Walker, História da Igreja Cristã · Período III
V. As missões arianas e as invasões germânicas; VI. O crescimento do papado; VII. O monasticismo; VIII. Ambrósio e Crisóstomo.
Ao longo de toda a história do império, a defesa das fronteiras do Reno e do Danúbio contra os povos teutônicos do outro lado fora um importante problema militar. Sob Marco Aurélio, os romanos haviam travado uma guerra desesperada, mas por fim vitoriosa, no alto Danúbio (167-180). Por trás da cortina da fronteira romana houve considerável deslocamento de tribos e formação de confederações; mas no começo do século III o grupo conhecido como alamanos já se formara do outro lado do alto Reno e, meio século depois, o dos francos, na margem direita do baixo curso desse rio. Entre esses dois acontecimentos, por volta de 230-240, os godos completaram seu estabelecimento no que é hoje o sul da Rússia. Em 250 e 251 o domínio romano nos Bálcãs foi seriamente ameaçado por uma invasão gótica, na qual o imperador perseguidor Décio perdeu a vida. Os godos se estabeleceram na região ao norte do baixo Danúbio. Invadiram o império, e o perigo só foi contido com as vitórias de Cláudio (269), das quais ele tirou o título de “Gótico”. Os imperadores mais fortes, Aureliano, Diocleciano e Constantino, guardaram com eficácia as fronteiras do Reno e do Danúbio; mas o perigo de invasão estava sempre presente. No século IV, os godos ao norte do Danúbio, que de todas as tribos germânicas eram os que mais tinham contato com a civilização romana, eram conhecidos como visigodos, ao passo que seus parentes do sul da Rússia se chamavam ostrogodos. O sentido exato desses nomes é incerto, embora geralmente se entenda que significam godos do Ocidente e godos do Oriente.
Houve, de fato, muito intercâmbio entre romanos e germanos, sobretudo a partir da época de Aureliano. Germanos serviam, em número crescente, nos exércitos romanos. Mercadores romanos penetravam muito além das fronteiras do império. Germanos se estabeleciam nas províncias fronteiriças e adotavam os costumes romanos. Prisioneiros de guerra trazidos da Capadócia, provavelmente na incursão de 264, haviam introduzido os germes do cristianismo entre os visigodos antes do fim do século III, e até uma organização eclesiástica rudimentar em certos lugares. Os visigodos, como nação, não se haviam convertido. Para essa obra Úlfilas haveria de contribuir. Nascido por volta de 310, de pais descendentes, ao menos em parte, dos cativos que acabamos de mencionar, era de origem cristã e tornou-se “leitor” nos cultos do pequeno círculo cristão gótico. Em 341 acompanhou uma embaixada gótica e foi ordenado bispo pelo ariano Eusébio de Nicomédia, então bispo de Constantinopla; não se sabe se nesta cidade ou em Antioquia, onde o sínodo (ver Período III, seção III) estava então reunido. Sua teologia, que parece ter sido muito simples, foi dali em diante antinicena, e depois da formação do partido homoiousiano ele haveria de ser contado entre os seus adeptos. Nos sete anos seguintes trabalhou em sua terra natal, até que a perseguição obrigou a ele e a seus irmãos na fé a buscar refúgio em solo romano, onde viveu e trabalhou por muitos anos perto da moderna Plevna, na Bulgária. Sua grande obra foi a tradução das Escrituras, ou pelo menos do Novo Testamento, para a língua gótica. Morreu em 383, numa visita a Constantinopla. Infelizmente, o completo esquecimento em que caíram esses trabalhos arianos, por causa do seu caráter heterodoxo aos olhos da época seguinte, não permite saber quem foram os companheiros de Úlfilas, nem julgar até que ponto o mérito de levar os visigodos ao cristianismo pertenceu a ele ou ao chefe gótico Fritigerno, por volta de 370.
Mas, fosse como fosse, os visigodos, apesar da perseguição pagã, aceitaram rapidamente o cristianismo ariano. Não só eles, mas também seus vizinhos ostrogodos, os vândalos em parte e tribos germânicas mais distantes, como os burgúndios e os lombardos, haviam abraçado a fé ariana antes de invadir o império. Na verdade, o cristianismo penetrara tão amplamente que não parece improvável que, se as invasões tivessem sido adiadas por umas duas gerações, todos teriam entrado no império como cristãos. Tal como as coisas se deram, só as tribos mais afastadas das influências que partiam dos visigodos, as do noroeste da Germânia, das quais as principais eram os francos e os saxões, permaneceram esmagadoramente pagãs na época das invasões. Uma extensão tão rápida do cristianismo mostra que o domínio do paganismo nativo devia ser fraco e que muitos, cujos nomes pereceram por completo, participaram da obra de conversão. Foi da maior importância que, quando as muralhas do império foram rompidas, os germanos viessem, em sua maioria, não como inimigos do cristianismo. Se o império do Ocidente tivesse caído, como bem poderia ter acontecido, um século antes, a história do cristianismo poderia ter sido muitíssimo diferente.
