Basílio, Sobre o Espírito Santo · Capítulos 28 a 30
Os títulos que a Escritura dá aos santos e que os adversários negam ao Espírito; o testemunho dos Pais anteriores; o estado das igrejas, como uma batalha naval.
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69. Mas vejamos se conseguimos lembrar alguma defesa deste uso dos nossos pais; pois os que primeiro deram origem à expressão estão mais expostos à censura do que nós mesmos. Paulo, na sua Carta aos Colossenses, diz: “E quando vocês estavam mortos nos seus pecados e na incircuncisão … ele lhes deu vida juntamente com” Cristo (Cl 2.13). Então Deus concedeu a um povo inteiro e à Igreja o benefício da vida com Cristo, e a vida com Cristo não pertence ao Espírito Santo? Mas, se é ímpio até pensar nisso, não é justo e reverente fazer a nossa confissão assim, já que Eles estão, por natureza, em estreita união? Além disso, que insensibilidade sem limites não mostram esses homens ao confessar que os santos estão com Cristo (se, como sabemos que é o caso, Paulo, ao deixar o corpo, está presente com o Senhor (cf. 2Co 5.8), e, depois de partir, está com Cristo (cf. Fp 1.23)) e, no que depende deles, recusar ao Espírito estar com Cristo ao menos na mesma medida que os homens? E Paulo chama a si mesmo “cooperador de Deus” (1Co 3.9) na administração do evangelho; vão eles mover contra nós uma acusação de impiedade se aplicarmos o termo “cooperador” ao Espírito Santo, por meio de quem o evangelho produz fruto em toda criatura debaixo do céu? (cf. Cl 1.6) A vida dos que confiaram no Senhor “está oculta”, ao que parece, “juntamente com Cristo, em Deus, e quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então” também eles mesmos “serão manifestados com ele, em glória” (Cl 3.3-4); e o próprio Espírito da vida, “que nos livrou da lei do pecado” (Rm 8.2), não está com Cristo, tanto na vida secreta e oculta com ele como na manifestação da glória que esperamos ver manifestada nos santos? Somos “herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo” (Rm 8.17), e o Espírito não tem parte nem quinhão na comunhão de Deus e do seu Cristo? “O próprio Espírito confirma ao nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8.16-17)1, e não havemos de conceder ao Espírito nem mesmo aquele testemunho da sua comunhão com Deus que aprendemos do Senhor? Pois chega-se ao cúmulo da insensatez se nós, pela fé em Cristo, que está no Espírito (cf. Gl 5.5), esperamos ser ressuscitados juntamente com ele e assentar-nos com ele nas regiões celestiais (cf. Ef 2.6), quando ele transformar o nosso corpo de humilhação, de natural em espiritual (cf. Fp 3.21; 1Co 15.44), e ainda assim nos recusamos a atribuir ao Espírito qualquer parte nesse assentar-se junto, ou na glória, ou em qualquer outra coisa que recebemos dele. De todos os benefícios de que, segundo a concessão irrevogável daquele que os prometeu, nos julgamos dignos, não havemos de conceder nenhum ao Espírito Santo, como se todos estivessem acima da sua dignidade? A vocês cabe, segundo o seu merecimento, estar “para sempre com o Senhor”, e vocês esperam ser arrebatados “entre nuvens, para o encontro com o Senhor nos ares, e, assim, estar para sempre com o Senhor” (1Ts 4.17). Vocês declaram culpado de impiedade intolerável o homem que conta e coloca o Espírito junto com o Pai e o Filho. Podem vocês, de fato, negar agora que o Espírito está com Cristo?
70. Envergonho-me de acrescentar o resto. Vocês esperam ser glorificados juntamente com Cristo (“se com ele sofremos, para que também com ele sejamos glorificados” (Rm 8.17)), mas não glorificam o “Espírito de santidade” (Rm 1.4) juntamente com Cristo, como se ele não fosse digno de receber honra igual nem mesmo à de vocês. Vocês esperam “reinar com” (2Tm 2.12) Cristo, mas “insultam o Espírito da graça” (Hb 10.29) ao atribuir-lhe a posição de escravo e de subordinado. E digo isto não para demonstrar que tanto assim é devido ao Espírito na atribuição de glória, mas para provar a injustiça dos que não querem dar-lhe nem mesmo isso e fogem da comunhão do Espírito com o Filho e o Pai como de uma impiedade. Quem poderia tocar nestas coisas sem um suspiro?2 Não é tão claro que até uma criança o percebe que o atual estado de coisas é o prelúdio do eclipse da fé que nos ameaça? O inegável tornou-se incerto. Professamos crer no Espírito e depois brigamos com as nossas próprias confissões. Somos batizados e recomeçamos a lutar. Invocamo-lo como Príncipe da Vida e depois o desprezamos como escravo igual a nós. Recebemo-lo com o Pai e o Filho e o desonramos como parte da criação. Os que “não sabem orar como convém” (Rm 8.26), ainda que sejam levados a dizer uma palavra sobre o Espírito com reverência, como quem se aproxima da sua dignidade, cortam tudo o que excede a medida exata da sua própria fala. Deveriam antes lamentar a sua fraqueza, porque somos incapazes de exprimir em palavras a nossa gratidão pelos benefícios que de fato estamos recebendo; pois ele “excede todo entendimento” (Fp 4.7) e convence a palavra da sua incapacidade natural de aproximar-se, ainda que minimamente, da sua dignidade; como está escrito no livro da Sabedoria3: “Exaltem-no quanto puderem, pois ainda assim ele os excederá em muito; e, quando o exaltarem, empreguem todas as suas forças e não se cansem, pois nunca poderão ir longe o bastante.” Verdadeiramente terrível é a conta que hão de prestar por palavras dessa espécie vocês, que ouviram de Deus, que não pode mentir, que para a blasfêmia contra o Espírito Santo não há perdão (Lc 12.10).
