John Wesley · Apelos aos Homens de Razão e Religião · Apelo Adicional, Parte I
As doutrinas que Wesley prega (justificação pela fé, salvação, novo nascimento) e as primeiras objeções a elas, respondidas com os Artigos, as Homilias e a liturgia da Igreja da Inglaterra.
NUM tratado anterior, declarei, da maneira mais clara que pude, tanto os meus princípios como a minha prática, e respondi a algumas das objeções mais importantes, e também mais comuns, a uns e a outra. Mas ainda não livrei a minha alma. Creio que ainda me cabe responder a outras objeções, em especial às que têm sido levantadas por pessoas tidas como religiosas ou sensatas.
Elas dizem respeito em parte às doutrinas que ensino, em parte ao modo como as ensino, e em parte aos efeitos que, segundo se supõe, decorrem de ensinar essas doutrinas desse modo.
I. 1. Mencionarei brevemente quais são essas doutrinas, antes de examinar as objeções contra elas. Ora, tudo o que ensino diz respeito à natureza e à condição da justificação, à natureza e à condição da salvação, à natureza da fé que justifica e salva, ou ao Autor da fé e da salvação.
2. Primeiro, a natureza da justificação. Às vezes ela significa a nossa absolvição no último dia1. Mas isso está inteiramente fora da presente questão. A justificação de que falam os nossos Artigos e Homilias significa o perdão presente, a remissão dos pecados e, em consequência, a aceitação diante de Deus, que nela manifesta a sua justiça, ou misericórdia, por meio da remissão dos pecados passados, ou em vista dela, dizendo: Usarei de misericórdia para com a tua injustiça, e das tuas iniquidades jamais me lembrarei (Hb 8.12) [N. do T.: Wesley adapta à segunda pessoa a versão do rei Tiago; a NAA traz “para com as suas iniquidades, usarei de misericórdia e dos seus pecados jamais me lembrarei”].2 [N. do T.: Wesley cita Rm 3.25 pela versão do rei Tiago, que fala em “remissão dos pecados passados”; a NAA traz “por ter ele, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos”.]
Creio que a condição dela é a fé3: quero dizer não só que sem fé não podemos ser justificados, mas também que, assim que alguém tem fé verdadeira, nesse momento é justificado.
As boas obras seguem essa fé4, mas não podem precedê-la. Muito menos a santificação, que implica um curso contínuo de boas obras, brotando da santidade do coração. Admite-se, porém, que a santificação completa precede a nossa justificação no último dia.5
Admite-se também que o arrependimento6 e os frutos dignos de arrependimento7 precedem a fé. O arrependimento tem absolutamente de preceder a fé; os frutos dignos dele, se houver oportunidade. Por arrependimento entendo a convicção do pecado, que produz desejos reais e resoluções sinceras de emenda; e por frutos dignos de arrependimento, perdoar o nosso irmão8, deixar de fazer o mal9, fazer o bem, usar as ordenanças de Deus10 e, de modo geral, obedecer-lhe segundo a medida da graça que recebemos11. Mas a essas coisas ainda não posso chamar boas obras, porque não brotam da fé e do amor de Deus.
3. Por salvação entendo não apenas, segundo a noção vulgar, o livramento do inferno ou a ida para o céu, mas o livramento presente do pecado, a restauração da alma à sua saúde primitiva, à sua pureza original; a recuperação da natureza divina; a renovação da nossa alma segundo a imagem de Deus, em justiça e verdadeira santidade, em retidão, misericórdia e verdade. Isso implica todas as disposições santas e celestiais e, por consequência, toda santidade de procedimento.
Ora, se por salvação entendemos a salvação presente do pecado, não podemos dizer que a santidade seja a condição dela, pois ela é a própria coisa. Nesse sentido, salvação e santidade são termos sinônimos. Devemos, portanto, dizer: Somos salvos pela fé. A fé é a única condição dessa salvação. Pois sem fé não podemos ser salvos assim. Mas todo aquele que crê já está salvo.
Sem fé não podemos ser salvos assim. Pois não podemos servir a Deus devidamente, a não ser que o amemos. E não podemos amá-lo, a não ser que o conheçamos; nem podemos conhecer a Deus, a não ser pela fé. Portanto, a salvação pela fé é apenas, em outras palavras, o amor de Deus pelo conhecimento de Deus; ou a recuperação da imagem de Deus por meio de uma verdadeira familiaridade espiritual com ele.
4. A fé, em geral, é um ἔλεγχος12 divino e sobrenatural das coisas que não se veem, que não são perceptíveis aos nossos sentidos corporais, por serem passadas, futuras ou espirituais. A fé justificadora implica não só um ἔλεγχος divino de que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo (2Co 5.19), mas também uma firme confiança de que Cristo morreu pelos meus pecados, de que ele me amou e se entregou por mim (Gl 2.20). E, no momento em que o pecador arrependido crê nisso, Deus o perdoa e o absolve.
E, assim que o seu perdão, ou justificação, lhe é testemunhado pelo Espírito Santo, ele está salvo. Ama a Deus e a toda a humanidade. Tem o mesmo modo de pensar de Cristo (Fp 2.5) e poder para andar assim como ele andou (1Jo 2.6). Desde então (a não ser que naufrague na fé), a salvação cresce gradualmente na sua alma. Pois o Reino de Deus é como um homem que lança a semente na terra. (…) Primeiro aparece a planta, depois, a espiga, e, por fim, o grão cheio na espiga (Mc 4.26-28).
5. A primeira semeadura dessa semente, não consigo concebê-la senão como instantânea, quer eu considere a experiência, quer a palavra de Deus, quer a própria natureza da coisa. Contudo, não disputo por uma circunstância, mas pela substância: se vocês podem alcançá-la de outro modo, alcancem. Apenas cuidem de alcançá-la, pois, se ficarem aquém dela, perecerão eternamente.
Esse início daquela vasta mudança interior costuma ser chamado o novo nascimento. O batismo é o sinal exterior dessa graça interior, que a nossa Igreja supõe ser dada com esse sinal, e por meio dele, a todas as crianças, e aos de idade mais madura, se se arrependerem e crerem no evangelho. Mas quão extremamente ociosas são as disputas comuns sobre esse ponto! Digo a um pecador: “Você precisa nascer de novo.” “Não”, dizem vocês, “ele nasceu de novo no batismo. Portanto, não pode nascer de novo agora.” Ah, que futilidade é essa! E se ele então era filho de Deus? Agora é manifestamente filho do diabo, pois pratica as obras de seu pai. Portanto, não joguem com as palavras. Ele precisa passar por uma mudança completa de coração. Em alguém ainda não batizado, vocês mesmos chamariam essa mudança o novo nascimento. Nele, chamem-na como quiserem; mas lembrem-se, entretanto, de que, se ele ou vocês morrerem sem ela, o batismo de vocês estará tão longe de lhes trazer proveito que aumentará grandemente a sua condenação.
6. O autor da fé e da salvação é somente Deus. É ele quem efetua em nós tanto o querer como o realizar. Ele é o único doador de todo bom dom e o único autor de toda boa obra. Não há no homem mais poder do que mérito; mas, assim como todo mérito está no Filho de Deus, naquilo que ele fez e sofreu por nós, assim todo poder está no Espírito de Deus. Por isso, todo homem, para crer para a salvação, precisa receber o Espírito Santo. Isso é essencialmente necessário a todo cristão, não para que opere milagres, mas para a fé, a paz, a alegria e o amor, os frutos comuns do Espírito.
Embora nenhum homem na terra possa explicar o modo particular como o Espírito de Deus opera na alma, quem quer que tenha esses frutos não pode deixar de saber e de sentir que Deus os operou no seu coração.
Às vezes ele age de modo mais particular sobre o entendimento, abrindo-o ou iluminando-o (como diz a Escritura), e revelando, desvendando, descobrindo-nos as profundezas de Deus (1Co 2.10).
