Basílio, Sobre o Espírito Santo · Capítulos 26 e 27

O Espírito em quem se dá culto; as tradições não escritas

Em que sentidos o Espírito é "em quem" adoramos; a origem e a força da palavra "com"; as tradições não escritas da Igreja.

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Capítulo XXVI. Que a palavra “em”, em todos os sentidos que comporta, se entende do Espírito

61. Ora, por breve e simples que seja essa expressão, parece-me, ao considerá-la, que seus sentidos são muitos e variados. Pois, dos sentidos em que se usa “em”, verificamos que todos auxiliam nossas concepções acerca do Espírito. Diz-se que a forma está na matéria; a potência, naquilo que é capaz dela; o hábito, naquele que é afetado por ele; e assim por diante.1 Portanto, visto que o Espírito Santo aperfeiçoa os seres racionais, completando a excelência deles, Ele é análogo à forma. Pois aquele que já não “vive segundo a carne” (Rm 8.12), mas, sendo “guiado pelo Espírito de Deus” (Rm 8.14), é chamado filho de Deus, sendo “conforme à imagem do Filho de Deus” (Rm 8.29), é descrito como espiritual. E como é a faculdade de ver no olho sadio, assim é a operação do Espírito na alma purificada. Por isso também Paulo pede pelos efésios que tenham os “olhos iluminados” pelo “espírito de sabedoria” (Ef 1.17-18). E como a arte naquele que a adquiriu, assim a graça do Espírito está sempre presente em quem a recebe, embora não esteja continuamente em operação. Pois, assim como a arte está em potência no artista, mas só está em operação quando ele trabalha segundo ela, assim também o Espírito está sempre presente com os que são dignos, mas opera, conforme a necessidade exige, em profecias, ou em curas, ou em alguma outra efetivação real da sua ação potencial.2 Além disso, assim como estão em nossos corpos a saúde, ou o calor, ou, em geral, suas condições variáveis, assim, muito frequentemente, está o Espírito na alma; pois Ele não permanece com aqueles que, por causa da instabilidade de sua vontade, facilmente rejeitam a graça que receberam. Um exemplo disso se vê em Saul (1Sm 16.14), e nos setenta anciãos dos filhos de Israel, exceto Eldade e Medade, os únicos com quem o Espírito parece ter permanecido,3 e, em geral, em qualquer um de caráter semelhante ao deles. E, como a razão na alma, que ora é o pensamento no coração, ora a fala proferida pela língua,4 assim é o Espírito Santo, como quando Ele “confirma ao nosso espírito” (Rm 8.16), e quando “clama em nosso coração: ‘Aba, Pai'” (Gl 4.6), ou quando fala em nosso favor, como está dito: “Não são vocês que estão falando, mas o Espírito do Pai de vocês é quem fala em vocês” (Mt 10.20). Também se concebe o Espírito, em relação à distribuição dos dons, como um todo nas partes. Pois todos nós somos “membros uns dos outros, tendo diferentes dons segundo a graça que nos foi dada” (Rm 12.5-6). Por isso, “o olho não pode dizer à mão: ‘Não preciso de você’; nem a cabeça aos pés: ‘Não preciso de vocês'” (1Co 12.21), mas todos juntos completam o Corpo de Cristo na unidade do Espírito, e prestam uns aos outros o auxílio necessário que provém dos dons. “Mas Deus dispôs os membros, colocando cada um deles no corpo, como ele quis” (1Co 12.18). Mas “os membros têm o mesmo cuidado uns pelos outros” (1Co 12.25), segundo a comunhão espiritual e inata de sua solidariedade. Por isso, “se um membro sofre, todos sofrem com ele; e, se um deles é honrado, todos os outros se alegram com ele” (1Co 12.26). E, como as partes no todo, assim estamos nós, cada um, no Espírito, porque todos nós “fomos batizados em um só corpo para um só espírito” (cf. 1Co 12.13).

62. É uma afirmação extraordinária, mas nem por isso menos verdadeira, que o Espírito é frequentemente apresentado como o lugar dos que estão sendo santificados; e ficará evidente que, mesmo por essa figura, o Espírito, longe de ser rebaixado, é antes glorificado. Pois as palavras aplicáveis ao corpo são, por amor à clareza, frequentemente transferidas na Escritura para as concepções espirituais. Assim encontramos o salmista, mesmo em referência a Deus, dizendo: “Sê tu para mim um Deus defensor e um lugar forte para me salvar” (Sl 71.3), e, a respeito do Espírito: “Eis que há lugar junto a mim, e fica sobre a rocha” (Êx 33.21). Isso significa claramente o lugar ou contemplação no Espírito, onde Moisés, depois de ter entrado ali, pôde ver Deus manifestado a ele de modo inteligível. Este é o lugar especial e próprio da verdadeira adoração; pois está dito: “Guarda-te de oferecer os teus holocaustos em qualquer lugar… mas no lugar que o Senhor, teu Deus, escolher” (Dt 12.13-14). Ora, o que é um holocausto espiritual? “O sacrifício de louvor” (Sl 50.14). E em que lugar o oferecemos? No Espírito Santo. Onde aprendemos isso? Do próprio Senhor, nas palavras: “Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade”.5 Este lugar Jacó viu e disse: “O Senhor está neste lugar” (Gn 28.16). Segue-se que o Espírito é verdadeiramente o lugar dos santos, e o santo é o lugar próprio para o Espírito, pois se oferece para a habitação de Deus e é chamado templo de Deus (1Co 6.19). Assim Paulo fala em Cristo, dizendo: “Na presença de Deus falamos em Cristo” (2Co 2.17), e Cristo em Paulo, como ele mesmo diz: “Visto que vocês buscam provas de que Cristo fala em mim” (2Co 13.3). Assim também ele, no Espírito, fala mistérios (1Co 14.2), e, por sua vez, o Espírito fala nele (1Pe 1.11).

