Eusébio, História Eclesiástica · Livro X

Livro X, capítulos 1 a 4

A paz concedida por Deus; a reconstrução e a dedicação das igrejas; o discurso de Eusébio na dedicação da igreja de Tiro.

Capítulo I. A paz que Deus nos concedeu

1. Graças sejam dadas por todas as coisas a Deus, o Soberano onipotente e Rei do universo, e as maiores graças a Jesus Cristo, o Salvador e Redentor de nossas almas, por meio de quem pedimos que a paz nos seja sempre preservada, firme e livre das perturbações de fora e das perturbações do espírito.

2. Visto que, de acordo com os teus desejos, meu santíssimo Paulino, acrescentamos o décimo livro da História Eclesiástica aos que o precederam, nós o dedicaremos a ti, proclamando-te o selo de toda a obra; e, num número perfeito, acrescentaremos com propriedade o panegírico perfeito sobre a restauração das igrejas, obedecendo ao Espírito divino, que nos exorta com as seguintes palavras:

3. “Cantem ao Senhor um cântico novo, porque ele tem feito maravilhas; a sua mão direita e o seu braço santo lhe alcançaram a vitória. O Senhor fez notória a sua salvação; manifestou a sua justiça diante dos olhos das nações” (Sl 98.1-2).

4. E, em obediência à palavra que nos manda cantar o cântico novo, mostremos agora que, depois daqueles espetáculos terríveis e sombrios que descrevemos, nos é permitido ver e celebrar coisas que muitos homens verdadeiramente justos e mártires de Deus antes de nós desejaram ver na terra e não viram, e ouvir e não ouviram (cf. Mt 13.17).

5. Eles, porém, apressando-se, alcançaram coisas muito melhores (cf. Fp 1.23), levados ao céu e ao paraíso das delícias divinas. Nós, reconhecendo que até estas coisas são maiores do que merecemos, ficamos maravilhados com a graça manifestada pelo autor de tão grandes dons. E com razão o admiramos, adorando-o com toda a força de nossas almas e dando testemunho da verdade daquelas palavras registradas, nas quais se diz: “Venham contemplar as obras do Senhor, as maravilhas que ele fez na terra; ele faz cessar as guerras até os confins do mundo, quebrará o arco e despedaçará a lança, e queimará os escudos no fogo” (Sl 46.8-9).

6. Alegrando-nos nestas coisas, que se cumpriram claramente em nossos dias, prossigamos com a nossa narrativa.

7. Toda a raça dos inimigos de Deus foi destruída da maneira indicada e, assim, varrida de repente da vista dos homens. De modo que mais uma vez uma palavra divina teve o seu cumprimento: “Vi o ímpio altamente exaltado, erguendo-se como os cedros do Líbano; passei, e eis que já não existia; procurei o seu lugar, e não foi encontrado” (Sl 37.35-36).

8. Por fim, um dia claro e esplêndido, sem nenhuma nuvem que o sombreasse, iluminou com raios de luz celestial as igrejas de Cristo no mundo inteiro. E nem mesmo os que estavam fora da nossa comunhão foram impedidos de participar das mesmas bênçãos, ou ao menos de receber a sua influência e de desfrutar parte dos benefícios que Deus nos concedeu.

Capítulo II. A restauração das igrejas

1. Todos os homens, então, ficaram livres da opressão dos tiranos e, libertos dos males anteriores, cada um a seu modo reconheceu que o defensor dos piedosos é o único Deus verdadeiro. E sobretudo nós, que havíamos posto a nossa esperança no Cristo de Deus, tivemos uma alegria indizível, e uma espécie de júbilo inspirado floresceu em todos nós, quando vimos cada lugar que pouco antes fora assolado pelas impiedades dos tiranos revivendo como depois de uma longa e mortífera peste, e os templos de novo se erguendo desde os alicerces a uma altura imensa e recebendo um esplendor muito maior do que o dos antigos que haviam sido destruídos.

2. Além disso, os soberanos supremos nos confirmaram ainda mais amplamente a munificência de Deus por meio de repetidas ordenanças em favor dos cristãos; e cartas pessoais do imperador foram enviadas aos bispos, com honras e doações em dinheiro. Talvez não seja impróprio inserir esses documentos, traduzidos da língua romana para a grega, no lugar apropriado deste livro, como numa tábua sagrada, para que permaneçam como memorial para todos os que vierem depois de nós.

Capítulo III. As dedicações em toda parte

1. Depois disso se viu o espetáculo desejado e pedido em oração por todos nós: festas de dedicação nas cidades e consagrações das casas de oração recém-construídas; bispos se reuniam, estrangeiros acorriam de terras distantes, havia amor mútuo entre povo e povo, e os membros do corpo de Cristo se uniam em completa harmonia.

2. Cumpriu-se então a palavra profética que predizia misticamente o que havia de acontecer: “Osso com osso e junta com junta” (Ez 37.7), e tudo o que foi verdadeiramente anunciado em expressões enigmáticas naquela passagem inspirada.

3. Havia uma só energia do Espírito divino penetrando todos os membros, uma só alma em todos, o mesmo ardor de fé e um só hino de todos em louvor à Divindade. Sim, e os prelados celebravam ofícios perfeitos, solenizando os ritos sagrados e observando as majestosas instituições da Igreja, aqui com o canto de salmos e a leitura das palavras que Deus nos confiou, ali com a celebração dos serviços divinos e místicos; e eram distribuídos os símbolos misteriosos da paixão do Salvador.

4. Ao mesmo tempo, pessoas de todas as idades, homens e mulheres, com toda a força do espírito, honravam a Deus, autor de seus benefícios, com orações e ações de graças, com mente e alma alegres. E cada um dos bispos presentes, segundo a sua capacidade, pronunciava orações panegíricas, dando brilho à assembleia.

Capítulo IV. Panegírico sobre o esplendor dos acontecimentos

1. Um dos de talento moderado, que havia composto um discurso, adiantou-se na presença de muitos pastores reunidos como para uma assembleia da Igreja e, enquanto eles escutavam em silêncio e com decoro, dirigiu-se do seguinte modo a um bispo em tudo excelentíssimo e amado de Deus, por cujo zelo fora erguido o templo de Tiro, o mais esplêndido da Fenícia.

Panegírico sobre a construção das igrejas, dirigido a Paulino, bispo de Tiro.

2. “Amigos e sacerdotes de Deus, que estão revestidos da veste sagrada e adornados com a coroa celestial da glória, a unção inspirada e a vestidura sacerdotal do Espírito Santo; e tu, ó orgulho do novo e santo templo de Deus, dotado por ele da sabedoria da idade madura e, no entanto, exibindo obras e feitos preciosos de uma virtude jovem e florescente, a quem o próprio Deus, que abarca o mundo inteiro, concedeu a honra insigne de edificar e renovar esta casa terrena para Cristo, seu Verbo unigênito e primogênito, e para a sua santa e divina esposa (cf. Ap 21.2);

3. a ti se poderia chamar novo Bezalel, arquiteto de um tabernáculo divino, ou Salomão, rei de uma nova e muito melhor Jerusalém, ou ainda novo Zorobabel, que acrescentou ao templo de Deus uma glória muito maior do que a primeira (cf. Ag 2.9);

4. e também vocês, ó crias do rebanho sagrado de Cristo, morada de boas palavras, escola de sabedoria e augusto e piedoso auditório da religião:

5. Há muito tempo nos foi permitido erguer hinos e cânticos a Deus, quando, ouvindo a leitura das divinas Escrituras, aprendemos os maravilhosos sinais de Deus e os benefícios concedidos aos homens pelos feitos admiráveis do Senhor, e fomos ensinados a dizer: ‘Ó Deus, nós ouvimos com os próprios ouvidos; nossos pais nos contaram o que fizeste outrora, em seus dias’ (Sl 44.1).

6. Agora, porém, já não conhecemos o braço excelso e a destra celestial do nosso Deus de toda bondade e Rei universal apenas de ouvir dizer ou por notícia, mas observamos, por assim dizer, de fato e com os próprios olhos que as declarações registradas há muito tempo são fiéis e verdadeiras. Por isso nos é permitido erguer um segundo hino de triunfo, cantar em alta voz e dizer: ‘Como temos ouvido dizer, agora vimos que aconteceu na cidade do Senhor dos Exércitos, na cidade do nosso Deus’ (Sl 48.8).

7. E em que cidade senão nesta, recém-construída e edificada por Deus, que é ‘a igreja do Deus vivo, coluna e fundamento da verdade’ (1Tm 3.15), a respeito da qual também outro oráculo divino assim proclama: ‘Coisas gloriosas são ditas a respeito de você, ó cidade de Deus!’ (Sl 87.3). Visto que o Deus de toda bondade nos reuniu nela, pela graça do seu Unigênito, cada um dos que foram convocados cante em alta voz e diga: ‘Alegrei-me quando me disseram: Vamos à Casa do Senhor’ (Sl 122.1), e: ‘Senhor, amei a beleza da tua casa e o lugar onde a tua glória reside’ (Sl 26.8).

8. E não só um por um, mas todos juntos, com um só espírito e uma só alma, honremo-lo e clamemos, dizendo: ‘Grande é o Senhor e mui digno de ser louvado, na cidade do nosso Deus, seu santo monte’ (Sl 48.1). Pois ele é verdadeiramente grande, e grande é a sua casa, elevada e espaçosa e ‘mais formosa em beleza do que os filhos dos homens’ (Sl 45.2). ‘Grande é o Senhor, o único que opera maravilhas’ (Sl 136.4); grande é aquele ‘que faz coisas grandes e insondáveis, coisas gloriosas e maravilhosas que não se podem enumerar’ (Jó 9.10); grande é aquele ‘que muda os tempos e as estações, que exalta e abate reis’ (Dn 2.21), ‘que levanta o pobre do pó e tira o necessitado do monte de lixo’ (Sl 113.7). ‘Derrubou dos seus tronos os poderosos e exaltou da terra os humildes. Encheu de bens os famintos e quebrou os braços dos soberbos’ (Lc 1.52-53).

9. Não só aos fiéis, mas também aos incrédulos, ele confirmou o relato dos acontecimentos antigos: ele, que opera milagres, que faz grandes coisas, o Senhor de todos, o Criador do mundo inteiro, o onipotente, o todo-misericordioso, o único Deus. A ele cantemos o cântico novo (cf. Sl 96.1), acrescentando em pensamento: ‘Ao único que opera grandes maravilhas, porque a sua misericórdia dura para sempre’ (Sl 136.4); ‘Àquele que feriu grandes reis e matou reis famosos, porque a sua misericórdia dura para sempre’ (Sl 136.17-18); ‘Porque o Senhor se lembrou de nós em nosso abatimento e nos libertou dos nossos adversários’ (Sl 136.23-24).

10. E nunca cessemos de clamar com estas palavras ao Pai do universo. E honremos sempre com a nossa boca aquele que é a segunda causa dos nossos benefícios, o instrutor no conhecimento divino, o mestre da verdadeira religião, o destruidor dos ímpios, o matador de tiranos, o reformador da vida, Jesus, o Salvador de nós, que estávamos em desespero.

