Cirilo de Jerusalém, Catequeses · Catequese XI

O Filho unigênito de Deus

O Filho gerado do Pai antes de todos os séculos, Deus verdadeiro, Criador com o Pai.

Catequese XI. Sobre as palavras: o Filho unigênito de Deus, gerado do Pai, verdadeiro Deus antes de todos os séculos, por meio de quem todas as coisas foram feitas

Hebreus 1.1-2
Antigamente, Deus falou, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, mas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho.

1. Que temos esperança em Jesus Cristo, já ficou suficientemente demonstrado, segundo a nossa capacidade, no que lhes transmitimos ontem. Mas não devemos simplesmente crer em Cristo Jesus, nem recebê-lo como um dos muitos que impropriamente são chamados cristos1. Pois aqueles eram cristos figurados, mas ele é o verdadeiro Cristo; não subiu ao sacerdócio por progresso2 dentre os homens, mas tem desde sempre, recebida do Pai, a dignidade do sacerdócio3. E por isso a fé, prevenindo-nos de antemão para que não o julguemos um dos cristos comuns, acrescenta à profissão da fé que cremos “em um só Senhor Jesus Cristo, o Filho unigênito de Deus”.

2. E outra vez: quando você ouvir falar de um “Filho”, não pense num filho adotivo, mas num Filho por natureza4, um Filho unigênito, que não tem irmão. Pois é por esta razão que ele é chamado “Unigênito”: porque, na dignidade da divindade e na sua geração do Pai, não tem irmão. E nós o chamamos Filho de Deus não por iniciativa nossa, mas porque o próprio Pai chamou Cristo5 de seu Filho6; e verdadeiro nome é aquele que os pais põem nos seus filhos7.

3. Nosso Senhor Jesus Cristo, havia pouco, se tinha feito homem, mas a maioria não o conhecia. Querendo, portanto, ensinar o que não se conhecia, reuniu os seus discípulos e lhes perguntou: “Quem os outros dizem que eu, o Filho do Homem, sou?” (Mt 16.13). Não o fez por vanglória, mas querendo mostrar-lhes a verdade, para que, convivendo com Deus, o Unigênito de Deus8, não fizessem pouco caso dele, como se fosse um simples homem. E, quando responderam que uns diziam Elias e outros, Jeremias, ele lhes disse: Eles podem ser desculpados por não saberem; mas vocês, meus apóstolos, que em meu nome purificam leprosos, expulsam demônios e ressuscitam mortos, não deveriam ignorar aquele por meio de quem fazem essas obras admiráveis. E, como todos ficaram calados (pois o assunto era alto demais para o homem aprender), Pedro, o primeiro dos apóstolos e o principal arauto9 da Igreja, sem o auxílio de invenção engenhosa nem convencido por raciocínio humano, mas iluminado em sua mente pelo Pai, lhe diz: “O senhor é o Cristo” (Mt 16.16); e não só isso, mas “o Filho do Deus vivo”. E segue-se uma bênção sobre a sua palavra (pois na verdade estava acima do homem) e, como selo do que ele dissera, a declaração de que fora o Pai quem lho revelara. Pois o Salvador diz: “Bem-aventurado é você, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que revelaram isso a você, mas meu Pai, que está nos céus” (Mt 16.17). Quem, portanto, reconhece nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, participa dessa bem-aventurança; mas quem nega o Filho de Deus é um homem pobre e miserável.

4. Outra vez eu digo: quando você ouvir falar de um Filho, não o entenda apenas em sentido impróprio, mas como Filho em verdade, Filho por natureza, sem princípio10; não como quem saiu da servidão para um estado mais alto de adoção11, mas Filho eternamente gerado por uma geração insondável e incompreensível. Do mesmo modo, quando ouvir falar do Primogênito12, não pense que isso se dá à maneira dos homens; pois os primogênitos entre os homens têm também outros irmãos. E em certo lugar está escrito: “Israel é meu filho, meu primogênito” (Êx 4.22). Mas Israel é, como Rúben foi, um primogênito rejeitado: pois Rúben subiu ao leito de seu pai; e Israel lançou para fora da vinha o Filho de seu Pai e o crucificou.

Também a outros diz a Escritura: “Vocês são filhos do Senhor, seu Deus” (Dt 14.1); e em outro lugar: “Eu disse: Vocês são deuses; todos vocês são filhos do Altíssimo” (Sl 82.6). “Eu disse”, e não “eu gerei”. Eles, quando Deus assim disse, receberam a filiação que antes não tinham; mas ele não foi gerado para ser outro do que era antes: foi gerado desde o princípio Filho do Pai, estando acima de todo princípio e de todos os séculos, Filho do Pai, em tudo semelhante13 àquele que o gerou, eterno de um Pai eterno, Vida gerada da Vida, e Luz da Luz, e Verdade da Verdade, e Sabedoria do Sábio, e Rei do Rei, e Deus de Deus, e Poder do Poder14.

5. Se, então, você ouvir o Evangelho dizer: “Livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão” (Mt 1.1), entenda “segundo a carne”. Pois ele é filho de Davi “no fim dos tempos” (Hb 9.26), mas Filho de Deus antes de todos os séculos, sem princípio15. Uma coisa, que antes não tinha, ele a recebeu; mas a outra, que tem, ele a tem eternamente, como gerado do Pai. Dois pais ele tem: um, Davi, segundo a carne; e outro, Deus, seu Pai de modo divino16. Como filho de Davi, está sujeito ao tempo, ao ser tocado e à descendência genealógica; mas, como Filho segundo a divindade17, não está sujeito nem ao tempo, nem ao lugar, nem à descendência genealógica: pois “a sua geração, quem a contará?” (Is 53.8)18. “Deus é Espírito” (Jo 4.24); aquele que é Espírito gerou espiritualmente, como incorpóreo que é, por uma geração insondável e incompreensível. O próprio Filho diz do Pai: “O Senhor me disse: Você é meu Filho, hoje eu gerei você” (Sl 2.7). Ora, este “hoje” não é recente, mas eterno: um hoje intemporal, antes de todos os séculos. “Do ventre, antes da estrela da manhã, eu gerei você” (Sl 110.3)19.

