John Wesley · Apelos aos Homens de Razão e Religião · Apelo Sincero
A religião que os metodistas pregam é o amor de Deus e do próximo, nascido da fé em Cristo. Wesley mostra aos homens de razão e aos homens de religião que nada há de mais razoável nem de mais bíblico, e responde às principais acusações.
EMBORA para nós pouco importe sermos julgados por vocês ou por um tribunal humano (1Co 4.3), visto que sabemos que Deus fará com que a nossa inocência sobressaia como a luz e a nossa retidão brilhe como o sol ao meio-dia (Sl 37.6), estamos prontos a dar a todos os que quiserem ouvir um relato simples tanto dos nossos princípios como das nossas ações, como quem rejeitou as coisas ocultas que trazem vergonha e nada deseja mais do que, pela manifestação da verdade, recomendar-se à consciência de todos na presença de Deus (2Co 4.2).
2. Vemos (e quem não vê?) as inúmeras loucuras e misérias dos nossos semelhantes. Vemos por todos os lados ou homens sem religião nenhuma, ou homens de uma religião sem vida, meramente formal. Essa visão nos entristece, e muito nos alegraríamos se, de algum modo, pudéssemos convencer alguns de que há uma religião melhor a ser alcançada, uma religião digna do Deus que a deu. E entendemos que ela não é outra coisa senão o amor: o amor a Deus e a toda a humanidade; amar a Deus de todo o coração, de toda a alma e com toda a força, como aquele que primeiro nos amou, como a fonte de todo o bem que recebemos e de tudo o que esperamos um dia desfrutar; e amar toda alma que Deus fez, todo homem sobre a terra, como a nossa própria alma.
3. Cremos que esse amor é o remédio da vida, o remédio que nunca falha para todos os males de um mundo desordenado, para todas as misérias e vícios dos homens. Onde ele está, ali estão a virtude e a felicidade, de mãos dadas. Ali estão a humildade de espírito, a mansidão, a longanimidade, toda a imagem de Deus e, ao mesmo tempo, uma paz que excede todo entendimento e uma alegria indescritível e cheia de glória.
“Eterno sol da mente sem mancha;
cada oração aceita, e cada desejo entregue;
anseios serenos, afetos sempre constantes,
lágrimas que deleitam, e suspiros que se elevam ao céu.”
4. É essa religião que ansiamos ver estabelecida no mundo, uma religião de amor, alegria e paz, que tem a sua sede no mais íntimo da alma, mas sempre se mostra pelos seus frutos, brotando continuamente não só em toda inocência, pois o amor não pratica o mal contra o próximo (Rm 13.10), mas também em toda espécie de beneficência, espalhando virtude e felicidade ao seu redor.
5. Essa religião nós a temos buscado há muitos anos, como muitos sabem, se quisessem testemunhar; mas, todo esse tempo, buscando a sabedoria, não a encontramos; estávamos gastando as nossas forças em vão. E, agora plenamente convencidos disso, nós o declaramos a toda a humanidade, porque não desejamos que outros se desviem do caminho, como nós fizemos antes deles. Desejamos, antes, que tirem proveito da nossa perda e sigam (ainda que nós não o tenhamos feito, por não termos então ninguém que nos guiasse) o caminho reto para a religião do amor, isto é, pela fé.
6. Ora, a fé (supondo que a Escritura venha de Deus) é πραγμάτων ἔλεγχος οὐ βλεπομένων, a evidência demonstrativa das coisas que não se veem [N. do T.: Hb 11.1; a NAA traz “a convicção de fatos que não se veem”], a evidência sobrenatural das coisas invisíveis, que não podem ser percebidas por olhos de carne nem por nenhum dos nossos sentidos ou faculdades naturais. A fé é aquela evidência divina pela qual o homem espiritual discerne a Deus e as coisas de Deus. Ela é, em relação ao mundo espiritual, o que os sentidos são em relação ao mundo natural. É a sensação espiritual de toda alma que nasceu de Deus.
7. Talvez você não a tenha considerado sob esse ângulo; vou então explicá-la um pouco mais.
Segundo o relato da Escritura, a fé é o olho da alma recém-nascida. Por ela todo verdadeiro crente em Deus vê aquele que é invisível (Hb 11.27). Por ela (de modo mais particular, desde que a vida e a imortalidade foram trazidas à luz pelo evangelho) ele vê a luz da glória de Deus na face de Jesus Cristo (2Co 4.6) e contempla que grande amor o Pai nos tem concedido, a ponto de sermos (nós, que nascemos do Espírito) chamados filhos de Deus (1Jo 3.1).
É o ouvido da alma, pelo qual o pecador ouve a voz do Filho de Deus e vive (Jo 5.25); aquela voz, a única que desperta os mortos: Filho, os seus pecados estão perdoados (Mt 9.2).
É (se me permitem a expressão) o paladar da alma, pois por ela o crente prova a boa palavra e os poderes do mundo vindouro (Hb 6.5); e por ela tanto prova como vê que Deus é bondoso (Sl 34.8; 1Pe 2.3), sim, e que tem pena dele, que é pecador (Lc 18.13).
É o tato da alma, pelo qual o crente percebe, mediante o poder do Altíssimo que o envolve com a sua sombra (Lc 1.35), tanto a existência como a presença daquele em quem ele vive, se move e existe (At 17.28); e, na verdade, todo o mundo invisível, o sistema inteiro das coisas eternas. E por ela, em particular, ele sente o amor de Deus derramado em seu coração (Rm 5.5).
8. Por esta fé somos salvos (Ef 2.8) de toda inquietação da mente, da angústia de um espírito ferido, do descontentamento, do medo e da tristeza do coração, daquele indizível tédio e cansaço, tanto do mundo como de nós mesmos, sob o qual tínhamos penado, sem nenhum socorro, durante tantos anos, sobretudo quando estávamos longe da agitação do mundo e mergulhávamos em reflexão tranquila. Nela encontramos aquele amor a Deus e a toda a humanidade que em outros lugares tínhamos buscado em vão. Isto nós sabemos e sentimos, e por isso não podemos deixar de declarar: ela salva todo aquele que dela participa, tanto do pecado como da miséria, de toda disposição infeliz e de toda disposição contrária à santidade.
“Suave paz ela traz, aonde quer que chegue;
edifica o nosso sossego, enquanto forma a nossa vida;
aplana os caminhos ásperos da natureza rabugenta
e abre em cada peito um pequeno céu.”
9. Se você perguntar: “Por que, então, nem todos os homens têm essa fé? Pelo menos todos os que a consideram coisa tão feliz? Por que não creem imediatamente?”
Respondemos (segundo a hipótese da Escritura): É dom de Deus (Ef 2.8). Nenhum homem é capaz de produzi-la em si mesmo. É obra da Onipotência. Não se requer menos poder para assim vivificar uma alma morta do que para ressuscitar um corpo que jaz na sepultura. É uma nova criação; e ninguém pode criar de novo uma alma senão aquele que, no princípio, criou os céus e a terra.
10. A sua própria experiência não pode lhe ensinar isso? Você consegue dar a si mesmo essa fé? Está agora em seu poder ver, ouvir, provar ou sentir a Deus? Você já tem, ou consegue despertar em si mesmo, alguma percepção de Deus ou de um mundo invisível? Suponho que você não negue que existe um mundo invisível. No caso do pobre e velho Hesíodo, você não vai atribuir ao preconceito de uma educação cristã aquilo que ele diz naquelas palavras bem conhecidas [N. do T.: os versos citados são de Milton, Paraíso Perdido, livro IV, que retoma uma ideia de Hesíodo]:
Milhões de criaturas espirituais andam pela terra
sem ser vistas, quer estejamos acordados, quer dormindo.
Ora, há na sua alma algum poder pelo qual você discirna essas criaturas ou aquele que as criou? Ou será que toda a sua sabedoria e força conseguem abrir uma comunicação entre você e o mundo dos espíritos? Está em seu poder rasgar o véu que está sobre o seu coração e deixar entrar a luz da eternidade? Você sabe que não. Você não apenas não crê assim, como não pode (por suas próprias forças) crer assim. Quanto mais você se esforçar por fazê-lo, mais se convencerá de que é dom de Deus.
11. É o dom gratuito de Deus, que ele concede não aos que são dignos do seu favor, não aos que são previamente santos e, portanto, aptos para ser coroados com todas as bênçãos da sua bondade, mas aos ímpios e profanos; àqueles que até aquela hora só eram aptos para a destruição eterna; àqueles em quem não havia bem algum e cuja única súplica era: Ó Deus, tem pena de mim, que sou pecador! (Lc 18.13). Nenhum mérito, nenhuma bondade no homem precede o amor perdoador de Deus. A sua misericórdia que perdoa nada supõe em nós senão o senso de puro pecado e miséria; e a todos os que veem, sentem e reconhecem as suas necessidades e a sua total incapacidade de removê-las, Deus dá gratuitamente a fé, por amor daquele em quem sempre se agrada (Mt 3.17).
12. Este é um esboço breve e tosco da doutrina que ensinamos. Estes são os nossos princípios fundamentais; e gastamos a vida firmando outros neles e num modo de viver condizente com eles.
Ora, se você é um homem de razão, ainda que não creia que o sistema cristão venha de Deus, ponha a mão no peito e considere com calma: o que há aqui que você possa condenar? Que mal fizemos a você, para que você se junte ao clamor geral contra nós? Por que você haveria de dizer: Fora da terra com esses sujeitos! Eles não merecem viver! (At 22.22)?
