Cirilo de Jerusalém, Catequeses · Catequese III

O batismo

A água e o Espírito: por que o batismo, o que ele opera e o exemplo de Cristo batizado no Jordão.

Catequese III. Sobre o batismo

Romanos 6.3-4
Ou será que vocês ignoram que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte? Fomos sepultados com ele na morte pelo batismo, etc.

1. “Alegrem-se os céus, e a terra exulte” (Sl 96.11) por causa daqueles que vão ser aspergidos com hissopo e purificados com o hissopo espiritual1, o poder daquele a quem, na sua Paixão, se ofereceu bebida num hissopo e numa cana2. E, enquanto os poderes celestiais se alegram, preparem-se as almas que vão unir-se ao Noivo espiritual. Pois se ouve a voz do que clama no deserto: “Preparem o caminho do Senhor” (Is 40.3). Porque isto não é coisa leve, nem uma união comum e indiscriminada segundo a carne3, mas a escolha, segundo a fé, do Espírito que tudo sonda. Pois os casamentos e os contratos do mundo nem sempre se fazem com discernimento: onde há riqueza ou beleza, ali o noivo logo dá o seu consentimento. Aqui, porém, não se olha a beleza do corpo, mas a consciência limpa da alma; não o Mamom condenado, mas a riqueza da alma em piedade.

2. Ouçam, pois, filhos da justiça, a exortação de João quando diz: “Endireitem o caminho do Senhor” (Jo 1.23). Tirem todos os obstáculos e pedras de tropeço, para que vocês caminhem em linha reta até a vida eterna. Preparem os vasos4 da alma, purificados pela fé sem fingimento, para receber o Espírito Santo. Comecem desde já a lavar as suas vestes no arrependimento, para que, chamados à câmara nupcial, sejam achados limpos. Pois o Noivo convida a todos sem distinção, porque a sua graça é generosa; e o clamor dos arautos de voz forte reúne a todos. Mas o mesmo Noivo depois separa os que entraram para as núpcias figuradas. Oh, que nenhum dos que agora tiveram o nome inscrito ouça estas palavras: “Amigo, como você entrou aqui sem veste nupcial?” (Mt 22.12). Mas que todos vocês ouçam: “Muito bem, servo bom e fiel; você foi fiel no pouco, sobre o muito o colocarei; venha participar da alegria do seu senhor” (Mt 25.21).

Por enquanto você ainda está do lado de fora da porta; mas Deus conceda que todos vocês possam dizer: “O rei me introduziu nos seus aposentos” (Ct 1.4). “Que a minha alma se alegre no Senhor, pois ele me vestiu com a veste da salvação e com o manto da alegria; coroou-me com uma grinalda como a um noivo5 e me enfeitou com joias como a uma noiva” (Is 61.10). Assim, a alma de cada um de vocês será achada “sem mancha, nem ruga, nem coisa semelhante” (Ef 5.27). Não digo antes de vocês receberem a graça, pois como seria possível, uma vez que vocês foram chamados justamente para a remissão dos pecados? Digo que, quando a graça for concedida, a consciência de vocês, achada sem condenação, possa concorrer com a graça.

3. Isto é, de fato, coisa séria, irmãos, e vocês devem aproximar-se dela com toda a atenção. Cada um de vocês está para ser apresentado a Deus diante de dezenas de milhares das hostes angélicas. O Espírito Santo está para selar as suas almas; vocês vão ser alistados no exército do grande Rei. Portanto, preparem-se e equipem-se, revestindo-se, quero dizer, não de roupas brilhantes, mas da piedade da alma com boa consciência. Não considerem o banho como simples água; considerem antes a graça espiritual que é dada com a água. Pois, assim como as ofertas levadas aos altares pagãos6, embora simples por natureza, ficam contaminadas pela invocação dos ídolos7, assim, ao contrário, a água simples, tendo recebido a invocação do Espírito Santo, de Cristo e do Pai, adquire um novo poder de santidade.