6. Creia você, portanto, em Jesus Cristo, Filho do Deus vivo, e Filho unigênito, segundo o Evangelho que diz: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). E ainda: “Quem crê no Filho não é julgado, mas passou da morte para a vida” (Jo 3.18; 5.24). “Mas quem não crê no Filho não verá a vida; antes, sobre ele permanece a ira de Deus” (Jo 3.36). E João deu testemunho dele, dizendo: “E vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14); diante dele os demônios tremeram e disseram: “Ah! O que você quer conosco, Jesus, Filho do Deus vivo?” (Lc 4.34).

7. Ele é, pois, o Filho de Deus por natureza e não por adoção20, gerado do Pai. E “quem ama aquele que o gerou ama também o que dele é nascido” (1Jo 5.1); mas quem despreza aquele que foi gerado lança o insulto sobre aquele que gerou. E, sempre que você ouvir falar de Deus gerar, não desça em pensamento às coisas corporais, nem imagine uma geração corruptível, para não se tornar culpado de impiedade. “Deus é Espírito” (Jo 4.24)21; a sua geração é espiritual: pois corpos geram corpos, e na geração dos corpos é forçoso que se interponha o tempo; mas o tempo não se interpõe na geração do Filho a partir do Pai. E, no nosso caso, o que é gerado é gerado imperfeito; mas o Filho de Deus foi gerado perfeito, pois o que ele é agora, isso é também desde o princípio22, gerado sem princípio. Nós somos gerados de modo a passar da ignorância da infância para o estado de razão: a sua geração, ó homem, é imperfeita, pois o seu crescimento é progressivo. Mas não pense que é assim no caso dele, nem atribua fraqueza àquele que gerou. Pois, se aquele que ele gerou era imperfeito e adquiriu a sua perfeição no tempo, você está atribuindo fraqueza àquele que gerou; se é assim, o Pai não concedeu desde o princípio aquilo que, como você diz, o tempo concedeu depois23.

8. Não pense, portanto, que esta geração é humana, nem que se deu como Abraão gerou Isaque. Pois, ao gerar Isaque, Abraão não gerou o que quis, mas o que outro lhe concedeu. Mas, quando Deus Pai gera, não há nem ignorância nem deliberação intermediária24. Pois dizer que ele não sabia o que estava gerando é a maior impiedade; e não é menos ímpio dizer que, depois de deliberar no tempo, ele então se tornou Pai. Pois Deus não esteve antes sem Filho, para depois, no tempo, tornar-se Pai; mas tem o Filho eternamente, tendo-o gerado não como os homens geram homens, mas como só ele mesmo sabe, ele que o gerou antes de todos os séculos, verdadeiro Deus.

9. Pois o Pai, sendo verdadeiro Deus, gerou o Filho semelhante a si, verdadeiro Deus25; não como os mestres geram discípulos, não como Paulo diz a alguns: “pois eu gerei vocês em Cristo Jesus, pelo evangelho” (1Co 4.15). Pois nesse caso quem não era filho por natureza tornou-se filho pelo discipulado; mas, no outro caso, ele era Filho por natureza, Filho verdadeiro. Não como vocês, que vão ser iluminados, estão agora se tornando filhos de Deus: pois vocês também se tornam filhos, mas por adoção da graça, como está escrito: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1.12-13). E nós, de fato, somos gerados da água e do Espírito, mas não foi assim que Cristo foi gerado do Pai. Pois, ao dirigir-se a ele no momento do seu batismo, dizendo: “Este é o meu Filho” (Mt 3.17), não disse: “Este agora se tornou meu Filho”, mas: “Este é o meu Filho”, para deixar manifesto que, mesmo antes da ação do batismo, ele era Filho.

10. O Pai gerou o Filho não como, entre os homens, a mente gera a palavra. Pois a mente existe em nós de modo substancial; mas a palavra, quando pronunciada, dispersa-se no ar e chega ao fim26. Mas sabemos que Cristo foi gerado não como palavra proferida27, mas como Verbo que existe substancialmente28 e vive; não falado pelos lábios e dispersado, mas gerado do Pai eternamente e de modo inefável, em substância29. Pois “no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1.1), sentado à direita de Deus; o Verbo que compreende a vontade do Pai e cria todas as coisas por ordem dele; o Verbo que desceu e subiu, pois a palavra proferida, quando falada, não desce nem sobe; o Verbo que fala e diz: “Eu falo das coisas que vi junto de meu Pai” (Jo 8.38); o Verbo dotado de poder, que reina sobre todas as coisas: pois “o Pai entregou todas as coisas ao Filho” (Mt 11.27; Jo 5.22).