Às vezes ele age sobre a vontade e os afetos dos homens, afastando-os do mal, inclinando-os ao bem, inspirando (como que soprando) neles bons pensamentos. Assim isso tem sido expresso com frequência, por uma metáfora fácil e natural, rigorosamente análoga a רוח, πνεῦμα, spiritus [sopro, vento, espírito] e às palavras que também a maioria das línguas modernas usa para designar a terceira pessoa da sempre bendita Trindade. Mas, como quer que seja expresso, é certo que toda fé verdadeira, e toda a obra da salvação, todo bom pensamento, palavra e obra, se deve inteiramente à operação do Espírito de Deus.
II. 1. Passo agora a examinar as principais objeções que ultimamente têm sido feitas contra essas doutrinas.
Não conheço nada de importante que se tenha objetado quanto à natureza da justificação. Mas muitas pessoas parecem ter ideias muito confusas a respeito dela e falam como se nunca tivessem ouvido falar de nenhuma justificação anterior à do último dia. Para esclarecer isso, basta um exame mais atento dos nossos Artigos e Homilias, nos quais a justificação é sempre tomada como a remissão presente dos nossos pecados.
Mas muitas são as objeções que têm sido levantadas com calor contra a condição da justificação, a fé somente; em especial em dois tratados, o primeiro intitulado As Noções dos Metodistas Inteiramente Refutadas, e o segundo, As Noções dos Metodistas Ainda Mais Refutadas. Em ambos se afirma com veemência: 1. Que esta não é uma doutrina bíblica. 2. Que não é a doutrina da Igreja da Inglaterra.
Não será preciso mencionar mais o primeiro deles, visto que nele não se apresenta nem um só texto para provar que essa doutrina não é bíblica, nem uma só frase dos Artigos ou das Homilias para provar que ela contraria a doutrina da Igreja. Mas procurarei examinar com calma tudo o que no segundo diz respeito ao mérito da causa. Quanto ao que é pessoal, deixo-o como está. Ó Deus, tem pena de mim, que sou pecador! (Lc 18.13).
2. Para provar que não é bíblica a doutrina de que “a fé somente é a condição da justificação”, o senhor alega que “a santificação, segundo a Escritura, precisa precedê-la”. Para demonstrá-lo, cita os seguintes textos, que deixo como os encontro: Vão e façam discípulos de todas as nações (…) ensinando-os a guardar todas as coisas que tenho ordenado a vocês.13 Quem crer e for batizado será salvo.14 Que se pregasse arrependimento para remissão de pecados.15 Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado (…) para remissão dos seus pecados.16 Arrependam-se e se convertam, para que sejam cancelados os seus pecados.17 Com uma única oferta, aperfeiçoou para sempre os que estão sendo santificados.18 E acrescenta: “São Paulo ensinava o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo19, e chama o arrependimento de obras mortas e a fé em Deus de princípios elementares.20“
O senhor prossegue: “Mas vocês foram lavados, diz ele, foram santificados, foram justificados (1Co 6.11). Por lavados entende-se o batismo deles; e pelo batismo deles entende-se, primeiro, a sua santificação e, depois, a sua justificação.” Isso é pura petição de princípio: o senhor dá por certo justamente o ponto que deveria provar. “Também São Pedro“, diz o senhor, “afirma que o batismo salva, ou justifica” (1Pe 3.21). De novo, petição de princípio: o senhor dá por certo aquilo que nego inteiramente, a saber, que salvar e justificar sejam aqui termos sinônimos. Enquanto isso não for provado, o senhor não pode tirar conclusão nenhuma, pois não tem fundamento sobre o qual construir.
Entendo que estes e todos os textos da Escritura que se possam citar para provar que a santificação precede a justificação (se não se referem à nossa justificação final) provam apenas (o que nunca neguei) que o arrependimento, ou convicção do pecado, e os frutos dignos de arrependimento precedem a fé pela qual somos justificados; mas de modo nenhum provam que o amor de Deus, ou qualquer ramo da verdadeira santidade, deva ou possa preceder a fé.
3. Objeta-se, em segundo lugar, que a justificação pela fé somente não é a doutrina da Igreja da Inglaterra.
“O senhor crê”, diz o autor acima mencionado, “que nenhuma boa obra pode ser anterior à justificação nem, por consequência, ser condição dela. Mas, Deus seja louvado, a nossa Igreja em parte alguma ensinou doutrina tão abominável.” Página 14.
“O clero defende a santidade interior como anterior à primeira justificação. Essa é a doutrina que ele inculca universalmente, e o senhor não pode opor-se a ela sem contradizer a doutrina da nossa Igreja.” Página 26.
“Todas as suas mais fortes exortações ao amor de Deus não disfarçarão a deformidade daquela doutrina de que os homens podem ser justificados pela fé somente. A menos que o senhor se retrate publicamente dessa doutrina horrível, a sua fé é vã.” Página 27.
“Se o senhor se dignar a expurgar essa parte venenosa dos seus princípios, na qual consiste principalmente a ampla, essencial, fundamental e irreconciliável diferença, como o senhor muito acertadamente a chama, então não se achará, nesse ponto, nenhuma discordância entre o senhor e o clero da Igreja da Inglaterra.” Ibidem.
4. Para nos certificarmos com clareza e plenitude de qual é a doutrina da Igreja da Inglaterra (enquanto se opõe à doutrina dos antinomianos, de um lado, e à da justificação pelas obras, do outro), exporei simplesmente o que se encontra sobre esse ponto na sua liturgia, nos seus Artigos ou nas suas Homilias.
“Poupa, ó Deus, os que confessam as suas faltas; restaura os que estão arrependidos, segundo as tuas promessas declaradas à humanidade em Cristo Jesus, nosso Senhor.”
“Ele perdoa e absolve todos os que verdadeiramente se arrependem e creem sem fingimento no seu santo evangelho.”
“Deus todo-poderoso, que perdoas os pecados dos que estão arrependidos, cria e forma em nós corações novos e contritos, para que, lamentando dignamente os nossos pecados e reconhecendo a nossa miséria, alcancemos de ti perfeita remissão e perdão, por Jesus Cristo, nosso Senhor.” Coleta da Quarta-feira de Cinzas.
“Deus todo-poderoso (…) prometeu o perdão dos pecados a todos os que se voltam para ele com arrependimento sincero e fé verdadeira.” Ofício da Comunhão.
“Nosso Senhor Jesus Cristo deixou poder para absolver todos os pecadores que verdadeiramente se arrependem e creem nele.” Visitação dos enfermos.
“Dá-lhe arrependimento sincero e fé firme, para que os seus pecados sejam apagados.” Ibidem.
“Ele recebe misericordiosamente todos os verdadeiros pecadores arrependidos e está pronto a perdoar-nos, se viermos a ele com arrependimento fiel.” Ofício da cominação.
Às crianças, de fato, a nossa Igreja supõe justificadas no batismo, embora não possam então nem crer nem arrepender-se. Mas ela exige expressamente tanto o arrependimento como a fé daqueles que vêm para ser batizados em idade mais madura.
Portanto, por mais insistentemente que a nossa Igreja inculque a justificação pela fé somente, ela supõe, ainda assim, que o arrependimento e os frutos dignos de arrependimento são anteriores à fé; e, mais ainda, que a santidade universal é anterior à justificação final, como se vê claramente pelas seguintes palavras:
“Supliquemos a ele (…) que o resto da nossa vida seja puro e santo, de modo que no fim cheguemos à sua alegria eterna.” Absolvição.
“Que apliquemos seriamente aqui o nosso coração àquela sabedoria santa e celestial que no fim nos possa levar à vida eterna.” Visitação dos enfermos.
