As Homilias de Macário · Homilias XVIII a XXII
O progresso do cristão; a mudança que Cristo opera; só a manifestação de Cristo cura o homem; as figuras da lei; a felicidade do mundo que há de vir.
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Sobre o progresso do cristão.
1. Assim como muitas luzes e lâmpadas acesas são inflamadas pelo fogo, e todas as lâmpadas e luzes são acesas de uma só natureza, assim também os cristãos são acesos de uma só natureza e brilham a partir do fogo divino, o Filho de Deus; têm essas lâmpadas ardendo no coração e brilham diante dele enquanto estão na terra, assim como ele mesmo.
2. Os cristãos, portanto, são luzes que têm o azeite em si mesmos, isto é, “os frutos de justiça” (Fp 1.11). Mas, se não forem acesos em si mesmos pela luz da Divindade, nada são. O Senhor era uma luz ardente por meio do Espírito da Divindade, que habitava nele substancialmente e lhe inflamava o coração segundo a sua parte humana.
3. Pois, assim como um saco apodrecido cheio de pérolas, assim são também os cristãos: desprezíveis por fora, têm no “homem interior a pérola de grande valor” (Rm 7.22; Mt 13.46). Outros, porém, são como “sepulcros pintados de branco, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos” (Mt 23.27). Estão mortos diante de Deus, vestidos de toda sorte de vergonha e imundícia e das trevas do inimigo.
4. O cristão deve lembrar-se de Deus em todo tempo. Pois está escrito: “Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração” (Dt 6.5), para que ele não ame o Senhor apenas quando entra no seu oratório, mas, mesmo quando anda, quando está em companhia de outros e quando come, conserve a lembrança de Deus e uma afeição natural por ele. De fato, aquilo a que o coração de alguém está ligado, seja o que for, esse é o seu deus. Se o coração deseja a Deus em todo tempo, ele é o Senhor do coração. Mas, se alguém renunciou exteriormente a tudo e se despojou dos seus bens, e ainda assim está casado consigo mesmo ou com os desejos do mundo, onde quer que o seu coração esteja acorrentado, esse é o seu deus. E verifica-se que ele saiu do mundo, sim, pela porta larga, mas por um postigo tornou a entrar.
5. Mas, se um homem se apega firmemente ao Senhor em todo tempo e põe nele a sua confiança e esperança, ninguém lhe pode fazer mal; pois, ainda que os demônios sejam fortes como os montes fortes, são queimados pela oração como a cera pelo fogo. Entretanto, grande é a luta e o combate que pesa sobre a alma contra eles. Ali estão os rios de dragões e as bocas de leões. Mas o fogo do amor consome tudo.
6. Assim como o homem que é um consumado obreiro do mal é insaciável de maldade, assim os cristãos que foram batizados no Espírito Santo são insaciáveis de Deus. Contudo, enquanto têm alguma mistura de pecado, estão sujeitos ao medo e atravessam lugares assustadores.
7. Pois, assim como os mercadores, mesmo tendo agora vento favorável e mar calmo, temem que de repente sobrevenha um vento contrário e o mar se encrespe em tempestade, assim os cristãos, mesmo tendo em si mesmos o vento favorável do Espírito soprando, vivem preocupados, temendo que o vento do poder adversário se levante contra eles e agite uma tempestade na sua alma.
Há necessidade, portanto, de grande diligência, para que cheguemos ao porto do descanso, ao mundo perfeito, à vida e ao deleite eternos, à “cidade dos santos, à Jerusalém celestial, à igreja dos primogênitos” (Hb 12.22-23).
8. Nem devemos viver despreocupados. Pois, assim como um jardim plantado de árvores frutíferas e de plantas perfumadas, todo bem traçado e disposto com beleza, e que, além disso, tem um pequeno muro como cerca para guardá-lo: se acontecer que um rio impetuoso corra ao seu lado e pouco a pouco lhe vá dissolvendo o alicerce, uma vez que tenha conseguido entrar, arranca tudo o que estava plantado. Assim também é o coração do homem: tem bons pensamentos e desejos, mas há rios de corrupção sempre se aproximando. E, se a mente ceder só um pouco aos pensamentos impuros, eis que os espíritos do erro entraram, derrubaram todas as belezas que ali havia e devastaram a alma.
