Cirilo de Jerusalém, Catequeses · Catequese II

O arrependimento e a remissão dos pecados

O pecado nasce da vontade; o diabo tenta, mas não obriga; e os exemplos bíblicos do perdão de Deus aos que se arrependem.

Catequese II. Sobre o arrependimento e a remissão dos pecados, e sobre o adversário

Ezequiel 18.20-23
A justiça do justo ficará sobre ele, e a maldade do ímpio cairá sobre este. Mas, se o ímpio se converter de todos os pecados que cometeu, etc.

1. Coisa terrível é o pecado, e a doença mais grave da alma é a transgressão, que lhe corta às escondidas os nervos e se torna também causa do fogo eterno; mal escolhido pelo próprio homem, fruto da vontade. Que pecamos por nossa livre vontade, o profeta o diz claramente em certa passagem: “Eu, porém, plantei você como videira fecunda, toda verdadeira: como você se tornou amargura, (e se tornou) videira estranha?” (Jr 2.21). A plantação foi boa; o fruto que vem da vontade é que é mau; por isso, quem plantou não tem culpa, mas a videira será queimada no fogo, já que foi plantada para o bem e deu, por sua própria vontade, fruto para o mal. Pois Deus, segundo o Pregador, “fez o homem reto, mas eles mesmos buscaram muitas invenções” (Ec 7.29). “Pois somos feitura dele”, diz o apóstolo, “criados para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.10). Portanto, o Criador, sendo bom, criou para as boas obras; mas a criatura se voltou, por sua livre vontade, para a maldade. O pecado é, pois, como dissemos, um mal terrível, mas não incurável; terrível para quem se apega a ele, mas fácil de curar para quem, pelo arrependimento, o afasta de si. Imagine um homem que segura fogo na mão: enquanto segura firme a brasa, com certeza se queimará; mas, se largar a brasa, terá jogado fora também a chama junto com ela. Se, porém, alguém pensa que não está se queimando quando peca, a esse a Escritura diz: “Poderá alguém carregar fogo no colo, sem que as suas roupas se incendeiem?” (Pv 6.27). Pois o pecado queima os nervos da alma, [quebra os ossos espirituais da mente e escurece a luz do coração1 ].

2. Mas alguém dirá: “O que pode ser o pecado? É um ser vivo? É um anjo? É um demônio? O que é isto que age dentro de nós?” Não é um inimigo, ó homem, que ataca você de fora, mas um broto mau que cresce de dentro de você mesmo. Olhe direito com os seus olhos (Pv 4.25), e não haverá cobiça. [Guarde o que é seu e2 ] não tome o que é dos outros, e o roubo terá cessado3. Lembre-se do juízo, e nem a fornicação, nem o adultério, nem o homicídio, nem transgressão alguma da lei prevalecerão sobre você. Mas, sempre que você se esquece de Deus, logo começa a tramar a maldade e a cometer a iniquidade.

3. Mas você não é o único autor do mal: há também outro instigador, perversíssimo, o diabo. Ele, de fato, sugere, mas não domina pela força os que não consentem. Por isso diz o Pregador: “Se o espírito daquele que tem poder se levantar contra você, não deixe o seu lugar” (Ec 10.4)4. Feche a sua porta, ponha-o longe de você, e ele não lhe fará mal. Mas, se você admitir com indiferença o pensamento da cobiça, ele cria raízes em você pelas suas sugestões, escraviza a sua mente e o arrasta para um abismo de males.

Mas talvez você diga: “Eu sou fiel, e a cobiça não me domina, ainda que eu pense nela com frequência.” Você não sabe que uma raiz, de tanto insistir, chega a quebrar uma rocha? Não admita a semente, porque ela rasgará a sua fé: arranque o mal pela raiz antes que floresça, para que, por ter sido descuidado no começo, você não precise depois procurar machados e fogo. Quando os seus olhos começarem a adoecer, trate deles a tempo, para que você não fique cego e então tenha de procurar o médico.

