coisas, usou um instrumento humano, isso não pode parecer inconveniente. Pois, como eu disse antes, se é inconveniente ter usado um corpo como instrumento, é inconveniente também que ele esteja no todo.
Ora, se perguntarem: Por que, então, ele não apareceu por meio de outras partes mais nobres da criação, usando algum instrumento mais nobre, como o sol, ou a lua, ou as estrelas, ou o fogo, ou o ar, em vez de simplesmente um homem?, saibam que o Senhor não veio para fazer exibição, mas para curar e ensinar os que sofriam. 2. Pois o caminho de quem visa à exibição seria simplesmente aparecer e deslumbrar os espectadores; mas, para quem procura curar e ensinar, o caminho é não apenas vir habitar aqui, mas dedicar-se ao socorro dos necessitados e aparecer do modo como os que precisam dele o podem suportar; para não perturbar, excedendo o que os sofredores podem receber, as próprias pessoas que precisam dele, tornando-lhes inútil a manifestação de Deus. 3. Ora, nada na criação se havia desviado nas suas noções a respeito de Deus, senão somente o homem. Pois nem o sol, nem a lua, nem o céu, nem as estrelas, nem a água, nem o ar se haviam afastado da sua ordem; antes, conhecendo o seu Artífice e Soberano, o Verbo, permanecem como foram feitos12. Só os homens, tendo rejeitado o que era bom, inventaram então coisas vãs em lugar da verdade e atribuíram a honra devida a Deus, e o conhecimento dele, a demônios e a homens em forma de pedras. 4. Com razão, então, visto que seria indigno da bondade divina deixar passar coisa tão grave, e os homens, no entanto, não eram capazes de reconhecê-lo como aquele que ordena e guia o todo, ele toma para si como instrumento uma parte do todo, o seu corpo humano, e se une13 a ele, a fim de que, já que os homens não podiam reconhecê-lo no todo, não deixassem de conhecê-lo na parte; e, já que não podiam erguer os olhos para o seu poder invisível, pudessem ao menos, a partir do que se lhes assemelhava, raciocinar até chegar a ele e contemplá-lo. 5. Pois, sendo homens, poderão conhecer o seu Pai mais rápida e diretamente por meio de um corpo de natureza semelhante e das obras divinas realizadas por meio dele, julgando por comparação que não são obras humanas, mas obras de Deus, realizadas por ele. 6. E, se fosse absurdo, como dizem, que o Verbo fosse conhecido por meio das obras do corpo, seria igualmente absurdo que fosse conhecido por meio das obras do universo. Pois, assim como ele está na criação e, no entanto, não participa da natureza dela no menor grau, mas antes todas as coisas participam14 do seu poder, assim também, embora usasse o corpo como seu instrumento, não participou de nenhuma propriedade corporal, mas, pelo contrário, ele mesmo santificou até o corpo. 7. Pois, se até Platão, que goza de tanta reputação entre os gregos, diz15 que o autor do universo, vendo-o sacudido pela tempestade e em perigo de afundar na região do caos, se assenta ao leme da alma, vem em socorro e corrige todas as suas calamidades, que há de incrível no que dizemos, que, estando o gênero humano em erro, o Verbo pousou16 sobre ele e apareceu como homem, a fim de salvá-lo na sua tempestade com a sua direção e bondade?