9. Assim como o olho é pequeno em comparação com todos os membros e, no entanto, contém o céu, as estrelas, o sol, a lua, as cidades e as demais criaturas, pois todas essas coisas são vistas de uma só vez, formadas e retratadas na pupila do olho, assim também o coração é um vaso pequeno. E, no entanto, ali há dragões, ali há leões, as feras venenosas e todos os tesouros da maldade; ali há caminhos ásperos e precipícios. Do mesmo modo, ali está Deus, ali estão os anjos; ali está a vida e o reino; ali está a luz, ali estão os tesouros da graça: ali estão todas as coisas.
10. E, no entanto, muitos não as encontram. Pois, como quando soa o alarme da guerra, os sábios e os grandes não estavam ali, mas os pobres e os iletrados são enviados; e eles alcançam a vitória sobre os inimigos e recebem do rei as recompensas da vitória, coroas e dignidades. Assim também acontece nas coisas celestiais. São os pobres e os iletrados que, desde o princípio, amam a verdade, fazem o que ela exige, combatem o bom combate e recebem de Deus a graça do seu Espírito. Mas os sábios e os grandes fogem da guerra; não fazem nenhum progresso e, por isso, ficam para trás daqueles que combateram e venceram.
E o Senhor prometeu: “Onde eu estou, ali estarão também estes meus servos” (cf. Jo 12.26). E reinarão juntamente com o Pai, com o Filho e com o Espírito Santo, pelos séculos dos séculos! Amém.
Que espécie de mudança Cristo opera no cristão.
1. Quem vem a Deus e deseja ser a pessoa que se assenta com Cristo no seu trono deve vir a ele com este propósito exato: ser mudado do seu estado e do seu modo de vida anteriores, para ser um homem novo, que nada traz consigo do velho homem: “Se alguém está em Cristo, é nova criatura” (2Co 5.17). Pois o nosso Senhor Jesus Cristo veio exatamente por esta razão: para mudar, renovar e criar de novo esta alma que fora pervertida por afeições vis, temperando-a com o seu próprio Espírito divino. Veio para formar uma nova mente, uma nova alma, novos olhos, novos ouvidos, uma nova língua espiritual; sim, para fazer homens novos dos que nele creem, a fim de derramar neles o vinho novo, que é o seu Espírito.
2. Pois, assim como o inimigo, quando teve o homem nas mãos, o refez para si mesmo, vestindo-o de afeições vis e derramando nele o espírito do pecado, assim também o Senhor, tendo-o resgatado do inimigo, o refez e derramou nele o seu próprio Espírito. Pois aquele que mudou a natureza do fogo ardente para que refrescasse como orvalho os que estavam na fornalha e que, por amor de Daniel, amansou a natureza dos leões, pode também transformar a alma que se tornou selvagem pelo pecado, conduzindo-a à sua própria bondade e paz pelo Espírito Santo da promessa.
3. Pois, assim como o pastor pode curar uma ovelha doente e guardá-la dos lobos, assim o verdadeiro Pastor pode curar a ovelha que se havia perdido, isto é, o homem, da lepra do pecado. Os sacerdotes, os levitas e os mestres que vieram antes nunca puderam curar a alma com as suas oblações de dons e sacrifícios; na verdade, não puderam curar nem a si mesmos. “Porque é impossível que o sangue de touros e de bodes remova pecados” (Hb 10.4). Mas o Senhor pode curar toda doença e toda enfermidade da alma. E a verdadeira cura da alma vem somente do Senhor.
4. O bom pastor, portanto, cura a ovelha. Mas a própria ovelha jamais pode curar a ovelha. E, se o homem não for curado, não há entrada para ele na congregação do Senhor no céu. Assim também foi dito na lei, por meio de uma sombra: “O leproso não entrará na congregação do Senhor.” Mas ele mandou que o leproso fosse ao sacerdote, que devia levá-lo à casa do seu tabernáculo, pôr as mãos sobre a lepra, o lugar marcado pela infecção, e curá-la. Da mesma maneira, Cristo, o verdadeiro sumo sacerdote dos bens vindouros, condescendendo com as almas leprosas, entra no tabernáculo do corpo delas, cuida das suas desordens e as cura. E assim a alma poderá entrar na igreja celestial dos santos do verdadeiro Israel. Mas toda alma que traz a lepra do pecado nas suas afeições e não quer vir ao verdadeiro sumo sacerdote para ser tratada agora não encontra admissão no acampamento dos santos.
