Cirilo de Jerusalém, Catequeses · Catequese IV
Um resumo da fé antes da explicação do Credo: Deus, Cristo, o Espírito Santo, a alma, o corpo, a ressurreição, o batismo e as Escrituras.
Colossenses 2.8
Tenham cuidado para que ninguém venha a enredá-los com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo etc.
1. O vício imita a virtude, e o joio se esforça para passar por trigo, parecendo-se com o trigo na aparência, mas sendo descoberto pelo gosto, por quem sabe julgar bem. “Também o diabo se disfarça de anjo de luz” (2Co 11.14); não para tornar a subir aonde estava, pois, tendo tornado “o seu coração duro como uma bigorna” (Jó 41.24)2, tem dali em diante uma vontade incapaz de se arrepender; mas para envolver numa névoa de cegueira e numa condição pestilenta de incredulidade os que levam uma vida angélica. Muitos lobos andam por aí “em pele de ovelha” (Mt 7.15)3: a pele é de ovelha, mas não as garras nem os dentes. Vestidos com aquela pele macia e enganando os inocentes pela aparência, derramam sobre eles, das suas presas, o veneno mortal da impiedade. Por isso precisamos da graça divina, de uma mente sóbria e de olhos que enxergam, para que não soframos dano por ignorância, comendo joio como se fosse trigo; para que não nos tornemos presa do lobo, tomando-o por ovelha; e para que não sejamos devorados, supondo que o diabo destruidor seja um anjo benfazejo. Pois, como diz a Escritura, ele “anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar” (1Pe 5.8). Esta é a razão das advertências da Igreja, a razão das presentes instruções e das leituras que se fazem.
2. Pois o caminho da piedade consiste nestas duas coisas: doutrinas piedosas e prática virtuosa. Nem as doutrinas são aceitáveis a Deus sem as boas obras, nem Deus aceita as obras que não se completam com doutrinas piedosas. De que adianta conhecer bem as doutrinas a respeito de Deus e ser um vil fornicador? E, por outro lado, de que adianta ser nobremente temperante e ser um blasfemo ímpio? Coisa preciosíssima, portanto, é o conhecimento das doutrinas; e é preciso também uma alma vigilante, pois são muitos os que “enredam com sua filosofia e vãs sutilezas” (Cl 2.8). Os gregos, de um lado, arrastam os homens com a sua língua macia, pois “os lábios da mulher imoral destilam mel” (Pv 5.3); os da circuncisão, por sua vez, enganam os que se chegam a eles por meio das Escrituras divinas, que interpretam miseravelmente mal, embora “as estudem desde a infância até a velhice” (Is 46.3)4, e envelhecem na ignorância. Já os filhos dos hereges, “com suaves palavras e linguagem macia, enganam o coração dos inocentes” (Rm 16.18)5, disfarçando com o nome de Cristo, como se fosse com mel, as flechas envenenadas6 das suas doutrinas ímpias. A respeito de todos eles juntos, o Senhor diz: “Tenham cuidado para que ninguém os engane” (Mt 24.4). Esta é a razão do ensino do Credo e das explicações sobre ele.
3. Mas, antes de entregar a vocês o Credo7, penso que é bom usar agora um breve resumo das doutrinas necessárias, para que a multidão de coisas a dizer e o longo intervalo dos dias de toda esta santa Quaresma não causem esquecimento na mente dos mais simples entre vocês; mas que, tendo lançado agora algumas sementes de modo resumido, não as esqueçamos quando depois o terreno for cultivado mais amplamente. Os que estão aqui e já têm o espírito amadurecido, “com as faculdades exercitadas para discernir o bem e o mal” (Hb 5.14), tenham paciência de ouvir coisas mais próprias para crianças, uma espécie de curso introdutório de leite. Assim, ao mesmo tempo, os que precisam da instrução tiram proveito, e os que já têm o conhecimento reavivam a lembrança do que já sabem.
4. Em primeiro lugar, portanto, seja posta como fundamento na alma de vocês a doutrina a respeito de Deus: que Deus é um só, o único não gerado, sem princípio, sem mudança e sem variação8; nem gerado de outro, nem tendo outro que o suceda na sua vida; que nem começou a viver no tempo, nem jamais terá fim; e que ele é ao mesmo tempo bom e justo. Assim, se algum dia você ouvir um herege dizer que há um Deus que é justo e outro que é bom9, você se lembrará imediatamente e reconhecerá a flecha envenenada da heresia. Pois alguns ousaram, impiamente, dividir no seu ensino o Deus único; e alguns disseram que um é o Criador e Senhor da alma, e outro, do corpo10: doutrina ao mesmo tempo absurda e ímpia. Pois como pode alguém ser servo único de dois senhores, quando o nosso Senhor diz nos Evangelhos: “Ninguém pode servir a dois senhores” (Mt 6.24; Lc 16.13)? Há, pois, um só e único Deus, o Autor tanto das almas como dos corpos; um só o Criador do céu e da terra, o Autor dos anjos e dos arcanjos; Criador de muitos, mas Pai de um só antes de todos os séculos, de um só, o seu Filho unigênito, nosso Senhor Jesus Cristo, por meio de quem fez “todas as coisas, visíveis e invisíveis” (Jo 1.3; Cl 1.16).
5. Este Pai de nosso Senhor Jesus Cristo não está circunscrito a lugar algum11, nem é menor do que o céu; mas “os céus são obra dos seus dedos” (Sl 8.3), e “a terra inteira está contida na sua mão” (Is 40.12). Ele está em todas as coisas e ao redor de tudo. Não pense que o sol é mais brilhante do que ele12, ou igual a ele, pois aquele que no princípio formou o sol tem de ser incomparavelmente maior e mais brilhante. Ele conhece de antemão as coisas que hão de acontecer e é mais poderoso que todos, sabendo todas as coisas e fazendo como quer; não está sujeito a nenhuma sequência necessária de acontecimentos, nem ao horóscopo de nascimento, nem ao acaso, nem ao destino; é perfeito em tudo e possui igualmente toda forma absoluta13 de virtude, sem diminuir nem aumentar, mas sempre o mesmo no modo e na condição; e preparou castigo para os pecadores e coroa para os justos.
6. Muitos se desviaram de muitas maneiras do Deus único: alguns divinizaram o sol, de modo que, quando o sol se põe, ficam sem Deus durante a noite; outros, a lua, para não terem Deus durante o dia (Jó 31.26-27)14; outros, as demais partes do mundo15; outros, as artes16; outros, os seus diversos alimentos17; outros, os seus prazeres18; alguns, loucos por mulheres, ergueram no alto a imagem de uma mulher nua, chamaram-na Afrodite19 e adoraram a sua própria luxúria em forma visível; e outros, deslumbrados pelo brilho do ouro, divinizaram-no20, assim como as demais espécies de matéria. Ora, quem põe no coração, como primeiro fundamento, a doutrina da unidade21 de Deus e confia nele, arranca de uma vez toda a colheita22 dos males da idolatria e do erro dos hereges. Ponha, portanto, pela fé, esta primeira doutrina da religião como fundamento na sua alma.
7. Creia também no Filho de Deus, um e único, nosso Senhor Jesus Cristo, que foi gerado Deus de Deus, gerado Vida de Vida, gerado Luz de Luz23; que é em tudo semelhante24 àquele que o gerou; que não recebeu o ser no tempo, mas foi gerado do Pai antes de todos os séculos, eternamente e de modo incompreensível; a Sabedoria e o Poder de Deus, e a sua Justiça subsistente em pessoa25; que está sentado à direita do Pai antes de todos os séculos.