Mas talvez, envergonhados a ponto de concordar com isso, prefiram dizer que Deus, se queria reformar e salvar o gênero humano, deveria tê-lo feito por uma simples ordem17, sem que o seu Verbo tomasse um corpo, exatamente do mesmo modo como fez outrora, quando os produziu do nada. 2. A essa objeção deles uma resposta razoável seria esta: outrora, quando nada existia, o que era necessário para fazer todas as coisas era uma ordem e a simples vontade de fazê-las. Mas, uma vez feito o homem, quando a necessidade exigia uma cura, não para coisas que não existiam, mas para coisas que tinham vindo a existir, seguia-se naturalmente que o Médico e Salvador aparecesse naquilo que tinha vindo a existir, a fim de curar também as coisas que existiam. Por essa causa, então, ele se fez homem e usou o seu corpo como instrumento humano. 3. Pois, se não fosse este o caminho certo, como haveria o Verbo, querendo usar um instrumento, de aparecer? Ou de onde haveria de tomá-lo, senão dos que já existiam e que necessitavam da sua divindade por meio de alguém semelhante a eles? Pois não eram as coisas sem existência que precisavam de salvação, de modo que bastasse uma simples ordem, mas o homem, que já existia, caminhava para a corrupção e a ruína18. Era, pois, natural e justo que o Verbo usasse um instrumento humano e se revelasse por toda parte. 4. Em segundo lugar, você precisa saber também isto: que a corrupção que se instalara não era exterior ao corpo, mas se tinha aderido a ele; e era necessário que, em lugar da corrupção, a vida se apegasse a ele; para que, assim como a morte foi gerada no corpo, assim também a vida fosse gerada nele. 5. Ora, se a morte fosse exterior ao corpo, seria próprio que também a vida tivesse sido gerada exteriormente a ele. Mas, se a morte estava estreitamente entrelaçada ao corpo e reinava sobre ele como se estivesse unida a ele, era necessário que também a vida se entrelaçasse estreitamente ao corpo, para que assim o corpo, revestindo-se da vida em lugar dela, se despojasse da corrupção. Além disso, mesmo supondo que o Verbo tivesse vindo fora do corpo, e não nele, a morte teria sido de fato vencida por ele, em perfeita conformidade com a natureza, visto que a morte não tem poder contra a Vida; mas a corrupção aderida ao corpo teria permanecido nele do mesmo modo19. 6. Por essa causa o Salvador, com razão, revestiu-se de um corpo, a fim de que o corpo, estreitamente entrelaçado à Vida, não permanecesse mais na morte como mortal, mas, como revestido da imortalidade, ressuscitasse daí em diante e permanecesse imortal. Pois, uma vez que se revestira de corrupção, não poderia ter ressuscitado se não se revestisse de vida. E a morte, igualmente, não podia, por sua própria natureza, aparecer senão no corpo. Por isso ele se revestiu de um corpo, para encontrar a morte no corpo e apagá-la. Pois como se poderia ter provado que o Senhor é a Vida, se não tivesse vivificado o que era mortal? 7. E assim como, sendo a palha naturalmente destrutível pelo fogo, se (em primeiro lugar) alguém mantiver o fogo longe da palha, embora ela não se queime, a palha continua sendo, apesar disso, mera palha, temendo a ameaça do fogo, pois o fogo tem a propriedade natural de consumi-la; ao passo que, se alguém (em segundo lugar) a envolver com uma boa quantidade de amianto, a substância que se diz20 ser um antídoto contra o fogo, a palha já não teme o fogo, estando protegida pelo seu envoltório de matéria incombustível; 8. desse mesmo modo se pode dizer, a respeito do corpo e da morte, que, se a morte tivesse sido afastada do corpo por uma simples ordem da parte dele, o corpo continuaria sendo do mesmo modo mortal e corruptível, segundo a natureza dos corpos; mas, para que isso não acontecesse, o corpo se revestiu do Verbo incorpóreo de Deus e, assim, já não teme nem a morte nem a corrupção, pois tem a vida como vestimenta, e a corrupção é abolida nele.
Coerentemente, portanto, o Verbo de Deus tomou um corpo e se serviu de um instrumento humano, a fim de vivificar também o corpo e, assim como é conhecido na criação pelas suas obras, operar também no homem e mostrar-se em toda parte, sem deixar nada vazio da sua própria divindade e do conhecimento dele. 2. Pois retomo e repito o que disse antes: o Salvador fez isso para que, assim como enche todas as coisas por todos os lados com a sua presença, enchesse também todas as coisas com o conhecimento dele, como diz também a divina Escritura: “A terra inteira se encheu do conhecimento do Senhor” (Is 11.9)21. 3. Pois, se alguém simplesmente erguer os olhos para o céu, vê a sua ordem; ou, se não consegue erguer o rosto para o céu, mas apenas para o homem, vê o poder dele, sem comparação com o dos homens, demonstrado pelas suas obras, e aprende que só ele, entre os homens, é Deus, o Verbo. Ou, se alguém se desviou para os demônios e os teme, pode ver este homem expulsá-los e concluir que ele é o Senhor deles. Ou, se alguém se afundou nas águas22 e pensa que elas são Deus (como os egípcios, por exemplo, reverenciam a água), pode ver a natureza delas transformada por ele e aprender que o Senhor é o Criador das águas. 4. Mas, se alguém desceu até o Hades e se assombra diante dos heróis que desceram para lá, considerando-os deuses, pode ainda assim ver o fato da ressurreição de Cristo e da sua vitória sobre a morte e concluir que também entre eles somente Cristo é verdadeiro Deus e Senhor. 5. Pois o Senhor tocou todas as partes da criação e libertou e desenganou todas elas de toda ilusão, como diz Paulo: “Tendo despojado de si os principados e as potestades, triunfou na cruz” (Cl 2.15), para que ninguém, de modo algum, pudesse mais ser enganado, mas em toda parte encontrasse o verdadeiro Verbo de Deus. 6. Pois assim o homem, cercado por todos os lados23 e contemplando a divindade do Verbo desdobrada em toda parte, isto é, no céu, no Hades, no homem, sobre a terra, já não fica exposto ao engano a respeito de Deus, mas deve adorar somente a Cristo e, por meio dele, chegar a conhecer corretamente o Pai. 7. Por esses argumentos, então, fundados na razão, os gentios, por sua vez, serão com justiça envergonhados por nós. Mas, se julgarem os argumentos insuficientes para envergonhá-los, que se convençam do que dizemos ao menos pelos fatos evidentes aos olhos de todos.
