John Wesley · Apelos aos Homens de Razão e Religião · Apelo Adicional, Parte I (conclusão)

A maneira de pregar e os seus efeitos (seções VI e VII)

Como Wesley começou a pregar ao ar livre, as objeções à maneira metodista de pregar e aos seus efeitos, e a conclusão da primeira parte, seguida do poema Um Ato de Devoção.

Fui ordenado diácono em 1725, e presbítero no ano seguinte. Mas muitos anos se passaram depois disso antes que eu me convencesse das grandes verdades expostas acima. Durante todo esse tempo, eu ignorava completamente a natureza e a condição da justificação. Às vezes eu a confundia com a santificação (particularmente quando estive na Geórgia). Outras vezes tinha alguma noção confusa sobre o perdão dos pecados; mas então dava por certo que o momento disso seria a hora da morte ou o dia do juízo.

Eu ignorava igualmente a natureza da fé salvadora, entendendo que ela não significava mais do que um “firme assentimento a todas as proposições contidas no Antigo e no Novo Testamento”.

2. Assim que, pela grande bênção de Deus, tive uma visão mais clara dessas coisas, comecei a declará-las também aos outros. Eu cri, por isso falei (2Co 4.13). Onde quer que agora me pedissem para pregar, a salvação pela fé era o meu único tema. Os meus assuntos constantes eram: Creia no Senhor Jesus e você será salvo (At 16.31). Deus o exaltou a Príncipe e Salvador, a fim de conceder o arrependimento e a remissão de pecados (At 5.31). Eu os explicava e os inculcava com todas as minhas forças, tanto em todas as igrejas onde me convidavam a pregar como, de vez em quando, nas sociedades religiosas de Londres e Westminster, a uma ou outra das quais era continuamente instado a ir pelos administradores ou por outros membros delas.

As coisas estavam nesse pé quando me disseram: “Não deve mais pregar nesta, nesta e naquela outra igreja.” A razão costumava ser acrescentada sem rodeios: “Porque o senhor prega tais doutrinas.” Tanto mais os que não podiam ouvir-me ali se ajuntavam quando eu estava em alguma das sociedades, onde eu falava, mais ou menos, embora com muito incômodo, a tantos quantos coubessem na sala em que eu estava.

3. Mas, depois de algum tempo, vendo que aquelas salas não comportavam nem a décima parte do povo que desejava ardentemente ouvir, resolvi fazer na Inglaterra o mesmo que muitas vezes eu havia feito num clima mais quente: isto é, quando a casa não comportava a congregação, pregar ao ar livre. Foi o que fiz, primeiro em Bristol, onde as salas da sociedade eram extremamente pequenas, e em Kingswood, onde não tínhamos sala nenhuma; depois, em Londres ou nos arredores.

E não posso dizer que já tenha visto espetáculo mais solene do que quando, em Rose Green ou no alto do monte Hanham, alguns milhares de pessoas estavam calmamente reunidas em solene espera em Deus, enquanto

“De pé, ao ar livre, adoravam
o Deus que fez o ar, a terra, o céu e o firmamento.”

E, quer estivessem ouvindo a sua palavra com uma atenção silenciosa como a noite, quer erguendo a voz em louvor como o som de muitas águas, muitas vezes me vi obrigado a dizer no meu coração: Quão temível é este lugar! Este também é nada menos que a casa de Deus, a porta dos céus! (Gn 28.17)

Peço que observem: 1. Que fui proibido, como que por consentimento geral, de pregar em qualquer igreja (embora não por alguma sentença judicial) “por pregar tal doutrina”. Esta foi a causa declarada e assumida: não havia naquele tempo nenhuma outra, nem real nem pretextada (exceto que o povo se aglomerava demais). 2. Que eu não tinha nenhum desejo nem intenção de pregar ao ar livre senão depois dessa proibição. 3. Que, quando o fiz, assim como não foi por escolha, também não foi premeditado. Não havia nenhum plano previamente traçado que devesse ser sustentado por esse meio; nem eu tinha outro fim em vista senão este: salvar tantas almas quanto pudesse. 4. A pregação ao ar livre foi, portanto, um expediente repentino, algo a que me submeti, mais do que escolhi; e me submeti porque julguei que pregar até assim era melhor do que não pregar de modo nenhum. Em primeiro lugar, quanto à minha própria alma, porque, tendo-me sido confiada uma responsabilidade do evangelho, eu não ousava deixar de pregar o evangelho (1Co 9.16-17). Em segundo lugar, quanto à alma dos outros, que eu via por toda parte buscando a morte no erro da sua vida (Sb 1.12).

4. Mas o autor das Observações e de O Caso dos Metodistas Brevemente Exposto, mais particularmente quanto à pregação ao ar livre julga a pregação ao ar livre pior do que não pregar de modo nenhum, “porque é ilegal”.

O seu argumento, em forma, é este:

A pregação que é contrária às leis do país é pior do que não pregar de modo nenhum.

Ora, a pregação ao ar livre é contrária às leis do país.

“Logo, é pior do que não pregar de modo nenhum.”

A primeira proposição não é evidente por si mesma, nem, na verdade, universalmente verdadeira. Pois a pregação de todos os cristãos primitivos era contrária a todo o teor da lei romana, uma vez que o culto aos deuses-demônios estava estabelecido pelas leis mais rigorosas então em vigor. E ela nunca é verdadeira, a não ser na suposição de que a pregação em questão seja uma coisa indiferente.

Mas, deixando isso de lado, nego a segunda proposição: nego que a pregação ao ar livre seja contrária às leis do nosso país.

Para provar isso, o senhor começa assim: “Não consta que algum dos pregadores entre os metodistas tenha habilitado a si mesmo e aos locais de suas reuniões segundo a Lei de Tolerância.” [N. do T.: a Lei de Tolerância (1689) isentava das penas das leis anteriores os dissidentes protestantes que prestassem os juramentos exigidos e registrassem os seus locais de culto.]

Respondo: 1. Essa lei concede tolerância aos que dissentem da igreja estabelecida. Mas nós não dissentimos dela. Portanto, não podemos fazer uso dessa lei. 2. Essa lei isenta os dissidentes das penas decorrentes da violação de leis anteriores. Mas não temos consciência de violar lei alguma. Portanto, não precisamos fazer uso dela.

Na seção seguinte, o senhor diz: “Eles passaram por cima de todas essas disposições, em franco desafio ao governo, e se reuniram não só em casas, mas nos campos, apesar da lei (22 Carlos II, capítulo 1) que proíbe isso expressamente.”

Respondo: 1. Nada fazemos em desafio ao governo. Reverenciamos os magistrados como ministros de Deus. 2. Embora nos tenhamos reunido nos campos, não entendemos que essa lei nos atinja de modo algum: não só porque essa lei visa inteiramente os dissidentes, ao passo que nós somos membros da igreja estabelecida, mas também porque (são palavras suas) ela foi evidentemente destinada a reprimir e prevenir a sedição; ao passo que nenhuma sedição, nem a menor aproximação dela, pode com alguma aparência de razão ser posta na nossa conta.

Na sua terceira seção, o senhor afirma: “Que a própria Lei de Tolerância não pode nos proteger, na pregação ao ar livre, das penas das leis anteriores.” Não desejamos que proteja, pois não entendemos estar condenados por nenhuma lei anterior, seja qual for. Tampouco nos atinge o que o senhor acrescenta: “Que a Lei de Tolerância proíbe qualquer assembleia de pessoas que dissentem da Igreja da Inglaterra de se reunir com as portas trancadas”; porque nós não dissentimos dela.

