Basílio, Sobre o Espírito Santo · Capítulos 21 a 25

O testemunho da Escritura de que o Espírito é Senhor

A Escritura chama o Espírito de Senhor; ele é inacessível ao pensamento como o Pai e o Filho; glorificá-lo é enumerar os seus atributos.

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Capítulo XXI. Prova, pela Escritura, de que o Espírito é chamado Senhor

52. Mas por que obter para o nosso argumento uma vitória injusta, lutando por essas questões sem dignidade, quando está ao nosso alcance provar que a excelência da glória está acima de qualquer disputa, apresentando considerações mais elevadas? Se, de fato, repetirmos o que aprendemos da Escritura, cada um dos pneumatômacos talvez levante um clamor alto e veemente, tape os ouvidos, apanhe pedras ou qualquer outra coisa que lhe venha à mão como arma e investa contra nós. Mas a nossa própria segurança não deve ser posta por nós acima da verdade. Aprendemos do Apóstolo: “Que o Senhor conduza o coração de vocês ao amor de Deus e à perseverança de Cristo” (2Ts 3.5)1 por causa das nossas tribulações. Quem é o Senhor que conduz ao amor de Deus e à perseverança de Cristo nas tribulações? Respondam-nos aqueles que pretendem fazer do Espírito Santo um escravo. Pois, se o argumento tratasse de Deus Pai, certamente teria dito: ‘o Senhor conduza vocês ao seu próprio amor’; ou, se tratasse do Filho, teria acrescentado: ‘à sua própria perseverança’. Procurem, então, que outra Pessoa existe que seja digna de ser honrada com o título de Senhor. E paralela a esta é aquela outra passagem: “E o Senhor faça vocês crescerem e aumentarem no amor uns para com os outros e para com todos, como também nós para com vocês, a fim de que ele fortaleça o coração de vocês, isento de culpa em santidade, na presença de nosso Deus e Pai, na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, com todos os seus santos” (1Ts 3.12-13). Ora, que Senhor ele roga que fortaleça o coração dos fiéis de Tessalônica, isento de culpa em santidade, na presença de nosso Deus e Pai, na vinda de nosso Senhor? Respondam aqueles que põem o Espírito Santo entre os espíritos ministradores enviados para servir. Não podem. Por isso ouçam ainda outro testemunho, que chama o Espírito de Senhor de modo explícito. “O Senhor”, diz-se, “é o Espírito”; e ainda: “como do Senhor, o Espírito” (2Co 3.17-18).2 Mas, para não deixar lugar a objeção, citarei as próprias palavras do Apóstolo: “Pois, até o dia de hoje, o mesmo véu permanece sobre a leitura da antiga aliança; não foi tirado, pois só em Cristo ele é removido… Quando, porém, alguém se converte ao Senhor, o véu é tirado. Ora, este Senhor é o Espírito” (2Co 3.14, 16-17). Por que ele fala assim? Porque quem permanece no sentido nu da letra e nela se ocupa com as observâncias da Lei tem, por assim dizer, o próprio coração envolto pela aceitação judaica da letra, como por um véu; e isso lhe acontece por ignorar que a observância corporal da Lei é abolida pela presença de Cristo, visto que, dali em diante, os tipos são transferidos para a realidade. As lâmpadas se tornam desnecessárias com a chegada do sol; e, com o aparecimento da verdade, a função da Lei acaba, e a profecia é reduzida ao silêncio. Ao contrário, quem recebeu a capacidade de olhar até o fundo do sentido da Lei e, depois de atravessar a obscuridade da letra como através de um véu, chegar ao interior das coisas inefáveis, é semelhante a Moisés, que tirava o véu quando falava com Deus. Também ele se volta da letra para o Espírito. Assim, ao véu sobre o rosto de Moisés corresponde a obscuridade do ensino da Lei, e à conversão ao Senhor corresponde a contemplação espiritual. Quem, portanto, na leitura da Lei, tira a letra e se volta para o Senhor (e o Senhor é agora chamado o Espírito), torna-se além disso semelhante a Moisés, que teve o rosto glorificado pela manifestação de Deus. Pois, assim como os objetos que estão perto de cores brilhantes ficam eles mesmos tingidos pelo brilho que se espalha ao redor, assim também aquele que fixa firmemente o olhar no Espírito é de algum modo transfigurado pela glória do Espírito num esplendor maior, tendo o coração iluminado, por assim dizer, por uma luz que jorra da verdade do Espírito (cf. 2Co 3.18). E isto é ser “transformado da3 glória” do Espírito “para” a sua própria “glória”, não em grau mesquinho, nem de modo vago e indistinto, mas como se pode esperar de alguém que é iluminado pelo4 Espírito. Você não teme, ó homem, o Apóstolo quando diz: “Vocês são santuário de Deus, e o Espírito de Deus habita em vocês” (1Co 3.16)? Poderia ele jamais ter consentido em honrar com o título de “santuário” a morada de um escravo? Como pode quem chama a Escritura “inspirada por Deus” (2Tm 3.16), porque foi escrita pela inspiração do Espírito, usar a linguagem de quem o insulta e o rebaixa?

Capítulo XXII. Demonstração da comunhão natural do Espírito pelo fato de ser ele, tanto quanto o Pai e o Filho, inacessível ao pensamento.5

53. Além disso, a excelência suprema da natureza do Espírito se aprende não só por ter ele o mesmo título que o Pai e o Filho e participar das suas operações, mas também por ser ele, como o Pai e o Filho, inacessível ao pensamento. Pois o que nosso Senhor diz do Pai, como estando acima e além da concepção humana, e o que diz do Filho, essa mesma linguagem ele usa também a respeito do Espírito Santo. “Pai justo”, diz ele, “o mundo não te conheceu” (Jo 17.25), entendendo aqui por mundo não o todo complexo composto de céu e terra, mas esta nossa vida sujeita à morte6 e exposta a inúmeras vicissitudes. E, falando de si mesmo, diz: “Mais um pouco e o mundo não me verá mais; vocês, no entanto, me verão” (Jo 14.19); de novo, nesta passagem, aplica a palavra mundo àqueles que, presos a esta vida material e carnal e contemplando7 a verdade só com a vista material,8 estavam destinados, por sua incredulidade na ressurreição, a não ver mais nosso Senhor com os olhos do coração. E disse o mesmo a respeito do Espírito: “o Espírito da verdade”, diz ele, “que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece. Vocês o conhecem, porque ele habita com vocês” (Jo 14.17). Pois o homem carnal, que nunca exercitou a mente na contemplação,9 mas antes a mantém enterrada fundo no desejo da carne,10 como na lama, é incapaz de erguer os olhos para a luz espiritual da verdade. E assim o mundo, isto é, a vida escravizada pelas paixões da carne, não pode receber a graça do Espírito, assim como um olho fraco não pode receber a luz de um raio de sol. Mas o Senhor, que pelo seu ensino deu testemunho da pureza de vida, concede aos seus discípulos o poder de agora não só ver, mas também contemplar o Espírito. Pois, diz ele, “Vocês já estão limpos por causa da palavra que lhes tenho falado” (Jo 15.3); por isso “o mundo não o pode receber, porque não o vê, … Vocês o conhecem, porque ele habita com vocês” (Jo 14.17). E assim diz Isaías: “Aquele que estendeu a terra e o que dela sai; que dá fôlego ao povo que está sobre ela e Espírito aos que a pisam” (Is 42.5);11 pois os que pisam as coisas terrenas e se elevam acima delas recebem o testemunho de serem dignos do dom do Espírito Santo. Que se deve pensar, então, daquele que o mundo não pode receber e que só os santos podem contemplar, pela pureza de coração? Que honras podem ser consideradas à sua altura?