4. Como o ser humano tem natureza dupla, alma e corpo, também a purificação é dupla: uma incorpórea, para a parte incorpórea, e outra corporal, para o corpo. A água purifica o corpo, e o Espírito sela a alma, para que nos aproximemos de Deus “tendo o coração aspergido pelo Espírito e o corpo lavado com água pura” (Hb 10.22). Portanto, ao descer à água, não pense no simples elemento, mas espere a salvação pelo poder do Espírito Santo, pois sem os dois você não pode de modo nenhum ser aperfeiçoado8. Não sou eu quem diz isto, mas o Senhor Jesus Cristo, que tem a autoridade neste assunto. Pois ele diz: “Se alguém não nascer de novo” (e acrescenta as palavras) “da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus” (Jo 3.3, 5). Nem aquele que é batizado com água, mas não é achado digno do Espírito, recebe a graça em perfeição; nem aquele que é virtuoso nas suas obras, mas não recebe o selo pela água, entrará no Reino dos céus. Palavra ousada, mas não minha, pois foi Jesus quem a declarou. E eis a prova da afirmação, tirada da Sagrada Escritura. Cornélio era um homem justo, que foi honrado com uma visão de anjos e tinha erguido as suas orações e esmolas como um bom memorial9 diante de Deus no céu. Pedro veio, e o Espírito foi derramado sobre os que creram, e eles falaram em outras línguas e profetizaram; e, depois da graça do Espírito, a Escritura diz que Pedro “ordenou que fossem batizados em nome de Jesus Cristo” (At 10.48). Isso para que, tendo a alma nascido de novo pela fé10, também o corpo participasse da graça por meio da água.

5. Mas, se alguém quiser saber por que a graça é dada pela água e não por outro elemento, tome as divinas Escrituras e aprenderá. Pois a água é coisa grandiosa, o mais nobre dos quatro elementos visíveis do mundo. O céu é a morada dos anjos, mas os céus vêm das águas11; a terra é o lugar dos homens, mas a terra vem das águas. E, antes de toda a formação, em seis dias, das coisas que foram feitas, “o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas” (Gn 1.2). A água foi o princípio do mundo, e o Jordão, o princípio da boa-nova do evangelho. Para Israel, a libertação do faraó veio pelo mar; e, para o mundo, a libertação dos pecados vem “por meio da lavagem de água pela palavra” (Ef 5.26) de Deus. Onde se faz aliança com alguém, ali há também água. Depois do dilúvio, fez-se uma aliança com Noé; fez-se uma aliança com Israel a partir do monte Sinai, mas “com água, lã tingida de escarlate e hissopo” (Hb 9.19). Elias é arrebatado, mas não sem a água: primeiro atravessa o Jordão, depois sobe ao céu num carro. O sumo sacerdote primeiro é lavado, depois oferece o incenso; pois Arão primeiro foi lavado, depois foi feito sumo sacerdote. Como poderia orar pelos outros quem ainda não tinha sido purificado pela água? E, como símbolo do batismo, havia uma bacia separada dentro do tabernáculo.

6. O batismo é o fim do Antigo Testamento e o começo do Novo. Pois o seu autor foi João, e entre os nascidos de mulher não houve ninguém maior do que ele. Ele foi o fim dos profetas, pois “todos os Profetas e a Lei profetizaram até João” (Mt 11.13); mas da história do evangelho ele foi as primícias. Pois está escrito: “Princípio do evangelho de Jesus Cristo”, etc.: “João veio batizando no deserto” (Mc 1.1, 4). Você pode mencionar Elias, o tesbita, que foi arrebatado ao céu, mas ele não é maior do que João. Enoque foi trasladado, mas não é maior do que João. Moisés foi um grandíssimo legislador, e todos os profetas foram admiráveis, mas não maiores do que João. Não sou eu quem ousa comparar profetas com profetas; foi o Mestre deles e nosso, o Senhor Jesus, quem o declarou: “Entre os nascidos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João” (Mt 11.11). Ele não diz “entre os nascidos de virgens”, mas de mulher12. A comparação é entre o grande servo e os seus conservos; mas a preeminência e a graça do Filho estão além de qualquer comparação com servos. Você vê que grande homem Deus escolheu como primeiro ministro desta graça? Um homem que nada possuía e amava o deserto, mas não odiava a humanidade; que comia gafanhotos e dava asas à sua alma para o céu13; que se alimentava de mel e dizia coisas mais doces e mais salutares do que o mel; que se vestia de pelos de camelo e mostrava em si o modelo da vida ascética; que também foi santificado pelo Espírito Santo quando ainda era levado no ventre da mãe. Jeremias foi santificado no ventre, mas não profetizou ali (Jr 1.5); só João, ainda levado no ventre, “estremeceu de alegria” (Lc 1.44) e, embora não visse com os olhos da carne, reconheceu o seu Senhor pelo Espírito. Pois, sendo grande a graça do batismo, exigia grandeza também no seu fundador.