4. O diabo é, pois, o primeiro autor do pecado e o pai dos ímpios: e esta é palavra do Senhor, não minha, que “o diabo vive pecando desde o princípio” (1Jo 3.8; Jo 8.44): ninguém pecou antes dele. Mas ele pecou, não por ter recebido da natureza, por necessidade, a inclinação para pecar, pois então a causa do pecado voltaria a recair sobre aquele que o fez assim; mas, tendo sido criado bom, tornou-se diabo por sua livre vontade e recebeu esse nome pela sua ação. Pois, sendo arcanjo, foi depois chamado diabo por causa da sua calúnia: de bom servo de Deus que era, passou a ser chamado, com razão, Satanás; pois “Satanás” se interpreta “o adversário” (1Rs 5.4). E isto não é ensino meu, mas do inspirado profeta Ezequiel: pois ele levanta uma lamentação sobre ele e diz: “Você era um selo de semelhança e uma coroa de beleza; no paraíso de Deus você nasceu” (Ez 28.12-17)5; e, logo depois: “Você nasceu irrepreensível nos seus dias, desde o dia em que foi criado, até que se acharam em você as suas iniquidades.” Com toda razão ele disse “se acharam em você”, pois não foram trazidas de fora, mas foi você mesmo que gerou o mal. Também a causa ele a menciona logo em seguida: “O seu coração se elevou por causa da sua beleza; pela multidão dos seus pecados você foi ferido, e eu o lancei por terra.” Em concordância com isso, o Senhor diz por sua vez nos Evangelhos: “Eu via Satanás caindo do céu como um relâmpago” (Lc 10.18). Você vê a harmonia do Antigo Testamento com o Novo. Ele, quando foi lançado fora, arrastou muitos consigo. É ele quem põe cobiças nos que lhe dão ouvidos: dele vêm o adultério, a fornicação e toda espécie de mal. Por meio dele o nosso primeiro pai, Adão, foi lançado fora por causa da desobediência e trocou um paraíso que produzia por si mesmo frutos admiráveis pela terra que produz espinhos.

5. “E então?”, dirá alguém. “Fomos enganados e estamos perdidos. Não resta, então, salvação nenhuma? Caímos: não é possível levantar-se de novo? Ficamos cegos: não podemos recuperar a vista? Ficamos aleijados: nunca mais poderemos andar direito? Numa palavra, estamos mortos: não podemos ressuscitar?” Aquele que despertou Lázaro, morto havia quatro dias e já cheirando mal, não ressuscitará, ó homem, com muito mais facilidade a você, que está vivo? Aquele que derramou por nós o seu precioso sangue, ele mesmo nos livrará do pecado. Não desesperemos de nós mesmos, irmãos; não nos entreguemos a uma condição sem esperança. Pois é coisa terrível não crer na esperança do arrependimento. Quem não espera a salvação não hesita em acrescentar mal sobre mal; mas, para quem espera a cura, daí em diante é fácil cuidar de si mesmo. O ladrão que não espera perdão se torna desesperado; mas, se espera ser perdoado, muitas vezes chega ao arrependimento. E então? A serpente se despoja da sua pele velha6, e nós não nos despojaremos do nosso pecado? Também a terra cheia de espinhos, se for bem cultivada, se torna fértil; e a salvação seria para nós irrecuperável? Pelo contrário: a nossa natureza admite a salvação, mas também se requer a vontade.

6. Deus ama o ser humano, e ama em medida nada pequena. Pois não diga: “Eu cometi fornicação e adultério; fiz coisas terríveis, e não uma vez só, mas muitas: ele vai me perdoar? Vai me conceder o perdão?” Ouça o que diz o salmista: “Como é grande a multidão da tua bondade, Senhor!” (Sl 31.19). As suas ofensas acumuladas não ultrapassam a multidão das misericórdias de Deus; as suas feridas não ultrapassam a perícia do grande Médico. Apenas entregue-se com fé: conte ao Médico a sua enfermidade; diga você também, como Davi: “Eu disse: Confessarei ao Senhor o meu pecado”; e acontecerá no seu caso o mesmo que ele diz logo em seguida: “E tu perdoaste a maldade do meu coração” (Sl 32.5).