Pois o trono à direita de Deus ele não o recebeu, como alguns pensaram, por causa da sua paciente perseverança, como se Deus o tivesse coroado depois da sua Paixão; mas durante todo o seu ser, um ser por geração eterna26, ele possui a dignidade real e partilha o trono do Pai, sendo Deus, Sabedoria e Poder, como foi dito; reinando juntamente com o Pai e criando todas as coisas para o Pai, sem que lhe falte nada na dignidade da divindade, e conhecendo aquele que o gerou, assim como é conhecido por aquele que o gerou. Em resumo, lembre-se do que está escrito nos Evangelhos: “Ninguém conhece o Filho, a não ser o Pai; e ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho” (Mt 11.27; Jo 10.15; 17.25).
8. Além disso, não separe27 o Filho do Pai, nem, fazendo confusão, creia numa “Filho-Paternidade”28; mas creia que do Deus único há um único Filho unigênito, que é, antes de todos os séculos, Deus Verbo; não a palavra proferida29 que se espalha no ar, nem comparável a palavras sem subsistência pessoal30; mas o Verbo Filho, Autor de todos os seres dotados de razão, o Verbo que ouve o Pai e ele mesmo fala. E sobre estes pontos, se Deus permitir, falaremos mais longamente no tempo oportuno, pois não esquecemos o nosso propósito presente de dar uma introdução resumida à fé.
9. Creia, então, que este Filho unigênito de Deus, por causa dos nossos pecados, desceu do céu à terra, assumiu esta natureza humana sujeita às mesmas paixões31 que nós, foi gerado da santa Virgem e do Espírito Santo e se fez homem, não em aparência e mera fantasia32, mas em verdade; nem passando pela Virgem como por um canal33, mas tornando-se dela verdadeiramente carne, [e verdadeiramente alimentado com leite34 ], e verdadeiramente comeu como nós comemos e verdadeiramente bebeu como nós bebemos. Pois, se a encarnação foi um fantasma, a salvação também é um fantasma. O Cristo era de duas naturezas: homem no que se via, mas Deus no que não se via. Como homem, comia verdadeiramente como nós, pois tinha a mesma sensibilidade da carne que nós; mas, como Deus, alimentou os cinco mil com cinco pães. Como homem, morreu verdadeiramente; mas, como Deus, ressuscitou aquele que estava morto havia quatro dias. Dormiu verdadeiramente no barco como homem e andou sobre as águas como Deus.
10. Ele foi verdadeiramente crucificado pelos nossos pecados. Se você quisesse negar isso, o próprio lugar o refutaria visivelmente, este bendito Gólgota35, onde agora estamos reunidos por causa daquele que aqui foi crucificado; e o mundo inteiro, desde então, se encheu de pedaços do lenho da cruz36. Mas ele foi crucificado não por pecados seus, e sim para que nós fôssemos livrados dos nossos pecados. E embora, como homem, tenha sido naquela ocasião “desprezado pelos homens” (Is 53.3) e esbofeteado, foi reconhecido como Deus pela criação: pois o sol, ao ver o seu Senhor desonrado, escureceu-se e tremeu, não suportando aquela visão.
11. Ele foi verdadeiramente posto, como homem, num túmulo de pedra; mas as rochas se fenderam de terror por causa dele. Desceu às regiões debaixo da terra, para dali também resgatar os justos37. Pois, diga-me, você gostaria que só os vivos gozassem da sua graça, e isso embora a maioria deles seja ímpia, e não gostaria que os que estavam presos desde Adão, havia tanto tempo, alcançassem agora a liberdade? O profeta Isaías anunciou em alta voz tantas coisas a respeito dele; você não gostaria que o Rei descesse e resgatasse o seu arauto? Lá estavam Davi, Samuel e todos os profetas38, e também o próprio João, que por meio dos seus mensageiros perguntou: “Você é aquele que estava para vir ou devemos esperar outro?” (Mt 11.3). Você não gostaria que ele descesse e resgatasse homens como esses?
12. Mas aquele que desceu às regiões debaixo da terra tornou a subir; e Jesus, que foi sepultado, verdadeiramente ressuscitou ao terceiro dia. E, se alguma vez os judeus o importunarem, responda-lhes logo perguntando assim: Jonas saiu da baleia ao terceiro dia, e Cristo não teria ressuscitado da terra ao terceiro dia? Um morto volta à vida ao tocar os ossos de Eliseu, e não é muito mais fácil que o Criador da humanidade seja ressuscitado pelo poder do Pai? Pois bem, ele verdadeiramente ressuscitou e, depois de ressuscitado, foi visto de novo pelos discípulos; e doze discípulos foram testemunhas da sua ressurreição, e deram testemunho não com palavras agradáveis, mas lutaram até a tortura e a morte pela verdade da ressurreição. E então? “Pelo depoimento de duas ou três testemunhas se estabelecerá o fato” (Dt 19.15), segundo a Escritura, e, embora doze deem testemunho da ressurreição de Cristo, você continua incrédulo a respeito da sua ressurreição?
13. Mas, quando Jesus terminou a sua carreira de paciente perseverança e resgatou a humanidade dos seus pecados, subiu de novo aos céus, recebido por uma nuvem; e, enquanto subia, anjos estavam ao seu lado, e apóstolos o contemplavam. Mas, se alguém não crê nas palavras que digo, creia no próprio poder das coisas que agora se veem. Todos os reis, quando morrem, têm o seu poder extinto junto com a vida; mas Cristo crucificado é adorado pelo mundo inteiro. Anunciamos o Crucificado, e os demônios tremem agora. Muitos foram crucificados em diversas épocas; mas de que outro crucificado a invocação alguma vez expulsou os demônios?
14. Não nos envergonhemos, portanto, da cruz de Cristo; mas, ainda que outro a esconda, marque-a você abertamente na testa, para que os demônios vejam o sinal real e fujam para longe, tremendo39. Faça, pois, este sinal ao comer e ao beber, ao sentar-se, ao deitar-se, ao levantar-se, ao falar, ao andar; numa palavra, em todo ato40. Pois aquele que aqui foi crucificado está no céu, lá no alto. Se, depois de crucificado e sepultado, tivesse ficado no túmulo, teríamos motivo para nos envergonhar; mas, de fato, aquele que foi crucificado aqui no Gólgota subiu ao céu do monte das Oliveiras, a leste. Pois, depois de descer daqui ao Hades e subir de novo até nós, subiu outra vez de nosso meio ao céu, e o Pai se dirigiu a ele dizendo: “Sente-se à minha direita, até que eu ponha os seus inimigos por estrado dos seus pés” (Sl 110.1).
15. Este Jesus Cristo que subiu voltará, não da terra, mas do céu; e digo “não da terra” porque há muitos anticristos que hão de vir neste tempo da terra. Pois já, como você tem visto, muitos começaram a dizer: “Eu sou o Cristo” (Mt 24.5); e “o abominável da desolação” (Mt 24.15)41 ainda está por vir, arrogando a si o falso título de Cristo. Mas espere você o verdadeiro Cristo, o Filho unigênito de Deus, que virá daqui em diante não mais da terra, mas do céu, aparecendo a todos mais brilhante que qualquer relâmpago e esplendor de luz, acompanhado de uma guarda de anjos, para julgar os vivos e os mortos e reinar num reino celeste e eterno, que não terá fim. Pois também sobre este ponto, peço-lhe, tenha plena certeza, já que há muitos que dizem que o reino de Cristo tem fim42.