13. É verdade que o juízo de vocês não coincide com o nosso. Nós cremos que a Escritura vem de Deus; vocês não creem. E como vocês se defendem daqueles que os acusam do pecado da incredulidade? Não dizem que “todo homem deve julgar segundo a luz que tem e que, se for fiel a ela, não deve ser condenado”? Fiquem, então, com isso e virem o argumento ao contrário. Será que nós também não devemos julgar segundo a luz que temos? Vocês de modo algum podem nos condenar sem envolver a si mesmos na mesma condenação. Segundo a luz que nós temos, não podemos deixar de crer que a Escritura vem de Deus; e, enquanto cremos nisso, não ousamos desviar-nos dela, nem para a direita nem para a esquerda.
14. Consideremos este ponto um pouco mais. Você mesmo crê que existe um Deus. Você tem o testemunho disso no próprio peito. Talvez às vezes trema diante dele. Você crê que existe certo e errado, que há diferença entre o bem e o mal moral. Por conseguinte, tem de admitir que existe a consciência; quero dizer, que toda pessoa capaz de reflexão sabe consigo mesma, ao olhar para trás e ver qualquer coisa que tenha feito, se aquilo é bom ou mau. Tem de admitir igualmente que cada homem deve ser guiado pela própria consciência, não pela de outro. Até aqui, sem dúvida, você pode ir sem nenhum perigo de se tornar um voluntário na fé.
15. Pois bem, seja coerente consigo mesmo. Se existe um Deus que, sendo justo e bom (atributos inseparáveis da própria ideia de Deus), recompensa os que o buscam com diligência (Hb 11.6), não devemos fazer tudo o que cremos que será agradável a um Senhor tão bom? Observe: se cremos nisso, se estamos plenamente convencidos disso em nossa mente, não devemos buscá-lo assim? E com toda a diligência? Do contrário, como poderíamos esperar alguma recompensa das mãos dele?
16. E mais: não devemos fazer o que cremos ser moralmente bom e abster-nos do que julgamos ser mau? Por bom entendo o que contribui para o bem da humanidade, o que tende a promover a paz e a boa vontade entre os homens, o que favorece a felicidade dos nossos semelhantes; e por mau, o que é contrário a isso. Então, certamente, você não pode condenar o nosso esforço, na medida das nossas forças, para tornar feliz a humanidade (falo agora apenas com relação ao mundo presente); o nosso empenho, como podemos, em diminuir as suas tristezas e em ensinar as pessoas a viver contentes em toda e qualquer situação (Fp 4.11).
17. E ainda: devemos ser guiados pela nossa própria consciência ou pela de outros homens? Vocês, certamente, não dirão que a consciência de qualquer homem pode se sobrepor à minha. Vocês, pelo menos, não vão defender que nos roubem aquilo que reivindicam com tanta força para si mesmos; refiro-me ao direito de julgamento pessoal, que é de fato inalienável das criaturas racionais. Vocês bem sabem que, se não seguirmos fielmente os ditames da nossa própria mente, não poderemos ter uma consciência pura diante de Deus e dos homens (At 24.16).
18. Com base nos seus próprios princípios, portanto, vocês têm de admitir que somos, no mínimo, inocentes. Acham alguma dificuldade nisso? Vocês falam muito de ideias preconcebidas e de preconceito; cuidem para não ficarem vocês mesmos enredados nisso. Vocês não têm preconceito contra nós porque cremos naquele sistema de doutrinas a que vocês se opõem e o defendemos com vigor? Não são inimigos nossos porque dão por certo que somos inimigos de vocês? Não, Deus nos livre disso! Certa vez vi um homem que, de uma fortuna abundante, tinha sido reduzido à extrema penúria. Estava deitado num leito de enfermidade, com dores violentas, sem sequer o alimento adequado, nem um amigo que o consolasse; de modo que, quando o seu misericordioso senhorio, para completar tudo, mandou alguém tirar-lhe a cama de debaixo do corpo, não me surpreendi com a tentativa que ele fez de pôr fim a uma vida tão miserável. Ora, quando vi aquele pobre homem revolvendo-se no próprio sangue, poderia eu ficar irado com ele? Certamente não. Tampouco posso ficar irado com vocês. Não posso odiá-los, assim como não posso invejá-los. Só posso elevar o coração a Deus por vocês (como fiz então por ele) e, com lágrimas silenciosas, suplicar ao Pai das misericórdias que olhe para vocês no seu sangue e lhes diga: Vivam! (Ez 16.6).
19. “Senhor”, disse aquele homem infeliz no meu primeiro encontro com ele, “não me rebaixo a enganar o senhor nem ninguém. Não me venha falar da sua Bíblia, porque não creio numa só palavra dela. Sei que existe um Deus e creio que ele é tudo em todos, a Anima mundi [a alma do mundo], a
“vastam
Mens agitans molem, & magno se corpore miscens.” [mente que move a vasta massa e se mistura ao grande corpo]
“Mas, além disso, não creio em nada; tudo é escuro, o meu pensamento se perde. Mas ouço dizer”, acrescentou ele, “que o senhor prega a um grande número de pessoas toda noite e toda manhã. Diga-me, o que o senhor pretende fazer com elas? Para onde quer levá-las? Que religião o senhor prega? Para que ela serve?” Respondi: “Eu de fato prego, toda noite e toda manhã, a todos os que desejam ouvir.” O senhor pergunta “o que eu pretendo fazer com elas”? Quero torná-las virtuosas e felizes, em paz consigo mesmas e úteis aos outros. “Para onde quero levá-las?” Para o céu; para Deus, o Juiz, que ama a todos, e para Jesus, o Mediador da nova aliança. “Que religião eu prego?” A religião do amor; a lei da bondade trazida à luz pelo evangelho. “Para que ela serve?” Para fazer com que todos os que a recebem desfrutem de Deus e de si mesmos; para torná-los semelhantes a Deus, amando a todos, contentes na vida e exclamando na hora da morte, com serena certeza: Onde está, ó morte, a sua vitória? Graças a Deus, que me dá a vitória por meio de meu Senhor Jesus Cristo (1Co 15.55, 57).
20. Você vai objetar contra uma religião como essa que ela não é razoável? Então não é razoável amar a Deus? Não foi ele que lhe deu vida, respiração e tudo mais? Não continua ele a amar você, enchendo o seu coração de fartura e de alegria? O que é que você tem que não tenha recebido dele? E o amor não exige amor em retribuição? Portanto, quer você ame a Deus, quer não, não pode deixar de reconhecer que é razoável fazê-lo; mais ainda, visto que ele é o pai de todo bem, que é razoável amá-lo de todo o coração.
21. Não é razoável também amar o nosso próximo, todo homem que Deus fez? Não somos irmãos, filhos de um só pai? Não devemos, então, amar uns aos outros? E deveríamos amar apenas aqueles que nos amam? É isso agir como o nosso Pai que está nos céus? Ele faz o seu sol nascer sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. E pode haver regra mais justa (a única medida adequada do amor fraterno em todas as nossas palavras e ações) do que esta: Tudo o que vocês querem que os outros façam a vocês, façam também vocês a eles (Mt 7.12)?
22. Não é razoável, então, que, enquanto tivermos oportunidade, façamos o bem a todos os homens? Não só aos amigos, mas também aos inimigos; não só aos que o merecem, mas também aos maus e ingratos. Não é justo que toda a nossa vida seja um contínuo trabalho de amor? Se passa um dia sem que façamos o bem, não se pode muito bem dizer com Tito: Amici, diem perdidi!1 E basta dar de comer aos famintos, vestir os nus, visitar os que estão doentes ou presos? Não deveríamos ter compaixão daqueles
que gemem sob a horrível mancha da culpa,
o pior dos cativeiros e a mais pesada das correntes?
Deveríamos fechar a nossa compaixão àqueles que são, de todos os homens, os mais infelizes, só porque são infelizes por culpa própria? Se encontramos um remédio que cura até essa doença, não deveríamos, assim como de graça o recebemos, de graça dá-lo? Não deveríamos arrancá-los como tições do fogo? Do fogo da sensualidade, da ira, da malícia, da vingança? O mais íntimo da sua alma responde: “Isso deve ser feito; é razoável no mais alto grau.” Pois bem, esta é a súmula da nossa pregação e da nossa vida, e que os nossos próprios inimigos sejam os juízes. Se, portanto, você admite que é razoável amar a Deus, amar a humanidade e fazer o bem a todos os homens, não pode deixar de admitir que a religião que pregamos e vivemos está de acordo com a mais elevada razão.
23. Talvez “tudo isso você consiga suportar. É bastante tolerável; e, se falássemos apenas de ser salvos pelo amor, você não teria grande objeção; mas você não compreende o que dizemos sobre ser salvos pela fé”. Sei que não compreende. Você não compreende em grau algum o que queremos dizer com essa expressão; tenha, então, paciência, e eu lhe direi mais uma vez. Com as palavras somos salvos pela fé, queremos dizer que, no momento em que um homem recebe aquela fé descrita acima, ele é salvo da dúvida, do medo e da tristeza do coração, por uma paz que excede todo entendimento; do abatimento de um espírito ferido, por uma alegria indescritível; e dos seus pecados, de qualquer espécie que fossem, tanto dos seus desejos viciosos como das suas palavras e ações, pelo amor a Deus e a toda a humanidade, então derramado em seu coração.