7. Você quer ver a bondade de Deus para com os homens, você que há pouco chegou à catequese? Quer ver a bondade de Deus para com os homens e a abundância da sua longanimidade? Ouça a respeito de Adão. Adão, o primeiro homem formado por Deus, transgrediu: não podia Deus ter trazido sobre ele a morte imediatamente? Mas veja o que o Senhor faz, no seu grande amor pelo ser humano. Ele o expulsa do paraíso, pois por causa do pecado era indigno de viver ali; mas o põe para morar diante do paraíso7, para que, vendo de onde tinha caído, de que estado e para que estado tinha sido rebaixado, pudesse depois ser salvo pelo arrependimento. Caim, o primeiro homem nascido, tornou-se assassino do próprio irmão, inventor de males, primeiro autor de homicídios e o primeiro invejoso. Mas, depois de matar o irmão, a que é condenado? “Gemendo e tremendo você estará sobre a terra” (Gn 4.12)8. Como foi grande a ofensa, e como foi leve a sentença!

8. Também isto foi, de fato, bondade de Deus para com os homens, mas ainda pequena em comparação com o que vem a seguir. Considere o que aconteceu nos dias de Noé. Os gigantes pecaram, e muita maldade se espalhou então sobre a terra, e por causa disso o dilúvio haveria de vir sobre eles: no ano quinhentos, Deus pronuncia a sua ameaça; mas só no ano seiscentos trouxe o dilúvio sobre a terra. Você vê a amplidão da bondade de Deus, que se estende por cem anos? Não podia ele ter feito imediatamente o que fez depois dos cem anos? Mas ele estendeu (o prazo) de propósito, concedendo uma trégua para o arrependimento. Você vê a bondade de Deus? E, se os homens daquele tempo se tivessem arrependido, não teriam perdido a bondade de Deus.

9. Venha agora comigo à outra classe, a dos que foram salvos pelo arrependimento. Mas talvez também entre as mulheres alguma diga: “Eu cometi fornicação e adultério, contaminei o meu corpo com excessos de toda espécie: há salvação para mim?” Volte os olhos, ó mulher, para Raabe, e espere você também a salvação; pois, se aquela que tinha sido prostituta aberta e publicamente foi salva pelo arrependimento, aquela que, numa ocasião, antes de receber a graça, cometeu fornicação não será salva pelo arrependimento e pelo jejum? Pergunte como ela foi salva: ela disse apenas isto: “Porque o Deus de vocês é Deus em cima nos céus e embaixo na terra” (Js 2.11). “O Deus de vocês”: pois não ousou dizer “o meu”, por causa da sua vida devassa. E, se você quer receber o testemunho da Escritura de que ela foi salva, ele está escrito nos Salmos: “Dentre os que me conhecem, farei menção de Raabe e da Babilônia” (Sl 87.4)9. Ó grandeza da bondade de Deus, que faz menção até de prostitutas nas Escrituras! E não diz simplesmente “farei menção de Raabe e da Babilônia”, mas acrescenta: “dentre os que me conhecem”. Há, portanto, tanto para os homens como para as mulheres, a salvação que é introduzida pelo arrependimento.

10. Mais ainda: se um povo inteiro peca, isso não ultrapassa a bondade de Deus. O povo fez um bezerro, e Deus não deixou de lado a sua bondade. Os homens negaram a Deus, mas Deus não negou a si mesmo (2Tm 2.13). “São estes, ó Israel, os seus deuses” (Êx 32.4), disseram; e, ainda assim, como costumava, o Deus de Israel se tornou o salvador deles. E não pecou só o povo, mas também Arão, o sumo sacerdote. Pois é Moisés quem diz: “E a ira do Senhor veio sobre Arão; e eu orei por ele”, diz, “e Deus o perdoou” (Dt 9.20). E então? Moisés, orando por um sumo sacerdote que pecou, prevaleceu diante de Deus, e Jesus, seu Unigênito, não prevalecerá diante de Deus quando ora por nós? E, se Deus não impediu Arão, por causa da sua ofensa, de assumir o sumo sacerdócio, impedirá você, que vem dos gentios, de entrar na salvação? Apenas, ó homem, arrependa-se você também do mesmo modo, e a graça não lhe será negada. Torne daqui em diante irrepreensível a sua maneira de viver; pois Deus ama verdadeiramente o ser humano, e nem todo o tempo10 é capaz de contar dignamente a sua bondade; ainda que todas as línguas dos homens se unam, nem assim conseguirão declarar parte considerável da sua bondade. Pois nós contamos alguma parte do que está escrito sobre a bondade dele para com os homens, mas quanto ele perdoou aos anjos não sabemos: pois também a eles ele perdoa, já que um só é sem pecado, Jesus, que nos purifica dos pecados. E deles já dissemos o bastante.

11. Mas, se quanto a nós, homens, você quiser que lhe sejam apresentados ainda outros exemplos11, venha ao bem-aventurado Davi e tome-o como exemplo de arrependimento. Grande como era, caiu: depois do seu sono, andando ao entardecer pelo terraço, lançou um olhar descuidado e sentiu uma paixão humana. O seu pecado se consumou, mas não morreu com ele a sua franqueza na confissão da falta. Veio Natã, o profeta, acusador rápido e médico da ferida. “O Senhor está irado”, diz ele, “e você pecou” (2Sm 12). Assim falou o súdito ao rei que reinava. Mas Davi, o rei12, não se indignou, pois não olhou para quem falava, mas para Deus, que o tinha enviado. Não se ensoberbeceu13 com a fileira de soldados postados ao redor, pois tinha visto em pensamento o exército angélico do Senhor e tremia como quem vê aquele que é invisível (Hb 11.27); e ao mensageiro, ou melhor, por meio dele, em resposta a Deus que o enviara, disse: “Pequei contra o Senhor” (2Sm 12.13). Você vê a humildade do rei? Vê a sua confissão? Pois tinha sido acusado por alguém? Muitos sabiam do assunto? O ato foi praticado depressa, e imediatamente o profeta apareceu como acusador, e o culpado confessa a falta. E, porque confessou com franqueza, recebeu uma cura rapidíssima. Pois o profeta Natã, que tinha pronunciado a ameaça, disse logo: “Também o Senhor perdoou o seu pecado.” Você vê a rapidez com que um Deus misericordioso se compadece. Ele diz, contudo: “Você provocou muito os inimigos do Senhor” (2Sm 12.14). Embora você tivesse muitos inimigos por causa da sua justiça, o seu domínio próprio o protegia; mas agora, que você entregou a sua armadura mais forte, os seus inimigos se levantaram e estão prontos contra você.

12. Assim, pois, o profeta o consolou; mas o bem-aventurado Davi, embora ouvisse dizer “O Senhor perdoou o seu pecado”, não deixou de se arrepender, rei como era: vestiu pano de saco em vez de púrpura e, em vez de trono de ouro, sentou-se, ele, um rei, na cinza, no chão; e não só se sentou na cinza, mas também teve cinza por alimento, como ele mesmo diz: “Por pão tenho comido cinza” (Sl 102.9). O seu olho cobiçoso, ele o consumiu em lágrimas, dizendo: “Todas as noites lavarei o meu leito e com as minhas lágrimas regarei a minha cama” (Sl 6.6). Quando os seus oficiais lhe pediram que comesse pão, não quis ouvir. Prolongou o seu jejum por sete dias inteiros. Se um rei fez assim a sua confissão, você, uma pessoa comum, não deve confessar? Além disso, depois da revolta de Absalão, embora houvesse muitos caminhos para escapar, ele escolheu fugir pelo monte das Oliveiras, como que invocando em pensamento o Redentor que dali haveria de subir aos céus. E, quando Simei o amaldiçoou duramente, ele disse: “Deixem-no” (2Sm 16.10-11), pois sabia que “a quem perdoa será perdoado14“.

13. Você vê que é bom confessar. Vê que há salvação para os que se arrependem. Também Salomão caiu, mas o que ele diz? “Depois eu me arrependi” (Pv 24.32)15. Também Acabe, rei de Samaria, tornou-se um idólatra perversíssimo, homem violento, assassino dos profetas (1Rs 18.4), estranho à piedade, cobiçoso dos campos e das vinhas alheias. Mas, quando, por meio de Jezabel, matou Nabote, e o profeta Elias veio e apenas o ameaçou, ele rasgou as suas vestes e se vestiu de pano de saco. E o que diz o Deus misericordioso a Elias? “Você viu como Acabe está compungido diante de mim?” (1Rs 21.29), como se quase quisesse persuadir o zelo ardente do profeta a condescender com o penitente. Pois diz: “Não trarei este mal nos seus dias.” E, embora depois desse perdão ele certamente não fosse se afastar da sua maldade, ainda assim o Deus que perdoa o perdoou, não por ignorar o futuro, mas por conceder um perdão correspondente ao seu arrependimento naquele momento. Pois é próprio de um juiz justo dar a sentença conforme cada caso que acontece.