16. Creia também no Espírito Santo e tenha a respeito dele a mesma convicção que você recebeu para ter a respeito do Pai e do Filho, e não siga os que ensinam blasfêmias sobre ele43. Mas aprenda que este Espírito Santo é um, indivisível, de poder multiforme; que tem muitas operações, sem que ele mesmo seja dividido; que conhece os mistérios, que “sonda todas as coisas, até mesmo as profundezas de Deus” (1Co 2.10); que desceu sobre o Senhor Jesus Cristo em forma de pomba; que operou na Lei e nos Profetas; que agora também, no tempo do batismo, sela a sua alma; de cuja santidade toda natureza intelectual tem necessidade; contra quem, “se alguém ousar blasfemar, não terá perdão, nem neste mundo nem no porvir” (Mt 12.32); que, “com o Pai e o Filho juntamente44“, é honrado com a glória da divindade; de quem também “os tronos, as soberanias, os principados e as potestades” têm necessidade (Cl 1.16). Pois há um só Deus, o Pai de Cristo; e um só Senhor Jesus Cristo, o Filho unigênito do único Deus; e um só Espírito Santo, que santifica e diviniza a todos45, que falou na Lei e nos Profetas, no Antigo e no Novo Testamento.
17. Tenha sempre na mente este selo46, que por ora foi tocado de leve no meu discurso, em forma de resumo, mas que será exposto, se o Senhor permitir, da melhor maneira que eu puder, com a prova tirada das Escrituras. Pois, a respeito dos divinos e santos mistérios da fé, não se deve transmitir nem mesmo uma afirmação casual sem as santas Escrituras; nem devemos nos deixar desviar por mera aparência de verdade e por artifícios de linguagem. Nem mesmo a mim, que lhe digo estas coisas, dê crédito absoluto, a não ser que receba das Escrituras divinas a prova do que anuncio. Pois esta salvação em que cremos não depende de raciocínios engenhosos47, mas da demonstração das santas Escrituras.
18. Depois do conhecimento desta fé venerável, gloriosa e santíssima, aprenda ainda o que você mesmo é: que, como homem, você é de natureza dupla, composto de alma e corpo; e que, como foi dito há pouco, o mesmo Deus é o Criador da alma e do corpo48. Saiba também que você tem uma alma senhora de si, a obra mais nobre de Deus, feita à imagem do seu Criador49; imortal por causa de Deus, que lhe dá a imortalidade; ser vivente, racional, incorruptível, por causa daquele que lhe concedeu estes dons; com livre poder de fazer o que quer50. Pois não é por causa do horóscopo do seu nascimento que você peca, nem é pelo poder do acaso que você comete fornicação, nem, como alguns dizem à toa, são as conjunções dos astros que o obrigam a se entregar à devassidão51. Por que você foge de confessar as suas próprias más ações e lança a culpa sobre os astros inocentes? Não dê mais atenção, por favor, aos astrólogos; pois deles diz a Escritura divina: “Que se levantem os que observam os astros do céu e salvem você”, e o que segue: “Eis que todos serão consumidos como palha no fogo e não livrarão a sua alma da chama” (Is 47.13-14).
19. Aprenda também isto: a alma, antes de vir a este mundo, não havia cometido pecado algum52; mas, tendo vindo sem pecado, agora pecamos por nosso livre-arbítrio. Não dê ouvidos, peço a você, a ninguém que interprete de modo perverso as palavras: “se faço o que não quero” (Rm 7.16). Lembre-se, antes, daquele que diz: “Se estiverem dispostos e me ouvirem, vocês comerão o melhor desta terra; mas, se não estiverem dispostos nem me ouvirem, a espada os devorará” etc. (Is 1.19-20). E ainda: “Assim como ofereceram os seus membros para que fossem escravos da impureza e da maldade que leva à maldade, assim ofereçam agora os seus membros para que sejam servos da justiça para a santificação” (Rm 6.19). Lembre-se também da Escritura, que diz: “Assim como não quiseram reter a Deus no seu conhecimento” (Rm 1.28); e: “o que se pode conhecer a respeito de Deus é manifesto entre eles” (Rm 1.19); e ainda: “fecharam os olhos” (Mt 13.15). Lembre-se também de como Deus novamente os acusa e diz: “Eu, porém, plantei você como videira frutífera, toda verdadeira; como você se tornou amargura, você, a videira estranha?” (Jr 2.21).
20. A alma é imortal, e todas as almas são semelhantes, tanto as dos homens como as das mulheres; pois só os membros do corpo se distinguem53. Não existe uma classe de almas que pecam por natureza e outra classe de almas que praticam a justiça por natureza54; mas ambas agem por escolha, sendo a substância das almas de uma só espécie e semelhante em todos. Sei, no entanto, que estou falando muito e que o tempo já vai longo; mas o que há de mais precioso do que a salvação? Você não está disposto a se dar ao trabalho de juntar provisões para o caminho contra os hereges? E não quer aprender os desvios da estrada, para não cair num precipício por ignorância? Se os seus mestres julgam que não é pequeno ganho para você aprender estas coisas, você, que é o aprendiz, não deveria receber de bom grado a quantidade de coisas que lhe são ditas?
21. A alma governa a si mesma; e, embora o diabo possa sugerir, ele não tem poder para obrigar contra a vontade. Ele lhe pinta o pensamento da fornicação: se você quiser, você o aceita; se não quiser, você o rejeita. Pois, se você fosse fornicador por necessidade, por que motivo Deus teria preparado o inferno? Se você praticasse a justiça por natureza e não por vontade, por que Deus teria preparado coroas de glória inefável? A ovelha é mansa, mas nunca foi coroada pela sua mansidão, porque a sua mansidão não lhe pertence por escolha, mas por natureza.
22. Você aprendeu, amado, a natureza da alma, tanto quanto o tempo presente permite; agora faça o possível para receber também a doutrina sobre o corpo. Não tolere nenhum daqueles que dizem que este corpo não é obra de Deus55; pois os que creem que o corpo é independente de Deus e que a alma habita nele como num vaso estranho facilmente abusam dele para a fornicação56. E, no entanto, que defeito encontraram neste corpo maravilhoso? O que lhe falta em formosura? E o que, na sua estrutura, não está cheio de arte? Não deviam ter observado a luminosa construção dos olhos? E como os ouvidos, colocados em posição oblíqua, recebem o som sem obstáculo? E como o olfato é capaz de distinguir os aromas e de perceber as exalações? E como a língua serve a dois fins, o sentido do paladar e a faculdade da fala? Como os pulmões, colocados fora da vista, respiram o ar sem cessar? Quem deu ao coração a sua pulsação incessante? Quem fez a distribuição em tantas veias e artérias? Quem uniu com arte os ossos aos tendões? Quem destinou uma parte do alimento à nossa substância e separou outra parte para uma decente excreção, e escondeu os membros menos decorosos em lugares mais decorosos? Quem, quando o gênero humano teria de desaparecer, o tornou perpétuo por uma simples união?
23. Não me diga que o corpo é causa do pecado57. Pois, se o corpo é causa do pecado, por que um cadáver não peca? Ponha uma espada na mão direita de alguém que acabou de morrer, e nenhum homicídio acontece. Faça passar belezas de toda espécie diante de um jovem que acabou de morrer, e nenhum desejo impuro surge. Por quê? Porque o corpo não peca por si mesmo, mas a alma peca por meio do corpo. O corpo é um instrumento e, por assim dizer, uma veste e um manto da alma; e, se por ela for entregue à fornicação, torna-se contaminado; mas, se habitar com uma alma santa, torna-se templo do Espírito Santo. Não sou eu que digo isto; foi o apóstolo Paulo que disse: “Será que vocês não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo, que está em vocês?” (1Co 6.19). Cuide, portanto, com carinho do seu corpo, como templo do Espírito Santo. Não manche a sua carne com a fornicação; não contamine esta sua veste tão bela; e, se alguma vez a contaminou, purifique-a agora pelo arrependimento: lave-se enquanto o tempo permite.
