Cirilo de Jerusalém, Catequeses · Catequese I
Primeira instrução aos candidatos ao batismo: deixar o velho homem, confessar os pecados e preparar a alma para receber a graça.
Isaías 1.16
Lavem-se e purifiquem-se; tirem as suas maldades das suas almas, de diante dos meus olhos, e o que segue.
1. Discípulos do Novo Testamento e participantes dos mistérios de Cristo, por enquanto só pelo chamado, mas em breve também pela graça, “façam para vocês um coração novo e um espírito novo” (Ez 18.31), para que haja alegria entre os habitantes do céu: pois, se “há alegria por um só pecador que se arrepende”, conforme o Evangelho (Lc 15.7), quanto mais a salvação de tantas almas não há de levar os habitantes do céu a se alegrarem! Já que vocês entraram num caminho bom e gloriosíssimo, corram com reverência a carreira da piedade. Pois o Filho unigênito de Deus está presente aqui, prontíssimo para resgatá-los, e diz: “Venham a mim todos vocês que estão cansados e sobrecarregados, e eu os aliviarei” (Mt 11.28). Vocês que estão vestidos com a roupa áspera2 das suas ofensas, que “estão presos com as cordas dos seus próprios pecados” (Pv 5.22), ouçam a voz do profeta que diz: “Lavem-se e purifiquem-se, tirem as suas maldades de diante dos meus olhos” (Is 1.16), para que o coro dos anjos cante sobre vocês: “Bem-aventurados aqueles cujas iniquidades são perdoadas e cujos pecados são cobertos” (Sl 32.1)3. Vocês que acabam de acender as tochas da fé4, guardem-nas com cuidado nas mãos, sem deixar que se apaguem; para que aquele que outrora, neste santíssimo Gólgota, abriu o paraíso ao ladrão por causa da fé dele, conceda a vocês cantar o cântico nupcial.
2. Se alguém aqui é escravo do pecado, prepare-se sem demora, pela fé, para o novo nascimento que o leva à liberdade e à adoção; e, tendo se despojado da miserável escravidão dos seus pecados e tomado sobre si a bem-aventurada servidão do Senhor, seja assim considerado digno de herdar o reino dos céus. “Despojem-se”, pela confissão, “do velho homem, que se corrompe segundo as paixões do engano”, para que “se revistam do novo homem, que se renova segundo o conhecimento daquele que o criou” (Ef 4.22; Cl 3.10). Adquiram pela fé “o penhor do Espírito Santo” (2Co 1.22), para que possam ser recebidos “nos tabernáculos eternos” (Lc 16.9). Venham buscar o selo místico, para que sejam facilmente reconhecidos pelo Senhor; sejam contados entre o rebanho santo e espiritual de Cristo, para serem postos à parte, à sua direita, e herdarem a vida preparada para vocês. Pois aqueles em quem ainda se agarra a roupa áspera5 dos seus pecados ficam à esquerda, porque não vieram à graça de Deus que é dada por Cristo no novo nascimento do batismo: novo nascimento, digo, não dos corpos, mas o novo nascimento espiritual da alma. Pois os nossos corpos são gerados por pais que se veem, mas as nossas almas são geradas de novo pela fé, porque “o Espírito sopra onde quer” (Jo 3.8). E então, se você for achado digno, poderá ouvir: “Muito bem, servo bom e fiel” (Mt 25.21), quando se verificar que não há na sua consciência nenhuma mancha de hipocrisia.
3. Pois, se algum dos presentes pensar em pôr à prova a graça de Deus, engana a si mesmo e não conhece o poder dela. Guarde a sua alma livre de hipocrisia, ó homem, por causa daquele “que sonda os corações e os rins” (Sl 7.9). Pois, assim como aqueles que vão recrutar soldados para a guerra examinam a idade e o corpo dos que se alistam, também o Senhor, ao alistar almas, examina a intenção delas: e, se alguém guarda uma hipocrisia oculta, ele rejeita esse homem como inapto para o seu verdadeiro serviço; mas, se encontra alguém digno, a esse dá de boa vontade a sua graça. Ele não dá aos cães o que é santo (Mt 7.6); mas, onde discerne a boa consciência, ali dá o selo da salvação, aquele selo admirável diante do qual os demônios tremem e que os anjos reconhecem; de modo que aqueles são postos em fuga, e estes o guardam ao redor como coisa da sua própria família. Os que recebem, pois, este selo espiritual e salvador precisam também de uma disposição que lhe corresponda. Pois, assim como a pena de escrever ou o dardo precisam de alguém que os use, também a graça precisa de mentes que creiam.
4. Você não está recebendo um escudo perecível, mas um escudo espiritual. Daqui em diante você está plantado no paraíso invisível6. Recebe um nome novo, que antes não tinha. Até agora você era catecúmeno, mas agora será chamado fiel. Daqui em diante você é transplantado para o meio das oliveiras espirituais7, enxertado da oliveira brava na oliveira boa (Rm 11.24), dos pecados para a justiça, das impurezas para a pureza. Você se torna participante da videira santa (Jo 15.1, 4-5). Pois bem, se permanecer na videira, você cresce como ramo que dá fruto; mas, se não permanecer, será consumido pelo fogo. Demos, portanto, fruto de modo digno. Deus nos livre de acontecer conosco o que aconteceu com aquela figueira estéril (Mt 21.19), e que Jesus não venha agora nos amaldiçoar pela nossa esterilidade. Que todos, ao contrário, possam usar aquela outra palavra: “Eu, porém, sou como oliveira frutífera na casa de Deus; confiei na misericórdia de Deus para sempre” (Sl 52.8), uma oliveira que não se percebe pelos sentidos, mas pela mente8, e cheia de luz. Assim como a ele cabe plantar e regar (1Co 3.6)9, a você cabe dar fruto: a Deus cabe conceder a graça, mas a você, recebê-la e guardá-la. Não despreze a graça por ser dada de graça, mas receba-a e guarde-a como um tesouro, com devoção.
5. Este é o tempo da confissão: confesse o que você fez por palavra ou por obra, de noite ou de dia; confesse “no tempo aceitável” e, “no dia da salvação” (2Co 6.2), receba o tesouro celestial. Dedique o seu tempo aos exorcismos: seja assíduo às catequeses e lembre-se das coisas que serão ditas, pois não são ditas só para os seus ouvidos, mas para que, pela fé, você as sele na memória. Apague da sua mente toda preocupação terrena10, pois você está correndo pela sua alma. Você está deixando por completo as coisas do mundo: pequenas são as coisas que você deixa, grandes as que o Senhor está dando. Deixe as coisas presentes e ponha a sua confiança nas que hão de vir. Você passou tantas voltas de anos ocupado em vão com o mundo, e não terá quarenta dias livres (para a oração11), por amor da sua própria alma? “Aquietem-se12 e saibam que eu sou Deus” (Sl 46.10), diz a Escritura. Dispense-se de falar muitas palavras ociosas: não fale mal de ninguém, nem dê ouvidos de boa vontade aos maldizentes; seja, antes, pronto para a oração. Mostre nos exercícios de ascese que o seu coração está fortalecido13. Purifique o seu vaso, para que receba a graça com mais abundância. Pois, embora a remissão dos pecados seja dada igualmente a todos, a comunhão do Espírito Santo é concedida na proporção da fé de cada um. Se você trabalhou pouco, recebe pouco; mas, se fez muito, a recompensa é grande. Você está correndo para si mesmo; cuide do seu próprio interesse.
6. Se você tem alguma coisa contra alguém, perdoe: você vem aqui para receber o perdão dos pecados, e também você precisa perdoar quem pecou contra você. Do contrário, com que cara dirá ao Senhor: “Perdoa os meus muitos pecados”, se você mesmo não perdoou ao seu conservo nem mesmo os pecados pequenos? Frequente com diligência as reuniões da Igreja; não só agora, quando o clero exige de você essa assiduidade, mas também depois de ter recebido a graça. Pois, se antes de recebê-la a prática é boa, não será boa também depois de concedida? Se, antes de ser enxertado, é coisa segura ser regado e cuidado, não será muito melhor depois de plantado? Lute pela sua própria alma, sobretudo em dias como estes. Alimente a sua alma com as leituras sagradas, pois o Senhor preparou para você uma mesa espiritual. Por isso, diga você também com o salmista: “O Senhor é o meu pastor, e nada me faltará: num lugar de pastagem, ali me fez repousar; alimentou-me junto às águas do conforto, converteu a minha alma” (Sl 23.1-3); para que também os anjos participem da alegria de vocês, e o próprio Cristo, o grande sumo sacerdote, aceitando a decisão de vocês, apresente todos vocês ao Pai, dizendo: “Eis aqui estou eu e os filhos que Deus me deu” (Is 8.18; Hb 2.13). Que ele conserve todos vocês agradáveis aos seus olhos! A ele sejam a glória e o poder pelos séculos sem fim da eternidade. Amém.
1. O título desta catequese vem por extenso. Nas catequeses seguintes, a forma será abreviada.
2. Compare a Catequese XV, 25.
3. Veja Procatequese, 15.
4. Veja Procatequese, 1, e a nota ali sobre as tochas.
5. Compare a Catequese XV, 25.
6. Gr. noeton, isto é, o verdadeiro paraíso, que se vê com a mente, não com os olhos (Ap 2.7, 17).
7. Veja a nota anterior.
8. Gr. noete; veja a nota 6, acima.
9. Quando Paulo planta e Apolo rega, é o próprio Deus quem age por meio dos seus ministros.
10. Literalmente, “humana”.
11. Alguns manuscritos omitem te proseuche depois de scholazeis.
12. Gr. scholasate. Compare Procatequese, 13.
13. Compare Procatequese, 17; Catequese XVIII, 1.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Edwin Hamilton Gifford (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 7, Nova York, 1894), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Cirilo cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.