14. Além disso, Jeroboão estava em pé junto ao altar, sacrificando aos ídolos: a sua mão secou, porque ordenou que o profeta que o repreendia fosse preso; mas, tendo aprendido pela experiência o poder do homem que estava diante dele, diz: “Implore o favor do Senhor, seu Deus” (1Rs 13.6); e, por causa dessas palavras, a sua mão foi restaurada. Se o profeta curou Jeroboão, Cristo não é capaz de curar você e livrá-lo dos seus pecados? Também Manassés foi extremamente perverso: ele serrou Isaías ao meio16, contaminou-se com toda espécie de idolatria e encheu Jerusalém de sangue inocente; mas, levado cativo para a Babilônia, usou a experiência da desgraça como tratamento de arrependimento que cura: pois a Escritura diz que Manassés se humilhou diante do Senhor e orou, e o Senhor o ouviu e o fez voltar ao seu reino (2Cr 33.12-13). Se aquele que serrou o profeta ao meio foi salvo pelo arrependimento, você, que não cometeu maldade tão grande, não será salvo?

15. Cuidado para não desconfiar sem razão do poder do arrependimento. Você quer saber que poder tem o arrependimento? Quer conhecer a arma poderosa da salvação e aprender qual é a força da confissão? Ezequias, por meio da confissão, derrotou cento e oitenta e cinco mil dos seus inimigos. Grande coisa foi essa, sem dúvida, mas ainda pequena em comparação com o que falta contar: o mesmo rei, pelo arrependimento, obteve a revogação de uma sentença divina que já tinha sido pronunciada. Pois, quando ele adoeceu, Isaías lhe disse: “Ponha em ordem a sua casa, porque você morrerá e não viverá” (2Rs 20.1). Que expectativa restava, que esperança de cura, quando o profeta disse “porque você morrerá”? Mesmo assim, Ezequias não desistiu de se arrepender; mas, lembrando-se do que está escrito, “Quando você se converter e gemer, então será salvo” (Is 30.15), voltou-se para a parede e, do seu leito, elevando a mente ao céu (pois a espessura das paredes não é obstáculo para as orações feitas com devoção), disse: “Lembra-te de mim, Senhor, pois para a minha cura basta que te lembres de mim. Tu não estás sujeito aos tempos, mas tu mesmo és quem dá a lei da vida. Pois a nossa vida não depende de um nascimento sob tal astro, nem de uma conjunção de estrelas, como alguns dizem à toa; mas tu mesmo és o legislador tanto da vida como da sua duração, segundo a tua vontade.” E aquele que, por causa da sentença profética, não podia esperar viver, teve quinze anos acrescentados à sua vida, e, como sinal, o sol voltou atrás no seu curso (Is 38.8). Pois bem: por causa de Ezequias o sol voltou atrás, mas por causa de Cristo o sol se eclipsou, não refazendo o seu caminho, mas sofrendo eclipse17, e mostrando assim a diferença entre os dois, isto é, entre Ezequias e Jesus. Aquele conseguiu que se cancelasse um decreto de Deus, e Jesus não pode conceder a remissão dos pecados? Volte-se, chore por si mesmo, feche a sua porta e ore para ser perdoado, ore para que ele afaste de você as chamas ardentes. Pois a confissão tem poder para apagar até o fogo, poder para amansar até os leões18.