Pressionados por uma invasão dos hunos, vindos do oeste da Ásia Central, os visigodos buscaram abrigo do outro lado da fronteira do baixo Danúbio em 376. Irritados com os maus-tratos dos funcionários romanos, atravessaram os Bálcãs e aniquilaram o exército romano perto de Adrianópolis, em 378, numa batalha em que o imperador Valente perdeu a vida. A mão forte de Teodósio (379-395) conteve novos ataques; mas, com a sua morte, o império, dividido entre seu filho de dezoito anos, Arcádio, no Oriente, e seu filho de onze anos, Honório, no Ocidente, já não foi capaz de resistir à investida. Sob Alarico, os visigodos saquearam quase até as muralhas de Constantinopla e dali passaram à Grécia, penetrando até Esparta. Em 401 os visigodos já pressionavam o norte da Itália, mas nos anos seguintes foram contidos pelo hábil general vândalo de Teodósio, Estilicão, que este deixara como tutor do jovem Honório. O assassinato de Estilicão, em 408, abriu o caminho para Roma, e Alarico marchou prontamente para lá. Só em 410, porém, o chefe visigodo de fato tomou a cidade. A impressão popular desse acontecimento foi profunda. A antiga senhora do mundo caíra diante dos bárbaros. Alarico, desejoso de estabelecer um reino para si e de garantir a África romana, o celeiro da Itália, marchou logo para o sul da Itália, e ali morreu antes do fim de 410. Sob Ataulfo, a hoste visigoda marchou para o norte, invadindo o sul da Gália em 412. Ali os godos se estabeleceram por volta de 419, desenvolvendo por fim um reino que abrangia metade da França moderna, ao qual acrescentaram por conquista, no decorrer do século, a maior parte da Espanha. Os habitantes romanos não foram expulsos, mas ficaram sujeitos aos seus conquistadores germânicos, que se apropriaram de grande parte da terra e puseram os antigos ocupantes numa posição nitidamente inferior. O comércio foi entravado, a vida das cidades em grande parte se desfez, e a civilização ficou mutilada.
Enquanto esses acontecimentos se desenrolavam, as tribos do outro lado do Reno tinham visto a sua oportunidade. Os vândalos arianos e os alanos e suevos pagãos invadiram a Gália no fim de 406, abrindo caminho por fim até a Espanha, onde chegaram antes dos visigodos. Os francos haviam avançado sobre o norte da Gália, e os burgúndios conquistaram a região em torno de Estrasburgo e, dali, gradualmente, o território do leste da Gália que ainda leva o seu nome. A Britânia, envolvida nesse colapso da autoridade romana, foi cada vez mais invadida pelos saxões, anglos e jutos, que vinham atacando suas costas desde meados do século IV. Ali a civilização romana tinha um domínio mais fraco do que no continente, e, à medida que a conquista germânica avançava lentamente, empurrou o elemento celta em grande parte para o oeste e fez de boa parte da Britânia uma terra pagã. Os vândalos da Espanha, que haviam entrado na África por volta de 425, invadiram-na com todas as suas forças em 429, sob Genserico. Logo estabeleceram ali o mais poderoso dos primeiros reinos germânicos, cujos navios piratas em pouco tempo dominaram o Mediterrâneo ocidental. Uma incursão vândala saqueou Roma em 455. Uma terrível invasão da Gália em 451, pelos hunos sob Átila, foi detida numa batalha perto de Troyes pelas forças combinadas dos romanos e dos visigodos. No ano seguinte, Átila levou suas devastações à Itália, e por pouco não tomou Roma, impedido por causas hoje obscuras, entre as quais se acreditou que os esforços do bispo da cidade, Leão I, tivessem sido decisivos.
