Agostinho, Enquirídio · Parte 2

Capítulos 22 a 45

A mentira nunca é lícita; a queda dos anjos e de Adão e a corrupção de toda a sua descendência; salvos pela graça, e não pelas obras; a fé é dom de Deus; o Mediador nascido da Virgem; o batismo.

Capítulo 22. A mentira não é permitida, nem mesmo para livrar outro de dano

Mas toda mentira deve ser chamada pecado, porque não só quando o homem conhece a verdade, mas também quando, como pode acontecer a um homem, está enganado e iludido, é seu dever dizer o que pensa em seu coração, seja isso verdadeiro, seja apenas algo que ele julga verdadeiro. Ora, todo mentiroso diz o contrário do que pensa em seu coração, com o propósito de enganar. E é evidente que a fala foi dada ao homem, não para que os homens se enganassem uns aos outros com ela, mas para que um homem desse a conhecer a outro os seus pensamentos. Usar a fala, portanto, para enganar, e não para o fim a que foi destinada, é pecado. Nem devemos supor que haja alguma mentira que não seja pecado só porque às vezes é possível, contando uma mentira, prestar um serviço a outro. Pois também é possível fazer isso pelo furto, como quando roubamos de um rico que nunca sente a perda, para dar a um pobre que tira proveito sensível do que recebe. E o mesmo se pode dizer também do adultério, quando, por exemplo, alguma mulher parece prestes a morrer de amor se não consentirmos em seus desejos, ao passo que, se vivesse, poderia purificar-se pelo arrependimento; e, no entanto, ninguém afirmará que, por esse motivo, tal adultério não seja pecado. E, se com justiça damos tão alto valor à castidade, que ofensa recebemos da verdade para que, enquanto nenhuma perspectiva de vantagem para outro nos levará a violar a primeira pelo adultério, estejamos prontos a violar a segunda pela mentira? Não se pode negar que atingiram um grau muito elevado de bondade aqueles que nunca mentem, a não ser para livrar alguém de dano; mas, no caso dos homens que chegaram a esse grau, o que se louva com justiça, e às vezes até se recompensa, não é o engano, mas a boa intenção. Já basta que o engano seja perdoado, sem que se faça dele objeto de louvor, sobretudo entre os herdeiros da nova aliança, aos quais se diz: “Que a palavra de vocês seja: Sim, sim; não, não. O que passar disto vem do mal” (Mt 5.37). E é por causa desse mal, que não cessa de se insinuar enquanto conservamos esta veste mortal, que os próprios coerdeiros de Cristo dizem: “Perdoa-nos as nossas dívidas” (Mt 6.12).

Capítulo 23. Resumo dos resultados da discussão anterior

Como é justo que conheçamos as causas do bem e do mal, ao menos o bastante delas para o caminho que nos conduz ao reino, onde haverá vida sem a sombra da morte, verdade sem nenhuma mistura de erro e felicidade não interrompida por tristeza alguma, tratei destes assuntos com a brevidade que o meu espaço limitado exigia. E penso que agora não pode restar dúvida alguma de que a única causa de todo bem que desfrutamos é a bondade de Deus, e de que a única causa do mal é o afastamento do bem imutável por parte de um ser feito bom, mas mutável, primeiro no caso de um anjo, e depois no caso do homem.

Capítulo 24. As causas secundárias do mal são a ignorância e a concupiscência

Este é o primeiro mal que atingiu a criação inteligente, isto é, a sua primeira privação do bem. Em seguida a ele se insinuaram, e agora até contra a vontade do homem, a ignorância do dever e a concupiscência do que é nocivo; e estas trouxeram consigo o erro e o sofrimento, que, quando se sentem iminentes, produzem aquele encolhimento da mente que se chama medo. Além disso, quando a mente alcança os objetos do seu desejo, por mais nocivos ou vazios que sejam, o erro a impede de perceber a verdadeira natureza deles, ou então as suas percepções são subjugadas por um apetite doentio, e assim ela se enche de uma alegria tola. Destas fontes do mal, que brotam antes da falta do que do excesso, flui toda forma de miséria que assedia a natureza racional.

Capítulo 25. Os juízos de Deus sobre os homens e os anjos caídos. A morte do corpo é o castigo próprio do homem

E, no entanto, tal natureza, em meio a todos os seus males, não podia perder o anseio pela felicidade. Ora, os males que mencionei são comuns a todos os que, por sua maldade, foram justamente condenados por Deus, sejam homens, sejam anjos. Mas há uma forma de castigo própria do homem: a morte do corpo. Deus o havia ameaçado com este castigo da morte, caso pecasse (Gn 2.17), deixando-o, é verdade, à liberdade da sua própria vontade, mas ordenando-lhe a obediência sob pena de morte; e o colocou em meio à felicidade do Éden, como num recanto protegido da vida, com a intenção de que, se conservasse a sua justiça, subisse dali para um lugar melhor.