24. E, quanto à doutrina da castidade, que os primeiros a lhe dar atenção sejam a ordem dos solitários58 e das virgens, que mantêm a vida angélica no mundo; e que o restante do povo da Igreja os siga. Para vocês, irmãos, está reservada uma grande coroa: não troquem uma grande dignidade por um prazer mesquinho. Ouçam o apóstolo, que diz: “para que não haja nenhum impuro ou profano, como foi Esaú, o qual, por um prato de comida, vendeu o seu direito de primogenitura” (Hb 12.16). Inscrito de agora em diante nos livros dos anjos pela sua profissão de castidade, cuide para não ser riscado de novo pela prática da fornicação.
25. Por outro lado, ao guardar a sua castidade, não se ensoberbeça contra os que andam pelo caminho mais humilde do matrimônio. Pois, como diz o apóstolo: “Digno de honra entre todos seja o matrimônio, bem como o leito conjugal sem mácula” (Hb 13.4). Você também, que guarda a sua castidade, não foi gerado por pessoas que se casaram? Só porque você possui ouro, não despreze por isso a prata. Mas tenham bom ânimo também os que, sendo casados, usam do matrimônio de modo legítimo; os que contraem matrimônio segundo a ordem de Deus, e não por lascívia, em busca de licença sem limites; os que reconhecem tempos de abstinência, “para se dedicarem à oração” (1Co 7.5); os que, nas nossas assembleias, trazem para a igreja corpos limpos, assim como vestes limpas; os que entraram no matrimônio para a procriação dos filhos, e não para a satisfação dos sentidos.
26. Que também os que se casam uma só vez não desprezem os que consentiram num segundo casamento59; pois, embora a continência seja coisa nobre e admirável, também é permitido contrair um segundo casamento, para que os fracos não caiam na fornicação. Pois, diz o apóstolo, “lhes seria bom se permanecessem no estado em que também eu vivo. Mas, se não conseguem se dominar, que se casem; porque é melhor casar do que arder em desejos” (1Co 7.8-9). Mas que todas as outras práticas sejam banidas para longe: a fornicação, o adultério e toda espécie de libertinagem; e que o corpo seja guardado puro para o Senhor, para que também o Senhor olhe para o corpo. E que o corpo seja alimentado com comida, para que viva e sirva sem impedimento; não, porém, para que seja entregue aos luxos.
27. E, quanto à comida, sejam estas as suas regras, já que também em matéria de alimentos muitos tropeçam. Pois alguns tratam com indiferença as coisas sacrificadas aos ídolos60, enquanto outros se disciplinam, mas condenam os que comem; e de diferentes maneiras as almas dos homens se contaminam em matéria de alimentos, por ignorarem as razões proveitosas para comer e para não comer. Pois jejuamos abstendo-nos do vinho e da carne, não porque os detestemos como abominações, mas porque esperamos a nossa recompensa: para que, tendo desprezado as coisas sensíveis, desfrutemos de um banquete espiritual e inteligível; e para que, tendo agora semeado com lágrimas, ceifemos com júbilo (Sl 126.5) no mundo vindouro. Não despreze, portanto, os que comem e, por causa da fraqueza do corpo, tomam alimento; nem censure os que usam “um pouco de vinho, por causa do seu estômago e das suas frequentes enfermidades” (1Tm 5.23); não condene esses homens como pecadores, nem deteste a carne como alimento estranho. Pois o apóstolo conhece alguns desse tipo, quando diz: “que proíbem o casamento e exigem abstinência de alimentos que Deus criou para serem recebidos com gratidão pelos que creem” (1Tm 4.3). Quando, pois, você se abstém dessas coisas, não se abstenha delas como de coisas abomináveis61, senão você não terá recompensa; mas, sendo elas boas, deixe-as de lado por causa das coisas espirituais melhores que lhe são oferecidas.
28. Guarde com segurança a sua alma, para que nunca coma das coisas sacrificadas aos ídolos; pois, a respeito dos alimentos desse tipo, não só eu agora, mas já antes os apóstolos e Tiago, o bispo desta Igreja, tiveram zeloso cuidado; e os apóstolos e os presbíteros escrevem uma epístola católica a todos os gentios, para que se abstenham primeiro das coisas sacrificadas aos ídolos, e depois também do sangue e da carne de animais sufocados (At 15.20, 29)62. Pois muitos homens, sendo de natureza selvagem e vivendo como cães, tanto lambem o sangue63, imitando o costume das feras mais ferozes, como devoram avidamente a carne de animais sufocados. Você, porém, servo de Cristo, ao comer, cuide de comer com reverência. E basta sobre os alimentos.
29. Que a sua roupa seja simples, não para enfeite, mas para a cobertura necessária: não para servir à sua vaidade, mas para aquecer você no inverno e esconder o que há de indecoroso no corpo; para que, a pretexto de esconder o indecoroso, você não caia em outra espécie de indecoro pelo exagero no vestir.
30. Cuide com carinho, eu lhe peço, deste corpo, e entenda que você será ressuscitado dos mortos para ser julgado com este corpo. Mas, se se insinuar na sua mente algum pensamento de incredulidade, como se a coisa fosse impossível, julgue as coisas invisíveis pelo que acontece com você mesmo. Pois diga-me: há cem anos ou mais, pense onde você estava; e de que substância tão minúscula e tão vil você chegou a tamanha estatura e a tanta dignidade de beleza64. E então? Aquele que trouxe à existência o que não existia não pode ressuscitar o que já existe e se desfez65? Aquele que faz brotar o trigo, semeado por nossa causa, quando ano após ano ele morre, terá dificuldade em nos ressuscitar, a nós, por causa de quem também aquele trigo foi feito brotar66? Você vê como as árvores ficam agora, por muitos meses, sem fruto nem folhas; mas, quando o inverno passa, voltam inteiras à vida, como se ressuscitassem dos mortos67: não haveremos nós, com muito mais razão e mais facilmente, de voltar à vida? A vara de Moisés foi transformada, pela vontade de Deus, na natureza estranha de uma serpente; e não pode um homem que caiu na morte ser restituído de novo a si mesmo?
31. Não dê atenção aos que dizem que este corpo não ressuscita; pois ele ressuscita. Isaías é testemunha, quando diz: “Os mortos ressuscitarão, e os que estão nos sepulcros despertarão” (Is 26.19); e, segundo Daniel: “Muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, outros para a vergonha eterna” (Dn 12.2). Mas, embora ressuscitar seja comum a todos os homens, a ressurreição não é igual para todos: pois os corpos que todos nós recebemos são eternos, mas não são corpos iguais para todos. Os justos os recebem para que, por toda a eternidade, se unam aos coros dos anjos; os pecadores, porém, para que suportem para sempre o tormento dos seus pecados.
32. Por esta causa o Senhor, antecipando-se a nós segundo a sua bondade, concedeu o arrependimento no batismo68, para que lancemos fora a maior parte, ou melhor, todo o fardo dos nossos pecados e, tendo recebido o selo pelo Espírito Santo, sejamos feitos herdeiros da vida eterna. Mas, como já falamos suficientemente sobre o banho anteontem, voltemos agora aos demais assuntos do nosso ensino introdutório.