24. Concedemos que nada é mais irracional do que imaginar que efeitos tão poderosos como esses possam ser produzidos por aquela coisa pobre, vazia e insignificante que o mundo chama de fé, e vocês com ele. Mas, supondo que haja na terra uma fé como aquela de que fala o apóstolo, uma tal comunicação entre Deus e a alma, o que é difícil demais para uma fé assim? Vocês mesmos podem conceber que tudo é possível ao que assim crê (Mc 9.23); àquele que assim anda com Deus (Gn 5.24), que já é cidadão do céu, habitante da eternidade. Se, portanto, vocês quiserem lutar contra nós, terão de mudar o terreno do ataque. Terão de negar categoricamente que exista alguma fé na terra; mas talvez considerem esse passo largo demais. Vocês não podem fazer isso sem uma secreta condenação no próprio peito. Ah, se vocês afinal clamassem a Deus por aquele dom celestial! Somente por ele esta religião verdadeiramente razoável, este amor benfazejo a Deus e ao homem, pode ser plantada no coração de vocês.
25. Se você disser: “Mas os que professam essa fé são os mais irracionais de todos os homens”, eu pergunto: “Quem são os que professam essa fé?” Talvez você não conheça pessoalmente nenhum homem assim no mundo. Quem são os que sequer professam ter essa evidência das coisas que não se veem? Que professam ver aquele que é invisível? Ouvir a voz de Deus e ter o seu Espírito sempre confirmando ao espírito deles que são filhos de Deus (Rm 8.16)? Receio que você encontrará poucos que sequer professem essa fé, entre o grande número dos que são chamados crentes.
26. “No entanto, há bastante gente que se declara cristã.” Sim, gente demais, Deus o sabe; gente demais que desmente as suas vãs profissões com todo o teor da sua vida. Concedo tudo o que você possa dizer sobre esse ponto, e talvez mais do que tudo. Faz já alguns anos que me vi, sem esperar, envolvido numa conversa com uma pessoa de raciocínio muito vigoroso, que a princípio alegou a maldade dos índios americanos como obstáculo à nossa esperança de convertê-los ao cristianismo. Mas, quando mencionei a temperança, a justiça e a veracidade deles (segundo os relatos que eu então havia recebido), ela perguntou: “Ora, se esses pagãos são homens assim, o que vão ganhar sendo feitos cristãos? O que ganhariam sendo cristãos como esses que vemos por toda parte ao nosso redor?” Não pude negar que eles perderiam, e não ganhariam, com um cristianismo como esse. Diante disso, ela acrescentou: “Ora, e que outra coisa o senhor entende por cristianismo?” A minha resposta franca foi: Que coisa a senhora considera mais valiosa do que o bom senso, a boa índole e as boas maneiras? Tudo isso está contido, e no mais alto grau, naquilo que entendo por cristianismo. O bom senso (assim chamado) não passa de uma pobre e pálida sombra daquilo que os cristãos chamam de fé. A boa índole é apenas uma semelhança fraca e distante da caridade cristã. E as boas maneiras, ainda que das mais refinadas que a natureza, ajudada pela arte, pode alcançar, não passam de um retrato morto daquela santidade de conduta que é a imagem de Deus visivelmente expressa. Tudo isso, reunido pela arte de Deus, é o que chamo de cristianismo. “Senhor, se isso é cristianismo”, disse a minha interlocutora, espantada, “eu nunca vi um cristão em toda a minha vida.”
27. Talvez aconteça o mesmo com você. Se for assim, lamento por você, e só posso desejar que, até ver uma prova viva disso, você não diga que vê um cristão. Pois isto é o cristianismo bíblico, e somente isto. Sempre, portanto, que você vir um homem irracional, verá alguém que talvez se chame por esse nome, mas que não é mais cristão do que é anjo. Na medida em que se afasta da razão verdadeira e genuína, nessa mesma medida se afasta do cristianismo. Não diga que isso é apenas afirmado, e não provado. Está provado de modo inegável pela carta original do cristianismo. Apelamos para ela, para a palavra escrita. Se as disposições, as palavras ou as ações de algum homem contradizem a reta razão, é evidente, com a clareza de uma demonstração, que contradizem a palavra escrita. Apresente qualquer exemplo possível ou imaginável, e você verá que é assim. A vida dos que se chamam cristãos não é, portanto, objeção justa contra o cristianismo.
28. Juntamo-nos a você, então, no desejo de uma religião fundada na razão e de todo modo conforme a ela. Mas ainda resta fazer uma pergunta: o que você entende por razão? Suponho que entenda a razão eterna, ou a natureza das coisas: a natureza de Deus e a natureza do homem, com as relações que necessariamente subsistem entre elas. Ora, essa é exatamente a religião que nós pregamos: uma religião evidentemente fundada na razão eterna, na natureza essencial das coisas, e de todo modo conforme a ela. O seu fundamento repousa sobre a natureza de Deus e a natureza do homem, juntamente com as suas relações mútuas. E é de todo modo adequada a elas. À natureza de Deus, pois começa por conhecê-lo; e onde, senão no verdadeiro conhecimento de Deus, você pode conceber que a verdadeira religião comece? Ela prossegue amando-o, e a toda a humanidade (pois você não pode deixar de imitar aquele a quem ama); e termina servindo-o, fazendo a sua vontade, obedecendo àquele a quem conhecemos e amamos.
29. É de todo modo adequada à natureza do homem, pois começa pelo conhecimento que o homem tem de si mesmo; por conhecer-se como realmente é: insensato, vicioso, infeliz. Prossegue indicando o remédio para isso, a fim de torná-lo verdadeiramente sábio, virtuoso e feliz, como toda mente que pensa (talvez por alguma lembrança implícita do que originalmente foi) anseia ser.
E consuma tudo restaurando as devidas relações entre Deus e o homem, unindo para sempre o Pai terno e o Filho grato e obediente, o grande Senhor de todos e o servo fiel, que não faz a sua própria vontade, mas a vontade daquele que o enviou.
30. Mas talvez por razão você entenda a faculdade de raciocinar, de inferir uma coisa de outra.
Há muitos, é preciso confessar (particularmente os que são chamados teólogos místicos), que condenam totalmente o uso da razão, assim entendida, na religião; mais ainda, que condenam todo raciocínio a respeito das coisas de Deus como totalmente destrutivo da verdadeira religião.
Mas com isso não podemos de modo algum concordar. Não encontramos para isso nenhuma autoridade nas Sagradas Escrituras. Muito pelo contrário: ali encontramos tanto o nosso Senhor como os seus apóstolos raciocinando continuamente com os seus opositores. Tampouco conhecemos, em todas as produções dos tempos antigos e modernos, uma cadeia de raciocínio ou de argumentação tão cerrada, tão sólida, tão bem encadeada como a Epístola aos Hebreus. E o mais vigoroso raciocinador que já observamos (excetuando apenas Jesus de Nazaré) foi aquele Paulo de Tarso, o mesmo que deixou para todos os cristãos esta orientação clara: Quanto à malícia, ou maldade, sejam crianças; mas, quanto ao entendimento, ou razão, sejam pessoas maduras (1Co 14.20).
31. Por isso, não apenas permitimos, mas exortamos com insistência todos os que buscam a verdadeira religião a usar toda a razão que Deus lhes deu na investigação das coisas de Deus. Mas o seu raciocinar com acerto, não só sobre isso, mas sobre qualquer assunto, pressupõe juízos verdadeiros já formados, sobre os quais fundamentar a sua argumentação. Do contrário, como você sabe, tropeçará a cada passo, porque ex falso non sequitur verum. É impossível, se as suas premissas são falsas, inferir delas conclusões verdadeiras.
32. Você sabe igualmente que, antes que lhe seja possível formar um juízo verdadeiro sobre as coisas de Deus, é absolutamente necessário que tenha uma apreensão clara delas e que as suas ideias a respeito delas sejam todas fixas, distintas e determinadas. E, visto que as nossas ideias não são inatas, mas todas devem vir originalmente dos nossos sentidos, é certamente necessário que você tenha sentidos capazes de discernir objetos dessa espécie. Não apenas aqueles que se chamam sentidos naturais, que nesse aspecto de nada aproveitam, por serem inteiramente incapazes de discernir objetos de natureza espiritual; mas sentidos espirituais, exercitados para discernir o bem e o mal espirituais. É necessário que você tenha o ouvido que ouve e o olho que vê (Pv 20.12), assim chamados por excelência; que se abra na sua alma uma nova classe de sentidos, que não dependam de órgãos de carne e sangue, para serem a evidência das coisas que não se veem, como os seus sentidos corporais o são das coisas visíveis; para serem as avenidas que levam ao mundo invisível, para discernir os objetos espirituais e para lhe fornecer ideias daquilo que nem olhos viram, nem ouvidos ouviram (1Co 2.9).
33. E, enquanto você não tiver esses sentidos internos, enquanto os olhos do seu entendimento não forem abertos, não poderá ter nenhuma apreensão das coisas divinas, nenhuma ideia delas. Nem, por conseguinte, poderá até então julgar com verdade ou raciocinar com acerto a respeito delas, visto que a sua razão não tem chão em que se apoiar nem material com que trabalhar.
34. Para usar o exemplo já batido: assim como você não pode raciocinar a respeito das cores se não tiver a visão natural, porque todas as ideias recebidas pelos seus outros sentidos são de espécie diferente, de modo que nem a sua audição nem qualquer outro sentido pode suprir a falta da visão ou fornecer à sua razão, nesse aspecto, material com que trabalhar, assim também você não pode raciocinar a respeito das coisas espirituais se não tiver a visão espiritual, porque todas as ideias recebidas pelos seus sentidos externos são de espécie diferente. Sim, muito mais diferentes das ideias recebidas pela fé, ou sensação interna, do que a ideia de cor é diferente da de som. Estas são apenas espécies diferentes de um mesmo gênero, a saber, as ideias sensíveis, recebidas pela sensação externa; ao passo que as ideias da fé diferem toto genere [em todo o gênero] das ideias da sensação externa. De modo que não é concebível que a sensação externa supra a falta dos sentidos internos ou forneça à sua razão, nesse aspecto, material com que trabalhar.