Capítulo 26. Pelo pecado de Adão toda a sua posteridade foi corrompida e nasceu sob a pena de morte em que ele havia incorrido

Dali, depois do seu pecado, ele foi expulso para o exílio, e por seu pecado toda a raça da qual ele era a raiz foi corrompida nele e, por isso, sujeita à pena de morte. E assim acontece que todos os que descendem dele e da mulher que o levara ao pecado e foi condenada juntamente com ele, sendo fruto da concupiscência carnal sobre a qual recaiu o mesmo castigo da desobediência, foram contaminados pelo pecado original e por ele arrastados, através de diversos erros e sofrimentos, até aquele último e interminável castigo que sofrem em comum com os anjos caídos, seus corruptores e senhores e companheiros da sua sorte. Desse modo, “assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado veio a morte, assim também a morte passou a toda a humanidade, porque todos pecaram” (Rm 5.12). Por “o mundo” o apóstolo, naturalmente, quer dizer neste lugar todo o gênero humano.

Capítulo 27. O estado de miséria a que o pecado de Adão reduziu a humanidade, e a restauração realizada pela misericórdia de Deus

Assim, pois, estavam as coisas. Toda a massa do gênero humano estava sob condenação, jazia imersa e revolvendo-se na miséria, era lançada de uma forma de mal para outra e, tendo-se unido ao partido dos anjos caídos, pagava a pena bem merecida daquela ímpia rebelião. Pois tudo o que os ímpios fazem livremente por uma concupiscência cega e desenfreada, e tudo o que sofrem contra a vontade sob a forma de castigo manifesto, tudo isso evidentemente pertence à justa ira de Deus. Mas a bondade do Criador nunca deixa de suprir vida e força vital aos anjos maus (sem as quais a existência deles logo chegaria ao fim); nem, no caso da humanidade, que brota de uma linhagem condenada e corrompida, de comunicar forma e vida à sua semente, de modelar os seus membros e, através das diversas estações da sua vida e nas diferentes partes da terra, de vivificar os seus sentidos e conceder-lhes o alimento de que necessitam. Pois julgou melhor tirar o bem do mal do que não permitir que mal algum existisse. E, se Ele tivesse determinado que, no caso dos homens, como no caso dos anjos caídos, não houvesse restauração à felicidade, não teria sido perfeitamente justo que o ser que se rebelou contra Deus, que, abusando da sua liberdade, desprezou e transgrediu o mandamento do seu Criador quando tão facilmente poderia tê-lo guardado, que desfigurou em si a imagem do seu Criador, desviando-se obstinadamente da sua luz, que, pelo mau uso do seu livre-arbítrio, rompeu a sua salutar sujeição às leis do Criador, não teria sido justo que tal ser fosse total e eternamente abandonado por Deus e deixado a sofrer o castigo eterno que tão amplamente merecera? Certamente assim teria feito Deus, se fosse apenas justo e não também misericordioso, e se não tivesse determinado que a sua misericórdia imerecida brilhasse com mais esplendor em contraste com a indignidade dos que a recebem.

Capítulo 28. Quando os anjos rebeldes foram lançados fora, os demais permaneceram no gozo da felicidade eterna com Deus

Enquanto, pois, alguns dos anjos, em sua soberba e impiedade, se rebelaram contra Deus e foram lançados da sua morada celestial às trevas mais profundas, o número restante habitou com Deus em pureza e felicidade eternas e imutáveis. Pois nem todos procediam de um só anjo que tivesse caído e sido condenado, de modo que não estavam todos, como os homens, envolvidos por um só pecado original nos laços de uma culpa herdada e assim sujeitos à pena em que um só incorrera; mas, quando aquele que depois se tornou o diabo se exaltou em soberba com os seus cúmplices no crime, e por essa mesma exaltação foi com eles lançado abaixo, os demais permaneceram firmes na piedade e na obediência ao seu Senhor e obtiveram o que antes não tinham: o conhecimento seguro e certo da sua salvação eterna e a libertação da possibilidade de cair.