16. Mas, se você não crê, considere o que aconteceu com Ananias e os seus companheiros. Que torrentes de água eles derramaram19? Quantos vasos20 de água poderiam apagar a chama que subia quarenta e nove côvados de altura (Dn 3.47)? Mas, onde a chama subiu um pouco21 alto demais, ali a fé se derramou como um rio, e ali eles pronunciaram o encantamento contra todos os males22: “Justo és tu, Senhor, em todas as coisas que fizeste conosco: pois pecamos e transgredimos a tua lei” (Dn 3.27). E o arrependimento deles apagou as chamas23. Se você não crê que o arrependimento é capaz de apagar o fogo do inferno, aprenda-o do que aconteceu com Ananias. Mas algum ouvinte perspicaz dirá: “Àqueles homens Deus os livrou com justiça, naquele caso: porque se recusaram a cometer idolatria, Deus lhes deu aquele poder.” E, já que este pensamento surgiu, passo a outro exemplo de penitência24.

17. Que você pensa de Nabucodonosor? Não ouviu das Escrituras que ele era sanguinário, feroz25, de temperamento de leão? Não ouviu que ele tirou das sepulturas os ossos dos reis e os expôs à luz (Jr 8.1; Br 2.25)? Não ouviu26 que ele levou o povo para o cativeiro? Não ouviu que ele furou os olhos do rei, depois de este já ter visto os seus filhos mortos (2Rs 25.7)? Não ouviu que ele despedaçou27 os querubins? Não me refiro aos seres invisíveis28 (longe de você tal pensamento, ó homem29), mas às imagens esculpidas e ao propiciatório, do meio do qual Deus falava com a sua voz30. O véu do santuário31 ele o pisou aos pés; o altar do incenso ele o tomou e levou para um templo de ídolos (2Cr 36.7); todas as ofertas ele as levou; o templo ele o queimou desde os alicerces32. Que castigos não merecia, por matar reis, por pôr fogo no santuário, por levar o povo cativo, por colocar os vasos sagrados na casa dos ídolos? Não merecia dez mil mortes?

18. Você viu a grandeza das suas más ações: venha agora à bondade de Deus para com os homens. Ele foi transformado em fera33, morou no deserto, foi castigado com açoites, para que fosse salvo. Tinha garras como de leão34, pois era devastador do santuário. Tinha juba de leão, pois era leão que devora e ruge. Comia capim como os bois, pois era um animal irracional, que não conhecia aquele que lhe tinha dado o reino. O seu corpo era molhado pelo orvalho, porque, depois de ver o fogo apagado pelo orvalho, não creu35. E o que aconteceu36? “Depois disso”, diz ele, “eu, Nabucodonosor, levantei os olhos ao céu e bendisse o Altíssimo, e louvei e glorifiquei aquele que vive para sempre” (Dn 4.34). Quando, pois, reconheceu o Altíssimo37, elevou a Deus estas palavras de gratidão, arrependeu-se do que tinha feito e reconheceu a sua própria fraqueza, então Deus lhe devolveu a honra do reino.

19. E então38? Nabucodonosor, depois de ter feito tais coisas, fez a sua confissão, e Deus lhe deu o perdão e o reino; e, quando você se arrepende, não lhe dará a remissão dos pecados e o reino dos céus, se você viver uma vida digna? O Senhor ama o ser humano, é rápido para perdoar, mas lento para castigar. Ninguém, portanto, desespere da própria salvação. Pedro, o principal e primeiro dos apóstolos, negou o Senhor três vezes diante de uma criadinha; mas arrependeu-se e chorou amargamente. Ora, o choro mostra o arrependimento do coração; por isso ele não só recebeu o perdão da sua negação, mas também conservou intacta a sua dignidade apostólica.

20. Tendo, pois, irmãos, muitos exemplos dos que pecaram, se arrependeram e foram salvos, façam vocês também, de todo o coração, a sua confissão ao Senhor, para que recebam o perdão dos seus pecados passados, sejam considerados dignos do dom celestial e herdem o reino celestial com todos os santos, em Cristo Jesus, a quem pertence a glória para todo o sempre. Amém39.

Notas

1. Milles e o editor beneditino omitem estas orações, mas as edições mais recentes de Reischl e Alexandrides as incluem, com base no manuscrito de Munique, no de Jerusalém e em outros bons manuscritos.