Capítulo XXIII. Glorificar o Espírito é enumerar os seus atributos

54.12 Ora, de cada uma das demais Potestades se crê que está num lugar circunscrito. O anjo que se apresentou a Cornélio (cf. At 10.3) não estava, no mesmo momento, com Filipe (cf. At 8.26); nem o anjo que falou com Zacarias junto ao altar ocupava, ao mesmo tempo, o seu posto no céu. Mas do Espírito se crê que operava ao mesmo tempo em Habacuque e em Daniel na Babilônia (cf. Bel e o Dragão 34), que esteve na prisão com Jeremias (cf. Jr 20.2)13 e com Ezequiel junto ao Quebar (cf. Ez 1.1). Pois o Espírito do Senhor enche o mundo (cf. Sb 1.7), e “Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua face?” (Sl 139.7). E, nas palavras do Profeta: “Porque eu estou com vocês, diz o Senhor… o meu Espírito habita no meio de vocês” (Ag 2.4-5). Mas que natureza convém atribuir àquele que está presente em toda parte e existe junto com Deus? A natureza que tudo abrange, ou uma que se limita a lugares determinados, como a que o nosso argumento mostra ser a natureza dos anjos? Ninguém diria isso. Não exaltaremos, então, grandemente aquele que é divino por natureza, infinito em grandeza, poderoso nas operações, bom nos benefícios que concede? Não lhe daremos glória? E entendo por glória nada mais do que a enumeração das maravilhas que lhe são próprias. Segue-se, então, que ou os nossos adversários nos proíbem até de mencionar os bens que dele nos vêm, ou então a simples recapitulação dos seus atributos é a mais plena atribuição de glória possível. Pois nem mesmo no caso do Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo e do Filho Unigênito somos capazes de lhes dar glória de outro modo senão narrando, na medida das nossas forças, todas as maravilhas que lhes pertencem.

Capítulo XXIV. Prova do absurdo de recusar glorificar o Espírito, pela comparação com as coisas glorificadas na criação

55. Além disso, o homem é “coroado de glória e de honra” (Sl 8.5), e “glória, honra e paz” estão reservadas por promessa “a todo aquele que pratica o bem” (Rm 2.10). Há também uma glória especial e própria dos israelitas, “aos quais”, diz-se, “pertencem a adoção e a glória… e o culto” (Rm 9.4); e o salmista fala de uma certa glória sua: “para que a minha glória te cante louvores” (Sl 30.12); e ainda: “Desperta, glória minha” (Sl 57.8); e, segundo o Apóstolo, há uma certa glória do sol, da lua e das estrelas (cf. 1Co 15.41), e “o ministério da condenação é glorioso” (2Co 3.9). Se, pois, tantas coisas são glorificadas, você quer que só o Espírito, entre todas, fique sem glória? E, no entanto, o Apóstolo diz: “o ministério do Espírito é glorioso” (2Co 3.8). Como, então, pode ele mesmo ser indigno de glória? Como pode, segundo o salmista, ser grande a glória do justo (cf. Sl 21.5) e, segundo vocês, nula a glória do Espírito? Como não há um perigo evidente de, com tais argumentos, atrairmos sobre nós o pecado do qual não há escapatória? Se o homem que está sendo salvo por obras de justiça glorifica até os que temem o Senhor (cf. Sl 15.4), muito menos privaria o Espírito da glória que lhe é devida.

Admita-se, dizem eles, que ele deva ser glorificado, mas não com o Pai e o Filho. Mas que razão há em abandonar o lugar designado pelo Senhor para o Espírito e inventar algum outro? Que razão há para roubar a sua parte na glória àquele que em toda parte está associado à divindade: na confissão da fé, no batismo da redenção, na operação dos milagres, na habitação nos santos, nas graças concedidas à obediência? Pois não há sequer um único dom que chegue à criação sem o Espírito Santo (cf. Mt 28.19; 1Co 12.11; Rm 8.11; 1Pe 1.2), quando nem uma só palavra pode ser dita em defesa de Cristo a não ser por aqueles que são assistidos pelo Espírito, como aprendemos nos Evangelhos de nosso Senhor e Salvador (cf. Mt 10.19-20). E não sei se alguém que se tornou participante do Espírito Santo consentirá em que deixemos de lado tudo isso, esqueçamos a sua comunhão em todas as coisas e arranquemos o Espírito do Pai e do Filho. Onde, então, devemos tomá-lo e classificá-lo? Com a criatura? Mas toda a criatura está em servidão, ao passo que o Espírito liberta: “e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (2Co 3.17). Muitos argumentos se poderiam apresentar a eles para mostrar que é impróprio pôr o Espírito Santo no mesmo plano da natureza criada, mas por ora vou deixá-los de lado. Se eu, de fato, apresentasse, de modo condizente com a dignidade da discussão, todas as provas sempre disponíveis do nosso lado, e assim derrubasse as objeções dos nossos adversários, seria necessária uma longa dissertação, e os meus leitores poderiam cansar-se da minha prolixidade. Proponho-me, portanto, reservar este assunto para um tratado especial14 e dedicar-me às questões que agora estão mais imediatamente diante de nós.