63. Em relação às coisas originadas,6 portanto, diz-se que o Espírito está nelas “em diversas porções e de diversas maneiras” (Hb 1.1), ao passo que, em relação ao Pai e ao Filho, é mais conforme à verdadeira religião afirmar que Ele não está “em”, mas está “com”. Pois a graça que dele flui, quando Ele habita nos que são dignos e realiza suas próprias operações, é bem descrita como existindo “em” quem é capaz de recebê-lo. Por outro lado, sua existência essencial antes dos séculos e sua permanência incessante com o Filho e o Pai não podem ser contempladas sem que se exijam títulos que expressem conjunção eterna. Pois a coexistência absoluta e real se predica das coisas que são mutuamente inseparáveis. Dizemos, por exemplo, que o calor existe no ferro quente, mas, no caso do próprio fogo, coexiste com ele; e, de modo semelhante, que a saúde existe no corpo, mas que a vida coexiste com a alma. Segue-se que, onde quer que a comunhão seja íntima, conatural7 e inseparável, a palavra “com” é mais expressiva, pois sugere a ideia de comunhão inseparável. Onde, por outro lado, a graça que flui do Espírito naturalmente vem e vai, diz-se própria e verdadeiramente que ela existe “em”, ainda que, por causa da firmeza da disposição dos que a recebem para o bem, a graça permaneça com eles continuamente. Assim, sempre que temos em mente a posição própria do Espírito, nós o contemplamos como estando “com” o Pai e o Filho; mas, quando pensamos na graça que dele flui e opera nos que dela participam, dizemos que o Espírito está “em” nós. E a doxologia que oferecemos “no Espírito” não é um reconhecimento da posição dele; é antes uma confissão da nossa própria fraqueza, ao mostrarmos que não somos capazes de glorificá-lo por nós mesmos, mas que a nossa capacidade (cf. 2Co 3.5) está no Espírito Santo. Capacitados nele [ou por Ele], rendemos graças ao nosso Deus pelos benefícios que recebemos, segundo a medida da nossa purificação do mal, conforme recebemos, um maior e outro menor, uma parte do auxílio do Espírito, para que ofereçamos “o sacrifício de louvor a Deus” (Hb 13.15). Segundo um dos usos, então, é assim que oferecemos a nossa ação de graças, como a verdadeira religião exige, “no Espírito”; embora não seja de todo irrepreensível que alguém testemunhe de si mesmo: “O Espírito de Deus está em mim, e ofereço glória depois de ter sido feito sábio pela graça que dele flui”. Pois a um Paulo convém dizer: “Penso que também eu tenho o Espírito de Deus” (1Co 7.40), e ainda: “Guarde o bom tesouro que lhe foi confiado, por meio do Espírito Santo, que habita em nós” (2Tm 1.14). E de Daniel é apropriado dizer que “o Espírito Santo de Deus está nele” (Dn 4.8), e, de modo semelhante, dos homens que se assemelham a estes em virtude.

64. Pode-se, porém, dar outro sentido à expressão: assim como o Pai é visto no Filho, assim o Filho está no Espírito. A “adoração no Espírito” sugere a ideia de que a operação da nossa inteligência se realiza na luz, como se pode aprender das palavras dirigidas à mulher de Samaria. Enganada como estava pelos costumes de sua terra, a ponto de crer que a adoração dependia do lugar, nosso Senhor, com o propósito de instruí-la melhor, disse que a adoração deve ser oferecida “em Espírito e em Verdade” (Jo 4.24), designando claramente pela Verdade a si mesmo. Assim, pois, como chamamos a adoração oferecida na Imagem de Deus Pai de adoração no Filho, assim também chamamos de adoração no Espírito aquela que mostra em si mesma a divindade do Senhor. Por isso, mesmo na nossa adoração, o Espírito Santo é inseparável do Pai e do Filho. Se você permanecer fora do Espírito, não será capaz sequer de adorar; e, quando estiver nele, de modo algum poderá separá-lo de Deus, assim como não poderá separar a luz dos objetos visíveis. Pois é impossível contemplar a Imagem do Deus invisível a não ser pela iluminação do Espírito, e é impraticável, para quem fixa o olhar na Imagem, separar a luz da Imagem, porque a causa da visão é necessariamente vista ao mesmo tempo que os objetos visíveis. Assim, de modo apropriado e coerente, contemplamos o “resplendor da glória” de Deus por meio da iluminação do Espírito, e, por meio da “expressão exata” (Hb 1.3), somos conduzidos para o alto, até aquele de quem Ele é a Expressão exata e o Selo, gravado em perfeita semelhança.8

Capítulo XXVII. Da origem da palavra “com” e da força que ela tem. Também a respeito das leis não escritas da Igreja