“Levanta-nos da morte do pecado para a vida da justiça, (…) para que no último dia sejamos achados aceitáveis aos teus olhos.” Ofício do sepultamento.
“Se daqui em diante andarmos nos seus caminhos, (…) buscando sempre a sua glória, Cristo nos colocará à sua direita.” Ofício da cominação.
5. Passamos em seguida aos Artigos da nossa Igreja. A primeira parte do nono diz assim:
“O pecado original (…) é a falha e a corrupção da natureza de todo homem, (…) pela qual o homem está muito afastado da justiça original e é, por sua própria natureza, inclinado ao mal, de modo que a carne cobiça sempre contra o espírito; e, por isso, em toda pessoa nascida neste mundo, merece a ira e a condenação de Deus.”
“A condição do homem depois da queda de Adão é tal que ele não pode converter-se nem preparar-se, por sua própria força natural e por suas boas obras, para a fé e para a invocação de Deus. Por isso, não temos poder para fazer boas obras agradáveis e aceitáveis a Deus sem a graça de Deus por meio de Cristo, que nos previne, para que tenhamos boa vontade, e que coopera conosco quando temos essa boa vontade.” [N. do T.: “prevenir” no sentido antigo de “vir antes”, de onde vem a expressão “graça preveniente”.]
“Somos considerados justos diante de Deus somente pelo mérito de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, mediante a fé, e não por nossas próprias obras ou merecimentos. Por isso, que somos justificados pela fé somente é doutrina muito salutar e muito cheia de consolo, como se expõe mais amplamente na Homilia da justificação.”
Creio que este Artigo se refere à causa meritória da justificação, mais do que à sua condição. Por isso, não fundamento nele nada a respeito desta, mas nos que se seguem.
“Embora as boas obras, que são os frutos da fé e vêm depois da justificação, não possam remover os nossos pecados, (…) contudo são agradáveis e aceitáveis a Deus em Cristo e brotam necessariamente de uma fé verdadeira e viva, de tal modo que por elas uma fé viva pode ser conhecida tão claramente quanto uma árvore se conhece pelo fruto.”
Ensina-se aqui: 1. Que as boas obras, em geral, vêm depois da justificação. 2. Que brotam de uma fé verdadeira e viva, aquela fé pela qual somos justificados. 3. Que a fé verdadeira e justificadora pode ser conhecida por elas tão claramente quanto uma árvore se distingue pelo fruto.
Não se segue daí que supor alguma boa obra antes da justificação é tão absurdo quanto supor que uma maçã, ou qualquer outro fruto, cresça antes da árvore?
Mas ouçamos a Igreja falando ainda mais claramente.
ARTIGO XIII. Das obras feitas antes da justificação.
“As obras feitas antes da graça de Cristo e da inspiração do seu Espírito (isto é, antes da justificação, como o título o exprime) não são agradáveis a Deus, visto que não procedem da fé em Jesus Cristo. (…) Antes, por não serem feitas como Deus quis e ordenou que fossem feitas, não duvidamos que tenham a natureza de pecado.”
Ora, se todas as obras feitas antes da justificação têm a natureza de pecado (tanto porque não procedem da fé em Cristo como porque não são feitas como Deus quis e ordenou que fossem feitas), que é feito da santificação anterior à justificação? Está inteiramente excluída, visto que tudo o que é anterior à justificação não é bom nem santo, mas mau e pecaminoso.
Portanto, embora a nossa Igreja afirme com frequência que devemos arrepender-nos e produzir frutos dignos de arrependimento, se algum dia quisermos alcançar a fé pela qual somente somos justificados, ela nunca afirma (e é aqui que a questão gira sobre o seu eixo) que essas coisas sejam boas obras enquanto são anteriores à justificação. Pelo contrário, afirma expressamente o oposto, a saber, que têm toda a natureza de pecado. De modo que essa “doutrina horrível, escandalosa, perversa, abominável, venenosa e blasfema” é, apesar de tudo, a doutrina da Igreja da Inglaterra.
6. Resta examinar o que se encontra nas Homilias, primeiro quanto à causa meritória da nossa justificação, em conformidade com o Artigo XI, e depois quanto à sua condição, em conformidade com os Artigos XII e XIII.
“Estas coisas devem andar juntas na nossa justificação: da parte de Deus, a sua grande misericórdia e graça; da parte de Cristo, a satisfação da justiça de Deus; e da nossa parte, a fé verdadeira e viva nos méritos de Jesus Cristo.” Homilia sobre a salvação, parte I.
“De modo que a graça de Deus não exclui a justiça (ou retidão) de Deus na nossa justificação, mas exclui apenas a justiça do homem (…) quanto a merecer a nossa justificação.”
“E, por isso, São Paulo não declara nada da parte do homem, no tocante à sua justificação, senão somente uma fé verdadeira.”
“E, contudo, essa fé não exclui que o arrependimento, a esperança e o amor estejam unidos à fé (isto é, depois; veja-se abaixo) em todo homem que é justificado; (…) nem a fé exclui a justiça das nossas boas obras, que devem necessariamente ser feitas depois. Mas as exclui de tal modo que não as façamos com a intenção de ser feitos justos (ou de ser justificados) por fazê-las.”
“Diz-se que somos justificados pela fé somente para tirar claramente todo mérito das nossas obras e atribuir inteiramente a Cristo somente o mérito e o merecimento da nossa justificação.” Ibidem, parte II.
“O verdadeiro sentido desta afirmação, somos justificados pela fé somente, é este: somos justificados somente pelos méritos de Cristo, e não pelas nossas próprias obras.” Ibidem, parte III.
7. Até aqui, quanto à causa meritória da nossa justificação, a que se refere o Artigo XI. Os Artigos XII e XIII são um resumo do que agora se segue, quanto à sua condição.
“Acerca da fé verdadeira (justificadora), três coisas devem ser notadas especialmente: 1. Que ela produz boas obras. 2. Que sem ela não se pode fazer nenhuma boa obra. 3. Que boas obras ela produz.” Sermão sobre a fé, parte I.
“Sem fé não se pode fazer nenhuma boa obra que seja aceita e agradável a Deus. Pois, como o ramo não pode produzir fruto de si mesmo se não permanecer na videira, diz nosso Salvador Cristo, assim vocês não podem dar fruto se não permanecerem em mim (Jo 15.4). A fé dá vida à alma; e os que não têm fé estão tão mortos para Deus quanto estão mortos para o mundo aqueles cujo corpo não tem alma. Sem fé, tudo o que fazemos não passa de coisa morta diante de Deus. Assim como um retrato não passa de uma representação morta da própria coisa, assim são, diante de Deus, as obras de todas as pessoas infiéis (incrédulas). Não passam de sombras de coisas vivas e boas, e não de coisas boas de fato. Pois a fé verdadeira dá vida às obras, e sem fé nenhuma obra é boa diante de Deus.” Ibidem, parte III.
“Não devemos pôr nenhuma boa obra antes da fé, nem pensar que antes da fé um homem possa fazer alguma boa obra. Pois tais obras são como a carreira de um cavalo que corre fora do caminho: dá muito trabalho, mas sem proveito algum.” Ibidem.
“Sem fé não temos virtudes, mas somente as sombras delas. Toda a vida dos que não têm a fé verdadeira é pecado.” Ibidem.
“Assim como os homens primeiro têm vida e depois são nutridos, assim a nossa fé deve vir primeiro e depois ser nutrida com boas obras. E a vida pode existir sem nutrição, mas a nutrição não pode existir sem vida.” Homilia das obras unidas à fé, parte I.
“Posso mostrar um homem que, pela fé sem obras, viveu e chegou ao céu. Mas sem fé nunca homem algum teve vida. O ladrão na cruz somente creu, e o misericordiosíssimo Deus o justificou. É verdade que, se ele tivesse vivido e não tivesse feito caso da fé e das suas obras, teria perdido de novo a sua salvação. Mas o que digo é isto: a fé por si só o salvou. Mas as obras por si sós nunca justificaram homem nenhum.”
“As boas obras não vêm antes, naquele que depois será justificado. Mas as boas obras vêm depois, quando o homem é primeiro justificado.” Homilia sobre o jejum, parte I.
8. Por todo o teor, pois, da sua liturgia, dos seus Artigos e das suas Homilias, a doutrina da Igreja da Inglaterra mostra ser esta:
1. Que nenhuma boa obra propriamente dita pode preceder a justificação;
2. Que nenhum grau de verdadeira santificação pode ser anterior a ela;
3. Que, assim como a causa meritória da justificação é a vida e a morte de Cristo, assim a sua condição é a fé. A fé somente; e
4. Que a santidade, tanto interior como exterior, é consequência dessa fé e é a condição ordinária e estabelecida da justificação final.
9. E que mais podem vocês desejar, vocês que até agora se opuseram à justificação pela fé somente apenas por um princípio de consciência, por serem zelosos da santidade e das boas obras? Não as resguardo eu eficazmente do desprezo, ao mesmo tempo que defendo as doutrinas da Igreja? Não só admito, mas sustento com veemência, que ninguém jamais entrará na glória se não for santo na terra, tanto no coração como em tudo o que fizer (1Pe 1.15). Clamo em alta voz: Que os que creem em Deus se empenhem na prática de boas obras (Tt 3.8); e: Afaste-se da injustiça todo aquele que professa o nome do Senhor (2Tm 2.19). Exorto até mesmo os que têm consciência de que não creem: Parem de fazer o mal! Aprendam a fazer o bem (Is 1.16-17); está próximo o Reino dos Céus (Mt 3.2); portanto, arrependam-se e produzam fruto digno de arrependimento (Mt 3.8). Não são essas orientações, em substância, exatamente as mesmas que vocês mesmos dariam a pessoas nessa situação? Que significa, então, essa interminável briga a respeito de palavras (1Tm 6.4)? Ou o que prova a argumentação de vocês (Jó 6.25)? [N. do T.: Wesley adapta a versão do rei Tiago; a NAA traz “o que é que a repreensão de vocês repreende?”.]
10. Muitos daqueles que talvez sejam tão zelosos das boas obras quanto vocês pensam que concedi demais a vocês. Não, meus irmãos; mas como podemos deixar de concedê-lo, se admitimos que as Escrituras vêm de Deus? Pois não está escrito, e vocês mesmos não creem, que sem a santificação ninguém verá o Senhor (Hb 12.14)? Como, então, sem brigar por palavras, podemos negar que a santidade é condição da aceitação final? E, quanto à primeira aceitação, ou perdão, não provam toda a experiência e também a Escritura que nenhum homem jamais creu de verdade no evangelho sem primeiro se arrepender (Mc 1.15)? Que nenhum jamais foi verdadeiramente convencido da justiça sem primeiro ser convencido do pecado (Jo 16.8)? Portanto, não podemos negar que o arrependimento, nesse sentido, é necessariamente anterior à fé. Não é igualmente inegável que voltar ao pecado conhecido e voluntário (suponhamos que fosse a embriaguez ou a impureza) sufoca esse arrependimento, ou convicção? E pode esse arrependimento chegar a bom termo na alma de quem resolve não perdoar o seu irmão? Ou de quem se abstém obstinadamente daquilo que Deus o convence de ser justo, seja a oração, seja ouvir a sua palavra? Teriam vocês mesmos escrúpulo em dizer a um desses: “Ora, se você quer afogar na bebida toda convicção, como poderá algum dia conhecer de verdade a sua necessidade de Cristo? Ou, por consequência, crer nele? Se você não quer perdoar ao seu irmão as ofensas dele, também o seu Pai celestial não perdoará as suas ofensas (Mt 6.15). Se você não quer pedir, como pode esperar receber? Se você não quer ouvir, como a fé virá pelo ouvir (Rm 10.17)? É claro que você entristece o Espírito de Deus (Ef 4.30); você não quer que ele reine sobre você (Lc 19.14). Cuide para que ele não se afaste de você de uma vez. Pois a todo o que tem, mais será dado; mas ao que não tem, isto é, ao que não o usa, até o que tem lhe será tirado (Mt 25.29).” Teriam vocês escrúpulo em dizer isso, numa ocasião apropriada? Não poderiam ter, se creem na Bíblia. Mas, ao dizer isso, vocês admitem tudo o que eu disse, a saber, que antes da fé justificadora tem de haver arrependimento e, se a oportunidade o permitir, frutos dignos de arrependimento.
11. E, contudo, concedo a vocês isto: embora tanto o arrependimento como os seus frutos sejam, em certo sentido, necessários antes da justificação, nem um nem outro é necessário no mesmo sentido, ou no mesmo grau, que a fé. Não no mesmo grau. Pois em qualquer momento em que um homem crê (no sentido cristão da palavra), ele é justificado, os seus pecados são apagados, a sua fé lhe é atribuída como justiça (Rm 4.5). Mas não é assim em qualquer momento em que ele se arrepende, ou produz algum, ou todos os frutos do arrependimento. Portanto, somente a fé justifica, o que o arrependimento sozinho não faz, e muito menos qualquer obra exterior. E, por consequência, nenhuma dessas coisas é necessária à justificação no mesmo grau que a fé.
Nem no mesmo sentido. Pois nenhuma delas tem uma relação tão direta e imediata com a justificação quanto a fé. Esta é proximamente necessária a ela; o arrependimento, remotamente, na medida em que é necessário ao aumento ou à continuidade da fé. E, mesmo nesse sentido, essas coisas só são necessárias sob uma condição: se houver tempo e oportunidade para elas. Pois em muitos casos não há; Deus abrevia a sua obra, e a fé se antecipa aos frutos do arrependimento. De modo que a proposição geral não é derrubada, mas claramente estabelecida por essas concessões; e concluímos ainda, tanto pela autoridade da Escritura como pela da Igreja, que somente a fé é a condição próxima da justificação.
III. 1. Cheguei a inclinar-me a crer que ninguém faria objeção aberta ao que eu dissera, em qualquer lugar, sobre a natureza da salvação. Quão grande foi, então, a minha surpresa, alguns meses atrás, quando me mostraram uma espécie de carta circular que um21 daqueles a quem o Espírito Santo colocou como bispos da sua Igreja (At 20.28), segundo fui informado, havia enviado a todo o clero da sua diocese!
Parte dela dizia (aproximadamente, se não exatamente) o seguinte:
“Há grande indiscrição em pregar uma espécie de religião como o verdadeiro e único cristianismo, a qual, segundo a descrição que eles mesmos fazem dela, consiste num ardor entusiástico, que só pouquíssimos podem entender ou alcançar e que não pode ser praticado sem atropelar os deveres comuns da vida.”
Ah, senhor arcebispo, que palavras são estas! Deixando de lado a franqueza e o amor, são palavras de verdade? Ouso apostar a minha vida em que não há uma só oração verdadeira em todo esse parágrafo.
As proposições nele contidas são estas:
1. Que a religião que prego consiste num ardor entusiástico;
2. Que pouquíssimos podem alcançá-la;
3. Que pouquíssimos podem entendê-la;
4. Que ela não pode ser praticada sem atropelar os deveres comuns da vida;
5. E que tudo isso pode ser provado pela descrição que eu mesmo faço dela.
Rogo encarecidamente ao senhor que reveja a descrição que eu mesmo faço dela, tal como se encontra em qualquer dos meus escritos anteriores, ou que considere a breve descrição que se dá neste. E, se o senhor puder provar a partir dela qualquer uma dessas proposições, prometo aqui, diante de Deus e do mundo, que nunca mais pregarei.
Por ora, não entendo bem o que o senhor quer dizer com “um ardor entusiástico”. Certamente não quer dizer o amor de Deus! Não, nem mesmo que um pobre pecador perdoado chegasse ao ponto de amar o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e com toda a sua força (Mc 12.30)! Mas esse é o único ardor que eu prego como fundamento do verdadeiro e único cristianismo. Peço a Deus que encha com ele todo o coração do senhor, para que o louve para todo o sempre.
Mas por que o senhor haveria de crer que o amor de Deus só pode ser alcançado por pouquíssimos? Ou que só pode ser entendido por pouquíssimos? Todos os que o alcançam o entendem bem. E aquele que é bom para todos (Sl 145.9) não quis que todo homem alcançasse o verdadeiro amor? Ah, se todos soubessem, neste seu dia, o que é preciso para conseguir a paz (Lc 19.42)!
E não pode o amor a Deus e ao próximo ser praticado sem atropelar os deveres comuns da vida? Pelo contrário, pode algum dos deveres comuns da vida ser praticado devidamente sem eles? Penso que não. Penso que estou lançando o verdadeiro, o único fundamento de todos esses deveres quando prego: Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração (…), e o seu próximo como você ama a si mesmo (Mt 22.37-39).
2. Com essa carta foi enviado (creio que a todos os clérigos da diocese) o panfleto intitulado Observações sobre a conduta e o comportamento de certa seita, comumente distinguida pelo nome de metodistas. Supõe-se geralmente que foi escrito por uma pessoa que me é superior em todos os aspectos. Talvez uma das razões por que não pôs o seu nome nele tenha sido que a sua grandeza não me intimidasse, e que eu tivesse liberdade de ficar, por assim dizer, em pé de igualdade, enquanto respondo por mim mesmo.
Ao examinar, portanto, as partes destas Observações que naturalmente me cabem, adotarei o método que, creio, o autor deseja, sem cerimônia nenhuma, falando como a um igual, para que se possa discernir mais facilmente onde está a verdade.
A primeira pergunta relativa à doutrina é esta:
“Se as noções religiosas não podem ser elevadas a tais extremos que levem alguns a desprezar a própria religião, por desespero de alcançar alturas tão elevadas? E se outros, que se embeberam dessas noções, não podem ser levados por elas a desprezar e a desestimar os deveres e ofícios comuns da vida? Pelo menos num grau incompatível com aquela atenção a eles e aquela diligência neles que a Providência tornou necessárias ao bem-estar das famílias particulares e das sociedades públicas, e que o cristianismo não só exige em todas as posições e em todas as condições, mas ao mesmo tempo declara que o cumprimento até dos ofícios mais humildes da vida, como para Deus (cuja providência pôs as pessoas nas suas diversas posições), é verdadeiramente servir a Cristo e não deixará de ter a sua recompensa no mundo vindouro?”
O senhor entreteceu tantos pormenores nesta pergunta geral que preciso dividi-los e responder a eles um por um.
P. 1. Se as noções religiosas não podem ser elevadas a tais extremos que levem alguns a desprezar a própria religião?
R. Podem. Mas que eu as tenha elevado a tal ponto, cabe ao senhor provar.
P. 2. Se outros não podem ser levados a desprezar a religião, por desespero de alcançar alturas tão elevadas?
R. Que alturas? Amar a DEUS de todo o nosso coração? Creio que esta é a altura mais elevada para o homem ou para o anjo. Mas não ouvi dizer que alguém tenha sido levado a desprezar a religião por desespero de alcançá-la.
P. 3. Se outros, que se embeberam dessas noções, não podem ser levados por elas a desprezar e a desestimar os deveres e ofícios comuns da vida?
R. As minhas noções são: “A verdadeira religião é amar a Deus de todo o nosso coração e ao próximo como a nós mesmos; e, nesse amor, abster-se de todo mal e fazer todo o bem possível a todos os homens.” Ora, não é possível, pela natureza das coisas, que alguém seja levado por essas noções a desprezar ou a desestimar os deveres e ofícios comuns da vida.
P. 4. Mas não podem ser levados por elas a desprezar os deveres comuns da vida pelo menos num grau incompatível com aquela atenção a eles e aquela diligência neles que a Providência tornou necessárias?
R. Não. Muito pelo contrário. Elas levam os homens a cumprir todos esses deveres com a mais rigorosa diligência e a mais estrita atenção.
P. 5. O cristianismo não exige essa atenção e essa diligência em todas as posições e em todas as condições?
R. Sim.
P. 6. Não declara ele que o cumprimento até dos ofícios mais humildes da vida, como para Deus, é verdadeiramente servir a Cristo, e que não deixará de ter a sua recompensa no mundo vindouro?
R. Declara. Mas a quem o senhor está refutando? A mim não. Pois essa é a doutrina que prego continuamente.
3. Segunda pergunta: “Se o inimigo do cristianismo não pode tirar proveito de levar o cristianismo, que foi destinado a ser regra para todas as posições e todas as condições, a alturas tais que o tornem praticável por pouquíssimos, em comparação, ou melhor, por ninguém?”
Respondo: 1. A altura a que levamos o cristianismo (como acabamos de observar) é esta: Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração (…), e o seu próximo como você ama a si mesmo. 2. O inimigo do cristianismo não pode tirar proveito de que o levemos a essa altura. 3. Pensando bem, o senhor não dirá que o cristianismo, mesmo a essa altura, é praticável por pouquíssimos, ou melhor, por ninguém. O senhor mesmo confessará que ele é uma regra (como Deus quis que fosse) para todas as posições e todas as condições.
Terceira pergunta: “Se, em particular, levar a doutrina da justificação pela fé somente a tal altura que não se admita que a observância sincera e cuidadosa dos deveres morais seja sequer uma condição da nossa aceitação diante de Deus e de sermos justificados aos seus olhos; se isso, digo, não leva naturalmente as pessoas a desprezar esses deveres e a ter deles pouca estima, ou melhor, a pensar que não fazem parte da religião cristã?”
Confio em que a justificação pela fé somente foi explicada acima de modo a assegurar não só uma alta estima, mas também uma observância cuidadosa e sincera de todos os deveres morais.
4. Quarta pergunta: “Se a frequência devida e regular aos ofícios públicos da religião, praticada por homens bons de maneira séria e serena, não atende aos verdadeiros fins da devoção e não é melhor evidência da cooperação do Espírito Santo do que aquelas súbitas agonias, rugidos, gritos, tremores, quedas ao chão, delírios e loucuras em que os seus ouvintes têm sido lançados?”
Preciso responder também a esta pergunta parte por parte.
P. 1. Se a frequência devida e regular aos ofícios públicos da religião, praticada de maneira séria e serena por homens bons [isto é, bem-intencionados], não atende aos verdadeiros fins da devoção?
R. Suponho que por devoção o senhor entenda o culto público; por seus verdadeiros fins, o amor a Deus e ao próximo; e por frequência devida e regular aos ofícios públicos da religião, praticada de maneira séria e serena, ir sempre que tivermos oportunidade à nossa igreja paroquial e ao sacramento ali ministrado. Se é assim, a pergunta é: “Essa frequência a esses ofícios não produz o amor a Deus e ao próximo?” Respondo: às vezes produz, e às vezes não. Eu mesmo os frequentei assim durante muitos anos e, no entanto, tenho consciência de que, durante todo esse tempo, não tive mais amor de Deus do que uma pedra. E conheço muitas centenas, talvez milhares, de pessoas sérias que estão prontas a testemunhar a mesma coisa.
