Manual de aconselhamento pastoral · Capítulo 3 de 14
Diante da morte, o pastor ajuda mais pela presença atenta do que pelas palavras. Ele escuta, acompanha o ritmo da pessoa, fala pouco e com verdade, ora com ela e reconhece os limites do seu papel.
O encontro de Jesus com os dois discípulos no caminho de Emaús (Lc 24.13-35) é um modelo de acompanhamento no luto. Eles voltavam para casa derrotados, depois da crucificação, e “o próprio Jesus se aproximou e ia com eles” (Lc 24.15). Antes de ensinar qualquer coisa, ele perguntou: “O que é que vocês estão discutindo pelo caminho?” (Lc 24.17), e deixou que contassem a história inteira, inclusive a esperança frustrada (Lc 24.19-24).
Só depois de ouvir, Jesus abriu as Escrituras (Lc 24.27), e foi reconhecido ao partir o pão (Lc 24.30-31). A ordem é a do bom cuidado pastoral: aproximar-se, caminhar junto, perguntar, ouvir, abrir a Palavra e, quando for o momento, partilhar a mesa do Senhor.
Os amigos de Jó fizeram certo antes de fazer errado. “Sentaram-se com ele no chão durante sete dias e sete noites. E ninguém lhe disse uma só palavra, pois viam que a dor era muito grande” (Jó 2.13). O erro começou quando abriram a boca para explicar o sofrimento dele.
A pergunta aberta convida a pessoa a contar; a pergunta fechada encerra a conversa. Contar a história da doença ou da morte, mais de uma vez, faz parte do caminho do luto, e o pastor não deve apressar esse relato.
| Em vez de perguntar | Pergunte |
|---|---|
| “Está tudo bem?” | “Como o senhor está hoje, de verdade?” |
| “Você está conformada?” | “O que tem sido mais difícil para você?” |
| “Ele morreu de quê?” | “Você quer me contar como foi?” |
| “Já está melhor?” | “Do que você tem sentido mais falta?” |
| “Você está orando?” | “Como está a sua fé no meio de tudo isso?” |
| “Precisa de alguma coisa?” | “O que tem pesado mais na casa nestes dias?” |
Devolva com simplicidade o que ouviu, para que a pessoa saiba que foi compreendida: “Parece que o senhor está muito cansado de tudo isso” ou “Você está com raiva, e faz sentido”. Não mude de assunto quando o enfermo falar da própria morte; essa costuma ser a conversa que ele não consegue ter com a família. E não fale das suas próprias perdas, a não ser que isso sirva claramente a quem sofre.
Há palavras que ferem justamente porque querem consolar depressa. “Como quem se despe num dia de frio e como vinagre sobre feridas, assim é o que entoa canções para quem está aflito” (Pv 25.20).
| Evite | Por quê | Prefira |
|---|---|---|
| “Eu sei como você se sente.” | Cada perda é única, e a frase desloca a atenção para quem consola. | “Não sei o que você está sentindo, mas estou aqui.” |
| “Deus quis assim” ou “Deus precisava dele lá”. | Atribui a Deus o desejo da morte e afasta a pessoa dele (Lm 3.33). | “Não tenho todas as respostas, mas Deus não abandonou você.” |
| “Ele está num lugar melhor”, dito cedo demais ou sem saber da fé do falecido. | Soa como pedido para não sofrer e, às vezes, afirma o que o pastor não sabe. | Com um crente: “Ele está com o Senhor, e a sua saudade é justa.” Com qualquer pessoa: “Ele vai fazer muita falta.” |
| “Seja forte” ou “crente não chora”. | Contraria Jo 11.35 e Rm 12.15. | “Pode chorar. Jesus também chorou.” |
| “Pelo menos…” (ele não sofre mais, você tem outros filhos, foi rápido). | Todo “pelo menos” diminui a perda. | “Que perda grande.” |
| “Tudo acontece por um motivo.” | Promete uma explicação que ninguém tem. | “Não entendemos o porquê, mas o Senhor está perto de quem tem o coração quebrantado (Sl 34.18).” |
| “Já faz um ano, você precisa seguir em frente.” | O luto não tem prazo fixo. | “Como tem sido para você agora, depois de um ano?” |
| “Se precisar de alguma coisa, é só ligar.” | Joga sobre o enlutado o peso de pedir. | “Posso levar o almoço na quinta-feira?” |
| Ao doente: “Tenha mais fé e você vai sarar.” | Culpa o doente e contraria 2Tm 4.20 e 2Co 12.9. | “Vamos orar pela cura e pela paz, e deixar o resultado nas mãos de Deus.” |
| Ao doente: “Você vai ficar bom”, quando não é verdade. | A mentira bem-intencionada quebra a confiança no momento em que ela mais importa. | “Estou orando por cura e por força para cada dia.” |
O pastor fala “seguindo a verdade em amor” (Ef 4.15). Não mente ao doente nem tira dele a esperança, mas sabe que a esperança pode mudar de objeto: da cura para o alívio da dor, para a reconciliação com um filho, para a presença da família e, acima de tudo, para a vida eterna. Ajudar alguém a esperar coisas que ainda podem acontecer é uma forma concreta de cuidado.
O prognóstico é assunto da equipe médica, não do pastor. Quando o doente pergunta “Eu vou morrer?”, devolva com delicadeza: “O que os médicos têm dito? E o que o senhor tem sentido?”. Depois de ouvir, seja honesto: “Não sei quanto tempo o senhor tem, mas sei quem estará com o senhor em cada dia dele”.
Organizador: Bispo Ildo Mello. Texto preparado com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do organizador. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA).