Cirilo de Jerusalém, Catequeses · Catequese XXIII

Sobre a liturgia e a comunhão

A liturgia da Eucaristia passo a passo: o lavar das mãos, o beijo da paz, a oração, a Oração do Senhor e a comunhão.

Catequese XXIII. (Sobre os mistérios, V.)

Sobre a sagrada liturgia e a comunhão1

1 Pedro 2.1
Portanto, deixando toda impureza, todo engano e maledicência2 etc.

1. Pela bondade de Deus, vocês ouviram o suficiente, nos nossos encontros anteriores, sobre o batismo, a crisma e a participação no corpo e no sangue de Cristo; e agora é necessário passar ao que vem a seguir, com a intenção de hoje pôr a coroa no edifício espiritual da edificação de vocês.

2. Vocês viram, então, o diácono que dá água para lavar as mãos ao sacerdote3 e aos presbíteros que estão ao redor do altar de Deus. Ele não a dava de modo nenhum por causa de alguma impureza do corpo; não é isso; pois nós não entramos na igreja, no começo4, com o corpo impuro. Mas o lavar das mãos é símbolo de que vocês devem estar puros de todas as obras pecaminosas e ilícitas; pois, sendo as mãos símbolo da ação, ao lavá-las5 representamos, evidentemente, a pureza e a irrepreensibilidade da nossa conduta. Você não ouviu o bem-aventurado Davi abrindo este mesmo mistério e dizendo: “Lavo as mãos na inocência e, assim, andarei, Senhor, ao redor do teu altar” (Sl 26.6)6? O lavar das mãos é, portanto, símbolo de isenção7 do pecado.

3. Então o diácono clama em alta voz: “Recebam-se uns aos outros; e beijemo-nos uns aos outros8.” Não pensem que este beijo é da mesma natureza que os que os amigos comuns se dão em público. Não é desse tipo; mas este beijo une as almas umas às outras e busca para elas o perdão completo. O beijo é, portanto, o sinal de que as nossas almas se misturam e banem toda lembrança das ofensas. Por isso Cristo disse: “Se você estiver trazendo a sua oferta ao altar e lá se lembrar que o seu irmão tem alguma coisa contra você, deixe diante do altar a sua oferta e vá primeiro reconciliar-se com o seu irmão; e então volte e faça a sua oferta” (Mt 5.23-24)9. O beijo é, portanto, reconciliação, e por esta razão é santo; como o bem-aventurado Paulo clamou em algum lugar, dizendo: “Saúdem uns aos outros com um beijo santo” (1Co 16.20); e Pedro: “com um beijo fraterno” (1Pe 5.14).

4. Depois disso, o sacerdote clama em alta voz: “Elevem os corações10.” Pois verdadeiramente devemos, naquela hora tremenda, ter o coração no alto, com Deus, e não embaixo, pensando na terra e nas coisas terrenas. Na prática, portanto, o sacerdote ordena a todos, naquela hora, que deixem de lado todas as preocupações desta vida, ou as ansiedades domésticas, e tenham o coração no céu, com o Deus misericordioso. Então vocês respondem: “Nós os elevamos ao Senhor”, dando o seu assentimento por meio dessa declaração. Mas que ninguém se apresente aqui de tal modo que diga com a boca: “Elevamos os nossos corações ao Senhor”, mas tenha nos pensamentos a mente ocupada com as preocupações desta vida. Em todo tempo, na verdade, Deus deveria estar na nossa lembrança; mas, se isso é impossível por causa da fraqueza humana, naquela hora, acima de tudo, este deve ser o nosso empenho sincero.

5. Então o sacerdote diz: “Demos graças ao Senhor.” Pois verdadeiramente temos o dever de dar graças, porque ele nos chamou, indignos como éramos, a tão grande graça; porque nos reconciliou quando éramos seus inimigos; porque nos concedeu o Espírito de adoção. Então vocês dizem: “É digno e justo”; pois, ao dar graças, fazemos uma coisa digna e justa; mas ele não fez apenas o que era justo, e sim mais do que o justo, ao nos fazer o bem e nos considerar dignos de tão grandes benefícios.