11. Pois somente ele, como o único Filho de toda bondade de um Pai de toda bondade, segundo o propósito da benevolência do seu Pai, revestiu-se de bom grado da natureza de nós, que jazíamos prostrados na corrupção. E, como um médico excelente que, para salvar os doentes, examina os seus sofrimentos, toca as suas chagas imundas e colhe dor para si das misérias alheias, assim também a nós, que não só estávamos doentes e afligidos por úlceras terríveis e feridas já gangrenadas, mas até jazíamos entre os mortos, ele nos salvou para si das próprias mandíbulas da morte. Pois nenhum outro dos que estão no céu tinha poder tal que pudesse, sem dano, servir à salvação de tantos.

12. Mas somente ele, tendo alcançado a nossa profunda corrupção, somente ele, tendo tomado sobre si os nossos trabalhos, somente ele, tendo sofrido os castigos devidos pelas nossas impiedades, recuperou-nos quando não estávamos apenas meio mortos, mas já em túmulos e sepulcros, inteiramente imundos e repugnantes. E nos salva, tanto outrora como agora, pelo seu zelo benfazejo, além da expectativa de qualquer um, até de nós mesmos, e reparte generosamente os benefícios do Pai, ele, o doador da vida e da luz, nosso grande Médico, Rei e Senhor, o Cristo de Deus.

13. Pois, quando todo o gênero humano jazia sepultado numa noite sombria e em abismos de trevas pelas artes enganosas de demônios culpados e pelo poder de espíritos que odeiam a Deus, ele, com a sua simples aparição, desatou de uma vez por todas, com os raios da sua luz, os laços fortemente atados das nossas impiedades, como se derrete a cera.

14. Mas a inveja maligna e o demônio amante do mal quase rebentaram de ira diante de tamanha graça e bondade, e voltaram contra todos nós as suas forças mortíferas. A princípio, como um cão enraivecido que range os dentes contra as pedras que lhe atiram e descarrega nos projéteis inanimados a fúria que sente contra os agressores, ele dirigiu a sua loucura feroz contra as pedras dos santuários e contra o material sem vida das casas, e assolou as igrejas, ao menos segundo pensava. Depois emitiu terríveis silvos e sons de serpente, ora pelas ameaças de tiranos ímpios, ora pelos éditos blasfemos de governantes profanos; vomitava morte, além disso, e infectava com os seus venenos nocivos e destruidores das almas as almas que capturava, quase as matando com os seus sacrifícios mortíferos a ídolos mortos, e fazia que toda fera em forma de homem e toda espécie de selvagem nos atacasse. Então, de fato, o ‘Anjo do grande Conselho’ (cf. Is 9.6), o grande Capitão de Deus, depois que os mais valentes soldados do seu reino deram prova suficiente do seu treino pela paciência e pela perseverança em tudo, apareceu de repente outra vez e apagou e aniquilou os seus inimigos e adversários, de modo que parecia que nunca tinham tido sequer um nome.

15. Mas os seus amigos e parentes ele elevou à mais alta glória, na presença não só de todos os homens, mas também dos poderes celestiais, do sol, da lua e das estrelas, e de todo o céu e a terra. De modo que agora, como nunca antes aconteceu, os soberanos supremos, conscientes da honra que dele receberam, cospem no rosto dos ídolos mortos, pisam os ritos profanos dos demônios, zombam do antigo engano herdado de seus pais e reconhecem um só Deus, o benfeitor comum de todos, inclusive deles mesmos.

16. E confessam Cristo, o Filho de Deus, Rei universal de todos, e o proclamam Salvador em monumentos, registrando de modo imperecível, em letras imperiais, no meio da cidade que governa a terra, os seus feitos justos e as suas vitórias sobre os ímpios. Assim, Jesus Cristo, nosso Salvador, é o único, desde toda a eternidade, que foi reconhecido, até pelos mais altos da terra, não como um rei comum entre os homens, mas como verdadeiro Filho do Deus universal, e que foi adorado como verdadeiro Deus, e com razão.

17. Pois que rei, entre todos os que já viveram, alcançou tal virtude que enchesse com o seu próprio nome os ouvidos e as línguas de todos os homens sobre a terra? Que rei, depois de ordenar leis tão piedosas e sábias, as estendeu de um extremo ao outro da terra, de modo que são lidas continuamente aos ouvidos de todos os homens?

18. Quem aboliu os costumes bárbaros e selvagens de nações incultas pelas suas leis brandas e humaníssimas? Quem, atacado por todos durante séculos inteiros, mostrou virtude tão sobre-humana que floresce a cada dia e permanece jovem por toda a sua vida?

19. Quem fundou uma nação da qual antigamente nem se ouvia falar, mas que agora não está escondida em algum canto da terra, e sim espalhada por toda parte debaixo do sol? Quem fortaleceu de tal modo os seus soldados com as armas da piedade que as suas almas, mais firmes que o diamante, brilham esplendidamente nas lutas contra os seus adversários?

20. Que rei prevalece a tal ponto que, mesmo depois da morte, conduz os seus soldados, ergue troféus sobre os seus inimigos e enche todo lugar, campo e cidade, grego e bárbaro, com as suas moradas reais, os templos divinos com as suas oferendas consagradas, como este mesmo templo com os seus soberbos adornos e ofertas votivas, que são em si mesmos tão verdadeiramente grandes e majestosos, dignos de assombro e admiração, e sinais claros da soberania do nosso Salvador? Pois agora também ‘ele falou, e tudo se fez; ele ordenou, e tudo passou a existir’ (Sl 33.9). Pois o que poderia resistir ao aceno do Rei e Governador universal, o próprio Verbo de Deus?