Embora o governo dos imperadores se mantivesse nominalmente no Ocidente, e até os conquistadores germânicos que fundaram reinos na Gália, na Espanha e na África se declarassem seus dependentes, os imperadores se tornaram instrumentos dos chefes do exército. Com a morte de Honório, em 423, o império passou a Valentiniano III. Seu longo reinado, até 455, foi marcado pelas desavenças entre Bonifácio, conde da África, e Aécio, conde da Itália, que permitiram a conquista vândala do norte da África. Aécio obteve, de fato, praticamente a última vitória do império quando, com os visigodos, derrotou Átila em 451. Entre 455 e 476 nada menos que nove imperadores foram levantados e depostos no Ocidente. O verdadeiro governante da Itália era o chefe do exército. De 456 a 472 esse posto foi ocupado por Ricimero, de ascendência sueva e visigoda. Depois da sua morte, o comando foi assumido por um certo Orestes, que conferiu o título imperial a seu filho Rômulo, apelidado Augústulo. O exército da Itália era recrutado principalmente entre tribos germânicas menores, entre elas os rúgios e os hérulos. Exigiu então um terço da terra. Orestes recusou, e o exército se amotinou em 476 sob o general germânico Odoacro, a quem fez rei. Essa data costuma ser tomada como a do fim do Império Romano. Na realidade, não teve significado especial. Rômulo Augústulo foi deposto. Não houve outro imperador no Ocidente até Carlos Magno. Mas Odoacro e seus contemporâneos não imaginavam que o Império Romano tivesse chegado ao fim. Ele governava a Itália como os visigodos governavam o sul da França e a Espanha, como súdito nominal do imperador romano que ocupava o trono em Constantinopla.
A soberania de Odoacro na Itália terminou em 493, na luta contra novos invasores germânicos da Itália, os ostrogodos, liderados por Teodorico. Sob esse conquistador bem-sucedido tentou-se uma fusão realmente notável de instituições romanas e germânicas. Sua capital era Ravena, de onde governou até a morte, em 526. O reino ostrogodo na Itália foi extinto pelas longas guerras do imperador Justiniano, travadas de 535 a 555 por Belisário e Narses, que devolveram ao império uma Itália devastada. Ao mesmo tempo (534), a autoridade imperial foi restabelecida no norte da África e o reino vândalo chegou ao fim. A Itália não ficou muito tempo em paz. Entre 568 e 572, uma nova invasão germânica, a dos lombardos, fundou um reino que haveria de durar dois séculos. Senhores do norte da Itália, região a que deram o seu nome, os lombardos, porém, não conquistaram Roma nem a parte meridional da península, nem tomaram Ravena, sede do exarca imperial, até o século VIII. Roma permaneceu, portanto, ligada ao império que tinha a sua sede em Constantinopla, mas tão distante dela e tão próxima da fronteira lombarda que um controle efetivo a partir de Constantinopla era impossível, condição extremamente favorável ao crescimento do poder político do seu bispo.
Ao mesmo tempo que os primeiros dos acontecimentos que acabamos de descrever, transformações da maior importância estavam em curso na Gália. Os francos, já mencionados, vinham havia muito avançando sobre a parte setentrional das antigas províncias. Estavam divididos em várias tribos, e o rei dos francos sálios, a partir de cerca de 481, era Clóvis. Chefe de grande energia, logo estendeu a sua soberania até o Loire. Ele e seu povo ainda eram pagãos, embora tratasse a igreja com respeito. Em 493 casou-se com Clotilde, burgúndia, mas, ao contrário da maioria de seus compatriotas, “católica” e não ariana. Depois de uma grande vitória sobre os alamanos, em 496, declarou-se pelo cristianismo e foi batizado com três mil de seus seguidores em Reims, no Natal daquele ano. A sua foi, portanto, a primeira tribo germânica a converter-se à fé ortodoxa. Visigodos, ostrogodos, vândalos, burgúndios e lombardos eram arianos. Essa concordância de crença valeu a Clóvis não só a boa vontade da antiga população romana e o apoio dos bispos, a quem ele, por sua vez, favoreceu, mas, somada às suas próprias capacidades, permitiu-lhe, antes da sua morte, em 511, tomar dos visigodos a maior parte de suas possessões ao norte dos Pireneus e tornar-se senhor de domínios tão extensos que bem pode ser chamado de fundador da França, estendendo-se os seus territórios até além do Reno. O fato de os francos serem “católicos” haveria de trazer, com o tempo, embora não de imediato, relações entre eles e o papado de consequências imensas.