35. O que fará, então, a sua razão aqui? Como passará das coisas naturais às espirituais? Das coisas que se veem às que não se veem? Do mundo visível ao invisível? Que abismo há aqui! Com que arte a razão transporá esse imenso precipício? Isso não pode acontecer enquanto o Todo-Poderoso não vier em seu socorro e não lhe der aquela fé que você até agora desprezou. Então, carregado, por assim dizer, sobre asas de águia, você se elevará às regiões da eternidade; e a sua razão iluminada sondará até as profundezas de Deus, pois o próprio Deus as revelará a você por meio do seu Espírito (1Co 2.10).
36. Eu esperava receber muita luz sobre este ponto de um tratado publicado recentemente e que me foi recomendado com insistência; refiro-me a O cristianismo não fundado em argumentos [N. do T.: Christianity not Founded on Argument (1742), panfleto anônimo de Henry Dodwell, o moço]. Mas, ao ler com atenção essa obra, apesar da minha predisposição a seu favor, não pude deixar de perceber que o grande propósito perseguido uniformemente em todo o trabalho era tornar a instituição cristã inteira odiosa e desprezível. Para isso, o autor recolhe, com grande cuidado e diligência, as mais plausíveis dentre as muitas objeções levantadas contra ela por escritores recentes e as apresenta com a máxima força de que era capaz. Para fazer isso com mais efeito, ele se faz passar por cristão: finge defender uma doutrina declarada do cristianismo, a saber, a influência sobrenatural do Espírito de Deus; e muitas vezes, por várias frases seguidas (na verdade, no início de quase todos os parágrafos), fala tão como um cristão que não poucos o receberam conforme o seu desejo. Enquanto isso, com toda a arte possível e aparência de razão, e na linguagem mais elaborada, ele persegue o seu objetivo do começo ao fim, que é provar “que o cristianismo é contrário à razão”, ou “que nenhum homem que aja segundo os princípios da razão pode ser cristão”.
37. É uma prova admirável do poder que palavras suaves podem ter, mesmo sobre mentes sérias, que tantos tenham tomado um escritor como esse por amigo do cristianismo, visto que quase todas as páginas do seu opúsculo estão cheias de grosseira falsidade e de blasfêmia descarada; e estas sustentadas por falácias tão desacreditadas e por sofismas tão batidos, que um estudante com dois ou três anos de universidade poderia dar-lhes resposta suficiente e fazer o autor parecer tão irracional e desprezível quanto ele se esforça por fazer parecer Cristo e os seus apóstolos.
38. Até aqui falei principalmente àqueles que não recebem o sistema cristão como vindo de Deus. Quero acrescentar algumas palavras a outra espécie de homens (embora não tanto com relação aos nossos princípios ou à nossa prática, mas aos deles mesmos): a vocês que o recebem, que creem na Escritura, mas ainda assim não assumem o caráter de homens religiosos. Sou, portanto, obrigado a dirigir-me a vocês também sob o caráter de homens de razão.
39. Eu só perguntaria: vocês são de fato assim? Correspondem ao caráter sob o qual se apresentam? Se sim, são coerentes consigo mesmos. Os seus princípios e a sua prática concordam entre si.
Vejamos se é assim ou não. Você não toma o nome de Deus em vão? Lembra-se do dia de descanso, para o santificar? Não fala mal da autoridade do seu povo? Não é um bêbado ou um glutão, que se banqueteia todos os dias com a maior ostentação que pode? Que faz do ventre o seu deus? Não se vinga? Não é um devasso ou adúltero? Responda com franqueza ao seu próprio coração, diante de Deus, o Juiz de todos.
Por que, então, você diz que crê na Escritura? Se a Escritura é verdadeira, você está perdido. Está no caminho espaçoso que conduz para a perdição. A sua condenação não tarda. Está acumulando contra si mesmo ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus. Sem dúvida, se a Escritura é verdadeira (e você continuar assim), melhor seria para você se nunca tivesse nascido.
40. Como é que você se diz homem de razão? Será a razão incoerente consigo mesma? De todos os homens debaixo do sol, você é o que está mais longe de qualquer pretensão a esse caráter. Quem jura habitualmente, quem profana o dia do Senhor, o devasso, o bêbado que diz crer que a Escritura vem de Deus é um monstro sobre a terra, a maior contradição tanto da sua própria razão como da razão de toda a humanidade. Em nome de Deus (aquele nome digno pelo qual você é chamado e que você diariamente faz ser blasfemado), volte-se ou para a direita ou para a esquerda. Ou declare que é incrédulo, ou seja cristão. Não fique mais pulando assim de um lado para outro (1Rs 18.21). Ou jogue fora a Bíblia, ou os seus pecados. E, enquanto isso, se lhe resta alguma centelha da sua tão alardeada razão, não nos tenha por inimigos (como receio que você tenha feito até aqui, e como milhares fazem onde quer que tenhamos declarado que os que praticam tais coisas não herdarão a vida eterna) por lhe dizermos a verdade (Gl 4.16), visto que estas não são palavras nossas, mas daquele que nos enviou. Sim, ainda que, ao fazer isso, usemos grande franqueza no falar, como convém ao ministério que recebemos. Porque nós não estamos, como tantos outros, corrompendo (isto é, negociando como taverneiros, diluindo e, assim, adulterando) a palavra de Deus. Pelo contrário, com sinceridade, da parte de Deus, na presença de Deus, é que falamos em Cristo (2Co 2.17).
41. Mas pode ser que você não seja nada disso. Você se abstém de todas essas coisas. Tem uma reputação sem mancha. É um homem de honra, ou uma mulher virtuosa. Despreza fazer qualquer coisa indigna e é irrepreensível na vida e na conduta. É inofensivo (se o entendo bem) e inútil de manhã à noite. Não faz mal a ninguém… e também não faz bem a ninguém, não mais do que uma palha boiando sobre a água. A sua vida desliza suavemente de ano em ano; e, de uma estação a outra, sem ter nada que o obrigue a trabalhar,
“você desperdiça
em suave inatividade o dia.”
42. Não vou agora perturbar a tranquilidade do seu temperamento falando de um estado futuro. Mas permita-me fazer-lhe uma pergunta sobre as coisas presentes: você está feliz agora?
Já vi um grande grupo de criaturas racionais, chamadas índios, sentadas em fila à margem de um rio, olhando ora umas para as outras, ora para o céu, ora para as bolhas na água. E assim ficavam sentadas (a não ser em tempo de guerra) grande parte do ano, de manhã à noite.
Estas, sem dúvida, estavam muito à vontade. Mas você pode pensar que eram felizes? E quão pouco mais feliz do que elas é você?
43. Você come, bebe, dorme, se veste, dança e se senta para jogar. É levado a passear. Está no baile de máscaras, no teatro, na ópera, no parque, nas recepções da corte, nos salões. O que você faz lá? Ora, às vezes conversa; às vezes fica olhando para os outros. E o que vai fazer amanhã? No dia seguinte? Na semana seguinte? No ano seguinte? Vai comer, beber, dormir, dançar, se vestir e jogar de novo. E vai ser levado a passear de novo, para de novo ficarem todos olhando uns para os outros! E isso é tudo? Ai, quão pouca felicidade a mais você tem nisso do que os índios olhando para o céu ou para a água!
Ah, que roda pobre e monótona! Não me admira que o coronel M… (ou qualquer homem que reflita) tenha preferido a própria morte, mesmo no meio dos seus anos, a uma vida como essa! E que tenha declarado francamente “que escolheu sair do mundo porque não encontrou nele nada pelo qual valesse a pena viver”.
44. Contudo, é certo que há negócios a fazer; e em toda parte encontramos muitos (para não falar do vulgo, os burros de carga da terra) que estão continuamente ocupados com eles. Você está nesse número? Está envolvido no comércio ou em alguma outra ocupação respeitável? Suponho que também lucrativa, pois você não gastaria o seu tempo, o seu trabalho e o seu pensamento a troco de nada. Você está, então, fazendo fortuna; está ganhando dinheiro. É verdade; mas o dinheiro não é o seu fim último. Acumular ouro e prata por si mesmos, todos os homens reconhecem, é tão tolo e absurdo, tão grosseiramente irracional, quanto acumular aranhas ou asas de borboleta. Você o considera apenas como meio para algum outro fim. E qual é esse fim? Ora, desfrutar a vida, estar à vontade, gozar os seus prazeres, viver como um cavalheiro. Isso é claramente o todo, ou alguma parte, da felicidade descrita acima.
Supondo, então, que o seu fim seja de fato alcançado, suponha que você tenha o que deseja antes de cair na eternidade: vá sentar-se com Thleeanowhee e os seus companheiros à margem do rio. Depois de ter labutado cinquenta anos, você é exatamente tão feliz quanto eles.
45. Você está, ou pode você (ou qualquer homem de razão) estar satisfeito com isso? Não está. Não é possível que esteja. Mas que outra coisa pode fazer? Você gostaria de ter algo melhor em que empregar o seu tempo, mas não sabe onde encontrá-lo na terra.
E, de fato, é evidente que a terra, tal como está constituída agora, mesmo com a ajuda de todas as artes europeias, não encontra ocupação suficiente para preencher metade das horas de vigília de metade dos seus habitantes.
O que pode, então, fazer? Como pode empregar o tempo que lhe pesa tanto nas mãos? Isso mesmo que você busca é o que nós lhe anunciamos. Aquilo de que você precisa é a religião que nós pregamos. Só ela não deixa tempo sobrando nas nossas mãos. Ela preenche todos os espaços vazios da vida. Ocupa exatamente todo o tempo que temos de sobra, seja mais, seja menos; de modo que quem tem muito não tem demais, e quem tem pouco não tem falta (2Co 8.15).