33. Ora, estas coisas nos são ensinadas pelas Escrituras divinamente inspiradas, tanto do Antigo como do Novo Testamento. Pois o Deus dos dois Testamentos é um só, o qual no Antigo Testamento anunciou de antemão o Cristo que apareceu no Novo; o qual, pela Lei e pelos Profetas, nos conduziu à escola de Cristo. Pois “antes que viesse a fé, estávamos sob a tutela da lei e nela encerrados” (Gl 3.23), e “a lei se tornou nosso guardião para nos conduzir a Cristo” (Gl 3.24)69. E, se alguma vez você ouvir algum dos hereges falando mal da Lei ou dos Profetas, responda com o som da voz do Salvador, dizendo: Jesus não veio revogar a Lei, mas cumpri-la (Mt 5.17). Aprenda também com diligência, e da Igreja, quais são os livros do Antigo Testamento e quais os do Novo. E, por favor, não leia nenhum dos escritos apócrifos70; pois por que você, que não conhece os que são reconhecidos por todos, se preocuparia em vão com os que são contestados? Leia as divinas Escrituras, os vinte e dois livros do Antigo Testamento, estes que foram traduzidos pelos setenta e dois intérpretes71.
34. Pois, depois da morte de Alexandre, rei dos macedônios, e da divisão do seu reino em quatro principados, Babilônia, Macedônia, Ásia e Egito, um dos que reinaram sobre o Egito, Ptolomeu Filadelfo, rei muito amigo das letras, enquanto reunia os livros que havia em toda parte, ouviu de Demétrio de Falero, curador da sua biblioteca, a respeito das divinas Escrituras da Lei e dos Profetas. E julgou muito mais nobre não obter os livros dos seus possuidores à força, contra a vontade deles, mas antes conquistá-los com presentes e amizade; e, sabendo que o que é extorquido muitas vezes vem adulterado, por ser dado de má vontade, ao passo que o que é fornecido de boa vontade é dado livremente e com toda a sinceridade, enviou a Eleazar, que era então sumo sacerdote, muitíssimos presentes para o templo aqui em Jerusalém, e fez com que ele lhe enviasse seis intérpretes de cada uma das doze tribos de Israel para a tradução72. Depois, para pôr à prova se os livros eram divinos ou não, tomou a precaução de que os enviados não combinassem entre si, designando a cada um dos intérpretes que tinham vindo um aposento separado na ilha chamada Faros, que fica defronte de Alexandria, e confiou a cada um as Escrituras inteiras para traduzir. E, quando eles terminaram a tarefa em setenta e dois dias, reuniu todas as traduções, que tinham feito em aposentos diferentes sem comunicá-las uns aos outros, e verificou que concordavam não só no sentido, mas até nas palavras. Pois o processo não foi obra de habilidade verbal nem invenção de artifícios humanos; a tradução das divinas Escrituras, faladas pelo Espírito Santo, foi realizada pelo Espírito Santo.
35. Destes, leia os vinte e dois livros, mas não tenha nada a ver com os escritos apócrifos. Estude com afinco somente estes que lemos publicamente na Igreja. Muito mais sábios e mais piedosos do que você eram os apóstolos e os antigos bispos, os presidentes da Igreja que nos transmitiram estes livros. Sendo, pois, filho da Igreja, não transgrida73 os seus estatutos. E, do Antigo Testamento, como dissemos, estude os vinte e dois livros; e, se você deseja aprender, procure guardá-los de memória pelo nome, enquanto eu os recito. Da Lei, os livros de Moisés são os cinco primeiros: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio. Em seguida, Josué, filho de Nave74, e o livro dos Juízes, incluindo Rute, contado como o sétimo. Dos outros livros históricos, o primeiro e o segundo livros dos Reis75 são entre os hebreus um só livro; também o terceiro e o quarto, um só livro. Do mesmo modo, o primeiro e o segundo das Crônicas são para eles um só livro; e o primeiro e o segundo de Esdras são contados como um. Ester é o décimo segundo livro; e estes são os escritos históricos. Os que são escritos em versos são cinco: Jó, o livro dos Salmos, Provérbios, Eclesiastes e o Cântico dos Cânticos, que é o décimo sétimo livro. E depois destes vêm os cinco livros proféticos: dos Doze Profetas, um livro; de Isaías, um; de Jeremias, um, incluindo Baruc, as Lamentações e a Epístola76; depois Ezequiel e o livro de Daniel, o vigésimo segundo do Antigo Testamento.
36. Do Novo Testamento, há somente os quatro Evangelhos, pois os demais têm títulos falsos77 e são nocivos. Os maniqueus também escreveram um Evangelho segundo Tomé, que, tingido com o perfume do título evangélico, corrompe as almas dos mais simples. Receba também os Atos dos Doze Apóstolos; e, além destes, as sete epístolas católicas de Tiago, Pedro, João e Judas; e, como selo sobre todos eles e última obra dos discípulos, as catorze epístolas de Paulo78. Mas que todos os demais sejam postos de lado, em posição secundária. E os livros que não são lidos nas igrejas, esses você não deve ler nem sozinho, como você me ouviu dizer. Baste isto sobre estes assuntos.
37. Mas fuja de toda operação diabólica e não acredite na serpente apóstata, cuja transformação de uma natureza boa foi por sua livre escolha; ela pode persuadir os que querem, mas não pode obrigar ninguém. Também não dê atenção nem à observação dos astros, nem aos augúrios, nem aos presságios, nem às fabulosas adivinhações dos gregos79. A feitiçaria, os encantamentos e as práticas perversas da necromancia, não os admita nem para ouvir falar. Mantenha-se longe de toda espécie de intemperança, não se entregando nem à gula nem à libertinagem, colocando-se acima de toda avareza e da usura. Não se arrisque nos ajuntamentos pagãos dos espetáculos públicos, nem use jamais amuletos nas doenças; fuja também de toda a vulgaridade de frequentar tavernas. Não se desvie nem para a seita dos samaritanos, nem para o judaísmo; pois Jesus Cristo, de agora em diante, resgatou você. Mantenha-se longe de toda observância de sábados80 e de chamar comuns ou impuros alimentos que são indiferentes. Mas, sobretudo, deteste todas as assembleias dos hereges perversos; e de todas as maneiras ponha a salvo a sua própria alma, com jejuns, orações, esmolas e a leitura dos oráculos de Deus; para que, tendo vivido o resto da sua vida na carne com sobriedade e sã doutrina, você desfrute da única salvação que brota do batismo; e assim, alistado nos exércitos do céu por Deus e Pai, seja também considerado digno das coroas celestes, em Cristo Jesus, nosso Senhor, a quem seja a glória para todo o sempre. Amém.
1. O número “dez” é confirmado por Teodoreto, que cita o artigo sobre o “nascimento da Virgem” de Cristo como tirado da quarta Catequese de Cirilo, “Sobre as dez doutrinas”. Os manuscritos variam entre “dez” e “onze” e diferem também nos títulos particulares e na numeração de cada artigo.
2. Na Septuaginta (Jó 41.15): he kardia autou… hesteken hosper akmon anelatos. Essas afirmações a respeito do diabo parecem dirigidas contra a opinião de Orígenes (De Principiis I, 2) de que os anjos “que foram removidos do seu estado primitivo de bem-aventurança não foram removidos sem possibilidade de volta”. A questão é discutida, com a citação das opiniões de vários Pais, por Huet, Origeniana, II, c. 25.
3. O mesmo texto é aplicado aos hereges por Inácio, Filadelfienses II, e por Irineu, livro I, c. 1, § 2.
4. Na Septuaginta: paideuomenoi ek paidiou heos geros.
5. Cirilo tem euglottias em lugar de eulogias.
6. Compare Inácio, Tralianos VI.
7. Compare Rm 6.17: “à forma de doutrina a que foram entregues”. A instrução dos catecúmenos nos artigos da fé era comumente chamada “Traditio Symboli”, isto é, “entrega do Credo”.