5. Em O Caso dos Metodistas Brevemente Exposto, a sua primeira observação é: “A Lei de Tolerância os deixa sujeitos às penas de várias leis feitas contra assembleias ilícitas.”

Suponho, então, que essas várias leis especifiquem quais são essas assembleias ilícitas, e se são ilícitas por estarem condenadas por leis anteriores ou por terem sido tornadas ilícitas por essas mesmas leis.

E ainda resta provar que as nossas assembleias são ilícitas num ou noutro desses sentidos.

Em seguida, o senhor observa que “os dissidentes de todas as denominações se habilitam segundo a Lei de Tolerância; do contrário, ficam sujeitos às penas de todas as leis enumeradas nessa lei”.

Respondo, como antes: tudo isso erra o alvo. Refere-se inteiramente a “pessoas que dissentem da igreja”. Mas nós não somos essas pessoas. Não dissentimos da igreja. Quem quer que o afirme, nós o desafiamos a prová-lo.

O senhor prossegue: “Uma das leis assim enumeradas (a saber, 22 Carlos II, capítulo 1) é a que proíbe expressamente a pregação ao ar livre, e foi evidentemente destinada não só a reprimir, mas também a prevenir a sedição. Como o título da lei declara, e como o preâmbulo o expressa, para prover remédios adicionais e mais rápidos contra ela.”

Era então essa, segundo o seu próprio juízo, a intenção evidente daquela lei, a saber, prover remédios contra a sedição? O próprio título da lei declara isso? E o preâmbulo também o expressa? Com que justiça, então, com que lisura ou franqueza, com que sombra de verdade ou de razão pode alguém citar essa lei contra nós? Contra nós, de quem o senhor mesmo não suspeita uma intenção de provocar sedição (apelo à sua própria consciência diante de Deus) mais do que uma intenção de mandar pelos ares a cidade de Londres.

6. Até aqui, portanto, não se demonstrou que a pregação ao ar livre seja contrária a alguma lei em vigor. Contudo, “é perigosa”. Nisto o senhor insiste fortemente. “Pode acarretar consequências danosas. Pode dar vantagens aos inimigos do governo estabelecido. Está prenhe de malefícios.” (Observações, seções I e II.)

De que malefícios? Ora, “homens mal-intencionados, reunindo-se nos campos sob pretexto de religião, podem promover motins e tumultos; ou, reunindo-se secretamente, podem tramar conluios ocultos contra o Estado”. (O Caso dos Metodistas, p. 2.)

E, se os próprios metodistas são um povo inofensivo e leal, isso nada tem a ver com a questão. Pois pessoas desleais e sediciosas podem aproveitar essa oportunidade de se ajuntar para executar algum plano oculto. O sr. Whitefield diz que 30, 50 ou 80 mil pessoas assistiram de uma só vez à sua pregação. Ora, 1. Ele não pode conhecer a décima parte de uma congregação assim. 2. Qualquer pessoa pode vir e tramar os planos que quiser. Portanto, 3. Esta é uma grande oportunidade posta nas mãos de pessoas sediciosas para provocar distúrbios.

“Com que segurança para o público essas pregações ao ar livre podem continuar, o mundo que o julgue.” (Ibid., p. 2, 3, 4.)

Posso falar sem ofender? Não consigo crer que o senhor esteja falando a sério. O senhor não pensa o que diz. O senhor crê que o sr. Whitefield teve oitenta mil ouvintes de uma vez? Tanto quanto crê que ele teve oitenta milhões. Toda essa conversa de perigo não é pura astúcia? Lançada unicamente ad movendam invidiam [para despertar a animosidade]? O senhor sabe que os governos em geral são desconfiados, especialmente em tempo de guerra; e por isso apela, como supõe, ao lado fraco deles, na esperança de, se possível, entregar esses hereges ao braço secular. Contudo, responderei como se o senhor falasse com o coração. Pois eu falo a sério, ainda que o senhor não fale.

Primeiro: “O pregador não pode conhecer a décima parte da sua congregação.” Vamos ao estado presente das coisas. As maiores congregações que agora assistem à pregação de algum metodista são (Deus tenha misericórdia de mim!) as que assistem à minha. E não posso eu conhecer a décima parte de uma dessas congregações, seja em Bristol, Kingswood, Newcastle ou Londres? Por estranho que pareça, conheço em geral dois terços da congregação em cada lugar, mesmo no domingo à noite, e nove em cada dez dos que assistem na maioria das outras ocasiões. 2. “Qualquer pessoa pode vir e tramar os planos que quiser.” Não é assim. Toda pregação ao ar livre se faz agora em plena luz do dia. E, se apenas dez pessoas viessem armadas a uma reunião dessas, logo se perguntaria com que intenção vieram. Isto, portanto, não é, 3. “uma grande oportunidade posta nas mãos de pessoas sediciosas para provocar distúrbios”. E, se alguma vez houve distúrbio, foi de um tipo inteiramente diferente.

O público, então, está inteiramente seguro, se não corre outro perigo senão o que provém da pregação ao ar livre.

7. Há ainda outra frase pertencente a este ponto, na oitava seção das Observações: “As sociedades religiosas de Londres e Westminster, diz o senhor, há muitos anos não têm recebido nenhum desestímulo, mas, ao contrário, têm sido apoiadas e incentivadas tanto pelos bispos como pelo clero.” Como é isso? Porventura elas “habilitaram a si mesmas e aos locais de suas reuniões segundo a Lei de Tolerância”? Porventura elas “abraçaram a proteção que essa lei lhes poderia dar, caso cumprissem as condições dela”? Se não, não estão todas “sujeitas às penas das várias leis feitas antes daquele tempo contra assembleias ilícitas”?

Como podem escapar? Porventura “se habilitaram para manter essas assembleias separadas, segundo o teor daquela lei”? “Prestaram, então, os seus vários membros os juramentos ao governo?” E as “portas dos lugares onde se reúnem ficam sempre abertas na hora de tais reuniões”? Presumo que o senhor sabe que não; e que nem “as pessoas nem os lugares estão habilitados como aquela lei determina”.

Como é, então, que “os bispos e o clero apoiam e incentivam” assembleias ilícitas? Se se disser: “Elas se reúnem de modo particular e inofensivo”, isso nada tem a ver com a questão. Se essas reuniões são ilícitas em si mesmas, toda a sua inocuidade não as tornará lícitas. “Ah, mas elas se comportam com modéstia e decência.” Muito bem; mas e a lei? Que tem isso a ver com a lei? Não pode haver outra defesa sólida senão esta: elas não são dissidentes da igreja; portanto, não podem usar a Lei de Tolerância e não precisam dela. E as suas reuniões não são sediciosas; portanto, a lei contra reuniões sediciosas não as atinge.

A aplicação é óbvia. Se as nossas reuniões são ilegais, as delas também são. Mas, se essa alegação é válida (como sem dúvida é) num caso, também é válida no outro.

9. O senhor apresenta outra objeção à nossa maneira de pregar, na segunda parte das Observações. Repetirei a substância dela e responderei tão brevemente quanto puder.

“Eles correm para cima e para baixo, de lugar em lugar e de condado em condado”, isto é, pregam em vários lugares. Isto é sem dúvida verdade. “Arrastam atrás de si multidões confusas de gente”, isto é, “muitos vêm ouvi-los“. Isto também é verdade. “Mas fariam bem em lembrar que Deus não é Deus de confusão nem de tumulto, e sim de paz (1Co 14.33).” Confio que nos lembramos; e não há confusão nem tumulto algum nas nossas maiores congregações, a não ser em raras ocasiões, quando os filhos de Belial se misturam a elas de propósito para perturbar os adoradores pacíficos de Deus.

