As Homilias de Macário · Homilias VII a XI

A alma diante do Esposo; a unção do Espírito; o esforço pelo bem

A alma em santidade diante do seu Esposo; as provações dos homens espirituais; a unção do Espírito; Cristo e o Espírito, tesouro dos cristãos; o esforço por todo bem.

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Homilia VII

Esta homilia nos ensina como a alma deve portar-se em santidade e pureza diante do seu Esposo, Jesus Cristo.

1. Se um príncipe glorioso se afeiçoasse a uma mulher pobre, que nada possui, e a mandasse trazer para sua casa para fazer dela sua esposa, ela deveria, dali em diante, mostrar toda boa vontade para com esse marido e conservar por ele um amor constante. Mas, se ela ultrapassa os limites da decência e do dever, é posta para fora de casa com desonra e vergonha, e fica cheia de tristeza, pensando de quão grande riqueza caiu e que glória perdeu. Assim também a alma que Cristo, o Esposo celestial, tomar por esposa deve agradar a Cristo, o seu amado, conduzindo-se na casa desse Esposo celestial com bom procedimento e com o coração grato pela graça que lhe foi concedida. Vejam! Uma alma assim é de fato investida do pleno domínio de todos os bens do seu Senhor, e o seu corpo se torna o tabernáculo glorioso da sua divindade. Mas, se ela não fizer o que lhe agrada e não observar perfeitamente a sua vontade, então, com vergonha e desonra, é despojada de toda a sua honra, como de modo nenhum apta para a comunhão do Rei celestial. E, depois disso, começa um pranto e uma lamentação universais por aquela alma entre todos os santos e espíritos intelectuais: anjos, potestades, apóstolos, profetas e mártires choram por ela. Pois, assim como há “alegria no céu”, conforme disse o Senhor, “por um pecador que se arrepende” (Lc 15.7), assim também há grande tristeza e pranto no céu por uma só alma que cai da vida eterna.

2. Precisamos, portanto, lutar e, com toda a prudência, cuidar de “desenvolver a nossa salvação com temor e tremor” (Fp 2.12). Por isso, quem quer que vocês sejam, vocês que foram feitos participantes do Espírito de Cristo, não se considerem em caso algum, seja pequeno, seja grande, acima de qualquer conselho; nem ultrajem o Espírito da graça, para que jamais sejam excluídos da vida da qual foram feitos participantes.

Peçamos, pois, a Deus que nós, todos os que fomos feitos participantes da sua graça, possamos ministrar de modo aceitável no serviço do Espírito, segundo a sua vontade; para que, servindo-o assim segundo a sua vontade com um serviço espiritual, herdemos a vida eterna.

3. Mas pode cair o homem que tem o dom da graça?

Resp. Se ele se descuidar, certamente cai. Pois os seus inimigos nunca estão ociosos nem recuam na guerra. Como é necessário, então, que vocês nunca deixem de buscar a Deus! Pois o dano que vocês sofrem pela sua negligência é imenso, ainda que pareçam estar até firmados no mistério da graça.

4. Os perfeitos estão sujeitos a aflição ou a guerra, ou estão inteiramente livres de cuidados?

Resp. O inimigo nunca dá trégua a ninguém na guerra. E Satanás é inteiramente desprovido de misericórdia; por isso, não hesita em atacar homem nenhum, ainda que não ataque a todos na mesma medida e grau.

5. Mas é preciso muito esforço e trabalho para que o homem busque e lance os alicerces, até que o fogo venha aos corações dos homens e queime os espinhos. E assim eles começam a ser santificados, dando glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, para sempre. Amém.

Homilia VIII

Os homens espirituais estão sujeitos a tentações e aflições.

1. Assim como os lavradores experientes, num ano de fartura, esperam um tempo de escassez e, por outro lado, quando a escassez e as dificuldades os alcançam, não desanimam, porque sabem que virá uma mudança, assim também no estado espiritual: quando a alma cai em várias tentações, não se surpreende como diante de coisa estranha ou incomum, nem desanima, porque sabe que elas vêm por permissão, para que seja provada e disciplinada pelo mal que lhe sobrevém. Nem tampouco, quando abunda em riqueza e bem-estar, fica livre de apreensão, mas espera uma mudança.