6. Depois disso, fazemos menção do céu, da terra e do mar11; do sol e da lua; das estrelas e de toda a criação, racional e irracional, visível e invisível; dos anjos, arcanjos, virtudes, dominações, principados, potestades, tronos; dos querubins de muitas faces, repetindo na prática aquele chamado de Davi: “Louvem comigo a grandeza do Senhor” (Sl 34.3). Fazemos menção também dos serafins, que Isaías, no Espírito Santo, viu de pé ao redor do trono de Deus, com duas das asas cobrindo o rosto, com duas os pés, enquanto com duas voavam, clamando: “Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos” (Is 6.2-3). Pois a razão de recitarmos esta confissão de Deus12, transmitida a nós pelos serafins, é esta: que assim sejamos participantes, com as hostes do mundo do alto, do seu hino de louvor.

7. Então, depois de nos santificarmos com estes hinos espirituais, suplicamos ao Deus misericordioso que envie o seu Espírito Santo sobre os dons que estão diante dele, para que faça do pão o corpo de Cristo, e do vinho o sangue de Cristo13; pois tudo aquilo que o Espírito Santo toca é certamente santificado e transformado.

8. Então, depois de completado o sacrifício espiritual, o culto incruento, sobre aquele sacrifício de propiciação14 suplicamos a Deus pela paz comum das igrejas, pelo bem-estar do mundo15; pelos reis; pelos soldados e aliados; pelos enfermos; pelos aflitos; e, numa palavra, por todos os que precisam de socorro, todos nós oramos e oferecemos este sacrifício.

9. Então fazemos memória também dos que adormeceram antes de nós: primeiro, dos patriarcas, profetas, apóstolos e mártires, para que, pelas suas orações e intercessões, Deus receba a nossa súplica16. Depois, também em favor dos santos pais e bispos que adormeceram antes de nós e, numa palavra, de todos os que, nos anos passados, adormeceram entre nós, crendo que será um benefício muito grande para as almas17 pelas quais se eleva a súplica, enquanto está exposto aquele santo e tremendíssimo sacrifício.

10. E quero convencê-los por meio de uma ilustração. Pois sei que muitos dizem: que proveito tem uma alma que parte deste mundo com pecados, ou sem pecados, se for lembrada na oração? Ora, se um rei banisse alguns que o tivessem ofendido, e depois os que lhes são ligados18 tecessem uma coroa e a oferecessem a ele em favor dos que estão sob castigo, não lhes concederia ele a remissão das penas? Do mesmo modo nós, quando lhe oferecemos as nossas súplicas pelos que adormeceram, ainda que sejam pecadores, não tecemos uma coroa, mas oferecemos Cristo sacrificado pelos nossos pecados19, tornando propício o nosso Deus misericordioso, tanto para eles quanto para nós mesmos.

11. Depois dessas coisas, dizemos aquela oração que o Salvador entregou aos seus próprios discípulos, chamando a Deus, com consciência pura, de nosso Pai, e dizendo: “Pai nosso, que estás nos céus” (Mt 6.9). Ó bondade de Deus que tudo excede! Àqueles que se revoltaram contra ele e estavam no extremo da miséria, ele concedeu um perdão tão completo das más ações e tão grande participação da graça que chegam até a chamá-lo de Pai. “Pai nosso, que estás nos céus”; e céu são também os que “trazem a imagem do celestial” (1Co 15.49), nos quais está Deus, “habitando e andando” neles (2Co 6.16).

12. “Santificado seja o teu nome” (Mt 6.9). O nome de Deus é santo por natureza, quer o digamos, quer não; mas, como às vezes é profanado entre os pecadores, segundo as palavras “Por causa de vocês o meu nome é blasfemado continuamente entre os gentios” (Is 52.5; Rm 2.24), oramos para que em nós o nome de Deus seja santificado; não que passe a ser santo depois de não ser santo, mas porque se torna santo em nós quando somos santificados e fazemos coisas dignas da santidade.

13. “Venha o teu Reino” (Mt 6.10). Uma alma pura pode dizer com ousadia: “Venha o teu Reino”; pois quem ouviu Paulo dizer: “Portanto, não permitam que o pecado reine em seu corpo mortal” (Rm 6.12), e se purificou em obra, pensamento e palavra, dirá a Deus: “Venha o teu Reino.”