A conversão dos francos teve também muita influência sobre os outros invasores germânicos, embora o exemplo da população nativa entre a qual se haviam estabelecido agisse com força ainda maior. Os burgúndios abandonaram o arianismo em 517 e em 532 passaram a fazer parte do reino franco. As conquistas imperiais de Justiniano puseram fim aos reinos arianos dos vândalos e dos ostrogodos. A rivalidade dos credos terminou na Espanha com a renúncia ao arianismo pelo rei visigodo Recaredo, em 587, confirmada no Terceiro Concílio de Toledo, em 589. Por volta de 590 começou a conversão gradual dos lombardos ao catolicismo, processo que só se completou por volta de 660. Assim, todo o arianismo acabou por desaparecer.
À distinção que já cabia à Igreja de Roma e ao seu bispo, o período das invasões trouxe nova eminência. Tida como fundada por Pedro, situada na antiga capital, guardiã da tradição apostólica, a maior e mais generosa igreja do Ocidente, ela se mantivera ortodoxa na controvérsia ariana e, na ruína das invasões germânicas, parecia a grande instituição sobrevivente do mundo antigo que os invasores não conseguiam derrubar. Embora a maioria dos bispos de Roma desse período fossem homens de capacidade mediana, vários foram os líderes mais fortes do Ocidente, e a eles se deveu um grande avanço na autoridade do bispo romano, o desenvolvimento de um verdadeiro papado. Um desses líderes vigorosos foi Inocêncio I (402-417). Ele reivindicou para a Igreja de Roma não apenas a custódia da tradição apostólica e a fundação de todo o cristianismo ocidental, mas atribuiu as decisões de Sárdica (ver Período III, seção III) ao Concílio de Niceia e nelas fundamentou uma jurisdição universal do bispo romano.1 Leão I (440-461) prestou grandes serviços a Roma, no juízo da época, durante as invasões dos hunos e dos vândalos, e influiu em grande parte no resultado do Concílio de Calcedônia (ver Período III, seção IX). Ele enfatizou a primazia de Pedro entre os apóstolos, tanto na fé como no governo, e ensinou que aquilo que Pedro possuía passara aos sucessores de Pedro.2 Essas pretensões Leão em grande parte fez valer. Pôs fim à tentativa de criar uma sé gaulesa independente em Arles; exerceu autoridade na Espanha e no norte da África. Em 445 obteve do imperador do Ocidente, Valentiniano III, um edito que ordenava a todos obedecer ao bispo romano, como detentor da “primazia de São Pedro”.3 Por outro lado, o Concílio de Calcedônia, em 451, por seu vigésimo oitavo cânon, pôs Constantinopla em pé de igualdade prática com Roma.4 Contra essa medida Leão protestou imediatamente; mas ela prenunciava a separação final, muito mais política que religiosa, entre as igrejas do Oriente e do Ocidente.
Na luta com o monofisismo (ver Período III, seção X), os bispos de Roma resistiram aos esforços do imperador Zenão (474-491) e do patriarca Acácio de Constantinopla para modificar os resultados de Calcedônia pelo chamado Henótico,5 com o resultado de que o papa Félix III (483-492) excomungou Acácio, e começou entre o Oriente e o Ocidente um cisma que terminou em 519 com um triunfo papal. Durante essa controvérsia, o papa Gelásio (492-496) escreveu ao sucessor de Zenão, o imperador do Oriente Anastácio, uma carta em que declarava: “há […] dois pelos quais principalmente este mundo é governado: a sagrada autoridade dos pontífices e o poder real. Destes, a importância dos sacerdotes é tanto maior quanto até pelos reis dos homens eles terão de prestar contas no juízo divino”.6 Em 502 o bispo Enódio de Pavia sustentou que o papa só pode ser julgado por Deus.7 As pretensões posteriores do papado medieval estavam, portanto, esboçadas no começo do século VI. As circunstâncias impediram que elas se desenvolvessem plenamente na prática no período imediatamente seguinte. O surgimento do reino ostrogodo na Itália e a reconquista da Itália pelo império do Oriente diminuíram a independência do papado. Fora da Itália, o crescimento de uma nova potência católica, os francos, e a conversão gradual dos governantes germânicos arianos produziram uma harmonia entre os novos soberanos e os seus bispos que deu a estes ampla independência em relação às pretensões romanas, embora acompanhada de grande dependência dos soberanos germânicos. A plena realização do ideal papal, assim estabelecido tão cedo, haveria de ser tarefa de séculos e de passar por muitas vicissitudes.