11. O Pai, então, o gerou não de maneira que algum homem pudesse compreender, mas como só ele mesmo sabe. Pois não pretendemos dizer de que modo ele o gerou, mas insistimos em que não foi deste modo. E não somos só nós que ignoramos a geração do Filho a partir do Pai, mas também toda natureza criada. “Fale com a terra, se porventura ela o puder instruir” (Jó 12.8); e, ainda que você interrogue todas as coisas que estão sobre a terra, não poderão dizê-lo a você. Pois a terra não pode dizer a substância daquele que é o seu próprio oleiro e modelador. Nem só a terra o ignora, mas também o sol30: pois o sol foi criado no quarto dia, sem saber o que fora feito nos três dias antes dele; e quem não conhece as coisas feitas nos três dias antes dele não pode anunciar o próprio Criador. O céu não o declarará, pois, por ordem do Pai, “também o céu foi firmado como fumaça” (Is 51.6)31 por Cristo. Nem “o céu dos céus” o declarará, “nem as águas que estão acima dos céus” (Sl 148.4). Por que então você desanima, ó homem, por ignorar aquilo que nem os céus conhecem? Mais ainda: não só os céus ignoram esta geração, mas também toda natureza angélica. Pois, se alguém subisse, se fosse possível, ao primeiro céu e, vendo ali as fileiras dos anjos, se aproximasse e lhes perguntasse como Deus gerou o seu próprio Filho, eles talvez dissessem: “Temos acima de nós seres maiores e mais elevados; pergunte a eles.” Suba ao segundo céu e ao terceiro; chegue, se puder, aos tronos, às dominações, aos principados e às potestades; e, ainda que alguém chegasse até eles, o que é impossível, também eles se recusariam a dar a explicação, porque não a conhecem.

12. De minha parte, sempre me admirei da curiosidade dos homens ousados, que, por uma pretensa reverência, caem na impiedade. Pois, embora nada saibam dos tronos, das soberanias, dos principados e das potestades, obra de Cristo, tentam esquadrinhar o próprio Criador deles. Diga-me primeiro, ó homem ousadíssimo, em que o trono difere da soberania, e então esquadrinhe o que diz respeito a Cristo. Diga-me o que é um principado, o que é uma potestade, o que é uma virtude e o que é um anjo; e então investigue o Criador deles, pois “todas as coisas foram feitas por ele” (Jo 1.3). Mas você não quer, ou não pode, interrogar os tronos ou as soberanias. Quem mais “conhece as profundezas de Deus” (1Co 2.10-11), senão somente o Espírito Santo, que falou as divinas Escrituras? Mas nem mesmo o próprio Espírito Santo falou nas Escrituras a respeito da geração do Filho a partir do Pai. Por que, então, você se ocupa com coisas que nem mesmo o Espírito Santo escreveu nas Escrituras? Você, que não conhece as coisas que estão escritas, se ocupa com as que não estão escritas? Há muitas questões nas divinas Escrituras; se não compreendemos o que está escrito, por que nos ocuparmos com o que não está escrito? Basta-nos saber que Deus gerou um único Filho.

13. Não se envergonhe de confessar a sua ignorância, pois você partilha a ignorância com os anjos. Somente aquele que gerou conhece aquele que foi gerado, e aquele que dele foi gerado conhece aquele que gerou. Aquele que gerou sabe o que gerou; e as Escrituras também testemunham que aquele que foi gerado é Deus32. Pois “assim como o Pai tem vida em si mesmo, também concedeu ao Filho ter vida em si mesmo” (Jo 5.26); e “para que todos honrem o Filho assim como honram o Pai” (Jo 5.23); e: “assim como o Pai vivifica a quem quer, assim também o Filho vivifica a quem quer” (Jo 5.21). Nem aquele que gerou sofreu perda alguma, nem falta coisa alguma àquele que foi gerado (sei que já disse estas coisas muitas vezes, mas é pela segurança de vocês que são ditas tantas vezes); nem aquele que gerou tem pai, nem aquele que foi gerado tem irmão. Nem aquele que gerou se transformou no Filho33, nem aquele que foi gerado se tornou o Pai34. De um único Pai há um único Filho Unigênito: nem dois não gerados35, nem dois unigênitos; mas um só Pai, não gerado (pois é não gerado aquele que não tem pai), e um só Filho, gerado eternamente do Pai; gerado não no tempo, mas antes de todos os séculos; não engrandecido por progresso, mas gerado como aquilo que ele agora é.

14. Cremos, portanto, No Filho Unigênito de Deus, Que Foi Gerado do Pai, Verdadeiro Deus. Pois o Deus verdadeiro não gera um deus falso, como já dissemos, nem deliberou para depois gerar36; mas gerou eternamente, e muito mais depressa do que as nossas palavras ou pensamentos: pois nós, falando no tempo, consumimos tempo; mas, no caso do poder divino, a geração é fora do tempo. E, como tenho dito muitas vezes, ele não trouxe o Filho do não ser à existência, nem tomou o que não existia para a filiação37; mas o Pai, sendo eterno, gerou eterna e inefavelmente um único Filho, que não tem irmão. Nem há dois primeiros princípios; mas o Pai é “o cabeça do Filho” (1Co 11.3); o princípio é um só. Pois o Pai gerou o Filho, Verdadeiro Deus, chamado Emanuel; e Emanuel, “traduzido, é: Deus conosco” (Mt 1.23).

15. E você quer saber que aquele que foi gerado do Pai, e depois se fez homem, é Deus? Ouça o profeta, que diz: “Este é o nosso Deus, e nenhum outro será considerado em comparação com ele. Ele achou todo o caminho do conhecimento e o deu a Jacó, seu servo, e a Israel, seu amado. Depois disso, foi visto sobre a terra e conviveu com os homens” (Br 3.35-37)38. Você vê aqui Deus feito homem, depois da entrega da lei por Moisés? Ouça também um segundo testemunho da divindade de Cristo, aquele que acaba de ser lido: “O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre” (Hb 1.8). Pois, para que, por causa da sua presença aqui na carne, não se pensasse que ele foi elevado depois disso à divindade, a Escritura diz claramente: “por isso, Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo de alegria como a nenhum dos teus companheiros” (Hb 1.9)39. Você vê Cristo, Deus, ungido por Deus Pai?