7. Este homem batizava no Jordão, e saía até ele toda Jerusalém (Mt 3.5) para gozar das primícias dos batismos, pois em Jerusalém está a primazia de todas as coisas boas. Mas aprendam, moradores de Jerusalém, como eram batizados por ele os que saíam: “confessando os seus pecados”, diz o texto (Mt 3.6). Primeiro mostravam as feridas, depois ele aplicava os remédios, e aos que criam dava a redenção do fogo eterno. E, se você quer convencer-se deste ponto, de que o batismo de João é redenção da ameaça do fogo, ouça como ele diz: “Raça de víboras! Quem deu a entender que vocês podem fugir da ira que está por vir?” (Mt 3.7). Então não seja mais víbora; mas, como você foi antes raça de víboras, dispa, diz ele, a pele velha14 da sua antiga vida de pecado. Pois toda serpente se enfia num buraco e larga a sua pele velha e, tendo esfregado e tirado a pele antiga, rejuvenesce no corpo. Do mesmo modo, entre você também pela porta estreita e apertada (Mt 7.13-14): esfregue e tire de si o seu antigo eu pelo jejum, e expulse aquilo que o está destruindo. “Dispa-se da velha natureza com as suas práticas” (Cl 3.9) e repita aquela palavra do Cântico: “Já tirei a minha túnica! Como posso vesti-la outra vez?” (Ct 5.3)15.

Mas talvez haja entre vocês algum hipócrita, alguém que procura agradar aos homens e finge piedade, mas não crê de coração; que tem a hipocrisia de Simão, o mago; que veio aqui não para receber a graça, mas para espionar o que é dado. Que também esse aprenda de João: “E o machado já está posto à raiz das árvores. Portanto, toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo” (Mt 3.10). O Juiz é inexorável; deixe de lado a sua hipocrisia.

8. Que devem fazer, então? E quais são os frutos do arrependimento? “Quem tiver duas túnicas reparta com quem não tem” (Lc 3.11). O mestre era digno de crédito, porque foi também o primeiro a praticar o que ensinava; não se envergonhava de falar, pois a consciência não lhe prendia a língua. “E quem tiver comida faça o mesmo.” Você quer gozar da graça do Espírito Santo e, no entanto, julga o pobre indigno do alimento do corpo? Busca os grandes dons e não reparte os pequenos? Ainda que você seja publicano ou imoral, tenha esperança de salvação: “os publicanos e as prostitutas estão entrando no Reino de Deus primeiro que vocês” (Mt 21.31). Paulo também é testemunha, quando diz: “Nem imorais, nem adúlteros”, nem os demais, “herdarão o Reino de Deus. Alguns de vocês eram assim. Mas vocês foram lavados, foram santificados” (1Co 6.9-11). Ele não disse: “alguns de vocês são assim”, mas: “alguns de vocês eram assim”. O pecado cometido em estado de ignorância é perdoado, mas a maldade persistente é condenada.

9. Você tem como glória do batismo o próprio Filho, o Unigênito de Deus. Pois por que falarei ainda de um homem? João foi grande, mas o que é ele diante do Senhor? A dele era uma voz retumbante, mas o que é ela comparada com o Verbo? Muito nobre era o arauto, mas o que é ele comparado com o Rei? Nobre era aquele que batizava com água, mas o que é ele diante daquele que batiza “com o Espírito Santo e com fogo” (Mt 3.11)? O Salvador batizou os apóstolos com o Espírito Santo e com fogo quando, “de repente, veio do céu um som, como de um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. E apareceram, distribuídas entre eles, línguas, como de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo” (At 2.2-4).