Já se mostrou que ideais ascéticos e um duplo padrão de moralidade cristã vinham crescendo havia muito na igreja antes da época de Constantino (ver Período II, seção XVI). Seu progresso foi favorecido pelas tendências ascéticas inerentes às melhores filosofias do mundo antigo. Orígenes, por exemplo, que estava impregnado do espírito helenístico, distinguiu-se pelo seu ascetismo. Muito antes do fim do século III, as virgens consagradas eram um elemento destacado na igreja, e homens e mulheres, sem deixar as suas casas, praticavam o ascetismo. Tampouco o ascetismo, ou mesmo o monasticismo, é peculiar ao cristianismo. Seus representantes se encontram nas religiões da Índia e entre judeus, gregos e egípcios.
Certas causas levaram ao seu maior desenvolvimento na mesma época do reconhecimento do cristianismo pelo Estado. A baixa condição da igreja, acentuada pela afluência de grandes multidões no período de paz de 260 a 303 e depois da conversão de Constantino, levou os cristãos sérios a dar maior valor à vida ascética. O fim dos martírios deixou o ascetismo como a mais alta realização cristã ao alcance. O mundo estava cheio de espetáculos que ofendiam a moral cristã, dos quais parecia bom fugir. A mentalidade da Antiguidade considerava a prática da contemplação mais estimável do que as virtudes ativas. Acima de tudo, o extremo formalismo e a rigidez do culto público, tal como se desenvolvera no fim do século III, despertaram o desejo de uma aproximação de Deus mais livre e mais individual. O monasticismo logo haveria de tornar-se bastante formal; mas em seu início foi uma ruptura com as limitações do culto e do serviço cristãos convencionais. Foi em sua origem um movimento de leigos.
Antão, o fundador do monasticismo cristão, nasceu em Coma, no Egito central, por volta de 250, de estirpe nativa (copta). Impressionado com as palavras de Cristo ao jovem rico (Mt 19.21), desfez-se de seus bens e, por volta de 270, abraçou a vida ascética em sua aldeia natal. Uns quinze anos depois retirou-se para a solidão, tornando-se eremita. Ali, segundo se diz, viveu até 356 (?). Julgava-se atormentado por demônios em todas as formas imagináveis. Jejuava. Praticava a mais rigorosa abnegação. Orava constantemente. Queria aproximar-se de Deus vencendo a carne. Antão logo teve muitos imitadores, alguns dos quais viviam absolutamente sós, outros em grupos, dos quais os maiores ficavam nos desertos da Nítria e de Scete. Fosse isoladamente, fosse em grupos, esses monges eram tanto quanto possível eremitas. Seu culto e suas abnegações eram em grande parte de sua própria invenção.
O primeiro grande aperfeiçoador do monasticismo foi Pacômio. Nascido por volta de 292, tornou-se soldado e converteu-se do paganismo ao cristianismo com talvez vinte anos de idade. A princípio adotou a vida eremítica, mas, insatisfeito com as suas irregularidades, fundou o primeiro mosteiro cristão em Tabenisi, no sul do Egito, por volta de 315-320. Ali todos os internos estavam unidos num só corpo, com trabalho designado, horas regulares de culto, vestes semelhantes e celas próximas umas das outras; numa palavra, uma vida em comum sob um abade. Esse era um tipo de monasticismo muitíssimo mais saudável. Era também um tipo possível para as mulheres, para as quais Pacômio fundou um convento. Quando morreu, em 346, havia dez de seus mosteiros no Egito. Os dois tipos, a forma eremítica de Antão e a organização cenobítica de Pacômio, continuaram lado a lado no Egito, e ambos foram levados dessa terra para o resto do império. A Síria viu um desenvolvimento considerável no começo do século IV. Ali a forma eremítica assumiu expressões extravagantes, das quais um exemplo, um pouco posterior, é o do famoso Simeão Estilita, que viveu durante trinta anos, até a sua morte em 459, no alto de uma coluna situada a leste de Antioquia. O monasticismo da Ásia Menor, por outro lado, continuou a tradição de Pacômio, sobretudo graças aos esforços do seu grande divulgador, Basílio (ver Período III, seção IV), que trabalhou pela sua difusão de cerca de 360 até a sua morte, em 379. A Regra que leva o seu nome, seja ou não composição dele, era, ainda mais que a de Pacômio, a regra de uma vida em comum. Enfatizava o trabalho, a oração e a leitura da Bíblia. Ensinava que os monges deviam ajudar os de fora pelo cuidado dos órfãos e por boas obras semelhantes. Desaconselhava o ascetismo extremo. A Regra de Basílio é, de modo geral, a base do monasticismo das igrejas grega e russa até hoje, embora com muito menos peso do que ele dava ao trabalho e ao auxílio aos outros. A introdução do monasticismo no Ocidente foi obra de Atanásio. Nos últimos anos do século IV, as exortações e os exemplos de Jerônimo, Ambrósio e Agostinho lhe granjearam muito favor, embora também encontrasse não pouca oposição. Na França, seu grande defensor foi Martinho de Tours, que fundou um mosteiro perto de Poitiers por volta de 362.