65. “A palavra ‘em'”, dizem nossos adversários, “é exatamente apropriada ao Espírito e suficiente para todo pensamento a respeito dele. Por que, então”, perguntam, “introduzimos esta expressão nova, dizendo ‘com o Espírito’ em vez de ‘no Espírito Santo’, empregando assim uma expressão de todo desnecessária e que não é sancionada por nenhum uso nas igrejas?” Ora, já se afirmou na parte anterior deste tratado que a palavra “em” não foi atribuída de modo especial ao Espírito Santo, mas é comum ao Pai e ao Filho. Também já se demonstrou suficientemente, a meu ver, que, longe de diminuir em algo a dignidade do Espírito, ela conduz todos, exceto aqueles cujos pensamentos estão inteiramente pervertidos, à mais sublime altura. Resta-me traçar a origem da palavra “com”, explicar que força ela tem e mostrar que está em harmonia com a Escritura.

66.9 Das crenças e práticas, quer geralmente aceitas, quer publicamente prescritas, que se conservam na Igreja,10 algumas nós as possuímos derivadas do ensino escrito; outras as recebemos, transmitidas a nós “em mistério”,11 pela tradição dos apóstolos; e ambas têm a mesma força em relação à verdadeira religião. E ninguém as contestará; ninguém, pelo menos, que seja mesmo moderadamente versado nas instituições da Igreja. Pois, se tentássemos rejeitar os costumes que não têm autoridade escrita, sob o pretexto de que a importância que possuem é pequena, feriríamos sem querer o Evangelho em suas partes vitais; ou, antes, reduziríamos a nossa definição pública a mera palavra e nada mais.12 Por exemplo, para tomar o primeiro e mais comum dos exemplos, quem é que nos ensinou por escrito a marcar com o sinal da cruz os que depositaram sua confiança no nome de nosso Senhor Jesus Cristo? Que escrito nos ensinou a voltar-nos para o Oriente na oração? Qual dos santos nos deixou por escrito as palavras da invocação na manifestação13 do pão da Eucaristia e do cálice da bênção? Pois não nos contentamos, como é bem sabido, com o que o apóstolo ou o Evangelho registrou, mas, tanto antes como depois, acrescentamos outras palavras, como sendo de grande importância para a validade do ministério, e estas as derivamos do ensino não escrito. Além disso, abençoamos a água do batismo e o óleo da unção e, além disso, o próprio catecúmeno que está sendo batizado. Com base em que autoridade escrita fazemos isso? Não é a nossa autoridade a tradição silenciosa e mística? Mais ainda: por qual palavra escrita se ensina a própria unção com óleo?14 E de onde vem o costume de batizar três vezes?15 E, quanto aos outros costumes do batismo, de que Escritura derivamos a renúncia a Satanás e a seus anjos? Não vem isso daquele ensino não publicado e secreto que nossos pais guardaram num silêncio fora do alcance da intromissão curiosa e da investigação indiscreta? Bem haviam eles aprendido a lição de que a veneranda dignidade dos mistérios se preserva melhor pelo silêncio. Aquilo que os não iniciados não têm sequer permissão de contemplar dificilmente seria exibido publicamente em documentos escritos. Que intenção tinha o grande Moisés ao não deixar todas as partes do tabernáculo abertas a todos? Os profanos ele os colocou fora das barreiras sagradas; os primeiros átrios concedeu aos mais puros; só os levitas julgou dignos de serem servidores da Divindade; os sacrifícios, os holocaustos e as demais funções sacerdotais atribuiu aos sacerdotes; um só, escolhido entre todos, admitiu no santuário, e mesmo este não sempre, mas só num dia do ano, e desse único dia se fixou um tempo para a sua entrada, para que contemplasse o Santo dos Santos maravilhado com a estranheza e a novidade do espetáculo. Moisés era sábio o bastante para saber que o desprezo se prende ao que é corriqueiro e óbvio, ao passo que um vivo interesse está naturalmente associado ao que é incomum e pouco familiar. Do mesmo modo, os apóstolos e os pais que desde o princípio estabeleceram leis para a Igreja guardaram assim a veneranda dignidade dos mistérios no segredo e no silêncio, pois o que é divulgado a esmo entre o povo comum não é mistério nenhum. Esta é a razão da nossa tradição de preceitos e práticas não escritos: que o conhecimento dos nossos dogmas não venha a ser negligenciado e desprezado pela multidão por causa da familiaridade. Dogma e kerygma são duas coisas distintas: o primeiro se observa em silêncio; o segundo se proclama ao mundo inteiro. Uma forma desse silêncio é a obscuridade empregada na Escritura, que torna difícil de entender o sentido dos dogmas, para o próprio proveito do leitor. Assim, todos nós olhamos para o Oriente16 em nossas orações, mas poucos de nós sabemos que estamos buscando a nossa antiga pátria (Hb 11.14), o Paraíso, que Deus plantou no Éden, no Oriente (Gn 2.8). Oramos de pé,17 no primeiro dia da semana, mas nem todos sabemos a razão. No dia da ressurreição (ou “levantar-se de novo”, em grego anastasis), recordamos a nós mesmos a graça que nos foi dada ficando de pé na oração, não só porque ressuscitamos com Cristo18 e temos o dever de “buscar as coisas lá do alto” (Cl 3.1), mas porque esse dia nos parece ser, em certo sentido, uma imagem da era que esperamos; por isso, embora seja o princípio dos dias, Moisés não o chama “primeiro”, mas “um” (Gn 1.5). Pois ele diz: “Houve tarde e houve manhã, um dia”, como se o mesmo dia se repetisse muitas vezes. Ora, “um” e “oitavo” são a mesma coisa, indicando em si mesmo claramente aquele “um” e “oitavo” de fato, de que o salmista faz menção em certos títulos dos Salmos: o estado que vem depois do tempo presente, o dia que não conhece declínio nem entardecer, nem sucessor, aquela era que não termina nem envelhece.19 Por necessidade, então, a Igreja ensina seus próprios filhos adotivos a fazer suas orações de pé nesse dia, a fim de que, pela lembrança contínua da vida sem fim, não deixemos de nos preparar para a nossa partida para lá. Além disso, todo o Pentecostes é uma lembrança da ressurreição esperada na era vindoura. Pois aquele dia um e primeiro, multiplicado sete vezes por sete, completa as sete semanas do santo Pentecostes; pois, começando no primeiro, o Pentecostes termina no mesmo, fazendo cinquenta voltas pelos dias semelhantes intermediários. E assim é uma semelhança da eternidade, pois começa e termina, como num curso circular, no mesmo ponto. Nesse dia as regras da Igreja nos educaram a preferir a postura ereta na oração, pois, por meio dessa lembrança clara, fazem, por assim dizer, que nossa mente já não habite no presente, mas no futuro. Além disso, cada vez que caímos de joelhos e nos levantamos, mostramos pelo próprio gesto que pelo nosso pecado caímos por terra, e pela bondade amorosa do nosso Criador fomos chamados de volta ao céu.