8. Compare Hermas, Mandamento I. Atanásio, Epístola sobre os decretos do Sínodo de Niceia, XXII: houto kai to atrepton kai analloioton auton einai sothesetai. Assim também Aristóteles (Metafísica XI, c. 4, 13) descreve a Causa primeira como apathes kai analloioton.
9. Irineu, I, c. 27, diz que Cerdão ensinava que o Deus da Lei e dos Profetas não era o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, pois aquele é conhecido, mas este, desconhecido; e um é justo, mas o outro, bom. Também III, c. 25, § 3: “O próprio Marcião, portanto, dividindo Deus em dois e chamando um de bom e o outro de juiz, acaba de ambos os lados com a divindade.” Compare Tertuliano, Contra Marcião I, 2 e 6; Orígenes, Contra Celso IV, 54.
10. Esta doutrina era sustentada pelos maniqueus e outros hereges, e o bispo Pearson a faz remontar à era apostólica (Exposition of the Creed, art. I, p. 79, nota c). Compare Atanásio, Contra Apolinário I, 21; II, 8; Contra os gentios, § 6; Sobre a encarnação, § 2; e Agostinho (Contra Fausto XX, 15, 21, e XXI, 4).
11. Santo Agostinho, sobre o Salmo 75, 6: Si in aliquo loco esset, non esset Deus. Sermão 342: Deus habitando continet, non continetur. Orígenes, Contra Celso VII, 34: “Deus é de natureza excelente demais para qualquer lugar: ele tem todas as coisas em seu poder e não é ele mesmo contido por coisa alguma.” Compare a citação dos Principia de Sir Isaac Newton na nota sobre a Catequese VI, 8.
12. Veja a Catequese XV, 3, e a nota ali.
13. idean. Cirilo usa a palavra no sentido platônico, assim como na frase seguinte adota a fórmula que Platão costuma usar ao descrever a “ideia”: aei kata ta auta kai hosautos echein. Fédon 78 c.
14. O culto ao sol e à lua, sob vários nomes, era quase universal.
15. Gaia ou Tellus, a terra; Zeus ou Júpiter, o céu; rios, fontes etc.
16. Música, medicina, caça, guerra, agricultura, metalurgia etc., representadas por Apolo, Esculápio, Diana, Marte, Ceres, Vulcano.
17. Heródoto, livro II, descreve o culto egípcio a várias aves, peixes e quadrúpedes. Também o alho-poró e a cebola eram tidos por sagrados: Porrum et caepe nefas violare, Juvenal, Sátiras XV, 9. Compare Clemente de Alexandria, Protréptico, c. 2, § 39, Klotz.
18. Eros, Dioniso.
19. Clemente de Alexandria (Protréptico, c. 4, § 53, Klotz) afirma que a cortesã Frineia foi tomada como modelo para Afrodite. “Praxíteles, ao modelar a estátua de Afrodite de Cnido, fê-la semelhante à forma de Cratina, sua amante.” Ibid.
20. Pluto.
21. tes monarchias tou theou. Veja a nota sobre o título da Catequese VI. Práxeas usava o termo “monarquia” para excluir o Filho (e o Espírito) da divindade. Tertuliano, no seu tratado contra Práxeas, sustenta a verdadeira doutrina de que o Filho não é obstáculo à “monarquia”, porque é da substância do Pai, nada faz sem a vontade do Pai e recebeu todo o poder do Pai, a quem no fim entregará o reino. Nesse sentido, Dionísio, bispo de Roma, fala da monarquia divina como “a doutrina mais sagrada da Igreja de Deus”. Compare Atanásio, Sobre os decretos do Sínodo de Niceia, c. 6, § 3, e a nota do Dr. Newman. No Discurso IV contra os arianos, p. 606 (617), Atanásio deriva o termo de arche no sentido de “princípio”: houtos mia arche theotetos kai ou duo archai, hothen kurios kai monarchia estin. Veja a introdução de Newman ao Discurso IV de Atanásio.
22. Em lugar de phoran (o editor beneditino), muitos manuscritos leem phthoran, “corrupção”.
23. Compare XI, 4, 9, 18.
24. Ton homoion kata panta to gennesanti. Sobre o sentido e a história desta expressão, proposta pelos semiarianos no Concílio de Rimini como substituta de homoousion, veja Atanásio, Sobre os sínodos, § 8 e seguintes.
25. enupostatos. Compare XI, 10; Atanásio, Contra Apolinário I, 20, 21.
26. Os manuscritos variam muito, mas segui o texto beneditino.
27. Este foi um ponto sustentado com empenho pelos bispos ortodoxos em Niceia: o Filho, gerado da substância do Pai, está sempre inseparavelmente no Pai. Atanásio, Sobre os decretos do Sínodo, c. 20; Tertuliano, Contra Marcião IV, c. 6. Compare Inácio, Aos tralianos VI (recensão longa): ton men gar Christon allotriousi tou Patros.
28. huiopatoria. Termo de zombaria aplicado à doutrina de Sabélio. Compare Atanásio, Expositio Fidei, c. 2: “nem imaginamos um Filho-Pai, como os sabelianos”.
29. Logos prophorikos, termo usado por Paulo de Samósata, implicava que o Verbo era impessoal, concebido como uma atividade particular de Deus. Veja Dorner, Person of Christ, div. I, vol. II, p. 436 (tradução inglesa); e compare Atanásio, Expositio Fidei, c. 1: huion ek tou Patros anarchos kai aidios gegennemenon, logon de ou prophorikon, ouk endiatheton. O cardeal Newman (Atanásio, Contra os arianos I, 7, nota) observa que alguns escritores cristãos do século II “parecem falar da geração divina como ocorrida imediatamente antes da criação do mundo, isto é, como se não fosse eterna, embora ao mesmo tempo ensinem que nosso Senhor existia antes dessa geração. Em outras palavras, parecem ensinar que ele era o Verbo desde a eternidade e se tornou Filho no princípio de todas as coisas; alguns deles o consideram expressamente, primeiro, como o logos endiathetos, ou Razão, no Pai, ou (como se pode representar de modo especioso) um mero atributo; depois, como o logos prophorikos, ou Palavra”. Os termos logos endiathetos, ou “palavra concebida na mente”, e logos prophorikos, ou “palavra expressa” (emissum, ou prolativum), eram usados entre os gnósticos (Irineu II, c. 12, § 5). Aplicados ao Filho, ambos os termos, embora às vezes usados em sentido correto, foram condenados como inadequados. Compare XI, 10.
30. anupostatois logois. Atanásio, Contra os arianos, Discurso IV, c. 8: palin hoi legontes monon onoma einai huiou, anousion de kai anupostaton einai ton huion tou Theou, etc.
31. homoiopathe. Compare At 14.15; Tg 5.17.
32. Sobre a origem da heresia docetista, veja VI, 14.
33. Valentino, o gnóstico, ensinava que Deus produziu um Filho de natureza animal que “passou por Maria como a água passa por um tubo, e que sobre ele o Salvador desceu no seu batismo”. Irineu, I, 7, 2.
34. As palavras que o editor beneditino introduz entre colchetes encontram-se em Teodoreto e são adotadas por editores recentes, com os Codd. M. A.
35. Eusébio, Vida de Constantino III, 28.
36. A descoberta da “verdadeira cruz” é narrada com muitos pormenores maravilhosos por Sócrates, História eclesiástica I, 17, e por Sozômeno, História eclesiástica II, 1. Dizia-se que uma parte foi deixada por Helena em Jerusalém, guardada num estojo de prata, e outra enviada a Constantinopla, onde Constantino a encerrou secretamente na sua própria estátua, para proteção da cidade. Eusébio, Vida de Constantino III, 25-30, faz um longo relato da descoberta do Santo Sepulcro, mas não menciona a cruz. Cirilo parece ter sido o primeiro a registrá-la, 25 anos depois. Compare Gregório de Nissa, Sobre o batismo de Cristo.
37. Compare XIV, 18, 19, sobre a descida ao Hades.
38. Os mesmos santos do Antigo Testamento são nomeados em XIV, 19, como resgatados por Cristo no Hades.
39. Justino Mártir, Diálogo com Trifão, 247 C: “Nós o chamamos de Auxiliador e Redentor, e até os demônios temem o poder do seu nome; e ainda hoje, quando exorcizados em nome de Jesus Cristo, crucificado sob Pôncio Pilatos, governador da Judeia, são vencidos.”
40. Tertuliano, Sobre a coroa, 3: “A cada passo e movimento, a cada entrada e saída, quando vestimos a roupa e calçamos os sapatos, quando nos banhamos, quando nos sentamos à mesa, quando acendemos as lâmpadas, no leito, no assento, em todas as ações comuns da vida diária, traçamos na testa o sinal. Se, para estas e outras regras semelhantes, você exigir um preceito positivo da Escritura, não encontrará nenhum. A tradição lhe será apresentada como sua origem, o costume como o que as confirma, e a fé como a que as observa.”
41. Compare a Catequese XV, 9, 15.
42. Compare XV, 27, onde os seguidores de Marcelo de Ancira são apontados como defensores desta opinião.
43. Em XVI, 6-10, Cirilo dá uma longa lista de heresias a respeito do Espírito Santo.
44. Esta cláusula não está no Credo de Niceia, mas foi acrescentada no Credo de Constantinopla, em 381 d.C.
45. theopoion é omitido nos Codd. Roe, Casaubon e A.
46. O editor beneditino argumenta, com base na Catequese I, 5, “para que você possa, pela fé, selar as coisas que são ditas”, e em XXIII, 18, “selando a oração com o Amém”, que Cirilo entende por “este selo” a crença firme na doutrina cristã. Compare Jo 3.33. Mas Milles entende por “selo” o próprio Credo, o que concorda melhor com o contexto seguinte.
47. he soteria gar haute tes pisteos hemon, que se poderia traduzir “esta nossa salvação pela fé” ou, com Milles, “esta segurança da nossa fé”. Para a tradução adotada no texto, compare Hb 3.1: archierea tes homologias hemon. Sobre heuresilogia, veja Políbio XVIII, 29, § 3: dia tes pros allelous heuresilogias.
48. IV, 4.
49. Na Homilia clementina XVI, 16, diz-se que a alma, tendo saído de Deus, revestida do seu sopro, é da mesma substância, e contudo não é Deus. Em Tertuliano, Contra Marcião II, c. 9, a alma é o afflatus (pnoe, não pneuma) de Deus, isto é, a imagem do Espírito, e inferior a ele, embora possua os verdadeiros traços da divindade: imortalidade, liberdade, domínio próprio sobre si mesma.
50. Tertuliano, Contra Marcião II, 6: “Era conveniente que aquele que é imagem e semelhança de Deus fosse formado com livre-arbítrio e domínio de si mesmo, de modo que isso mesmo, a saber, a liberdade da vontade e o domínio próprio, fosse tido como a imagem e semelhança de Deus nele.”
51. Compare Agostinho, A cidade de Deus V, 1, onde ele diz que os astrólogos (Mathematici) afirmam não apenas que tal ou tal posição de Marte significa que um homem será assassino, mas que o faz assassino. Veja o Dictionary of Christian Antiquities, “Astrology”.
52. “Os poetas órficos pensavam que a alma está sofrendo o castigo do pecado e que o corpo é um recinto ou prisão em que a alma fica encarcerada e guardada (sozetai), como o nome soma indica, até que a pena seja paga.” Platão, Crátilo, 400. Clemente de Alexandria (Strom. III, iii, 17), depois de mencionar esta passagem de Platão, cita o pitagórico Filolau, que diz: “Os antigos teólogos e adivinhos também atestam que a alma foi acorrentada ao corpo como uma espécie de castigo e está nele sepultada como num túmulo.”
53. Apeles, o herege, atribuía a diferença de sexo à alma, que, existindo antes do corpo, imprimia nele o seu sexo. Tertuliano, Sobre a alma, cap. 36.
54. Irineu I, vii, 5: “Eles (os valentinianos) concebem três espécies de homens: espirituais, materiais e animais…. Essas três naturezas já não se encontram numa só pessoa, mas constituem espécies diferentes de homens…. E, subdividindo ainda as próprias almas animais, dizem que umas são boas por natureza e outras más por natureza.” Orígenes, Sobre Romanos, livro VIII, § 10: “Não sei como os que vêm da escola de Valentino e de Basílides… supõem que há almas de uma natureza que estão sempre a salvo e nunca perecem, e outras que sempre perecem e nunca são salvas.”
55. Veja IV, 18.
56. Sobre as práticas impuras dos maniqueus, veja VI, 33-34.
57. Fortunato, o maniqueu, em Agostinho, Disputa II, 20, Contra Fortunato, aparece dizendo: O que afirmamos é isto, que a alma é obrigada a pecar por uma substância de natureza contrária.
58. monazontes. Compare XII, 33; XVI, 22. A origem do monaquismo costuma ser remontada à época da perseguição de Décio, em meados do século III. Antes disso “não havia monges, mas somente ascetas na Igreja; dessa época até o reinado de Constantino, o monaquismo esteve restrito aos anacoretas que viviam em celas particulares no deserto; mas, quando Pacômio ergueu mosteiros no Egito, outros países logo seguiram o exemplo…. Hilarião, que foi discípulo de Antão, foi o primeiro monge que viveu na Palestina ou na Síria.” Bingham, VII, i, 4.
59. A condenação do segundo casamento, que o editor beneditino e outros introduzem nesta passagem, não se encontra nela. tous deutero gamo sumperienechthentas não significa “qui ad secundas nuptias ultro se dejecere”, nem mesmo “que se envolveram” (R.W.C.), mas simplesmente “que consentiram num”, ou “consentiram juntos num”, “segundo casamento”, sem nenhuma indicação de censura. Veja V, 9; VI, 13; Eclo 25.1: gune kai haner heautois sumperipheromenoi; 2Mc 9.27; Eusébio, H.E. IX, 9, 7: anexikakos kai summetros sumperipherointo autois; Zenão, em Diógenes Laércio VII, 18: to sumperipheresthai tois philois; Diógenes Laércio VII, 13: eusumperiphoros; Políbio IV, 35, § 7, e II, 17, § 12. A brandura com que Cirilo fala aqui do segundo casamento contrasta fortemente com a veemência apaixonada de Tertuliano no tratado De Monogamia e em outros lugares. Agostinho, De Haeresibus, caps. 26 e 38, conta a condenação do segundo casamento entre as doutrinas heréticas dos montanistas e dos cátaros. No tratado De Bono Viduitatis, cap. 6, ele argumenta que o segundo casamento não deve ser condenado, mas é menos honroso que a viuvez, e repreende severamente o ensino herético de Tertuliano, dos montanistas e dos novacianos sobre este ponto. De Bono Conjugali, cap. 21: Sacramentum nuptiarum temporis nostri sic ad unum virum et unam uxorem redactum est, ut Ecclesiae dispensatorem non liceat ordinare nisi unius uxoris virum. Sobre a prática da Igreja em diversas épocas, veja Bingham, IV, v, 1-4; Suicer, Thesaurus, Digamia.
60. Os nicolaítas (Ap 2.14, 20); e os valentinianos, dos quais Irineu (II, xiv, 5) diz que tiraram dos cínicos a sua opinião sobre a indiferença dos alimentos. Veja também Irineu I, vi, 3; e xxvi, 3.