14. “Seja feita a tua vontade, assim no céu como na terra” (Mt 6.10). Os divinos e bem-aventurados anjos de Deus fazem a vontade de Deus, como disse Davi no salmo: “Bendigam o Senhor os seus anjos, valorosos em poder, que executam as suas ordens” (Sl 103.20). Assim, na prática, é isto que você quer dizer com a sua oração: “Assim como nos anjos a tua vontade é feita, assim também seja feita na terra, em mim, ó Senhor.”

15. “O pão nosso substancial nos dá hoje” (Mt 6.11). Este pão comum não é pão substancial, mas este pão santo é substancial, isto é, destinado à substância da alma20. Pois este pão não “vai para o ventre e é lançado na fossa” (Mt 15.17), mas se distribui por todo o seu organismo, para benefício do corpo e da alma21. E por “hoje” ele quer dizer “cada dia”, como também Paulo disse: “durante o tempo que se chama ‘hoje'” (Hb 3.13).

16. “E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores” (Mt 6.12). Pois temos muitos pecados. Pois ofendemos tanto em palavra como em pensamento, e fazemos muitíssimas coisas dignas de condenação; e, “se dissermos que não temos pecado”, mentimos, como diz João (1Jo 1.8)22. E fazemos uma aliança com Deus, suplicando-lhe que nos perdoe os pecados, assim como nós também perdoamos aos nossos próximos as suas dívidas. Considerando, então, o que recebemos e em troca de quê, não adiemos nem demoremos em perdoar uns aos outros. As ofensas cometidas contra nós são leves e insignificantes, e fáceis de resolver; mas as que nós cometemos contra Deus são grandes e precisam de uma misericórdia como só a dele. Cuidado, portanto, para que, por causa dos pecados leves e insignificantes cometidos contra você, você não feche para si mesmo o perdão de Deus pelos seus gravíssimos pecados.

17. “E não nos conduzas à tentação, ó Senhor” (Mt 6.13). É isto, então, que o Senhor nos ensina a pedir: que não sejamos tentados de modo algum? Como então se diz em outro lugar: “Homem não tentado é homem não provado23“; e ainda: “Meus irmãos, tenham por motivo de grande alegria o fato de passarem por várias tentações” (Tg 1.2)? Mas será que entrar na tentação significa ser submergido pela tentação? Pois a tentação é como uma torrente de inverno, difícil de atravessar. Os que, portanto, não são submergidos nas tentações passam através delas, mostrando-se excelentes nadadores e não sendo de modo algum arrastados por elas; ao passo que os que não são assim entram nelas e são submergidos. Por exemplo, Judas, tendo entrado na tentação do amor ao dinheiro, não a atravessou a nado, mas foi submergido e estrangulado24, tanto no corpo como no espírito. Pedro entrou na tentação da negação; mas, tendo entrado, não foi submergido por ela, antes a atravessou a nado com valentia e foi libertado da tentação25. Ouça ainda, em outro lugar, um grupo de santos ilesos dando graças pela libertação da tentação: “Tu, ó Deus, nos provaste; tu nos provaste pelo fogo, como se prova a prata. Tu nos levaste à rede; puseste aflições sobre os nossos lombos. Fizeste os homens cavalgarem sobre a nossa cabeça; passamos pelo fogo e pela água; e tu nos trouxeste para um lugar de descanso” (Sl 66.10-12). Você os vê falando com ousadia por terem passado sem ficarem traspassados26. “Mas tu nos trouxeste para um lugar de descanso”; ora, a chegada deles a um lugar de descanso é a sua libertação da tentação.

18. “Mas livra-nos do mal” (Mt 6.13). Se “não nos conduzas à tentação” significasse não ser tentado de modo algum, ele não teria dito: “Mas livra-nos do mal”. Ora, o mal é o nosso adversário, o diabo, de quem pedimos ser livrados27. Depois, ao completar a oração, você diz: “Amém”28; com este amém, que significa “assim seja”, você põe o seu selo nas petições da oração ensinada por Deus.

