Manual de aconselhamento pastoral · Capítulo 8 de 14

Os primeiros dias do luto

Nos primeiros dias, a família precisa de presença, de ajuda prática e de um culto fúnebre que diga a verdade sobre a perda e anuncie a ressurreição. O pastor aciona a rede de cuidado da igreja, conduz o culto segundo o Manual (§9310) e prepara uma mensagem breve, centrada em Cristo e honesta sobre quem morreu.

Quando cabe ao pastor dar a notícia

Às vezes é o pastor quem precisa comunicar uma morte, porque a família pediu ou porque acompanha a polícia ou o hospital. Os passos abaixo adaptam o protocolo SPIKES, criado por Walter Baile e colegas (2000) para a comunicação de más notícias na medicina.

  1. Prepare-se. Confirme o nome e as circunstâncias, escolha um lugar reservado, vá acompanhado e desligue o celular. Evite dar a notícia por mensagem ou telefone sempre que for possível ir pessoalmente.
  2. Sente-se, diga quem é e prepare a pessoa: “Tenho uma notícia muito difícil para dar”.
  3. Diga com clareza, usando a palavra “morreu”: “O seu filho morreu no acidente desta tarde”. Expressões como “partiu”, “descansou” ou “perdemos” deixam dúvida num momento em que a mente já resiste a entender.
  4. Faça silêncio e permita a reação: choro, grito, negação, desmaio. Fique perto e proteja a pessoa de se machucar.
  5. Responda às perguntas com simplicidade e não especule sobre detalhes que você não conhece.
  6. Combine os próximos passos: quem mais precisa ser avisado, quem vai ficar com a pessoa, o que acontece agora. Nunca a deixe sozinha.

A primeira visita à família

O Manual do Pastor é direto: “Não hesite. Vá imediatamente. Console o seu povo.” A primeira visita é de presença, não de explicações. Abrace, escute, ore brevemente e pergunte o que a família precisa nas próximas horas.

Em seguida, acione a rede de cuidado: os ecônomos, a célula, a equipe de visitação. Alguém para atender o telefone e as mensagens, alguém para as refeições, alguém para as crianças, alguém para o transporte e uma ou duas pessoas que fiquem na casa. Quando for oportuno, pergunte: “Vocês já pensaram em como querem a despedida?”.

O velório

No Brasil o velório costuma acontecer no mesmo dia ou na mesma noite, e o sepultamento no dia seguinte. O pastor não precisa ficar o tempo todo, mas deve estar nos momentos que mais pesam, como recomenda o Manual do Pastor:

A igreja serve no velório com presença discreta: água, café, um abraço, um lugar para os idosos se sentarem. Em famílias de tradições religiosas diferentes, o pastor respeita os costumes dos parentes, não discute religião junto ao caixão e oferece, se a família desejar, um culto de consolo em casa nos dias seguintes.

Planejando o culto fúnebre com a família

A ordem do Manual da Igreja

O Culto Fúnebre (§9310) pode ser usado na igreja ou no local do velório. A ordem é esta:

  1. Palavras de abertura (Jo 11.25-26; 2Co 4.17-18).
  2. Invocação.
  3. Hino (opcional).
  4. Obituário ou homenagens (opcional).
  5. Leitura do Antigo Testamento (por exemplo, Sl 23, 90 ou 121).
  6. Leitura do Novo Testamento (por exemplo, Jo 14.1-6; 1Co 15.35-49; 2Co 5.1-5).
  7. Hino (opcional).
  8. Meditação.
  9. Oração pela família e pela comunidade.
  10. Bênção, exceto se o culto continuar junto ao túmulo.

No cemitério, o Manual prevê as sentenças bíblicas (Jo 11.25-26; Jó 19.25-27; 1Tm 6.7; Jó 1.21; opcionalmente Jo 14.1-6), as palavras de entrega do corpo à terra “esperando a ressurreição geral no último dia”, a oração e a bênção (2Co 13.13). O Manual do Pastor acrescenta três fórmulas alternativas de entrega, uma delas própria para crianças, e listas de leituras e hinos.

A mensagem fúnebre

A meditação no culto fúnebre fala a pessoas cansadas, de pé e emocionadas, muitas delas sem igreja. Por isto ela é breve, clara e esperançosa.