21. “Seria preciso um discurso especial para examinar e explicar com exatidão tudo isso; e também para descrever quão grande é a estima que tem pelo zelo dos trabalhadores aquele que é celebrado como divino, que contempla o templo vivo que todos nós constituímos e examina a casa feita de pedras vivas e móveis, bem e firmemente edificada sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo o próprio Jesus Cristo a pedra angular. Ele foi rejeitado não só pelos construtores daquele edifício antigo que já não está de pé, mas também pelos construtores (maus arquitetos de más obras) da estrutura que é formada pela multidão dos homens e ainda permanece. Mas o Pai o aprovou, tanto então como agora, e o fez cabeça de esquina desta nossa igreja comum.

22. Quem, ao contemplar este templo vivo do Deus vivo, formado de nós mesmos, este santuário máximo e verdadeiramente divino, digo, cujos recintos mais íntimos são invisíveis à multidão e são verdadeiramente santos, um santo dos santos, ousaria descrevê-lo? Quem é capaz sequer de olhar para dentro do recinto sagrado, a não ser o grande Sumo Sacerdote de todos, o único a quem é permitido sondar os mistérios de toda alma racional?

23. Mas talvez seja concedido a outro, a um só, ser o segundo depois dele nesta mesma obra, isto é, ao comandante deste exército, a quem o próprio primeiro e grande Sumo Sacerdote honrou com o segundo lugar neste santuário, o pastor do rebanho divino de vocês, que obteve o povo de vocês pela sorte e pelo juízo do Pai, como se o tivesse nomeado seu próprio servo e intérprete, um novo Arão ou Melquisedeque, feito semelhante ao Filho de Deus, que permanece e é continuamente preservado por ele, segundo as orações unânimes de todos vocês.

24. A ele somente, portanto, seja concedido, se não em primeiro lugar, ao menos em segundo depois do primeiro e maior Sumo Sacerdote, observar e supervisionar o estado mais íntimo das almas de vocês. A ele, que pela experiência e pelo longo tempo provou com exatidão cada um, e que pelo seu zelo e cuidado dispôs a todos vocês numa conduta e numa doutrina piedosas, e que é mais capaz do que qualquer outro de dar conta, à altura dos fatos, das coisas que ele mesmo realizou com o auxílio divino.

25. Do nosso primeiro e grande Sumo Sacerdote se diz: ‘Tudo o que vê o Pai fazer, isso também o Filho faz igualmente’ (Jo 5.19). Assim também este, olhando para ele como para o primeiro mestre, com olhos puros da mente, e usando como arquétipos todas as coisas que o vê fazer, produz imagens delas, tornando-as, tanto quanto possível, à mesma semelhança. Em nada é inferior àquele Bezalel a quem o próprio Deus ‘encheu do espírito de sabedoria e entendimento’ (Êx 35.31) e de outros conhecimentos técnicos e científicos, e chamou para ser o construtor do templo feito segundo modelos celestiais dados em símbolos.

26. Assim, também este, trazendo na própria alma a imagem do Cristo inteiro, o Verbo, a Sabedoria, a Luz, formou este magnífico templo do Deus altíssimo, correspondente ao modelo do maior, como o visível ao invisível. Não se pode dizer com que grandeza de alma, com que riqueza e liberalidade de espírito, e com que emulação da parte de todos vocês, mostrada na magnanimidade dos contribuintes, que se esforçaram com ambição para não ficar de modo algum atrás dele na execução do mesmo propósito. E este lugar (pois isto merece ser mencionado antes de tudo), que fora coberto de toda espécie de entulho pelos artifícios dos nossos inimigos, ele não o desprezou, nem cedeu à maldade dos que haviam produzido aquele estado de coisas, embora pudesse ter escolhido algum outro lugar, pois havia na cidade muitos outros terrenos disponíveis, onde teria menos trabalho e estaria livre de incômodos.

27. Mas, tendo primeiro despertado a si mesmo para a obra, e depois fortalecido com zelo todo o povo e formado de todos um só grande corpo, travou o primeiro combate. Pois julgou que esta igreja, que fora especialmente sitiada pelo inimigo, que fora a primeira a sofrer e suportara as mesmas perseguições conosco e por nós, como uma mãe privada de seus filhos, devia alegrar-se conosco no favor insigne do Deus todo-misericordioso.

28. Pois, quando o grande Pastor afugentou os animais selvagens, os lobos e toda fera cruel e selvagem e, como dizem os oráculos divinos, ‘quebrou as mandíbulas dos leões’ (Sl 58.6), ele achou por bem reunir de novo os filhos dela no mesmo lugar e, da maneira mais justa, levantou o redil do seu rebanho, ‘para envergonhar o inimigo e o vingador’ (Sl 8.2) e refutar a ousadia ímpia dos inimigos de Deus.

29. E agora eles já não existem, os que odeiam a Deus, pois nunca existiram de fato. Depois de perturbarem e serem perturbados por pouco tempo, sofreram o castigo merecido e arrastaram a si mesmos, seus amigos e seus parentes à destruição total, de modo que as declarações inscritas outrora nos registros sagrados foram comprovadas pelos fatos. Nessas declarações, a palavra divina diz verdadeiramente a respeito deles, entre outras coisas, o seguinte:

30. ‘Os ímpios desembainharam a espada e armaram o arco para matar os retos de coração; que a espada deles lhes entre no próprio coração, e os seus arcos sejam despedaçados’ (Sl 37.14-15). E ainda: ‘A memória deles pereceu com estrondo’ (Sl 9.6) e ‘o nome deles apagaste para todo o sempre’ (Sl 9.5); pois também eles, quando estavam em aflição, ‘gritaram por socorro, mas não houve quem os salvasse; clamaram ao Senhor, mas ele não respondeu’ (Sl 18.41). ‘Os pés deles foram atados, e caíram; nós, porém, nos levantamos e nos mantemos em pé’ (Sl 20.8). E o que foi anunciado de antemão nestas palavras, ‘Senhor, na tua cidade reduzirás a nada a imagem deles’ (Sl 73.20), mostrou-se verdadeiro aos olhos de todos.