19. Depois disso, o sacerdote diz: “As coisas santas para os santos.” Santos são os dons apresentados, tendo recebido a visitação do Espírito Santo; santos são também vocês, tendo sido considerados dignos do Espírito Santo; as coisas santas, portanto, correspondem às pessoas santas29. Então vocês dizem: “Um só é santo, um só é o Senhor, Jesus Cristo30.” Pois um só é verdadeiramente santo, santo por natureza; nós também somos santos, mas não por natureza, apenas por participação, disciplina e oração.

20. Depois disso, vocês ouvem o cantor convidando-os, com uma melodia sagrada, à comunhão dos santos mistérios e dizendo: “Provem e vejam que o Senhor é bom” (Sl 34.8)31. Não confie o julgamento ao paladar do seu corpo32; não, mas à fé que não vacila; pois os que provam são convidados a provar não pão e vinho, mas o corpo e o sangue antitípicos33 de Cristo.

21. Ao se aproximar34, portanto, não venha com os pulsos estendidos ou com os dedos abertos; mas faça da mão esquerda um trono para a direita, que há de receber um Rei35. E, tendo deixado côncava a palma da mão, receba o corpo de Cristo, dizendo sobre ele: “Amém”. Então, depois de santificar cuidadosamente os seus olhos pelo toque do santo corpo, participe dele, tomando cuidado para não perder nenhuma porção dele36; pois tudo o que você perder é evidentemente uma perda para você, como se fosse de um dos seus próprios membros. Pois diga-me: se alguém lhe desse grãos de ouro, você não os seguraria com todo o cuidado, guardando-se de perder algum deles e sofrer prejuízo? Não vigiará você, então, com muito mais cuidado, para que não lhe caia nem uma migalha daquilo que é mais precioso que o ouro e as pedras preciosas?

22. Então, depois de ter participado do corpo de Cristo, aproxime-se também do cálice do seu sangue; não estendendo as mãos, mas inclinando-se37 e dizendo, em atitude de adoração e reverência: “Amém”38; santifique-se participando também do sangue de Cristo. E, enquanto a umidade ainda está nos seus lábios, toque-a com as mãos e santifique os olhos, a fronte e os demais órgãos dos sentidos39. Depois espere a oração e dê graças a Deus, que o considerou digno de tão grandes mistérios40.

23. Guardem estas tradições sem mancha e conservem-se livres de ofensa. Não se separem da comunhão; não se privem, pela contaminação dos pecados, destes santos e espirituais mistérios. “O mesmo Deus da paz os santifique em tudo. E que o espírito, a alma e o corpo de vocês sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Ts 5.23). A ele sejam a glória, a honra e o poder, com o Pai e o Espírito Santo, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.

Notas

1. Este título foi acrescentado pelo editor beneditino. Nada lhe corresponde no grego.

2. O texto é composto de memória a partir de Tg 1.21: dio apothemenoi pasan rhuparian, e de 1Pe 2.1: apothemenoi oun pasan kakian kai panta dolon kai hupokriseis kai pasas katalalias.

3. Nas Constituições Apostólicas, VIII, 11, esta função é atribuída a um subdiácono: “Que um dos subdiáconos traga água para lavar as mãos dos sacerdotes, o que é símbolo da pureza das almas consagradas a Deus.” Veja o Dictionary of Christian Antiquities, “Lavabo”. O sacerdote que celebra a Eucaristia é aqui distinguido pelo título hiereus dos outros presbíteros que estavam ao redor do altar.

4. Cirilo evidentemente se refere ao costume de colocar vasos de água do lado de fora da entrada da igreja. Bingham, Antiquities, VIII, iii, 6. Crisóstomo, Homilias sobre João, LXXIII, 3: “Lavamos então as mãos ao entrar na igreja, e não lavaremos também o coração?” Que o mesmo costume se observava nos templos pagãos, vê-se em Heródoto, I, 51: perirrhanteria duo anetheke (veja a nota de Bähr). Compare também Josefo, Antiguidades judaicas, III, vi, 2.

5. [to] nipsasthai. Rupp: “To ex conjectura addidi” (acrescentei o to por conjectura). Possivelmente a leitura original era nipsamenoi, que facilmente se alteraria pela presença de nipsasthai na linha anterior. Este lavar não é mencionado na Liturgia de São Tiago.