46. Mais uma vez: você (ou qualquer homem de razão) pode pensar que foi feito para a vida que leva agora? Não pode pensar assim, pelo menos não enquanto não pisar a Bíblia debaixo dos pés. Os oráculos de Deus dão testemunho a você em cada página (e o seu próprio coração concorda com isso) de que você foi feito à imagem de Deus, um retrato incorruptível do Deus da glória. E o que é você, mesmo no seu estado presente? Um espírito eterno, a caminho de Deus. Para que fim, então, ele o criou, senão para habitar com ele, acima deste mundo perecível, para conhecê-lo, amá-lo, fazer a sua vontade, desfrutá-lo para todo o sempre? Ah, olhe mais fundo para dentro de si mesmo! E para dentro daquela Escritura que você professa receber como palavra de Deus, como reta em todas as coisas (Sl 119.128). Ali você encontrará descrito um estado mais nobre e mais feliz do que jamais lhe entrou no coração conceber. Mas Deus agora o revelou a todos aqueles que estão sempre alegres, oram sem cessar, em tudo dão graças (1Ts 5.16-18) e fazem a sua vontade assim na terra como no céu (Mt 6.10). Para isso você foi feito. Para isso também você é chamado. Ah, não seja desobediente ao chamado celestial! Pelo menos, não se ire com aqueles que de bom grado o levariam a ser testemunha viva daquela religião cujos caminhos são de fato caminhos agradáveis, e todas as suas veredas são paz (Pv 3.17).
47. Você diz no seu coração: “Já sei tudo isso. Não sou apenas um homem de razão. Sou um homem religioso, pois não só evito o mal e faço o bem, mas uso todos os meios de graça. Estou sempre na igreja, e também no sacramento. Faço as minhas orações todos os dias. Leio muitos livros bons. Jejuo… todo trinta de janeiro e na Sexta-Feira Santa” [N. do T.: o 30 de janeiro, aniversário da execução do rei Carlos I (1649), era dia de jejum oficial na Igreja da Inglaterra]? É mesmo? Você faz tudo isso? Tudo isso você pode fazer; pode ir até esse ponto e, ainda assim, não ter religião nenhuma, nenhuma religião que tenha valor diante de Deus. Mais ainda: pode ir muito além disso, além de onde você já foi ou sequer pensou em ir. Pois você pode distribuir todos os seus bens entre os pobres, sim, entregar o seu corpo para ser queimado e, ainda assim, muito possivelmente, se São Paulo for juiz, não ter amor (1Co 13.3), nenhuma religião verdadeira.
48. Essa religião, a única que tem valor diante de Deus, é exatamente aquilo que lhe falta. Falta a você (e, faltando isso, falta tudo) a religião do amor. Você não ama o seu próximo como a si mesmo, assim como não ama a Deus de todo o coração. Pergunte agora ao seu próprio coração se não é assim. É evidente que você não ama a Deus. Se amasse, seria feliz nele. Mas você sabe que não é feliz. A sua religião formal não o torna mais feliz do que a religião mundana do seu vizinho o torna feliz. Ah, quanto você tem sofrido por falta de alguém que lhe falasse com franqueza! Você consegue agora suportar ouvir a verdade nua? Você tem forma de piedade, mas não o poder (2Tm 3.5). Não passa de uma parede branqueada. Diante do Senhor, seu Deus, eu lhe pergunto: não é assim? É certo demais. Pois o seu íntimo está cheio de crimes (Sl 5.9). Você ama a criatura mais do que o Criador (Rm 1.25). É mais amigo dos prazeres do que amigo de Deus (2Tm 3.4). Amigo de Deus! Você não ama a Deus de modo nenhum, não mais do que ama uma pedra. Você ama o mundo; portanto, o amor do Pai não está em você (1Jo 2.15).
49. Você está à beira do abismo, prestes a ser lançado na perdição eterna. É verdade que você tem zelo por Deus, porém não com entendimento (Rm 10.2). Ah, como você tem sido terrivelmente enganado! Correndo para o inferno e imaginando que era o céu. Veja, enfim, que a religião exterior sem a interior não é nada; é muito pior do que nada, pois não passa de uma solene zombaria contra Deus. E religião interior você não tem. Você não tem a fé que atua pelo amor (Gl 5.6). A sua fé (assim chamada) não é um princípio vivo e salvador. Não é a fé do apóstolo, a substância (ou subsistência) das coisas que se esperam, a evidência das coisas que não se veem (Hb 11.1). [N. do T.: a NAA traz “a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que não se veem”.] Longe disso: essa fé é justamente aquilo que você chama de entusiasmo. [N. do T.: “entusiasmo” e “entusiasta”, no inglês do século XVIII, designavam o fanatismo religioso de quem se julga movido por revelações e impulsos diretos de Deus.] Não lhe basta estar sem ela; você ainda precisa blasfemar contra ela. Você chega a injuriar aquela vida que está oculta juntamente com Cristo, em Deus (Cl 3.3): todo o ver, provar, ouvir e sentir a Deus. Essas coisas lhe são loucura. Não admira, porque elas se discernem espiritualmente (1Co 2.14).
50. Ah, não feche mais os olhos à luz! Saiba que você tem fama de estar vivo, mas está morto (Ap 3.1). A sua alma está inteiramente morta no pecado: morta no orgulho, na vaidade, na vontade própria, na sensualidade, no amor ao mundo. Você está inteiramente morto para Deus. Não há comunhão alguma entre a sua alma e Deus. Você nunca o viu (pela fé, como nosso Senhor testemunhou contra os antigos) nem jamais ouviu a sua voz (Jo 5.37). Você não tem os sentidos espirituais exercitados para discernir o bem e o mal espirituais (Hb 5.14). Você se indigna contra os incrédulos e, durante todo esse tempo, é diante de Deus tão incrédulo quanto eles. Você tem olhos que não veem e ouvidos que não ouvem (Mc 8.18). Você tem um coração calejado, insensível.
51. Tenha paciência comigo mais um pouco: a minha alma está angustiada por você. O deus deste mundo cegou os seus olhos (2Co 4.4), e você está buscando a morte no erro da sua vida. Porque não comete pecados grosseiros, porque dá esmolas e vai à igreja e à ceia do Senhor, você imagina que está servindo a Deus; no entanto, na realidade, está servindo ao diabo. Pois você continua fazendo a sua própria vontade, e não a vontade de Deus, seu Salvador. Em tudo o que faz, você agrada a si mesmo. O orgulho, a vaidade e a vontade própria (frutos legítimos de um coração terreno, sensual e diabólico) contaminam todas as suas palavras e ações. Você está nas trevas, na sombra da morte. Ah, que Deus lhe diga com voz de trovão: Desperte, você que está dormindo, levante-se dentre os mortos, e Cristo o iluminará (Ef 5.14).
52. Mas bendito seja Deus! Ele ainda não deixou de dar testemunho de si mesmo (At 14.17)!
“Nem todos estão perdidos! Há quem prefira a fé,
Ainda que poucos, e a piedade para com Deus!”
Há os que conhecem o poder da fé e não são estranhos àquela religião interior e vital, o mesmo modo de pensar de Cristo (Fp 2.5), justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Rm 14.17). De vocês, que provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro (Hb 6.5), eu gostaria de saber se nos desviamos da fé (1Tm 6.10) ou se andamos em oposição à verdade em Jesus (Ef 4.21). Fira-me o justo, e isso será um favor; repreenda-me (Sl 141.5), se porventura o que está errado puder ser removido e o que falta for suprido, até que todos cheguemos à medida da estatura da plenitude de Cristo (Ef 4.13).
53. Talvez a primeira coisa que agora lhe venha à mente diga respeito à doutrina que ensinamos. Você ouviu dizer que nós afirmamos: “Os homens podem viver sem pecado.” E não ouviu dizer que a Escritura afirma o mesmo? (Queremos dizer: sem cometer pecado.) Não diz claramente São Paulo que os que creem não continuam no pecado? Que não podem viver ainda nele (Rm 6.1-2)? Não diz São Pedro: Aquele que sofreu na carne rompeu com o pecado, (…) para que (…) não viva mais de acordo com as paixões humanas, mas segundo a vontade de Deus (1Pe 4.1-2)? E não diz expressamente São João: Aquele que comete pecado procede do diabo. (…) Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo. Todo aquele que é nascido de Deus não comete pecado, porque a sua semente permanece nele; e ele não pode pecar, porque é nascido de Deus (1Jo 3.8-9)? E outra vez: Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca (1Jo 5.18). [N. do T.: o argumento segue a redação da versão do Rei Tiago; a NAA traz “Aquele que pratica o pecado”, “não vive na prática de pecado”, “não pode viver pecando” (1Jo 3.8-9) e “não vive em pecado” (1Jo 5.18).]
54. Você vê, então, que não somos nós que dizemos isso, mas o Senhor. Estas não são palavras nossas, mas dele. E quem é você para discutir com Deus (Rm 9.20)? Quem pode fazer de Deus um mentiroso? Certamente ele será justificado nas suas palavras e vencerá quando for julgado (Rm 3.4)! Você pode negar isso? Não sentiu muitas vezes uma reprovação secreta quando contradizia essa grande verdade? E quantas vezes desejou aquilo que lhe ensinaram a negar? Mais ainda: você consegue deixar de desejá-lo neste momento? Não deseja agora ardentemente deixar de pecar? Não cometê-lo mais? A sua alma não anseia por essa gloriosa liberdade dos filhos de Deus (Rm 8.21)? E que forte razão você tem para esperá-la? Já não provou dela de antemão? Não se lembra do tempo em que Deus levantou pela primeira vez sobre você a luz do seu rosto (Sl 4.6)? Pode isso algum dia ser esquecido? O dia em que a lâmpada do Senhor resplandeceu pela primeira vez sobre a sua cabeça (Jó 29.3)?