“Mas a nossa igreja providenciou contra essa pregação para cima e para baixo, na ordenação do presbítero, limitando expressamente o exercício dos poderes então conferidos a ele à congregação para a qual ele for legitimamente designado.”

Respondo: 1. O seu argumento prova demais. Se for aceito tal como o senhor o propõe, prova que nenhum presbítero tem autoridade para pregar ou ministrar os sacramentos em nenhuma outra congregação senão a sua.

2. Se os poderes conferidos estivessem assim limitados quando fui ordenado presbítero, a minha ordenação não teria significado absolutamente nada. Pois não fui designado para congregação alguma, mas fui ordenado como membro daquele “colégio de teólogos” (assim se expressam os nossos estatutos) “fundado para derrubar todas as heresias e defender a fé católica”. [N. do T.: Wesley era membro (fellow) do Lincoln College, em Oxford.]

3. Durante muitos anos depois de eu ter sido ordenado presbítero, nunca se ouviu falar dessa limitação. Não ouvi dela uma só sílaba, a título de objeção, ao meu pregar para cima e para baixo em Oxford ou Londres ou nas regiões vizinhas, em Gloucestershire ou Worcestershire, em Lancashire, Yorkshire ou Lincolnshire. Nem o mais rigoroso defensor da disciplina teve escrúpulo em permitir que eu exercesse esses poderes aonde quer que eu fosse.

4. E, de fato, não é universalmente admitido que todo presbítero, como tal, tem poder, em virtude da sua ordenação, para pregar ou administrar os sacramentos em qualquer congregação, sempre que o pároco ou o cura deseje a sua ajuda? Não enxerga, então, qualquer um através desse pretexto tão fino?

10. “Os bispos e as universidades têm, de fato, poder para conceder licenças a itinerantes. Mas a igreja providenciou para esse caso: eles não devem pregar em nenhuma igreja (Cânon 50) antes de mostrarem a sua licença.”

A igreja providenciou bem para esse caso. Mas que tem esse caso a ver com o caso dos clérigos comuns? Só o bastante para mostrar quão grosseiramente se abusou desse cânon, em Islington em particular, onde os zeladores da igreja foram instruídos a impedir à força que pregasse o presbítero que o próprio vigário havia designado, e a citar esse cânon, que, como o senhor claramente mostra, diz respeito a uma coisa inteiramente diferente.

Na nota, o senhor acrescenta: “O sr. Wesley, perguntado com que autoridade pregava, respondeu: Com a autoridade de Jesus Cristo, a mim transmitida pelo (atual) arcebispo de Cantuária, quando impôs as mãos sobre mim e disse: Recebe autoridade para pregar o evangelho. Nessa resposta, ele houve por bem, por uma razão evidente, omitir esta última parte da comissão, pois ela teria mostrado ao seu leitor a restrição e a limitação sob as quais o exercício do poder é concedido.” Não; eu não imprimi a última parte das palavras por uma razão mais evidente: porque não as disse. E não as disse naquela ocasião porque não me vieram à mente. Embora, provavelmente, se me tivessem vindo, eu não as teria dito, pois a minha única preocupação era responder à pergunta feita com o menor número de palavras possível.

Mas, antes daquelas palavras que o senhor supõe implicarem uma restrição tal que condenaria todos os bispos e clérigos da nação, foram ditas, sem restrição nem limitação alguma, estas outras, que a meu ver conferem um caráter indelével: “Recebe o Espírito Santo para o ofício e a obra de presbítero na Igreja de Deus, agora a ti confiado pela imposição das nossas mãos. Àqueles cujos pecados perdoares, são perdoados; e àqueles cujos pecados retiveres, são retidos. E sê fiel dispensador da Palavra de Deus e dos seus santos sacramentos, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.”

O senhor prossegue: “No mesmo diário, ele declara que considera o mundo inteiro como a sua paróquia, e explica o que quer dizer da seguinte maneira: ‘Em qualquer parte dele em que eu esteja, julgo conveniente, justo e meu dever obrigatório anunciar a todos os que estão dispostos a ouvir as boas-novas da salvação. Esta é a obra para a qual sei que Deus me chamou.’ A saber, com a imposição das mãos do presbitério (1Tm 4.14), que me orienta sobre como obedecer àquela ordem geral: enquanto tivermos oportunidade, façamos o bem a todos (Gl 6.10).”

11. O senhor objeta ainda “que os metodistas não observam a rubrica que antecede o ofício da comunhão, a qual determina que todos os que desejam participar da santa comunhão comuniquem os seus nomes ao cura no dia anterior”. Que cura deseja que o façam? Sempre que algum ministro der ao menos uma semana de aviso sobre isso, garanto que todos os que têm alguma ligação comigo comunicarão os seus nomes dentro do prazo marcado.

O senhor objeta também que eles violam o vigésimo oitavo cânon, que exige “que, se estranhos de outras paróquias vierem com frequência a alguma igreja, sejam remetidos às suas próprias igrejas, para ali receberem a comunhão com os seus vizinhos”.

Mas e se lá não houver comunhão? Então esse cânon não se aplica ao caso; nem o viola quem vai a outra igreja unicamente porque na sua não há comunhão.

Quanto ao seu conselho seguinte, “ter maior consideração pelas regras e ordens da igreja”, não posso, pois agora as considero logo depois da palavra de Deus. E quanto ao último, “renunciar à comunhão com a igreja”, não ouso. Não; que eles nos lancem fora. Nós não vamos abandonar o navio; se nos lançarem dele, então o nosso Senhor nos recolherá.

12. Ao mesmo ponto se pode referir a objeção apresentada certa vez por um homem amigável e franco, a saber, “que era ilícito usar oração improvisada, porque havia um cânon contra isso”.

Não me parecia muito claro que o cânon que ele citou fosse contra a oração improvisada. Mas, supondo que fosse, a minha resposta simples seria: “A esse cânon não ouso obedecer, porque a lei humana só obriga na medida em que é compatível com a palavra de Deus.”

A mesma pessoa objetou que eu não obedecia aos bispos e governantes da igreja. Respondo: obedeço-lhes, e obedecerei, em tudo o que puder com a consciência limpa. De modo que não há fundamento justo para a acusação de que desprezo as regras ou os governantes da igreja. Obedeço-lhes em todas as coisas em que não entendo haver alguma lei particular de Deus em contrário. Mesmo nesse caso, mostro toda a deferência que posso; procuro agir da maneira mais inofensiva possível e estou pronto a me submeter a qualquer pena que a lei me possa impor. Quisera Deus que todo ministro e membro da igreja fosse, nisto, exatamente como eu!

VII. 1. Examinei as principais objeções que ultimamente se têm levantado contra as doutrinas que ensino. Os principais argumentos apresentados contra esta maneira de ensinar também foram examinados. Resta examinar as objeções mais correntes acerca dos efeitos desse ensino.

Muitos afirmam “que ele faz um mal enorme; que tem tido efeitos muito ruins, a ponto de, se algum bem foi feito, não guardar proporção alguma com o mal”.

Mas, para descer aos detalhes: “Primeiro, então, vocês são perturbadores da paz pública.”

O quê? Será que ensinamos ou provocamos sedição? Falamos mal do governante do nosso povo? Ou o incitamos contra alguma das autoridades constituídas sob ele? Promovemos, direta ou indiretamente, facção, motim ou rebelião? Ainda não encontrei nenhum homem em seu juízo perfeito que afirmasse isso.