16. Quer receber ainda um terceiro testemunho da divindade de Cristo? Ouça Isaías, que diz: “O Egito trabalhou, e a mercadoria da Etiópia”; e logo depois: “A ti farão súplicas, porque Deus está em ti, e não há Deus além de ti. Pois tu és Deus, e não o sabíamos, o Deus de Israel, o Salvador” (Is 45.14-15)40. Você vê que o Filho é Deus, tendo em si mesmo Deus Pai, dizendo quase o mesmo que disse nos Evangelhos: “O Pai está em mim, e eu estou no Pai” (Jo 14.11). Ele não diz: “Eu sou o Pai”, mas: “O Pai está em mim, e eu estou no Pai”. E de novo, não disse: “Eu e o Pai sou41 um”, mas: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10.30), para que não os separemos nem façamos uma confusão de Filho-Pai42. São um por causa da dignidade própria da divindade, pois Deus gerou Deus. Um quanto ao seu reino; pois o Pai não reina sobre estes e o Filho sobre aqueles, erguendo-se contra seu Pai como Absalão: mas o reino do Pai é igualmente o reino do Filho. São um porque entre eles não há discórdia nem divisão: pois o que o Pai quer, isso mesmo o Filho quer. Um porque as obras criadoras de Cristo não são outras senão as do Pai; pois a criação de todas as coisas é uma só, tendo-as feito o Pai por meio do Filho: “Pois ele falou, e tudo se fez; ele ordenou, e tudo passou a existir”, diz o salmista (Sl 33.9; 148.5)43. Pois quem fala fala a alguém que ouve; e quem ordena dá a sua ordem a alguém que está presente com ele.

17. O Filho, portanto, é Verdadeiro Deus, tendo o Pai em si mesmo, sem se transformar no Pai; pois não foi o Pai que se fez homem, mas o Filho. Que a verdade seja dita com franqueza44. Não foi o Pai que sofreu por nós, mas o Pai enviou aquele que sofreu. Nem digamos: “Houve um tempo em que o Filho não existia”; nem admitamos um Filho que é o Pai45: mas andemos pela estrada real; não nos desviemos nem para a esquerda nem para a direita. Nem, julgando honrar o Filho, o chamemos de Pai; nem, julgando honrar o Pai, imaginemos que o Filho seja uma das criaturas. Mas seja adorado um só Pai por meio de um só Filho, e que a adoração deles não seja separada. Seja proclamado um só Filho, assentado à direita do Pai antes de todos os séculos: partilhando o seu trono não por elevação no tempo, depois da sua paixão, mas por posse eterna.

18. “Quem viu o Filho viu o Pai” (Jo 14.9): pois em todas as coisas o Filho é semelhante àquele que o gerou46; gerado Vida da Vida e Luz da Luz, Poder do Poder, Deus de Deus; e os traços característicos da divindade são inalteráveis47 no Filho; e quem é julgado digno de contemplar a divindade no Filho alcança o gozo do Pai. Esta não é palavra minha, mas do Unigênito: “Há tanto tempo estou com vocês, Filipe, e você ainda não me conhece? Quem vê a mim vê o Pai” (Jo 14.9). E, para ser breve, não os separemos nem façamos confusão48: nunca diga que o Filho é estranho ao Pai, nem aceite os que dizem que o Pai é ora Pai, ora Filho; pois essas são afirmações estranhas e ímpias, e não doutrinas da Igreja. Mas o Pai, tendo gerado o Filho, permaneceu Pai e não mudou. Gerou a Sabedoria, sem perder ele mesmo a sabedoria; gerou o Poder, sem se tornar fraco; gerou Deus, sem perder a sua própria divindade; e nem ele mesmo perdeu coisa alguma por diminuição ou mudança, nem falta coisa alguma àquele que foi gerado. Perfeito é aquele que gerou, perfeito o que foi gerado: Deus era aquele que gerou, Deus aquele que foi gerado; ele mesmo Deus de todas as coisas, e contudo chamando o Pai de seu próprio Deus. Pois não se envergonha de dizer: “Subo para o meu Pai e o Pai de vocês, para o meu Deus e o Deus de vocês” (Jo 20.17).

19. Mas, para que você não pense que ele é Pai do Filho e das criaturas no mesmo sentido, Cristo fez uma distinção no que segue. Pois não disse: “Subo para o nosso Pai”, para que as criaturas não se tornassem companheiras do Unigênito; mas disse: “para o meu Pai e o Pai de vocês”; de um modo meu, por natureza; de outro, de vocês, por adoção. E de novo: “para o meu Deus e o Deus de vocês”; de um modo meu, como seu verdadeiro e unigênito Filho, e de outro modo de vocês, como obra de suas mãos49. O Filho de Deus, portanto, é Verdadeiro Deus, gerado inefavelmente antes de todos os séculos (pois digo muitas vezes as mesmas coisas a vocês, para que fiquem gravadas na sua mente). Creia também isto: que Deus tem um Filho; mas quanto ao modo, não seja curioso, pois, investigando, você não o achará. Não se exalte, para não cair: “pense somente nas coisas que lhe foram ordenadas” (Eclo 3.22). Diga-me primeiro o que é aquele que gerou, e então aprenda o que ele gerou; mas, se você não consegue conceber a natureza daquele que gerou, não investigue com curiosidade o modo daquele que foi gerado.