Logo o monasticismo, tanto em suas formas cenobíticas como eremíticas, podia ser encontrado em todo o Ocidente. Os primeiros monges, como no Oriente, eram leigos; mas Eusébio, bispo de Vercelli, na Itália, que morreu em 371, iniciou a prática de exigir que o clero da sua catedral vivesse a vida monástica. Pela influência desse exemplo, tornou-se gradualmente costume que os monges recebessem a ordenação sacerdotal. Essa consagração clerical tornou-se também, por fim, a regra no Oriente.
O monasticismo ocidental esteve por muito tempo em condição caótica. Cada mosteiro tinha a sua regra própria. O ascetismo, sempre característico em alto grau do monasticismo oriental, encontrou muitos discípulos. Por outro lado, muitos mosteiros eram relaxados. O grande reformador do monasticismo ocidental foi Bento de Núrsia. Nascido por volta de 480, estudou por pouco tempo em Roma, mas, oprimido pelos males da cidade, tornou-se eremita (c. 500) numa caverna das montanhas de Subiaco, a leste de Roma. A fama da sua santidade reuniu discípulos ao seu redor e levou a que lhe oferecessem a direção de um mosteiro vizinho, que ele aceitou, só para deixá-lo quando viu que os seus monges desregrados não queriam submeter-se à sua disciplina. Em data incerta, tradicionalmente 529, fundou então o mosteiro-mãe da ordem beneditina, no monte Cassino, mais ou menos a meio caminho entre Roma e Nápoles. A ele deu a sua Regra, e nele morreu; o último acontecimento certo da sua vida, o encontro com o rei ostrogodo Tótila, deu-se em 542.
A famosa Regra de Bento8 revelava o seu profundo conhecimento da natureza humana e o seu gênio romano para a organização.
A sua concepção de mosteiro era a de uma guarnição permanente, autônoma e autossuficiente de soldados de Cristo. À sua frente estava um abade, a quem se devia obedecer implicitamente, mas que era obrigado, nos assuntos graves de interesse comum, a consultar todos os irmãos e, nas questões menores, os monges mais velhos. Ninguém devia tornar-se monge sem ter experimentado a vida do mosteiro durante um ano; mas, uma vez admitido, seus votos eram irrevogáveis. No pensamento de Bento, o culto era sem dúvida o primeiro dever do monge. Sua observância comum diária ocupava pelo menos quatro horas, divididas em sete períodos. Ênfase quase igual se punha no trabalho. “A ociosidade é inimiga da alma.” Por isso Bento prescreveu o trabalho manual nos campos e a leitura. Um tempo fixo devia ser dedicado à leitura todos os dias, variando conforme as estações do ano; e na Quaresma deviam ser designados livros, com providências para garantir que fossem lidos. Essas determinações fizeram de todo mosteiro beneditino que fosse minimamente fiel ao ideal do fundador um centro de trabalho e o possuidor de uma biblioteca. O valor dessas disposições na formação das nações germânicas e na preservação da literatura foi inestimável. Ainda assim, eram apenas secundárias diante do propósito principal de Bento, o culto. Em geral, a Regra de Bento caracterizava-se por grande moderação e bom senso em suas exigências quanto ao alimento, ao trabalho e à disciplina. Era uma vida rigorosa, mas de modo algum impossível para o homem sério comum. No sistema beneditino, o monasticismo ocidental primitivo mostra-se no que teve de melhor. Sua Regra difundiu-se lentamente. Foi levada por missionários romanos à Inglaterra e à Alemanha. Só penetrou na França no século VII; mas no tempo de Carlos Magno tornara-se quase universal. Com a Regra de Bento, o ajuste entre o monasticismo e a igreja se completou. Os serviços dos seus monges como missionários e pioneiros foram de valor inestimável. Em tempos turbulentos, o mosteiro oferecia o único refúgio para as almas amantes da paz. A mais alta prova da sua adequação ao Império Romano tardio e à Idade Média foi que os melhores homens não apenas apoiavam a instituição; estavam dentro dela. Seus grandes defeitos, de um ponto de vista moderno, eram a ênfase na distinção entre uma moralidade superior e outra inferior e o descrédito da vida da família cristã; mas ambos eram heranças de condições e ideais cristãos do Império Romano anteriores ao desenvolvimento do monasticismo. O monasticismo foi produto deles, não sua causa.