“Mas é evidente que a paz é quebrada e que surgem distúrbios em consequência da sua pregação.” Admito. Mas o que vocês querem concluir disso? Nunca leram a Bíblia? Não leram que o próprio Príncipe da Paz foi, neste sentido, um perturbador da paz pública? Quando Jesus entrou em Jerusalém (Mt 21.10), toda a cidade se alvoroçou (ἐσείσθη), abalada como por um terremoto. E o distúrbio foi crescendo cada vez mais, até que toda a multidão gritou junta: Fora! Fora! Crucifique-o! E Pilatos decidiu atender-lhes o pedido (Jo 19.15; Lc 23.18, 24). Outro perturbador da paz pública assim foi aquele Estêvão, desde o tempo em que começou a discutir com os da sinagoga dos Libertos e com os cireneus, até que o povo tapou os ouvidos e, unânime, avançou contra ele e, expulsando-o da cidade, o apedrejou (At 6.9; 7.57-58). Perturbadores da paz assim foram todos aqueles cabeças da seita dos nazarenos (comumente chamados apóstolos), que, por onde passavam, promoviam tumulto em todo o mundo (At 17.6). E, acima de todos os outros, aquele Paulo de Tarso, que provocou tanto distúrbio em Damasco (At 9), em Antioquia da Pisídia (cap. 13), em Icônio (cap. 14), em Listra (v. 19), em Filipos (cap. 16), em Tessalônica (cap. 17) e particularmente em Éfeso. A consequência da sua pregação ali foi que a confusão se espalhou pela cidade. E todos juntos foram correndo, uns gritando de uma forma, outros de outra, tanto que a maior parte nem sabia por que motivo estavam reunidos (At 19.29, 32).

2. E podemos esperar que seja diferente agora? Embora o que nós pregamos seja o evangelho da paz, se vocês impedem a nossa pregação com violência e contra a lei, isso não vai gerar distúrbio? Mas observem: o distúrbio começa do seu lado. Tudo está em paz até que vocês provocam esse distúrbio. E então, com toda a modéstia, o atribuem a nós e deixam o seu próprio tumulto à nossa porta!

Mas de tudo isso o nosso Senhor nos avisou de antemão. Não pensem que eu vim trazer paz à terra, isto é, que este será o efeito imediato onde quer que o meu evangelho seja pregado com poder. Não vim trazer paz, mas espada (Mt 10.34): esta (até onde o permitir a sabedoria de Deus, por quem até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados, Mt 10.30) será a primeira consequência da minha vinda, sempre que a minha palavra converter pecadores das trevas para a luz e do poder de Satanás para Deus (At 26.18).

Eu gostaria que todos vocês que veem esta escritura cumprida, pelo distúrbio que se segue à pregação do evangelho, se lembrassem do procedimento daquele sábio magistrado de Éfeso em ocasião semelhante. Ele não atribuiu o distúrbio ao pregador, mas, acenando com a mão à multidão, disse: Senhores efésios, (…) convém que vocês se mantenham calmos e não façam nada de forma precipitada; porque estes homens que vocês trouxeram para cá não profanaram o templo, nem blasfemam contra a nossa deusa (não foram condenados por nenhum crime notório desse tipo, que pudesse de algum modo desculpar essa violência sem lei). Portanto, se Demétrio tem alguma queixa contra alguém, saibam que existem os tribunais e os procônsules (capazes de ouvir e decidir a causa); que se acusem uns aos outros ali. Mas, se vocês estão pleiteando alguma outra coisa, isso será decidido em assembleia regular (At 19.33-39).

3. “Mas vocês criam divisões nas famílias.” Acidentalmente, sim. Suponham, por exemplo, uma família inteira que tenha a forma, mas não o poder da piedade (2Tm 3.5), ou que não tenha nem a forma nem o poder; em qualquer dos casos, seus membros podem, de certo modo, viver de acordo uns com os outros. Mas suponham que, quando estes ouvem a palavra clara de Deus, um ou dois deles se convencem: “Esta é a verdade. E eu estive todo este tempo no caminho espaçoso que conduz para a perdição” (Mt 7.13). Estes, então, começarão a buscar a Deus com pranto, enquanto os demais continuam como estavam. Não vão eles, por consequência, dividir-se e formar partidos separados? Não tem de ser assim, pela própria natureza das coisas? E quão exatamente isso concorda com as palavras do nosso Senhor! Vocês pensam que vim para dar paz à terra? Eu afirmo a vocês que não; pelo contrário, vim para trazer divisão. Porque, daqui em diante, estarão cinco divididos numa casa: três contra dois e dois contra três. Estarão divididos: pai contra filho, filho contra pai; mãe contra filha, filha contra mãe; sogra contra nora e nora contra sogra (Lc 12.51-53). Assim, os inimigos de uma pessoa serão os da sua própria casa (Mt 10.36).

Assim foi desde o princípio. Pois é de supor que um pai pagão suportasse por muito tempo um filho cristão? Ou que um marido pagão vivesse em acordo com uma esposa cristã? A não ser que a esposa crente conseguisse ganhar o marido, ou que o marido descrente convencesse a esposa a renunciar à sua maneira de adorar a Deus; ou, pelo menos, a não ser que ela lhe obedecesse, deixando de ir àquelas sociedades ou conventículos (ἑταιρίαι), como chamavam as assembleias cristãs.

4. Você pensa agora que tenho em vista o seu caso? Sem dúvida que tenho, pois não luto como quem desfere golpes no ar (1Co 9.26). “Por que eu não teria o direito de impedir a minha própria esposa ou o meu filho de ir a um conventículo? E não é dever das esposas obedecer aos maridos? E dos filhos obedecer aos pais?” Basta pôr o caso mil e setecentos anos atrás, e a sua própria consciência lhe dá a resposta. Que teria dito São Paulo a uma mulher cujo marido a proibisse de continuar seguindo este Caminho? Que orientação teria dado o nosso Salvador àquele cujo pai lhe ordenasse que não ouvisse o evangelho? As palavras dele ainda existem: Quem ama o seu pai ou a sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama o seu filho ou a sua filha mais do que a mim não é digno de mim (Mt 10.37-38). Mais ainda: Se alguém vem a mim e não odeia (em comparação comigo) o seu pai, a sua mãe, a sua mulher, os seus filhos e até a sua própria vida, não pode ser meu discípulo (Lc 14.26). [N. do T.: a NAA traz “e não me ama mais do que ama o seu pai”; Wesley segue a redação literal “hateth not”, que explica com o parêntese.]

“Ah, mas este não é um caso paralelo. Pois eles eram pagãos, mas eu sou cristão.” Cristão! Você é mesmo? Entende a palavra? Sabe o que é um cristão? Se você é cristão, tem o mesmo modo de pensar de Cristo Jesus (Fp 2.5) e anda assim como ele andou (1Jo 2.6). Você é santo como ele é santo, tanto no coração como em todo o seu procedimento (1Pe 1.15). Tem você, então, o mesmo modo de pensar de Cristo? E anda como Cristo andou? É santo por dentro e por fora? Receio que nem por fora. Não; você vive em pecado consciente. Ai! Como é, então, que você é cristão? Um caluniador, cristão? Um blasfemador habitual, cristão? Um profanador do dia do Senhor, cristão? Um bêbado ou devasso, cristão? Você é um pagão descarado; a ira de Deus está sobre a sua cabeça e a maldição de Deus sobre as suas costas. A sua condenação não dorme (cf. 2Pe 2.3). É por causa de cristãos assim que o santo nome de Cristo é blasfemado. São pessoas como você que fazem os próprios selvagens nas matas dos índios clamar: “Cristão muito bêbado, cristão bate em gente, cristão conta mentira, cristão do diabo! Mim não cristão.”