Convém, portanto, que a alma que verdadeiramente crê em Cristo seja mudada da sua natureza presente para outra natureza, que é divina, e seja ela mesma feita nova pelo poder do Espírito Santo. E alcançar isso será concedido a nós, que cremos nele e o amamos em verdade e andamos em todos os seus santos mandamentos.
5. Ninguém pode atravessar o mar por si mesmo, se não tiver um barco capaz de andar sobre as águas; da mesma maneira, é impossível à alma atravessar o mar do pecado e o abismo dos poderes das trevas, se não receber o Espírito de Cristo, que anda sobre tudo isso e abre caminho por cima de toda maldade; por meio dele a alma chegará, por uma travessia rápida e direta, ao porto celestial do descanso.
6. Mas, assim como o navio precisa de um piloto para navegar bem, o próprio Senhor é piloto da alma fiel e a conduz através de todas as ondas da maldade e dos ventos fortes do pecado. Sem Cristo, é impossível a qualquer pessoa atravessar o mar perverso dos poderes das trevas. “Subiram até os céus, desceram até os abismos” (Sl 107.26), diz o salmista. Mas ele conhece bem toda a arte do piloto e pisa as suas ondas furiosas. Pois, como diz o apóstolo, “tendo ele mesmo sido tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados” (Hb 2.18).
7. Devemos, portanto, crer de todo o coração nas suas promessas inefáveis, amar o Senhor, ser diligentes em todas as virtudes e pedir continuamente que recebamos a promessa do seu Espírito inteira e perfeitamente, para que a nossa alma seja vivificada enquanto ainda estamos na carne. Pois, se a alma não receber neste mundo a santificação do Espírito, por meio de muita fé e oração, e não se tornar participante da natureza divina (pela qual poderá cumprir todo mandamento de modo irrepreensível e em pureza), não está apta para o reino dos céus. Pois todo o bem que o homem tiver possuído neste mundo, esse mesmo será a sua vida naquele dia, por meio do Pai, do Filho e do Espírito Santo, para sempre! Amém.
Nenhuma arte ou riqueza deste mundo, mas somente a manifestação de Cristo, pode curar o homem.
1. Quem escolheu a Cristo deve olhar para todas as coisas deste mundo como fora do seu caminho e estranhas a ele. Pois quem verdadeiramente segue após a cruz de Cristo, tendo renunciado a todas as coisas, e até à própria alma, deve ter a mente fixa no amor de Cristo, preferindo o Senhor aos pais, irmãos, esposa, filhos, parentes, amigos e bens. Pois isso Cristo declarou claramente com estas palavras: “Todo aquele que não deixou pai, ou mãe, ou irmãos, ou esposa, ou filhos, ou terras, e não me segue, não é digno de mim” (cf. Mt 10.37-38; 19.29). Pois em nenhum outro se encontra salvação e descanso para a humanidade.
2. Quantos reis surgiram da raça de Adão, cujos pensamentos se ensoberbeceram com o poder real? E, no entanto, nenhum deles chegou sequer a conhecer aquela corrupção que, desde a transgressão do primeiro homem, irrompeu na alma. Houve também no mundo muitos sábios e toda variedade de artífices. Mas todos eles, presos pela serpente que habitava dentro deles e insensíveis ao pecado que coabitava com eles, tornaram-se cativos e escravos do poder maligno, sem tirar nenhum proveito do seu saber e da sua habilidade.