O contraste entre o Oriente e o Ocidente ilustra-se de muitas maneiras pelas qualidades e experiências diversas de Crisóstomo e Ambrósio. Ambrósio nasceu em Trier, hoje no oeste da Alemanha, onde seu pai ocupava o alto cargo civil de prefeito pretoriano da Gália, por volta de 337-340. Educado em Roma para a carreira civil, seus talentos, sua integridade e sua simpatia levaram à sua nomeação, por volta de 374, como governador de uma parte considerável do norte da Itália, com residência em Milão, então praticamente uma capital imperial. A morte do bispo ariano Auxêncio, em 374, deixou vaga a sé de Milão. As duas facções logo se puseram em luta acirrada quanto à cor teológica do sucessor. O jovem governador entrou na igreja para acalmar a multidão, quando se ergueu o grito “Ambrósio bispo!”, e ele se viu, embora ainda não batizado, eleito bispo de Milão. Para Ambrósio, era um chamado de Deus. Deu a sua riqueza aos pobres e à igreja. Estudou teologia. Tornou-se um pregador muito apreciado. Acima de tudo, possuía em plenitude o talento romano para a administração, e logo se tornou o primeiro eclesiástico do Ocidente. Firmemente apegado à fé nicena, Ambrósio não fazia concessões aos arianos e resistiu a todas as suas tentativas de obter locais de culto em Milão, esforço em que eram apoiados pela imperatriz Justina, mãe do jovem Valentiniano II. No mesmo espírito, opôs-se com êxito aos esforços do partido pagão de Roma para obter de Valentiniano II a restauração do Altar da Vitória na sala do Senado e outros privilégios para o culto antigo. Seu maior triunfo deu-se no caso do imperador Teodósio. Esse governante de temperamento impulsivo, irritado com o assassinato do governador de Tessalônica, em 390, mandou fazer um massacre punitivo dos seus habitantes. Ambrósio, com rara coragem moral, exigiu do imperador que manifestasse publicamente o seu arrependimento.9 Lança uma luz favorável sobre o caráter de Teodósio o fato de ele ter obedecido à admoestação.
Ambrósio foi um escritor teológico de tal reputação que a Igreja Romana o conta entre os seus “Doutores”, isto é, mestres autorizados. Sua obra nesse campo, porém, foi em grande parte uma reprodução dos pensamentos dos teólogos gregos, embora com um senso mais profundo do pecado e da graça do que o deles. “Não me gloriarei por ser justo, mas me gloriarei por ser redimido. Não me gloriarei por estar livre do pecado, mas porque os meus pecados foram perdoados.”10 A inclinação de Ambrósio era prática. Escreveu sobre a ética cristã, em plena simpatia com o movimento ascético da época. Contribuiu muito para o desenvolvimento da hinologia cristã no Ocidente. Enérgico e às vezes autoritário, era homem do mais alto caráter pessoal e de zelo incansável, um verdadeiro príncipe da igreja. Homens assim eram necessários no abalo do império em colapso, se a igreja havia de sobreviver com poder. Morreu em 397.
Muito diferente foi a vida de Crisóstomo. João, a quem o nome Crisóstomo, “boca de ouro”, foi dado muito depois da sua morte, nasceu de pais nobres e abastados em Antioquia, por volta de 345-347. Tendo perdido o pai pouco depois de nascer, foi criado pela mãe, Antusa, mulher piedosa, e cedo se distinguiu nos estudos e na eloquência. Por volta de 370 foi batizado e provavelmente ordenado “leitor”. Passou então a praticar um ascetismo extremo e prosseguiu os estudos teológicos sob Diodoro de Tarso, um dos líderes da escola antioquena posterior. Não satisfeito com as suas austeridades, tornou-se eremita (c. 375) e assim permaneceu até que a saúde abalada o obrigou a voltar a Antioquia, onde foi ordenado diácono (c. 381). Em 386 foi elevado ao presbiterato. Seguiu-se então o período mais feliz e mais útil da sua vida. Durante doze anos foi o grande pregador de Antioquia, o mais capaz que a Igreja Oriental provavelmente jamais teve. Seus sermões eram exegéticos e eminentemente práticos. A compreensão simples e gramatical das Escrituras, sempre preferida em Antioquia à interpretação alegórica amada em Alexandria, o atraía. Seus temas eram eminentemente sociais: a conduta cristã da vida. Logo teve um enorme número de seguidores.