1. Observe-se aí a leitura da Septuaginta.
2. Cf. Cartas 61.4.
3. Cf. as seções 35.2 e 34.3.
4. Literalmente “responder”, tradução errada do hebraico.
5. Cf. Sl 118.27 e, para o sentido literal, Nm 6.25.
6. Segundo a Septuaginta; veja também a nota na Variorum Bible (Queen’s Printers).
7. Atanásio adota aqui, para os fins do seu argumento, os princípios das escolas neoplatônicas. Estas foram influenciadas, quanto ao Logos, por Fílon, mas mesmo nesse assunto o germe do seu ensino pode ser rastreado em Platão, especialmente no Timeu. (Veja Drummond, Philo, i. 65-88; Bigg, Bampton Lectures, 14, 18, 248-253; e Santo Agostinho, Confissões, na série Nicene Fathers, 1ª série, vol. 1, p. 107 e notas.)
8. Especialmente Platão, Timeu 30 etc.
9. Epibebekenai; cf. acima, 20.4, 6. A união de Deus e do homem em Cristo é, naturalmente, “hipostática”, ou pessoal, e, portanto (acima, 17.1), diferente em espécie da união do Verbo com a criação. O argumento dele é ad homines. Não cabia a pensadores que identificavam o universo com Deus objetar à ideia da encarnação.
10. Epibainon; veja acima a nota 9.
11. Deixa-se de lado o supérfluo pepoiekenai, intraduzível tal como o texto está. Para uma conjectura menos simples, veja a nota dos beneditinos.
12. Este pensamento é belamente expresso por Keble: “Todo verdadeiro, todo sem falha, todo afinado, o coro maravilhoso da criação começou em místico uníssono, para durar até que o tempo expire. E ainda dura: de dia e de noite, com uma só voz concorde, todos cantam com acerto a tua glória, Senhor, todos adoram e se alegram: só o homem desfaz a doce harmonia…” (The Christian Year, quarto domingo depois da Trindade.)
13. Cf. 41.5, nota 9.
14. Cf. Orígenes, Contra Celso vi. 64, onde há o mesmo contraste entre metechein e metechesthai.
15. Atanásio parafraseia livremente Platão, Político 273 D. Veja o Platão de Jowett (2ª ed.), vol. iv, pp. 515, 553.
16. Literalmente “sentou-se”, como poucas linhas acima.
17. Compare esta discussão com a que trata do “arrependimento”, acima, na seção 7 (especialmente 7.4).
18. A restauração por uma simples ordem teria mostrado o poder de Deus; a encarnação mostra o seu amor. Veja Discursos contra os arianos I.52 e II.68.
19. Cf. Discursos contra os arianos I.56 e I.65.
20. Veja acima, 28.3. Ao que parece, ele não tinha visto a substância.
21. Para o argumento, compare as seções 11-14.
22. Veja Döllinger, Gentile and Jew, i. 449.
23. A encarnação completa o círculo do testemunho que Deus dá de si mesmo e da responsabilidade do homem.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Archibald Robertson (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 4, Nova York, 1892), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. Os resumos no começo de cada seção e as notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Atanásio cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.