P. 2. Mas não é isso melhor evidência da cooperação do Espírito Santo do que aquelas súbitas agonias?
R. Todas essas pessoas, assim como eu, também podem testemunhar que isso não é evidência nenhuma da cooperação do Espírito Santo. Durante alguns anos frequentei esses ofícios públicos porque não queria ser punido por faltar a eles. E muitos deles os frequentavam porque os seus pais o faziam antes deles, ou porque não queriam perder a reputação. Muitos mais, porque confundiam os meios com o fim e imaginavam que esse opus operatum [obra realizada, isto é, o rito pelo simples fato de ser cumprido] os levaria ao céu. Quantos milhares estão agora sob essa forte ilusão! Cuidado para não trazer o sangue deles sobre a sua própria cabeça!
P. 3. Contudo, essa frequência não atende melhor a esses fins do que aqueles rugidos, gritos etc.?
Suponho que o senhor queira dizer: “Melhor do que frequentar aquela pregação que muitas vezes tem sido acompanhada dessas coisas.”
Respondo: 1. Não há necessidade alguma de pôr uma coisa em oposição à outra, visto que exortamos continuamente todos os que frequentam a nossa pregação a frequentar os ofícios da Igreja. E eles de fato os frequentam com mais regularidade do que jamais o fizeram antes. 2. A frequência deles à igreja, de fato, não atendia de modo nenhum a esses fins até que passaram a frequentar também esta pregação. 3. É a pregação da remissão dos pecados por meio de Jesus Cristo que, somente ela, atende aos verdadeiros fins da devoção. E ela sempre será acompanhada da cooperação do Espírito Santo, embora nem sempre de súbitas agonias, rugidos, gritos, tremores ou quedas ao chão. Na verdade, se em algum momento Deus houver por bem permitir alguma dessas coisas, não posso impedi-lo. Nem isso pode impedir a obra do seu Espírito na alma, que pode prosseguir com elas ou sem elas. Mas, 4. Não consigo ver que seja prova razoável de que “isto não é obra de Deus” que um pecador convencido caia numa agonia extrema, tanto do corpo como da alma (Diário 3, p. 26); que outra dê rugidos por causa do desassossego do seu coração (p. 40) [N. do T.: alusão a Sl 38.8, que na versão do rei Tiago diz “rugi”; a NAA traz “dou gemidos por causa do desassossego do meu coração”]; que outros gritem, ou clamem com um grito alto e cheio de amargura: “Que devemos fazer para que sejamos salvos?” (p. 50); que outros fiquem sobremaneira apavorados e trêmulos (p. 58); e que outros, num profundo senso da majestade de Deus, se prostrem com o rosto em terra (p. 59).
Na verdade, tirando uma única palavra de uma frase e depois juntando o que o senhor havia respigado em sessenta ou setenta páginas, o senhor compôs um quadro terrível para os que não olham além daquelas duas linhas das Observações. Mas o simples acréscimo de meia linha a cada palavra, tal como está no lugar de onde o senhor a citou, reconcilia tudo tanto com a Escritura como com a razão, e o espectro se desvanece.
O senhor incluiu na sua conta também delírios e loucuras. Como exemplos dos primeiros, remete ao caso de John Haydon, página 44, e ao de Thomas Maxfield, página 50. Gostaria que o senhor considerasse com calma o raciocínio, sobre esse ponto, de alguém que não tem preconceito a meu favor: “Que influência os despertamentos súbitos e agudos possam ter sobre o corpo, não pretendo explicar. Mas não tenho dúvida de que Satanás, na medida em que obtém poder, pode agir em tais ocasiões, em parte para impedir a boa obra nas pessoas que são assim tocadas pelas flechas agudas da convicção, e em parte para desacreditar a obra de Deus, como se ela tendesse a levar as pessoas à loucura.”
Como exemplos de loucura, o senhor remete às páginas 88, 90, 91, 92 e 93. As palavras da página 88 são estas:
“Não pude deixar de sentir certa preocupação com uma ou duas pessoas que eram atormentadas de modo inexplicável e pareciam de fato lunáticas e também muito atormentadas. Pouco depois, fui chamado à casa de uma delas, que estava tão estranhamente despedaçada pelo diabo que quase me admirei de que seus parentes não dissessem: Você ficou louca de tanta religião! (At 26.24). Pedimos a Deus que esmagasse Satanás debaixo dos pés dela (Rm 16.20). Imediatamente obtivemos o pedido que lhe tínhamos feito (1Jo 5.15). Ela gritou com veemência: ‘Ele se foi, ele se foi!’, e foi cheia do Espírito de amor e de mente sã [N. do T.: a NAA traz “de amor e de moderação” (2Tm 1.7); o argumento de Wesley se apoia na expressão da versão inglesa, “a sound mind”, isto é, mente sã]. Desde então, eu a vi muitas vezes, forte no Senhor. Quando lhe perguntei de repente: ‘O que você deseja agora?’, ela respondeu: ‘O céu.’ Perguntei: ‘O que há no seu coração?’ Ela respondeu: ‘Deus.’ Perguntei: ‘Mas como fica o seu coração quando alguma coisa a provoca?’ Ela disse: ‘Pela graça de Deus, nada me provoca. Todas as coisas deste mundo passam por mim como sombras.’ São essas as palavras de alguém que está fora de si? Que qualquer homem de razão julgue!”
O seu exemplo seguinte, na página 90, é este:
“Por volta do meio-dia cheguei a Usk, onde preguei a um pequeno grupo de gente pobre sobre o texto O Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido (Lc 19.10). Um homem de cabelos brancos chorou e tremeu muitíssimo; e outro que estava ali (como soube depois), bem como dois ou três que estavam em Devauden, ficaram completamente transtornados; isto é (são as minhas palavras expressas que vêm logo em seguida, especificando o que alguns tinham por transtorno): ‘Eles choram e não querem ser consolados enquanto não tiverem a redenção pelo seu sangue (Ef 1.7).’”
Se o senhor considera o caso mencionado nas páginas 92 e 93 como outro exemplo de loucura, não discuto. Foi justamente por não compreender esse caso incomum que o fiz preceder desta reflexão: “Relato o fato tal como foi e deixo cada um julgar por si.” Peço-lhe apenas que observe que essa loucura, se é que foi loucura, não pode ser imputada a mim mais do que ao senhor. Pois a pessoa em questão não tinha relação nem trato algum comigo, e eu nunca a tinha visto antes daquela hora.
5. A quinta pergunta: “Não é verdade que aqueles tons elevados em religião, e a imaginação de já estar num estado de perfeição, tendem a levar os homens ao orgulho espiritual e ao desprezo dos seus irmãos cristãos, enquanto os consideram apenas como quem segue pelo que eles chamam de caminho baixo e imperfeito (isto é, como quem cresce em graça e bondade apenas gradualmente), ainda que pela vida daqueles que eles consideram estar nesse caminho baixo e imperfeito se veja que são pessoas que vão desenvolvendo gradualmente a sua salvação, por seus próprios esforços sinceros e pelos auxílios comuns da graça de Deus, com humilde confiança nos méritos de Cristo para o perdão dos seus pecados e para a aceitação dos seus serviços sinceros, ainda que imperfeitos?”
Também esta pergunta preciso dividir. Mas primeiro permita-me perguntar: o que o senhor quer dizer com aqueles tons elevados em religião? Já disse e repeti que não conheço tom mais elevado do que “Eu te amo, ó Senhor, meu Deus”, sobretudo segundo a propriedade da expressão de Davi: ארחמך יהוה. Ex intimis visceribus diligam te, Domine [Do íntimo das minhas entranhas te amarei, Senhor] (Sl 18.1). Isso posto, avancemos passo a passo.
P. 1. A pregação de “amar a Deus do íntimo das nossas entranhas” não tende a levar os homens ao orgulho espiritual e ao desprezo dos seus irmãos cristãos?
R. Não. Pelo contrário, na medida em que se torna realidade, ela os humilha até o pó.
P. 2. A imaginação de já estar num estado de perfeição não tende a levar os homens ao orgulho espiritual?
R. 1. Se for uma imaginação falsa, ela é orgulho espiritual. 2. Mas a perfeição cristã verdadeira não é outra coisa senão o amor humilde.