56. Examinemos, pois, os pontos um a um. Ele é bom por natureza, do mesmo modo que o Pai é bom e o Filho é bom; a criatura, ao contrário, participa da bondade escolhendo o bem. Ele conhece “as profundezas de Deus” (1Co 2.10-11); a criatura recebe pelo Espírito a manifestação das coisas inefáveis. Ele vivifica juntamente com Deus, que gera e conserva vivas todas as coisas,15 e juntamente com o Filho, que dá a vida. “Aquele que ressuscitou Cristo dentre os mortos”, diz-se, “vivificará também o corpo mortal de vocês, por meio do seu Espírito, que habita em vocês” (Rm 8.11); e ainda: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz… Eu lhes dou a vida eterna” (Jo 10.27-28); mas também “o Espírito”, diz-se, “vivifica” (2Co 3.6); e ainda: “o Espírito”, diz-se, “é vida, por causa da justiça” (Rm 8.10). E o Senhor dá testemunho de que “o Espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita” (Jo 6.63). Como, então, alienaremos o Espírito do seu poder vivificante e o faremos pertencer à natureza sem vida? Quem é tão contencioso, quem é tão completamente desprovido do dom celestial (cf. Hb 6.4) e não alimentado pelas boas palavras de Deus, quem é tão alheio a qualquer parte e herança nas esperanças eternas, que separe o Espírito da divindade e o coloque entre as criaturas?

57. Ora, alega-se que o Espírito está em nós como um dom de Deus, e que o dom não é reverenciado com a mesma honra que se atribui ao doador. O Espírito é dom de Deus, mas dom de vida, pois a lei “do Espírito da vida”, diz-se, nos “livrou” (Rm 8.2); e dom de poder, pois “vocês receberão poder, ao descer sobre vocês o Espírito Santo” (At 1.8). Deve ele, por isso, ser tido em pouca conta? Não deu Deus também o seu Filho como dom gratuito à humanidade? “Aquele que não poupou o seu próprio Filho”, diz-se, “mas por todos nós o entregou, será que não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?” (Rm 8.32). E em outro lugar: “para que conheçamos verdadeiramente o que por Deus nos foi dado gratuitamente” (1Co 2.12), em referência ao mistério da encarnação. Segue-se, então, que os que sustentam tais argumentos, fazendo da grandeza da bondade amorosa de Deus ocasião de blasfêmia, superaram de fato a ingratidão dos judeus. Censuram o Espírito porque ele nos dá a liberdade de chamar Deus de nosso Pai. “Porque Deus enviou o Espírito de seu Filho ao” nosso “coração, que clama: Aba, Pai” (Gl 4.6), para que a voz do Espírito se torne a própria voz dos que o receberam.

Capítulo XXV. Que a Escritura usa as palavras “em” ou “por” (en) em lugar de “com”. Onde também se prova que a palavra “e” tem a mesma força que “com”

58. Os nossos adversários, porém, perguntam como é que a Escritura em parte alguma descreve o Espírito como glorificado juntamente com o Pai e o Filho, mas evita cuidadosamente o uso da expressão “com o Espírito”, ao passo que em toda parte prefere atribuir glória “nele”, como sendo a expressão mais adequada. De minha parte, eu negaria que a palavra “em” [ou “por”] implique dignidade inferior à da palavra “com”; sustentaria, ao contrário, que, bem entendida, ela nos eleva ao sentido mais alto possível. É o que acontece quando, como observamos, ela muitas vezes está no lugar de com; por exemplo: “Entrarei na tua casa em holocaustos” (Sl 66.13), em vez de com holocaustos; e “fê-los sair também por prata e ouro” (Sl 105.37), isto é, com prata e ouro; e “não sais em nossos exércitos” (Sl 44.9), em vez de com nossos exércitos; e inúmeras passagens semelhantes. Em suma, eu gostaria muito de aprender desta filosofia recém-inventada que espécie de glória o Apóstolo atribuiu pela palavra em, segundo a interpretação que os nossos adversários apresentam como tirada da Escritura; pois em parte alguma encontrei a fórmula “A ti, ó Pai, honra e glória, por meio do teu Filho unigênito, pelo [ou no] Espírito Santo”, forma que, para os nossos adversários, sai por assim dizer tão naturalmente quanto o ar que respiram. É verdade que se pode encontrar cada uma dessas cláusulas separadamente,16 mas em parte alguma poderão mostrá-las a nós dispostas nessa combinação. Se, pois, querem conformidade exata com o que está escrito, deem-nos referências exatas. Se, por outro lado, fazem concessão ao costume, não devem excluir-nos desse privilégio.