67. O tempo me faltará se eu tentar enumerar os mistérios não escritos da Igreja. Do resto nada digo; mas, quanto à própria confissão da nossa fé no Pai, no Filho e no Espírito Santo, qual é a fonte escrita? Se se concede que, assim como somos batizados, assim também, sob a obrigação de crer, fazemos a nossa confissão em termos semelhantes aos do nosso batismo, de acordo com a tradição do nosso batismo e em conformidade com os princípios da verdadeira religião, que os nossos adversários nos concedam também o direito de ser tão coerentes na nossa atribuição de glória quanto na nossa confissão de fé. Se reprovam a nossa doxologia sob o pretexto de que lhe falta autoridade escrita, que nos apresentem a prova escrita da confissão da nossa fé e das outras coisas que enumeramos. Sendo as tradições não escritas tão numerosas, e tão importante a relação delas com “o mistério da piedade” (1Tm 3.16), podem eles recusar-nos uma única palavra que nos chegou dos pais; que encontramos, derivada de um costume espontâneo, permanecendo em igrejas não pervertidas; uma palavra a favor da qual os argumentos são fortes e que contribui em grau não pequeno para a plenitude da força do mistério?

68. A força das duas expressões já foi explicada. Passarei a expor mais uma vez em que elas concordam e em que diferem uma da outra; não que se oponham em antagonismo mútuo, mas porque cada uma contribui com o seu próprio sentido para a verdadeira religião. A preposição “em” exprime a verdade antes em relação a nós mesmos, ao passo que “com” proclama a comunhão do Espírito com Deus. Por isso usamos as duas palavras: por uma, expressamos a dignidade do Espírito; pela outra, anunciamos a graça que está conosco. Assim atribuímos glória a Deus tanto “no” Espírito como “com” o Espírito; e nisso não é palavra nossa que usamos, mas seguimos o ensino do Senhor como seguiríamos uma regra fixa, e transferimos a sua palavra para coisas conexas e estreitamente relacionadas, cuja conjunção nos mistérios é necessária. Julgamo-nos sob a obrigação necessária de associar na nossa confissão de fé Aquele que é contado com Eles no batismo, e tratamos a confissão de fé como a origem e a mãe da doxologia. Que fazer, então? Eles agora terão de nos ensinar ou a não batizar como recebemos, ou a não crer como fomos batizados, ou a não dar glória como cremos. Prove alguém, se puder, que a relação de sequência entre estes atos não é necessária e ininterrupta; ou negue alguém, se puder, que inovar aqui significa ruína em toda parte. E, no entanto, eles não param de martelar em nossos ouvidos que a atribuição de glória “com” o Espírito Santo é não autorizada, não bíblica e coisas semelhantes. Já afirmamos que, quanto ao sentido, é o mesmo dizer “glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo” e “glória ao Pai e ao Filho com o Espírito Santo”. É impossível a quem quer que seja rejeitar ou cancelar a sílaba “e”, que deriva das próprias palavras de nosso Senhor, e nada impede que se aceite o seu equivalente. Qual a medida de diferença e de semelhança entre as duas já o mostramos. E o nosso argumento se confirma pelo fato de o apóstolo usar indiferentemente uma ou outra palavra, dizendo ora “no nome do Senhor Jesus e pelo Espírito do nosso Deus” (1Co 6.11), ora “quando vocês estiverem reunidos, e o meu espírito, com o poder de nosso Senhor Jesus” (1Co 5.4), sem nenhuma ideia de que faça diferença para a ligação dos nomes que ele use a conjunção ou a preposição.