31. Tendo, porém, guerreado contra Deus como os gigantes, assim morreram. Mas aquela que estava desolada e rejeitada pelos homens recebeu a consumação que vemos, em consequência da sua paciência para com Deus, de modo que dela se disse a profecia de Isaías:

32. ‘Alegra-te, deserto sedento; exulte o deserto e floresça como o lírio, e os lugares desertos florescerão e se alegrarão’ (Is 35.1). ‘Fortaleçam-se, mãos frouxas e joelhos vacilantes. Tenham ânimo em seus pensamentos, vocês, desalentados de coração; sejam fortes, não tenham medo. Eis que o nosso Deus retribui com juízo e retribuirá; ele virá e nos salvará’ (Is 35.3-4). ‘Pois’, diz ele, ‘no deserto brotaram águas, e um tanque na terra sedenta; a terra seca se tornará prados regados, e na terra sedenta haverá mananciais de água’ (Is 35.6-7).

33. Estas coisas, profetizadas há muito tempo, foram registradas nos livros sagrados; mas já não nos são transmitidas apenas de ouvir dizer, e sim pelos fatos. Este deserto, esta terra seca, esta viúva abandonada, ‘cujas portas cortaram com machados como madeira na floresta, que derrubaram com machado e martelo’ (Sl 74.5-6), cujos livros também destruíram, ‘queimando com fogo o santuário de Deus e profanando até o chão a morada do seu nome’ (Sl 74.7), ‘a quem todos os que passavam pelo caminho despojaram, e cujas cercas derrubaram, a quem o javali da selva devastou, e de que a fera selvagem se alimentou’ (Sl 80.12-13), agora, pelo poder maravilhoso de Cristo, quando ele o quis, tornou-se como um lírio. Pois também naquele tempo ela foi corrigida pelo seu aceno, como por um pai cuidadoso; ‘porque o Senhor corrige a quem ama e castiga todo filho a quem aceita’ (Hb 12.6).

34. Depois, tendo sido corrigida na medida que o caso exigia, ela recebe a ordem de alegrar-se outra vez; e floresce como um lírio e exala o seu perfume divino entre todos os homens. ‘Pois’, diz-se, ‘águas brotaram no deserto’ (Is 35.6), a fonte do banho salvador da regeneração divina. E agora ela, que pouco antes era um deserto, ‘tornou-se prados regados, e mananciais de água jorraram em terra sedenta’ (Is 35.7). As mãos que antes eram ‘frouxas’ tornaram-se verdadeiramente ‘fortes’; e estas obras são provas grandes e convincentes de mãos fortes. Também os joelhos, que antes eram ‘vacilantes e fracos’ (Is 35.3), recobrando o vigor de costume, avançam em linha reta no caminho do conhecimento divino e se apressam rumo ao rebanho afim do Pastor de toda bondade.

35. E, se há alguns cujas almas ficaram entorpecidas pelas ameaças dos tiranos, nem mesmo esses são deixados de lado pelo Verbo salvador como incuráveis; mas ele também os cura e os impele a receber a consolação divina, dizendo: ‘Consolem-se, vocês, desalentados de coração; fortaleçam-se, não tenham medo’ (Is 35.4).

36. Este nosso novo e excelente Zorobabel, tendo ouvido a palavra que anunciava de antemão que aquela que fora feita deserto por causa de Deus haveria de desfrutar destas coisas, depois do amargo cativeiro e da abominação da desolação, não desprezou o corpo morto. Mas, antes de tudo, com orações e súplicas tornou propício o Pai com o consentimento comum de todos vocês e, invocando o único que dá vida aos mortos como seu aliado e cooperador, levantou aquela que havia caído, depois de purificá-la e livrá-la dos seus males. E não a revestiu com a veste antiga, mas com uma tal como de novo aprendera dos oráculos sagrados, que dizem claramente: ‘E a glória posterior desta casa será maior do que a primeira’ (Ag 2.9).

37. Assim, abrangendo um espaço muito maior, fortificou o átrio exterior com um muro que cercava o conjunto, para servir de baluarte seguríssimo a todo o edifício.

38. E ergueu e estendeu um grande e alto vestíbulo voltado para os raios do sol nascente, e deu aos que estavam longe, fora do recinto sagrado, plena vista dos que estavam dentro, quase voltando para as entradas os olhos dos que eram estranhos à fé, de modo que ninguém pudesse passar sem ser tocado pela lembrança da desolação de antes e da incrível transformação presente. A sua esperança era que alguém assim tocado fosse atraído e levado a entrar pela própria visão.

39. Mas, quando alguém transpõe as portas, ele não lhe permite entrar logo no santuário com pés impuros e não lavados; deixando o maior espaço possível entre o templo e a entrada exterior, cercou-o e adornou-o com quatro pórticos transversais, formando um espaço quadrangular com colunas que se erguem de todos os lados, as quais ligou com divisórias de treliça de madeira, de altura conveniente. E deixou no meio um espaço aberto, de modo que se pudesse ver o céu e o ar livre, claro com os raios do sol.