10. Se alguém não recebe o batismo, não tem a salvação; exceto somente os mártires, que mesmo sem a água recebem o Reino. Pois, quando o Salvador, ao redimir o mundo pela sua cruz, foi traspassado no lado, derramou sangue e água, para que os homens, em tempos de paz, fossem batizados na água e, em tempos de perseguição, no próprio sangue. Pois o Salvador costuma chamar também o martírio de batismo, quando diz: “Será que podem beber o cálice que eu bebo ou receber o batismo com que eu sou batizado?” (Mc 10.38). E os mártires confessam, tornando-se “espetáculo para o mundo, tanto para os anjos como para os seres humanos” (1Co 4.9); e você também logo confessará. Mas ainda não é tempo de você ouvir sobre isso.

11. Jesus santificou o batismo sendo ele mesmo batizado. Se o Filho de Deus foi batizado, que homem piedoso é aquele que despreza o batismo? Mas ele foi batizado não para receber a remissão dos pecados, pois era sem pecado; sendo sem pecado, foi batizado para dar aos que são batizados uma graça divina e excelente. Pois, “visto que os filhos têm participação comum de carne e sangue, também Jesus, igualmente, participou dessas coisas” (Hb 2.14), para que nós, tendo sido feitos participantes da sua presença na carne, fôssemos feitos participantes também da sua graça divina. Assim Jesus foi batizado, para que, por sua vez, participando dele, recebêssemos salvação e honra. Segundo Jó, havia nas águas o dragão que traga o Jordão para dentro da sua boca (Jó 40.23). Como era preciso, portanto, esmagar as cabeças do dragão (Sl 74.14), ele desceu e amarrou o forte nas águas, para que recebêssemos autoridade para pisar cobras e escorpiões (Lc 10.19). A fera era grande e terrível. Nenhum barco de pesca era capaz de carregar uma só escama da sua cauda (Jó 41.7)16; a destruição corria diante dele (Jó 41.22)17, devastando tudo o que encontrava. A Vida o enfrentou, para que dali em diante a boca da Morte fosse fechada e todos nós, os que somos salvos, pudéssemos dizer: “Onde está, ó morte, o seu aguilhão? Onde está, ó sepultura, a sua vitória?” (1Co 15.55). O aguilhão da morte é arrancado pelo batismo.

12. Pois você desce à água carregando os seus pecados, mas a invocação da graça18, tendo selado a sua alma, não permite que depois você seja tragado pelo terrível dragão. Tendo descido morto nos pecados, você sobe vivificado na justiça. Pois, se você foi unido com a semelhança da morte do Salvador (Rm 6.5), será também considerado digno da sua ressurreição. Pois, assim como Jesus tomou sobre si os pecados do mundo e morreu, para que, tendo matado o pecado, ressuscitasse na justiça, assim você, descendo à água e sendo de certo modo sepultado nas águas, como ele o foi na rocha, é ressuscitado para andar em novidade de vida (Rm 6.4)19.

13. Além disso, quando você tiver sido considerado digno da graça, ele lhe dará então força para lutar contra os poderes adversos. Pois, assim como depois do seu batismo ele foi tentado quarenta dias (não que antes fosse incapaz de alcançar a vitória, mas porque quis fazer todas as coisas na devida ordem e sequência), assim também você, embora antes do batismo não ouse lutar com os adversários, depois de ter recebido a graça, e estando dali em diante confiante nas “armas da justiça” (2Co 6.7), deverá então combater e, se quiser, pregar o evangelho.