71. À objeção de que a doxologia na forma “com o Espírito” não tem autoridade escrita, respondemos que, se não há nenhum outro exemplo de algo não escrito, então esta não deve ser recebida. Mas, se a maior parte dos nossos mistérios é admitida na nossa constituição sem autoridade escrita, então, na companhia de tantos outros, recebamos também este. Pois considero apostólico permanecer também nas tradições não escritas. “Eu os elogio”, diz-se, “porque em tudo vocês se lembram de mim e retêm as tradições assim como eu as transmiti a vocês” (1Co 11.2); e: “Guardem as tradições que lhes foram ensinadas, seja por palavra, seja por carta nossa” (2Ts 2.15). Uma dessas tradições é a prática que agora temos diante de nós, que os que a instituíram desde o princípio enraizaram firmemente nas igrejas, transmitindo-a aos seus sucessores, e cujo uso, por um longo costume, avança passo a passo com o tempo. Se, como num tribunal, nos faltassem provas documentais, mas pudéssemos apresentar a você um grande número de testemunhas, não daria você o seu voto pela nossa absolvição? Penso que sim, pois “pelo depoimento de duas ou três testemunhas se estabelecerá o fato” (Dt 19.15). E, se pudéssemos provar claramente a você que um longo período de tempo estava a nosso favor, não lhe teria parecido que alegávamos com razão que essa ação não devia ser levada a juízo contra nós? Pois os dogmas antigos inspiram certo sentimento de reverência, veneráveis como são por sua antiguidade encanecida. Darei, portanto, a você uma lista dos que apoiam a palavra (e é preciso levar em conta também o tempo, em relação ao que passa sem contestação). Pois ela não teve origem em nós. Como poderia? Nós, em comparação com o tempo durante o qual esta palavra está em uso, somos, para usar as palavras de Jó, “de ontem” (Jó 8.9). Eu mesmo, se tenho de falar do que me diz respeito pessoalmente, guardo com carinho esta expressão como herança deixada pelos meus pais. Ela me foi transmitida por um homem4 que passou uma longa vida no serviço de Deus, e por ele fui tanto batizado como admitido ao ministério da igreja. Examinando, tanto quanto pude, se algum dos bem-aventurados homens de outrora usou as palavras a que agora se faz objeção, encontrei muitos dignos de crédito, tanto por causa da sua data antiga como por uma característica em que diferem dos homens de hoje: a exatidão do seu conhecimento. Desses, alguns ligaram a palavra na doxologia pela preposição, outros pela conjunção, mas em nenhum caso se supôs que agiam de modo divergente, pelo menos no que diz respeito ao reto sentido da verdadeira religião.
72. Há o célebre Irineu5 e Clemente de Roma6; Dionísio de Roma7 e, por estranho que pareça, Dionísio de Alexandria, que, na sua segunda carta ao seu homônimo, “Sobre a refutação e a defesa”, conclui assim. Darei a você as suas próprias palavras: “Seguindo todos estes, também nós, já que recebemos dos presbíteros que nos precederam uma forma e regra, oferecendo ação de graças nos mesmos termos que eles, assim concluímos a nossa carta a vocês. A Deus Pai e ao Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, com o Espírito Santo, glória e poder pelos séculos dos séculos; amém.” E ninguém pode dizer que esta passagem foi alterada. Ele não teria afirmado com tanta insistência que recebera uma forma e regra se tivesse dito “no Espírito”. Pois o uso desta expressão é abundante: era o uso de “com” que precisava de defesa. Além disso, Dionísio, no meio do seu tratado, escreve assim contra os sabelianos: “Se, por serem três as hipóstases, dizem que estão divididas, são três, ainda que não gostem disso. Do contrário, destruam de vez a divina Trindade.” E ainda: “por isso, depois da Unidade, a Trindade é diviníssima.”8 Clemente, de modo mais primitivo, escreve: “Vive Deus, e o Senhor Jesus Cristo, e o Espírito Santo.”9 E agora ouçamos como Irineu, que viveu perto dos tempos dos apóstolos, menciona o Espírito na sua obra Contra as heresias10: “O apóstolo chama com razão de carnais os que são desenfreados e arrastados pelos seus próprios desejos, sem nenhum desejo do Espírito Santo”11; e em outra passagem Irineu diz: “O apóstolo exclamou que carne e sangue não podem herdar o reino dos céus, para que nós, privados de parte no Espírito divino, não fiquemos aquém do reino dos céus.” Se alguém julga Eusébio da Palestina12 digno de crédito por sua vasta experiência, aponto ainda as próprias palavras que ele usa ao discutir questões relativas à poligamia dos antigos. Animando-se para o seu trabalho, escreve: “invocando o santo Deus dos profetas, o Autor da luz, por meio do nosso Salvador Jesus Cristo, com o Espírito Santo”.