20. Para a piedade, basta-lhe saber, como dissemos, que Deus tem um único Filho, um só gerado por natureza, que não começou a existir quando nasceu em Belém, mas Antes de Todos os Séculos. Pois ouça o profeta Miqueias, que diz: “E você, Belém, casa de Efrata, é pequena demais para estar entre os milhares de Judá. De você me sairá um Governante, que apascentará o meu povo Israel; e as suas saídas são desde o princípio, desde os dias da eternidade” (Mq 5.2)50. Não pense, pois, naquele que agora saiu de Belém51, mas adore aquele que foi eternamente gerado do Pai. Não permita a ninguém falar de um princípio do Filho no tempo, mas reconheça o Pai como Princípio fora do tempo. Pois o Pai é o Princípio do Filho, fora do tempo, incompreensível, sem princípio52. A fonte do rio da justiça, isto é, do Unigênito, é o Pai, que o gerou como só ele mesmo sabe. E quer saber que nosso Senhor Jesus Cristo é Rei Eterno? Ouça-o de novo dizendo: “Abraão, o pai de vocês, alegrou-se por ver o meu dia; e ele viu esse dia e ficou alegre” (Jo 8.56). E depois, como os judeus receberam isso mal, ele diz o que para eles era ainda mais duro: “antes que Abraão existisse, Eu Sou” (Jo 8.58). E de novo diz ao Pai: “E agora, ó Pai, glorifica-me contigo mesmo com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo” (Jo 17.5). Ele diz claramente: “antes que houvesse mundo, eu tinha a glória que está contigo”. E de novo, quando diz: “porque me amaste antes da fundação do mundo” (Jo 17.24), declara claramente: “A glória que tenho contigo é desde a eternidade”.

21. Cremos, portanto, Em Um Só Senhor Jesus Cristo, o Filho Unigênito de Deus, Gerado de Seu Pai, Verdadeiro Deus, Antes de Todos os Séculos, Por Quem Todas as Coisas Foram Feitas. Pois, “sejam tronos, sejam soberanias, sejam principados, sejam potestades, todas as coisas foram feitas por meio dele” (Cl 1.16), e, das coisas criadas, nenhuma está isenta da sua autoridade. Cale-se toda heresia que introduz diferentes criadores e artífices do mundo; cale-se a língua que blasfema contra o Cristo, o Filho de Deus; calem-se os que dizem que o sol é o Cristo, pois ele é o Criador do sol, e não o sol que vemos53. Calem-se os que dizem que o mundo é obra dos anjos54, os quais querem roubar a dignidade do Unigênito. Pois, sejam visíveis ou invisíveis, sejam tronos ou soberanias, ou qualquer coisa que tenha nome, todas as coisas foram feitas por Cristo. Ele reina sobre as coisas que foram feitas por ele, não por ter tomado despojos alheios, mas reinando sobre a sua própria obra, como disse o evangelista João: “Todas as coisas foram feitas por ele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez” (Jo 1.3). Todas as coisas foram feitas por ele, operando o Pai por meio do Filho.

22. Quero dar também uma ilustração do que estou dizendo, mas sei que é fraca; pois, das coisas visíveis, o que pode ser ilustração exata do poder divino? Ainda assim, seja dita, fraca como é, por fracos a fracos. Assim como um rei, cujo filho também fosse rei, se quisesse fundar uma cidade, poderia propor ao filho, seu companheiro no reino, o traçado da cidade, e este, tendo recebido o modelo, levaria o projeto à conclusão; assim, quando o Pai quis formar todas as coisas, o Filho criou todas as coisas por ordem do Pai, para que o ato de ordenar garantisse ao Pai a sua autoridade absoluta, e o Filho, por sua vez, tivesse autoridade sobre a sua própria obra; e nem o Pai fosse separado do senhorio sobre as suas próprias obras, nem o Filho reinasse sobre coisas criadas por outros, mas por ele mesmo. Pois, como eu disse, não foram anjos que criaram o mundo, mas o Filho Unigênito, gerado, como eu disse, antes de todos os séculos, Por Quem Todas as Coisas Foram Feitas, sem que nada fosse excluído da sua criação. E baste o que dissemos até aqui, pela graça de Cristo.

23. Mas voltemos agora à nossa profissão de fé e, assim, terminemos por ora o nosso discurso. Cristo fez todas as coisas, quer você fale de anjos ou de arcanjos, de soberanias ou de tronos. Não que faltasse ao Pai força para criar ele mesmo as obras, mas porque quis que o Filho reinasse sobre a sua própria obra, dando-lhe o próprio Deus o projeto das coisas que seriam feitas. Pois, honrando o seu próprio Pai, o Unigênito diz: “o Filho nada pode fazer por si mesmo, senão somente aquilo que vê o Pai fazer; porque tudo o que este fizer, o Filho também faz” (Jo 5.19). E de novo: “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” (Jo 5.17), não havendo oposição entre os que trabalham. “Todas as minhas coisas são tuas, e as tuas coisas são minhas”, diz o Senhor nos Evangelhos (Jo 17.10). E isso podemos saber com certeza pelo Antigo e pelo Novo Testamento. Pois aquele que disse: “Façamos o ser humano à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1.26), certamente falava a alguém que estava presente. Mas o mais claro de tudo são as palavras do salmista: “Pois ele falou, e tudo se fez; ele ordenou, e tudo passou a existir” (Sl 33.9; 148.5), como se o Pai ordenasse e falasse, e o Filho fizesse todas as coisas por ordem do Pai. E isto Jó disse de modo misterioso: “Ele, que sozinho estendeu o céu e anda sobre o mar como sobre terra firme” (Jó 9.8), significando, aos que entendem, que aquele que, estando aqui, andou sobre o mar é também aquele que outrora fez os céus. E de novo o Senhor diz: “Ou tomaste terra e modelaste o barro num ser vivente?” (Jó 38.14); e depois: “Abrem-se diante de ti, por medo, as portas da morte, e estremeceram os porteiros do inferno ao verem-te?” (Jó 38.17), significando assim que aquele que, por amor bondoso, desceu ao inferno também no princípio fez o homem do barro.