40. Ali colocou símbolos das purificações sagradas, instalando fontes diante do templo, que fornecem água em abundância para que se purifiquem os que entram no santuário. Este é o primeiro lugar de parada dos que entram; e oferece ao mesmo tempo um cenário belo e esplêndido a todos e, aos que ainda precisam de instrução elementar, uma estação apropriada.

41. Mas, passando além deste espetáculo, fez entradas abertas para o templo, com muitos outros vestíbulos no interior, colocando três portas de um só lado, igualmente voltadas para os raios do sol. A do meio, adornada com placas de bronze, guarnecida de ferro e belamente lavrada em relevo, ele a fez muito mais alta e mais larga que as outras, como se fizesse destas as guardas daquela, como de uma rainha.

42. Do mesmo modo, dispondo o número de vestíbulos para as galerias de cada lado de todo o templo, fez acima deles várias aberturas para o edifício, a fim de admitir mais luz, adornando-as com finíssimos entalhes em madeira. Mas a casa real ele a guarneceu com materiais mais belos e esplêndidos, usando de liberalidade sem limites nos seus gastos.

43. Parece-me supérfluo descrever aqui em pormenor o comprimento e a largura do edifício, o seu esplendor e a sua majestade, que excedem toda descrição, e a aparência brilhante da obra, os seus altos pináculos que chegam aos céus e os preciosos cedros do Líbano acima deles, que o oráculo divino não deixou de mencionar, dizendo: ‘As árvores do Senhor se alegrarão, e os cedros do Líbano que ele plantou’ (Sl 104.16).

44. Por que preciso agora descrever a hábil disposição arquitetônica e a beleza insuperável de cada parte, quando o testemunho dos olhos torna supérflua a instrução pelos ouvidos? Pois, depois de completar assim o templo, ele o proveu de tronos elevados em honra dos que presidem e, além disso, de assentos dispostos em boa ordem por todo o edifício; e, por fim, colocou no meio o santo dos santos, o altar, e, para que fosse inacessível à multidão, cercou-o com uma treliça de madeira, trabalhada com precisão em entalhe artístico, que oferecia um espetáculo maravilhoso aos que a contemplavam.

45. Nem mesmo o pavimento foi descuidado por ele; pois também este ele adornou com belos mármores de toda variedade. Então, por fim, passou às partes de fora do templo, provendo êxedras e edifícios espaçosos de cada lado, ligados à basílica e comunicando com as entradas para o interior da estrutura. Estes foram erguidos pelo nosso pacificíssimo Salomão, construtor do templo de Deus, para os que ainda precisavam de purificação e aspersão pela água e pelo Espírito Santo, de modo que a profecia citada acima já não é apenas palavra, mas fato; pois agora também se cumpriu que, na verdade, ‘a glória posterior desta casa é maior do que a primeira’ (Ag 2.9).

46. Pois era necessário e conveniente que, assim como o seu pastor e Senhor provara uma vez a morte por ela e, depois do seu sofrimento, transformara aquele corpo vil que assumira por ela num corpo esplêndido e glorioso, conduzindo da corrupção à incorrupção a própria carne que fora libertada, também ela desfrutasse das economias do Salvador. Pois, tendo recebido dele a promessa de coisas muito maiores do que estas, ela deseja participar ininterruptamente, por toda a eternidade, com o coro dos anjos da luz, da glória muito maior da regeneração (cf. Mt 19.28), na ressurreição de um corpo incorruptível, no palácio de Deus além dos céus, com o próprio Cristo Jesus, o Benfeitor e Salvador universal.

47. Mas, por ora, aquela que antes estava viúva e desolada é revestida pela graça de Deus com estas flores e tornou-se verdadeiramente como um lírio, como diz a profecia (cf. Is 35.1); e, tendo recebido a veste nupcial e a coroa de beleza, é ensinada por Isaías a dançar e a apresentar as suas ofertas de ação de graças a Deus, o Rei, em palavras reverentes.

48. Ouçamos o que ela diz: ‘A minha alma se alegrará no Senhor; porque me vestiu com veste de salvação e com manto de alegria; enfeitou-me como a um noivo com uma grinalda e adornou-me como a uma noiva com joias; e, como a terra que produz os seus renovos, e como o jardim que faz brotar o que nele se semeia, assim o Senhor Deus fez brotar a justiça e o louvor diante de todas as nações’ (Is 61.10-11).

49. Com estas palavras ela exulta. E com palavras semelhantes lhe responde o noivo celestial, o próprio Verbo, Jesus Cristo. Ouçam o Senhor dizer: ‘Não temas por teres sido envergonhada, nem te confundas por teres sido repreendida; pois esquecerás a vergonha antiga e não te lembrarás mais do opróbrio da tua viuvez’ (Is 54.4). ‘Não como a mulher abandonada e abatida de espírito te chamou o Senhor, nem como a mulher odiada desde a mocidade, diz o teu Deus. Por um breve momento te abandonei, mas com grande misericórdia me compadecerei de ti; num pouco de ira escondi de ti o meu rosto, mas com misericórdia eterna me compadecerei de ti, diz o Senhor, que te redimiu’ (Is 54.6-8).

50. ‘Desperta, desperta, tu que bebeste da mão do Senhor o cálice do seu furor; pois bebeste o cálice da ruína, o vaso da minha ira, e o esgotaste. E, de todos os filhos que deste à luz, não houve quem te consolasse, nem houve quem te tomasse pela mão’ (Is 51.17-18). ‘Eis que tirei da tua mão o cálice da ruína, o vaso do meu furor, e não o beberás mais. E o porei nas mãos dos que te trataram injustamente e te humilharam’ (Is 51.22-23).