6. Na liturgia de Constantinopla, este salmo era cantado pelo sacerdote e pelo diácono enquanto lavavam as mãos na prótese, ou credência.

7. anupeuthunos.

8. Estas duas instruções do diácono estão separadas na Liturgia de São Tiago: depois da despedida dos catecúmenos, o diácono diz: “Prestem atenção uns aos outros”; e, depois do incenso, do hino querúbico, da oblação, do Credo e de uma breve oração “para que sejamos unidos uns aos outros no vínculo da paz e do amor”, o diácono diz: “Saudemo-nos (agapomen) uns aos outros com um beijo santo.” Nas Constituições Apostólicas, VIII, 11, há apenas uma instrução desse tipo, e ela vem antes do lavar das mãos e da despedida dos catecúmenos: “Saúdem-se (aspasasthe) uns aos outros com um beijo santo.”

9. Da referência de Cirilo a esta passagem “pode-se inferir que o beijo da paz era dado antes que as ofertas fossem levadas ao altar, segundo o antigo costume atestado por Justino Mártir, Apologia I, cap. 65: ‘Terminadas as orações’ (pelos recém-batizados) ‘saudamo-nos uns aos outros com um beijo. Depois se leva ao presidente dos irmãos pão e um cálice de vinho misturado com água'” (o editor beneditino). A mesma ordem aparece nas Constituições Apostólicas, VIII, 12, e no cânon 19 do Sínodo de Laodiceia; mas na Liturgia de São Tiago as ofertas são apresentadas antes do beijo da paz.

10. As palavras variam um pouco nas liturgias: assim, na Liturgia de São Tiago: “Elevemos a mente e os corações”; nas Constituições Apostólicas, VIII, 12: “Elevem a mente.”

11. Compare o nobre prefácio eucarístico da Liturgia de São Tiago: “É verdadeiramente digno, justo, conveniente e nosso dever louvar-te, cantar-te, bendizer-te, adorar-te, glorificar-te, dar graças a ti, Criador de toda criatura, visível e invisível, tesouro dos bens eternos, fonte da vida e da imortalidade, Deus e Senhor de todas as coisas, a quem louvam os céus dos céus e todas as suas potestades, o sol e a lua e todo o coro das estrelas, a terra, o mar e tudo o que neles há, a Jerusalém, assembleia celestial, Igreja dos primogênitos arrolados nos céus, espíritos dos justos e dos profetas, almas dos mártires e dos apóstolos, anjos, arcanjos, tronos, dominações, principados, autoridades e potestades temíveis, e também os querubins de muitos olhos e os serafins de seis asas, que com duas das asas cobrem o rosto, com duas os pés e com duas voam, clamando uns aos outros com lábios incansáveis, em louvores incessantes, cantando em alta voz o hino triunfal da glória da tua majestade, aclamando, glorificando, clamando e dizendo: Santo, santo, santo, ó Senhor dos Exércitos; o céu e a terra estão cheios da tua glória. Hosana nas alturas; bendito o que vem em nome do Senhor; hosana nas alturas.”

12. theologian, “a doutrina da divindade”, seja a do Filho em particular, seja, como aqui, a de toda a Trindade: compare Atanásio, Contra os arianos, Discurso I, § 18: nun en triadi he theologia teleia estin (agora a teologia é perfeita na Trindade).

13. Na Liturgia de São Tiago, o hino triunfal é seguido pela “recordação da obra da redenção” e “da instituição”, pela “grande oblação” e depois pela “invocação”, como segue: “Tem misericórdia de nós, ó Deus, segundo a tua grande misericórdia, e envia sobre nós e sobre estes dons aqui postos diante de ti o teu Espírito todo santo, … para que ele venha e, pela sua santa, boa e gloriosa vinda (parousia), santifique este pão e o faça o santo corpo do teu Cristo (Amém), e este cálice, o precioso sangue do teu Cristo” (Amém). Na Catequese XIX, 7, Cirilo chama esta oração de “a santa invocação da adorável Trindade”, e em XXI, 3, “a invocação do Espírito Santo”.