59. Como encontramos as duas expressões em uso entre os fiéis, usamos ambas, na convicção de que por ambas se dá igualmente ao Espírito a glória plena. A boca dos que caluniam a verdade, porém, pode ser fechada melhor pela preposição que, tendo o mesmo sentido que a das Escrituras, não é arma tão manejável para os nossos adversários (aliás, ela é agora alvo do seu ataque) e é usada em lugar da conjunção “e”. Pois dizer “Paulo, Silvano e Timóteo” (1Ts 1.1) é exatamente o mesmo que dizer Paulo com Timóteo e Silvano; pois a ligação dos nomes se preserva em qualquer dos dois modos de expressão. O Senhor diz: “o Pai, o Filho e o Espírito Santo” (Mt 28.19). Se eu disser o Pai e o Filho com o Espírito Santo, farei alguma diferença no sentido? Da ligação de nomes por meio da conjunção “e” os exemplos são muitos. Lemos: “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo” (2Co 13.13); e ainda: “Peço a vocês, por nosso Senhor Jesus Cristo e também pelo amor do Espírito” (Rm 15.30). Ora, se quisermos usar “com” em vez de “e”, que diferença teremos feito? Eu não vejo, a não ser que alguém, segundo regras gramaticais rígidas, prefira a conjunção por ser copulativa e tornar a união mais forte, e rejeite a preposição como de força inferior. Mas, se tivéssemos de nos defender nesses pontos, não creio que precisaríamos de uma defesa de muitas palavras. Na verdade, a discussão deles não é sobre sílabas, nem sobre este ou aquele som de uma palavra, mas sobre coisas que diferem amplamente em poder e em verdade. É por isso que, embora o uso das sílabas seja na realidade assunto sem importância alguma, os nossos adversários se esforçam por autorizar algumas sílabas e expulsar outras da Igreja. De minha parte, embora a utilidade da palavra seja evidente assim que é ouvida, exporei mesmo assim as razões que levaram os nossos pais a adotar o sensato procedimento de empregar a preposição “com”.17 Ela refuta, de fato, tão bem quanto a conjunção “e”, o erro pernicioso de Sabélio;18 e expõe tão bem quanto o “e” a distinção das hipóstases, como nas palavras “Eu e meu Pai viremos”19 e “Eu e o Pai somos um” (Jo 10.30). Além disso, a prova que ela contém da comunhão eterna e da união ininterrupta é excelente. Pois dizer que o Filho está com o Pai é mostrar ao mesmo tempo a distinção das hipóstases e a inseparabilidade da comunhão. O mesmo se observa até nos assuntos meramente humanos, pois a conjunção “e” indica que há um elemento comum numa ação, ao passo que a preposição “com” declara, em certo sentido, também a comunhão na ação. Por exemplo: Paulo e Timóteo navegaram para a Macedônia, e tanto Tíquico como Onésimo foram enviados aos colossenses. Daí aprendemos que fizeram a mesma coisa. Mas suponha que nos digam que navegaram juntos e foram enviados juntos? Então somos informados, além disso, de que realizaram a ação em companhia um do outro. Assim, enquanto a palavra “com” derruba o erro de Sabélio como nenhuma outra palavra pode fazer, desbarata também os pecadores que erram na direção exatamente oposta; refiro-me àqueles que separam o Filho do Pai e o Espírito do Filho por intervalos de tempo.20