  1. Seja breve: de 10 a 15 minutos.
  2. Centre a mensagem em Cristo e na ressurreição. O Manual do Pastor lembra que o evangelho pode ser apresentado com clareza, “mas nunca com uma atitude de julgamento sobre o falecido”.
  3. Fale de quem morreu com verdade: diga o nome, lembre fatos concretos, agradeça o bem que fez. Não o transforme em santo nem exponha as suas falhas.
  4. Fale aos enlutados: reconheça a dor, dê permissão para chorar e mostre onde está a esperança (1Ts 4.13).
  5. Fale a todos os presentes: a morte ensina a contar os nossos dias (Sl 90.12). Convide com mansidão, nunca com ameaças.
  6. Quando o falecido era crente, afirme a esperança com alegria: ele descansa das suas fadigas, e as suas obras o acompanham (Ap 14.13).
  7. Quando não se conhece a fé do falecido, não declare onde ele está. Fale da justiça e da misericórdia de Deus, “Será que o Juiz de toda a terra não faria justiça?” (Gn 18.25), honre o que houve de bom na vida dele e anuncie aos vivos o convite de Cristo. O destino eterno depende da graça de Deus e da resposta humana a ela (§130), e o culto fúnebre não é lugar nem para condenar nem para prometer o que a Escritura não promete.

Esboços de mensagens

Os esboços abaixo são pontos de partida, para serem enchidos com a história de quem morreu.

  1. “Você crê nisto?” (Jo 11.17-44). Ideia central: Jesus entra no nosso luto e tem a última palavra sobre a morte.
    1. Jesus vem ao encontro da família que chora (Jo 11.17-20).
    2. Jesus chora com os que choram (Jo 11.33-35).
    3. Jesus é a ressurreição e a vida (Jo 11.25-26, 43-44).
    4. Aplicação: a pergunta dele a Marta é feita a cada um de nós, “Você crê nisto?” (Jo 11.26).
  2. “Tristeza com esperança” (1Ts 4.13-18). Ideia central: o cristão chora, mas não como quem não tem esperança.
    1. A tristeza dos que creem é real e legítima (1Ts 4.13).
    2. A esperança tem fundamento: Jesus morreu e ressuscitou (1Ts 4.14).
    3. A esperança tem um encontro marcado: “estaremos para sempre com o Senhor” (1Ts 4.17).
    4. Aplicação: “consolem uns aos outros com estas palavras” (1Ts 4.18).
  3. “Porque tu estás comigo” (Sl 23). Ideia central: o Bom Pastor conduz os seus em toda a vida, também no vale da morte. É o texto que quase todos conhecem.
    1. O pastor que cuida e provê (Sl 23.1-3).
    2. O pastor que acompanha no vale (Sl 23.4).
    3. O pastor que recebe em sua casa (Sl 23.5-6).
    4. Aplicação: quem é o seu pastor? (Jo 10.11).
  4. “Ensina-nos a contar os nossos dias” (Sl 90). Ideia central: diante da eternidade de Deus, a vida breve pede sabedoria. Serve bem quando não se conhece a fé do falecido.
    1. Deus é o nosso refúgio de geração em geração (Sl 90.1-2).
    2. A vida humana é breve e frágil (Sl 90.3-10).
    3. A sabedoria de viver diante de Deus (Sl 90.12-17).
    4. Aplicação: o que você fará com os dias que ainda tem?
  5. “Eu irei até ela” (2Sm 12.15-23; Mc 10.13-16). Ideia central: a criança que morre está segura no amor de Deus. Para o culto fúnebre de uma criança.
    1. O pai que orou e chorou (2Sm 12.15-18).
    2. Jesus acolhe os pequeninos: “dos tais é o Reino de Deus” (Mc 10.14). O Manual afirma que “até crianças pequenas estão reconhecidamente incluídas na redenção” (§124).
    3. A paz de quem entrega o filho a Deus: “Eu irei até ela, mas ela não voltará para mim” (2Sm 12.23).
    4. Aplicação: a igreja promete não deixar estes pais sozinhos.

No cemitério e no crematório

Seja breve: o sol, a chuva e o cansaço pesam, sobretudo para os idosos. Use as palavras de entrega do §9310 no momento em que o caixão desce ou, no crematório, antes de ele ser recolhido, adaptando “à terra” quando for o caso. Depois da bênção, não saia logo: cumprimente cada familiar e fique disponível.

A igreja recomenda o sepultamento como forma preferencial de despedida, porque ele expressa melhor a esperança da ressurreição, e acolhe sem reservas a família que escolhe a cremação, celebrando com ela a mesma esperança. O estudo Sepultar ou cremar? Por que os cristãos preferem o sepultamento explica as razões e traz orientações pastorais.

O Manual do Pastor recomenda voltar com a família para casa depois do sepultamento, quando isso for possível e desejado. Ali, com a tensão desfeita, acontecem algumas das conversas mais importantes. Antes de sair, marque a primeira visita da semana seguinte.

Organizador: Bispo Ildo Mello. Texto preparado com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do organizador. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA).