John Wesley · Apelos aos Homens de Razão e Religião · Apelo Adicional, Parte I (continuação)
A natureza da fé que salva e a obra do Espírito Santo no crente, com a resposta à acusação de entusiasmo e às objeções de autores e bispos da época.
O autor mencionado por último “não consegue entender como aqueles textos de São João vêm de algum modo ao caso”: 1João 3.1, Vejam que grande amor o Pai nos tem concedido, a ponto de sermos chamados filhos de Deus; e o capítulo 4.19, Nós amamos porque ele nos amou primeiro. Respondo: 1. Esses textos não foram apresentados no Apelo como prova, mas apenas como ilustração. Mas, 2., entendo que podem ser apresentados como prova, tanto de que a fé cristã implica uma confiança no amor de Deus como de que tal confiança tende diretamente à salvação, à santidade tanto do coração como da vida.
Vejam que grande amor o Pai nos tem concedido, a ponto de sermos chamados filhos de Deus! (1Jo 3.1) Não são essas palavras uma expressão da fé cristã? Expressão tão direta quanto se possa conceber? E apelo a todo homem: não exprimem elas a mais forte confiança no amor de Deus? O seu próprio comentário põe isso fora de discussão: “Consideremos atentamente, e com o coração agradecido, o grande amor e a misericórdia de Deus, ao nos chamar para sermos seus filhos e ao nos conceder os privilégios que a eles pertencem.” Não percebe o senhor que entregou a causa? O senhor mesmo nos ensinou que essas palavras implicam “um senso do grande amor e da misericórdia de Deus ao nos conceder os privilégios que pertencem aos seus filhos”.
O apóstolo acrescenta: Amados, agora somos filhos de Deus, mas ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é (1Jo 3.2).
Suponho que ninguém dirá que essas palavras não exprimem a fé cristã, ou que não implicam a mais forte confiança no amor de Deus. E segue: E todo o que tem essa esperança nele purifica a si mesmo, assim como ele é puro (1Jo 3.3).
Daí se vê que essa fé é uma fé salvadora, e que existe a mais estreita ligação entre essa fé e a santidade. Esse texto, portanto, vem diretamente ao caso, com respeito às duas proposições que se tinha de provar.
O outro é: Nós amamos porque ele nos amou primeiro (1Jo 4.19). E também aqui, com receio de que eu falhasse na prova, o senhor a deixou pronta nas minhas mãos:
“Deus enviou o seu único Filho para nos redimir do pecado, comprando para nós a graça e a salvação. Por essa graça, mediante a fé e o arrependimento, temos os nossos pecados perdoados; e, portanto, somos obrigados a lhe pagar o tributo do nosso amor e da nossa gratidão e a obedecer-lhe fielmente enquanto vivermos.”
Ora, o fato de termos os nossos pecados perdoados, se não sabemos que estão perdoados, não pode obrigar-nos nem ao amor nem à obediência. Mas, se o sabemos, e por esse mesmo conhecimento, ou confiança no amor perdoador de Deus, somos tanto obrigados como capacitados a amá-lo e obedecer-lhe, isso é tudo o que defendo.
2. Mais adiante, o senhor faz objeção a outros textos que eu tinha citado para ilustrar a natureza da fé salvadora. As minhas palavras foram: “Ouçam Jó, o crente, declarando a sua fé: Eu sei que o meu Redentor vive (Jó 19.25).” Afirmo aqui duas coisas: 1. Que Jó era então um crente. 2. Que declarou a sua fé nessas palavras. E tudo o que afirmo o senhor admite. As suas próprias palavras são: “Aprouve a Deus conceder-lhe uma forte certeza do seu favor, inspirá-lo com uma profecia da ressurreição e de que ele teria parte nela.”
Prossegui: “Ouçam Tomé, quando, tendo visto, creu, exclamando: Senhor meu e Deus meu! (Jo 20.28)” Sobre isso o senhor comenta assim: “O significado disso é que São Tomé faz uma confissão tanto da sua fé como do seu arrependimento.” Concordo com o senhor. Mas o senhor acrescenta: “na confissão de São Tomé não está implícita uma certeza do perdão”; e nisso o senhor não consegue concordar consigo mesmo, pois logo em seguida acrescenta: “Se ela implicasse tal certeza, ele bem poderia tê-la, visto que teve uma revelação imediata dela da parte do próprio Deus.”
No entanto, pouco antes o senhor se esforçou por provar que alguém que não era em nada inferior aos mais eminentes apóstolos não tinha tal certeza. Ali, para mostrar que a fé não implica isso, o senhor disse: São Paulo, parece-me, decidiu plenamente esta questão (1Co 4.4): A consciência não me acusa de nada, diz ele, mas nem por isso me dou por justificado. “E se um apóstolo tão iluminado não se considera justificado”… Então admito que ele decidiu plenamente a questão. Mas, antes de o senhor se fixar de vez nessa conclusão, tenha a bondade de se lembrar do seu próprio comentário, que vem a seguir, sobre aquelas outras palavras de São Paulo: esse viver que agora tenho, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim (Gl 2.20). As suas palavras são: “E sem dúvida uma pessoa dotada de dons tão extraordinários poderia chegar a um grau muito elevado de certeza.” De modo que ele chegou a um grau muito elevado de certeza, embora não se considerasse justificado!
Mal posso crer que o senhor tenha lido aquele capítulo aos Colossenses do começo ao fim; do contrário, certamente não afirmaria que aquelas palavras sobre as quais recai o peso (a saber: Ele nos libertou do poder das trevas e nos transportou para o Reino do seu Filho amado, em quem temos a redenção, a remissão dos pecados, Cl 1.13-14) não se referem a Paulo e a Timóteo, que escreveram a epístola, mas aos colossenses, a quem escreveram. Não preciso dar-me o trabalho de responder a isso, pois logo depois as suas próprias palavras são: “ele nos fez, referindo-se aos colossenses e também a si mesmo, aptos para ser herdeiros” [N. do T.: assim na versão inglesa de Cl 1.12; a NAA traz “que os capacitou a participar da herança dos santos na luz”]…
3. O senhor pode facilmente observar que citei o Concílio de Trento de memória, por não ter então o livro à mão. Reconheço o meu erro e agradeço-lhe por corrigi-lo; mas, ao corrigir um, o senhor comete outro. Pois os decretos da sexta sessão não foram “publicados em 13 de janeiro”: foi a própria sessão que começou nesse dia.
Não posso deixar de reproduzir as suas palavras seguintes, embora não digam respeito exatamente à presente questão.
“As palavras do 12º cânon do Concílio de Trento são:”
“Se alguém disser que a fé justificadora não é outra coisa senão a confiança na misericórdia divina, que perdoa os pecados por amor de Cristo, e que essa confiança é a única coisa pela qual somos justificados, seja anátema.” O senhor acrescenta:
“Isto, meu senhor, tenho certeza de que é doutrina verdadeira e perfeitamente de acordo com a doutrina da nossa Igreja. E assim o senhor não só é anatematizado pelo Concílio de Trento, mas também condenado pela nossa própria Igreja.”
“A nossa Igreja não sustenta opinião tão escandalosa e vergonhosa.” “Segundo a nossa Igreja, ninguém pode ter ‘a verdadeira fé, se não tiver um coração amoroso’. Portanto, a fé não é a confiança de que os pecados de alguém estão efetivamente perdoados e de que ele está reconciliado com Deus.” (Que têm as premissas a ver com a conclusão?)
4. Para decidir isso, que a nossa Igreja fale por si mesma, e se veja se ela não supõe e ensina que cada crente em particular sabe que os seus pecados estão perdoados e que ele mesmo está reconciliado com Deus.
Em primeiro lugar, pois, a nossa Igreja supõe e ensina que cada crente em particular diga a respeito de si mesmo: “No meu batismo fui feito membro de Cristo, filho de Deus e herdeiro do reino dos céus. E dou graças a Deus, que me chamou a esse estado de salvação. E rogo a Deus que eu nele permaneça até o fim da minha vida.”
Ora, essa pessoa sabe que é verdade o que diz? Se não sabe, é a mais grosseira hipocrisia. Mas, se sabe, então sabe que ela em particular está reconciliada com Deus.
As palavras que vou citar a seguir podem servir de comentário a essas. Que Deus as escreva em nosso coração!
“O verdadeiro cristão, que é de fato membro de Cristo, templo do Espírito Santo, filho de Deus e verdadeiro herdeiro do reino eterno dos céus, não tem medo de morrer. Muito pelo contrário, ele não só afasta o medo da morte, mas também a deseja, a almeja e por ela anseia de todo o coração.” Homilia contra o medo da morte, parte I.
Pode ser assim, a não ser que ele tenha a firme confiança de que ele, em particular, está reconciliado com Deus?
“Os homens comumente temem a morte, primeiro, porque deixarão os seus bens e prazeres mundanos; 2., por medo das dores da morte; e, 3., por medo da condenação perpétua. Mas nenhuma dessas causas perturba os homens bons, porque eles se firmam na verdadeira fé, na perfeita caridade e na firme esperança da alegria sem fim e da felicidade eterna.” Ibidem, parte II.
“Todos esses, portanto, têm grande motivo para estar cheios de alegria e não temer a morte nem a condenação eterna. Pois a morte não pode privá-los de Jesus Cristo; a morte não pode tirá-lo de nós, nem a nós dele. A morte não só não pode nos fazer mal, como também nos será proveitosa e nos unirá mais perfeitamente a Deus. E disso um coração cristão pode ter plena certeza. Foi o próprio Deus, diz São Paulo, quem nos deu o penhor do Espírito (2Co 5.5). Enquanto estamos no corpo, estamos em terra estranha. Mas preferimos estar em casa com Deus.” Ibidem.
Quem passa correndo pode ler (Hc 2.2), em todas essas palavras, a confiança que a nossa Igreja supõe que cada crente em particular tenha de que ele mesmo está reconciliado com Deus.
Prosseguindo: “O único instrumento da salvação exigido de nossa parte é a fé, isto é, uma firme segurança e confiança de que Deus tanto perdoou como perdoará os nossos pecados, de que nos recebeu de novo no seu favor, pelos méritos da morte e paixão de Cristo.” Segunda homilia sobre a Paixão.
“Mas aqui devemos tomar cuidado para não claudicar diante de Deus com uma fé inconstante e vacilante. Pedro, indo a Cristo sobre as águas, porque desfaleceu na fé, correu o risco de se afogar. Assim nós, se começarmos a vacilar ou a duvidar, é de temer que afundemos como Pedro: não na água, mas no abismo sem fundo do fogo do inferno. Portanto, eu lhes digo que devemos apropriar-nos dos méritos da morte de Cristo pela fé, e isso com uma fé forte e firme, sem duvidar em nada de que Cristo, pela sua própria oblação, tirou os nossos pecados e nos restituiu ao favor de Deus.” Ibidem.
5. Se ainda se disser que a Igreja fala apenas dos homens em geral, e não da confiança desta ou daquela pessoa em particular, até mesmo esse último e pobre subterfúgio é inteiramente cortado pelas seguintes palavras:
“Tu, ó homem, recebeste o corpo de Cristo, que uma vez foi partido, e o seu sangue, que foi derramado para a remissão do teu pecado. Recebeste o seu corpo para ter dentro de ti o Pai, o Filho e o Espírito Santo, para que te dotem de graça e te consolem com a sua presença. Recebeste o seu corpo para te dotar de justiça eterna e te assegurar a felicidade eterna.” Homilia sobre a ressurreição.
Acrescentarei apenas mais uma passagem, da primeira parte da homilia sobre o sacramento:
“Tenha uma fé firme e constante, não só de que a morte de Cristo vale para todo o mundo, mas de que ele fez um sacrifício pleno e suficiente por você, uma purificação perfeita dos seus pecados, de modo que você possa dizer com o apóstolo: ele amou você e se entregou por você (Gl 2.20). Pois isso é fazer de Cristo o seu próprio Cristo e aplicar os seus méritos a si mesmo.”
Que todo homem sensato julgue agora por si mesmo qual é o sentido da nossa Igreja quanto à natureza da fé salvadora. Não fica abundantemente claro que a Igreja da Inglaterra supõe que cada crente em particular tenha a firme confiança de que os seus pecados estão perdoados e de que ele mesmo está reconciliado com Deus? Sim, e como se poderia afirmar mais forte ou mais peremptoriamente a necessidade absoluta dessa fé, dessa confiança inabalável, do que nestas palavras: “Se começarmos a vacilar ou a duvidar, é de temer que afundemos como Pedro: não na água, mas no abismo sem fundo do fogo do inferno”?