60. Em comparação com “em”, há esta diferença: enquanto “com” expõe a união mútua das partes associadas (por exemplo, dos que navegam com, ou moram com, ou fazem qualquer outra coisa em comum), “em” mostra a relação delas com aquilo em que estão agindo. Pois, mal ouvimos as palavras “navegar em” ou “morar em”, formamos a ideia do barco ou da casa. Tal é a distinção entre essas palavras no uso comum; e uma investigação laboriosa poderia descobrir outros exemplos. Não tenho tempo para examinar a natureza das sílabas. Visto, então, que se mostrou que “com” dá com toda a clareza o sentido de união, seja ela declarada, se vocês quiserem, sob salvo-conduto, e cessem de lhe mover a sua guerra selvagem e sem trégua. No entanto, embora a palavra seja por natureza tão favorável, se alguém prefere, na atribuição de louvor, unir os nomes pela sílaba “e” e dar glória, como aprendemos no Evangelho, na fórmula do batismo, Pai e Filho e Espírito Santo (Mt 28.19), assim seja: ninguém fará objeção. Nessas condições, se vocês quiserem, cheguemos a um acordo. Mas os nossos inimigos prefeririam entregar a própria língua a aceitar essa palavra. É ela que levanta contra nós a sua guerra implacável e sem trégua. Devemos oferecer a atribuição de glória a Deus, alega-se, “no Espírito Santo”, e não “e ao Espírito Santo”; e eles se apegam apaixonadamente a essa palavra “em”, como se ela rebaixasse o Espírito. Não será, pois, sem proveito falar dela mais longamente; e ficarei espantado se, depois de ouvirem o que temos a alegar, eles não rejeitarem o próprio “em” como traidor da sua causa e desertor para o lado da glória do Espírito.

Notas

1. Uma nota dos editores beneditinos sobre esta passagem diz: “É preciso admitir que estas palavras não se acham no texto sagrado e faltam em três manuscritos desta obra. Além disso, no Regius Quintus só foram inseridas por uma segunda mão; mas, como pouco depois são repetidas por Basílio como se tiradas do contexto sagrado, não quero suprimi-las, e é mais provável que tenham sido retiradas dos manuscritos em que faltam, por não se acharem no apóstolo, do que acrescentadas, sem razão alguma, aos manuscritos em que aparecem.”

2. Citado, na tradução inglesa, segundo a Revised Version. Em Contra Eunômio III.3, são Basílio havia aplicado o v. 17 ao Filho, tomando pneuma como designação de nosso Senhor. “Isto foi escrito”, acrescenta o sr. C. F. H. Johnston, “durante o presbiterato de são Basílio, pelo menos dez anos antes.”

3. São Basílio dá a apo o sentido de “por”. Assim também Teodoreto, Ecumênio, Teofilacto e Bengel; cf. Alford sobre a passagem. O alemão consegue repetir a preposição, como o grego e o latim: “von einer Klarheit zu der andern, als vom Herrn”.

4. Apo.

5. Pros theorian dusephikton. O latim dos beneditinos traz “incomprehensibilis”, mas este corresponde antes a akataleptos. O “incomprehensible” do Credo Atanasiano é “immensus”.

6. Epikeros. A força da palavra aplicada a esta vida é ilustrada pelo 61º epigrama de Calímaco: Tis, xenos, o nauege? Leontichos enthade nekron heuren ep’ aigialois, chose de tode tapho dakrusas epikeron eon bion; oude gar autos hesuchos, aithuies d’ isa thalassoporei.

7. Epiblepontas, leitura do manuscrito de Viena; o texto comum traz epitrepontas.

8. Monois ophthalmois.

9. Agumnaston echon ton noun. Cf. Hb 5.14.

10. To phronemati tes sarkos. Cf. Rm 8.6: to gar phronema tes sarkos thanatos.

11. Septuaginta, patousin auten. É assim que o argumento de são Basílio exige que se traduza a Septuaginta. O “walk therein” (“andam nela”) da Authorized Version não sustentaria o seu sentido. Para esse uso de patein, cf. Sófocles, Antígona 745: ou gar sebeis timas ge tas theon paton. Assim também na Vulgata lemos “et spiritum calcantibus eam”, tendo calcare o sentido de “pisar”, “calcar aos pés”, como em Juvenal, Sátiras X.86: “calcemus Caesaris hostem”. O hebraico não tem esse sentido.