14. Jesus Cristo era o Filho de Deus, e no entanto não pregou o evangelho antes do seu batismo. Se o próprio Mestre seguiu o tempo certo, na devida ordem, deveríamos nós, seus servos, aventurar-nos fora da ordem? “Daí em diante Jesus começou a pregar” (Mt 4.17), depois que o Espírito Santo desceu sobre ele “em forma corpórea como pomba” (Lc 3.22); não para que Jesus o visse primeiro, pois ele o conhecia mesmo antes de vir em forma corpórea, mas para que João, que o batizava, o contemplasse. Pois ele diz: “Eu não o conhecia; aquele, porém, que me enviou a batizar com água me disse: Aquele sobre quem você vir descer e pousar o Espírito, esse é” (Jo 1.33). Se você também tem piedade sem fingimento, o Espírito Santo desce também sobre você, e a voz do Pai ressoa sobre você do alto: não “Este é o meu Filho”, mas “Este agora foi feito meu filho”. Pois o “é” pertence somente a ele, porque “no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1.1). A ele pertence o “é”, pois ele é sempre o Filho de Deus; a você, porém, o “agora foi feito”, porque você não tem a filiação por natureza, mas a recebe por adoção. Ele eternamente “é”; você, porém, recebe a graça por promoção.

15. Prepare, pois, o vaso da sua alma, para que você se torne filho de Deus, “herdeiro de Deus e coerdeiro com Cristo” (Rm 8.17); se, de fato, você está se preparando para receber; se você se aproxima com fé para se tornar fiel; se de propósito firme está despindo o velho homem. Pois tudo o que você tiver feito lhe será perdoado, seja imoralidade, seja adultério, seja qualquer outra forma semelhante de devassidão. Que pecado pode ser maior do que crucificar a Cristo? E, no entanto, até deste o batismo pode purificar. Pois assim falou Pedro aos três mil que vieram até ele, aos que tinham crucificado o Senhor, quando lhe perguntaram: “Irmãos, que faremos?” (At 2.37). Pois a ferida é grande. Você nos fez pensar na nossa queda, ó Pedro, ao dizer: “Vocês mataram o Autor da vida” (At 3.15). Que bálsamo existe para uma ferida tão grande? Que purificação para tal imundície? Que salvação para tal perdição? “Arrependam-se”, diz ele, “e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo, nosso Senhor, para remissão dos pecados, e vocês receberão o dom do Espírito Santo” (At 2.38). Ó inefável bondade de Deus! Eles não têm esperança de ser salvos, e no entanto são considerados dignos do Espírito Santo. Você vê o poder do batismo! Se algum de vocês crucificou o Cristo com palavras blasfemas; se algum de vocês, na ignorância, o negou diante dos homens; se algum, por obras más, fez que a doutrina fosse blasfemada, arrependa-se e tenha boa esperança, pois a mesma graça está presente ainda agora.

16. “Tenha ânimo, ó Jerusalém; o Senhor tirará todas as suas iniquidades” (Sf 3.14-15). “O Senhor lavará a impureza dos seus filhos e das suas filhas com o Espírito de juízo e com o Espírito de ardor” (Is 4.4). “Ele aspergirá água pura sobre vocês, e vocês ficarão purificados de todo o seu pecado” (Ez 36.25). Os anjos dançarão ao redor de vocês e dirão: “Quem é esta que vem subindo vestida de branco, apoiada em seu amado?” (Ct 8.5)20. Pois a alma que antes era escrava agora tomou o seu próprio Senhor como parente; e ele, aceitando o propósito sem fingimento, responderá: “Como você é bela, minha querida! Como você é bela! Os seus dentes são como um rebanho de ovelhas recém-tosquiadas” (por causa da confissão de uma boa consciência; e mais ainda) “todas com os seus gêmeos” (Ct 4.1-2); por causa da dupla graça, quero dizer, a que é aperfeiçoada pela água e pelo Espírito21, ou a que é anunciada pelo Antigo e pelo Novo Testamento. E Deus conceda que todos vocês, terminado o percurso do jejum, se lembrem do que eu digo e, dando fruto em boas obras, estejam sem culpa junto do Noivo espiritual e obtenham de Deus a remissão dos seus pecados. A ele, com o Filho e o Espírito Santo, seja a glória para sempre. Amém.

Notas

1. O hissopo invisível ou espiritual (noetos) é o poder purificador do Espírito Santo no batismo. Compare (Sl 51.7).

2. Cirilo aqui, e com ênfase ainda maior em XIII, 39, distingue o hissopo (Jo 19.29) da cana (Mt 27.48), dando a entender que a esponja cheia de vinagre foi envolvida com hissopo e depois presa a uma cana. Outra opinião é que a própria cana era de hissopo. Veja o Dictionary of the Bible, verbete “Hyssop”.