73. Também Orígenes, em muitas das suas exposições dos Salmos, encontramos usando a forma de doxologia “com o Espírito Santo”. As opiniões que ele sustentava a respeito do Espírito não eram sãs sempre e em toda parte; mesmo assim, em muitas passagens, ele próprio reconhece com reverência a força do uso estabelecido e se exprime a respeito do Espírito em termos coerentes com a verdadeira religião. É, se não me engano, no sexto13 livro do seu Comentário ao Evangelho de São João que ele faz claramente do Espírito objeto de adoração. Suas palavras são estas: “A lavagem com água é símbolo da purificação da alma, que é lavada de toda a imundície que vem da maldade (cf. 1Pe 3.21); mas nem por isso deixa de ser também, por si mesma, para quem se entrega à divindade da adorável Trindade, pelo poder das invocações, a origem e a fonte de bênçãos.” E ainda, na sua Exposição da Epístola aos Romanos: “as santas potestades”, diz ele, “são capazes de receber o Unigênito e a divindade do Espírito Santo”. Assim, a meu ver, a poderosa influência da tradição frequentemente leva os homens a se exprimir em termos contrários às suas próprias opiniões.14 Além disso, esta forma da doxologia não era desconhecida nem mesmo de Africano, o historiador. No quinto livro do seu Epítome dos tempos, ele diz: “nós, que conhecemos o peso desses termos e não ignoramos a graça da fé, damos graças ao Pai, que nos concedeu, a nós, suas criaturas, Jesus Cristo, o Salvador do mundo e nosso Senhor, a quem sejam a glória e a majestade, com o Espírito Santo, para sempre.”15 As demais passagens talvez possam ser vistas com suspeita, ou podem de fato ter sido alteradas, e será difícil descobrir a adulteração, porque a diferença está numa única sílaba. As que citei por extenso, porém, estão fora do alcance de qualquer manipulação desonesta e podem ser facilmente verificadas nas próprias obras.
Apresentarei agora outra prova, que talvez possa parecer insignificante, mas que, por causa da sua antiguidade, de modo nenhum deve ser omitida por um réu acusado de inovação. Pareceu bem aos nossos pais não receber em silêncio o dom da luz ao entardecer, mas, logo que ela aparece, dar graças. Quem foi o autor destas palavras de ação de graças ao acender das lâmpadas, não sabemos dizer. O povo, porém, pronuncia a fórmula antiga, e ninguém jamais considerou culpados de impiedade os que dizem: “Louvamos o Pai, o Filho e o Espírito Santo de Deus.”16 E, se alguém conhece o hino de Atenógenes17, que ele, ao apressar-se para a sua consumação pelo fogo, deixou aos seus amigos como uma espécie de presente de despedida18, conhece o pensamento dos mártires a respeito do Espírito. Sobre este ponto não direi mais nada.
74. Mas onde colocarei o grande Gregório19 e as palavras por ele proferidas? Não havemos de pôr entre os apóstolos e profetas um homem que andou no mesmo Espírito que eles (2Co 12.18); que em todos os seus dias nunca se desviou das pegadas dos santos; que manteve, enquanto viveu, os princípios exatos da cidadania evangélica? Estou certo de que faremos injustiça à verdade se nos recusarmos a contar aquela alma no povo de Deus, ela que brilhou como um farol na Igreja de Deus; pois, pela cooperação do Espírito, o poder que ele tinha sobre os demônios era tremendo, e de tal modo foi dotado da graça da palavra “para a obediência da fé, entre … os gentios” (Rm 1.5) que, embora apenas dezessete cristãos lhe tivessem sido confiados, conduziu a Deus, pelo conhecimento, todo o povo, tanto da cidade como do campo. Ele também, pelo nome poderoso de Cristo, ordenou até a rios que mudassem o seu curso20 e fez secar um lago que dava motivo de briga a alguns irmãos cobiçosos.21 Além disso, as suas predições das coisas futuras eram tais que em nada ficavam abaixo das dos grandes profetas. Narrar em detalhe todas as suas obras maravilhosas seria tarefa longa demais. Pela superabundância de dons operados nele pelo Espírito, em todo poder, em sinais e em prodígios, foi chamado segundo Moisés pelos próprios inimigos da Igreja. Assim, em tudo o que ele realizou pela graça, tanto por palavra como por obra, parecia brilhar sempre uma luz, sinal do poder celeste, vindo do invisível, que o acompanhava. Até hoje ele é objeto de grande admiração para o povo da sua região, e a sua memória, estabelecida nas igrejas, sempre fresca e viçosa, não se apaga com o passar do tempo. Assim, nem uma prática, nem uma palavra, nem um rito místico foi acrescentado à Igreja além do que ele lhe deixou. Daí, na verdade, por causa da antiguidade da sua instituição, muitas das suas cerimônias parecem deficientes.22 Pois os seus sucessores na administração das igrejas não podiam suportar aceitar nenhuma descoberta posterior que se acrescentasse ao que tivera a sua aprovação. Ora, uma das instituições de Gregório é precisamente a forma da doxologia a que agora se faz objeção, conservada pela Igreja com base na autoridade da sua tradição; afirmação que pode ser verificada sem muito trabalho por quem quiser fazer uma breve viagem. Que o nosso Firmiliano tinha essa crença atestam-no os escritos que ele deixou.23 Também os contemporâneos do ilustre Melécio dizem que ele era dessa opinião. Mas para que citar autoridades antigas? Agora, no Oriente, não são os defensores da verdadeira religião conhecidos principalmente por este único termo, e separados dos seus adversários como por uma senha? Ouvi de certo mesopotâmio, homem ao mesmo tempo versado na língua e de opiniões não pervertidas, que, pelo uso do seu país, é impossível a qualquer pessoa, ainda que o queira, exprimir-se de outro modo, e que são obrigados, pelo idioma da sua língua materna, a oferecer a doxologia com a sílaba “e”, ou, para falar com mais exatidão, com as expressões equivalentes deles. Também nós, capadócios, falamos assim no dialeto da nossa terra, tendo o Espírito, já na divisão das línguas, previsto a utilidade da expressão. E que dizer de todo o Ocidente, quase desde o Ilírico até os confins do nosso mundo? Não apoia ele esta palavra?
75. Como posso, então, ser inovador e criador de termos novos, quando apresento como autores e defensores da palavra nações inteiras, cidades, um costume que remonta para além da memória humana, homens que foram colunas da igreja e se destacaram em todo conhecimento e poder espiritual? Por esta razão se põe em movimento contra mim este exército coligado de inimigos, e cidades, aldeias e as regiões mais remotas estão cheias dos meus caluniadores. Tristes e dolorosas são estas coisas para os que buscam a paz, mas grande é a recompensa da paciência pelos sofrimentos suportados por causa da fé. Por isso, além de tudo isto, que a espada lampeje, que o machado seja afiado, que arda um fogo mais feroz que o da Babilônia, que todo instrumento de tortura seja posto em ação contra mim. Para mim nada é mais temível do que não temer as ameaças que o Senhor dirigiu contra os que blasfemam contra o Espírito (cf. Mt 12.31). Os leitores benévolos encontrarão no que eu disse uma defesa satisfatória: que aceito uma expressão tão cara e tão familiar aos santos, e confirmada por um uso tão longo, visto que, desde o dia em que o evangelho foi pregado pela primeira vez até o nosso tempo, se mostra que ela foi admitida com plenos direitos nas igrejas e, o que é da maior importância, que foi aceita como portadora de um sentido conforme à santidade e à verdadeira religião. Mas, diante do grande tribunal, o que preparei para dizer em minha defesa? Isto: que fui levado, em primeiro lugar, à glória do Espírito pela honra que o Senhor lhe conferiu ao associá-lo a si mesmo e ao seu Pai no batismo (Mt 28.19); em segundo lugar, pela introdução de cada um de nós no conhecimento de Deus por meio dessa iniciação; e, acima de tudo, pelo temor do castigo ameaçado, que exclui o pensamento de toda indignidade e de toda concepção indigna. Mas os nossos adversários, que dirão? Não tendo mostrado nem reverência pela honra do Senhor24 nem temor das suas ameaças, que espécie de defesa terão para a sua blasfêmia? Cabe a eles decidir sobre a sua própria conduta, ou mudá-la ainda agora. Quanto a mim, rogaria com todo o fervor que o bom Deus faça a sua paz reinar no coração de todos (cf. Cl 3.15), de modo que estes homens, inchados de orgulho e postos em ordem de batalha contra nós, sejam acalmados pelo Espírito de mansidão e de amor; e que, se se tornaram de todo selvagens e estão num estado indomável, ele nos conceda ao menos suportar com longanimidade tudo o que temos de suportar das mãos deles. Em suma, para os que “têm em si mesmos a sentença de morte” (2Co 1.9), não é o sofrimento pela fé que é doloroso; o difícil de suportar é deixar de travar o combate por ela. O atleta não se queixa tanto de ser ferido na luta quanto de não conseguir nem mesmo ser admitido no estádio. Ou talvez este fosse o tempo de ficar calado de que falou Salomão, o sábio (Ec 3.7). Pois, quando a vida é açoitada por uma tempestade tão violenta que toda a inteligência dos que foram instruídos na palavra fica cheia do engano dos falsos raciocínios e confundida, como um olho cheio de poeira; quando os homens ficam atordoados por ruídos estranhos e terríveis; quando o mundo inteiro é sacudido e tudo vacila prestes a cair, de que adianta gritar, como de fato estou gritando, ao vento?
76. A que, pois, compararei a nossa condição atual? Pode ser comparada, penso eu, a uma batalha naval que nasceu de antigas querelas e é travada por homens que alimentam um ódio mortal uns contra os outros, de longa experiência na guerra naval e ávidos de combate. Olhe, peço a você, para o quadro assim posto diante dos seus olhos. Veja as frotas rivais lançando-se ao ataque em formação temível. Com um ímpeto de fúria incontrolável, travam combate e lutam até o fim. Imagine, se quiser, os navios jogados de um lado para outro por uma tempestade furiosa, enquanto densas trevas caem das nuvens e escurecem todo o cenário, de modo que as senhas não se distinguem na confusão e se perde toda distinção entre amigo e inimigo. Para completar os detalhes do quadro imaginário, suponha o mar inchado de ondas e revolvido desde o fundo, enquanto uma torrente violenta de chuva desaba das nuvens e as ondas terríveis se erguem bem alto. De todos os quadrantes do céu os ventos batem sobre um só ponto, onde as duas frotas se chocam uma contra a outra. Dos combatentes, alguns se tornam traidores; outros desertam no mais aceso da luta; outros têm, no mesmo instante, de impelir os seus barcos, todos batidos pelo vendaval, e avançar contra os que os atacam. A disputa pela autoridade e a ânsia de domínio pessoal dividem os marinheiros em partidos que se matam uns aos outros. Pense, além de tudo isso, no estrondo confuso e sem sentido que ressoa por todo o mar, vindo dos ventos que uivam, dos navios que se chocam, da rebentação que ferve, dos gritos dos combatentes que exprimem as suas diversas emoções com toda espécie de ruído, de modo que não se pode ouvir uma só palavra do almirante ou do piloto. A desordem e a confusão são tremendas, pois o extremo do infortúnio, quando já se desespera da vida, dá aos homens licença para toda espécie de maldade. Suponha ainda que os homens estão todos atingidos pela peste incurável do amor louco à glória, de modo que não cessam de lutar, cada um para levar a melhor sobre o outro, enquanto o seu navio está de fato afundando no abismo.
77. Passe agora, peço a você, desta descrição figurada para a triste realidade. Não pareceu, em certo momento25, que o cisma ariano, depois de se ter separado como seita oposta à Igreja de Deus, se erguia sozinho em atitude hostil? Mas, quando a atitude dos nossos inimigos contra nós passou de uma contenda antiga e amarga para uma guerra aberta, então, como é bem sabido, a guerra se dividiu, de mais modos do que sei dizer, em muitas subdivisões, de modo que todos foram levados a um estado de ódio inveterado, tanto pelo espírito de partido comum como pela suspeita individual.26 Mas que tempestade no mar jamais foi tão feroz e selvagem como esta tempestade das igrejas? Nela todo marco dos Pais foi removido; todo fundamento, todo baluarte da doutrina foi abalado; tudo o que flutua sobre o que não é sólido é sacudido e derrubado. Atacamo-nos uns aos outros. Somos derrubados uns pelos outros. Se o inimigo não nos fere primeiro, somos feridos pelo companheiro ao nosso lado. Se um inimigo é atingido e cai, o seu companheiro de armas o pisoteia. Há entre nós pelo menos este laço de união: odiamos os nossos inimigos comuns; mas, mal os inimigos se vão, encontramos inimigos uns nos outros. E quem poderia fazer uma lista completa de todos os naufrágios? Alguns foram a pique sob o ataque do inimigo, outros pela traição insuspeita dos seus aliados, outros pelos desacertos dos seus próprios oficiais. Vemos, por assim dizer, igrejas inteiras, com toda a tripulação, lançadas e despedaçadas contra os recifes submersos de uma heresia dissimulada, enquanto outros dos inimigos do Espírito27 da salvação tomaram o leme e naufragaram na fé (1Tm 1.19). E então as perturbações causadas pelos poderosos deste mundo (1Co 2.6) provocaram a ruína do povo com uma violência que nem furacão nem redemoinho igualam. Os luzeiros do mundo, que Deus pôs para iluminar as almas do povo, foram expulsos das suas casas, e uma escuridão verdadeiramente sombria e desalentadora caiu sobre as igrejas.28 O terror da ruína universal já é iminente, e ainda assim a rivalidade mútua é tão desmedida que embota todo senso de perigo. O ódio individual importa mais do que a guerra geral e comum, pois homens que estimam mais a satisfação imediata da ambição do que as recompensas que nos aguardam no tempo vindouro preferem a glória de vencer os seus adversários a assegurar o bem comum da humanidade. Assim todos igualmente, cada um como pode, levantam uns contra os outros a mão assassina. Áspero sobe o grito dos combatentes que se enfrentam em disputa; já toda a Igreja está quase cheia de gritos inarticulados, de ruídos ininteligíveis, que se erguem das agitações incessantes que desviam a reta regra da doutrina da verdadeira religião, ora na direção do excesso, ora na da falta. De um lado estão os que confundem as Pessoas e são arrastados para o judaísmo29; do outro, os que, pela oposição das naturezas, passam para o paganismo.30 Entre esses partidos opostos, a Escritura inspirada é impotente para mediar; as tradições dos apóstolos não conseguem sugerir termos de arbitragem. A franqueza é fatal para a amizade, e a divergência de opinião é todo o pretexto de que se precisa para uma briga. Nenhum juramento de aliança é tão eficaz para manter os homens fiéis à sedição como a semelhança no erro. Todo mundo é teólogo, ainda que tenha a alma marcada com mais manchas do que se podem contar. O resultado é que os inovadores encontram uma provisão abundante de homens prontos para a facção, enquanto rebentos autonomeados da casa dos caçadores de cargos31 rejeitam o governo32 do Espírito Santo e repartem entre si as principais dignidades das igrejas. As instituições do evangelho foram agora, por toda parte, lançadas na confusão por falta de disciplina; há uma disputa indescritível pelos primeiros lugares, enquanto todo aquele que se promove a si mesmo tenta forçar a entrada em altos cargos. O resultado dessa ânsia de mandar é que o nosso povo vive em confusão selvagem por falta de quem o governe33; as exortações dos que estão em autoridade tornam-se inteiramente inúteis e vãs, porque não há ninguém que, na sua ignorante impudência, não pense que é tanto seu dever dar ordens aos outros quanto obedecer a quem quer que seja.
78. Assim, já que nenhuma voz humana é forte o bastante para ser ouvida em tal tumulto, considero o silêncio mais proveitoso do que a palavra; pois, se há alguma verdade nas palavras do Pregador: “As palavras dos sábios são ouvidas em silêncio” (Ec 9.17), na condição atual das coisas qualquer discussão sobre elas há de ser tudo menos conveniente. Além disso, sou contido pelo dito do profeta: “Por isso o prudente se calará naquele tempo, pois é um tempo mau” (Am 5.13), um tempo em que uns passam rasteira no próximo, outros pisam num homem caído e outros batem palmas de alegria, mas não há um só que se compadeça do caído e lhe estenda a mão para ajudá-lo, embora, segundo a lei antiga, não fique sem condenação quem passa ao largo até mesmo do animal de carga do seu inimigo caído sob o peso (Êx 23.5). Não é este o estado de coisas agora. Por que não? O amor de muitos se esfriou (Mt 24.12); a concórdia fraterna está destruída, o próprio nome da unidade é ignorado, as admoestações fraternas não se ouvem mais, em parte nenhuma há compaixão cristã, em parte nenhuma cai a lágrima da solidariedade. Agora não há ninguém que acolha “quem é fraco na fé” (Rm 14.1), mas o ódio mútuo se inflamou tão alto entre os da mesma família que se alegram mais com a queda do vizinho do que com o próprio êxito. Assim como numa peste os homens de vida mais regrada sofrem da mesma doença que os demais, porque contraem o mal pelo contato com os infectados, assim hoje, pela má rivalidade que domina as nossas almas, somos arrastados a uma emulação na maldade e somos todos, cada um, tão maus quanto os outros. Por isso os juízes dos que erram se assentam impiedosos e amargos; insensíveis e hostis são os críticos dos bem-intencionados. E a tal profundidade está enraizado este mal entre nós que nos tornamos mais brutos que os brutos; eles ao menos andam em bando com os seus semelhantes, mas a nossa guerra mais selvagem é contra a nossa própria gente.
79. Por todas estas razões eu deveria ter ficado calado, mas fui levado na direção contrária pelo amor, que “não busca os seus interesses” (1Co 13.5) e deseja vencer toda dificuldade que o tempo e as circunstâncias põem no seu caminho. Fui ensinado também pelos jovens da Babilônia (Dn 3.12ss) que, quando não há ninguém que sustente a causa da verdadeira religião, devemos cumprir o nosso dever sozinhos e sem nenhuma ajuda. Eles, do meio das chamas, ergueram a voz em hinos e louvores a Deus, sem se importar com a multidão que desprezava a verdade, mas bastando-se uns aos outros, ainda que fossem apenas três. Por isso também nós não nos deixamos abater pela nuvem dos nossos inimigos e, pondo a nossa esperança no auxílio do Espírito, proclamamos a verdade com toda a ousadia. Se eu não o tivesse feito, teria sido verdadeiramente terrível que os blasfemadores do Espírito se encorajassem tão facilmente no seu ataque à verdadeira religião, e que nós, tendo ao nosso lado um aliado e sustentador tão poderoso, recuássemos diante do serviço daquela doutrina que, pela tradição dos Pais, foi preservada por uma sucessão ininterrupta de memória até os nossos dias. Outro poderoso estímulo para o meu empreendimento foi o fervor caloroso do seu “amor não fingido” (Rm 12.9; 2Co 6.6) e a seriedade e discrição do seu temperamento, garantia de que você não divulgaria a todo o mundo o que eu ia dizer; não porque não valesse a pena torná-lo conhecido, mas para evitar lançar pérolas aos porcos (Mt 7.6). A minha tarefa está agora concluída. Se você achar satisfatório o que eu disse, que isto ponha fim à nossa discussão destes assuntos. Se julgar que algum ponto requer maior esclarecimento, não hesite, peço-lhe, em prosseguir a investigação com toda a diligência e em aumentar o seu conhecimento fazendo qualquer pergunta que não seja de controvérsia. Seja por meu intermédio, seja por meio de outros, o Senhor concederá plena explicação sobre as questões que ainda precisam ser esclarecidas, segundo o conhecimento concedido aos dignos pelo Espírito Santo. Amém.
1. Nesta passagem, a Authorized Version segue o neutro do original grego. A Revised Version o substituiu por “himself” (“ele mesmo”).
2. Cf. Virgílio, Eneida II: Quis talia fando…temperet a lacrymis? (“Quem, ao narrar tais coisas, conteria as lágrimas?”)
3. Isto é, de Jesus, filho de Siraque, ou Eclesiástico 43.30.
4. Isto é, Diânio, bispo de Cesareia da Capadócia, que batizou são Basílio por volta de 357, quando este voltou de Atenas, e o ordenou leitor. Era homem vacilante e assinou o credo de Rímini em 359; por isso Basílio se afastou dele, mas fala dele com reverência em Cartas 51.
5. Falecido por volta de 200.
6. Falecido em 100.
7. Falecido em 269.
8. Dionísio foi patriarca de Alexandria de 247 a 265 d.C. O “por estranho que pareça” de Basílio está de acordo com a opinião sobre as tendências heréticas de Dionísio expressa em Cartas 9, que se pode consultar. Atanásio, porém (Sobre a doutrina de Dionísio), estava convencido da ortodoxia do seu predecessor. O bispo Westcott (Dict. C. Biog. i. 851) cita Lumper (Hist. Pat. xii. 86), que supõe que a acusação de Basílio contra Dionísio, de ter semeado a heresia anomeia, se devia a um conhecimento imperfeito dos seus escritos. Em Cartas 188, Basílio o chama “o Grande”, o que indica aprovação geral.
9. Clemente de Roma, Carta aos Coríntios 58. Lightfoot, Apostolic Fathers, parte I, ii. 169.
10. Irineu está perto dos apóstolos por estreita ligação, assim como no tempo, por ter conhecido pessoalmente Policarpo. Veja a sua Carta a Florino, citada em Eusébio, História eclesiástica V.20. Na sua obra Sobre a Ogdóade, citada no mesmo capítulo, Irineu diz de si mesmo que ten proten ton Apostolon kateilephenai ten diadochen, “tivera ele mesmo a sucessão mais próxima dos apóstolos”.
11. A referência é, presumivelmente, a 1Co 2.11 e 3.1.
12. Isto é, Eusébio de Cesareia, o historiador, assim chamado para distingui-lo do seu homônimo de Nicomédia. Cf. Teodoreto, História eclesiástica I.1. A obra não se conservou. Pode ser a mencionada por Eusébio na sua Preparação evangélica VII.8, 20, sob o título peri tes ton palaion andron polupaidias (sobre a numerosa prole dos homens antigos).
13. A citação é do oitavo livro.
14. Quanto à falta de ortodoxia de Orígenes a respeito do Espírito Santo, são Basílio pode ter tido em mente uma passagem como a seguinte, do primeiro livro do De principiis, conservada no original em Justiniano, Carta a Menas (Migne, Pat. Gr. xi. p. 150): hoti ho men theos kai pater sunechon ta panta phthanei eis ekaston ton onton metadidous hekasto apo tou idiou to einai; on gar estin; elatton de para ton patera ho Huios phthanei epi mona ta logika; deuteros gar esti tou patros; eti de hetton to pneuma to hagion epi monous tous hagious diiknoumenon; hoste kata touto meizon he dunamis tou Patros para ton Huion kai to pneuma to hagion pleion de he tou Huiou para to pneuma to hagion. A obra nem sequer existe inteira na tradução de Rufino, que omitiu partes dela, e são Jerônimo julgava que Rufino a havia deturpado. Fócio (Biblioteca, cód. 8) diz que Orígenes, ao afirmar nesta obra que o Filho foi feito pelo Pai e o Espírito pelo Filho, é extremamente blasfemo. O bispo Harold Browne, porém (Exposition of the XXXIX Articles, p. 113, n. 1), é de opinião que, se Rufino traduziu fielmente a passagem seguinte, Orígenes não pode ser acusado com justiça de heresia a respeito do Espírito Santo: “Ne quis sane existimet nos ex eo quod diximus Spiritum sanctum solis sanctis præstari. Patris vero et Filii beneficia vel inoperationes pervenire ad bonos et malos, justos et injustos, prætulisse per hoc Patri et Filio Spiritum Sanctum, vel majorem ejus per hoc asserere dignitatem; quod utique valde inconsequens est. Proprietatem namque gratiæ ejus operisque descripsimus. Porro autem nihil in Trinitate majus minusve dicendum est, quum unius Divinitatis Fons verbo ac ratione sua teneat universa, spiritu vero oris sui quæ digna sunt, sanctificatione sanctificet, sicut in Psalmo scriptum est verbo domini coeli firmati sunt et spiritu oris ejus omnis virtus eorum.” De principiis I.iii.7. Sobre o que Basílio e Gregório de Nazianzo devem a Orígenes, cf. Sócrates IV.26.
15. Dos principais escritos de Júlio Africano (chamado Sexto Africano por Suidas), que escreveu em Emaús e em Alexandria por volta de 220, restam apenas fragmentos. Uma Carta a Orígenes está completa. Sua obra principal foi uma Cronografia, da Criação até 221 d.C., em cinco livros. O Dr. Salmon (D.C.B. i. 56) pensa que a doxologia citada por Basílio era a sua conclusão.
16. O Salmo 141 era chamado ho epiluchnios psalmos, o salmo do acender das lâmpadas (Constituições apostólicas VIII.35). Nas vésperas da Igreja oriental canta-se um hino vespertino, traduzido em D.C.A. i. 634: “Luz alegre da santa glória do Pai imortal, o celeste, o santo, o bem-aventurado Jesus Cristo; chegados ao pôr do sol e contemplando a luz da tarde, louvamos a Deus, Pai, Filho e Espírito Santo. Convém que em todo tempo sejas cantado com vozes propícias, Filho de Deus, Doador da Vida; por isso o mundo te glorifica.”
17. Identificado por alguns com dois hinos antigos, o Doxa en hupsistois e o Phos hilaron.
18. Os manuscritos variam entre exiterion e alexiterion, presente de despedida e amuleto ou talismã. Em Cartas 203, Basílio diz que nosso Senhor deu aos seus discípulos a paz como um exiterion doron, empregando a palavra, mas junto com doron. Gregório de Nazianzo, Discursos XIV, 223, fala de nosso Senhor deixando a paz “hosper allo ti exiterion“.
19. Isto é, Gregório, bispo de Neocesareia, conhecido como Gregório Taumaturgo, ou Gregório, o Fazedor de Milagres. Ao leitor moderno, “Gregório, o Grande” sugere mais naturalmente Gregório de Nazianzo, mas dificilmente ele o era para o seu amigo e contemporâneo, embora o título já lhe tivesse sido atribuído na época do reconhecido Concílio de Éfeso, em 431 (veja Labbe, vol. iv, p. 1192). Gregório Taumaturgo, falecido por volta de 270.
20. Por exemplo, segundo a lenda, o Lico. Cf. Newman, Essays on Miracles, p. 267.
21. A história é contada por Gregório de Nissa, Vida de Gregório Taumaturgo (Migne xlvi. 926-930).
22. Os neocesarienses parecem ter tido uma objeção puritana contra a salmodia antifonal, que se generalizava na Igreja no tempo de Basílio. Cf. Cartas 207.