Notas

1. Cf. a nota ao capítulo 3. Na filosofia aristotélica, eidos, ou forma, é o to ti en einai, a essência ou causa formal. Cf. Aristóteles, Metafísica VI.7.4: eidos de lego to ti en einai hekastou kai ten proten ousian. Dynamis, ou potentia, é a ação ou existência potencial, em oposição a energeia, actus, a ação ou existência atual, ou entelecheia. Cf. Aristóteles, Metafísica VIII.3.9 e VIII.8.11. Sir W. Hamilton, Metafísica I, 178-180.

2. En allois tisi dynameon energemasi. A tradução beneditina é “in aliis miraculorum operationibus” (em outras operações de milagres). É certamente verdade que dynamis é uma das quatro palavras usadas no Novo Testamento para milagre, e muitas vezes tem esse sentido; mas aqui o contexto sugere a antítese entre operação potencial e operação atual, e, além disso, não é preciso excluir as operações não milagrosas (no sentido comum) do Espírito; num sentido profundo, todas as suas operações são milagrosas. Energema é palavra pouco comum, que significa a obra produzida pela energeia, ou operação.

3. Nm 11.25-26, na Septuaginta e na Revised Version, que trazem “não o fizeram mais” onde a Authorized Version diz “não cessaram”.

4. A distinção entre o logos endiathetos, o pensamento, e o logos prophorikos, a fala, aparece primeiro em Fílon, II, 154. Sobre o uso do termo na teologia católica, cf. a nota do Dr. Robertson a Atanásio, Sobre os sínodos § 26, p. 463 da edição desta coleção. Também Dorner, div. I, vol. I, p. 338, nota.

5. Jo 4.23. Com esta interpretação, cf. Atanásio, Primeira carta a Serapião § 33: “Por isso se mostra que a Verdade é o próprio Filho… pois eles adoram o Pai, mas em Espírito e em Verdade, confessando o Filho e o Espírito nele; pois o Espírito é inseparável do Filho, como o Filho é inseparável do Pai.”

6. En tois genetois, como no manuscrito bodleiano. O texto beneditino adota a leitura comum gennetois, com a nota: “Sed discrimen illud parvi momenti” (mas essa diferença é de pouca importância). Se São Basílio escreveu gennetois, usou a palavra no sentido mais frouxo de “mortal”: no seu sentido estrito de “gerado”, ela estaria singularmente fora de lugar aqui, pois se estragaria a antítese com a referência ao Filho, que é gennetos. Na terminologia da teologia, longe de ser “de pouca importância”, a distinção é vital. Na filosofia grega mais antiga, agenetos e agennetos são ambos usados como quase sinônimos para exprimir o eterno não originado. Cf. Platão, Fedro 245 D, arche de ageneton, com Platão, Timeu 52 A, touton de houtos echonton homologeteon hen men einai to kata tauta eidos echon, agenneton kai anolethron. E o uso patrístico mais antigo, de modo semelhante, entendia por gennetos e agennetos “criado” e “incriado”, como em Inácio, Aos efésios 7, onde nosso Senhor é chamado gennetos kai agennetos, en anthropo theos, en thanato zoe alethine. Cf. a nota do bispo Lightfoot. Mas “tal linguagem não está de acordo com as definições teológicas posteriores, que distinguiam cuidadosamente entre genetos e gennetos, entre agenetos e agennetos; de modo que genetos e agenetos respectivamente negavam e afirmavam a existência eterna, equivalendo a ktistos e aktistos, ao passo que gennetos e agennetos descreviam certas relações ontológicas, quer no tempo, quer na eternidade. Na linguagem teológica posterior, portanto, o Filho era gennetos mesmo na sua divindade. Veja-se especialmente João Damasceno, Sobre a fé ortodoxa I.8 (I, p. 135, Lequien): chre gar eidenai hoti to ageneton, dia tou henos n graphomenon, to aktiston e to me genomenon semainei, to de agenneton, dia ton duo nn graphomenon, deloi to me gennethen (pois é preciso saber que ageneton, escrito com um só n, significa o incriado ou o que não veio a ser, enquanto agenneton, escrito com dois nn, indica o que não foi gerado); donde ele tira a conclusão de que monos ho pater agennetos (só o Pai é não gerado) e monos ho huios gennetos (só o Filho é gerado)”. Bispo Lightfoot, Pais apostólicos, parte II, vol. II, p. 90, onde a história das palavras é discutida exaustivamente. Na época da controvérsia ariana, os defensores católicos eram cautelosos no emprego desses termos, por causa dos usos vis que os adversários faziam deles; assim São Basílio, Contra Eunômio IV, protesta contra o argumento ariano ei agennetos ho pater, gennetos de ho huios, ou tes autes ousias (se o Pai é não gerado e o Filho é gerado, não são da mesma essência). Cf. Atanásio, Sobre os sínodos, nesta coleção, p. 475, e Sobre os decretos, a respeito da confusão de Newman entre os termos, pp. 149 e 169.

7. Symphyes.

8. Cf. a nota à seção 15. Assim Atanásio, Sobre Mateus 11.22: Sphragis gar estin isotypos en heauto deiknys ton patera (pois Ele é um selo de igual forma, que mostra em si o Pai). Cf. Atanásio, Sobre os decretos § 20, e a nota 9 nesta coleção, p. 163. Cf. também Gregório de Nissa, Contra Eunômio II.12.