E é você que vai dirigir a sua esposa e os seus filhos no caminho da salvação! Ai de você, cristão do diabo! Ai de você, guia cego de cegos (Mt 15.14)! Que fará deles? Filhos do inferno duas vezes mais do que você (Mt 23.15)? Envergonhe-se, core, se é que ainda sabe corar. Esconda o rosto. Deite-se no pó. Das profundezas clame a Deus (Sl 130.1), se porventura ele ouvir a sua voz. Bata no peito agora mesmo. Quem sabe se Deus não o tirará do ventre do abismo (Jn 2.2)?

5. “Mas você não é um desses. Você teme a Deus e se esforça por ter uma consciência pura (At 24.16). E é por um princípio de consciência que impede a sua esposa e os seus filhos de ouvir falsa doutrina.” Mas como sabe que é falsa doutrina? Ouviu-a você mesmo? Ou, se não ouviu, leu com cuidado o que ocasionalmente respondemos em nossa defesa? Um homem de consciência não pode condenar ninguém sem ouvi-lo. Isso não é nem a humanidade mais elementar. Tampouco deixará de ouvir o que pode ser a verdade sem outra razão melhor do que o medo pela sua reputação. Repare: não digo que todo homem (ou qualquer homem) seja obrigado em consciência a nos ouvir. Mas digo, sim, que todo homem na Inglaterra que nos condena é obrigado a nos ouvir primeiro. Isto é apenas a justiça mais elementar, que não se nega nem a um ladrão ou a um assassino. Escolha, portanto. Ou nos ouça, ou não nos condene. Ou não diga absolutamente nada, ou ouça antes de falar.

Mas suponha que você já leu e ouviu mais do que gostaria. Leu e ouviu com imparcialidade? Não estava carregado de preconceito? Não leu ou ouviu sem esperar nada de bom, talvez desejando achar defeito? Se foi assim, que admira que julgue como julga? Que pobre arremedo de julgamento é esse! Você já tinha decidido a causa no seu íntimo antes de ouvir uma só palavra das provas. E ainda assim você fala em agir por consciência? E, ainda por cima, uma consciência pura?

Vamos levar o caso mais adiante. Suponha que a sua censura fosse justa e que essa fosse de fato uma falsa doutrina. Ainda assim, cada um prestará contas de si mesmo diante de Deus (Rm 14.12), e você não pode forçar a consciência de ninguém. Não pode obrigar outra pessoa a ver como você vê. Nem deve tentar. A razão e a persuasão são as únicas armas que você deve usar, mesmo com a sua própria esposa e os seus filhos. E mais: é impossível convencê-los pela fome ou enfiar até mesmo a verdade na cabeça deles a pancadas. Você pode destruí-los desse modo, mas não convertê-los. Lembre-se do que disse o nosso poeta:

“Pela força agem os animais e pela força são contidos;
a mente humana com brandura é conquistada.
Não podes tomar o que eu me recuso a ceder,
nem colher a seara, ainda que arrases o campo.”

6. Todo homem sensato está convencido disso. E talvez você não se preocupe tanto com a doutrina quanto com o dano causado: “Quantas famílias pobres passam fome, se arruínam, são reduzidas à mendicância!” Por quê? Não por contribuírem com um penny por semana (a contribuição habitual nas nossas sociedades) e deixarem de fazê-lo quando quiserem, sempre que houver alguma sombra de razão para supor que não podem arcar com isso. Você não dirá que alguém é reduzido à mendicância por isso. Nem por presentes a mim, pois não recebo nenhum, a não ser (às vezes) o alimento que como. E as coletas públicas nada têm a ver comigo. Para que fique evidente que não têm, sempre que se faz alguma coleta para vestir os pobres, ou para outro fim determinado, o dinheiro é recebido e gasto diante de muitas testemunhas, sem jamais passar pelas minhas mãos. E então se tem também toda a consideração possível pelas condições dos que contribuem com alguma coisa. E a eles se diz e se repete: se há boa vontade, a oferta será aceita conforme o que a pessoa tem (2Co 8.12).

Mas onde estão todas essas famílias que foram reduzidas à mendicância? Como é que nenhuma delas aparece? Estão todas fora da cidade? Então, de fato, não corro o risco de me livrar da acusação delas! É a coisa mais fácil do mundo alguém em Newcastle dizer que eu levei à miséria a ele e a toda a sua parentela. Se um dos homens de barba comprida da ponte do Tyne dissesse isso agora mesmo, eu não poderia refutá-lo de imediato. Mas por que vocês não trazem alguns deles para me dizerem isso na cara? Ainda não encontrei nenhum que o fizesse. Eles pedem que os dispensem.

Lembro-me de um homem que veio a mim com um semblante lastimoso, fazendo muitos gestos de dar pena, abrindo a boca o mais que podia e apontando para ela, como quem diz que “não podia falar”. Perguntei ao seu companheiro o que havia, e fui informado de que “ele tinha caído nas mãos dos turcos, que o trataram de maneira bárbara e lhe cortaram a língua pela raiz”. Acreditei nele. Mas, depois que o homem tomou um trago alegre, achou a língua tão bem quanto qualquer outro. Refleti: como é que pude acreditar tão facilmente naquela história? A resposta foi fácil: “porque era contada a respeito de um turco“. Meu amigo, reconheça aqui o seu próprio caso. Se você não me tivesse tomado primeiro por um turco, ou por algo igualmente ruim, não teria acreditado tão facilmente naquela história!

7. “Mas será possível que não haja fundamento algum para um boato que está na boca de todos?” Direi a você com simplicidade todo o fundamento que consigo conceber. Creio que muitos dos que frequentam o meu ministério têm menos bens deste mundo do que tinham antes, ou, pelo menos, do que poderiam ter se não o frequentassem. Admito esse fato; e ele pode ser facilmente explicado de uma ou outra das maneiras seguintes.

Primeiro, prego com frequência sobre textos como estes: Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. Mas os que querem ficar ricos caem em tentação, em armadilhas e em muitos desejos insensatos e nocivos, que levam as pessoas a se afundar na ruína e na perdição (1Tm 6.8-9). Não acumulem tesouros sobre a terra, onde as traças e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntem tesouros no céu, onde as traças e a ferrugem não corroem, e onde ladrões não escavam, nem roubam (Mt 6.19-20).

Ora, se algum dos que trabalham por todos os meios possíveis para acumular tesouros sobre a terra sentisse estas palavras, não alargaria o seu apetite como a sepultura (Hc 2.5), mas se contentaria com as coisas que tem (Hb 13.5). Então, provavelmente, não amontoaria tanto para os seus herdeiros quanto teria amontoado de outro modo. Estes, portanto, teriam menos do que se não me tivessem ouvido, porque agarrariam menos.

Segundo, onde quer que o evangelho produza efeito, os inimigos de uma pessoa serão os da sua própria casa (Mt 10.36). Desse modo, então, alguns dos que o ouvem e recebem com alegria ficarão mais pobres do que eram antes. Os seus inimigos domésticos, em muitos casos, vão atrapalhar, embaraçar e perturbar o andamento dos seus negócios. E os seus parentes, que antes os ajudavam, ou pelo menos prometiam fazê-lo, provavelmente retirarão ou negarão essa ajuda, a não ser que eles se deixem aconselhar por esses parentes. Talvez os seus parentes mais próximos, pois não é coisa nova os pais deserdarem os filhos se, segundo o Caminho, a que chamam seita, estes servem ao Deus de seus pais (At 24.14). Daí, portanto, alguns terem menos bens deste mundo do que tinham no passado, ou porque ganham menos, ou porque recebem menos daqueles de quem dependem.