Capítulo 29. A parte restaurada da humanidade, segundo as promessas de Deus, ocupará o lugar que os anjos rebeldes perderam

E assim aprouve a Deus, Criador e Governador do universo, que, visto que o corpo inteiro dos anjos não havia caído na rebelião, a parte deles que caíra permanecesse eternamente na perdição, e que a outra parte, que na rebelião permanecera firmemente leal, se alegrasse no conhecimento seguro e certo da sua felicidade eterna; mas que, por outro lado, a humanidade, que constituía o restante da criação inteligente, tendo perecido sem exceção sob o pecado, tanto original como atual, e sob os castigos daí decorrentes, fosse em parte restaurada e preenchesse a lacuna que a rebelião e a queda dos demônios haviam deixado na companhia dos anjos. Pois esta é a promessa feita aos santos: que na ressurreição serão iguais aos anjos de Deus (Lc 20.36). E assim a Jerusalém lá de cima, que é a mãe de todos nós, a cidade de Deus, não será despojada de nenhum do número dos seus cidadãos, e talvez até reine sobre uma população mais numerosa. Não sabemos o número nem dos santos nem dos demônios; mas sabemos que os filhos da santa mãe que foi chamada estéril na terra ocuparão o lugar dos anjos caídos e habitarão para sempre naquela morada de paz da qual eles caíram. Mas o número dos cidadãos, seja como é agora, seja como há de ser, está presente aos pensamentos do grande Criador, que chama as coisas que não são como se fossem (Rm 4.17) e dispõe todas as coisas com medida, número e peso (Sb 11.20).

Capítulo 30. Os homens não são salvos pelas boas obras, nem pela livre determinação da sua própria vontade, mas pela graça de Deus mediante a fé

Mas esta parte do gênero humano, à qual Deus prometeu o perdão e uma parte no seu reino eterno, pode ser restaurada pelo mérito das suas próprias obras? De modo nenhum. Pois que boa obra pode realizar um homem perdido, a não ser na medida em que foi livrado da perdição? Pode ele fazer alguma coisa pela livre determinação da sua própria vontade? Digo outra vez: de modo nenhum. Pois foi pelo mau uso do seu livre-arbítrio que o homem destruiu tanto o livre-arbítrio como a si mesmo. Pois, assim como um homem que se mata precisa, naturalmente, estar vivo quando se mata, mas, depois de se matar, deixa de viver e não pode restituir-se à vida, assim também, quando o homem pecou por seu próprio livre-arbítrio, sendo o pecado vencedor sobre ele, a liberdade da sua vontade se perdeu. “Pois aquele que é vencido fica escravo do vencedor” (2Pe 2.19). Este é o juízo do apóstolo Pedro. E, como isto é certamente verdadeiro, que espécie de liberdade, pergunto, pode o escravo possuir, senão quando lhe agrada pecar? Pois é livremente escravo aquele que faz com prazer a vontade do seu senhor. Por conseguinte, aquele que é servo do pecado é livre para pecar. E por isso não será livre para fazer o bem até que, liberto do pecado, comece a ser servo da justiça. E esta é a verdadeira liberdade, pois ele tem prazer na ação justa; e é ao mesmo tempo uma santa servidão, pois ele obedece à vontade de Deus. Mas de onde vem esta liberdade de fazer o bem ao homem que está em servidão e vendido ao pecado, a não ser que seja redimido por Aquele que disse: “Se, pois, o Filho os libertar, vocês serão verdadeiramente livres” (Jo 8.36)? E, antes que esta redenção se realize num homem, quando ele ainda não é livre para fazer o que é reto, como pode falar da liberdade da sua vontade e das suas boas obras, a não ser que esteja inflado por aquela tola soberba da jactância que o apóstolo reprime quando diz: “Pela graça vocês são salvos, mediante a fé” (Ef 2.8).

Capítulo 31. A própria fé é dom de Deus; e as boas obras não faltarão nos que creem

E, para que os homens não se arrogassem ao menos o mérito da sua própria fé, sem entender que também ela é dom de Deus, este mesmo apóstolo, que diz em outro lugar ter recebido “do Senhor a misericórdia de ser fiel” (1Co 7.25), acrescenta também aqui: “e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8-9). E, para que não se pensasse que as boas obras faltarão nos que creem, acrescenta ainda: “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.10). Seremos verdadeiramente livres, então, quando Deus nos modelar, isto é, nos formar e criar de novo, não como homens, pois isso Ele já fez, mas como homens bons, o que a sua graça está fazendo agora, para que sejamos nova criatura em Cristo Jesus, conforme está escrito: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro” (Sl 51.10). Pois Deus já havia criado o coração dele, no que diz respeito à estrutura física do coração humano; mas o salmista ora pela renovação da vida que ainda se demorava em seu coração.