P. 3. Os homens que imaginam ter alcançado isso não desprezam os outros, como quem segue apenas pelo que eles têm por caminho baixo e imperfeito, isto é, como quem cresce em graça e bondade gradualmente?
R. 1. Os homens que apenas imaginam ter alcançado isso provavelmente desprezarão os que seguem por qualquer caminho. 2. Mas crescer em graça e bondade gradualmente não é sinal de um caminho baixo e imperfeito. Os que são pais em Cristo crescem em graça gradualmente, tanto quanto as criancinhas recém-nascidas.
P. 4. Não desprezam eles os que vão desenvolvendo a sua salvação com humilde confiança nos méritos de Cristo para o perdão dos seus pecados e para a aceitação dos seus serviços sinceros, ainda que imperfeitos?
R. 1. Os que verdadeiramente amam a Deus não desprezam homem algum. Mas, 2., entristecem-se ao ouvir muitos falarem assim de confiar em Cristo, quando estes, embora talvez sejam homens sérios, honestos e morais, ainda assim, por suas próprias palavras, mostram não amar a Deus de forma alguma: homens cuja alma está apegada ao pó (Sl 119.25), que amam o mundo, que não têm parte alguma do modo de pensar de Cristo Jesus (Fp 2.5).
6. A sexta pergunta: “Não é verdade que esses mesmos tons e noções elevados tendem a enfraquecer as relações naturais e civis entre os homens, levando os inferiores, em cuja cabeça essas noções são infundidas, a desestimar os seus superiores, enquanto os consideram numa dispensação muito inferior à deles, embora esses superiores sejam, quanto ao mais, homens sóbrios e bons e frequentadores regulares das ordenanças da religião?”
Já mostrei quais são essas noções elevadas. Elas não tendem a enfraquecer nem as relações naturais nem as civis entre os homens, nem a levar os inferiores a desestimar os seus superiores, mesmo quando esses superiores não são homens nem bons nem sóbrios.
A sétima pergunta: “Não é verdade que um aperfeiçoamento gradual em graça e bondade é um fundamento melhor de consolo, e da certeza de um novo nascimento evangélico, do que aquele que se funda na doutrina de uma mudança repentina e instantânea, a qual, se é que existe tal coisa, não se distingue tão facilmente da fantasia e da imaginação, cujas operações podemos muito bem supor que sejam mais fortes e poderosas enquanto a pessoa se considera na situação de quem foi admitido como candidato a tal mudança e é ensinado a esperá-la no devido tempo?”
Vamos dar um passo de cada vez.
P. 1. Um aperfeiçoamento gradual em graça e bondade não é um bom fundamento de consolo?
R. Sem dúvida é, se por graça e bondade se entende o conhecimento e o amor de Deus por meio de Cristo.
P. 2. Não é um bom fundamento da certeza de um novo nascimento evangélico?
R. Se crescemos diariamente nesse conhecimento e nesse amor, isso é uma boa prova de que somos nascidos do Espírito. Mas isso de modo algum substitui o testemunho prévio do Espírito de Deus com o nosso espírito de que somos filhos de Deus. E é isso, propriamente, o fundamento da certeza da fé.
P. 3. Esse aperfeiçoamento não é um fundamento melhor de consolo, e da certeza de um novo nascimento evangélico, do que aquele que se funda na doutrina de uma mudança repentina e instantânea?
R. Um fundamento melhor do que aquele. Aquele! O quê? A que substantivo isso se refere? Segundo as regras da gramática (pois todos os outros substantivos estão no caso genitivo e, por isso, devem ser considerados apenas partes daquele que os rege), o senhor só pode querer dizer: “Um fundamento melhor do que aquele fundamento que se funda nesta doutrina.” Assim que eu entender a pergunta, procurarei respondê-la.
P. 4. Essa mudança repentina e instantânea pode ser facilmente distinguida da fantasia e da imaginação?
R. Tão facilmente quanto a luz das trevas, visto que ela traz consigo a paz que excede todo entendimento (Fp 4.7), uma alegria indescritível e cheia de glória (1Pe 1.8), o amor de Deus e de toda a humanidade enchendo o coração, e poder sobre todo pecado.
P. 5. Não podemos muito bem supor que as operações da imaginação sejam mais fortes e poderosas em quem é ensinado a esperar tal mudança?
R. Talvez possamos. Mas ainda assim a árvore se conhece pelos seus frutos (Mt 12.33). E frutos como os mencionados acima, a imaginação nunca teve força suficiente para produzir, nem poder algum, senão o do Todo-Poderoso.
7. Há apenas uma cláusula da oitava pergunta que se enquadra na presente investigação:
“Eles fazem do seu principal ofício, aonde quer que vão, incutir no povo algumas doutrinas prediletas suas; e isso com tal diligência e zelo, como se todo o cristianismo dependesse delas, e como se todos os esforços em direção à verdadeira vida cristã, sem a crença nessas doutrinas, fossem vãos e ineficazes.”
Declaro-me culpado dessa acusação. Faço, sim, do meu principal ofício, ou melhor, de todo o meu ofício, e isso aonde quer que eu vá, incutir no povo algumas doutrinas prediletas. (Fique apenas registrado que não são minhas, mas daquele que me enviou.) E é sem dúvida verdade que faço isso (embora profundamente consciente da minha falta tanto de zelo como de diligência) como se todo o cristianismo dependesse delas, e como se todos os esforços sem elas fossem nulos e vãos.
Muitas vezes eu as resumo todas numa só: em Cristo Jesus (isto é, segundo o seu evangelho) nem a circuncisão nem a incircuncisão têm valor algum, mas a fé que atua pelo amor (Gl 5.6). Mas muitas vezes eu as incuto uma por uma, com estas expressões ou outras semelhantes: Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e com toda a sua força (Mc 12.30); ame o seu próximo como você ama a si mesmo (Mc 12.31), como à sua própria alma, como Cristo nos amou. Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele (1Jo 4.16). O amor não pratica o mal contra o próximo. Portanto, o cumprimento da lei é o amor (Rm 13.10). Enquanto tivermos oportunidade, façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé (Gl 6.10). Tudo o que vocês querem que os outros façam a vocês, façam também vocês a eles (Mt 7.12).
Estas são as minhas doutrinas prediletas, e o têm sido há muitos anos. Ah, se eu pudesse incuti-las em cada alma em toda a terra! Não devem elas ser incutidas com tal diligência e zelo, como se todo o cristianismo dependesse delas? Pois quem pode negar que todos os esforços em direção a uma vida cristã, sem algo mais do que a simples crença, sem uma experiência e uma prática completas destas coisas, são inteiramente vãos e ineficazes?
8. Parte da sua nona pergunta vai no mesmo sentido:
“Algumas cabeças jovens erguem os seus próprios sistemas como o grande padrão do cristianismo, e se entregam às suas próprias noções a tal ponto que deixam perplexas, desequilibram, aterrorizam e transtornam as mentes de multidões de pessoas que viveram desde a infância sob um ministério evangélico e no exercício regular de um culto evangélico. E tudo isso persuadindo-as de que não são nem podem ser verdadeiros cristãos senão aderindo às suas doutrinas.”
O que o senhor quer dizer com os seus próprios sistemas? As suas próprias noções? As doutrinas deles? Não são também suas? Não são os sistemas, as noções, as doutrinas de Jesus Cristo? As grandes verdades fundamentais do seu evangelho? Pode o senhor negar uma só delas sem negar a Bíblia? É duro para o senhor ficar dando coices contra os aguilhões! (At 26.14)
“Eles persuadem (diz o senhor) multidões de pessoas de que não podem ser verdadeiros cristãos senão aderindo às suas doutrinas.” Ora, e quem diz que podem? Seja quem for, provarei que é um incrédulo. Diz o senhor que alguém pode ser verdadeiro cristão sem amar a Deus e ao próximo? Certamente não foi assim que o senhor aprendeu de Cristo! (Ef 4.20) É doutrina sua, tanto quanto minha e de São Paulo: Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, ainda que eu tenha toda a ciência e toda a fé; ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada serei (1Co 13.1-3).