6. De bom grado eu despediria aqui este escritor. Eu tinha dito no Apelo Sincero (e disso me convenço cada dia mais) que essa fé é comumente dada num momento. Isso o desagrada muito. O seu argumento contra isso, posto em forma, ficará assim:
“Os que primeiro apreenderam o sentido das palavras transmitidas, depois deram o seu assentimento a elas, depois tiveram confiança nas promessas a que assentiram e, por fim, amaram a Deus, não receberam a fé num momento.”
Mas os crentes mencionados em Atos primeiro apreenderam o sentido das palavras, depois deram o seu assentimento, depois tiveram confiança nas promessas e, por fim, amaram a Deus. Portanto,
“Os crentes mencionados em Atos não receberam a fé num momento.”
Nego a premissa maior. Eles podiam primeiro apreender, depois assentir, depois confiar, depois amar, e ainda assim receber a fé num momento: naquele momento em que a sua confiança geral se tornou particular, de modo que cada um podia dizer: “Senhor meu e Deus meu!”
Darei ainda o trabalho de transcrever mais um parágrafo: “O senhor insinua que os sacramentos são apenas requisito para o bem-estar de uma igreja visível, ao passo que a Igreja declara que a devida administração deles é uma propriedade essencial dela. Suponho que o senhor insinuou isso para agradar aos seus queridos discípulos, os quakers.”
Isto é claro e categórico. Aqui se afirma positivamente um fato e também se lhe atribui um motivo. Ora, o senhor se considera um homem de franqueza, e eu quase diria de honestidade comum? As minhas próprias palavras, no lugar a que o senhor se refere, são: “Uma igreja visível é uma congregação de fiéis. Essa é a sua essência. E as propriedades dela são que nela se pregue a pura palavra de Deus e se administrem devidamente os sacramentos.”
7. Antes de me despedir, não posso deixar de lhe recomendar aquele conselho de um homem sábio e bom:
“Sê calmo ao discutir; pois a fúria faz
do erro uma culpa, e da verdade, descortesia.”
Entristece-me o seu extremo ardor: o senhor está completamente mal-humorado desde o começo do seu livro até o fim. Isso não pode me prejudicar. Mas pode prejudicar o senhor mesmo. E em nada ajuda a sua causa. Ainda que o senhor lance contra mim todas as maldições de Gênesis ao Apocalipse, elas não somarão um só argumento. Estou disposto (até onde me conheço) a ser repreendido pelo senhor ou por qualquer outro. Mas, faça o que fizer, que seja feito em amor, em paciência, em mansidão de sabedoria (Tg 3.13).
V. 1. Quanto ao autor da fé e da salvação, fizeram-se objeções em abundância, pois é opinião corrente que “os cristãos não devem receber agora o Espírito Santo”.
Assim, sempre que falamos do Espírito de Deus, das suas operações na alma dos homens, de ele nos revelar as coisas de Deus, ou de nos inspirar bons desejos ou boas disposições; sempre que mencionamos o sentir o seu grande poder, que efetua em nós segundo a sua boa vontade (Fp 2.13), a resposta geral que devemos esperar é: “Isto é entusiasmo puro. Assim era com os apóstolos e os primeiros cristãos. Mas hoje só os entusiastas pretendem isso.”
Desse modo, todas as passagens da Escritura, das quais se poderia apresentar grande número, são postas de lado de um só golpe. E quem quer que as cite como pertencentes a todos os cristãos é tido por entusiasta.
O primeiro tratado que vi, escrito expressamente sobre este ponto, tem um título notável:
“As operações do Espírito Santo são imperceptíveis, e como os homens podem saber quando estão sob a direção e a influência do Espírito.”
O senhor começa: “Como há entre nós alguns que pretendem ter uma direção mais que ordinária do Espírito (na verdade eu não pretendo: não pretendo outra direção senão a que é dada ordinariamente a todos os cristãos), talvez não seja impróprio discorrer sobre a operação do Espírito Santo de Deus.”
“Para esse fim, digna-te, ó graciosa fonte da verdade, assistir-me com a tua direção celestial ao falar de ti.”
Ah, senhor, que necessidade tem o senhor de falar mais? Já concedeu tudo o que desejo, a saber, que “todos nós podemos agora desfrutar da direção celestial do Espírito de Deus e saber que dela desfrutamos”.
No entanto, o senhor prossegue e observa que os dons extraordinários do Espírito Santo foram concedidos somente aos primeiros cristãos, mas as suas graças ordinárias a todos os cristãos de todas as épocas; e então tenta enumerar umas e outras, suspendendo apenas um pouco o seu discurso quando “alguns entusiastas presunçosos” lhe aparecem no caminho.
2. Em seguida, o senhor pergunta: “De que maneira essas graças são despertadas em nossa alma?” E responde: “Como distinguir esses movimentos celestiais das operações naturais da nossa mente, não temos luz para descobrir. As Escrituras declaram que as operações do Espírito Santo não estão sujeitas a nenhum sentimento ou percepção sensível. Pois que comunicação pode haver entre sentimentos, que são propriedades peculiares à matéria, e as sugestões do Espírito? Todos os cristãos sensatos creem que ele opera as suas graças em nós de maneira imperceptível, e que não há diferença sensível entre as operações dele e as operações naturais da nossa mente.”
Entendo que essa é a força da sua causa. Para sustentar a conclusão de que as operações do Espírito são imperceptíveis, o senhor alega aqui: 1. “Que todos os cristãos sensatos creem nisso.” É o que o senhor diz. Mas eu quero prova. 2. “Que não pode haver comunicações (receio que o senhor tenha errado a palavra) entre as sugestões do Espírito e os sentimentos, que são propriedades peculiares à matéria.” Como?! Os sentimentos de que agora se trata são propriedades peculiares à matéria? O sentimento de paz, de alegria, de amor? Ou quaisquer sentimentos? Não consigo entender a filosofia disso mais do que a teologia. 3. “Que as Escrituras declaram que as operações do Espírito não estão sujeitas a nenhum sentimento sensível.” O senhor está aqui refutando, segundo supõe, uma proposição minha. Mas tem certeza de que a entende? Por sentir quero dizer ter consciência interior de algo. Por operações do Espírito não quero dizer a maneira como ele opera, mas as graças que ele opera no cristão. Ora, tenha a bondade de apresentar as passagens da Escritura que declaram “que o cristão não pode sentir nem perceber essas operações”.
3. Não está o senhor convencido de que me imputou coisas que eu desconheço? Não lhe digo gravemente (por mais entusiasta que o senhor repetidas vezes afirme que eu seja) “que eu sinto sensivelmente (no sentido em que o senhor o entende) os movimentos do Espírito Santo”. Muito menos faço “disso, como tampouco de convulsões, agonias, uivos, rugidos e violentas contorções do corpo”, quer “sinais seguros de que os homens estão em estado de salvação”, quer “coisas necessárias para chegar a ele”. Com igual justiça e verdade, o senhor poderia informar ao mundo, e aos mui dignos magistrados de Newcastle, que faço do ver o vento, ou do sentir a luz, coisa necessária à salvação.
Nem eu “confundo as operações extraordinárias do Espírito com as ordinárias”. E, quanto à sua última pergunta, “Qual é a melhor prova de que somos guiados pelo Espírito?”, nada tenho a objetar àquela resposta justa e bíblica que o senhor mesmo deu: “Uma completa mudança e renovação da mente e do coração, e uma vida nova e santa.”
4. “Que eu confundo as operações extraordinárias do Espírito com as ordinárias e, portanto, sou um entusiasta” é também alegado com veemência numa instrução pastoral dirigida ao seu clero e publicada recentemente pelo bispo de Lichfield e Coventry.
Acrescento um extrato da primeira parte dela, nas palavras do bispo:
“Não posso considerar impróprio prevenir o contágio daquelas pretensões entusiásticas que ultimamente arrastaram multidões inteiras à presunção ou à melancolia. O entusiasmo, de fato, quando desmascarado, tende a gerar a incredulidade; e a incredulidade é coisa tão chocante que muitos preferem correr para o outro extremo e refugiar-se no entusiasmo. Mas a incredulidade e o entusiasmo parecem agora agir de comum acordo contra a nossa religião estabelecida. Como a incredulidade já foi suficientemente combatida, exporei agora diante de vocês a fraqueza daquelas pretensões entusiásticas.” Páginas 1 e 2.
Ora, para refutar eficazmente aquelas pretensões entusiásticas e golpeá-las na raiz:
“Primeiro, mostrarei que é necessário estabelecer algum método para distinguir a inspiração real da pretensa.” Páginas 3 e 5.
“Muitas expressões ocorrem no Novo Testamento a respeito das operações do Espírito Santo. Mas homens de temperamento entusiástico confundiram passagens de natureza muito diferente e misturaram as que se referem às operações extraordinárias do Espírito com as que se referem apenas às suas influências ordinárias. É necessário, portanto, usar algum método para separar aquelas passagens, relativas às operações do Espírito, que foram tão mal aplicadas a serviço dos pretendentes entusiásticos.” Páginas 5, 6 e 7.
Passo, portanto, a mostrar,
“Em segundo lugar, que se deve fazer distinção entre as passagens da Escritura sobre o bendito Espírito que pertencem peculiarmente à igreja primitiva e as que se referem aos cristãos de todas as épocas.” Página 7.
“As exigências da era apostólica requeriam os dons miraculosos do Espírito. Mas estes logo cessaram. Quando, pois, encontramos na Escritura um relato desses dons extraordinários e também um relato das suas operações ordinárias, devemos distinguir umas das outras. E isso não só para a nossa própria satisfação, mas como meio de deter o crescimento do entusiasmo.” Páginas 8, 9 e 10.
“E tal distinção deve ser feita pelos melhores métodos de interpretação das Escrituras, que certamente são a consideração atenta da ocasião e do propósito dessas passagens, em concordância com o sentido geral da igreja primitiva.” Página 11.
“Proponho-me, em terceiro lugar, especificar algumas das principais passagens da Escritura que são mal aplicadas pelos entusiastas modernos, e mostrar que devem ser interpretadas principalmente, se não unicamente, da igreja apostólica, e que pouco ou nada se referem ao estado presente dos cristãos.” Página 12.
“Começo, diz o senhor, pela promessa original do Espírito, tal como foi feita por nosso Senhor pouco antes de deixar o mundo.”
Devo tomar a liberdade de deter o senhor logo à entrada. Nego que essa seja a promessa original do Espírito. Espero a sua assistência em virtude de muitas promessas feitas algumas centenas de anos antes desta.
Se o senhor disser: “Seja como for, esta é a promessa original, ou primeira promessa do Espírito, no Novo Testamento”, não, senhor bispo; aquelas palavras foram ditas muito antes: Ele os batizará com o Espírito Santo e com fogo (Mt 3.11).
O senhor responderá: “Bem, mas esta é a promessa original feita por nosso Senhor”? Respondo que nem isso, pois antes dela o próprio Jesus se levantou e disse em voz alta: Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva. Isso ele disse a respeito do Espírito que os que nele cressem haviam de receber (οὗ ἔμελλον λαμβάνειν οἱ πιστεύσαντες εἰς αὐτὸν) (Jo 7.37-39). Se não me engano, esta pode, com mais justiça, ser chamada a promessa original do Espírito feita por nosso Senhor. E quem afirmará que ela deve ser interpretada principalmente, se não unicamente, da igreja apostólica?
6. O senhor prossegue: “Ela ocorre nos capítulos 14 e 16 do evangelho de São João, nos quais ele usa estas palavras”. Em que versículos, senhor bispo? Por que isso não é especificado?1 A não ser para dar ao senhor ocasião de fazer exatamente aquilo de que antes se queixava: “confundir passagens de natureza inteiramente contrária, e misturar as que se referem às operações extraordinárias do Espírito com as que se referem às suas influências ordinárias“.
O senhor cita as palavras assim: Quando vier o Espírito da verdade, ele os guiará em toda a verdade, e anunciará a vocês as coisas que estão para acontecer. (São mais ou menos as palavras que ocorrem no capítulo 16, versículo 13.)
“E também: O Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse ensinará a vocês todas as coisas e fará com que se lembrem de tudo o que eu lhes disse. Estas palavras ocorrem no capítulo 14, versículo 26.”
Mas, senhor bispo, ainda me falta a promessa original; quero dizer, a primeira das promessas feitas neste mesmo discurso. É verdade que a sua margem nos diz onde ela está (capítulo 14, versículo 16), mas as palavras não aparecem. Tomadas junto com o contexto, dizem assim:
Se vocês me amam, guardarão os meus mandamentos.
E eu pedirei ao Pai, e ele lhes dará outro Consolador, a fim de que esteja com vocês para sempre:
é o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece. Capítulo 14, versículos 15, 16 e 17.
Senhor bispo, permita-me perguntar por que o senhor passou por cima deste texto. Não foi (apelo para Aquele que sonda o seu coração!) porque o senhor tinha consciência de que ele o lançaria necessariamente naquele infeliz dilema: ou afirmar que para sempre, εἰς τὸν αἰῶνα, significa apenas sessenta ou setenta anos, ou admitir que o texto deve ser interpretado das operações ordinárias do Espírito, em todas as épocas futuras da igreja?
E, de fato, que a promessa deste texto pertence a todos os cristãos fica evidente não só pela própria concessão do senhor e pelo próprio texto (pois quem pode negar que este Consolador, ou paráclito, é dado agora a todos os que creem?), mas também pelas palavras que vêm antes e pelas que vêm depois. As que vêm antes são: Se vocês me amam, guardarão os meus mandamentos. E eu pedirei ao Pai. Certamente ninguém pode duvidar de que estas pertencem a todos os cristãos de todas as épocas. As que vêm depois são: é o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber. É verdade: o mundo não pode; mas todos os cristãos podem recebê-lo, e o receberão para sempre.
6. A segunda promessa do Consolador, feita neste capítulo, junto com o seu contexto, é esta:
Judas (não o Iscariotes) disse a Jesus: Por que razão o Senhor se manifestará a nós e não ao mundo? Versículo 22.
Jesus respondeu: Se alguém me ama, guardará a minha palavra; e o meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada. Versículo 23.
Quem não me ama não guarda as minhas palavras. E a palavra que vocês estão ouvindo não é minha, mas do Pai, que me enviou. Versículo 24.
Tenho dito isso enquanto ainda estou com vocês. Versículo 25.
Mas o Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse ensinará a vocês todas as coisas e fará com que se lembrem de tudo o que eu lhes disse. Versículo 26.
Ora, como o senhor prova que esta promessa pertence apenas à igreja primitiva? Pois bem: 1. O senhor diz: “É muito claro pela simples leitura das palavras”. Não me parece. Mas esta é justamente a questão, que não deve ser dada por resolvida, e sim provada. 2. O senhor diz: “O Espírito fazer com que se lembrem de tudo o que ele lhes disse não pode de modo algum aplicar-se a outras pessoas senão aos apóstolos”. “Não pode aplicar-se!” Isso é, outra vez, uma pura petição de princípio, e não posso cedê-la sem razões melhores. 3. “Os dons de profecia e de ser guiado em toda a verdade e ensinado em todas as coisas só se podem aplicar aos apóstolos e aos daquela época que eram imediatamente inspirados.” Aqui o senhor, para dar por provada a questão outra vez de modo mais plausível, “mistura as operações extraordinárias do Espírito com as ordinárias“. O dom de profecia, sabemos, é uma das suas operações extraordinárias; mas não há uma palavra sobre ele neste texto. Portanto, ele não deve ser “confundido com as suas operações ordinárias“, tais como ser guiado em toda a verdade (toda a que é necessária à salvação) e ser ensinado em todas as coisas (necessárias), no devido uso dos meios que ele ordenou. Versículo 26.
Da mesma maneira, isto é, no uso sério e constante dos meios apropriados, creio que a assistência do Espírito Santo é dada a todos os cristãos, para fazer com que se lembrem de todas as coisas necessárias, de tudo o que Cristo lhes disse na sua palavra. De modo que não vejo motivo para conceder, sem alguma espécie de prova (considerando sobretudo a ocasião deste versículo e o alcance dos versículos anteriores), que mesmo “esta promessa não pode de modo algum aplicar-se a outras pessoas senão aos apóstolos”.
7. No mesmo discurso de nosso Senhor temos uma terceira promessa do Consolador. A passagem inteira diz assim:
Se eu não for, o Consolador não virá para vocês; mas, se eu for, eu o enviarei a vocês. Capítulo 16, versículo 7.
Quando ele vier, repreenderá (ou convencerá) o mundo do pecado, da justiça e do juízo. Versículo 8. [N. do T.: Wesley segue a versão inglesa, que traz “repreenderá”; a NAA traz “convencerá”.]
do pecado, porque eles não creem em mim;
da justiça, porque vou para o Pai, e vocês não me verão mais;
do juízo, porque o príncipe deste mundo já está julgado; versículos 9, 10 e 11.
Tenho ainda muito para lhes dizer, mas vocês não o podem suportar agora. (Versículo 12.) Porém, quando vier o Espírito da verdade, ele os guiará em toda a verdade. (…) e anunciará a vocês as coisas que estão para acontecer. Versículo 13.
Há aqui uma só frase que ainda não foi considerada: anunciará a vocês as coisas que estão para acontecer.
E esta, concede-se, refere-se ao dom de profecia, uma das operações extraordinárias do Espírito.
A conclusão geral que o senhor tira está expressa nestas palavras: “Consequentemente, todas as pretensões ao Espírito, no sentido próprio das palavras desta promessa (isto é, destes vários textos de São João), são vãs e insignificantes, tal como são reivindicadas pelos entusiastas modernos”. E no fim do mesmo parágrafo o senhor acrescenta: “Nada mais se deve esperar agora senão as operações ordinárias do Espírito, visto que as de natureza milagrosa (ou extraordinária) NÃO SÃO PRETENDIDAS nem mesmo pelos entusiastas modernos”.
Senhor bispo, isto é surpreendente. Li e reli antes de poder acreditar nos meus próprios olhos. Creio sinceramente que esta única frase, para pessoas sem preconceito, será resposta ao livro inteiro. O senhor vinha clamando com veemência, do começo ao fim, contra esses pretendentes entusiastas; mais ainda, o próprio propósito do seu livro, como o senhor declara abertamente, “era deter o crescimento do entusiasmo deles, que tiveram o atrevimento (como o senhor afirma categoricamente, na página 6) de reivindicar para si as operações extraordinárias do Espírito Santo”. E aqui o senhor afirma, com a mesma categoria, que essas operações extraordinárias “não são de modo algum pretendidas por eles”!
8. Contudo, o senhor prossegue: “A próxima passagem da Escritura que mencionarei como peculiar aos tempos primitivos, embora mal aplicada ao estado presente dos cristãos pelos entusiastas modernos, é a que se refere ao testemunho do Espírito e ao orar pelo Espírito, no capítulo 8 da epístola aos Romanos“. Página 16.
Julgo ser meu dever pesar a fundo a força do raciocínio do senhor sobre este ponto. O senhor começa: “Depois de tratar daquele princípio espiritual nos cristãos que os capacita a mortificar os feitos do corpo, São Paulo diz: se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele. Isso constitui a distinção de um verdadeiro cristão, particularmente em oposição aos judeus“. Parece-me que é exatamente aqui que o senhor sai do caminho, quando diz: “particularmente em oposição aos judeus“. Não posso admitir tal oposição particular enquanto não se apresentar prova mais forte do que o fato de São Paulo, seis versículos antes, mencionar de passagem “a imperfeição da lei judaica“.
Contudo, a mente do senhor está tão cheia disso que, depois de repetir os versículos 14 e 15 (todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Porque vocês não receberam um espírito de escravidão, para viverem outra vez atemorizados, mas receberam o Espírito de adoção, por meio do qual clamamos: “Aba, Pai!”), acrescenta: “na primeira parte deste versículo o apóstolo mostra outra vez a imperfeição da lei judaica“. Isto também pede prova; do contrário, não se admitirá que ele fale aqui da lei judaica em absoluto. Não se admitirá, ainda que concedamos que “os judeus estavam sujeitos ao medo da morte e, em consequência disso, viviam em estado de escravidão“. Pois não estão todos os incrédulos, tanto quanto os judeus, mais ou menos no mesmo medo e na mesma escravidão?
O senhor continua: “Na última parte do versículo ele mostra a superioridade da lei cristã sobre a dos judeus“. Página 18. Onde está a prova, senhor bispo? Como se demonstra que ele está falando da lei cristã ou da judaica nestas palavras: receberam o Espírito de adoção, por meio do qual clamamos: “Aba, Pai”? Entretanto, o senhor conclui: “Os cristãos, então, são os filhos adotivos de Deus, em contraste com os judeus, porque os primeiros tinham os dons do Espírito Santo, que nenhum dos últimos tinha naquele tempo; e o conjunto dos judeus nunca teve”. Não, nem o conjunto dos cristãos. De modo que, se isto é prova contra os judeus, é exatamente a mesma prova contra os cristãos.
Devo observar ainda, sobre as palavras anteriores: 1. Que o senhor começa aqui a tomar a palavra cristãos num sentido novo e peculiar, para todo o corpo da igreja cristã de então. 2. Que é uma má inferência dizer: “porque tinham os dons do Espírito Santo, eram por isso filhos de Deus”. De um lado, se eram filhos de Deus, não o eram porque tinham dons. De outro, um homem pode ter todos esses dons e ainda assim ser filho do diabo.
9. Entendo não só que o senhor não provou nada até aqui, nem um só ponto que tenha qualquer relação com a questão, mas que, a rigor, nem sequer tentou provar coisa alguma, tendo dado por certo tudo o que lhe surgiu no caminho. Da mesma maneira o senhor prossegue: “O apóstolo continua: O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. Esta passagem, ligada como está à anterior, refere-se à adoção geral dos cristãos, ou a eles se tornarem filhos de Deus em lugar dos judeus“. [N. do T.: Wesley cita Romanos 8.16 pela versão inglesa, “beareth witness with our spirit”, da qual vem a expressão “testemunho do Espírito”; a NAA traz “O próprio Espírito confirma ao nosso espírito que somos filhos de Deus”.] “Esta passagem refere-se”: como se prova isso? Pela sua ligação com a anterior? De modo nenhum, a não ser que seja bom argumento provar ignotum per ignotius [o desconhecido pelo mais desconhecido]. Ainda não se provou que a passagem anterior tenha, ela mesma, alguma relação com este assunto.
O senhor acrescenta: “Mas qual era o fundamento desta preferência dada aos cristãos? Eram claramente os dons (milagrosos) do Espírito, que eles tinham e os judeus não tinham”. Esta preferência dada aos cristãos acabara de ser expressa como se tornarem filhos de Deus em lugar dos judeus. Eram então os dons do Espírito o fundamento desta preferência? O fundamento de se tornarem filhos de Deus? Que afirmação é esta! E quão pouco ela melhora, ainda que eu admita que “estes dons milagrosos do Espírito eram um testemunho de que Deus reconhecia os cristãos como seu povo, e não os judeus, visto que os cristãos que faziam milagres não os faziam pelas obras da lei, mas pela pregação da fé” (Gl 3.5)!
O senhor conclui: “Destas passagens de São Paulo, comparadas entre si, segue-se claramente que o já mencionado testemunho do Espírito era o testemunho público dos dons milagrosos; e, consequentemente, o testemunho do Espírito de que somos filhos de Deus não pode de modo algum aplicar-se ao testemunho particular do Espírito dado à nossa própria consciência, como pretendem os entusiastas modernos”. Página 20.
Se a sua conclusão, senhor bispo, se sustenta sem as premissas, pode ser; mas que ela não tem nenhuma espécie de ligação com elas, confio que já aparece em parte e aparecerá mais plenamente quando examinarmos a passagem inteira a que o senhor se refere. E creio que essa passagem, com bem pouco comentário, provará, em oposição direta àquela conclusão, que o testemunho do Espírito ali mencionado não é o testemunho público dos dons milagrosos, mas deve ser aplicado ao testemunho particular do Espírito, dado à nossa própria consciência.
10. São Paulo começa o capítulo 8 da sua Epístola aos Romanos com o grande privilégio de todo crente cristão (fosse antes judeu ou gentio): Agora, pois, já não existe nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus, enxertados nele pela fé, que não vivem segundo a carne, mas segundo o Espírito. Porque agora cada um deles pode dizer com verdade: a lei (ou o poder) do Espírito da vida, em Cristo Jesus (dado a mim por amor dele), me livrou da lei (ou do poder) do pecado e da morte. [N. do T.: a NAA traz “livrou você”.] Porque aquilo que a lei não podia fazer, por causa da fraqueza da carne, isso Deus fez, enviando o seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa e no que diz respeito ao pecado, quando condenou (crucificou, matou, destruiu) o pecado na carne, a fim de que a exigência da lei se cumprisse em nós, que não vivemos segundo a carne, mas segundo o Espírito. Os que vivem segundo a carne se inclinam para as coisas da carne, mas os que vivem segundo o Espírito se inclinam para as coisas do Espírito. Versículos 1 a 5.
Não é evidente que o apóstolo está aqui descrevendo um verdadeiro cristão, um crente santo? Em oposição, não particularmente a um judeu, muito menos à lei judaica, mas a todo homem não santo, a todos, sejam judeus ou gentios, que vivem segundo a carne? Ele continua:
Pois a inclinação da carne é morte, mas a do Espírito é vida e paz. Porque a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeita à lei de Deus, nem mesmo pode estar. Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus. Versículos 6, 7 e 8.