51. ‘Desperta, desperta, reveste-te da tua força, reveste-te da tua glória. Sacode o pó e levanta-te. Assenta-te, solta as ataduras do teu pescoço’ (Is 52.1-2). ‘Levanta os olhos ao redor e vê os teus filhos reunidos; eis que se reuniram e vieram a ti. Tão certo como eu vivo, diz o Senhor, de todos eles te vestirás como de um enfeite e deles te cingirás como dos enfeites de uma noiva. Pois os teus lugares desolados, arruinados e destruídos serão agora estreitos demais para os teus moradores, e os que te devoravam estarão longe de ti’ (Is 49.18-19).

52. ‘Pois os teus filhos que perdeste dirão aos teus ouvidos: O lugar é estreito demais para mim; dá-me lugar para que eu habite. Então dirás no teu coração: Quem me gerou estes? Eu estava sem filhos e viúva; e quem me criou estes? Fui deixada sozinha; e estes, onde estavam para mim?’ (Is 49.20-21).

53. “Estas são as coisas que Isaías predisse, e que foram registradas outrora a nosso respeito nos livros sagrados; e era necessário que algum dia aprendêssemos a sua veracidade pelo seu cumprimento.

54. Pois, quando o noivo, o Verbo, dirigiu tais palavras à sua própria noiva, a sagrada e santa Igreja, este paraninfo, quando ela estava desolada e jazia como um cadáver, sem esperança aos olhos dos homens, segundo as orações unânimes de todos vocês, como convinha, estendeu as mãos de vocês e a despertou e a levantou, por ordem de Deus, o Rei universal, e pela manifestação do poder de Jesus Cristo; e, depois de levantá-la, estabeleceu-a conforme aprendera da descrição dada nos oráculos sagrados.

55. Esta é, de fato, uma maravilha muito grande, que ultrapassa toda admiração, sobretudo para os que atentam apenas para a aparência exterior; mas mais maravilhosos que as maravilhas são os arquétipos, os seus protótipos mentais e os modelos divinos; refiro-me às reproduções do edifício inspirado e racional em nossas almas.

56. Este o próprio Filho divino criou à sua imagem, comunicando-lhe em toda parte e em todos os aspectos a semelhança de Deus: uma natureza incorruptível, incorpórea, racional, livre de toda matéria terrena, um ser dotado de inteligência própria. E, depois de chamá-la uma vez da não existência à existência, fez dela uma esposa santa, um templo todo sagrado para si e para o Pai. Isto também ele declara e confessa claramente nas seguintes palavras: ‘Habitarei neles e andarei neles; serei o seu Deus, e eles serão o meu povo’ (2Co 6.16). Tal é a alma perfeita e purificada, feita assim desde o princípio para trazer a imagem do Verbo celestial.

57. Mas, quando, pela inveja e pelo ciúme do demônio maligno, ela se tornou, por escolha própria e voluntária, sensual e amante do mal, a Divindade a deixou; e, como privada de protetor, tornou-se presa fácil e de pronto acesso aos que havia muito a invejavam. E, assaltada pelos aríetes e pelas máquinas dos seus inimigos invisíveis e adversários espirituais, sofreu uma queda terrível, de modo que nela não ficou pedra sobre pedra da virtude, mas jazia inteiramente morta no chão, despojada por completo das suas ideias naturais a respeito de Deus.

58. “Mas, enquanto ela, que fora feita à imagem de Deus, jazia assim prostrada, não foi aquele javali da selva que vemos que a despojou, mas um certo demônio destruidor e feras espirituais, que a enganaram com as suas paixões, como com os dardos inflamados da sua própria maldade, e queimaram com fogo o santuário verdadeiramente divino de Deus e profanaram até o chão o tabernáculo do seu nome. Depois, sepultando a infeliz sob montes de terra, destruíram toda esperança de libertação.

59. Mas aquele Verbo divinamente luminoso e salvador, seu protetor, depois que ela sofreu o castigo merecido pelos seus pecados, restaurou-a outra vez, assegurando o favor do Pai todo-misericordioso.

60. Tendo conquistado primeiro as almas dos mais altos governantes, purificou, por meio daqueles príncipes divinamente favorecidos, toda a terra de todos os destruidores ímpios e dos próprios tiranos terríveis e inimigos de Deus. Depois, trazendo à luz os que eram seus amigos, que desde muito antes lhe haviam sido consagrados para a vida, mas que, por assim dizer, no meio de uma tempestade de males, tinham ficado escondidos sob o seu abrigo, honrou-os dignamente com os grandes dons do Espírito. E outra vez, por meio deles, limpou e desobstruiu com pás e enxadas (as palavras admonitórias da doutrina) as almas que pouco antes estavam cobertas de imundície e sobrecarregadas de toda espécie de matéria e entulho de ordenanças ímpias.

61. E, depois de tornar limpo e desimpedido o terreno das mentes de todos vocês, ele por fim o confiou a este Governante sapientíssimo e amado de Deus, que, dotado de juízo e prudência, além de outros dons, e capaz de examinar e discernir com exatidão as mentes dos que foram confiados ao seu cuidado, desde o primeiro dia, por assim dizer, até o presente, não cessou de edificar.

62. Ora forneceu o ouro brilhante, ora a prata refinada e sem liga, e as pedras preciosas e caras em todos vocês, de modo que de novo se cumpre para vocês, nos fatos, uma profecia sagrada e mística, que diz: ‘Eis que farei da tua pedra um carbúnculo, e dos teus alicerces safira, e das tuas ameias jaspe, e das tuas portas cristais, e do teu muro pedras escolhidas; e todos os teus filhos serão ensinados por Deus, e os teus filhos gozarão de paz completa; e em justiça serás edificada’ (Is 54.11-14).