3. O mundo, portanto, assim provido de toda sorte de variedades, é como um homem rico que possui casas grandes e esplêndidas, ouro, prata e propriedades, mas que, afligido por dores e moléstias, não consegue, com toda aquela riqueza, livrar-se da sua enfermidade. Nenhum recurso de coisa alguma desta vida, nem riquezas nem força, livra a alma do pecado; nada menos que a manifestação de Cristo: somente ela pode purificar a alma e o corpo. Por isso, desembaraçando-nos dos cuidados desta vida, entreguemo-nos ao Senhor, clamando a ele noite e dia. Pois este mundo visível e o descanso que ele oferece, quanto mais parecem acariciar o corpo, tanto mais agravam as desordens da alma e aumentam a sua doença.
4. Deus criou o céu e a terra, o sol e a lua, as águas, as árvores e toda espécie de seres vivos. Mas em nenhum deles Deus faz a sua morada de descanso. A criação está sob o seu comando, mas em parte alguma ele fixou o seu trono, nem concedeu comunhão consigo mesmo a ninguém senão ao homem, o único em quem ele se compraz, a quem se comunicou e em quem estabeleceu o seu descanso. Vocês percebem aqui a estreita relação de Deus com o homem e do homem com Deus? Por isso a alma, tendo provado todas as criaturas, não encontrou descanso para si senão somente no Senhor. E o Senhor não encontrou prazer em nenhum outro, senão somente no homem.
5. Se vocês abrirem os olhos para o sol, verão o seu disco no céu, mas a sua luz e os seus raios incidindo em cheio sobre a terra, e toda a força da sua luz e do seu brilho descendo sobre ela. Assim também o nosso Senhor está assentado em pessoa “à direita do Pai, acima de todo principado e potestade” (Ef 1.20-21), mas tem os olhos voltados para o coração dos homens na terra, a fim de elevá-los ao lugar onde ele mesmo está; sim, “juntamente com ele nos ressuscitou e nos fez assentar à sua direita nas regiões celestiais” (Ef 2.6). A ele seja a glória para sempre! Amém.
Explicação alegórica das coisas feitas debaixo da lei.
1. A glória de Moisés, que ele trazia no rosto, era figura da verdadeira glória. Pois, assim como os judeus não conseguiam fixar os olhos no rosto de Moisés, assim os cristãos recebem aquela glória de luz dentro da alma, e as trevas não suportam o seu esplendor.
2. Pela circuncisão se manifestava que eles eram o povo de Deus; aqui, porém, o povo de propriedade exclusiva de Deus recebe o sinal da circuncisão por dentro, no coração. Pois a espada celestial corta o prepúcio impuro do pecado.
3. Entre eles, o batismo santificava a carne; entre nós, porém, há o batismo do Espírito Santo e de fogo.
4. Havia um tabernáculo exterior e outro interior; no primeiro entravam os sacerdotes em todo tempo, realizando o serviço de Deus. No segundo, uma vez por ano, “entrava o sumo sacerdote, somente com sangue; dando o Espírito Santo a entender com isto que o caminho do Santo dos Santos ainda não se havia manifestado” (Hb 9.7-8). Nós, porém, entramos todos no “tabernáculo não feito por mãos, onde o Precursor entrou por nós, Cristo” (cf. Hb 9.11; 6.20).
5. Está escrito na lei que “o sacerdote tomará duas pombas e matará uma” (cf. Lv 14.4-7), mas aspergirá a viva com o sangue dela e a soltará, para que voe em liberdade. Isso era figura e sombra da verdade. Pois Cristo foi morto, e o seu sangue, tendo-nos aspergido, fez-nos criar asas. Ele “nos deu do seu Espírito Santo” (1Jo 4.13), para que voássemos sem impedimento para a Divindade.
6. A eles foi dada a lei escrita em “tábuas de pedra”; a nós, porém, a que está “escrita nas tábuas do coração” (2Co 3.3). Pois ele diz: “Porei as minhas leis no coração deles e na mente deles as escreverei” (Hb 8.10). E, de fato, todas aquelas coisas eram passageiras e temporárias. Mas agora se cumprem no homem interior.