A oposição entre o homem santo e o não santo continua patente e inegável. Mas pode alguém discernir o menor vislumbre de oposição entre a LEI cristã e a judaica?
O apóstolo continua: Vocês, porém, não estão na carne, mas no Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vocês. E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele. Se, porém, Cristo está em vocês, o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado, mas o Espírito é vida, por causa da justiça. Se em vocês habita o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos, esse mesmo que ressuscitou Cristo dentre os mortos vivificará também o corpo mortal de vocês, por meio do seu Espírito, que habita em vocês. Assim, pois, irmãos, somos devedores, não à carne, como se estivéssemos obrigados a viver segundo a carne. Porque, se vocês viverem segundo a carne, caminharão para a morte; mas, se, pelo Espírito, mortificarem os feitos do corpo, certamente viverão. Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Versículos 9 a 14.
Há aqui uma só palavra, há a menor insinuação que seja de dons milagrosos ou da lei judaica?
Segue-se: Porque vocês não receberam um espírito de escravidão, para viverem outra vez atemorizados (como têm todos os pecadores quando são despertados pela primeira vez a buscar a Deus e começam a servi-lo por um medo servil do castigo), mas receberam o Espírito de adoção (do amor livre), por meio do qual clamamos: “Aba, Pai.” O próprio Espírito (que Deus enviou ao nosso coração, e que clama: Aba, Pai!) (Gl 4.6) testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. Versículos 15 e 16.
Deixo agora, sem mais comentário, ao juízo de todo leitor imparcial se não fica claro, pelo alcance e teor de todo o texto e do contexto tomados em conjunto, que esta passagem não se refere à lei judaica, nem ao testemunho público dos milagres: nenhum dos dois pode ser arrastado para dentro dela sem fazer a máxima violência ao sentido natural das palavras. E, se é assim, segue-se que este testemunho do Espírito é o testemunho particular dado à nossa própria consciência, o qual, por conseguinte, todos os cristãos sóbrios podem reivindicar sem nenhum perigo de entusiasmo.
11. “Mas passo (diz o senhor, na página 21) à consideração das outras passagens do mesmo capítulo que se referem ao nosso orar pelo Espírito, a saber, os versículos 26 e 27, que dizem assim: Da mesma maneira, também o Espírito nos ajuda em nossas fraquezas. Porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do espírito, porque intercede pelos santos de acordo com a vontade de Deus.” [N. do T.: Wesley segue a versão inglesa; a NAA traz “nos ajuda em nossa fraqueza”, “não sabemos orar como convém” e “a mente do Espírito”. A redação inglesa importa aqui, porque o argumento do bispo depende de “o que havemos de pedir” e de “espírito” entendido como a pessoa inspirada.]
Há aqui uma circunstância que é muito necessário observar antes de entrarmos nesta questão. O senhor se propõe fixar o sentido de uma expressão usada por São Paulo no capítulo 14 da sua primeira epístola aos Coríntios. E, para isso, explica laboriosamente parte do capítulo 8 de Romanos. Senhor bispo, como é isto? Dir-se-á: “Ora, este texto é muitas vezes alegado para provar o sentido errado daquela escritura”? Entendo que isso não resolve absolutamente nada. O senhor havia antes estabelecido um método particular como o único seguro para distinguir quais escrituras pertencem a todos os cristãos e quais não: considerar a ocasião e o alcance das passagens, comparando o texto com o contexto. Propõe-se então, pelo uso deste método, mostrar que vários textos foram mal aplicados pelos entusiastas. Um deles é o versículo 15 do capítulo 14 da primeira epístola aos Coríntios. E, para mostrar que os entusiastas aplicaram mal este texto, o senhor comenta o capítulo 8 de Romanos!
Seja como for, pesemos o próprio comentário. A parte substancial dele começa assim (página 22): “Agora ele acrescenta outra prova da verdade do cristianismo: Da mesma maneira, também o Espírito nos ajuda em nossas fraquezas (ou em nossas aflições, pois ἀσθενείαις significa as duas coisas”. Duvido disso; exijo uma autoridade que o confirme.) “E então menciona em que casos ele faz isso, a saber, nas orações a Deus a respeito das aflições” (em nada mais, senhor bispo? Ele não ajudava as suas fraquezas em nenhum outro caso senão neste?) “Não sabemos, diz ele, o que havemos de pedir como convém. Isto é, se é melhor para nós suportar as aflições ou ser livrados delas. Mas o Espírito, OU o dom do Espírito, nos instrui a orar de modo agradável à vontade de Deus.” O Espírito, OU o dom do Espírito! Que raciocínio espantoso é este! Se estas expressões “são muitas vezes postas uma pela outra”, que tem isso? Como se demonstra que é esse o caso aqui?
12. “O apóstolo continua (página 23): o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. Isto é, a pessoa espiritual ou inspirada orava nessa qualidade por toda a assembleia.” “Isto é!” Não; isto é, de novo, exatamente o ponto a ser provado, senão não avançamos um só passo.
“O apóstolo continua assim no versículo 27: E aquele que (página 24) sonda os corações sabe qual é a mente do espírito (isto é, da pessoa espiritual ou inspirada), porque ele intercede pelos santos de acordo com a vontade de Deus. Isto é, Deus conhece a intenção da pessoa espiritual que tem o dom da oração, o qual ela usa em benefício de toda a assembleia; ela, digo, deixa inteiramente a Deus se é melhor que eles sofram aflições ou sejam livrados delas.” Página 25.
Senhor bispo, isto é mais espantoso que todo o resto! Eu esperava o tempo todo, ao ler as páginas anteriores (e assim, suponho, todo leitor que pensa), que o senhor mencionasse que a pessoa milagrosamente inspirada para esse fim, orando κατὰ Θεὸν [segundo Deus] pelo amparo ou pelo livramento do povo, obteria exatamente o pedido que lhe fizera. E o senhor não pretendia nada disso! Ao contrário, encerra tudo com esta conclusão manca e impotente: “Ela deixa a Deus se é melhor que eles sofram aflições ou sejam livrados delas”.
Tinha ela então esse dom milagroso de Deus para fazer o que qualquer cristão comum poderia ter feito sem ele? Ora, qualquer pessoa da congregação poderia ter orado assim; mais ainda, não poderia orar de outro modo, se tivesse a graça ordinária de Deus: “deixando a Deus se devia continuar sofrendo aflições ou ser livrada delas”. Foi somente na era apostólica que “o Espírito instruiu os cristãos a orar assim“? Não pode um homem orar assim, por si mesmo ou por outros, a não ser que tenha o dom milagroso da oração? Então, segundo o juízo do senhor, “orar de tal maneira que, no fim, deixemos a continuação dos nossos sofrimentos, ou o nosso livramento deles, com a devida submissão, ao beneplácito de Deus” é uma daquelas “operações extraordinárias do Espírito” que ninguém hoje pretende ter, a não ser os “entusiastas modernos”!
Rogo ao senhor que considere. Pode o senhor sustentar com sangue-frio que “orar com a devida submissão à vontade de Deus”, mesmo em pesada aflição, é um dom milagroso? Uma operação extraordinária do Espírito Santo? Isto é peculiar aos tempos primitivos? É algo que ninguém, a não ser os entusiastas, pretende ter hoje? Se não é, então o próprio relato do senhor sobre o orar pelo Espírito prova de modo indiscutível que este é um dos privilégios ordinários de todos os cristãos, até o fim do mundo.
13. “Passo (acrescenta o senhor) a outra passagem da Escritura que tem sido inteiramente (página 27) mal aplicada pelos entusiastas modernos, 1Coríntios 2.4-5: A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a fé que vocês têm não se apoiasse em sabedoria humana, mas no poder de Deus.” Página 29.
“Só é necessário demonstrar que por demonstração do Espírito e de poder se entende a demonstração da verdade do cristianismo que nasce das profecias do Antigo Testamento e dos milagres de Cristo e dos seus apóstolos.” Sim; e é necessário demonstrar, além disso, que estas palavras não têm nenhum outro sentido. Mas, primeiro, como o senhor demonstrará que elas têm este? Para isso, o senhor argumenta assim:
“A primeira parece ser a demonstração do Espírito quanto aos testemunhos proféticos a respeito dele. (…) E a demonstração de poder deve significar o poder de Deus exercido em milagres” (página 30). “Deve”? Por quê? Admite-se que δύναμις muitas vezes significa poder milagroso. Mas o que se segue daí? Que deve significar isso neste lugar? Isso ainda está por provar.
É verdade que o senhor diz que isso “aparece pelo versículo seguinte, no qual se dá a razão de usar este método de provar a verdade do cristianismo, a saber: para que a fé que vocês têm não se apoiasse em sabedoria humana, mas no poder de Deus. Portanto, pelo poder de Deus deve-se necessariamente entender os milagres realizados por Cristo e seus apóstolos”. Pela partícula conclusiva portanto, esta proposição deveria ser inferência de alguma outra; mas de qual, ainda não consigo discernir. De modo que, por ora, só posso considerá-la um novo exemplo de petição de princípio.
“Ele continua, nos versículos 7, 10 e seguintes, a explicar esta demonstração do Espírito e de poder.” Mas ali ele não diz uma só sílaba nem das antigas profecias nem dos milagres. Nem será fácil provar que ele fale de uma coisa ou de outra, do começo ao fim do capítulo.
Depois de transcrever o versículo 13, Disto também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas ensinadas pelo Espírito, conferindo coisas espirituais com espirituais, o senhor acrescenta: “Desta última passagem se vê que as palavras que se diz serem ensinadas pelo Espírito Santo devem ser as revelações proféticas do Antigo Testamento, que foram descobertas aos apóstolos pelo mesmo Espírito”. Não consigo perceber como isso se vê. Ainda não consigo ver nenhuma ligação entre as premissas e a conclusão.
Em suma, peço a qualquer homem calmo e sério que leia todo este capítulo; então ele julgará facilmente qual é o sentido natural das palavras em questão, e se (embora se admita que elas se cumpriram de modo peculiar nos apóstolos) elas não pertencem manifestamente, num sentido menor, a todo verdadeiro ministro de Cristo. Pois o que pode ser mais inegável do que isto: que também a nossa pregação é vã, a menos que seja acompanhada do poder daquele Espírito que, só ele, penetra o coração? E que o ouvir de vocês é vão, a menos que o mesmo poder esteja presente para curar a sua alma e para lhes dar uma fé que não se apoia em sabedoria humana, mas no poder de Deus?
14. “Outra passagem que (pensa o senhor) tem sido mal aplicada pelos entusiastas, mas que era realmente peculiar aos tempos dos apóstolos, é 1João 2.20 e 27 (página 35): Mas vocês têm a unção que vem do Santo e sabem todas as coisas. (…) Quanto a vocês, a unção que receberam dele permanece em vocês, e não precisam que alguém os ensine. Mas, como a unção dele os ensina a respeito de todas as coisas, e é verdadeira, e não é falsa, permaneçam nele, como também ela ensinou a vocês.” [N. do T.: no versículo 20 a NAA traz “e todos têm conhecimento”; Wesley segue a versão inglesa, “and ye know all things”.] “Aqui o apóstolo arma os verdadeiros cristãos contra os sedutores com um argumento tirado da unção que vem do Santo, que estava em eles, ou antes entre eles; isto é, da inspiração imediata de alguns dos seus mestres.” Página 37.
Aqui cabe ao senhor provar (e não só afirmar): 1. Que ἐν deve ser traduzido por entre. 2. Que esta unção que vem do Santo significa “a inspiração de alguns dos seus mestres”.
O senhor tenta provar a segunda coisa assim: “Os mestres inspirados de antigamente eram separados para esse ofício por uma efusão extraordinária do Espírito Santo; portanto (página 38) a unção que vem do Santo significa aqui uma efusão assim”. Nego a consequência; assim, a questão continua por provar.
O segundo argumento do senhor é tirado do versículo 26 do capítulo 14 do evangelho de São João.
Posto em forma, fica assim:
Se aquelas palavras, esse ensinará a vocês todas as coisas, se referem apenas a um dom milagroso do Espírito Santo, então estas palavras, a unção dele os ensina a respeito de todas as coisas, se referem ao dom milagroso.
Mas aquelas palavras se referem apenas a um dom milagroso.
“Portanto, estas se referem ao mesmo.”
Entendo que não será muito fácil sustentar a consequência da primeira proposição. Mas nego também a menor, cuja contraditória, confio, já se mostrou verdadeira.
Concedo, de fato, que estas palavras se cumpriram de modo mais eminente na era dos apóstolos. Mas isso é perfeitamente compatível com elas pertencerem, num sentido menor, a todos os cristãos de todas as épocas, visto que todos têm necessidade de uma unção que vem do Santo, uma assistência sobrenatural do Espírito Santo, para que conheçam, no devido uso de todos os meios apropriados, todas as coisas necessárias à saúde da sua alma. Portanto, não é entusiasmo ensinar que a unção que vem do Santo pertence a todos os cristãos de todas as épocas.
15. Há um argumento do senhor ainda não tocado: a autoridade. Um argumento de que o senhor fez uso muito frequente, e no qual, provavelmente, a maioria dos leitores supõe estar a grande força do senhor. E, de fato, quando o senhor mencionou pela primeira vez (página 11) “o sentido geral da igreja primitiva”, presumi que apresentaria autoridades tão numerosas que eu não conseguiria facilmente consultá-las todas. Mas logo percebi o meu engano: o senhor nomeia apenas Crisóstomo, Jerônimo, Orígenes e Atanásio.
Contudo, embora estes quatro não possam ser chamados a igreja primitiva, assim como não podem ser chamados a igreja universal, aceito submeter-me ao voto deles. Mais ainda, vou um passo além. Se dois quaisquer deles afirmarem que aqueles sete textos pertencem somente à era apostólica, e não aos cristãos dos tempos seguintes, abro mão de toda a causa.
Mas observe-se: se afirmarem que estes textos pertencem primariamente aos cristãos da era apostólica, isso não prova o ponto, porque podem, apesar disso, pertencer a outros num sentido secundário. Nem algum deles fala diretamente à questão, a não ser que sustente em termos expressos que estes textos se referem somente aos dons milagrosos do Espírito, e de modo algum ao estado dos cristãos ordinários.
16. Quanto àqueles três textos, João 14, versículo 16, e o 26, e João 16, versículo 13, “eu poderia facilmente acrescentar (diz o senhor2) as autoridades de São Crisóstomo e dos outros comentadores antigos”. Considerarei agora a autoridade de São Crisóstomo, e a dos outros quando forem apresentadas.
Concede-se que ele interpreta não só João 16.13, mas também as duas passagens do capítulo 14, como pertencentes primariamente aos apóstolos. Contudo, parte do seu comentário ao versículo 26 é a seguinte:
“Tal é essa graça (do Consolador) que, se encontra tristeza, a tira; se encontra mau desejo, o consome. Expulsa o medo e não deixa que aquele que a recebe continue sendo um homem, mas o transporta, por assim dizer, para o céu. Por isso ninguém considerava sua nenhuma das coisas que possuía (At 4.32), mas perseveravam em oração, com alegria e singeleza de coração. Pois é principalmente para isto que há necessidade do Espírito Santo. Porque o fruto do Espírito é alegria, paz, fé, mansidão. É verdade que os homens espirituais muitas vezes se entristecem; mas essa tristeza é mais doce que a alegria. Pois tudo o que é do Espírito é o maior ganho, assim como tudo o que é do mundo é a maior perda. Portanto, guardando os mandamentos” (conforme a exortação de nosso Senhor, versículo 15), “asseguremos para nós a assistência invencível do Espírito, e em nada seremos inferiores aos anjos.”
Aqui São Crisóstomo, depois de mostrar que a promessa do Consolador pertencia primariamente aos apóstolos (e quem jamais o pôs em dúvida?), ensina de modo inegável que, num sentido secundário, ela pertence a todos os cristãos: a todos os homens espirituais, a todos os que guardam os mandamentos. Apelo, portanto, a toda a humanidade: a autoridade dele, quanto à promessa de nosso Senhor nestes textos, não derruba a própria proposição que ela foi citada para provar?
Embora o senhor não nomeie aqui nenhum outro autor, na página 42 diz: “O sentido atribuído a estas passagens foi confirmado pela autoridade de Orígenes“. É necessário, portanto, acrescentar o que se encontra nas obras dele a respeito da presente questão.
Ele menciona de passagem esta promessa de nosso Senhor em quatro lugares diferentes. Mas só num deles fala pertinentemente ao ponto em discussão (volume II, página 403, edição beneditina), onde as suas palavras são estas:
Quando vier o Espírito da verdade, ele os guiará em toda a verdade, e ele lhes ensinará todas as coisas. “A soma de todos os bens consiste nisto: que um homem seja achado digno de receber a graça do Espírito Santo. Do contrário, nada será tido por perfeito naquele que não tem o Espírito Santo.”
Confirmam estas palavras aquele “sentido das passagens que o senhor havia atribuído”? Não o derrubam, antes, completamente? E não provam (como acima) que, embora esta promessa de nosso Senhor pertença primariamente aos apóstolos, no sentido secundário ela pertence (segundo o juízo de Orígenes) a todos os cristãos de todas as épocas?
17. O quarto texto mencionado como pertencente apenas aos primeiros cristãos é Romanos 8.15-16, e na página 26 se diz: “Esta interpretação é confirmada pela autoridade dos mais eminentes pais”. O leitor é remetido particularmente a Orígenes e a São Jerônimo in locum. Mas aqui parece haver um engano de nome. São Jerônimo in locum deveria significar São Jerônimo sobre o lugar, sobre Romanos 8.15-16. Mas não consigo perceber que haja uma só palavra sobre esse lugar em todas as obras de São Jerônimo.
Nem, na verdade, Orígenes o comentou, assim como Jerônimo não o comentou. Mas ele o menciona de passagem nestas palavras:
“É criança aquele que se alimenta de leite. (…) Mas, se busca as coisas lá do alto, (…) sem dúvida será do número daqueles que não receberam um espírito de escravidão, para viverem outra vez atemorizados, mas o Espírito de adoção, por meio do qual clamam: Aba, Pai.” Volume I, página 79.
E ainda: “Chegou a plenitude do tempo, (…) quando os que querem recebem a adoção, como ensina Paulo nestas palavras: Vocês não receberam um espírito de escravidão, para viverem outra vez atemorizados, mas receberam o Espírito de adoção, por meio do qual clamamos: Aba, Pai! E está escrito no evangelho segundo São João: Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome.” Volume I, páginas 231 e 232.
E mais ainda: “Todo aquele que é nascido de Deus e não comete pecado diz, pelas suas próprias ações: Pai nosso, que estás nos céus, testificando o próprio Espírito com o espírito deles que são filhos de Deus.” Mesma obra.
Segundo Orígenes, portanto, este testemunho do Espírito não é nenhum testemunho público por meio de milagres, peculiar aos primeiros tempos, mas um testemunho interior, que pertence em comum a todos os que são nascidos de Deus. E, consequentemente, a autoridade de Orígenes tampouco “confirma aquela interpretação”; antes, a destrói por completo.
18. A última autoridade a que o senhor apela sobre este texto é “a do grande João São Crisóstomo, que inclui o testemunho do Espírito de adoção, pelo qual clamamos Aba, Pai!, entre os dons milagrosos do Espírito”. “Prefiro (acrescenta o senhor, na página 26) remetê-lo às palavras de São Crisóstomo a transcrevê-las aqui, porque quase as traduzi na presente exposição do testemunho do Espírito.”
Contudo, creio que não será trabalho perdido transcrever algumas dessas palavras.
É no seu comentário ao versículo 14 que ele menciona pela primeira vez a comparação de São Paulo entre um judeu e um cristão. Quão fielmente o senhor representou isto, julgue cada leitor.
Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. “Visto que o mesmo título fora dado antigamente também aos judeus, (…) ele mostra, na sequência, quão grande é a diferença entre aquela honra e esta. Pois, embora os títulos sejam os mesmos, diz ele, as coisas não o são. E prova-o claramente comparando tanto o que eles tinham recebido como o que esperavam. E primeiro mostra o que tinham recebido, a saber, um espírito de escravidão. Por isso acrescenta: vocês não receberam um espírito de escravidão, para viverem outra vez atemorizados, mas receberam o Espírito de adoção. Que significa o espírito de temor? (…) Observe toda a vida deles e o saberá claramente. Pois os castigos os seguiam de perto, e havia muito medo de todos os lados e diante dos seus olhos. (…) Mas conosco não é assim. Pois a nossa mente e a nossa consciência estão purificadas, de modo que fazemos todas as coisas bem, não por medo do castigo presente, mas por nosso amor a Deus e por um hábito de virtude. Eles, portanto, embora fossem chamados filhos, eram como escravos; mas nós, tendo sido feitos livres, recebemos a adoção, e não esperamos uma terra que mana leite e mel, mas o céu.”
“Ele apresenta também outra prova de que temos o Espírito de adoção, por meio do qual, diz ele, clamamos: Aba, Pai. (…) Esta é a primeira palavra que pronunciamos μετὰ τὰς θαυμαστάς ὠδῖνας ἐκείνας, καὶ τὸν ξένον παράδοξον λοχευμάτων νόμον: depois daquelas espantosas dores (ou dores de parto) e daquela estranha e maravilhosa maneira de dar à luz.”
“Ele apresenta ainda outra prova da superioridade dos que tinham este Espírito de adoção: O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. Provo isto, diz ele, não só pela própria voz, mas também pela causa de onde essa voz procede. Pois o Espírito sugere as palavras enquanto assim falamos, o que ele expressou mais claramente em outro lugar: Deus enviou o Espírito de seu Filho ao nosso coração, e esse Espírito clama: Aba, Pai! (Gl 4.6). Mas que significa: O Espírito testifica com o nosso espírito? Ele quer dizer: o paráclito, pelo dom que nos foi dado.” (Mas de que este fosse um dom extraordinário não temos a menor indicação, nem antes nem depois.) “E quando o Espírito testifica, que dúvida resta? Se um homem ou um anjo falasse, alguns poderiam duvidar. Mas quando o Altíssimo dá testemunho a nosso favor, quem pode duvidar ainda?”
Julgue agora qualquer homem razoável até que ponto o senhor “traduziu as palavras de São Crisóstomo“, e se ele inclui o testemunho do Espírito entre os dons milagrosos do Espírito Santo, ou entre aqueles dons ordinários do Espírito de Cristo que, se alguém não tem, esse tal não é dele.
19. O quinto texto que o senhor cita como descrição de um dom milagroso do Espírito é 1Coríntios 14.15. Para prová-lo, o senhor comenta o capítulo 8 de Romanos, particularmente o versículo 26; e aqui também se diz: “A interpretação atribuída é confirmada por vários dos mais eminentes pais, mais especialmente pelo grande João Crisóstomo, assim como por Orígenes e por Jerônimo sobre o lugar“.
Não consigo achar que São Jerônimo tenha escrito uma só linha sobre o lugar. E é evidente que São Crisóstomo supõe que todo o contexto, do versículo 17 ao 25, se refere a todos os cristãos de todas as épocas. Como se pode dizer que isso “confirma a interpretação atribuída”, não consigo imaginar. Mais ainda, é digno de nota que ele expõe a primeira parte do versículo 26 como descrição do privilégio ordinário de todos os cristãos. Até aqui, portanto, ele não confirma, mas derruba “a interpretação antes atribuída”. Mas no meio do versículo ele interrompe e expõe a última parte como descrição de um dos dons milagrosos.
Contudo, devo fazer a este venerável homem a justiça de observar que ele não supõe que um dom milagroso fosse dado apenas para que o inspirado pudesse fazer o que qualquer cristão ordinário poderia ter feito sem ele. (Esta interpretação, mesmo da última parte do versículo, ele de modo algum confirma.) Supõe, sim, que lhe era dado para que pudesse pedir, em cada circunstância particular, a coisa determinada que era vontade de Deus conceder.
20. O terceiro pai por quem se diz que esta interpretação é confirmada é Orígenes. A primeira passagem dele que se refere a Romanos 8.26 diz assim (volume I, página 199):
“Paulo, percebendo quão longe estava, depois de todas essas coisas, de saber pedir o que devia, como devia”, diz: não sabemos o que havemos de pedir como convém. Mas acrescenta de onde aquilo que falta pode ser obtido por quem de fato não sabe, mas se esforça por ser achado digno de ter a falta suprida. Pois diz: Da mesma maneira, também o Espírito nos ajuda em nossas fraquezas. “Porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito, porque intercede pelos santos de acordo com a vontade de Deus. O Espírito que clama Aba, Pai, no coração dos santos, conhecendo bem os nossos gemidos neste tabernáculo, intercede por nós junto a Deus com gemidos inexprimíveis. No mesmo sentido é aquela escritura, 1Coríntios 14.15: Vou orar com o espírito, mas também vou orar com a mente. Pois o nosso entendimento (ou mente, ὁ νοῦς) não pode orar se o Espírito não orar antes dele e se o entendimento não o escutar, por assim dizer.”
E outra vez (volume II, página 146): “Gostaria de saber como os santos clamam a Deus sem voz. O apóstolo mostra que Deus enviou o Espírito de seu Filho ao nosso coração, e esse Espírito clama: ‘Aba, Pai!’ (Gl 4.6). E acrescenta: o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis (Rm 8.26). E ainda: aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito, porque intercede pelos santos de acordo com a vontade de Deus (Rm 8.27). Assim, portanto, intercedendo o Espírito por nós junto a Deus, o clamor dos santos é ouvido sem voz.”
Mais uma vez, na sua Homilia sobre Josué (volume II, página 419):
“Jesus, nosso Senhor, não nos abandona; mas, embora, quando queremos orar, não saibamos orar como convém, o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis (Rm 8.26). Ora, o Senhor é esse Espírito: o Espírito ajuda as nossas orações e as oferece a Deus com gemidos que não conseguimos exprimir em palavras.”
Creio que todos os homens racionais notarão, a partir disso, que Orígenes está tão longe de confirmar a interpretação que o senhor bispo dá ao versículo 16, e também ao 26, deste capítulo, que a derruba por completo: pois, a juízo dele, tanto aquele testemunho do Espírito como esta oração pertencem a todos os cristãos de todas as épocas.
21. A sexta passagem da Escritura que o senhor se propôs mostrar que “se refere somente aos tempos apostólicos” é 1 Coríntios 2.4-5. E “também esta interpretação (diz-se) é confirmada pela autoridade de Crisóstomo, de Orígenes e de outros escritores antigos” (página 33). Com esses “outros escritores antigos” ainda não tenho nada a ver. São Crisóstomo confirma essa interpretação apenas a ponto de explicar toda a expressão demonstração do Espírito e de poder como “o poder do Espírito manifestado por milagres”. Mas não diz uma só palavra sobre alguma “prova da religião cristã tirada dos tipos e profecias do Antigo Testamento”.
Orígenes tem estas palavras (volume I, página 321):
“A nossa palavra tem uma demonstração própria, mais divina que a demonstração lógica dos gregos. A esta o apóstolo chama demonstração do Espírito e de poder: do Espírito, por causa das profecias, suficientes para convencer qualquer pessoa, sobretudo das coisas que dizem respeito a Cristo; de poder, por causa dos poderes milagrosos, dos quais ainda restam alguns vestígios.”
Daqui podemos sem dúvida inferir que Orígenes julgava que esse texto se refere, no seu sentido primário, aos apóstolos. Mas podemos inferir daí que ele não o julgava pertencente, num sentido inferior, a todos os verdadeiros ministros de Cristo?
Ouçamos o que ele mesmo diz no mesmo tratado (página 377):
“A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a fé que vocês têm não se apoiasse em sabedoria humana, mas no poder de Deus (1Co 2.4-5). Os que ouvem a palavra pregada com poder ficam eles mesmos cheios de poder” (N. B. Não do poder de operar milagres), “o qual demonstram tanto na sua disposição como na sua vida e no seu combate pela verdade até a morte. Mas alguns, embora professem crer, não têm em si esse poder de Deus, mas estão vazios dele.”
(Será que Orígenes acreditava, então, que o poder mencionado neste texto pertencia somente à era apostólica?)
“Vejam a força da palavra, conquistando os que creem por uma persuasão acompanhada do poder de Deus! Digo isto para mostrar o sentido daquele que disse: A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a fé que vocês têm não se apoiasse em sabedoria humana, mas no poder de Deus. Esse dito divino significa que o que se fala não basta por si mesmo (ainda que seja verdadeiro e digníssimo de crédito) para penetrar a alma de alguém, se não houver também certo poder vindo de Deus, dado a quem fala, e se a graça não florescer sobre o que é falado; e essa graça não pode vir senão de Deus.”
Depois de observar que esta é exatamente a passagem que o senhor menciona no fim da outra (mas não cita), peço a toda pessoa sem preconceito que julgue se Orígenes não afirma claramente que o poder de que fala este texto é dado, em alguma medida, a todos os verdadeiros ministros de todas as épocas.
22. A última passagem da Escritura que o senhor afirma “ser peculiar aos tempos dos apóstolos” é a da primeira epístola de São João sobre a unção que vem do Santo (1Jo 2.20).
Para confirmar essa interpretação, somos remetidos à autoridade de Orígenes e de Crisóstomo “sobre as passagens paralelas do evangelho de São João” (página 42).
Mas já ficou claro que esses dois Pais supõem que aquelas passagens pertencem a todos os cristãos. E, por consequência, a autoridade deles (se essas passagens são de fato paralelas) se levanta inteira contra essa interpretação.
O senhor acrescenta: “Aqui acrescentarei somente a do grande Atanásio, que (na sua epístola a Serapião) interpreta a unção que vem do Santo não meramente como graça divina, mas como os dons extraordinários do Espírito Santo.”
Ora, basta que ele a interprete, de algum modo, como graça ordinária, tal como é comum a todos os cristãos.
E isso o senhor admite que ele faz. Mas não posso admitir que ele a interprete como qualquer outra coisa. Não consigo perceber que ele a interprete, de modo algum, como “os dons extraordinários do Espírito Santo”.
As palavras dele são: “O Espírito Santo é chamado, e é, a unção e o selo. Pois João escreve: a unção que receberam dele permanece em vocês, e não precisam que alguém os ensine. Mas, como a unção dele, o seu Espírito, os ensina a respeito de todas as coisas (1Jo 2.27). E ainda está escrito no profeta Isaías: O Espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu (Is 61.1). E Paulo escreve assim: Nele também vocês receberam o selo (Ef 1.13). E ainda: não entristeçam o Espírito Santo de Deus, no qual vocês foram selados para o dia da redenção (Ef 4.30). Esta unção é o sopro do Filho, de modo que quem tem o Espírito pode dizer: Nós somos o bom perfume de Cristo (2Co 2.15). Porque somos participantes do Espírito Santo, temos o Filho; e, tendo o Filho, temos o Espírito, que clama em nosso coração: ‘Aba, Pai!’”
E assim também na sua oração contra os arianos:
“Deus enviou o Espírito de seu Filho ao nosso coração, e esse Espírito clama: ‘Aba, Pai!’ (Gl 4.6). O seu Filho em nós, invocando o Pai, faz com que ele seja chamado nosso Pai. Certamente Deus não pode ser chamado Pai daqueles que não têm o Filho no coração.”
Não é fácil observar aqui: 1. Que Atanásio torna aquele testemunho do Espírito comum a todos os filhos de Deus; 2. Que ele une a unção que vem do Santo àquele selo do Espírito com o qual todos os que perseveram são selados para o dia da redenção; e 3. Que, em toda esta passagem, ele nem sequer fala dos dons extraordinários?
Portanto, considerando o conjunto, o sentido da igreja primitiva, tanto quanto se pode colher dos autores citados acima, é este: “Embora algumas das passagens da Escritura se refiram primariamente àqueles dons extraordinários do Espírito que foram dados aos apóstolos e a algumas outras pessoas da era apostólica, elas se referem também, num sentido secundário, àquelas operações ordinárias do Espírito Santo que todos os filhos de Deus experimentam e experimentarão até o fim do mundo.”
23. O que entendo por operações ordinárias do Espírito Santo, resumo-o nas palavras de um escritor moderno:
“Sendo a santificação oposta à nossa corrupção, e correspondendo plenamente à extensão dela, tudo o que de santidade e perfeição falta à nossa natureza tem de ser suprido pelo Espírito de Deus. Por isso, visto que por natureza estamos totalmente vazios de toda verdade salvadora e na impossibilidade de conhecer a vontade de Deus, este Espírito sonda todas as coisas, até mesmo as profundezas de Deus (1Co 2.10), e as revela aos filhos dos homens, de modo que por meio disso as trevas do seu entendimento são expulsas e eles são iluminados com o conhecimento de Deus. O mesmo Espírito que revela o objeto da fé, de modo geral, à igreja universal ilumina também o entendimento dos que creem, para que recebam a verdade. Pois a fé é dom de Deus (Ef 2.8), não somente no objeto, mas também no ato. E esse dom é um dom do Espírito Santo que opera em nós. E, assim como o crescimento da perfeição, também a origem da fé vem do Espírito de Deus, por uma iluminação interior da alma.”
“A segunda parte do ofício do Espírito Santo é a renovação do homem em todas as partes e faculdades da sua alma. Pois, consistindo a nossa corrupção natural numa aversão da nossa vontade e numa depravação das nossas afeições, a inclinação delas para a vontade de Deus é operada em nós pelo Espírito de Deus.”
“A terceira parte deste ofício é conduzir, dirigir e governar-nos nas nossas ações e no nosso procedimento. Se vivemos no Espírito, vivificados pela sua renovação, devemos também andar no Espírito (Gl 5.25), seguindo a sua direção, guiados pela sua mão. Somos também animados e movidos pelo Espírito de Deus, que efetua tanto o querer como o realizar (Fp 2.13); e todos os que são assim guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus.3 Além disso, para que essa direção seja mais eficaz, somos guiados nas nossas orações pelo mesmo Espírito, conforme a promessa: sobre a casa de Davi e sobre os moradores de Jerusalém derramarei o espírito da graça e de súplicas (Zc 12.10). Visto, pois, que esta é a confiança que temos para com ele: que, se pedirmos alguma coisa segundo a sua vontade, ele nos ouve (1Jo 5.14); e visto que não sabemos orar como convém, o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis4: e aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito, porque intercede pelos santos de acordo com a vontade de Deus.5 É por essa intercessão” (feita em favor de todos os verdadeiros cristãos) “que Cristo lhe dá o nome de Paracleto, quando diz: Eu pedirei ao Pai, e ele lhes dará outro Paracleto.6 Pois se alguém pecar, temos um Paracleto junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo (1Jo 2.1), diz São João; o qual também intercede por nós, diz São Paulo (Rm 8.34). E temos outro Paracleto7, diz o nosso Salvador; que também intercede por nós8, diz São Paulo. Um Paracleto, pois, no conceito das Escrituras, é um intercessor.” [N. do T.: Paracleto é a palavra grega que a NAA traduz por “Consolador” em Jo 14.16 e por “Advogado” em 1Jo 2.1; o argumento depende de ser a mesma palavra nos dois textos.]
“É também ofício do Espírito Santo nos dar a certeza da adoção de filhos, criar em nós a percepção do amor paternal de Deus para conosco, dar-nos o penhor da nossa herança eterna. O amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi dado (Rm 5.5). Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. E, porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho ao nosso coração, e esse Espírito clama: ‘Aba, Pai!’ Porque vocês não receberam um espírito de escravidão, para viverem outra vez atemorizados, mas receberam o Espírito de adoção, por meio do qual clamamos: ‘Aba, Pai.’ O próprio Espírito confirma ao nosso espírito que somos filhos de Deus.9”
“Assim, pois, como nascemos de novo pelo Espírito e dele recebemos a nossa regeneração, assim também pelo mesmo Espírito temos a certeza da nossa adoção. Porque, sendo filhos, somos também herdeiros; herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo (Rm 8.17), pelo mesmo Espírito temos o penhor, ou antes o sinal antecipado da nossa herança. Pois aquele que nos confirma em Cristo e que nos ungiu é Deus, que também pôs o seu selo em nós e nos deu o penhor do Espírito em nosso coração (2Co 1.21-22); de modo que recebemos o selo do Espírito Santo da promessa, o qual é o penhor da nossa herança (Ef 1.13-14). O Espírito de Deus, como nos é dado nesta vida, deve ser considerado um penhor, sendo parte da recompensa prometida, a qual, cumprindo-se a aliança que Deus fez conosco, certamente há de ser recebida.”
O senhor observou que “a interpretação das passagens que se referem à unção que vem do Santo depende do sentido daquelas outras passagens da Sagrada Escritura, particularmente as do evangelho de São João”. Ora, se é assim, então estas palavras fixam o sentido de seis dos sete textos em questão; e cada um deles, a juízo deste escritor, descreve os dons ordinários concedidos a todos os cristãos.
Agora cabe ao senhor fazer a sua escolha: condenar ambos ou absolver ambos. Ou o senhor condena o bispo Pearson como entusiasta (homem em nada inferior ao bispo Crisóstomo), ou tem de me absolver: porque tenho a autoridade expressa dele do meu lado quanto a cada texto que afirmo pertencer a todos os cristãos.
24. Mas tenho uma autoridade maior que a dele, e que reverencio apenas menos do que a dos oráculos de Deus. Refiro-me à da nossa própria igreja. Encerrarei este ponto registrando o que se encontra nos seus documentos autênticos acerca do nosso receber o Espírito Santo ou das operações ordinárias dele em todos os verdadeiros cristãos.