2. Omitido pelos editores recentes, com os melhores manuscritos.

3. Gr. kekoimetai, “adormeceu”.

4. Compare Ef 4.27: “nem deem lugar ao diabo”.

5. Passagem obscura, dirigida ao príncipe de Tiro, que significa que ele era “o modelo perfeito” da glória terrena, posto numa condição semelhante à de Adão no paraíso e, ao que parece, irrepreensível como Adão antes da queda. Cirilo parece considerar o príncipe de Tiro uma encarnação de Satanás, porque era divinizado como objeto de culto nacional: v. 2, “Eu sou um deus; sobre a cadeira de um deus me assento”.

6. Literalmente, “a sua velhice” (to geras). Compare a Catequese III, 7, e o Dict. Chr. Biogr., Macarius, p. 770 a.

7. Esta é a leitura da Septuaginta, em lugar de “Ele colocou a leste do jardim do Éden”.

8. “Você será fugitivo e errante pela terra.”

9. “Raabe” é ali um nome poético do Egito, e a passagem nada tem a ver com Raabe, a prostituta. O editor beneditino, com razão, não leva em conta a sugestão de São Jerônimo de que Raabe é, como o Egito, figura da Igreja dos gentios.

10. Em lugar de “todo o tempo”, leitura dos melhores manuscritos, o texto beneditino traz “toda a humanidade”.

11. O texto beneditino traz: “Mas, se você quiser, apresentarei ainda outros exemplos da nossa condição? Venha ao bem-aventurado Davi.”

12. Benedit.: “O rei, que vestia a púrpura.”

13. Benedit.: “cego”.

14. Resch (Agrapha, p. 137) cita várias formas deste dito em escritores antigos e o considera fragmento de um Evangelho extracanônico. Mas veja Lightfoot, Clem. Rom. c. xiii.

15. Assim na Septuaginta; o hebraico diz: “Pus o meu coração”. A passagem não tem relação com arrependimento: significa “considerei o campo do preguiçoso”. Hilário (comentário ao Salmo 52), Ambrósio (Apolog. 1 Prophetae David, c. iii) e outros Pais afirmam o arrependimento de Salomão. Agostinho (c. Faustum, lib. xxii, c. 88) sustenta que a Escritura nada diz do arrependimento nem do perdão dele. Veja Dante, Paraíso, canto X, 109.

16. Justino Mártir (Diálogo com Trifão, § 120) acusa os judeus de terem cortado uma passagem que se referia à morte de Isaías. Teofilato, comentando Hb 11.37, diz: “Foram serrados ao meio, como Isaías por Manassés; e dizem que foi serrado com uma serra de madeira, para que o castigo lhe fosse mais doloroso por ser mais demorado.” Jerônimo, sobre Is 1.10, diz que ele foi morto por ter chamado os judeus de “príncipes de Sodoma” e “povo de Gomorra” e por ter dito: “Eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono”.

17. O Evangelho diz apenas: “houve trevas sobre toda a terra”. Um eclipse do sol era impossível no tempo da lua cheia da Páscoa.

18. A partir deste ponto, os manuscritos diferem tanto que o editor beneditino dá duas recensões completas de toda a catequese. Os Codd. Coislin, Ottob. 2 e Grodec, com as edições de Prevot e de Milles, formando como que uma só família de manuscritos, constituem o texto recebido. Por outro lado, o códice mais antigo de Munique, com os Codd. Roe e Casaubon, apresenta uma recensão da catequese que difere das edições. Reischl, querendo conservar inalterado o texto recebido, embora preferisse o outro em passagens particulares, pretendia acrescentar a outra recensão completa, mas, tendo deixado o trabalho pela metade, não chegou a fazê-lo. As principais variantes são dadas nas notas seguintes.

19. Roe e Casaubon (R.C.) acrescentam: “na fornalha de fogo”.

20. R.C.: “Que medida”.

21. R.C.: “muito”.

22. R.C.: “Uma grande torrente de arrependimento se derramou, quando disseram: Pois tu és justo” etc.

23. R.C.: “Então o arrependimento apagou as chamas da fornalha, e você não crê que ele seja capaz de apagar também o fogo do inferno?”

24. R.C.: “Que a narrativa não se aplica aos que estão aqui presentes. Pois foi porque Ananias e os seus companheiros se recusaram a adorar o ídolo que Deus lhes deu aquele poder maravilhoso. Adaptando-me, pois, a um ouvinte assim, e considerando a abundância de exemplos, passo a outro exemplo de arrependimento.”