24. Cristo, portanto, é o Filho Unigênito de Deus e o Criador do mundo. Pois “estava no mundo, e o mundo foi feito por meio dele”; e “veio para o que era seu”, como nos ensina o Evangelho (Jo 1.10-11). E não somente das coisas que se veem, mas também das que não se veem, Cristo é o Criador, por ordem do Pai. Pois nele, segundo o apóstolo, “foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele tudo subsiste” (Cl 1.16-17). Mesmo que você fale dos mundos, também destes Jesus Cristo é o Criador, por ordem do Pai. Pois “nestes últimos dias, Deus nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez os mundos” (Hb 1.2). A ele a glória, a honra, o poder, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.

Notas

1. Compare X, 11, 15; XVI, 13; XXI, 1.

2. ek prokopes. Veja X, 5.

3. Compare X, 14.

4. theton. Atanásio (de Sententia Dionysii, § 23) apresenta Ário dizendo que o Verbo “não é por natureza (kata phusin) e em verdade Filho de Deus, mas é chamado Filho, também ele, por adoção (kata thesin), como criatura”. E ainda (c. Arian. Orat. iii. 19) diz: “Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna, e nós somos feitos filhos por meio dele, por adoção e graça (thesei kai chariti).” Cf. VII, 10, e § 4, abaixo.

5. Os manuscritos todos leem auton Christon, que poderia significar “Cristo e nenhum outro”. Mas Christon é provavelmente uma glosa introduzida a partir da margem.

6. Compare as passagens em que Cirilo cita o Sl 2.7, como Catequese VII, 2; X, 2; XI, 5; XII, 18.

7. “Era um dos direitos especiais do pai escolher os nomes dos filhos e alterá-los, se quisesse” (Dict. Greek and Roman Antiq., “Nomen. 1 Greek.”). O direito ao nome dado pelo pai é o assunto de um dos Discursos Privados de Demóstenes (Pros Boioton peri tou onomatos).

8. Compare IV, 7: “Deus gerado de Deus”; XIII, 3 e 13: “Deus, o Filho de Deus”. Aqui, porém, os manuscritos variam, e a leitura do Cod. Coisl., Huio Theou monogenei, é aprovada pelo editor beneditino, embora não adotada. A confusão entre Huio e Theo é semelhante à de Jo 1.18.

9. ho protostates ton Apostolon kai tes Ekklesias koruphaios kerux. Cf. II, 19.

10. Atanásio (de Synodis, § 15) cita uma passagem da Thalia de Ário, na qual este diz: “Nós o louvamos como sem princípio por causa daquele que tem princípio, e o adoramos como eterno por causa daquele que no tempo veio a existir. Aquele que é sem princípio fez do Filho um princípio das coisas criadas.” É importante, portanto, observar o sentido em que Cirilo aqui chama o Filho anarchos. A palavra tem dois sentidos, que devem ser claramente distinguidos: (i) não originado; (ii) sem princípio no tempo. O primeiro, que se refere à origem ou causa, pode aplicar-se propriamente ao único Deus verdadeiro, ou só a Deus Pai, como o usa Clemente de Alexandria (Protrept. cap. v. § 65: ton panton poieten… agnoountes, ton anarchon Theon. [Strom. IV. cap. xxv. § 164: ho Theos de anarchos arche ton holon panteles arches poietikos]. [Stromat. V. cap. xiv. § 142: ex arches anarchou]). Metódio (morto por volta de 312 d.C.), num fragmento (Sobre as coisas criadas, § 8, tradução inglesa na Ante-Nicene Library de Clark), comenta assim Jo 1.1-3: “E assim, depois do peculiar princípio sem princípio, que é o Pai, ele (o Verbo) é o princípio das outras coisas, por meio de quem todas as coisas são feitas.” Nesse sentido Cirilo disse (IV, 4) que só Deus é “não gerado, não originado”; e em XI, 20 explica isso mais plenamente: “Não permita que ninguém fale de um princípio do Filho no tempo (chroniken archen), mas reconheça o Pai como princípio intemporal. Pois o Pai é o princípio do Filho, intemporal, incompreensível, sem princípio.” Da confusão entre os dois sentidos, a palavra passou a ser aplicada impropriamente, no sentido de “não originado”, ao Filho e ao Espírito; e esse uso impróprio é condenado no 49º Cânon Apostólico, que Hefele considera entre os cânones mais antigos, tirado das Constituições Apostólicas, vi. 11: “Se algum bispo ou presbítero batizar, não segundo a ordenança do nosso Senhor, no Pai, no Filho e no Espírito, mas em três não originados, ou três filhos, ou três paracletos, seja deposto.” (ii) Atanásio chama frequentemente o Filho anarchos no sentido de “intemporal”, como o resplendor (apaugasma) coeterno da Luz eterna; veja de Sent. Dionys. §§ 15, 16, 22: “Deus é a Luz eterna, que nunca começou nem cessará; por isso o resplendor está sempre diante dele e coexiste com ele, sem princípio e sempre gerado (anarchon kai aeigenes).”

11. eis prokopen huiothesias. Cf. § 2.

12. Prototokon. A palavra ocorre em Hb 1.6, que tinha sido lido na leitura bíblica antes desta catequese. O sentido dogmático exato da palavra é cuidadosamente explicado por Atanásio (c. Arian. Or. ii. 62): “O mesmo não pode ser ao mesmo tempo Unigênito e Primogênito, a não ser em relações diferentes; isto é, Unigênito por causa da sua geração do Pai, como foi dito; e Primogênito por causa da sua condescendência para com a criação e por fazer dos muitos seus irmãos.” Veja o bispo Bull (Def. Fid. Nic. iii. 5-8).

13. en pasin homoios. Veja a nota sobre IV, 7. Que a expressão não equivalia a homoousios e não exprimia adequadamente a relação do Filho com o Pai, Atanásio o mostra claramente (de Synodis, cap. iii. § 53).