Portanto, seja qual for o culto público que as pessoas tenham frequentado, ou o ministério sob o qual tenham vivido desde a infância, elas precisam, custe o que custar, ser convencidas disso, ou perecerão para sempre; sim, ainda que essa convicção a princípio as desequilibre muitíssimo, ainda que, de certo modo, as transtorne por algum tempo. Pois é melhor que fiquem perplexas e aterrorizadas agora do que continuem dormindo e acordem no inferno.
9. Na décima, na décima segunda e na décima terceira perguntas não sou visado. Mas o senhor me inclui também quando diz, na décima primeira: “Eles negam absolutamente que recreações de qualquer espécie, consideradas como tais, sejam ou possam ser inocentes.”
Não consigo encontrar nenhuma afirmação minha nesse sentido, nem no lugar a que o senhor remete nem em qualquer outro. Mas quais espécies de recreação são inocentes é fácil determinar por esta regra clara: se vocês comem, ou bebem ou fazem qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus (1Co 10.31).
Devo agora despedir-me do senhor por ora. Mas antes quero suplicar-lhe com insistência que se informe sobre quais são as nossas doutrinas, antes de fazer quaisquer outras observações sobre elas. Certamente, quanto à natureza da salvação, concordamos em que a religião pura e sem mácula é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições, fazer todo o bem possível, movidos pelo amor a Deus e ao próximo, e guardar-se incontaminado do mundo (Tg 1.27), abstendo-se, interior e exteriormente, de todo mal.
10. Quanto à condição da salvação, lembre-se o senhor de que admito não só a fé, mas também a santidade, ou obediência universal, como condição ordinária da salvação final; e de que, quando digo que só a fé é a condição da salvação presente, o que quero afirmar é isto: 1. Que sem fé ninguém pode ser salvo dos seus pecados, nem ser santo, quer interior quer exteriormente. 2. Que, no momento em que a fé é dada, a santidade começa na alma. Pois naquele instante o amor de Deus (que é a fonte da santidade) é derramado no coração (Rm 5.5).
Mas o autor de As Noções dos Metodistas Refutadas objeta: “São Tiago diz: Será que essa fé pode salvá-lo? (Tg 2.14)” Respondo: uma fé sem obras não pode levar um homem ao céu. Mas isso nada tem a ver com a presente questão.
O senhor objeta, 2.: “São Paulo diz que a fé aperfeiçoada pelo amor, e São Tiago, que a fé aperfeiçoada pelas obras, é a condição da salvação.” O senhor quer dizer a salvação final. Eu digo o mesmo; mas também isso está fora da questão.
O senhor objeta, 3., que a crença no evangelho é chamada obediência da fé (Rm 1.5); e, 4., que aquilo que Isaías chama de crer, São Paulo chama de obedecer (Rm 10.16). Suponha que eu lhe conceda uma coisa e outra: o que o senhor vai concluir daí?
O senhor objeta, 5., que numa passagem da Escritura nosso Senhor é chamado Salvador dos que creem (1Tm 4.10) e, em outra, o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem (Hb 5.9). 6. Que aos gálatas São Paulo escreve: nem a circuncisão nem a incircuncisão têm valor algum, mas a fé que atua pelo amor (Gl 5.6); e aos coríntios: A circuncisão, em si, não é nada; a incircuncisão também nada é, mas o que vale é guardar os mandamentos de Deus (1Co 7.19). E daí conclui: “Há vários textos da Escritura em que incredulidade e desobediência são usadas como equivalentes.” Muito certo; mas pode o senhor concluir daí que não somos salvos somente pela fé?
11. O senhor passa a responder a alguns textos que eu tinha citado. O primeiro é Efésios 2.8: Pela graça vocês são salvos, mediante a fé. “Mas (diz o senhor) fé não significa aqui aquela graça propriamente assim chamada, mas inclui também a obediência.” Mas como o senhor prova isso? Esse pormenor o senhor esqueceu; e assim se desviou com um comentário sobre o contexto, ao qual não tenho outra objeção senão a de que nada tem a ver com a questão.
De fato, algum tempo depois o senhor acrescenta: “Fica claro, então, que as boas obras estão sempre, no juízo de São Paulo, unidas à fé.” (Assim estão, sem dúvida, isto é, como o efeito está sempre unido à sua causa.) “E, portanto, não somos salvos somente pela fé.” Não posso de modo algum admitir a consequência.
Mais adiante o senhor cita mais dois textos e acrescenta: “Vê-se que a mera fé não pode ser condição da justificação.” O senhor saiu do caminho. Agora não estamos falando da justificação, assim como não estamos falando da salvação final.
Ao considerar Atos 16.31, Creia no Senhor Jesus e você será salvo, o senhor diz novamente: “Aqui a palavra crer não significa só a fé. A fé produz necessariamente a caridade e o arrependimento; portanto, estes são expressos pela palavra crer.” Isto é: a fé produz necessariamente a santidade; logo, a santidade é condição da santidade. Preciso de prova melhor. Que Paulo e Silas lhe pregaram a palavra de Deus (At 16.32) e que a sua fé, naquela mesma hora (At 16.33), atuou pelo amor, isso não considero prova nenhuma.
Em seguida, o senhor se propõe a mostrar que confessar os nossos pecados é condição da justificação, e que a confiança no amor de Deus não é condição. Algumas das suas palavras são: “Isto, meu bom senhor, permita-me dizer, é o maior disparate e a maior contradição possível. É impossível que o senhor mesmo entenda esse jargão, e por isso trabalha em vão para torná-lo inteligível aos outros. O senhor se eleva nas alturas com asas de águia e deixa a pobre gente boquiaberta, olhando para o senhor lá em cima.”
Isso é muito bonito e muito vivo. Mas não vem ao caso. Pois não estamos falando agora da justificação; nem eu disse uma só palavra sobre “a condição da justificação” em todo o tratado a que o senhor aqui se refere.
“Em seguida (diz o senhor), se somos salvos (finalmente, o senhor quer dizer) somente por uma confiança no amor de Deus.” Aqui preciso detê-lo de novo: agora o senhor está fugindo da questão pelo outro lado. A única tese que aqui proponho é esta: os verdadeiros crentes são salvos do pecado interior e exterior pela fé. Somente pela fé o amor de Deus e de toda a humanidade é derramado no coração deles, trazendo consigo o modo de pensar que havia em Cristo e produzindo toda santidade de procedimento.
1. Mt 12.37.
2. Rm 3.25.
3. Rm 4.5 etc.
4. Lc 6.43.
5. Hb 12.14.
6. Mc 1.15.
7. Mt 3.8.
8. Mt 6.14, 15.
9. Lc 3.4, 9 etc.
10. Mt 7.7.
11. Mt 25.29.
12. Evidência, ou convicção.
13. Mt 28.19, 20.
14. Mc 16.16.
15. Lc 24.47.
16. At 2.38.
17. At 3.19.
18. Hb 10.14.
19. At 20.21.
20. Hb 6.1.
21. O (então) arcebispo de York.
Tradução para o português a partir de John Wesley, An Earnest Appeal to Men of Reason and Religion (1743) e A Farther Appeal to Men of Reason and Religion, partes I a III (1745), no texto revisto por Wesley para as suas Obras (Bristol, William Pine, 1772, vols. 14 e 15; transcrição do Projeto Gutenberg); domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.