25. R.C.: “impiíssimo e de temperamento ferocíssimo”.

26. “Você não sabe…”

27. R.C.: “levou embora”.

28. Gr. noeta. R.C. acrescentam: “e celestes”.

29. Omitido por R.C.

30. R.C.: “Mas os que tinham sido construídos no templo, que estavam sobre o propiciatório da arca.” Além dos dois querubins de ouro maciço que Moisés colocou nas duas extremidades do propiciatório (Êx 37.7ss.), Salomão pôs no Santo dos Santos dois querubins de madeira de oliveira cobertos de ouro, de dez côvados de altura, com as asas estendidas cobrindo a arca (1Rs 6.23-26; 8.6-7). Todos eles foram levados ou destruídos quando Nabucodonosor levou “todos os tesouros da Casa do Senhor” e “cortou em pedaços todos os utensílios de ouro que Salomão, rei de Israel, tinha feito para o templo do Senhor” (2Rs 24.13; 1 Esdras 1.54; 2 Esdras 10.22). O editor beneditino se preocupa porque Cirilo não deu atenção à estranha ficção de 2Mc 2.4, segundo a qual o profeta Jeremias “ordenou que a tenda e a arca o acompanhassem” até o monte Horebe e ali as escondeu, com o altar do incenso, numa caverna, para ficarem “desconhecidas até o tempo em que Deus reunir de novo o seu povo”.

31. A palavra grega traduzida por “santuário” é he hagiosune, literalmente “a santidade”.

32. R.C.: “O véu do santuário ele o arrancou, derrubou o altar, tomou todos os vasos e os levou para um templo de ídolos. O próprio templo ele o queimou.”

33. R.C.: Depois ele foi transformado em fera: “ele, que era semelhante a uma fera e de temperamento crudelíssimo; mas foi transformado em fera, não para que perecesse, mas para que, pelo arrependimento, fosse salvo”.

34. R.C.: “de aves”. Veja Dn 4.33.

35. R.C.: “depois que o meio da fornalha se tornou, para Ananias e os seus companheiros, como o sopro sibilante da chuva, ele viu e não creu”.

36. R.C.: “Mas depois ele voltou a si e se arrependeu, como ele mesmo diz.”

37. R.C.: “E, depois de ter sido castigado por muitos anos, louvou aquele que vive para sempre, reconheceu aquele que lhe tinha dado o reino e reconheceu o Rei dos reis. E, embora muitas vezes tivesse pecado por obras, fazendo a confissão só com palavras, recebeu o benefício da inefável bondade de Deus. Aquele que era o mais perverso de todos os homens, pelo juízo divino e pela bondade de Deus que o castigou, coroou-se de novo com o diadema real e recuperou o seu trono imperial.”

38. R.C.: “Se, pois, está presente entre vocês alguém dentre os pagãos que alguma vez falou mal dos cristãos ou, em tempos de perseguição, tramou contra as santas igrejas, tome Nabucodonosor como exemplo de salvação: confesse do mesmo modo, para que encontre também o mesmo perdão. Se alguém se contaminou com a cobiça e as paixões, assuma o arrependimento do bem-aventurado Davi; se alguém negou como Pedro, morra como ele pelo Senhor Jesus. Pois aquele que, pelas lágrimas dele, não lhe recusou o apostolado não recusará a você os mistérios do evangelho. E, para as mulheres, seja Raabe o modelo de salvação; e, para os homens, os muitos exemplos citados dos homens dos tempos antigos.”

39. R.C.: “E tenham todos boa esperança, considerando a bondade de Deus para com os homens; não para que voltemos a cair nos mesmos pecados, mas para que, tendo recebido o benefício da redenção e vivido de modo digno da sua graça, possamos apagar com boas obras o escrito de dívida que é contra nós; no poder do Unigênito, o Filho de Deus e nosso Senhor Jesus Cristo, com quem seja a glória ao Pai, com o Espírito Santo, agora e sempre e por todos os séculos da eternidade. Amém.”

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Edwin Hamilton Gifford (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 7, Nova York, 1894), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Cirilo cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.