14. Os acréscimos que o editor beneditino fez aqui ao texto anterior, tal como representado por Milles, podem ser mostrados de modo prático entre colchetes: alla Huios [tou Patros]\ ex arches egennethe, [huperano pases arches kai aionon tunchanon]\, Huios tou Patros [en pasin]† homoios to gegennekoti; [aidios ex aidiou Patros,]\ zoe ek zoes gegennemenos… kai Theos ek Theou, [kai dunamis ek dunameos]‡. \ Codd. Coisl. Ottob. Mon. 2. † Coisl. Ottob. Roe, Casaub. Mon. 1, 2. ‡ Coisl. Ottob. Mon. 1, 2.

15. Veja § 4.

16. Theikos.

17. to men kata ton Dabid… to de kata ten Theoteta.

18. Compare § 7, abaixo.

19. “Do ventre da manhã, você tem o orvalho da sua juventude” (R.V.). Há uma notável variante nos Codd. Roe, Casaub.: To ei su, achronon kai aidion; to de semeron prosphaton, all’ ouk aidion, oikeioumenou tou Patros kai ten kato gennesin. Kai palin legei; Ek gastros pro heosphorou gegenneka se; touto monon tes Theotetos; Pisteuson, k.t.l. As palavras “Você é meu Filho” referem-se assim à geração eterna, e “hoje” ao nascimento no tempo; ao passo que, no texto recebido, seguido na nossa tradução, semeron se refere à geração intemporal e eterna do Filho. A primeira interpretação do Sl 2.7 encontra-se em muitos Pais, como, por exemplo, em Tertuliano (adv. Prax. vii. xi.) e em Metódio (Conviv. Virg. VIII. cap. ix.): “Ele diz ‘Você é’, e não ‘Você se tornou’, mostrando que ele não alcançou recentemente a posição de Filho… Mas a expressão ‘Hoje eu gerei você’ significa que ele quis que, existindo já antes dos séculos nos céus, fosse também gerado para o mundo, isto é, que aquele que antes era desconhecido se tornasse conhecido.” A mesma interpretação foi sustentada por muitos Pais, uns referindo semeron ao nascimento, como Cipriano (adv. Judaeos Testim. ii. 8), outros ao batismo (Justino Mártir, Dialog. cap. lxxxviii.; Tertuliano, adv. Marcion. iv. 22). Atanásio (c. Arian. iv. § 27) discute longamente se o Sl 110.3, ek gastros pro heosphorou gegenneka se, se refere à geração eterna do Filho ou ao seu nascimento.

20. phusei kai ou thesei. Cf. § 2.

21. Cf. § 5.

22. gegennemenos anarchos. Cf. § 5.

23. ho chronos. Bened. com os Codd. Roe, Casaub., Coisl.; ho chronois, Ottob., Mon. 1, 2, A. Com esta última leitura, o sentido será: “se ele não concedeu desde o princípio, como você diz, o que concedeu em tempos posteriores”. Cirilo não se dirige aqui ao seu ouvinte, mas a um oponente imaginário: “ó homem”. Compare Atanásio (de Synodis, § 26).

24. Os arianos parecem ter usado um dilema: se Deus gerou com vontade e propósito, estes precederam a geração, e assim en pote hote ouk en, houve um tempo em que o Filho não existia; se sem vontade e propósito, então gerou na ignorância e por necessidade. A resposta é dada amplamente por Atanásio (c. Arian. iii. 58-67).

25. Atanásio (ad Episcopos Aegypti, § 13), referindo-se a 1Jo 5.20, “Este é o verdadeiro (alethinos) Deus”, escreve: “Mas estes homens (os arianos), como que em contradição com isso, alegam que Cristo não é o verdadeiro Deus, mas que é apenas chamado Deus, como as outras criaturas, em razão da sua participação na natureza divina.” E ainda (c. Arian. iii. 9): “Deu-nos a conhecer que do Pai verdadeiro ele é o verdadeiro Gerado (alethinon gennema).”

26. Compare Atanásio (de Sententia Dionysii, § 23): “a mente cria a palavra, manifestando-se nela, e a palavra mostra a mente, tendo-se originado nela”. Tertuliano (adv. Prax. vii.): “Você dirá: o que é uma palavra senão voz e som da boca e (como ensinam os gramáticos) ar golpeado, inteligível ao ouvido, mas, quanto ao mais, uma espécie de coisa vazia, oca e incorpórea?” Cf. Atanásio (de Synodis, § 12): anupostaton.

27. prophorikon. Veja Catequese IV, 8.

28. enupostaton. Ibid. Assim é descrito o Espírito na Catequese XVII, 5: “não proferido nem soprado pela boca e pelos lábios do Pai e do Filho, nem dispersado no ar, mas subsistindo pessoalmente (enupostaton)”.

29. en hupostasei.

30. Ao dizer que a terra, o sol e os céus não conhecem o seu Criador, Cirilo apenas usa uma linguagem figurada como a da passagem de Jó há pouco citada. Não há razão para supor que tenha aceitado a teoria de Orígenes (de Principiis, II. cap. 7), de que os corpos celestes são seres vivos e racionais, capazes de pecar.

31. “Os céus desaparecerão como a fumaça.”

32. Segui a leitura dos Codd. Coisl., Roe, Casaub., Mon. A, que o editor beneditino aprova, embora não a adote. O texto comum é claramente interpolado: “E o Espírito Santo de Deus testemunha nas Escrituras que aquele que foi gerado sem princípio é Deus. Pois quem conhece, etc.” Essa inserção de 1Co 2.11 interrompe o argumento e é uma repetição inútil da alusão à mesma passagem no § 12.