12. Aqui os editores beneditinos começam o capítulo XXIII, observando que o fazem “cum plures mss. codices, tum ipsam sermonis seriem et continuationem secuti. Liquet enim hic Basilium ad aliud argumentum transire” (“seguindo tanto vários códices manuscritos como a própria sequência e continuidade do discurso, pois é claro que aqui Basílio passa a outro argumento”). Outra divisão do texto faz o capítulo XXIII começar com as palavras “Mas não entendo por glória”.

13. Septuaginta: eis ton katarrhakten hos en en te pule. Katarrhaktes ton pulon ocorre em Dionísio de Halicarnasso VIII.67, no mesmo sentido que o latim cataracta (Lívio XXVII.27), uma grade levadiça. A Vulgata traz in nervum, que pode significar tanto grilhão como cárcere. O hebraico significa “tronco”, como na Authorized Version e na Revised Version. Pode-se supor que katarrhaktes, no texto de Basílio e na Septuaginta, signifique prisão, pela ideia da grade de barras sobre a porta. Cf. Du Cange, verbete cataracta.

14. O sr. C. F. H. Johnston conjectura que a alusão seja à Homilia 24, “Contra Sabellianos et Arium et Anomoeos” (“Contra os sabelianos, Ário e os anomeus”).

15. Em 1Tm 6.13, são Paulo escreve tou theou tou zoopoiountos panta. No texto, são Basílio escreve ta panta zoogonountos. Esta última palavra se distingue propriamente da primeira por significar não fazer viver depois da morte, mas gerar vivo. Em Lc 17.33 a Authorized Version a traduz por “preserve” (“conservar”). Em At 7.19, aparece como “to the end they might not live” (“para que não vivessem”). Sobre o sentido de zoogonein na Septuaginta e os argumentos socinianos baseados no seu uso em Lc 17.33, cf. Pearson, On the Creed, art. V, nota à p. 257 da ed. de 1676.

16. Em Ef 2.18 elas aparecem combinadas, mas nenhuma doxologia da Escritura usa en a respeito do Espírito.

17. “A explicação de são Basílio sobre a razão do uso de meta, sun na doxologia não é confirmada por nenhum escritor anterior ou contemporâneo, até onde o editor sabe, nem é contestada.” Rev. C. F. H. Johnston.

18. “Sabélio costuma ser situado em meados do século III, e o sr. Clinton dá os anos 256-270 d.C. como o seu período de atividade. A descoberta dos Philosophumena de Hipólito provou que isso é um engano e recuou o seu período para o fim do século II e o começo do III… Ele estava em plena atividade em Roma durante o episcopado de Zeferino, 198-217 d.C.” Professor Stokes, em Dictionary of Christian Biography IV, 569. Para as opiniões de Basílio sobre o sabelianismo, veja Cartas 210, 214 e 235. No seu Compêndio das fábulas heréticas II.9, Teodoreto escreve: “Sabélio dizia que Pai, Filho e Espírito Santo eram uma só hipóstase, uma só pessoa sob três nomes; e descreve o mesmo ora como Pai, ora como Filho, ora como Espírito Santo. Diz que no Antigo Testamento ele deu leis como Pai, encarnou-se no Novo como Filho e visitou os apóstolos como Espírito Santo.” Assim também na Ekthesis tes kata meros pisteos (Exposição da fé em partes), obra falsamente atribuída a Gregório Taumaturgo e talvez devida a Apolinário (cf. Teodoreto, Diálogos III): “Evitamos Sabélio, que diz que o Pai e o Filho são o mesmo, chamando Pai àquele que fala, e Filho ao Verbo, que permanece no Pai, se manifesta no momento da criação e, completadas as coisas, retorna ao Pai. Diz o mesmo do Espírito Santo.”

19. Ao que parece, referência imprecisa a Jo 14.23.

20. Isto é, os arianos, que diziam do Filho: “Houve um tempo em que ele não existia”; e os pneumatômacos, que faziam do Espírito um ser criado.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Blomfield Jackson (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 8, Nova York, 1895), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. Os sumários no começo de cada capítulo e as notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Basílio cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.