2. Pois, quando um homem é rico em graça, ainda há nele um resto de corrupção; ele tem, porém, alguém que toma o seu partido e vem em seu socorro. Por isso, sempre que alguém estiver em aflições e a tempestade das afeições corruptas se adensar sobre ele, nem assim deve abandonar a sua esperança. Pois é então que o pecado ganha terreno. Mas, quando o homem conserva a sua esperança em Deus, o pecado como que se esfarela e se seca.

3. Como uma fonte que corre e tem ao seu redor apenas terrenos úmidos, quando chega o calor, tanto ela como os pântanos vizinhos secam, assim acontece com os servos de Deus, nos quais a graça abunda: ela seca a concupiscência, não só a que vem do maligno, mas também a que é natural; porque agora os homens de Deus são maiores que o primeiro Adão.

4. Os cristãos, portanto, pertencem a outro mundo; são filhos do Adão celestial, uma nova geração, filhos do Espírito Santo, irmãos resplandecentes e gloriosos de Cristo, perfeitamente semelhantes ao seu Pai, o Adão espiritual e glorificado, daquela mesma cidade, da mesma natureza e do mesmíssimo poder. Ele mesmo diz: “Vocês não são deste mundo, como também eu não sou deste mundo” (cf. Jo 17.16).

5. Ainda assim, há neles um temor; não o dos novatos, que vivem com pavor dos espíritos malignos, mas um temor e cuidado de como empregar da melhor maneira os dons espirituais que lhes foram confiados. E alguém assim considera a si mesmo desprezível acima de todos os pecadores. Esse pensamento está tão profundamente enraizado nele como se fosse a sua própria natureza. Quanto mais avança no conhecimento de Deus, tanto menor ele é aos seus próprios olhos. E, por mais que aprenda, continua como quem nada sabe. Mas essas coisas são operadas na alma pelo ministério da graça. É como uma criancinha nos braços de um jovem: quem a carrega a leva para onde quer. Assim também a graça leva a mente de um lado para outro e a eleva até os próprios céus, ao mundo perfeito e ao descanso eterno.

Homilia IX

Sobre a unção espiritual e a glória dos cristãos.

1. Os cristãos que mais se aproximaram do Rei estão em todo tempo consagrados à cruz de Cristo; e, quando são ungidos com a unção celestial, tornam-se reis e profetas dos mistérios celestiais. Pois, se o óleo da unção, que vinha de uma planta exterior, tinha tanta virtude que as pessoas ungidas com ele eram por meio dele constituídas reis, quanto mais os que são ungidos com o óleo de alegria, que santifica e reanima, o óleo celestial e espiritual, recebem o sinal daquele reino incorruptível e do poder eterno, o penhor do Espírito, o próprio Espírito de santidade e de consolo! Ele é chamado o Consolador por causa do consolo e do amparo que concede aos que estão em aflição. Esses, ungidos da árvore da vida, Jesus Cristo, a planta celestial, são considerados dignos de chegar à perfeição, ao reino e à adoção; são admitidos aos conselhos secretos do Rei celestial e têm livre acesso ao Todo-Poderoso, entrando no seu próprio palácio, onde estão os anjos e os espíritos dos santos, embora ao mesmo tempo vivam neste mundo presente. Pois, ainda que não tenham recebido de fato a herança que lhes está preparada naquele mundo, estão tão seguros, por aquele penhor do Espírito que receberam, como se já estivessem coroados e de posse do reino. E não lhes parece coisa estranha que hão de reinar com Cristo, pela presença transbordante do Espírito. Por qual razão? Porque, mesmo na carne, já provam a sua doçura e aquela eficaz operação do seu poder.

2. Pois os que hão de reinar no mundo vindouro já conhecem de antemão os mistérios da graça. De fato, desde que o homem transgrediu o mandamento, o diabo cobriu a alma inteira com um véu escuro. Mas, quando vem a graça, o véu é retirado; de modo que a alma, tornando-se pura e recuperando a sua natureza própria, criatura isenta de culpa ou mancha, dali em diante contempla com visão clara a glória da verdadeira luz e o verdadeiro Sol da Justiça, que lança os seus raios brilhantes sobre o próprio coração.