No seu ofício diário, ela ensina a todos nós a suplicar a Deus que nos conceda o seu Santo Espírito, para que lhe agradem as coisas que agora fazemos e para que o restante da nossa vida seja puro e santo; a orar por nosso Soberano Senhor, o Rei, para que Deus o encha da graça do seu Santo Espírito; por toda a Família Real, para que sejam dotados do seu Santo Espírito e enriquecidos com a sua graça celestial; por todo o clero e todo o povo, para que ele faça descer sobre eles o Espírito salutar da sua graça; pela Igreja Católica, para que seja guiada e governada pelo seu bom Espírito; e por todos os que nela, em qualquer tempo, fazem a sua súplica comum a ele, para que a comunhão, ou comunicação, do Espírito Santo esteja com todos eles para sempre.
As suas coletas estão cheias de petições no mesmo sentido: “Concede que sejamos renovados diariamente pelo teu Santo Espírito.10 Concede que, em todos os nossos sofrimentos aqui pelo testemunho da tua verdade, contemplemos pela fé a glória que há de ser revelada e, cheios do Espírito Santo, amemos e bendigamos os nossos perseguidores.11 Envia o teu Espírito Santo e derrama em nosso coração aquele dom excelentíssimo da caridade.12 Ó Senhor, de quem procedem todas as coisas boas, concede a nós, teus humildes servos, que pela tua santa inspiração pensemos as coisas que são boas e, pela tua misericordiosa direção, as pratiquemos.13 Concede-nos, pelo mesmo Espírito, ter um juízo reto em todas as coisas e alegrar-nos sempre no seu santo conforto.14 (N. B. A igreja ensina aqui todos os cristãos a reivindicar o Consolador, em virtude da promessa feita em Jo 14.) Concede-nos, Senhor, nós te suplicamos, o Espírito, para pensar e fazer sempre as coisas que são retas.15 Ó Deus, visto que sem ti não somos capazes de te agradar, concede misericordiosamente que o teu Santo Espírito dirija e governe o nosso coração em todas as coisas.16 Purifica os pensamentos do nosso coração pela inspiração do teu Santo Espírito, para que te amemos perfeitamente e engrandeçamos dignamente o teu santo nome.17”
“Dá o teu Santo Espírito a esta criança (ou a esta pessoa), para que nasça de novo. Dá o teu Santo Espírito a estas pessoas (N. B. já batizadas), para que continuem sendo teus servos.”
“Deus todo-poderoso, que te dignaste regenerar estas pessoas pela água e pelo Espírito Santo: fortalece-as com o Espírito Santo, o Consolador, e aumenta nelas diariamente os múltiplos dons da tua graça.” Ofício da Confirmação.
Por estas passagens fica suficientemente claro para que fins todo cristão, segundo a doutrina da Igreja da Inglaterra, recebe agora o Espírito Santo. Mas isso ficará ainda mais claro pelas que se seguem, nas quais o leitor poderá observar também um sentido simples e racional do revelar-se de Deus a nós, da inspiração do Espírito Santo e do sentir o crente em si mesmo a poderosa operação do Espírito de Cristo.
25. “Deus lhes deu antigamente a graça de serem seus filhos, como faz conosco agora. Mas agora, pela vinda do nosso Salvador Cristo, recebemos mais abundantemente o Espírito de Deus em nosso coração.” Homilia sobre a fé, parte II.
“Ele morreu para destruir o domínio do diabo em nós, e ressuscitou para enviar o seu Santo Espírito, a fim de reinar em nosso coração.” Homilia sobre a ressurreição.
“Temos o Espírito Santo em nosso coração como selo e penhor da nossa herança eterna.” Ibidem.
“O Espírito Santo pousou sobre cada um deles como línguas repartidas de fogo, para ensinar que é ele quem dá eloquência e palavra na pregação do evangelho; quem gera um zelo ardente pela palavra de Deus e dá a todos uma língua, sim, uma língua de fogo.” (N. B. Tudo o que aparece em qualquer dos diários sobre Deus “me dar palavra” ou “me capacitar a falar com poder” não pode, portanto, ser citado como entusiasmo sem ferir a igreja através de mim.) “De modo que, se alguém é um cristão mudo, que não professa abertamente a sua fé, dá motivo para que se duvide de que tenha dentro de si a graça do Espírito Santo.” Homilia sobre o Pentecostes, parte I.
“É ofício do Espírito Santo santificar; e quanto mais isso se esconde do nosso entendimento” (isto é, a maneira particular como ele opera), “tanto mais deve levar todos os homens a se maravilharem das secretas e poderosas operações do Santo Espírito de Deus que está dentro de nós; pois é o Espírito Santo quem vivifica a mente dos homens, despertando em seu coração impulsos piedosos. E ele não considera suficiente operar interiormente o novo nascimento do homem, se não habitar também e permanecer nele. Vocês não sabem, diz São Paulo, que são santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vocês? (1Co 3.16) Vocês não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo, que está em vocês? (1Co 6.19) E diz ainda: Vocês não estão na carne, mas no Espírito. Por quê? O Espírito de Deus habita em vocês (Rm 8.9). Com isso concorda São João: A unção que receberam (ele se refere ao Espírito Santo) permanece em vocês.18 E São Pedro diz o mesmo: O Espírito da glória, que é o Espírito de Deus, repousa sobre vocês (1Pe 4.14). Oh, que conforto é para o coração de um verdadeiro cristão pensar que o Espírito Santo habita nele! Se Deus é por nós, como diz o apóstolo, quem será contra nós? (Rm 8.31) Ele dá paciência e alegria de coração na tentação e na aflição, e por isso é com razão chamado o Consolador19. Ele instrui o coração dos simples no conhecimento de Deus e da sua palavra; por isso é com justiça chamado o Espírito da verdade20. E onde o Espírito Santo instrui e ensina, não há demora nenhuma em aprender.” Ibidem.
(Desta passagem aprendo: 1. Que todo verdadeiro cristão recebe agora o Espírito Santo como o Paracleto ou Consolador prometido pelo nosso Senhor (Jo 14.16). Em segundo lugar, que todo cristão o recebe como o Espírito da verdade (prometido em Jo 16) para lhe ensinar todas as coisas. E 3. Que a unção mencionada na primeira epístola de São João permanece em todo cristão.)
26. “Na leitura da palavra de Deus, mais proveito tira aquele que é mais inspirado pelo Espírito Santo.” Homilia sobre a leitura da Escritura, parte I.
“A sabedoria humana e mundana não é necessária para entender a Escritura, mas sim a revelação do Espírito Santo, que inspira o verdadeiro sentido aos que o buscam com humildade e diligência.” Ibidem, parte II.
“Faze-o conhecer e sentir que não há outro nome debaixo do céu, dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos.”
“Se sentimos a nossa consciência em paz com Deus, pela remissão do nosso pecado, tudo vem de Deus.” Homilia para a semana das Rogações, parte III.
“Se vocês sentem em si tal fé, alegrem-se nela e deixem-na crescer diariamente pela prática do bem.” Homilia sobre a fé, parte III.
“Os fiéis podem sentir operadas em si a tranquilidade da consciência, o aumento da fé e da esperança, e muitas outras graças de Deus.” Homilia sobre o sacramento, parte I.
“Os homens piedosos sentem interiormente o Santo Espírito de Deus inflamando o seu coração de amor.” Homilia sobre certas passagens da Escritura, parte I.
“Deus nos dê graça para conhecer estas coisas e senti-las em nosso coração! Este conhecimento e este sentir não vêm de nós mesmos. Invoquemos, pois, com mansidão o Espírito generoso, o Espírito Santo, para que nos inspire com a sua presença, a fim de que sejamos capazes de ouvir a bondade de Deus para a nossa salvação. Pois sem a sua viva inspiração não conseguimos sequer pronunciar o nome do Mediador. Ninguém pode dizer: ‘Senhor Jesus!’, senão pelo Espírito Santo (1Co 12.3). Muito menos seríamos capazes de crer e conhecer estes grandes mistérios que nos são revelados por Cristo. Mas nós não temos recebido, diz São Paulo, o espírito do mundo, e sim o Espírito que vem de Deus; com este propósito: para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente (1Co 2.12). No poder do Espírito Santo repousa toda a capacidade de conhecer a Deus e de lhe agradar. É ele quem purifica a mente pela sua operação secreta. Ele ilumina o coração para conceber pensamentos dignos do Deus todo-poderoso. Ele se assenta na língua do homem para movê-lo a falar da sua honra. Só ele ministra força espiritual às faculdades da alma e do corpo. E, se temos algum dom com que possamos beneficiar o nosso próximo, tudo é operado por este único e mesmo Espírito.” Homilia para a semana das Rogações, parte III.
27. Toda proposição que eu já tenha apresentado, em qualquer lugar, sobre aquelas operações do Espírito Santo que creio serem comuns a todos os cristãos de todas as épocas é aqui claramente sustentada pela nossa própria igreja.
Com plena consciência disso, durante muitos anos não consegui entender bem como, ao se mencionar qualquer uma dessas grandes verdades, mesmo entre homens instruídos, se levantava imediatamente o grito: “Entusiasta! Entusiasta!” Mas agora percebo claramente que isso não passa de uma velha falácia com nova roupagem. Acusar de entusiasmo qualquer pessoa ou doutrina é apenas um modo decoroso de dar por provado o que está em questão. Em geral, poupa ao acusador o trabalho de raciocinar e é um caminho mais curto e mais fácil de ganhar a sua causa.
Por exemplo, afirmo que “enquanto o homem não recebe o Espírito Santo, está sem Deus no mundo; que não pode conhecer as coisas de Deus se Deus não as revelar a ele pelo Espírito; não, nem sequer pode ter uma única disposição santa ou celestial sem a inspiração do Santo”. Ora, se alguém que tem consciência de não ter experimentado nada disso tentasse refutar essas proposições, seja pela Escritura, seja pela antiguidade, a tarefa poderia mostrar-se difícil. Que fará então? Ora, gritará: “Entusiasmo! Entusiasmo!” E a obra está feita.
Mas o que ele entende por entusiasmo? Talvez nada: poucos têm alguma ideia precisa do seu significado. Talvez “algo muito ruim”, ou “algo que nunca experimentei e não entendo”. Devo dizer-lhes, então, o que é esse “algo terrível”? Creio que os homens que pensam entendem por entusiasmo uma espécie de loucura religiosa, uma falsa imaginação de estar inspirado por Deus; e por entusiasta, alguém que imagina estar sob a influência do Espírito Santo quando de fato não está.
Prove que sou culpado disso quem puder. Direi mais uma vez tudo o que creio sobre esses pontos. E, se alguém me mostrar (com argumentos, não com xingamentos) o que está errado, agradecerei a Deus e a ele.
28. Todo bom dom vem de Deus e é dado ao homem pelo Espírito Santo. Por natureza não há em nós bem nenhum. E não pode haver nenhum, senão na medida em que é operado em nós por esse bom Espírito. Temos algum conhecimento verdadeiro do que é bom? Isso não é fruto do nosso entendimento natural. A pessoa natural não aceita as coisas do Espírito de Deus (1Co 2.14), de modo que nunca podemos discerni-las até que Deus as revele a nós por meio do seu Espírito (1Co 2.10). Revelar, isto é, tirar o véu, descobrir; dar-nos a conhecer o que antes não sabíamos. Temos amor? Ele é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi dado (Rm 5.5). Ele inspira, sopra, infunde em nossa alma o que por nós mesmos não poderíamos ter. O nosso espírito se alegra em Deus, nosso Salvador? É alegria no (ou pelo) Espírito Santo (Rm 14.17). Temos verdadeira paz interior? É a paz de Deus (Fp 4.7), operada em nós pelo mesmo Espírito. Fé, paz, alegria, amor: todos são frutos dele. E, assim como se diz figuradamente que vemos a luz da fé, assim também, por figura semelhante, se diz que sentimos essa paz, essa alegria e esse amor: isto é, temos deles uma experiência interior que não conseguimos exprimir com palavra mais adequada.
As razões por que, ao falar dessas coisas, uso esses termos (inspiração em particular) são: 1. Porque são bíblicos. 2. Porque são usados pela nossa igreja. 3. Porque não conheço outros melhores. A expressão “influência do Espírito Santo”, que suponho que vocês usem, é um termo muito mais forte e menos natural do que inspiração. É muito mais forte, tanto quanto “fluir para dentro da alma” é expressão mais forte do que “soprar sobre ela”; e menos natural, porque soprar tem estreita relação com espírito, ao passo que fluir para dentro tem com ele apenas uma relação distante. [N. do T.: influence vem do latim influere, “fluir para dentro”; inspiration, de inspirare, “soprar para dentro”; e spiritus significa “sopro”.]