9. A autenticidade desta última parte do tratado foi contestada por Erasmo, sob a alegação de que o estilo é diferente do dos escritos mais sóbrios de Basílio. O bispo Jeremy Taylor segue Erasmo (vol. VI, ed. 1852, p. 427). Ela foi defendida por Casaubon, que lembra a citação, por São João Damasceno, dos Trinta capítulos a Anfilóquio. O Sr. C. F. H. Johnston observa: “A descoberta posterior das paráfrases siríacas do livro inteiro faz recuar esse argumento para cerca de cem anos da data em que São Basílio escreveu. O cuidado especial que São Basílio teve com a cópia do tratado e com sua chegada segura às mãos de Anfilóquio, e o valor que os amigos de ambos lhe atribuíam, tornam quase incrível a falsificação de metade do presente livro e sua substituição pelo original dentro desse período.” A seção 66 é citada como declaração autorizada sobre o uso correto da tradição, “como guia para a correta compreensão da Sagrada Escritura, para a correta ministração dos sacramentos e para a preservação dos ritos e cerimônias sagrados na pureza de sua instituição original”, no Catecismo maior da Igreja oriental, de Filareto. São Basílio, porém, é firme quanto à supremacia da Sagrada Escritura, como nas passagens citadas pelo bispo H. Browne, Sobre os Trinta e Nove Artigos: “Creia nas coisas que estão escritas; as coisas que não estão escritas, não as procure” (Homilia 29, contra os que caluniam a Santa Trindade). “É manifesta apostasia da fé e prova de arrogância rejeitar qualquer coisa do que está escrito ou introduzir qualquer coisa que não esteja” (Sobre a fé 1). Cf. também Cartas 105 e 159. Sobre o uso correto da tradição, cf. Hooker, Política eclesiástica LXV.2: “Para que, portanto, o nome de tradição não ofenda ninguém, considerando quanto por alguns tem sido e é abusado, entendemos por tradições as ordenanças feitas nos primórdios da religião cristã, estabelecidas com aquela autoridade que Cristo deixou à sua Igreja para as coisas indiferentes, e, nessa consideração, que devem ser observadas até que autoridade semelhante veja causas justas e razoáveis para alterá-las. De modo que as tradições eclesiásticas não devem ser rudemente e por atacado sacudidas fora, porque seus inventores foram homens.” Cf. Tertuliano, Prescrição contra os hereges 36, 20, 21: “Constat omnem doctrinam quae cum illis ecclesiis apostolicis matricibus et originalibus fidei conspiret veritati deputandam, id sine dubio tenentem quod ecclesiae ab apostolis, apostoli a Christo, Christus a Deo accepit” (consta que toda doutrina que concorda com aquelas igrejas apostólicas, matrizes e origens da fé, deve ser tida por verdade, pois sem dúvida conserva o que as igrejas receberam dos apóstolos, os apóstolos de Cristo, Cristo de Deus). Veja-se Thomasius, Dogmática cristã I, 105.