3. somaton.

4. Assim também no § 15 a alma é vista como um vaso para receber a graça.

5. Compare (Ct 3.11): “Saiam, ó filhas de Sião, e venham ver o rei Salomão com a coroa com que sua mãe o coroou no dia do seu casamento”. Na passagem de Isaías, a coroa do noivo é comparada à mitra sacerdotal.

6. bomois, usado só para altares pagãos, na Septuaginta e no Novo Testamento.

7. Tanto aqui como em XIX, 7, Cirilo fala das coisas oferecidas aos ídolos do mesmo modo que Paulo em 1Co 10.20. A bênção da água do batismo se encontra nas Constituições Apostólicas, VII, 43: “Olha do céu e santifica esta água, e dá-lhe graça e poder, para que aquele que vai ser batizado segundo o mandamento do teu Cristo seja crucificado com ele, morra com ele, seja sepultado com ele e ressuscite com ele para a adoção que há nele, a fim de que esteja morto para o pecado e viva para a justiça.”

8. Veja a nota sobre “a dupla graça aperfeiçoada pela água e pelo Espírito”, no fim desta catequese.

9. stele, Septuaginta. Uma coluna de pedra com uma inscrição era uma forma comum de memorial entre os israelitas e outros povos antigos. Veja o Dictionary of the Bible, verbete “Pillar”.

10. Cirilo considera que Cornélio e os seus amigos foram regenerados, como os apóstolos, independentemente do batismo, como parecem fazer Agostinho (Sermão 269, n. 2) e Crisóstomo (Homilias sobre os Atos dos Apóstolos, 25). R.W.C.

11. Compare IX, 5.

12. Pelas Recognições Clementinas, I, 54 e 60, sabemos que havia quem afirmasse que João era o Cristo, e não Jesus, já que o próprio Jesus declarara que João era maior do que todos os homens e todos os profetas. A resposta dada ali é que João era maior do que todos os nascidos de mulher, mas não maior do que o Filho do Homem.

13. Por ter asas, o gafanhoto sugere a ideia de criar asas para a alma. Is 40.31: pterophuesousin hos aetoi.

14. A palavra grega (hupostasis) é usada por Políbio (XXXIV, 9) para o depósito de prata do minério triturado, e por Hipócrates para qualquer sedimento ou depósito. Aqui significa, como o contexto mostra claramente, a pele velha que a cobra larga. Compare II, 5.

15. No Cântico, esta frase é uma desculpa para não se levantar da cama. Cirilo a aplica de outro modo.

16. Jó 40.26 na Septuaginta, em lugar de 41.7: “Você consegue encher de arpões a pele dele? Ou cravar fisgas de pesca na sua cabeça?” (versões inglesas Authorized e Revised).

17. Jó 41.13 na Septuaginta, mas 41.22 na Revised Version: “E o terror dança diante dele.”

18. Compare III, 3.

19. Em lugar de “ressuscitasse” (Roe, Casaub., Mon.), as edições mais antigas trazem “ressuscitasse você”, o que é menos apropriado nesta parte da frase.

20. Grego adelphidon, “irmão”, “parente”.

21. Os Pais às vezes falam como se o batismo fosse primariamente o sacramento da remissão dos pecados e, sobre isso, viesse o dom do Espírito, que, no entanto, apenas começava no batismo e se completava na confirmação. Veja Tertuliano, Sobre o batismo, 7, 8, e acima, I, 5, no fim. Daí, como no texto, se pode dizer que o batismo é composto de dois dons, a água, que é o sangue de Cristo, e o Espírito. Não há diferença real entre isto e o modo comum de falar sobre o assunto: a água, que transmite os dois dons, é considerada tipo de um deles em especial; transmite tanto a remissão dos pecados pelo sangue de Cristo como a graça do Espírito, mas é tipo de um só, isto é, do sangue de Cristo, assim como o óleo na confirmação o é do outro. E, além disso, a remissão dos pecados é um dom completo, dado de uma vez; a santificação, um dom que vai crescendo. (R.W.C.)

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Edwin Hamilton Gifford (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 7, Nova York, 1894), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Cirilo cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.