7. O Senhor falou a Moisés que “tomasse um cordeiro sem defeito, o matasse e com o seu sangue ungisse as soleiras e as portas, para que aquele que destruiu os primogênitos dos egípcios não os tocasse” (cf. Êx 12.5-7, 23). Pois o anjo enviado viu de longe o sinal do sangue e se retirou. Mas entrou nas casas que não tinham o sinal e “matou todos os primogênitos. Ordenou também que se tirasse o fermento de todas as casas” (cf. Êx 12.29, 15). Além disso, ordenou-lhes que o comessem “com os lombos cingidos, os pés calçados com sandálias e o cajado na mão” (cf. Êx 12.11). Assim, ordena-lhes que comam com toda a pressa a Páscoa do Senhor, à tarde, e que não lhe quebrem nenhum osso diante do Senhor.
Saíram do Egito enquanto os egípcios sepultavam os seus primogênitos. E eles se alegravam por se verem livres da dura escravidão, ao passo que estes tinham tristeza e lamento pela morte dos seus filhos.
Todas essas coisas são o mistério da alma redimida pela vinda de Cristo. Se a alma geme e clama a Deus, ele envia o Moisés espiritual para livrá-la da escravidão dos egípcios. Primeiro ela clama e geme, e então obtém o começo da sua redenção. Mas então ele ordena que todo o fermento velho seja lançado fora de cada casa, para expulsar, tanto quanto possível, todas as obras e “os desígnios do velho homem, que se corrompe” (Ef 4.22), os seus pensamentos perversos e as suas concepções sórdidas.
O cordeiro devia ser morto e sacrificado, e o seu sangue devia tingir as portas. Pois Cristo, o Cordeiro verdadeiro e imaculado, foi morto, e com o seu sangue são ungidas as soleiras do coração, para que o sangue de Cristo, derramado na cruz, se torne vida e redenção para a alma.
Então, depois da unção, ele lhes ordena que comam o cordeiro à tarde, cingidos com cintos, calçados com sandálias e com o cajado na mão. Pois, se a alma não estiver preparada, tanto quanto dela depende, não lhe é permitido comer do Cordeiro.
Ele tira as almas do Egito e da escravidão, sendo mortos os primogênitos dela na saída. Pois parte do poder do Faraó espiritual já caiu. A tristeza se apodera dos egípcios, porque gemem de pesar com a salvação dos cativos. Bem-aventurada a alma que é redimida das trevas! E ai da alma que não clama nem geme àquele que pode livrá-la daqueles exatores duros e cruéis. Os filhos de Israel, tendo celebrado a Páscoa, partem. A alma avança, uma vez que recebeu a vida do Espírito Santo, provou do Cordeiro, foi ungida com o seu sangue e se alimentou do pão verdadeiro, o Verbo vivo.
8. A coluna de fogo e a coluna de nuvem vão adiante, protegendo-os. O Espírito Santo os sustenta, acalentando-os e dirigindo a alma deles de modo perceptível. Faraó, sabendo que o povo havia fugido, teve a ousadia de persegui-lo com todo o seu exército, mesmo depois da matança dos primogênitos. Quão exata é a semelhança! Quando a alma acaba de escapar, o poder de Deus a socorre, conduzindo-a à verdade. Mas, quando o Faraó espiritual percebe que a alma se rebelou contra ele, persegue-a duramente com aflições e tentações. Aqui ela é provada; aqui ela é tentada; aqui se manifesta o seu amor por aquele que a tirou do Egito. Ela vê as forças do inimigo vindo contra ela, mas sem poder sobre ela. Pois bem no meio, entre ela e os egípcios, está o Senhor. Ao mesmo tempo, ela vê diante de si o mar da aflição e não pode recuar, porque também desse lado há inimigos de prontidão; nem pode avançar. Tem, portanto, em si mesma a sentença de morte, por causa da multidão de espíritos malignos que a cerca. Tal é o caminho que Deus estabeleceu para conduzir à vida, a saber: estar em aflição, em apertos e em tentações, para que dali a alma possa depois abrir caminho até a verdadeira terra da glória dos filhos de Deus. Quando, pois, a alma não tem esperança em si mesma, por causa da aflição esmagadora e da morte diante dos seus olhos, nessa mesma hora, com mão forte e braço erguido, pelo resplendor do Espírito Santo, ela rompe o poder das trevas e passa, escapando dos lugares assustadores e atravessando como flecha o mar das trevas e o fogo que tudo devora.
Esses são os mistérios da alma, que se realizam no homem diligente em chegar à promessa da vida e que é redimido do reino da morte e feito participante do Espírito Santo.