14. Compare Atenágoras (Apologia, cap. XIII): “Que tenho eu a ver com holocaustos, de que Deus não precisa? Embora, de fato, nos convenha trazer um sacrifício incruento e o culto racional.”

15. Cirilo dá aqui um breve resumo da “grande intercessão”, na qual, segundo o texto comum da Liturgia de São Tiago, há uma súplica “pela paz e bem-estar (eustatheia) do mundo inteiro e das santas igrejas de Deus”. O Sr. Hammond pensa que ela foi tirada da litania do diácono e repetida por engano na grande intercessão. Mas, pela linguagem de Crisóstomo (Homilias sobre Filipenses, III, p. 218; Gaume, tomo XI, p. 251), devemos inferir que a oração huper eirenes kai eustatheias tou kosmou fazia parte da “grande intercessão” na sua liturgia, como faz na clementina (Constituições Apostólicas, VIII, § 10).

16. Nas liturgias de São Tiago e de São Marcos, e na clementina, há comemorações semelhantes dos santos falecidos, especialmente dos “patriarcas, profetas, apóstolos, mártires”, mas nada que corresponda às palavras “para que, pelas suas orações e intercessões, Deus receba a nossa súplica”.

17. Assim Crisóstomo (Homilias sobre 1 Coríntios, 41, p. 457 A): “Não foi em vão que os apóstolos estabeleceram esta regra, de que nos tremendos mistérios se fizesse memória dos falecidos: pois sabiam que isso lhes é de grande proveito e de grande benefício.”

18. hoi toutois diapherontes. “Hesíquio: Diapherei, anekei. Onde Kuster diz: anekei, isto é, ‘pertinet‘ ou ‘attinet‘ (pertence, diz respeito)” (Routh, Scriptor. Eccles. Opuscula, p. 441). A nota do Dr. Routh remete ao cânon XVI do Concílio de Niceia: hupharpasai ton to hetero diapheronta. Compare a Carta do Sínodo de Niceia aos alexandrinos: diapheronta te Aigupto kai te hagiotate ‘Alexandreon ekklesia.

19. Segundo o editor beneditino, o sentido não é “oferecemos Cristo, que foi sacrificado pelos nossos pecados”, mas “oferecemos pelos nossos pecados Cristo sacrificado”, isto é, “Cristo jazendo sobre o altar como vítima sacrificada”, em alusão a Ap 5.6, 12.

20. “É evidente que o autor deriva a palavra epiousios das duas palavras epi e ousia, como fazem muitos outros, embora a explicação que a deriva de epiouse hemera seja mais provável. Traduzimos por ‘substancial’, de acordo com o sentido de Cirilo, com o qual a palavra ‘supersubstancial’ não concorda” (o editor beneditino).

21. Catequese XXII, § 3. O editor beneditino: “Não devemos pensar que Cirilo supusesse que o corpo de Cristo se distribui e se digere no nosso corpo; mas, no modo usual de falar, ele atribui ao santo corpo aquilo que pertence apenas às espécies sob as quais ele está oculto. Nem nega que essas espécies vão para a fossa, mas apenas o corpo de Cristo.” Compare Ireneu, V, ii, 2, 3.

22. “A nós mesmos enganamos.”

23. Tertuliano, Sobre o batismo, cap. 20: “Pois a palavra já tinha sido dita de antemão: ‘que ninguém, sem ser tentado, alcançaria os reinos celestes.'” Constituições Apostólicas, II, viii: “A Escritura diz: ‘o homem reprovado (adokimos) não é provado (apeirastos) por Deus.'” Resch, Agrapha, Logion 26, p. 188, cita alusões ao dito em Tg 1.12-13 e 2Co 13.5-7, e conclui que ele estava registrado como dito de nosso Senhor num dos evangelhos não canônicos (Lc 1.1), onde aparecia no contexto do episódio narrado em Mt 26.41 e Mc 14.38.

24. apepnige. Mt 27.5: apenxato.

25. Compare a descrição do arrependimento de Pedro na Catequese II, 19.

26. Em lugar de emparenai, o editor beneditino conjectura empagenai, “ter ficado preso”.

27. Cirilo é aqui uma testemunha clara da referência de tou ponerou ao “maligno”.

28. Pelo § 14, euchomenos touto legeis, parece provável que a oração inteira fosse dita pelo povo, assim como pelo sacerdote.