Terceiro, está escrito que os que não receberam a marca da besta, na testa ou na mão direita, de forma aberta ou secreta, não tinham permissão para comprar ou vender (Ap 13.16-17). Ora, seja qual for o mistério aqui contido, entendo que a marca evidente da besta é a impiedade: a falta de santidade interior e exterior, tudo o que, em segredo ou abertamente, é contrário à justiça, à misericórdia ou à verdade. E é certo que está bem perto o tempo em que os que não têm essa marca não podem comprar nem vender, mal podem exercer alguma profissão de modo a tirar dela o seu sustento. Por isso, muitos dos que frequentam o meu ministério ficam, por esse meio, mais pobres do que antes. Não querem receber a marca da besta, nem na testa nem na mão; ou, se já a tinham recebido antes, livram-se dela o mais depressa possível. Alguns não podem seguir de modo algum o seu antigo modo de vida (como os penhoristas, os contrabandistas, os compradores ou vendedores de mercadorias que não pagaram imposto); outros não podem segui-lo como antes. Pois não podem oprimir, enganar ou defraudar o seu próximo; não podem mentir nem dizer o que não pensam; têm agora de falar a verdade de coração. Por todas essas razões têm menos bens deste mundo, porque ganham menos do que antes.

Quarto, todos os que querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos (2Tm 3.12); se não de outro modo, pelo menos deste: os homens os insultarão e, mentindo, dirão todo mal contra eles, por causa dele (Mt 5.11). Um efeito inevitável disso será que os homens cujo sustento depende do trabalho diário passarão necessidade com frequência, pois poucos se interessarão em empregar pessoas de tão má fama. E mesmo os que antes os empregavam, talvez por muitos anos, não os empregarão mais; de modo que, assim, alguns podem de fato ser reduzidos à mendicância.

8. Em que isso atinge você? É você um daqueles “que não querem nada com esses miseráveis escandalosos”? Talvez diga: “E quem pode me culpar por isso? Não posso empregar quem eu quiser?” Vamos pesar isso. Você empregou A. B. durante vários anos. Pelo seu próprio relato, era um homem honesto e diligente. Você não tinha nada contra ele, a não ser que seguia este Caminho. Por esse motivo você o despede. Em pouco tempo, tendo gastado o pouco que tinha e sem nenhum socorro, ele passa a não ter pão. E também a sua família, tanto quanto ele. Antes que consiga outro trabalho para obtê-lo, por falta de alimento conveniente para comer e de roupa para vestir, ele adoece e morre. Esta não é uma cena imaginária. Conheci o caso, embora tarde demais para remediá-lo.

“E daí?” Daí que você é um assassino. Ó terra, não cubra o seu sangue! (Jó 16.18). Não, ela não o cobre. O clamor dele chegou aos ouvidos do Senhor dos Exércitos (Tg 5.4). E Deus o requer das suas mãos, e o requererá numa hora em que você não espera (Mt 24.50). Pois você matou aquele homem tão eficazmente como se o tivesse apunhalado no coração.

Não sou eu, então, quem arruína e mata de fome aquela família; é você; você, que se diz protestante! Você, que brada contra o espírito perseguidor dos papistas! Insensatos e cegos! Em que vocês são melhores do que eles? Ora, Edmund Bonner teria matado de fome os hereges na prisão, ao passo que vocês os matam de fome nas suas próprias casas. [N. do T.: Edmund Bonner, bispo de Londres no reinado de Maria I (1553-1558), lembrado pela perseguição aos protestantes.]

E todo esse tempo vocês falam em liberdade de consciência! Sim, liberdade para uma consciência como a de vocês: uma consciência insensível (pois certamente já teve alguma sensibilidade um dia), uma consciência cauterizada (Ef 4.19; 1Tm 4.2). Liberdade para servir ao diabo, segundo a sua pobre consciência endurecida, isso vocês admitem; mas não liberdade para servir a Deus.

E que admira? Quem quer que você seja que lê isto e sente no coração um desejo real de servir a Deus, eu o advirto: não espere liberdade para a sua consciência da parte de quem não tem consciência nenhuma. Todos os homens ímpios, ingratos e profanos, todos os patifes de qualquer denominação, terão de fato liberdade no mundo inteiro, enquanto o seu senhor for o deus deste mundo (2Co 4.4). Mas não espere liberdade para adorar a Deus em espírito e em verdade (Jo 4.24), para praticar a religião pura e sem mácula (Tg 1.27) (a não ser que o Senhor crie coisa nova na terra, Jr 31.22), senão daqueles que eles próprios amam e servem a Deus.

9. “Contudo, é evidente que vocês tornam as pessoas ociosas. E isso tende a reduzir as suas famílias à mendicância.” Como esta objeção tem sido levantada continuamente há alguns anos, vou rastreá-la desde a origem.

Dois ou três anos depois do meu regresso da América, um certo capitão Robert Williams, de Bristol, prestou declaração juramentada perante o (então) prefeito da cidade de que “era voz corrente na Geórgia que o sr. Wesley afastava as pessoas do trabalho e as tornava ociosas por pregar tanto”.

O fato era este: quando cheguei a Savannah, a maior parte do povo se levantava às sete ou oito da manhã. E aqueles que estavam acostumados a trabalhar costumavam trabalhar até as seis da tarde. Alguns às vezes trabalhavam até as sete, que é a hora do pôr do sol ali no meio do verão.

Comecei imediatamente a ler as orações e a expor a segunda lição, tanto de manhã como à tarde. O culto da manhã começava às cinco e terminava às seis ou antes; o da tarde começava às sete.

Ora, supondo que todos os adultos da cidade estivessem presentes toda manhã e toda tarde, isso os teria tornado ociosos? Teriam eles, por isso, menos tempo para trabalhar, ou consideravelmente mais?

10. A mesma regra sigo agora, tanto em Londres como em Bristol e em Newcastle-upon-Tyne: encerro o culto em toda parte, inverno e verão, antes das seis da manhã, e normalmente não começo a pregar antes de perto das sete da noite.

Ora, vocês, que fazem esta objeção, trabalham ao longo do ano mais do que das seis às seis? Desejam que a maioria das pessoas trabalhe mais? Ou podem chamar de ociosos os que trabalham tanto?

Alguns poucos, de fato, estão acostumados a trabalhar mais tempo. A estes aconselho que não venham nos dias de semana. E é evidente que seguem esse conselho, a não ser em alguma ocasião rara e extraordinária.

Mas espero que nenhum de vocês, que os põem para fora do emprego, tenha o atrevimento de falar que eu os torno ociosos! Vocês (como diz a expressão popular) são os primeiros a gritar “pega ladrão”? Admiro a sua esperteza, mas não a sua modéstia. [N. do T.: o original traz a expressão chula “cry wh[ore] first”, que Wesley abrevia: acusar primeiro o outro da falta que se comete.]

Longe de causar ou incentivar a ociosidade, não se permite que nenhuma pessoa ociosa, conhecida como tal, permaneça em qualquer das nossas sociedades; nós a expulsamos como expulsaríamos um ladrão ou um assassino. “Mostrar toda a diligência possível” (assim como a frugalidade) é uma das nossas regras permanentes, e uma regra sobre cuja observância fazemos continuamente a investigação mais rigorosa.

11. “Mas vocês fazem as pessoas perder o juízo. Vocês as deixam loucas.” Ora, então são ociosas de verdade! Esta objeção, portanto, sendo da maior importância, merece a nossa mais profunda consideração.

E, primeiro, admito que é meu desejo sincero levar o mundo inteiro àquilo que vocês provavelmente chamam de loucura (refiro-me à religião interior): torná-los tão loucos quanto Paulo era quando Festo o teve por tal (At 26.24).

Considerar todas as coisas da terra como esterco e escória, contanto que ganhemos a Cristo (Fp 3.8); pisar todos os prazeres do mundo; não buscar tesouro algum senão no céu; não ter nenhum desejo do louvor dos homens, de bom nome, de boa reputação; alegrar-se muitíssimo quando os homens nos insultam, nos perseguem e, mentindo, dizem todo mal contra nós; dar graças a Deus quando pai e mãe nos abandonam, quando não temos alimento para comer nem roupa para vestir, nem amigo senão quem nos atira palavras amargas, nem lugar onde reclinar a cabeça: isso é completo desvario segundo o seu juízo; mas segundo o de Deus é religião sóbria e racional; o fruto genuíno, não de um cérebro desarranjado nem de uma imaginação doentia, mas do poder de Deus no coração, do amor vitorioso e de um espírito sadio (2Tm 1.7). [N. do T.: a NAA traz “de poder, de amor e de moderação”; Wesley segue a redação “of a sound mind”, isto é, de mente sã, que é o ponto do seu argumento.]

12. Admito, em segundo lugar, que é meu empenho levar todos os que puder àquilo que vocês podem chamar de outra espécie de loucura, que normalmente prepara para aquela, e que eu chamo de arrependimento ou convicção.

Não posso descrever isso melhor do que o fez um escritor nosso. Transcreverei, portanto, as suas palavras.

“Quando os homens sentem em si mesmos o pesado fardo do pecado, veem que a condenação é a recompensa dele e contemplam com os olhos da mente o horror do inferno, eles tremem, estremecem e são tocados interiormente pela tristeza do coração, e não podem senão acusar a si mesmos, abrir a sua aflição ao Deus todo-poderoso e clamar a ele por misericórdia. Feito isso com seriedade, a mente deles fica tão ocupada, em parte com tristeza e abatimento, em parte com um desejo ardente de ser livrada desse perigo do inferno e da condenação, que todo desejo de comida e bebida é posto de lado, e em seu lugar vem o fastio (ou a aversão) por todas as coisas e prazeres do mundo. De modo que nada então lhes agrada mais do que chorar, lamentar, prantear e mostrar, tanto com palavras como com a postura do corpo, que estão cansados da vida.”

Ora, e se a sua esposa, a sua filha ou uma conhecida, depois de ouvir um desses pregadores ao ar livre, viesse lhe dizer que via a condenação diante de si e contemplava com os olhos da mente o horror do inferno? E se ela tremesse e estremecesse, e ficasse tão tomada, em parte com tristeza e abatimento, em parte com um desejo ardente de ser livrada desse perigo do inferno e da condenação, a ponto de chorar, lamentar, prantear e mostrar, tanto com palavras como com a postura, que estava cansada da vida: você hesitaria em dizer que ela estava completamente louca? Que esses sujeitos a tinham feito perder o juízo? E que o escritor, fosse quem fosse, que falasse desse jeito estava mais para Bedlam do que para qualquer outro lugar? [N. do T.: Bedlam era o nome popular do Hospital de Bethlem, o hospício de Londres.]

Desta vez você se excedeu de verdade. Estas são as palavras exatas da nossa própria igreja. Pode lê-las, se quiser, na primeira parte da Homilia sobre o jejum. E, por conseguinte, o que você peremptoriamente decidiu ser pura loucura e ruína é aquele arrependimento para a vida (At 11.18) que, a juízo tanto da igreja como de São Paulo, a ninguém traz pesar (2Co 7.10).

13. Admito, em terceiro lugar, que em alguns casos essa convicção foi acompanhada de circunstâncias extraordinárias. Já dei muitas vezes um relato pormenorizado delas. Enquanto a palavra de Deus era pregada, algumas pessoas caíram como mortas; outras ficaram como que em fortes convulsões; outras gritaram alto, embora sem voz articulada; e outras exprimiram com palavras a angústia da sua alma.

Isto, suponho, vocês julgam ser perfeita loucura. Mas é facilmente explicável, seja por princípios da razão, seja da Escritura.

Primeiro, por princípios da razão. Pois quão fácil é supor que uma percepção forte, viva e repentina da gravidade do pecado, da ira de Deus e das dores amargas da morte eterna afete o corpo tanto quanto a alma, segundo as leis atuais da união vital; que interrompa ou perturbe a circulação habitual e tire a natureza do seu curso! Sim, podemos até perguntar se, enquanto subsiste essa união, é possível a mente ser afetada em grau tão violento sem que se siga um ou outro desses sintomas corporais.

É igualmente fácil explicar essas coisas por princípios da Escritura. Pois, quando as consideramos sob essa luz, temos de acrescentar à consideração das causas naturais a ação daqueles espíritos que ainda se destacam em força e que, na medida em que Deus lhes permite, não deixarão de atormentar aqueles a quem não podem destruir, de agitar com violência aqueles que estão vindo a Cristo (cf. Lc 9.42; Mc 9.20). É também digno de nota que há um precedente claro na Escritura para cada sintoma que ultimamente apareceu. De modo que não podemos considerar loucura nem mesmo a convicção acompanhada dessas coisas sem abrir mão tanto da razão como da Escritura.

14. Admito, em quarto lugar, que traços de extravagância, beirando a loucura, podem às vezes acompanhar uma convicção intensa. E também isto é fácil de explicar pelas leis atuais da economia animal. Pois sabemos que o medo ou a tristeza, por uma causa temporal, podem ocasionar uma febre e, por meio dela, um delírio.

Não é de estranhar, então, que alguns, sob fortes impressões de tristeza ou medo nascidas do senso da ira de Deus, esqueçam por algum tempo quase tudo o mais e mal consigam responder a uma pergunta comum; que alguns imaginem ver as chamas do inferno, ou o diabo e os seus anjos ao seu redor; ou que outros, por um tempo, tenham medo, como Caim: quem se encontrar comigo me matará (Gn 4.14). Todos esses efeitos, e quaisquer outros menos comuns que às vezes acompanhem essa convicção, distinguem-se facilmente da doença natural da loucura, ainda que só por esta circunstância: sempre que a pessoa convicta prova o amor perdoador de Deus, todos eles desaparecem num instante.

Por fim, vi um caso (peço a Deus que não veja outro assim!) de loucura real e duradoura.

Há dois ou três anos, levei comigo a Bristol um homem que estava sob profunda convicção, mas de entendimento tão são em todos os aspectos como jamais estivera na vida. Fiz uma breve viagem e, quando voltei a Bristol, encontrei-o realmente desvairado. Indaguei minuciosamente em que momento, em que lugar e de que maneira esse distúrbio havia começado. E creio que há pelo menos sessenta testemunhas vivas e prontas a atestar o que se segue. Quando parti de Bristol, ele travou amizade com algumas pessoas que não eram da mesma opinião que eu. Logo ficou prevenido contra mim; pouco depois, quando a nossa sociedade estava reunida na casa de Kingswood, ele começou uma violenta invectiva tanto contra a minha pessoa como contra as minhas doutrinas. No meio disso, foi acometido de loucura furiosa. E assim continuou até que os seus amigos o internaram em Bedlam; e, provavelmente, puseram também a loucura dele na minha conta.