3. Pois, assim como, quando os céus passarem, os justos dali em diante viverão no reino, na luz e na glória, nada contemplando senão o modo como Cristo, em glória, está para sempre à direita do Pai, assim também estes, que agora são tirados do mundo, contemplam todas as belezas e maravilhas que ali se operam. Pois nós, que estamos na terra, temos a nossa cidadania no céu; todas as nossas atividades e todo o nosso modo de viver estão naquele mundo, quanto à mente e ao homem interior. Pois, assim como o olho exterior, quando está limpo, contempla perfeitamente o sol, assim a mente perfeitamente purificada contempla sempre a glória da luz de Cristo e está com o Senhor noite e dia, assim como o corpo do nosso Senhor, unido à divindade, está sempre presente com o Espírito Santo. Mas essas são alturas que os homens não alcançam de imediato, nem sem trabalho, aflição e combate.

4. Mas os instáveis e inexperientes, sempre que a graça opera, logo imaginam que não têm mais pecado. Já os que têm discernimento não podem negar que mesmo nós, que temos a graça de Deus, podemos ser de novo perturbados por maus pensamentos. Pois muitas vezes vimos casos de alguns entre os irmãos que experimentaram tal grau de alegria e de graça que chegaram a afirmar que durante cinco ou seis anos seguidos não tinham pecado algum em si; e, contudo, depois de tudo, quando se julgavam inteiramente livres dele, a corrupção que estava escondida dentro deles foi despertada de novo, e por pouco não foram consumidos pelo fogo.

5. É necessário, portanto, grande discernimento, para que a pessoa saiba por experiência que as coisas realmente são assim. Digo-lhes mais: nem mesmo os apóstolos estavam inteiramente livres de apreensão. Pois, junto com aquela alegria e contentamento, tinham também temor e tremor, que procediam da própria graça, e não da natureza corrompida. Mas essa mesma graça era a sua segurança, para que não se desviassem.

Homilia X

Sobre o tesouro dos cristãos, isto é, Cristo e o Espírito Santo, que os exercitam de vários modos rumo à perfeição.

1. Se alguém neste mundo possui um tesouro, com esse tesouro compra tudo o que deseja. Tudo o que quer, consegue com facilidade, e prontamente adquire todos os bens que lhe agradam. Assim também os que encontraram o tesouro celestial do Espírito, o Senhor brilhando em seus corações, cumprem toda a extensão do bem que há nos mandamentos do Senhor, a partir daquele tesouro que está dentro deles, Cristo; e por meio dele acumulam grande provisão de riqueza celestial. Pois, por meio do tesouro celestial, praticam toda virtude em todo o círculo da justiça, e todo mandamento do Senhor, com a ajuda das riquezas invisíveis da graça que está neles.

2. Quem, portanto, possui dentro de si esse tesouro celestial do Espírito cumpre, nesse Espírito, toda a justiça dos mandamentos e a prática completa das virtudes, sem culpa e em pureza; e, além disso, sem constrangimento nem dificuldade. Supliquemos, pois, a Deus, busquemo-lo com diligência e derramemos diante dele as nossas súplicas, para que nos conceda gratuitamente o tesouro do seu Espírito, a fim de que sejamos capacitados a andar em todos os seus mandamentos sem repreensão e sem mancha, e a cumprir toda a justiça do Espírito em pureza e perfeição.

3. Pois quem é pobre, nu e mendigo nada pode comprar no mundo; mas quem tem um tesouro à disposição é, sem esforço, dono de qualquer bem que deseje. Assim, a alma que está nua e desprovida de Deus não pode, por mais que o queira, produzir nenhum dos frutos do Espírito de justiça em verdade e realidade, antes de participar efetivamente do próprio Espírito.

4. Convém, portanto, que cada um se obrigue à força a suplicar ao Senhor, para que receba o tesouro celestial do Espírito, de modo a poder cumprir sem dificuldade todos os mandamentos do Senhor, irrepreensivelmente e em pureza, coisa que antes, mesmo com violência, jamais conseguia. Pois, sendo pobre e desprovida da comunicação do Espírito, como chegaria a alma a tais bens espirituais? Mas a alma que, pela fé e por muita paciência, encontrou o Senhor, o verdadeiro tesouro, produz os frutos do Espírito e cumpre toda a justiça e os mandamentos do Senhor que o Espírito ordenou, nela e por meio dela, com pureza e sem culpa.

5. Devemos, portanto, pedir a Deus com fervor de coração que nos conceda as suas riquezas, o verdadeiro tesouro de Cristo, em nossos corações, no poder e na eficácia do Espírito. E assim, tendo encontrado primeiro dentro de nós mesmos a salvação e a vida eterna, seremos então úteis também aos outros, tirando daquele tesouro de Cristo que está em nós toda a bondade dos discursos espirituais e anunciando os mistérios celestiais. Pois assim aprouve à boa vontade do Pai, que ele habitasse com todo aquele que crê. “Aquele que me ama”, diz Cristo, “será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14.21). E ainda: “Viremos para ele, eu e meu Pai, e faremos nele morada” (Jo 14.23). Assim o quis a infinita benignidade do Pai. Assim se agradou o inconcebível amor de Cristo. E assim prometeu a indizível bondade do Espírito. Glória às ternas misericórdias da Santíssima Trindade, que ultrapassam toda expressão!

6. Ilustremos em alguma medida, com exemplos, os modos de agir do Espírito na alma. Num momento, ficam exultantes como num banquete real e se alegram com gozo e contentamento indizíveis. Em outra ocasião, são como a esposa que, em comunhão com o esposo, desfruta deleites divinos. Outras vezes, são como os anjos, que não estão presos a este tabernáculo terreno.

7. Outras vezes, estão em tristeza e lamento por toda a humanidade, intercedendo por toda a descendência de Adão. Erguem por ela pranto e choro, pois o amor do Espírito pela natureza humana se acende e arde dentro deles. Outras vezes, a alegria e o amor do Espírito os inflamam a tal ponto que, se fosse possível, tomariam cada homem para dentro das próprias entranhas, sem fazer a menor distinção entre o mau e o bom.

8. Outras vezes, são tão humilhados, abaixo de todas as outras pessoas, no autorrebaixamento do Espírito, que se consideram inferiores e menores que todos. Outras vezes, são como um homem forte que, tendo vestido a armadura real e descendo à batalha contra os seus inimigos, luta valentemente contra eles e os vence. Pois, de modo semelhante, também o homem espiritual toma as armas celestiais do Espírito, avança contra os seus inimigos, combate-os e os pisa debaixo dos pés. Outras vezes, a alma repousa em grande silêncio, calma e paz, entregue ao deleite espiritual e a um descanso indizível. Outras vezes, é instruída pela graça numa espécie de entendimento e sabedoria indescritíveis e num conhecimento do Espírito que é insondável, em coisas que a língua não pode exprimir. Tão variado é o caminho da graça neles, e tanta variedade há no modo como ela conduz a alma, reanimando-a segundo a vontade e o beneplácito de Deus. E com igual variedade a exercita, para assim restituí-la perfeita, irrepreensível e pura ao nosso Pai celestial.

9. Esses diversos refrigérios da graça se expressam, de fato, de maneiras muito diferentes. Contudo, não há interrupção da sua influência, mas uma operação sucede continuamente a outra. Pois, quando a alma está inteiramente purificada de todas as suas afeições corruptas e unida, por uma comunhão inefável, ao Espírito, o Consolador, e está inteiramente misturada com o Espírito e se tornou ela mesma espírito, então é toda luz, toda olho, toda espírito, toda alegria, toda descanso, toda contentamento, toda amor, toda entranhas de compaixão, toda bondade e clemência. Assim como uma pedra no fundo do mar está por todos os lados cercada de água, assim também estes estão por todos os lados embebidos do Espírito Santo e feitos semelhantes ao próprio Cristo, possuindo de modo inalterável dentro de si as virtudes do poder do Espírito, sendo irrepreensíveis por dentro e por fora, sem mancha e puros. Pois, levados à perfeição pelo Espírito, como é possível que produzam exteriormente os frutos do pecado? Antes, em todo tempo e em cada circunstância, os frutos do Espírito resplandecem em todo o seu procedimento.

10. Por isso, supliquemos também nós a Deus, crendo com amor e abundante esperança, que o mesmíssimo Espírito nos governe e nos conduza a toda a vontade de Deus, e nos reanime com toda a variedade do descanso que ele dá; para que, por meio de tal administração, do exercício da graça e do progresso espiritual, cheguemos à perfeição da plenitude de Cristo, como diz o apóstolo: “Para que vocês fiquem cheios de toda a plenitude de Deus” (Ef 3.19). E ainda: “Até que todos cheguemos ao homem perfeito, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4.13). O Senhor prometeu a todos os que creem nele e pedem em verdade que lhes dará os mistérios da inefável comunhão do Espírito. Por isso, entregues inteiramente ao Senhor, apressemo-nos a alcançar os bens que mencionamos acima, consagrados em alma e corpo e cravados na cruz de Cristo, dando glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, pelos séculos. Amém.

Homilia XI

Os cristãos que desejam progredir e crescer devem forçar-se a tudo o que é bom.

1. Quem deseja chegar ao Senhor, tornar-se morada de Cristo e ser cheio do Espírito Santo, para assim produzir os frutos do Espírito e cumprir em pureza os mandamentos de Cristo, deve começar primeiro crendo no Senhor, entregar-se inteiramente à direção dos seus mandamentos e dizer um adeus completo ao mundo, para que a sua mente não seja absorvida por nenhuma das coisas que se veem.

2. Deve perseverar sempre na oração, na fé e na expectativa do Senhor, aguardando em todo tempo o seu socorro, com toda a inclinação da mente continuamente fixa nele. Depois, deve forçar-se a toda boa obra e a todos os mandamentos do Senhor. Por exemplo: que se force a ter uma mente humilde diante de todos os homens e a considerar-se pior do que eles, não buscando honra, nem louvor, nem glória de ninguém, mas pondo sempre o Senhor diante dos olhos, desejando agradar somente a ele, em mansidão de coração, como o próprio Senhor ordena: “Aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração; e vocês acharão descanso para a sua alma” (Mt 11.29).

3. Do mesmo modo, que se acostume a ser misericordioso, bondoso, compassivo e bom até onde puder, como diz o nosso Senhor: “Sejam misericordiosos, como também o Pai celestial de vocês é misericordioso” (Lc 6.36).

4. Acima de tudo, que guarde inviolavelmente na mente a humilhação do nosso Senhor e o seu modo de viver, a sua mansidão e o seu procedimento, como o modelo que nunca se deve perder de vista. E assim, as coisas que agora faz à força e com o coração relutante, com o tempo as fará livremente, por estar sempre lembrado do Senhor e esperá-lo com muito amor. Pois o Senhor, vendo como ele se força e até violenta o seu coração, por mais relutante que esteja, tem misericórdia dele e o resgata dos seus inimigos e do pecado que nele habita, enchendo-o do Espírito. E assim, dali em diante, sem constrangimento nem dificuldade, ele cumpre em verdade os mandamentos do Senhor. Ou melhor, o próprio Senhor cumpre nele os seus mandamentos; e então ele produz em pureza os frutos do Espírito.

5. Mas primeiro deve forçar-se assim ao que é bom e, por mais que o seu coração resista, esperar continuamente pela misericórdia; forçar-se a mostrar compaixão, a suportar o desprezo com corajosa paciência e, ainda que seja tido em nada, não se deixar mover pela indignação, como está escrito: “Meus amados, não façam justiça com as próprias mãos” (Rm 12.19); forçar-se à oração, se não tem a oração espiritual. E assim Deus, vendo-o nesses combates, concede-lhe a verdadeira oração do Espírito, o verdadeiro amor, a mansidão da verdade, as entranhas de misericórdia, sim, todos os frutos do Espírito.

6. Contudo, se alguém se força a orar somente pelo dom da oração, mas não emprega o mesmo vigor em buscar a mansidão, a humildade, o amor e os demais mandamentos do Senhor, isso às vezes lhe é concedido; mas então vem sozinho, separado de tudo o mais, exatamente conforme o seu pedido. No seu comportamento, porém, ele é exatamente como era antes: sem mansidão, porque não a buscou; sem humildade, porque não a pediu; nem tem amor por todos os homens, visto que nunca teve cuidado nem agonia ao oferecer a sua oração por isso. E, na execução da obra em que está empenhado, não tem fé nem confiança em Deus, porque, na verdade, não percebeu que isso lhe falta; nem se esforçou para obter do Senhor uma firme e verdadeira confiança nele.

7. Por isso, convém que cada um, assim como se força à oração, se force também à confiança em Deus, à humildade, à mansidão, à sinceridade e à simplicidade, a toda paciência e longanimidade, com alegria. Assim deve ele, por uma violência habitual, considerar-se como nada, desacostumar-se da conversa inútil, meditar sempre nas coisas de Deus e anunciá-las com a boca e com o coração. Do mesmo modo deve proceder para vencer “toda amargura, indignação, ira, gritaria e maledicência” (Ef 4.31); para conformar-se a todo o procedimento do nosso Senhor, a um bom comportamento em tudo, a toda a humildade da mansidão, de modo a não se exaltar, nem ter altivez, nem se ensoberbecer, nem falar contra ninguém.

8. A tudo isso deve conduzir-se à força quem deseja ser agradável a Cristo, para que o Senhor (quando vir essa prontidão e plena intenção, ao forçar-se ele assim a todo bem) se comunique inteiramente a ele, realizando o próprio Senhor dentro dele todas essas coisas em pureza, sem esforço e sem constrangimento, coisas que antes ele não era capaz de observar, nem mesmo com força e violência. Então todos esses exercícios de virtude se lhe tornam como natureza. Pois o Senhor, quando vem e está nele, e ele no Senhor, cumpre nele os seus próprios mandamentos sem esforço, enchendo-o dos frutos do Espírito.

9. Quem, portanto, deseja agradar a Deus em verdade, receber dele a graça celestial, crescer e ser aperfeiçoado no Espírito Santo, deve forçar-se a todos os mandamentos de Deus e submeter a eles o seu coração relutante, conforme está escrito: “Por isso, considero, em tudo, retos todos os teus preceitos e detesto todo caminho de falsidade” (Sl 119.128). Pois, assim como o homem, para perseverar na oração, age com violência e constrangimento até conseguir levar-se a ela, assim também, em todas as coisas, se tem uma vontade disposta, ele é violento e insistente consigo mesmo. Mais ainda: depois de ter alcançado o que pediu, de ter provado a Deus e de ter sido feito participante do Espírito Santo, ele se esforça por fazer progredir o dom que lhe foi concedido.

10. O próprio Espírito, então, lhe ensina a verdadeira oração, o verdadeiro amor, a verdadeira mansidão, coisas a que antes ele se forçava, que buscava e que ocupavam todos os seus pensamentos. E, tendo assim crescido e chegado à plenitude em Deus, é considerado digno de se tornar herdeiro do reino. Porque o humilde nunca cai. Afinal, de onde cairia aquele que está abaixo de todos? A exaltação de si mesmo é grande rebaixamento; mas o rebaixamento de si mesmo é grande exaltação, honra e dignidade.

11. E assim, cumpridos por nós os mandamentos de Deus por meio do seu Espírito, e esse Espírito nos aperfeiçoando em si mesmo e sendo ele mesmo completado em nós, uma vez purificados de toda a impureza e mancha do pecado, ele então apresentará as nossas almas a Cristo como belas esposas, puras e irrepreensíveis: nós, de um lado, repousando em Deus, no seu reino, e Deus, do outro, fazendo em nós o seu repouso pelos séculos sem fim! Glória às suas misericórdias, à sua compaixão e ao seu amor, por ter se dignado admitir a raça humana a tão grande honra: serem filhos do seu Pai celestial; e por tê-los declarado seus próprios irmãos. A ele seja a glória para sempre! Amém.

Tradução para o português a partir do extrato publicado por John Wesley no primeiro volume da sua Christian Library (Bristol, 1749; textos conferidos nas edições de 1755 e 1819); domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando o autor cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.