“Manteiga e mel você comeu,
E, erguido nas alturas,
Viu as nuvens sob os seus pés
E cavalgou sobre o céu.
“Muito, muito acima de todas as coisas terrenas
Você cavalgou em triunfo;
Subiu ao céu em asas de águia,
E encontrou a Deus, e falou com ele.”
Naquele tempo você tinha poder para não cometer pecado. Você achou rigorosamente verdadeiras as palavras do apóstolo: quem é nascido de Deus guarda a si mesmo, e o Maligno não toca nele (1Jo 5.18). Mas aqueles que você tinha por cristãos experientes, dizendo-lhe: “Este foi apenas o tempo dos seus esponsais; isso não podia durar para sempre; você precisa descer do monte”, e coisas semelhantes, abalaram a sua fé. Você olhou mais para os homens do que para Deus e, assim, tornou-se fraco e igual a qualquer outro homem. Ao passo que, se naquele tempo você tivesse alguém que o guiasse segundo a verdade de Deus, se tivesse ouvido a doutrina que agora censura, nunca teria caído da sua firmeza, mas teria descoberto que também neste sentido os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis (Rm 11.29).
55. Você não tem outra objeção, muito próxima desta, a saber, que pregamos a perfeição? É verdade; mas que perfeição? Ao termo você não pode objetar, porque é bíblico. Toda a dificuldade está em fixar o seu sentido segundo a palavra de Deus. E isso temos feito repetidas vezes, declarando ao mundo inteiro que a perfeição cristã não implica isenção de ignorância, de erro, de fraquezas ou de tentações; mas implica estar de tal modo crucificado com Cristo que se possa testemunhar: já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim (Gl 2.20), e ele purificou o meu coração por meio da fé (At 15.9). Implica derrubar toda arrogância que se levanta contra o conhecimento de Deus e levar cativo todo pensamento à obediência de Cristo (2Co 10.5). Implica ser santo, assim como é santo aquele que nos chamou, em todo o nosso procedimento (1Pe 1.15). E, numa palavra, amar o Senhor, nosso Deus, de todo o nosso coração e servi-lo com toda a nossa força (Mc 12.30).
56. Ora, é possível que alguém que crê na Escritura negue um só til disso? Você não pode. Não ousa. Não o faria por nada deste mundo. Sabe que é a pura palavra de Deus. E isto é tudo o que pregamos; esta é a altura e a profundidade do que nós (com São Paulo) chamamos de perfeição: um estado da alma a ser devotamente desejado por todos os que provaram o amor de Deus. Ah, ore por ela sem cessar. É a única coisa de que você precisa. Aproxime-se com confiança do trono da graça (Hb 4.16) e tenha certeza de que, quando pedir isso a Deus, obterá o pedido que lhe fizer (1Jo 5.15). Sabemos, de fato, que para o homem, para o homem natural, isso é impossível. Mas sabemos também que, assim como para Deus não há nada impossível (Lc 1.37), tudo é possível ao que crê (Mc 9.23).
57. Pois somos salvos pela fé. Mas você não ouviu isso ser levantado como mais uma objeção contra nós, que pregamos a salvação somente pela fé? E não faz São Paulo a mesma coisa? Pela graça, diz ele, vocês são salvos, mediante a fé (Ef 2.8). Pode haver palavras mais expressas? E em outro lugar: Creia no Senhor Jesus e você será salvo (At 16.31).
O que queremos dizer com isso (se ainda não foi suficientemente explicado) é que somos salvos dos nossos pecados somente por uma confiança no amor de Deus. Logo que vemos que grande amor o Pai nos tem concedido (1Jo 3.1), nós o amamos (como observa o apóstolo) porque ele nos amou primeiro (1Jo 4.19). E então é escrito no nosso coração aquele mandamento: quem ama a Deus, que ame também o seu irmão (1Jo 4.21). Desse amor a Deus e aos homens brotam a mansidão, a humildade de espírito e todas as disposições santas. Ora, estas são a própria essência da salvação, da salvação cristã, da salvação do pecado. E delas flui a salvação exterior, isto é, a santidade de vida e de procedimento. Pois bem, não são assim estas coisas? Se você sabe em quem tem crido (2Tm 1.12), não precisa de outras testemunhas.
58. Mas talvez você duvide de que a fé pela qual somos assim salvos implique uma confiança e segurança em Deus tal como a descrevemos. “Você não consegue pensar que a fé implique certeza: certeza do amor de Deus para com a nossa alma, de que ele agora está reconciliado conosco e perdoou todos os nossos pecados.” E isto confessamos abertamente: se a questão tiver de ser decidida pelo número de votos, teremos de abrir mão dela de imediato. Pois você tem do seu lado não só alguns que desejam ser cristãos de verdade, mas todos os cristãos nominais de toda parte e a Igreja Romana, todos sem exceção. Mais ainda: estes últimos são tão veementes na sua defesa que, no famoso Concílio de Trento, decretaram: “Se alguém sustentar que a confiança (fiduciam), a segurança ou a certeza do perdão é essencial à fé, seja anátema.”
59. Desse modo, aquele concílio anatematiza a Igreja da Inglaterra. Pois ela é condenada nesse ponto por sua própria confissão. As próprias palavras da “Homilia sobre a salvação” são: “Até os demônios creem que Cristo nasceu de uma virgem; que ele operou toda espécie de milagres, declarando-se verdadeiro Deus; que por nossa causa sofreu uma morte dolorosíssima, para nos redimir da morte eterna. Esses artigos da nossa fé os demônios creem; e assim creem tudo o que está escrito no Antigo e no Novo Testamento. E, apesar de toda essa fé, não passam de demônios. Continuam no seu estado de condenação, desprovidos da verdadeira fé cristã.”
“A reta e verdadeira fé cristã não consiste apenas em crer que as santas Escrituras e os artigos da nossa fé são verdadeiros, mas também em ter uma firme confiança e segurança de ser salvo da condenação eterna por meio de Cristo.” Ou (como se exprime um pouco adiante): “Uma firme confiança e segurança que o homem tem em Deus de que, pelos méritos de Cristo, os seus pecados são perdoados e ele é reconciliado com o favor de Deus.”
60. É verdade que o bispo de Roma diz: “Se alguém sustentar isso, seja anátema maranata.” Mas é de esperar que os anátemas papais não abalem você. Você é membro da Igreja da Inglaterra. É mesmo? Então a controvérsia está encerrada. Então ouça a Igreja. A fé é uma firme confiança que o homem tem em Deus de que os seus pecados são perdoados. Ou, se não é membro, quer ouça a nossa Igreja, quer não, ouça ao menos as Escrituras. Ouça Jó, que cria, declarando a sua fé: Eu sei que o meu Redentor vive (Jó 19.25). Ouça Tomé (quando, tendo visto, creu) exclamando: Senhor meu e Deus meu! (Jo 20.28). Ouça São Paulo descrevendo com clareza a natureza da sua fé: Esse viver que agora tenho, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim (Gl 2.20). Ouça (para não citar outros) todos os crentes que estavam com Paulo quando ele escreveu aos Colossenses, dando testemunho: Damos graças ao Pai, que nos libertou do poder das trevas e nos transportou para o Reino do seu Filho amado, em quem temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados (Cl 1.12-14).
61. Mas que necessidade temos de testemunhas distantes? Você tem uma testemunha no seu próprio peito. Pois não estou falando com alguém que ama a Deus? Como foi, então, que você começou a amá-lo? Não foi porque sabia que ele o amava? Você amou, podia amar a Deus de algum modo, antes de provar e ver que ele é bom (Sl 34.8)? Que ele foi misericordioso para com você, pecador? De que servem, então, a controvérsia e as contendas de palavras? Pela sua própria boca (Lc 19.22)! Você reconhece que não tinha amor a Deus antes de perceber o amor dele por você. E quaisquer que sejam as expressões que um pecador que ama a Deus use para indicar o amor de Deus por ele, você sempre verá, examinando-as, que elas implicam, direta ou indiretamente, o perdão. O amor que perdoa está sempre na raiz de tudo. Aquele que foi ofendido agora está reconciliado. O cântico novo que Deus põe em toda boca tem sempre este teor: Ó Senhor, graças te dou, porque, ainda que te iraste contra mim, a tua ira se retirou. Eis que Deus é a minha salvação; confiarei e não temerei, porque o Senhor Deus é a minha força e o meu cântico; ele se tornou a minha salvação (Is 12.1-2).
62. A confiança num Deus que perdoa é, portanto, essencial à fé salvadora. O perdão dos pecados é uma das primeiras daquelas coisas invisíveis das quais a fé é a evidência. E, se você percebe isso, vai discutir conosco por causa de uma circunstância indiferente dessa fé? Vai considerar uma objeção importante o fato de afirmarmos que essa fé costuma ser dada num momento? Primeiro, permita-me pedir-lhe que leia de novo aquele relato autêntico do modo como Deus trata os homens, os Atos dos Apóstolos. Nesse livro você verá como ele agiu desde o princípio naqueles que receberam a remissão dos pecados pela fé. E consegue encontrar um só deles (com exceção, talvez, de São Paulo) que não a tenha recebido num momento? Mas encontrará grande número dos que a receberam assim, além de Cornélio e dos três mil. E com isso concorda também a experiência dos que agora recebem o dom celestial. Apenas três ou quatro exceções encontrei no decorrer de vários anos (talvez você mesmo possa ser acrescentado a esse número, e mais um ou dois que você conheceu). Mas todos os demais dentre os que, de tempos em tempos, creram no Senhor Jesus entre nós foram num momento trazidos das trevas para a luz e do poder de Satanás para Deus (At 26.18).
63. E por que lhe pareceria coisa incrível, a você que conheceu o poder de Deus para a salvação (quer ele tenha agido assim na sua alma, quer não; pois há diversidade nas realizações, mas o mesmo Espírito), que os mortos ouçam a voz do Filho de Deus (Jo 5.25) e naquele momento vivam? É assim que ele costuma agir, para mostrar que, quando quer, o realizar está ao seu alcance. Haja luz, disse Deus, e houve luz (Gn 1.3). Ele falou, e tudo se fez (Sl 33.9). Assim foram criados os céus e a terra, e todo o seu exército. E esse modo de agir, no caso presente, convém muitíssimo tanto ao seu poder quanto ao seu amor. Não há, pois, impedimento algum da parte de Deus, visto que como é a sua majestade, assim é a sua misericórdia. E qualquer impedimento que haja da parte do homem, quando Deus fala, deixa de existir. Somente peça, então, ó pecador, e lhe será dado (Mt 7.7), sim, a fé que traz a salvação; e isso sem mérito algum nem boa obra sua, pois não vem de obras, para que ninguém se glorie (Ef 2.9). Não; vem da graça, somente da graça. Pois, para quem não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça (Rm 4.5).
64. “Mas, falando assim, o senhor encoraja os pecadores.” Encorajo, sim: a se arrependerem. E você não faz o mesmo? Não sabe quantos acumulam pecado sobre pecado simplesmente por falta desse encorajamento? Porque pensam que “nunca poderão ser perdoados; não resta mais lugar para o arrependimento”? O seu coração também não sangra por eles? O que você julgaria precioso demais para entregar? O que não faria? O que não sofreria para levar um só desses pecadores ao arrependimento? Não poderia o seu amor suportar tudo por eles? “Sim, se eu cresse que isso lhes faria bem; se tivesse alguma esperança de que se tornariam melhores.” Por que você não crê que isso lhes faria bem? Por que não tem esperança de que se tornarão melhores? Claramente, porque não os ama o bastante; porque não tem aquele amor que não só tudo suporta, mas ao mesmo tempo tudo crê e tudo espera (1Co 13.7).
65. Mas, para que você veja toda a força dessa objeção, vou lhe mostrar, sem disfarce nem reserva, como encorajo o principal dos pecadores. A minha linguagem habitual para com eles é mais ou menos esta:
Ó vocês que renegam o Senhor que os resgatou (2Pe 2.1), ouçam ainda assim a palavra do Senhor. Vocês buscam descanso, mas não o encontram. Até no riso o coração de vocês tem dor (Pv 14.13). Até quando gastarão o seu esforço naquilo que não é pão, e a sua força naquilo que não satisfaz (Is 55.2)? Vocês sabem que a sua alma não está satisfeita. Ela continua sendo um vazio que dói. Às vezes vocês sentem (apesar dos seus princípios) um senso de culpa, uma consciência despertada. Aquele fantasma medonho, a religião (é assim que vocês a descrevem), ainda os assombra de vez em quando. A justiça, olhando do céu, não é de fato para nós uma visão desagradável. Mas como ela aparece a vocês?
Horribili super aspectu mortalibus astans? [Erguendo-se sobre os mortais com aspecto horrendo?] [N. do T.: verso adaptado de Lucrécio, Da natureza das coisas, livro I, onde descreve a religião.]
Quantas vezes vocês têm medo justamente das coisas que negam? Quantas vezes ficam numa incerteza torturante? “E se houver uma vida futura? Um juízo vindouro? Uma eternidade infeliz?” Vocês não se sobressaltam com esses pensamentos? Podem contentar-se em estar sempre assim? Será que também de vocês se dirá:
“Aqui jaz um jogador, que muito tempo duvidou
Se a morte podia matar a alma ou não.
Aqui acaba a sua dúvida; afinal,
Convencido. Mas, ah, a sorte está lançada!”
Ou vocês já estão convencidos de que não há vida futura? Que estado miserável é então o seu agora! Dar mais algumas voltas monótonas pela terra e depois cair no nada! Que espírito é preciso ter para se sustentar diante desse pensamento! Diante da expectativa de, em poucos instantes, ser arrastado pela correnteza do tempo e depois, para sempre,
“tragado e perdido
No vasto ventre da noite incriada!”
Mas, na verdade, vocês também não têm certeza disso, nem de coisa alguma. “Pode ser que sim; pode ser que não. Um vasto cenário está por trás. Mas nuvens e trevas repousam sobre ele.” Tudo é dúvida e incerteza. Vocês são continuamente lançados de um lado para outro e não têm chão firme para a planta dos pés. Ah, que a pobre sabedoria humana não se levante mais contra a sabedoria de Deus! Vocês já fugiram dele por tempo demais: deixem, enfim, que os seus olhos sejam abertos por aquele que os fez. Vocês precisam de descanso para a alma. Peçam-no àquele que a todos dá com generosidade e sem reprovações (Tg 1.5)! Agora vocês são um mero enigma para si mesmos, e a sua condição está cheia de trevas e perplexidade. São alguns entre os muitos habitantes inquietos de um mundo miserável e desordenado, passando como uma sombra e inquietando-se em vão (Sl 39.6). Mas a luz de Deus dissipará depressa a ansiedade das suas vãs conjecturas. Acrescentando o céu à terra e a eternidade ao tempo, ela abrirá diante de vocês uma visão tão gloriosa das coisas que os conduzirá, já no mundo presente, a uma paz que excede todo entendimento (Fp 4.7).
66. Ó vocês, pecadores grosseiros, vis e escandalosos, ouçam a palavra do Senhor. Convertam-se! Convertam-se dos seus maus caminhos (Ez 33.11), para que a iniquidade não lhes sirva de tropeço (Ez 18.30). Tão certo como eu vivo, diz o Senhor, não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que ele se converta e viva (Ez 33.11). Ah, apressem-se; não adiem o tempo. Venham, e vamos discutir a questão. Ainda que os pecados de vocês sejam como o escarlate, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, eles se tornarão como a lã (Is 1.18). Quem é este que vem de Edom, vestido de roupas vermelhas (Is 63.1)? É aquele sobre quem o Senhor fez cair a iniquidade de todos nós (Is 53.6)! Eis, eis o Cordeiro de Deus, que tira os seus pecados (Jo 1.29)! Veja o Filho unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade (Jo 1.14)! Ele ama você. Ele se entregou por você. Agora mesmo o seu coração compassivo se comove por você! Ah, creia no Senhor Jesus, e você será salvo! Vá em paz e não peque mais (Jo 8.11)!
67. Ora, você não consegue concordar com tudo isso? Não é essa a própria linguagem do seu coração? Ah, quando você vai reconhecer que toda a nossa preocupação, o nosso trabalho constante, é levar o mundo inteiro à religião que você sente, à religião sólida, interior e vital! Que poder é esse, então, que nos mantém separados? Você tem o coração sincero para comigo, assim como o meu coração é sincero para com você? Se é assim, me dê a sua mão. Venha comigo e você verá (2Rs 10.15-16), e alegre-se com o meu zelo para com o Senhor. Nenhuma diferença entre nós (se você é filho de Deus) pode ser tão considerável quanto a nossa concordância. Se divergimos em coisas menores, concordamos naquilo que é o maior de tudo. Como é possível, então, que você seja levado a pensar ou falar mal de nós? Como pôde algum dia lhe vir à mente opor-se a nós ou enfraquecer as nossas mãos? Até quando nos queixaremos das feridas que recebemos na casa dos nossos amigos (Zc 13.6)? Certamente os filhos deste mundo continuam mais espertos na sua própria geração do que os filhos da luz (Lc 16.8). Satanás não está dividido contra si mesmo (Mc 3.26): por que estão contra nós os que estão do lado do Senhor? Como é que a sabedoria não é justificada por seus próprios filhos (Lc 7.35)?
68. Será porque você ouviu dizer “que apenas fazemos da religião um disfarce para a cobiça? E porque ouviu alegar um grande número de casos particulares em apoio dessa acusação geral”? É provável que também tenha ouvido “quanto já ganhamos pregando”; e, para coroar tudo, “que não passamos de papistas disfarçados, que estão minando e destruindo a Igreja”.
69. “Você ouviu isso.” Pois bem: e consegue acreditar? Então nunca ouviu o capítulo cinco de São Mateus? Quisera Deus que você pudesse acreditar nele. O que está escrito ali? Como você lê? Bem-aventurados são vocês quando, por minha causa, os insultarem e os perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vocês. Alegrem-se e exultem, porque é grande a sua recompensa nos céus; pois assim perseguiram os profetas que viveram antes de vocês (Mt 5.11-12): a saber, insultando-os e, mentindo, dizendo todo mal contra eles. Você não sabe que isto (assim como todas as demais Escrituras) tem necessariamente de se cumprir? Se é assim, reconheça que hoje também isso se cumpre aos seus ouvidos. Por causa do nosso Senhor e do seu evangelho que pregamos, os homens nos insultam e nos perseguem e (bendito seja Deus, que nos dá alegria nisso) mentindo, dizem todo mal contra nós. E como poderia ser de outro modo? O discípulo não está acima do seu mestre. Basta ao discípulo ser como o seu mestre, e ao servo ser como o seu senhor. Se chamaram o dono da casa de Belzebu, quanto mais os membros da sua casa! (Mt 10.24-25).