Não basta ao homem ser afastado dos deleites deste mundo, se não alcançar a felicidade do outro.
1. Se alguém que renunciou a este mundo e se alienou dos seus deleites, tanto dos bens como de pai e mãe, por amor do Senhor, e, tendo crucificado a si mesmo, se torna estrangeiro, pobre e necessitado, não encontra em si mesmo o refrigério divino em lugar do refrigério deste mundo, e, em lugar dos deleites temporários, os deleites do Espírito; se, em lugar desta comunhão temporária e carnal, não conhece a comunhão do Esposo celestial; e, em lugar da alegria deste mundo, não possui dentro de si a alegria do Espírito, a consolação da graça celestial; se, em lugar deste gozo temporário, não possui aquele gozo incorruptível de Deus, essa pessoa é a mais digna de compaixão entre todos os homens: está privada das coisas daqui e não tem o gozo dos dons divinos.
2. Quem renunciou a este mundo deve, já agora, passar pelo Espírito para outro mundo e ali ter a sua convivência e os seus prazeres, e desfrutar os bens espirituais, sendo nascido do Espírito, como disse o Senhor: “Quem crê em mim passou da morte para a vida” (cf. Jo 5.24); visto que há outra morte além daquela que está diante dos nossos olhos, e outra vida além daquela que se vê. Pois diz a Escritura: “A que se entrega aos prazeres, mesmo viva, está morta” (1Tm 5.6); e: “Deixe que os mortos sepultem os seus mortos” (Mt 8.22). “Pois os mortos não te louvarão, ó Senhor; mas nós, os vivos, te bendiremos” (cf. Sl 115.17-18).
3. A alma que é nascida de Deus, recolhendo todos os seus pensamentos, entra no Senhor, na “casa que vem do céu, não feita por mãos” (2Co 5.1), e todos os seus pensamentos se tornam celestiais, puros e santos. Pois quem uma vez foi libertado das trevas deste mundo encontra pensamentos puros e divinos, porque Deus se agradou de torná-lo participante da natureza divina.
4. Se o corpo e a alma de vocês se consumissem a cada hora, durante toda a vida, por amor de tais bens, o que seria isso? Ó compaixão inexprimível de Deus, que tão gratuitamente se dá aos que creem, para que herdem a Deus, e para que Deus habite no corpo do homem e o Senhor tenha o homem por sua casa!
Pois, assim como Deus criou o céu e a terra para que o homem neles habitasse, assim criou o corpo e a alma do homem para sua própria casa, a fim de habitar e descansar no corpo como na sua própria casa, tendo a alma por esposa, feita segundo a sua imagem. “Pois eu os desposei com um só esposo”, diz o apóstolo, “para apresentá-los como virgem pura a Cristo” (2Co 11.2).
5. Ele é o Senhor; ela, uma serva. Ele é o Criador; ela, uma criatura. Ele é o Artífice; ela, a obra. Nada há de comum entre as duas naturezas. Mas, pelo seu amor sem limites, indizível e inconcebível, e pela sua terna compaixão, agradou-lhe habitar nesta obra das suas mãos, sua obra preciosa e escolhida, “para que fôssemos como que primícias das suas criaturas” (Tg 1.18), para a sua sabedoria e comunhão, para a sua própria morada, para a sua própria Esposa, preciosa e pura.
Por isso, sendo-nos propostos tais bens, feitas tais promessas e tendo sido tal a boa vontade do Senhor para conosco: filhinhos, não sejamos negligentes, nem adiemos o nosso pronto regresso à vida eterna e a nossa entrega, total e inteira, à boa vontade do Senhor.
6. Peçamos, pois, ao Senhor que, pelo poder da sua Divindade, nos resgate das trevas das nossas afeições vis e que, tendo reivindicado a sua própria imagem e obra, a faça resplandecer. E assim seremos considerados dignos da comunhão do Espírito, dando glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, para sempre. Amém.
Tradução para o português a partir do extrato publicado por John Wesley no primeiro volume da sua Christian Library (Bristol, 1749; textos conferidos nas edições de 1755 e 1819); domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando o autor cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.