15. Receio que possa haver também alguns casos de loucura real procedentes de outra causa.

Suponham, por exemplo, que uma pessoa, ao me ouvir, fique fortemente convencida de que um mentiroso não pode entrar no reino dos céus. Ela volta para casa, conta isso aos pais ou aos amigos e parece muito inquieta. Esses bons cristãos ficam perturbados com isso e temem que ela também esteja enlouquecendo. Decidem que ela nunca mais ouvirá nenhum daqueles sujeitos, e se mantêm firmes nisso, apesar de todas as súplicas dela. Não a deixam ficar sozinha quando está em casa, com medo de que leia ou ore. E talvez, depois de algum tempo, a obriguem, ao menos com insistências repetidas, a fazer de novo exatamente aquilo por causa do qual ela se convencera de que a ira de Deus vem sobre os filhos da desobediência (Ef 5.6).

Qual é o resultado disso? Às vezes o Espírito de Deus é apagado e se afasta dela. Pronto: vocês conseguiram o que queriam. A pessoa está tão tranquila como sempre e continua pecando sem nenhum remorso. Mas, em outros casos, quando essas convicções penetram fundo e as flechas do Todo-Poderoso estão cravadas na alma (Jó 6.4), vocês levarão a pessoa a uma loucura real e permanente antes de conseguirem apagar o Espírito de Deus. Receio que tenha havido vários casos assim. Vocês forçaram a consciência do homem até deixá-lo completamente louco. Mas então, por favor, não me atribuam essa loucura. Se o tivessem deixado sob a minha direção, ou melhor, sob a direção do Espírito de Deus, ele teria ficado cheio de amor e de mente sã. Mas vocês tiraram a questão das mãos de Deus. E agora a levaram a uma bela conclusão!

16. Com que frequência isso acontece, não sei. Mas, sem dúvida, a maioria dos que fazem esta objeção, de que levamos as pessoas à loucura, nunca encontrou um caso assim na vida. O clamor comum é provocado ou pelos que estão convictos do pecado, ou pelos que estão interiormente convertidos a Deus: pura loucura, ambas as coisas (como já se observou), para os que estão sem Deus no mundo (Ef 2.12). Contudo, não nego que vocês possam ter visto em Bedlam alguém que dizia ter seguido a mim. Mas observem: o fato de um louco dizer isso não prova o fato; e mais, ainda que ele realmente me tivesse seguido, deve-se considerar além disso que estar em Bedlam não é prova segura de estar louco. Testemunha disso é o caso bem conhecido do sr. Periam; e receio que haja outros assim. Sim, ainda bem se alguns não foram mandados para lá sem outra razão senão a de me seguirem: os seus bondosos parentes ou concluindo que tinham de estar desvairados para fazer isso, ou, talvez, esperando que Bedlam os tornasse loucos, se não os encontrasse assim.

17. E é preciso reconhecer que um confinamento desse tipo é tão próprio para causar o desvario como para curá-lo. Pois que cena de aflição se pode comparar a ela? Ser separado de uma vez de todos os que lhe são próximos e queridos; ser privado de toda conversa razoável; ser afastado de todo trabalho, de toda leitura, de toda distração inocente da mente, que fica entregue a devorar-se inteiramente a si mesma e a remoer dia e noite as suas desgraças; ser trancado dia após dia numa cela sombria, tendo só as paredes para ocupar os olhos pesados, no meio ou de um silêncio melancólico, ou de gritos horríveis, gemidos e risadas misturados; ser forçado, pela pura força bruta daqueles

“Que zombam da natureza humana e da compaixão”,

a tomar beberagens nauseantes de remédios, talvez torturantes, dos quais você sabe que agora não precisa, mas não sabe quão logo poderá precisar, possivelmente pela ação dessas mesmas drogas sobre uma constituição fraca e delicada: isto sim é aflição! É uma coisa assombrosa, uma prova notável do poder de Deus, se alguma criatura que está em seu juízo quando começa o confinamento não o perde antes que ele termine!

Quanto deve aumentar a aflição se um pobre infeliz desses, profundamente convicto do pecado e piorando cada vez mais (como provavelmente acontecerá, visto que ali não há remédio para a doença dele, nem um médico como o seu caso exige), for logo colocado entre os incuráveis! Pode a própria imaginação pintar um inferno assim sobre a terra? Onde nem sequer “chega a esperança, que chega a todos”! Pois que remédio há? Se um homem de bom senso e de humanidade calhasse de visitar aquela casa de dor, daria ouvidos à história de um louco? Ou, se desse, acreditaria nela? “Não sabemos”, poderia ele dizer, “quão bem qualquer um destes fala nos seus intervalos de lucidez?” De modo que, mil contra um, ele não se ocuparia mais com o assunto, mas deixaria o cansado esperar pelo descanso na sepultura!

18. Respondi agora à maioria das objeções correntes, particularmente às que pareceram ter peso para homens religiosos ou sensatos. Procurei mostrar, primeiro, que as doutrinas que ensino não são outras senão as grandes verdades do evangelho. 2. Que, embora eu as ensine não como gostaria, mas como posso, faço-o de uma maneira que não é contrária à lei. E 3. Que os efeitos de pregar assim o evangelho não foram tais como se relatou, por fraqueza ou por maldade, sendo esses relatos meros artifícios do diabo para impedir a obra de Deus. Quem quer que vocês sejam, portanto, que esperam que Deus avive a sua obra no decorrer dos anos (Hc 3.2), clamem em alta voz para que, apesar de tudo, ele a leve a termo, para que a abrevie em justiça (Rm 9.28) [N. do T.: a NAA traz “o Senhor cumprirá a sua palavra sobre a terra, de forma plena e em breve”]. Clamem ao Ungido, o Príncipe (Dn 9.25), para que logo acabe com a transgressão (Dn 9.24), para que erga o seu estandarte sobre a terra, enviando por meio de quem quiser enviar e realizando a sua própria obra quando lhe aprouver e como lhe aprouver, até que diante dele se prostrem todas as famílias das nações (Sl 22.27) e a terra se encha do conhecimento da glória do Senhor (Hc 2.14)!

22 de dezembro de 1744.

Um Ato de Devoção

1 Eis o servo do Senhor! (cf. Lc 1.38)
Espero sentir o teu olhar que me guia,
ouvir e guardar cada palavra tua,
provar e fazer a tua perfeita vontade.
Alegre por cessar de todas as minhas obras,
contente em cumprir toda a justiça (cf. Mt 3.15).

2 Se a tua graça se dignar a usar-me,
a mim, o mais ínfimo de todas as tuas criaturas,
escolhe tu a obra, o tempo, o modo;
que todo o meu fruto seja achado em ti,
que todas as minhas obras sejam feitas em ti,
por ti levadas à plena perfeição.

3 Todo o meu propósito, fraco ainda que bom,
domina, ou muda como te parecer conveniente;
Jesus, que toda a obra seja tua;
a tua obra, ó Senhor, é inteiramente perfeita,
e agradável aos olhos do teu Pai;
só tu fizeste todas as coisas bem (cf. Mc 7.37).

4 Aqui, então, deixo a ti o que é teu,
modela como quiseres o barro passivo (cf. Jr 18.6);
mas faze-me receber toda a tua marca,
faze-me obedecer a todas as tuas palavras,
servir com coração e olhos íntegros,
e para a tua glória viver e morrer.

Tradução para o português a partir de John Wesley, An Earnest Appeal to Men of Reason and Religion (1743) e A Farther Appeal to Men of Reason and Religion, partes I a III (1745), no texto revisto por Wesley para as suas Obras (Bristol, William Pine, 1772, vols. 14 e 15; transcrição do Projeto Gutenberg); domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.