33. Veja IV, 8, sobre a doutrina sabeliana, e Atanásio (De Synodis, § 16).

34. A doutrina de Sabélio podia expressar-se de duas formas: ou o Pai se tornou o Filho, ou o Filho se tornou o Pai. Ambas as formas são negadas aqui. O editor de Jerusalém pensa que há uma alusão ao argumento ariano mencionado por Atanásio (C. Arian. Or. I, cap. vi, 22): “Se o Filho é o rebento e a imagem do Pai, e é semelhante em tudo ao Pai, então necessariamente se segue que, assim como ele é gerado, também gera, e ele também se torna pai de um filho.” Mas a estreita ligação das duas orações favorece a referência à huiopatoria sabeliana.

35. agennetoi. O contexto mostra que esta, e não agenetoi, é aqui a forma correta. Atanásio parece ter usado agennetos nos dois sentidos, “não gerado”, como aqui, e “sem origem”. Assim (C. Arian. Or. I, cap. ix, § 30), ele diz dos arianos: “A outra pergunta deles, ‘se o sem origem é um ou dois’, mostra quão falsas são as suas opiniões.” Compare o excurso do bispo Lightfoot sobre Inácio, Efésios, § 7, e as notas do Sr. Robertson sobre Atanásio nesta série.

36. Veja acima, § 8.

37. Atanásio (C. Arian. I, ix, 31): “falando contra o Senhor: ‘ele é do nada’ e ‘ele não existia antes da sua geração'”.

38. O último versículo foi entendido por Cirilo, como por muitos dos Pais gregos e latinos, como uma profecia da encarnação; mas, na realidade, refere-se ao “conhecimento” (episteme, v. 36) e deveria ser traduzido “ela foi vista sobre a terra”. Veja as notas sobre a passagem no Speaker’s Commentary.

39. Veja X, 14.

40. “Eles lhe farão súplicas, dizendo: Certamente Deus está em você.” As palavras são dirigidas a Jerusalém, como cidade de Deus. Cirilo as aplica ao Filho, induzido em erro pela Septuaginta.

41. Atanásio (C. Arian. Or. IV, § 9), argumentando em favor do homoousion, diz: “São dois, porque há o Pai e o Filho, isto é, o Verbo; e um, porque há um só Deus. Pois, se não fosse assim, ele teria dito: ‘Eu sou o Pai’, ou: ‘Eu e o Pai sou’.”

42. Veja IV, 8.

43. São Cirilo explica o “Fiat” criador de Gn 1 como dirigido pelo Pai ao Filho.

44. Sabemos por Sócrates (Hist. Ecl. I, 24) que, depois do Concílio de Niceia, “os que objetavam à palavra homoousios julgavam que os que a aprovavam favoreciam a opinião de Sabélio”. Marcelo de Ancira, que foi deposto sob a acusação de sabelianismo e que de fato não deixou clara a personalidade distinta do Filho, fora calorosamente apoiado pelos amigos de Atanásio. Cirilo, ao que parece, teme incorrer na censura deles, se condenar com demasiada força a opinião sabeliana.

45. Cirilo rejeita aqui os dois erros opostos: o arianismo, “Houve um tempo em que o Filho não existia”, e o sabelianismo, “um Filho que é o Pai”.

46. Veja acima, § 4.

47. aparallaktoi. A palavra foi usada pelos bispos ortodoxos em Niceia, que disseram que “o Verbo deve ser descrito como o verdadeiro poder e imagem do Pai, em tudo semelhante ao Pai e, ele mesmo, incapaz de mudança”. Veja as notas do Dr. Newman e do Sr. Robertson sobre Atanásio (De Decretis, § 20).

48. Veja IV, 8.

49. Compare Catequese VII, 7. O editor de Jerusalém observa que a expressão “meu Deus” é entendida pelos Pais, em geral, como dita por Cristo em referência à sua natureza humana, mas Cirilo aplica esta, assim como a outra expressão, “meu Pai”, à natureza divina. Assim Hilário (De Trinit. IV, 53): “idcirco Deus ejus est, quia ex eo natus in Deum est” (por isso é o Deus dele, porque dele nasceu como Deus). Compare Epifânio (Haer. LXIX, 55).

50. Sobre as várias leituras oligostos ei, me ol. ei, ouk ol. ei, encontradas nos manuscritos de Cirilo, veja os comentários sobre a citação da passagem em Mt 2.6.

51. Os Codd. Roe e Casaub. têm uma leitura diferente: “Não pense, pois, que ele nasceu agora em Belém, nem (não) o suponha, como Filho do Homem, inteiramente recente, mas adore, etc.” O editor beneditino e outros editores a consideram, com razão, uma interpolação destinada a evitar a aparente tendência da linguagem de Cirilo, no texto recebido, de separar o Filho da Virgem do Verbo eterno. Se Cirilo tivesse escrito assim depois que surgiu a controvérsia nestoriana, teria parecido favorecer a fórmula nestoriana de que “Maria não deu à luz a divindade”. Compare Swainson (Nicene Creed, cap. IX, § 7). O que Cirilo realmente quer dizer é que não devemos pensar em Cristo simplesmente como homem, mas adorá-lo como Deus.

52. Compare § 4.

53. Compare Catequese VI, 13, e XV, 3: “Aqui aprendam os convertidos dentre os maniqueus, e não façam mais daqueles luzeiros os seus deuses, nem pensem impiamente que este sol, que há de escurecer, é Cristo.”

54. A criação do mundo era atribuída aos anjos pelos gnósticos em geral, por exemplo, por Simão Mago (Ireneu, Adv. Haer. I, xxiii, § 2), Menandro (ibid., § 5), Saturnino (ibid., xxiv, 1), Basílides (ibid., § 3) e Carpócrates (ibid., xxv, 1).

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Edwin Hamilton Gifford (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 7, Nova York, 1894), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Cirilo cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.