Tal era a fama de Crisóstomo que, vagando a sé de Constantinopla, ele foi praticamente obrigado por Eutrópio, o favorito do imperador Arcádio, a aceitar o episcopado da capital em 398. Ali logo conquistou um auditório popular semelhante ao de Antioquia. Desde o início, porém, o seu caminho em Constantinopla esteve cercado de inimigos. O inescrupuloso patriarca de Alexandria, Teófilo, desejava pôr Constantinopla em sujeição prática. Ele próprio adversário do ensino de Orígenes, acusou Crisóstomo de excessiva parcialidade por esse mestre. A disciplina rigorosa de Crisóstomo, para a qual havia ampla justificativa, desagradava ao clero de vida relaxada de Constantinopla. Pior que tudo, ele atraiu a hostilidade da vigorosa imperatriz Eudóxia, por causa de suas denúncias da extravagância feminina no vestir, que ela julgou dirigidas contra si. Crisóstomo foi certamente tão falto de tato quanto destemido ao denunciar faltas nas altas esferas. Todas as forças contrárias a ele se juntaram. Logo surgiu um pretexto para o ataque. Em sua oposição a Orígenes, Teófilo havia disciplinado certos monges do Egito. Quatro deles, conhecidos como os “irmãos altos”, fugiram para junto de Crisóstomo, que os recebeu bem. Teófilo e os demais inimigos de Crisóstomo conseguiram então um sínodo, numa propriedade imperial perto de Constantinopla conhecida como “O Carvalho”, que, sob a liderança de Teófilo, condenou e depôs Crisóstomo em 403. A imperatriz era tão supersticiosa quanto estava enfurecida, e um acidente no palácio (a tradição posterior o descreveu, provavelmente por engano, como um terremoto) levou à volta de Crisóstomo pouco depois de ele ter deixado a capital. A paz durou pouco. Uma estátua de prata da imperatriz, erguida bem junto à sua catedral, provocou denúncias de Crisóstomo contra as cerimônias da sua dedicação. A imperatriz viu nele, mais do que nunca, um inimigo pessoal. Dessa vez, apesar de caloroso apoio popular, ele foi banido para a miserável cidade de Cucuso, nos confins da Armênia. O papa Inocêncio I protestou, mas em vão. Ainda assim, desse exílio Crisóstomo continuou a influenciar de tal modo os seus amigos por cartas que os seus adversários resolveram pô-lo em obscuridade ainda maior. Em 407 recebeu ordem de ir para Pitiunte, mas nunca chegou lá, morrendo na viagem.
O destino desse pregador da justiça, dos mais dignos, ainda que não dos mais prudentes, ilustra o lado sombrio da interferência imperial nos assuntos eclesiásticos e as crescentes rivalidades das grandes sés do Oriente, cuja hostilidade mútua haveria de fazer a igreja e o império sofrer muito.
1. Cartas, 2, 25; Mirbt, Quellen zur Geschichte des Papsttums [Fontes para a história do papado], 54, 55.
2. Sermões, 3.2, 3; Ayer, p. 477.
3. Mirbt, p. 65.
4. Ayer, p. 521.
5. Ayer, p. 527.
6. Ayer, p. 531.
7. Mirbt, p. 70.
8. Excertos em Ayer, pp. 631-641; praticamente na íntegra em Henderson, Select Historical Documents of the Middle Ages [Documentos históricos seletos da Idade Média], pp. 274-314.
9. Ayer, pp. 390, 391.
10. Sobre Jacó e a vida bem-aventurada, 1.6.21.
Tradução para o português a partir de Williston Walker, A History of the Christian Church (Nova York, Charles Scribner’s Sons, 1918), 1ª edição, conferida com as imagens das páginas; domínio público. As notas são de Walker; as que eram só referência bíblica passaram para o texto. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.