Capítulo 32. A liberdade da vontade também é dom de Deus, pois Deus efetua em nós tanto o querer como o realizar

E mais: se alguém se inclinar a gloriar-se, não das suas obras, mas da liberdade da sua vontade, como se o primeiro mérito lhe pertencesse, sendo-lhe dada esta mesma liberdade de agir bem como recompensa que ele tivesse merecido, ouça este mesmo pregador da graça quando diz: “Deus é quem efetua em vocês tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2.13); e em outro lugar: “Assim, pois, isto não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus, que tem misericórdia” (Rm 9.16). Ora, como, sem dúvida, se um homem tem idade para usar a razão, não pode crer, esperar, amar, a não ser que queira fazê-lo, nem alcançar o prêmio da soberana vocação de Deus a não ser que corra voluntariamente para ele, em que sentido “não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus, que tem misericórdia”, senão no sentido de que, como está escrito, “a preparação do coração vem do Senhor” (Pv 16.1)? De outro modo, se se diz “Não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus, que tem misericórdia” porque depende de ambos, isto é, tanto da vontade do homem como da misericórdia de Deus, de modo que devamos entender o dito “Não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus, que tem misericórdia” como se significasse que a vontade do homem sozinha não basta se a misericórdia de Deus não a acompanhar, então seguir-se-á que a misericórdia de Deus sozinha não basta se a vontade do homem não a acompanhar; e, portanto, se podemos dizer com razão “não depende do homem que quer, mas de Deus, que tem misericórdia”, porque a vontade do homem por si só não basta, por que não poderíamos também dizer com razão o inverso: “Não depende de Deus, que tem misericórdia, mas do homem que quer”, porque a misericórdia de Deus por si só não basta? Certamente, se nenhum cristão ousará dizer isto, “Não depende de Deus, que tem misericórdia, mas do homem que quer”, para não contradizer abertamente o apóstolo, segue-se que a verdadeira interpretação do dito “Não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus, que tem misericórdia” é que toda a obra pertence a Deus, que tanto torna justa a vontade do homem, e assim a prepara para receber auxílio, como a auxilia quando está preparada. Pois a retidão da vontade do homem precede muitos dos dons de Deus, mas não todos; e ela mesma deve ser incluída entre aqueles que ela não precede. Lemos na Sagrada Escritura tanto que a misericórdia de Deus “virá ao meu encontro” (Sl 59.10) como que a sua misericórdia “me seguirá” (Sl 23.6). Ela vai adiante do que não quer, para fazê-lo querer; segue o que quer, para tornar eficaz o seu querer. Por que somos ensinados a orar por nossos inimigos (Mt 5.44), que claramente não querem levar uma vida santa, senão para que Deus opere neles o querer? E por que nós mesmos somos ensinados a pedir para receber (Mt 7.7), senão para que Aquele que criou em nós o desejo satisfaça Ele mesmo esse desejo? Oramos, pois, por nossos inimigos, para que a misericórdia de Deus os preceda, como precedeu a nós; oramos por nós mesmos, para que a sua misericórdia nos siga.

Capítulo 33. Os homens, sendo por natureza filhos da ira, precisavam de um Mediador. Em que sentido se diz que Deus se ira

E assim o gênero humano jazia sob uma justa condenação, e todos os homens eram filhos da ira. Dessa ira está escrito: “Todos os nossos dias se passam na tua ira; acabam-se os nossos anos como um breve pensamento” (Sl 90.9). Dessa ira também diz Jó: “O ser humano, nascido de mulher, vive breve tempo, cheio de inquietação” (Jó 14.1). Dessa ira também diz o Senhor Jesus: “Quem crê no Filho tem a vida eterna; quem se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus.”1 Não diz que ela virá, mas que “permanece sobre ele”. Pois todo homem nasce com ela; por isso diz o apóstolo: “Éramos por natureza filhos da ira, como também os demais” (Ef 2.3). Ora, como os homens jaziam sob esta ira por causa do seu pecado original, e como este pecado original era tanto mais pesado e mortal quanto maiores eram o número e a gravidade dos pecados atuais que a ele se acrescentavam, havia necessidade de um Mediador, isto é, de um reconciliador, que, pela oferta de um único sacrifício, do qual todos os sacrifícios da lei e dos profetas eram figuras, removesse esta ira. Por isso diz o apóstolo: “Porque, se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida!” (Rm 5.10). Ora, quando se diz que Deus se ira, não lhe atribuímos uma perturbação semelhante à que existe na mente de um homem irado; mas chamamos pelo nome de “ira” o seu justo desagrado contra o pecado, palavra transferida por analogia das emoções humanas. Mas sermos reconciliados com Deus por meio de um Mediador e recebermos o Espírito Santo, de modo que nós, que éramos inimigos, nos tornamos filhos (“Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus”, Rm 8.14), isto é a graça de Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor.

Capítulo 34. O inefável mistério do nascimento de Cristo, o Mediador, da Virgem Maria

Ora, deste Mediador ocuparia espaço demasiado dizer qualquer coisa que fosse digna dele; e, de fato, dizer o que é digno dele não está ao alcance do homem. Pois quem explicará em palavras coerentes esta única afirmação, que “o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1.14), de modo que creiamos no Filho único de Deus Pai todo-poderoso, nascido do Espírito Santo e da Virgem Maria? O sentido de o Verbo se ter feito carne não é que a natureza divina se tenha mudado em carne, mas que a natureza divina assumiu a nossa carne. E por “carne” devemos entender aqui “homem”, tomando-se a parte pelo todo, como quando se diz: “Nenhuma carne será justificada pelas obras da lei” (Rm 3.20), isto é, nenhum homem. Pois devemos crer que nenhuma parte faltava naquela natureza humana de que Ele se revestiu, a não ser que era uma natureza inteiramente livre de toda mancha de pecado; não uma natureza tal como a que é concebida entre os dois sexos pela concupiscência carnal, que nasce em pecado e cuja culpa é lavada na regeneração, mas tal como convinha que uma virgem desse à luz, quando a fé da mãe, e não a sua concupiscência, foi a condição da concepção. E, se a sua virgindade tivesse sido violada até mesmo ao dá-lo à luz, Ele não teria nascido de uma virgem; e seria falso (o que Deus não permita) que Ele nasceu da Virgem Maria, como crê e declara toda a Igreja, que, à imitação da sua mãe, dá à luz diariamente membros do seu corpo e, no entanto, permanece virgem. Leia, se quiser, a minha carta sobre a virgindade da santa Maria, que enviei àquele homem eminente cujo nome menciono com respeito e afeição, Volusiano.2

Capítulo 35. Jesus Cristo, sendo o Filho único de Deus, é ao mesmo tempo homem

Por isso Cristo Jesus, o Filho de Deus, é Deus e homem: Deus antes de todos os séculos; homem no nosso século; Deus, porque é o Verbo de Deus (pois “o Verbo era Deus”, Jo 1.1); e homem, porque na sua pessoa única o Verbo se uniu a um corpo e a uma alma racional. Por isso, enquanto é Deus, Ele e o Pai são um; enquanto é homem, o Pai é maior do que Ele. Pois, sendo o Filho único de Deus, não pela graça, mas por natureza, para ser também cheio de graça tornou-se Filho do homem; e Ele mesmo une as duas naturezas na sua própria identidade, e as duas naturezas constituem um só Cristo; porque, “estando na forma de Deus, não considerou roubo ser”, aquilo que era por natureza, “igual a Deus” (Fp 2.6). Mas esvaziou-se a si mesmo e tomou a forma de servo, sem perder nem diminuir a forma de Deus. E assim Ele tanto se fez menor como permaneceu igual, sendo ambas as coisas em um só, como se disse; mas era uma delas como Verbo e a outra como homem. Como Verbo, é igual ao Pai; como homem, é menor que o Pai. Um só Filho de Deus e ao mesmo tempo Filho do homem; um só Filho do homem e ao mesmo tempo Filho de Deus; não dois Filhos de Deus, Deus e homem, mas um só Filho de Deus: Deus sem princípio, homem com princípio, nosso Senhor Jesus Cristo.

Capítulo 36. A graça de Deus se manifesta clara e notavelmente na elevação do homem Cristo Jesus à dignidade de Filho de Deus