23. Firmiliano, como Gregório Taumaturgo discípulo de Orígenes, foi bispo de Cesareia desde antes de 232 d.C. (Eusébio, História eclesiástica VI.26) até 272 (Eusébio, História eclesiástica VII.30). Alguns situam a sua morte, em Tarso, em 264 ou 265.
24. A versão beneditina para tas timas tou kuriou é honorem quem Dominus tribuit Spiritui (“a honra que o Senhor conferiu ao Espírito”). A leitura de um manuscrito é tas phonas. Há autoridade para os dois sentidos do genitivo com time, isto é, as honras devidas ao Senhor ou as prestadas pelo Senhor.
25. Isto é, depois da condenação de Ário em Niceia.
26. Em Cartas 242, escrita em 376, são Basílio diz: “Este é o décimo terceiro ano desde que irrompeu a guerra dos hereges contra nós.” 363 é a data do concílio acaciano de Antioquia; 364, a da ascensão de Valente e Valentiniano, do sínodo semiariano de Lâmpsaco e da ordenação de são Basílio ao presbiterato e do seu livro contra Eunômio. Sobre a propagação do arianismo por cisão e por inúmeras subdivisões, escreve o cônego Bright: “A extraordinária versatilidade, a sutileza argumentativa e a profanidade demasiado frequente do arianismo são coisas de que poucas linhas não podem dar ideia. Mas é necessário, mesmo na notícia mais breve sobre esta heresia de vida longa, observar o contraste entre a sua inventividade mutável e a simples firmeza da doutrina católica. De um lado, cerca de vinte credos diferentes (dos quais vários, porém, eram heterodoxos mais pelo que omitiam do que pelo que afirmavam) e três seitas principais: os semiarianos, com a sua fórmula homoiousios, isto é, o Filho é semelhante em essência ao Pai; os acacianos, que vagamente o chamavam semelhante (homoios); os aecianos, que ousadamente o chamavam dessemelhante, como quem diz que ele não é divino em sentido nenhum. Do outro lado, a Igreja com o Credo de Niceia, confessando-o homoousios, ‘da mesma essência que o Pai’, com o que se pretendia, como o seu grande defensor testemunhou repetidas vezes, assegurar a fé na realidade da filiação divina e, portanto, na divindade real, distinta da divindade titular que os arianos lhe concediam com tanta liberalidade.” Bright, St. Leo on the Incarnation, p. 140. Sócrates (II.41), detendo-se em 360, enumera, depois de Niceia: 1. O primeiro de Antioquia (omitiu o homoousios, 341 d.C.). 2. O segundo de Antioquia (omitiu o homoousios, 341 d.C.). 3. O credo levado a Constante, na Gália, por Narciso e outros arianos em 342. 4. O credo “enviado por Eudóxio de Germanícia à Itália”, isto é, o “Macróstico”, ou “Credo prolixo”, rejeitado em Milão em 346. 5. O primeiro credo de Sírmio, isto é, o Macróstico com 26 cláusulas acrescentadas, 351. 6. O segundo credo de Sírmio, o “manifesto”, chamado por Atanásio (Sobre os sínodos 28) “a blasfêmia”, 357. 7. O terceiro de Sírmio, ou “credo datado”, no consulado de Flávio Eusébio e Hipácio, 22 de maio de 359. 8. O credo acaciano de Selêucia, 359. 9. O credo de Rímini, adotado em Constantinopla, tal como revisto em Nice.
27. Com base no manuscrito do século X que está em Paris, chamado pelos editores beneditinos Regius Secundus, estes leem pathous em lugar de pneumatos (“inimigos da paixão salvadora”), negando que pneumatos seja compatível com o estilo e o costume de Basílio, que, dizem eles, nunca usa o epíteto soterios para o Espírito. O Sr. C. F. H. Johnston observa que são Basílio “sempre atribui a eficácia salvadora do batismo à presença do Espírito, e aqui lhe aplica a palavra”. Na seção 35 temos to soterion baptisma.
28. Entre os bispos exilados durante a perseguição de Valente estavam Melécio de Antioquia, Eusébio de Samósata, Pelágio de Laodiceia e Barses de Edessa. Cf. Teodoreto, História eclesiástica IV.12 ss. Cf. Cartas 195.
29. A identificação de um monarquianismo errôneo com o judaísmo se ilustra na Primeira apologia de Justino Mártir, por exemplo no § 83 (tradução de Reeves): “Os judeus, portanto, por sustentarem que foi o Pai do universo quem conversou com Moisés, quando foi o próprio Filho de Deus quem o fez, ele que é chamado tanto Anjo como Apóstolo, são com justiça acusados pelo espírito profético e pelo próprio Cristo de não conhecerem nem o Pai nem o Filho; pois os que afirmam que o Filho é o Pai são culpados de não conhecer o Pai e também de ignorar que o Pai do universo tem um Filho, que, sendo o Logos e Primogênito de Deus, é Deus.”
30. Isto é, os arianos, cujas diversas ramificações se originaram todas de uma tentativa, provavelmente bem-intencionada, de conciliar os princípios do cristianismo com o que havia de melhor na antiga filosofia, e de não terem percebido que o diteísmo do arianismo era da mesma natureza que o politeísmo.
31. A palavra spoudarchides é um patronímico cômico de spoudarches, caçador de cargos, que ocorre em Os acarnenses de Aristófanes, 595.
32. Oikonomia.
33. Anarchia apo philarchias (anarquia por amor ao mando).
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Blomfield Jackson (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 8, Nova York, 1895), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. Os sumários no começo de cada capítulo e as notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Basílio cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.