61. As diversas seitas dos gnósticos, e os maniqueus, consideravam que certos alimentos e bebidas, como a carne e o vinho, contaminavam. Veja Irineu, Haer. I, 28; Clemente, Paed. II, 2, p. 186; Epifânio, Haer. XLVI, 2; XLVII, 1 etc.; Agostinho, Haer. 46; veja Cânones Apostólicos, 43: “Se algum bispo etc. se abstiver do casamento, da carne e do vinho, não por disciplina (di’ askesin), mas por detestá-los, esquecendo-se de que são todos muito bons etc., e blasfemando contra a criação, corrija-se ou seja deposto” etc. R.W.C.
62. A proibição do sangue e da carne de animais sufocados continuou até os dias de hoje na Igreja oriental, embora já fosse desconsiderada pelos latinos no tempo de santo Agostinho (Contra Fausto XXXII, 13).
63. Tertuliano (Apologético, cap. 9) fala dos que, “nos espetáculos de gladiadores, para a cura da epilepsia, bebem com sede ávida o sangue dos criminosos mortos na arena”, e de outros “que fazem refeições com a carne das feras no local do combate”; e contrasta esses hábitos com os dos cristãos, que se abstêm da carne de animais sufocados para evitar a contaminação pelo sangue.
64. Catequese XVIII, 9.
65. Compare XVIII, 6, 9; Atenágoras, Sobre a ressurreição dos mortos, cap. 3.
66. Catequese XVIII, 6. Jo 12.24; 1Co 15.36.
67. Catequese XVIII, 7.
68. Em grego, loutrou metanoian. Outras leituras são lutron metanoias, “redenção pelo arrependimento”, e loutron metanoias, “um banho (batismo) de arrependimento”.
69. O paidagogos é descrito por Clemente de Alexandria (Paedag. I, 7) como aquele que tanto conduz o menino à escola como ajuda a ensiná-lo, um auxiliar de ensino: “under-master” (Wycliffe).
70. ton apokruphon. O sentido em que Cirilo usa este termo pode ser deduzido de Rufino (Expositio Symboli, § 38), que distingue três classes de livros: (1) os livros canônicos do Antigo e do Novo Testamento, os únicos que devem ser usados como prova da doutrina; (2) os eclesiásticos, que podem ser lidos nas igrejas, entre os quais Sabedoria, Eclesiástico, Tobias, Judite e os livros dos Macabeus, no Antigo Testamento, e O Pastor de Hermas e Os Dois Caminhos, no Novo Testamento; (3) os demais escritos, que chamavam “apócrifos” e que não queriam que fossem lidos nas igrejas. A distinção é útil, embora a segunda classe não esteja completa.
71. A fonte original deste relato sobre a versão dos Setenta é uma carta que se apresenta como escrita por Aristeias, ou Aristeu, ministro de confiança de Ptolomeu Filadelfo, a seu irmão Filócrates. Embora a carta não seja considerada autêntica, admite-se que as suas afirmações são em parte verdadeiras, pois são confirmadas por um fragmento, preservado por Eusébio (Praeparatio Evangelica IX, 6), de uma obra de Aristóbulo, filósofo judeu que escreveu no reinado de Ptolomeu Filométor (181-146 a.C.). Com base nesses testemunhos, admite-se geralmente que “toda a Lei”, isto é, o Pentateuco, foi traduzida para o grego em Alexandria, no reinado de Ptolomeu Sóter (323-285 a.C.) ou de seu filho Ptolomeu Filadelfo (285-247 a.C.), sob a direção de Demétrio de Falero, curador da biblioteca do rei.
72. Até este ponto, o relato de Cirilo se baseia nas afirmações do Pseudo-Aristeias. Os incidentes fabulosos que vêm a seguir, as celas separadas, a conclusão da versão inteira por cada tradutor e a concordância milagrosa até nas palavras, que provaria uma inspiração divina, encontram-se em Fílon, o Judeu, Vida de Moisés, II, 7. Josefo, Antiguidades XII, ii, 3-14, seguindo a carta de Aristeias, descreve longamente os magníficos presentes enviados por Filadelfo a Jerusalém e a sua esplêndida hospitalidade para com os tradutores, mas não faz nenhuma alusão às celas separadas nem à concordância milagrosa. Ao contrário, apresenta os 72 intérpretes reunindo-se para consulta, concordando sobre o texto a ser adotado e completando o trabalho conjunto em 72 dias. A mais ligeira comparação da versão com o original hebraico deve convencer qualquer pessoa razoável de que a ideia de inspiração divina ou de assistência sobrenatural, adotada por Justino Mártir, Irineu e outros Pais, aparentemente a partir de Fílon, é mera invenção da imaginação, desmentida pelos fatos. Compare o verbete “Septuagint” no Dictionary of the Bible de Murray.
73. A tradução “trench not” (R.W.C.), isto é, “não invada”, concorda bem com a etimologia do verbo (paracharasso). O seu significado mais usual parece ser “falsificar”, “forjar”. O sentido exigido aqui, sem nenhuma metáfora, é “transgredir” (Heurtley).
74. O nome “Num” aparece como “Nave” na Septuaginta, que Cirilo usava.
75. Os dois livros de Samuel.
76. A Epístola de Jeremias, que hoje aparece nos apócrifos como o último capítulo de Baruc. Sobre o número e a ordem dos livros do Antigo e do Novo Testamento, o estudante deve consultar um interessante ensaio do professor Sanday (Studia Biblica, vol. III), que remonta a introdução de uma ordem fixa à época em que os rolos de papiro foram substituídos pelos códices, nos quais as folhas de pele eram dobradas e encadernadas juntas, como nos livros impressos. Essa mudança tinha começado antes da perseguição de Diocleciano, em 303 d.C., quando, entre os livros sagrados tomados aos cristãos, os códices eram muito mais numerosos que os rolos. Sobre o conteúdo do cânon judaico, veja o Dictionary of the Bible, “Canon”. B.F.W. “Josefo enumera 20 livros ‘que com justiça se creem divinos’.” Uma das primeiras tentativas de um cristão de verificar corretamente o número e a ordem dos livros do Antigo Testamento foi feita por Melitão, bispo de Sardes, que viajou com esse fim à Palestina, na segunda metade do século II. A sua lista é a seguinte: “De Moisés, cinco (livros): Gênesis, Êxodo, Números, Levítico, Deuteronômio, Jesus filho de Nave, Juízes, Rute, quatro livros dos Reis, dois das Crônicas, Salmos de Davi, Provérbios de Salomão, que também se chama Sabedoria, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Jó, Profetas, Isaías, Jeremias, os Doze num só livro, Daniel, Ezequiel, Esdras.” (Eusébio, H.E. III, cap. 10.) A lista de Cirilo concorda com a de Atanásio (Epístola Festal, 373 d.C.), exceto que Atanásio coloca Jó depois do Cântico, em vez de antes dos Salmos.
77. Em grego, pseudepigrapha. Para um relato dos muitos evangelhos apócrifos, veja o artigo de Lipsius no “Dictionary of Christian Biography”, de Smith e Wace, e as traduções inglesas na Ante-Nicene Library, de Clark.
78. Cirilo inclui nesta lista todos os livros que recebemos, exceto o Apocalipse. Veja o artigo “Canon”, do bispo Westcott, no Dictionary of the Bible, e o catálogo de Orígenes em Eusébio, Hist. VI, 25.
79. Compare XIX, 8, onde todos esses atos de adivinhação são chamados culto ao diabo.
80. Compare Gl 4.10: “Vocês guardam dias”.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Edwin Hamilton Gifford (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 7, Nova York, 1894), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Cirilo cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.