10. “Ton en te Ekklesia pephylagmenon dogmaton kai kerygmaton.” Dar o sentido aparente do original parece impossível, a não ser por uma paráfrase como a acima. Na Escritura, dogma, que ocorre cinco vezes (Lc 2.1; At 16.4; 17.7; Ef 2.15; Cl 2.14), tem sempre o seu sentido próprio de decreto ou ordenança. Cf. o bispo Lightfoot sobre Cl 2.14, e sua tese de que os pais gregos em geral se enganaram quanto à força da passagem ao entenderem dogmata, tanto em Colossenses como em Efésios, como as doutrinas e os preceitos do Evangelho. Kerygma ocorre oito vezes (Mt 12.41; Lc 11.32; Rm 16.25; 1Co 1.21; 2.4; 15.14; 2Tm 4.17; Tt 1.3), sempre no sentido de pregação ou proclamação. “O sentido cristão posterior de dogma, significando doutrina, veio do seu uso clássico secundário, em que se aplicava às ‘sentenças’ autorizadas e categóricas dos filósofos: cf. Justino Mártir, Primeira apologia 7: hoi en Hellesi ta autois aresta dogmatisantes ek pantos to heni onomati philosophias prosagoreuontai, kaiper ton dogmaton enantion onton.” [Todas as seitas em geral entre os gregos são conhecidas pelo nome comum de filosofia, embora suas doutrinas sejam diferentes.] Cícero, Acadêmicos II.19: “De suis decretis quae philosophi vocant dogmata” (acerca de seus decretos, que os filósofos chamam dogmata). “… Há uma aproximação do sentido eclesiástico em Inácio, Aos magnésios 13, bebaiothenai en tois dogmasin tou kyriou kai ton apostolon (ser firmados nos dogmata do Senhor e dos apóstolos).” Bispo Lightfoot, sobre Cl 2.14. As “doutrinas” dos hereges também são chamadas dogmata, como em Basílio, Cartas 261, e Sócrates, História eclesiástica III.10. Cf. o bispo Bull, Sermão 2: “os dogmata ou princípios dos saduceus”. Em Orígenes, Contra Celso III, p. 135, ed. Spencer, 1658, dogma se usa do evangelho ou ensino de nosso Senhor. O ponto peculiar no uso que São Basílio faz de dogmata é que ele emprega a palavra para doutrinas e práticas sancionadas na Igreja de modo privado e tácito (como aporreta, que se usa da doutrina esotérica dos pitagóricos, Platão, Fédon 62 B), ao passo que reserva kerygmata para o que hoje muitas vezes se entende por dogmata, isto é, “legitima synodo decreta” (o que foi decretado por sínodo legítimo). Cf. Cartas 52, onde ele fala do grande kerygma dos pais em Niceia. Nisso ele é apoiado por Eulógio, patriarca de Alexandria (579-607), de quem Fócio (Biblioteca, cód. 230, Migne, Patrologia grega 103, p. 1027) escreve: “Nesta obra”, isto é, no Discurso II, “ele diz que, das doutrinas (didagmaton) transmitidas na Igreja pelos ministros da palavra, umas são dogmata e outras kerygmata. A diferença é que os dogmata são anunciados com reserva e prudência, e muitas vezes são de propósito envoltos em obscuridade, para que as coisas santas não sejam expostas aos profanos nem as pérolas lançadas aos porcos. Os kerygmata, por outro lado, são anunciados sem nenhuma reserva.” Assim os editores beneditinos dizem que Orígenes (Contra Celso I.7) responde a Celso “praedicationem Christianorum toti orbi notiorem esse quam placita philosophorum: sed tamen fatetur, ut apud philosophos, ita etiam apud Christianos nonnulla esse veluti interiora, quae post exteriorem et propositam omnibus doctrinam tradantur” (que a pregação dos cristãos é mais conhecida do mundo inteiro que as opiniões dos filósofos; mas, ainda assim, admite que, como entre os filósofos, também entre os cristãos há certas coisas como que interiores, que se transmitem depois da doutrina exterior e proposta a todos). Sobre os kerygmata, eles anotam: “Videntur hoc nomine designari leges ecclesiasticae et canonum decreta quae promulgari in ecclesia mos erat, ut neminem laterent” (parece que com este nome se designam as leis eclesiásticas e os decretos dos cânones que era costume promulgar na igreja, para que não ficassem ocultos a ninguém). O Sr. C. F. H. Johnston observa: “O homoousion, que muitos hoje chamariam de dogma niceno (ta tou homoousiou dogmata, Sócrates, História eclesiástica III.10) porque foi proposto no Concílio de Niceia, era por essa razão chamado não dogma, mas kerygma, por São Basílio, que teria dito que ele se tornou o kerygma (definição) daquele concílio porque sempre tinha sido o dogma da Igreja.” Na filosofia extrateológica, dogma sempre significou uma opinião expressa com certeza, formalmente decretada ou não. Assim Shaftesbury, Reflexões diversas II.2: “Aquele que tem certeza, ou presume dizer que sabe, é, naquele particular, esteja enganado ou certo, um dogmatista.” Cf. Littré, no verbete, para uso semelhante em francês. Na teologia, a limitação romana moderna de dogma à doutrina decretada é ilustrada pela declaração do abade Bergier (Dicionário de teologia, ed. 1844) sobre a Imaculada Conceição da Bem-aventurada Virgem: “Or, nous convenons que ce n’est pas un dogme de foi” (ora, reconhecemos que não é um dogma de fé), porque, embora fosse opinião comum entre os romanistas, não havia sido assim declarada no Concílio de Trento. Desde a publicação do edito de Pio IX, de 1854, ela se tornou, para os ultramontanos, um “dogma de fé”.

11. 1Co 2.7. Haja ou não aqui uma referência consciente às palavras de São Paulo, parece haver, tanto no texto como na passagem citada, um emprego de mysterion em seu sentido próprio de segredo revelado aos iniciados.

12. Isto é, se nada tivesse peso senão o que foi escrito, que necessidade haveria de qualquer autorização? Não há necessidade de kerygma para um dogma expressamente escrito na Escritura.

13. Epi te anadeixei. A nota beneditina diz: “Non respicit Basilius ad ritum ostensionis Eucharistiae, ut multi existimarunt, sed potius ad verba Liturgiae ipsi ascriptae, cum petit sacerdos, ut veniat Spiritus sanctus hagiasai kai anadeixai ton men arton touton auto to timion soma tou kyriou. Haec autem verba epi te anadeixei, sic reddit Erasmus, cum ostenditur. Vituperat eum Ducaeus; sicque ipse vertit, cum conficitur, atque hanc interpretationem multis exemplis confirmat. Videtur tamen nihil prorsus vitii habitura haec interpretatio, Invocationis verba cum ostenditur panis Eucharistiae, id est, cum panis non jam panis est, sed panis Eucharistiae, sive corpus Christi ostenditur; et in liturgia, ut sanctificet et ostendat hunc quidem panem, ipsum pretiosum corpus Domini. Nam 1º Cur eam vocem reformidemus, qua Latini uti non dubitant, ubi de Eucharistia loquuntur? Quale est illud Cypriani in epistola 63 ad Caecilium: Vino Christi sanguis ostenditur. Sic etiam Tertullianus I Marc. c. 14: Panem quo ipsum corpus suum repraesentat. 2º Ut Graece, anadeixai, apophainein, ita etiam Latine, ostendere, corpus Christi praesens in Eucharistia significatione quodam modo exprimit. Hoc enim verbum non solum panem fieri corpus Domini significat, sed etiam fidem nostram excitat, ut illud corpus sub specie panis videndum, tegendum, adorandum ostendi credamus. Quemadmodum Irenaeus, cum ait lib. iv. cap. 33: Accipiens panem suum corpus esse confitebatur, et temperamentum calicis suum sanguinem conformavit, non solum mutationem panis et vini in corpus et sanguinem Christi exprimit, sed ipsam etiam Christi asseverationem, quae hanc nobis mutationem persuadet: sic qui corpus Christi in Eucharistia ostendi et repraesentari dicunt, non modo jejune et exiliter loqui non videntur, sed etiam acriores Christi praesentis adorandi stimulos subjicere. Poterat ergo retineri interpretatio Erasmi; sed quia viris eruditis displicuit, satius visum est quid sentirem in hac nota exponere.” (Basílio não se refere ao rito da ostensão da Eucaristia, como muitos pensaram, mas antes às palavras da liturgia a ele atribuída, quando o sacerdote pede que venha o Espírito Santo “para santificar e manifestar este pão como o próprio precioso corpo do Senhor”. Estas palavras, epi te anadeixei, Erasmo as traduz “quando é mostrado”. Ducaeus o censura e traduz “quando é feito”, e confirma essa interpretação com muitos exemplos. Parece, contudo, que não haveria defeito algum nesta interpretação: “as palavras da invocação quando se mostra o pão da Eucaristia”, isto é, quando o pão já não é pão, mas pão da Eucaristia, ou seja, quando se mostra o corpo de Cristo; e, na liturgia, “para que santifique e mostre este pão como o próprio precioso corpo do Senhor”. Pois, 1º, por que temeríamos uma palavra que os latinos não hesitam em usar quando falam da Eucaristia? Assim aquele dito de Cipriano, na carta 63, a Cecílio: “no vinho se mostra o sangue de Cristo”. Assim também Tertuliano, Contra Marcião I, cap. 14: “o pão com o qual representa o seu próprio corpo”. 2º, Assim como em grego anadeixai, apophainein, também em latim ostendere exprime de certo modo, pelo seu significado, o corpo de Cristo presente na Eucaristia. Pois esta palavra não só significa que o pão se torna o corpo do Senhor, mas também desperta a nossa fé, para que creiamos que aquele corpo é mostrado sob a espécie do pão para ser visto, coberto e adorado. Assim como Ireneu, quando diz, no livro IV, cap. 33, “tomando o pão, confessava que era o seu corpo, e confirmou que a mistura do cálice era o seu sangue”, exprime não só a mudança do pão e do vinho no corpo e no sangue de Cristo, mas também a própria afirmação de Cristo que nos persuade dessa mudança, assim os que dizem que o corpo de Cristo é mostrado e representado na Eucaristia não só não parecem falar de modo seco e pobre, mas até oferecem estímulos mais vivos para adorar a Cristo presente. Podia-se, portanto, manter a interpretação de Erasmo; mas, como desagradou a homens eruditos, pareceu melhor expor nesta nota o que penso.) Esta visão do sentido de anadeiknysthai e anadeixis como equivalentes a poiein e poiesis é confirmada e ilustrada por Suicer, no verbete: “Ex his jam satis liquere arbitror anadeixai apud Basilium id esse quod alii Graeci patres dicunt poiein vel apophainein soma Christou” (destas coisas julgo já estar bastante claro que anadeixai, em Basílio, é o que outros pais gregos chamam poiein ou apophainein soma Christou, fazer ou mostrar o corpo de Cristo). É um tanto curioso ver Belarmino (Sobre o sacramento da Eucaristia IV, § 14) interpretar a oração a Deus eulogesai kai hagiasai kai anadeixai como “ostende per effectum salutarem in mentibus nostris istum panem salutificatum non esse panem vulgarem sed coelestem” (mostra, pelo efeito salutar em nossas mentes, que este pão tornado salutar não é pão comum, mas celeste).

14. Sobre a unção dos catecúmenos, cf. Constituições apostólicas VII.22; dos batizados, Tertuliano, Sobre o batismo 7; dos confirmados, idem, 8; dos enfermos, veja-se Plumptre sobre Tg 5.14, na Cambridge Bible for Schools. Cf. Cartas 188.

15. Para a imersão tríplice, uma autoridade antiga é Tertuliano, Contra Práxeas 26. Cf. Gregório de Nissa, Sobre o batismo: hydati heautous enkryptomen… kai triton touto poiesantes (ocultamo-nos na água… e, tendo feito isto três vezes). Dictionary of Christian Antiquities I, 161.

16. Cf. minha nota sobre Teodoreto nesta coleção, p. 112.

17. A postura mais antiga de oração era de pé, com as mãos estendidas e erguidas para o céu e com o rosto voltado para o Oriente. Cf. a arte antiga, e especialmente as figuras dos “orantes”. Suas vestes ricas indicam menos a condição real que tinham nesta vida do que a felicidade esperada do Paraíso. Veja-se Dictionary of Christian Antiquities II, 1684.

18. “Levantados de novo com”: synanastantes.

19. Veja-se o título dos Salmos 6 e 12 na Authorized Version: “upon Sheminith” (sobre Seminite), à margem “the eighth” (a oitava). Septuaginta: hyper tes ogdoes. Vulgata: pro octava. Sobre as várias explicações da palavra hebraica, veja-se o Dictionary of the Bible, no verbete, onde o Dr. Aldis Wright se inclina à opinião de que se trata de uma melodia ou tom, e de que os hebreus não conheciam a oitava.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Blomfield Jackson (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 8, Nova York, 1895), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. Os sumários no começo de cada capítulo e as notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Basílio cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.