63. Edificando, pois, em justiça, ele dividiu todo o povo segundo as forças de cada um. Com alguns fortificou apenas o recinto exterior, murando-o com fé não fingida; tais eram a grande massa do povo, incapaz de suportar estrutura maior. A outros permitiu entrar no edifício, ordenando-lhes que ficassem à porta e servissem de guias para os que haviam de entrar; estes podem ser comparados, não sem propriedade, aos vestíbulos do templo. A outros sustentou com as primeiras colunas, colocadas do lado de fora ao redor do átrio quadrangular, iniciando-os nos primeiros elementos da letra dos quatro Evangelhos. Outros ainda ele juntou ao redor da basílica, de ambos os lados; estes são os catecúmenos, que ainda avançam e progridem e não estão muito separados da visão mais íntima das coisas divinas concedida aos fiéis.

64. Tomando dentre estes as almas puras, purificadas como ouro pelo lavar divino, ele então as sustenta com colunas muito melhores que as de fora, feitas dos ensinamentos interiores e místicos da Escritura, e as ilumina com janelas.

65. Adornando todo o templo com um grande vestíbulo da glória do único Rei universal e único Deus, e colocando de cada lado da autoridade do Pai Cristo e o Espírito Santo como luzes secundárias, ele exibe com abundância e glória, por todo o edifício, a clareza e o esplendor da verdade do restante, em todos os seus pormenores. E, tendo escolhido de toda parte as pedras vivas, móveis e bem preparadas das almas, constrói com todas elas a grande casa real, esplêndida e cheia de luz por dentro e por fora; pois não só a alma e o entendimento, mas também o corpo deles é tornado glorioso pelo ornamento florescente da pureza e da modéstia.

66. E neste templo há também tronos e grande número de assentos e bancos, em todas aquelas almas nas quais pousam os dons do Espírito Santo, tais como os que outrora foram vistos pelos santos apóstolos e pelos que estavam com eles, quando ‘apareceram, distribuídas entre eles, línguas, como de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles’ (At 2.3).

67. Mas no chefe de todos é razoável supor que o próprio Cristo habita na sua plenitude; e, nos que ocupam a segunda posição depois dele, na proporção em que cada um é capaz de conter o poder de Cristo e do Espírito Santo. E as almas de alguns, isto é, dos que são confiados a cada um deles para instrução e cuidado, podem ser assentos para os anjos.

68. Mas o grande, augusto e único altar, que outra coisa poderia ser senão o puro santo dos santos da alma do sacerdote comum de todos? De pé à sua direita, o próprio Jesus, o grande Sumo Sacerdote do universo, o Unigênito de Deus, recebe com olhar luminoso e mão estendida o doce incenso de todos e os sacrifícios incruentos e imateriais oferecidos nas suas orações, e os leva ao Pai celestial e Deus do universo. E ele mesmo é o primeiro a adorá-lo, e só ele tributa ao Pai a reverência que lhe é devida, rogando-lhe também que continue sempre bondoso e propício para com todos nós.

69. “Tal é o grande templo que o grande Criador do universo, o Verbo, edificou por todo o mundo, fazendo-o uma imagem intelectual, sobre a terra, das coisas que estão acima da abóbada do céu, para que em toda a criação, inclusive pelos seres racionais da terra, seu Pai fosse honrado e adorado.

70. Mas a região acima dos céus, com os modelos das coisas terrenas que lá estão, e a chamada Jerusalém do alto (cf. Gl 4.26), e o celestial monte Sião, e a cidade supramundana do Deus vivo, na qual inumeráveis coros de anjos e a Igreja dos primogênitos, cujos nomes estão escritos no céu (cf. Hb 12.22-23), louvam o seu Criador e o Soberano supremo do universo com hinos de louvor indizíveis e incompreensíveis para nós, quem, sendo mortal, é capaz de celebrá-la dignamente? Pois ‘nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam’ (1Co 2.9).

71. Visto que nós, homens, crianças e mulheres, pequenos e grandes, já participamos em parte destas coisas, não cessemos, todos juntos, com um só espírito e uma só alma, de confessar e louvar o autor de tão grandes benefícios para conosco, ‘que perdoa todas as nossas iniquidades, que cura todas as nossas enfermidades, que redime da destruição a nossa vida, que nos coroa de misericórdia e compaixão, que sacia de bens os nossos desejos’ (Sl 103.3-5). Pois ‘não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos retribui conforme as nossas iniquidades’ (Sl 103.10); pois ‘quanto o Oriente está longe do Ocidente, assim ele afastou de nós as nossas iniquidades. Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece dos que o temem’ (Sl 103.12-13).

72. Reavivando estes pensamentos na nossa memória, agora e por todo o tempo vindouro, e contemplando no nosso espírito noite e dia, a cada hora e, por assim dizer, a cada respiração, o Autor e Governante da presente festa e deste dia luminoso e esplendidíssimo, amemo-lo e adoremo-lo com todas as forças da alma. E agora, levantando-nos, roguemos-lhe em alta voz que nos abrigue e nos guarde até o fim no seu redil, concedendo-nos para sempre a sua paz inquebrantável e inabalável, em Cristo Jesus, nosso Salvador; por meio de quem seja a ele a glória para todo o sempre. Amém.”

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Arthur Cushman McGiffert (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 1, Nova York, 1890), conferida com as imagens das páginas; domínio público. O original é grego: esta é, portanto, tradução de tradução. As notas de McGiffert, de comentário erudito, foram omitidas; os números de seção são os da edição dele. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Eusébio cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.