Ora, aqui a graça de Deus se manifesta com o maior poder e clareza. Pois que mérito havia conquistado a natureza humana no homem Cristo para ser, deste modo sem igual, assumida na unidade da pessoa do Filho único de Deus? Que bondade de vontade, que bondade de desejo e intenção, que boas obras haviam precedido, que tornassem este homem digno de vir a ser uma só pessoa com Deus? Fora Ele homem antes disso, e havia merecido esta recompensa sem precedentes, de ser julgado digno de tornar-se Deus? Certamente que não; desde o próprio momento em que começou a ser homem, Ele não foi outra coisa senão o Filho de Deus, o Filho único de Deus, o Verbo que se fez carne, e, portanto, era Deus; de modo que, assim como cada homem une numa só pessoa um corpo e uma alma racional, assim Cristo une numa só pessoa o Verbo e o homem. Ora, por que foi conferida à natureza humana esta glória inaudita, glória que, não havendo mérito anterior, era naturalmente toda da graça, senão para que aqueles que considerassem o assunto com sobriedade e honestidade vissem aqui uma clara manifestação do poder da graça gratuita de Deus e entendessem que são justificados dos seus pecados pela mesma graça que fez o homem Cristo Jesus livre da possibilidade de pecar? E assim o anjo, quando anunciou à mãe de Cristo o nascimento que viria, saudou-a deste modo: “Salve, cheia de graça” (Lc 1.28); e pouco depois: “Você achou graça diante de Deus” (Lc 1.30). Ora, ela foi chamada cheia de graça e foi dito que achara graça diante de Deus porque havia de ser a mãe do seu Senhor, ou melhor, do Senhor de toda a carne. Mas, falando do próprio Cristo, o evangelista João, depois de dizer “O Verbo se fez carne e habitou entre nós”, acrescenta: “e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14). Quando diz “O Verbo se fez carne”, isto é “cheio de graça”; quando diz “a glória do unigênito do Pai”, isto é “cheio de verdade”. Pois a própria Verdade, que era o unigênito do Pai, não pela graça, mas por natureza, pela graça assumiu a nossa humanidade e a uniu de tal modo à sua própria pessoa que Ele mesmo se tornou também Filho do homem.

Capítulo 37. A mesma graça se manifesta ainda claramente em que o nascimento de Cristo segundo a carne é do Espírito Santo

Pois o mesmo Jesus Cristo, que é o unigênito, isto é, o Filho único de Deus, nosso Senhor, nasceu do Espírito Santo e da Virgem Maria. E sabemos que o Espírito Santo é o dom de Deus, sendo o dom, na verdade, igual ao próprio Doador. E, portanto, o Espírito Santo também é Deus, não inferior ao Pai e ao Filho. O fato, portanto, de que o nascimento de Cristo em sua natureza humana se deu pelo Espírito Santo é outra clara manifestação da graça. Pois, quando a Virgem perguntou ao anjo como se daria aquilo que ele anunciara, visto que ela não conhecia homem, o anjo respondeu: “O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Altíssimo a envolverá com a sua sombra; por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus” (Lc 1.35). E, quando José pensava em deixá-la, suspeitando de adultério, pois sabia que ela não estava grávida dele, o anjo lhe disse: “Não tenha medo de receber Maria como esposa, porque o que nela foi gerado é do Espírito Santo” (Mt 1.20); isto é, o que você suspeita ter sido gerado de outro homem é do Espírito Santo.

Capítulo 38. Jesus Cristo, segundo a carne, não nasceu do Espírito Santo no sentido de ser o Espírito Santo o seu Pai

Devemos, contudo, dizer por isso que o Espírito Santo é o pai do homem Cristo, e que, assim como Deus Pai gerou o Verbo, assim Deus Espírito Santo gerou o homem, e que estas duas naturezas constituem o único Cristo; e que, como Verbo, Ele é o Filho de Deus Pai e, como homem, o Filho de Deus Espírito Santo, porque o Espírito Santo, como seu pai, o gerou da Virgem Maria? Quem ousará dizer isso? Nem é necessário mostrar pelo raciocínio quantos outros absurdos decorrem desta suposição, quando ela mesma é tão absurda que nenhum ouvido de crente a pode suportar. Por isso, como confessamos, “Nosso Senhor Jesus Cristo, que de Deus é Deus e como homem nasceu do Espírito Santo e da Virgem Maria, tendo ambas as naturezas, a divina e a humana, é o Filho único de Deus Pai todo-poderoso, de quem procede o Espírito Santo”.3 Ora, em que sentido dizemos que Cristo nasceu do Espírito Santo, se o Espírito Santo não o gerou? Será que o fez, visto que nosso Senhor Jesus Cristo, embora como Deus “todas as coisas foram feitas por ele” (Jo 1.3), como homem foi Ele mesmo feito, conforme diz o apóstolo: “que foi feito da descendência de Davi segundo a carne” (Rm 1.3)? Mas, como aquela coisa criada que a Virgem concebeu e deu à luz, embora unida somente à pessoa do Filho, foi feita pela Trindade inteira (pois as obras da Trindade são inseparáveis), por que se mencionaria somente o Espírito Santo como quem a fez? Ou será que, quando um dos Três é mencionado como autor de alguma obra, se deve entender que a Trindade inteira opera? Isso é verdade e pode ser provado com exemplos. Mas não precisamos nos deter mais nesta solução. Pois a dificuldade é: em que sentido se diz “nascido do Espírito Santo”, quando Ele de modo algum é Filho do Espírito Santo? Pois, embora Deus tenha feito este mundo, não seria correto dizer que ele é filho de Deus, ou que nasceu de Deus; diríamos que foi criado, ou feito, ou formado, ou ordenado por Ele, ou qualquer outra expressão que possamos usar com propriedade. Aqui, pois, quando confessamos que Cristo nasceu do Espírito Santo e da Virgem Maria, é difícil explicar como Ele não é Filho do Espírito Santo e é Filho da Virgem Maria, quando nasceu tanto dele como dela. Está claro, acima de qualquer dúvida, que Ele não nasceu do Espírito Santo como seu pai no mesmo sentido em que nasceu da Virgem como sua mãe.