“Mas vocês pensaram que eu queria dizer inspiração imediata.” É o que quero dizer, ou não quero dizer nada. Não, de fato, uma inspiração que seja sine mediis [sem meios]. Mas toda inspiração, ainda que por meios, é imediata. Suponha, por exemplo, que você esteja em oração particular e Deus derrame o seu amor em seu coração. Deus age então imediatamente sobre a sua alma; e o amor a ele que você então experimenta é tão imediatamente soprado em você pelo Espírito Santo como se você tivesse vivido há 1700 anos. Troque o termo. Diga: “Deus então o ajuda a amá-lo.” Muito bem, e isso não é ajuda imediata? Diga: “O Espírito dele concorre com o seu.” Você não ganha terreno. É concorrência imediata ou nenhuma. Deus, que é Espírito, age sobre o seu espírito. Explique de outra maneira, se puder.
Não consigo conceber como aquela palavra inofensiva, imediato, veio a ser um tal bicho-papão no mundo. “Ora, pensei que você se referia a uma inspiração como a que os apóstolos tiveram, e a um receber o Espírito Santo como aquele do dia de Pentecostes.” Em parte, sim. Na verdade, não quero dizer que os cristãos recebem agora o Espírito Santo para operar milagres; mas, sem dúvida, agora o recebem, sim, ficam cheios do Espírito Santo (At 2.4), para serem cheios dos frutos desse bendito Espírito. E ele inspira agora em todos os verdadeiros crentes uma medida da mesma paz, alegria e amor que os apóstolos sentiram em si mesmos naquele dia em que ficaram cheios do Espírito Santo pela primeira vez.
29. Considerei agora as objeções mais importantes de que tenho conhecimento, feitas recentemente contra as grandes doutrinas que ensino. Apresentei, tanto quanto estava ao meu alcance, a força dessas objeções e depois respondi a elas, espero que com espírito de mansidão. E agora confio que esteja claro que essas doutrinas não são outras senão as doutrinas de Jesus Cristo; que estão todas evidentemente contidas na palavra de Deus, pela qual somente desejo ficar de pé ou cair; e que são, no fundamental, as mesmas doutrinas da Igreja da Inglaterra, da qual me declaro, e sempre me declarei, membro.
Mas resta uma objeção que, embora se refira ao tema da doutrina, é independente de tudo o que veio antes. E é esta: “Vocês não conseguem concordar entre si nas suas doutrinas. Um sustenta uma coisa, e outro, outra. O sr. Whitefield anatematiza o sr. Wesley, e o sr. Wesley anatematiza o sr. Whitefield. E, no entanto, cada um pretende ser guiado pelo Espírito Santo, pelo Espírito infalível de Deus! Todo homem razoável deve concluir daí que nenhum dos dois é guiado por esse Espírito.”
Não preciso dizer com que insistência isso tem sido alegado, tanto na conversa comum como na imprensa (e lamento acrescentar: também do púlpito; pois, se o argumento fosse bom, derrubaria a Bíblia). Nem quanto peso se tem dado continuamente a ele: quem quer que o apresente, apresenta-o como demonstração e, em geral, bate as asas, plenamente seguro de que não admite resposta.
E, na verdade, tenho dúvida se ele admite (estou certo de que não exige) outra resposta que não aquela, grosseira, do camponês ao campeão romanista: “Belarmino, você mente.” Pois cada proposição aqui contida é grosseira e descaradamente falsa. 1. “Vocês não conseguem concordar entre si nas suas doutrinas.” Quem lhe disse isso? Todas as nossas doutrinas fundamentais eu as expus acima. E em cada uma delas concordamos e temos concordado há vários anos. Nelas sustentamos uma só e mesma coisa. Nos pontos menores, cada um de nós pensa e deixa pensar. 2. “O sr. Whitefield anatematiza o sr. Wesley.” Outra inverdade descarada. Leia qualquer pessoa o que o sr. Whitefield escreveu, mesmo no calor da controvérsia, e se convencerá do contrário. 3. “E o sr. Wesley anatematiza o sr. Whitefield.” Isso é igualmente falso e escandaloso. Reverencio o sr. Whitefield, tanto como filho de Deus quanto como verdadeiro ministro de Jesus Cristo. 4. “E, no entanto, cada um pretende ser guiado pelo Espírito Santo, pelo Espírito infalível de Deus.” Não nas nossas opiniões particulares; nem qualquer um de nós pretende ser guiado pelo Espírito de Deus além do que todo cristão tem de pretender, a não ser que queira negar a Bíblia. Pois somente todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus (Rm 8.14). Portanto, se você não pretende ser guiado por ele também, ou melhor, se de fato não for assim, você não é dele (Rm 8.9).
E agora, que fim levou a sua demonstração? Deixem-na para os carroceiros e carregadores, os seus legítimos proprietários; para as zelosas vendedoras de maçãs que gritam atrás de mim na rua: “Este é aquele que fala mal do Dever Completíssimo do Homem.” [N. do T.: deturpação popular do título de The Whole Duty of Man (O Dever Completo do Homem), manual de devoção anônimo muito difundido na Inglaterra do século XVIII.] Mas todo aquele que tem pretensões à erudição ou à razão se envergonhe de mencioná-la outra vez.
30. A primeira conclusão, facilmente deduzida do que foi dito, é: “Que não somos falsos profetas.” Num sentido da palavra, não somos profetas de modo algum, pois não predizemos coisas futuras. Mas, em outro (no qual todo ministro é profeta), somos. Pois de fato falamos em nome de Deus. Ora, um falso profeta (neste sentido da palavra) é aquele que declara como vontade de Deus o que não é. Mas nós não declaramos (como foi amplamente demonstrado) outra coisa como vontade de Deus senão o que está evidentemente contido na sua palavra escrita, tal como explicada pela nossa própria igreja. Portanto, a não ser que vocês consigam provar que a Bíblia é um livro falso, não poderão de modo algum provar que somos falsos profetas.
O texto que geralmente se cita nesta ocasião é Mt 7.15. Mas quão infelizmente escolhido! Nos capítulos anteriores, o nosso Senhor havia descrito aquela justiça que excede a dos escribas e fariseus, e sem a qual não podemos entrar no Reino dos Céus (Mt 5.20): a própria vida de Deus na alma; a santidade de coração que produz toda santidade de procedimento. Nisto, ele encerra aquela regra que resume o todo com estas palavras solenes: Entrem pela porta estreita! (tal é, de fato, a da santidade universal). Porque larga é a porta e espaçoso é o caminho que conduz para a perdição. A porta do inferno é larga como a terra inteira; o caminho da impiedade é espaçoso como o grande abismo. E são muitos os que entram por ela; sim, e se desculpam ao fazê-lo, porque estreita é a porta e apertado é o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que o encontram (Mt 7.13-14). Segue-se: Cuidado com os falsos profetas: com aqueles que falam como da parte de Deus o que Deus não falou; aqueles que lhes mostram outro caminho para a vida que não aquele que acabo de mostrar. De modo que os falsos profetas de que aqui se fala são os que apontam outro caminho para o céu que não este; que ensinam os homens a encontrar uma porta mais larga, um caminho mais espaçoso do que o descrito nos capítulos anteriores. Mas ficou abundantemente demonstrado que nós não fazemos isso. Portanto (o que quer que sejamos além disso), não somos falsos profetas.
Tampouco somos (como se tem afirmado com frequência e veemência) enganadores do povo. Se ensinamos a verdade em Jesus (Ef 4.21), se falamos de acordo com os oráculos de Deus (1Pe 4.11), segue-se que não enganamos os que nos ouvem, ainda que creiam em tudo o que dizemos. Seja Deus verdadeiro, e todo ser humano, mentiroso: todo homem que contradiz a verdade dele. Mas ele será justificado nas suas palavras e vencerá quando for julgado (Rm 3.4).
Concluo ainda mais uma coisa: “Que não somos entusiastas.” Essa acusação já foi examinada longamente, e os principais argumentos apresentados até agora para sustentá-la foram pesados na balança e achados em falta. Particularmente este: “Que ninguém senão entusiastas supõe que aquela promessa do Consolador21, ou o testemunho do Espírito22, ou aquela oração inexprimível23, ou a unção que vem do Santo24, pertençam em comum a todos os cristãos.” Ó senhor bispo, com que severidade o senhor condenou a geração dos filhos de Deus! A quantos o senhor representou como entusiastas rematados, sonhadores, como homens ou iludidos ou mal-intencionados! Não só o bispo Pearson, homem até hoje tido por são de coração e de bom entendimento, mas também o arcebispo Cranmer, o bispo Ridley, o bispo Latimer, o bispo Hooper! E todos os veneráveis compiladores da nossa liturgia e das nossas homilias; todos os membros de ambas as câmaras da Convocação, pelos quais foram revistas e aprovadas; sim, o rei Eduardo e todos os seus lordes e comuns juntos, por cuja autoridade foram estabelecidas! E, com esses entusiastas modernos, Orígenes, Crisóstomo e Atanásio ficam incluídos na mesma censura!
Admito que um deísta poderia colocar tanto a nós como a eles no número dos loucos religiosos; e até deveria fazê-lo, partindo da suposição dele de que o evangelho não passa de fábula engenhosamente inventada (2Pe 1.16). E, com esse fundamento, alguns deles de fato o fizeram. Um deles me perguntava, há alguns anos: “O quê? Também você é um desses cavaleiros andantes? Como, por favor, lhe entrou na cabeça esse quixotismo? Você não precisa de nada: tem uma boa provisão para a vida e está bem encaminhado para uma promoção. E você tem de deixar tudo para lutar contra moinhos de vento, para converter selvagens na América?” Só pude responder: “Senhor, se a Bíblia é uma mentira, sou o maior louco que o senhor possa imaginar. Mas, se ela é verdadeira, estou em meu juízo perfeito. Não sou nem louco nem entusiasta. Pois não há ninguém que tenha deixado pai, ou mãe, ou mulher, ou casa, ou campos por causa do evangelho, que não receba, já no presente, cem vezes mais, com perseguições; e, no mundo por vir, a vida eterna (Mc 10.29-30).”
Também os cristãos nominais, os cristãos de fachada, homens de pura forma, podem fazer o mesmo juízo. Pois renunciamos a toda pretensão àquilo que eles consideram felicidade, em troca daquilo que eles (com os deístas) creem ser um puro sonho. Esperamos, portanto, passar por entusiastas também diante destes. Mas a sabedoria é justificada por todos os seus filhos (Lc 7.35).
32. Não posso encerrar este ponto sem uma observação óbvia. Suponham que fôssemos de fato entusiastas; suponham que as nossas doutrinas fossem falsas e não tivessem apoio nem na razão, nem na Escritura, nem na autoridade: por que, então, ninguém entre vocês que é sábio e inteligente tentou ao menos mostrar-nos o nosso erro em amor e com mansidão de sabedoria? Irmãos, se vocês têm em seu coração inveja amargurada, a sua sabedoria não é a que desce lá do alto. A sabedoria lá do alto é pura, pacífica, gentil, amigável, cheia de misericórdia ou compaixão (Tg 3.13-17). Esse espírito aparece em um único sequer de todos os folhetos publicados contra nós? Há um só escritor que nos tenha repreendido em amor? Reduzam a questão a um único ponto. O amor tudo espera (1Co 13.7). Se vocês nos tivessem amado em qualquer grau, teriam esperado que Deus algum dia nos desse o conhecimento da sua verdade. Mas onde encontraremos mesmo esse pequeno sinal de amor? Não nos tratou como incorrigíveis todo aquele que escreveu alguma coisa (não me lembro de uma única exceção)? Irmãos, como é isto? Por que se esforçam em ensinar-nos uma lição má contra vocês mesmos? Oh, que Deus nunca permita que outros os tratem como vocês nos trataram!
1. Dou por certo que a indicação dos textos na margem, que está inteiramente errada, é um erro do tipógrafo.
2. Página 15.
3. Rm 8.14.
4. Rm 8.26.
5. Rm 8.27.
6. Jo 14.16,26.
7. Jo 14.16.
8. Rm 8.27.
9. Rm 8.15-16.
10. Coleta do dia de Natal.
11. Dia de Santo Estêvão.
12. Domingo da Quinquagésima.
13. 5º domingo depois da Páscoa.
14. Domingo depois da Ascensão.
15. 9º domingo depois da Trindade.
16. 19º domingo depois da Trindade.
17. Ofício da Comunhão.
18. 1Jo 2.27.
19. Jo 14.16.
20. Jo 16.13.
21. Jo 14.16,26; 16.13.
22. Rm 8.15-16.
23. Rm 8.26-27.
24. 1Jo 2.20,27.
Tradução para o português a partir de John Wesley, An Earnest Appeal to Men of Reason and Religion (1743) e A Farther Appeal to Men of Reason and Religion, partes I a III (1745), no texto revisto por Wesley para as suas Obras (Bristol, William Pine, 1772, vols. 14 e 15; transcrição do Projeto Gutenberg); domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.