29. Compare Waterland sobre esta passagem, cap. X, p. 688.

30. Constituições Apostólicas, VIII, cap. XIII: “Que o bispo fale assim ao povo: As coisas santas para os santos. E que o povo responda: Um só é santo; um só Senhor, um só Jesus Cristo, bendito para sempre, para a glória de Deus Pai.” As liturgias de São Tiago e de Constantinopla têm quase as mesmas palavras; na Liturgia de São Marcos, a resposta do povo é: Um só Pai santo, um só Filho santo, um só Espírito santo, na unidade do Espírito Santo.

31. Nas Constituições Apostólicas, o “Sancta sanctis” e a sua resposta são seguidos imediatamente pelo “Gloria in excelsis” e pelo “Hosana”. Depois o clero comunga, e segue-se a instrução de que este Salmo 34 seja dito enquanto todos os demais comungam. Na liturgia de Constantinopla há esta instrução: “O coro canta a antífona da comunhão (to koinonikon) do dia ou do santo.”

32. Em lugar de me epitrepete, provavelmente um itacismo, devemos ler me epitrepetai, como pergunta, sendo a conveniência da mudança indicada pela resposta ouchi: “Confia-se o julgamento disto ao paladar do corpo? Não, mas etc.”

33. antitupou somatos, “o corpo antitípico”, e não “o antítipo do corpo”, o que exigiria tou somatos. Compare Catequese XXI, § 1.

34. Catequese XVIII, 32: “com que reverência e ordem vocês devem ir do batismo ao santo altar de Deus”.

35. Cirilo parece ser a autoridade mais antiga para esta maneira de dispor as mãos em forma de cruz. Instrução semelhante é dada no cânon 101 do Concílio Trulano (692) e por João Damasceno (Sobre a fé ortodoxa, IV, 14). Dictionary of Christian Antiquities, “Communion”. Que o comungante devia receber o pão nas próprias mãos é claro pela linguagem de Cirilo e de outros Pais. Compare Clemente de Alexandria, Stromata, I, cap. I, § 5: “Alguns, depois de dividirem a Eucaristia segundo o costume, permitem que cada um do povo tome ele mesmo a sua parte.” Veja a passagem de Orígenes citada na nota seguinte, e Tertuliano, Sobre a coroa do soldado, cap. III: “O sacramento da Eucaristia, que o Senhor ordenou que fosse tomado tanto na hora da refeição como por todos, nós o tomamos até nas assembleias antes do amanhecer, e da mão de ninguém senão dos que presidem.”

36. Orígenes, Homilias sobre o Êxodo, XIII, § 3: “Quero admoestá-los com exemplos da própria religião de vocês: vocês, que costumam assistir aos sagrados mistérios, sabem como, quando recebem o corpo do Senhor, o guardam com todo o cuidado e reverência, para que nem uma pequena parte dele caia, nem se perca porção alguma do dom consagrado. Pois vocês se julgam culpados, e com razão assim julgam, se alguma parte dele cair por descuido.”

37. kupton: não ajoelhado, mas de pé, em postura inclinada. Compare Bingham, XV, cap. 5, § 3.

38. Constituições Apostólicas, VIII, cap. 13: “Que o bispo dê a oblação (prosphoran) dizendo: O corpo de Cristo. E que quem a recebe diga: Amém. E que o diácono segure o cálice e, ao entregá-lo, diga: O sangue de Cristo, o cálice da vida. E que quem bebe diga: Amém.”

39. Catequese XXI, 3.

40. Na Liturgia de São Tiago, depois que todos comungaram, “os diáconos e o povo dizem: Enche a nossa boca do teu louvor, ó Senhor, e enche os nossos lábios de alegria, para que cantemos a tua glória e a tua grandeza o dia todo. E ainda: Nós te damos graças, ó Cristo, nosso Deus, porque nos consideraste dignos de participar do teu corpo e do teu sangue etc.”

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Edwin Hamilton Gifford (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 7, Nova York, 1894), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Cirilo cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.