Capítulo 39. Nem tudo o que nasce de outro deve ser chamado filho desse outro

Não devemos, portanto, dar por certo que tudo o que nasce de uma coisa deva ser logo declarado filho dessa coisa. Pois, para deixar de lado o fato de que um filho nasce de um homem num sentido diferente daquele em que um cabelo ou um piolho nasce dele, e nenhum destes é filho; para deixar isso de lado, digo, como ilustração demasiado baixa para assunto de tamanha importância, é certo que os que nascem da água e do Espírito Santo não podem com propriedade ser chamados filhos da água, embora sejam chamados filhos de Deus Pai e da Igreja, sua mãe. Do mesmo modo, pois, Aquele que nasceu do Espírito Santo é Filho de Deus Pai, e não do Espírito Santo. Pois o que eu disse do cabelo e das outras coisas basta para nos mostrar que nem tudo o que nasce de outro pode ser chamado filho daquilo de que nasce, assim como não se segue que todos os que são chamados filhos de um homem tenham nascido dele, pois alguns filhos são adotados. E alguns homens são chamados filhos do inferno, não por terem nascido do inferno, mas por estarem preparados para ele, como os filhos do reino estão preparados para o reino.

Capítulo 40. O nascimento de Cristo pelo Espírito Santo nos manifesta a graça de Deus

E, portanto, como uma coisa pode nascer de outra e, no entanto, não de modo a ser seu filho, e como nem todo aquele que é chamado filho nasceu daquele de quem é chamado filho, é claro que esta disposição, pela qual Cristo nasceu do Espírito Santo, mas não como seu filho, e da Virgem Maria como filho dela, tem por fim manifestar a graça de Deus. Pois foi por esta graça que um homem, sem nenhum mérito anterior, foi, desde o próprio início da sua existência como homem, de tal modo unido numa só pessoa com o Verbo de Deus, que a mesma pessoa que era Filho do homem era ao mesmo tempo Filho de Deus, e a mesma pessoa que era Filho de Deus era ao mesmo tempo Filho do homem; e, na adoção da sua natureza humana na divina, a própria graça tornou-se de certo modo tão natural ao homem que não deixou lugar algum para a entrada do pecado. Por isso esta graça é significada pelo Espírito Santo; pois Ele, embora em sua própria natureza seja Deus, pode também ser chamado dom de Deus. E explicar tudo isso suficientemente, se é que de algum modo se pudesse fazê-lo, exigiria uma discussão muito longa.

Capítulo 41. Cristo, que era Ele mesmo livre do pecado, foi feito pecado por nós, para que fôssemos reconciliados com Deus

Gerado e concebido, pois, sem nenhuma condescendência com a concupiscência carnal, e por isso não trazendo consigo pecado original algum, e pela graça de Deus junto e unido de modo admirável e inefável numa só pessoa com o Verbo, o Unigênito do Pai, Filho por natureza e não pela graça, e por isso sem pecado algum próprio, Ele foi, no entanto, por causa da semelhança da carne do pecado em que veio, chamado pecado, para ser sacrificado a fim de lavar o pecado. Pois, sob a Antiga Aliança, os sacrifícios pelo pecado eram chamados pecados (Os 4.8). E Aquele de quem todos esses sacrifícios eram figuras e sombras foi Ele mesmo verdadeiramente feito pecado. Por isso o apóstolo, depois de dizer: “Em nome de Cristo, pois, pedimos que vocês se reconciliem com Deus”, acrescenta logo: “Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus” (2Co 5.20-21). Não diz, como leem algumas cópias incorretas, “Aquele que não conheceu pecado cometeu pecado por nós”, como se o próprio Cristo tivesse pecado por nossa causa; mas diz: “Aquele que não conheceu pecado”, isto é, Cristo, “Deus”, com quem devemos ser reconciliados, “o fez pecado por nós”, isto é, fez dele um sacrifício pelos nossos pecados, pelo qual pudéssemos ser reconciliados com Deus. Ele, pois, feito pecado, assim como nós somos feitos justiça (não sendo a nossa justiça nossa, mas de Deus, não em nós mesmos, mas nele), Ele, feito pecado, não seu, mas nosso, não em si mesmo, mas em nós, mostrou, pela semelhança da carne do pecado em que foi crucificado, que, embora o pecado não estivesse nele, de certo modo morreu para o pecado, ao morrer na carne que era a semelhança do pecado; e que, embora Ele mesmo nunca tivesse vivido a velha vida do pecado, pela sua ressurreição prefigurou a nossa nova vida, que brota da velha morte no pecado.

Capítulo 42. O sacramento do batismo indica a nossa morte com Cristo para o pecado e a nossa ressurreição com Ele para a novidade de vida

E este é o sentido do grande sacramento do batismo que se celebra entre nós: que todos os que alcançam esta graça morram para o pecado, assim como se diz que Ele morreu para o pecado, porque morreu na carne, que é a semelhança do pecado; e que, saindo regenerados da fonte batismal, assim como Ele ressurgiu vivo do sepulcro, comecem uma vida nova no Espírito, seja qual for a idade do corpo.

Capítulo 43. O batismo e a graça que ele simboliza estão abertos a todos, tanto às crianças como aos adultos

Pois, desde a criança recém-nascida até o velho curvado pela idade, assim como ninguém é excluído do batismo, assim também não há ninguém que no batismo não morra para o pecado. Mas as crianças morrem somente para o pecado original; os mais velhos morrem também para todos os pecados que a sua má vida acrescentou ao pecado que trouxeram consigo.

Capítulo 44. Ao falar do pecado, muitas vezes se usa o singular pelo plural e o plural pelo singular

Mas também destes últimos se diz frequentemente que morrem para o pecado, embora sem dúvida não morram para um só pecado, mas para todos os numerosos pecados atuais que cometeram por pensamento, palavra ou ação; pois muitas vezes se usa o singular pelo plural, como quando o poeta diz: “Enchem-lhe o ventre com o soldado armado”,4 embora no caso aqui mencionado se tratasse de muitos soldados. E lemos em nossas próprias Escrituras: “Ore ao Senhor, para que tire de nós a serpente” (Nm 21.7). Não diz serpentes, embora o povo sofresse por causa de muitas; e assim em outros casos. Quando, por outro lado, o pecado original é expresso no plural, como quando dizemos que as crianças são batizadas para a remissão dos pecados, em vez de dizer para a remissão do pecado, temos a figura de linguagem inversa, pela qual se põe o plural no lugar do singular; como no Evangelho se diz da morte de Herodes: “porque os que queriam matar o menino já morreram” (Mt 2.20), em vez de dizer “ele morreu”. E no Êxodo: “Fizeram para si”, diz Moisés, “deuses de ouro” (Êx 32.31), embora tivessem feito um só bezerro, do qual disseram: “São estes, ó Israel, os seus deuses, que tiraram você da terra do Egito” (Êx 32.4); também aqui se põe o plural no lugar do singular.

Contudo, até naquele único pecado que “por um só homem entrou no mundo e assim passou a toda a humanidade” (Rm 5.12), e por causa do qual as crianças são batizadas, pode-se observar certo número de pecados distintos, se for analisado, por assim dizer, em seus elementos separados. Pois há nele soberba, porque o homem preferiu estar sob o seu próprio domínio a estar sob o domínio de Deus; e blasfêmia, porque não creu em Deus; e homicídio, pois trouxe a morte sobre si mesmo; e fornicação espiritual, pois a pureza da alma humana foi corrompida pelas lisonjas sedutoras da serpente; e furto, pois o homem tomou para seu uso o alimento em que fora proibido tocar; e avareza, pois cobiçou mais do que deveria bastar-lhe; e qualquer outro pecado que, com reflexão cuidadosa, se possa descobrir envolvido neste único pecado reconhecido.

Notas

1. Jo 3.36. Estas palavras, que o autor atribui a Cristo, foram na verdade ditas por João Batista.

2. Carta 137.

3. Citação de uma forma do Credo Apostólico usada antigamente na Igreja latina.

4. “Uterumque armato milite complent.” Virgílio, Eneida II, 20.
[TITULO] Capítulo 45. No primeiro pecado de Adão estavam envolvidas muitas espécies de pecado.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de J. F. Shaw (Nicene and Post-Nicene Fathers, 1ª série, vol. 3, Nova York, 1887), conferida com as imagens das páginas; domínio público. O original é latino: esta é, portanto, tradução de tradução. Os títulos dos capítulos e o argumento inicial são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Agostinho cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela antiga Bíblia latina, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.