70. Só isto confessamos: que “pregamos a salvação interior, que se pode alcançar agora pela fé”. E por pregar isso (pois nenhum outro crime foi então sequer alegado) fomos proibidos de pregar novamente naquelas igrejas onde até então éramos recebidos com alegria. Este é um fato notório. Impedidos assim de pregar nos lugares que teríamos preferido em primeiro lugar, agora anunciamos a graça de Deus, que traz salvação, em todos os lugares do seu domínio (Tt 2.11; Sl 103.22), sabendo bem que Deus não habita somente em santuários feitos por mãos humanas (At 17.24). Este é o verdadeiro, e o único verdadeiro, motivo de queixa contra nós. E isto declaramos diante de toda a humanidade: pregamos, sim, esta salvação pela fé. E, não nos sendo permitido pregá-la nos lugares habituais, nós a anunciamos onde quer que se abra uma porta, seja num monte, seja num lugar plano, seja à beira de um rio (para tudo isso entendemos ter precedente suficiente), seja na prisão, seja, por assim dizer, na casa de Tício Justo (At 18.7) ou na escola de um certo Tirano (At 19.9). Nem ousamos abster-nos. Uma responsabilidade me foi confiada; e ai de mim se não pregar o evangelho (1Co 9.16-17).
71. Aqui admitimos o fato, mas negamos a culpa. Em todos os demais pontos alegados, porém, negamos o fato e desafiamos o mundo a prová-lo, se puder. Desafiamos de modo especial aqueles que, por muitos anos, viram o nosso modo de vida em Oxford. Estes sabem bem que vivemos como fariseus, segundo o partido mais rigoroso da nossa religião (At 26.5), e que a grande objeção contra nós durante todos aqueles anos era sermos demasiadamente justos (Ec 7.16): o ler, jejuar, orar, negar a nós mesmos; o ir à igreja e à mesa do Senhor; o socorrer os pobres, visitar os doentes e os presos; o instruir os ignorantes e o esforçar-nos para recuperar os ímpios, mais do que era necessário para a salvação. Estes foram os nossos crimes públicos e flagrantes, do ano de 1729 ao ano de 1737; a respeito dos quais o nosso Senhor julgará naquele dia.
72. Mas, deixando de lado as coisas passadas: qual de vocês agora nos convence de pecado (Jo 8.46)? Qual de vocês (aqui apelo mais especialmente aos meus irmãos do clero) pode nos acusar pessoalmente de qualquer impiedade ou falta de santidade no procedimento? Vocês sabem no próprio coração (todos os que são homens sinceros, todos os que não estão inteiramente cegos pelo preconceito) que nos esforçamos por ter sempre uma consciência pura diante de Deus e dos homens (At 24.16). Irmãos, quisera Deus que nisso vocês fossem como nós. Mas, na verdade (digo-o com tristeza), não são. Há entre vocês mesmos homens ímpios e sem santidade, aberta e inegavelmente: bêbados, glutões, gente que paga o mal com o mal, mentirosos, praguejadores, profanadores do dia do Senhor. Não faltam provas disso, se vocês as exigirem. Onde está, então, o zelo de vocês contra esses? Um clérigo tão bêbado que mal consegue ficar de pé ou falar pode, na presença de mil pessoas2, atacar outro clérigo da mesma igreja, tanto com palavras ofensivas quanto com violência aberta. E o que se segue? Ora, um continua autorizado a ministrar os sagrados sinais do corpo e do sangue de Cristo. Mas ao outro não se permite recebê-los. Porque é pregador ao ar livre.
73. Ó colunas e pais da Igreja, são essas coisas agradáveis àquele que os constituiu bispos sobre o rebanho que ele comprou com o seu próprio sangue (At 20.28)? Ah, se vocês me permitissem gloriar-me um pouco (2Co 11.16)! Não há motivo para isso? Não foram vocês que me obrigaram a isso (2Co 12.11)? Quais dos seus clérigos são mais irrepreensíveis na vida, quais mais incansáveis nos trabalhos, do que aqueles cujo nome vocês rejeitam como indigno (Lc 6.22), a quem vocês consideram lixo do mundo, escória de todos (1Co 4.13)? Qual deles é mais zeloso em gastar e deixar-se gastar (2Co 12.15) pelas ovelhas perdidas da casa de Israel (Mt 15.24)? Ou quem dentre eles está mais pronto a ser oferecido pelo seu rebanho como libação sobre o sacrifício e serviço da fé deles (Fp 2.17)?
74. Dirão vocês (como o historiador de Catilina): Si sic pro patria! [Se fosse assim pela pátria!] Se isso fosse feito em defesa da Igreja, e não para miná-la e destruí-la! Esta é justamente a proposição que me proponho provar: que “estamos agora defendendo a Igreja, sim, a Igreja da Inglaterra, contra todos aqueles que a minam secretamente ou tentam mais abertamente destruí-la”.
75. Que somos papistas (nós, que diariamente e a toda hora pregamos aquela mesma doutrina tão solenemente anatematizada por toda a Igreja de Roma) é uma acusação tal que não ouso desperdiçar o meu tempo refutando-a com empenho. Basta que qualquer pessoa de bom senso olhe as folhas de rosto dos sermões que pregamos recentemente em Oxford, e não precisará de mais nada para lhe mostrar o peso dessa acusação insensata e desavergonhada; a menos que possa supor que os dirigentes tanto da Christ Church quanto do Lincoln College, e até mesmo toda a universidade, também são papistas.
76. Você mesmo pode facilmente nos absolver disso; mas não da outra parte da acusação. Você continua pensando que estamos minando secretamente a Igreja, se não a destruindo abertamente.
O que você entende por Igreja? Uma Igreja visível (conforme a define o nosso Artigo) é uma congregação de fiéis (ou crentes): cætus credentium [assembleia dos que creem]. Esta é a essência de uma Igreja; e as suas propriedades são (tal como descritas nas palavras que se seguem): na qual a pura palavra de Deus é pregada e os sacramentos são devidamente ministrados. [N. do T.: Artigo XIX dos Artigos de Religião, “Da Igreja”.] Ora, então (segundo esta definição autêntica), o que é a Igreja da Inglaterra? O que é ela, de fato, senão o povo fiel, os verdadeiros crentes da Inglaterra? É verdade que, se estes estiverem dispersos, entram em outra consideração. Mas, quando estão visivelmente unidos, reunindo-se para ouvir a pura palavra de Deus pregada e para comer de um só pão e beber de um só cálice, então são propriamente a Igreja visível da Inglaterra.
77. Seria bom que isso fosse um pouco mais considerado por aqueles que clamam com tanta veemência: A Igreja! A Igreja! (como os de antigamente: Templo do Senhor! Templo do Senhor!) (Jr 7.4), sem compreender nem o que dizem, nem os assuntos sobre os quais falam com tanta ousadia (1Tm 1.7). Uma Igreja provincial ou nacional, segundo o nosso Artigo, são os verdadeiros crentes daquela província ou nação. Se estes estão dispersos aqui e ali, são apenas uma parte da Igreja invisível de Cristo. Mas, se estão visivelmente unidos, reunindo-se para ouvir a sua palavra e participar da sua ceia, então são uma Igreja visível, como a Igreja da Inglaterra, da França ou qualquer outra.
78. Posto isso, pergunto: como minamos ou destruímos a Igreja? A Igreja provincial e visível da Inglaterra? O Artigo menciona três coisas como essenciais a uma Igreja visível. Primeiro, a fé viva, sem a qual, de fato, não pode haver Igreja alguma, nem visível nem invisível. Segundo, a pregação (e, consequentemente, a audição) da pura palavra de Deus, sem a qual essa fé enfraqueceria e morreria. E, terceiro, a devida ministração dos sacramentos, os meios ordinários pelos quais Deus aumenta a fé. Agora vamos direto à questão: em qual destes pontos minamos ou destruímos a Igreja?
Fechamos a porta da fé? Diminuímos o número do povo que crê na Inglaterra? Lembre-se apenas do que é a fé segundo as nossas Homilias (a saber, “uma firme confiança e segurança em Deus de que, pelos méritos de Cristo, os meus pecados são perdoados e eu sou reconciliado com o favor de Deus”). E apelamos a toda a humanidade: destruímos nós esta fé, que é a vida e a alma da Igreja? Há, de fato, menos desta fé na Inglaterra do que havia antes de sairmos? Penso que esta é uma afirmação que o próprio pai da mentira mal ousará proferir ou sustentar.
Quanto a este primeiro ponto, portanto, é inegável que nem minamos nem destruímos a Igreja. A segunda coisa é a pregação da pura palavra de Deus. E impedimos isso? Impedimos algum ministro de pregar a pura palavra de Deus? Se algum não prega de modo algum, ou não prega a pura palavra de Deus, o impedimento está em nós ou neles mesmos? Ou diminuímos o número dos que ouvem a pura palavra de Deus? São então os seus ouvintes (seja ela lida, seja pregada) menos numerosos do que eram em tempos passados? Os lugares habituais de culto público são menos frequentados por causa da nossa pregação? Onde quer que a nossa sorte nos tenha levado por algum tempo, estão as igrejas mais vazias do que antes? Certamente ninguém que ainda tenha algum respeito pela verdade ou pela modéstia dirá que, neste ponto, somos inimigos ou destruidores da Igreja.
A terceira coisa necessária (se não ao ser, ao menos) ao bem-estar de uma Igreja é a devida ministração dos sacramentos, particularmente o da ceia do Senhor. E somos, neste aspecto, minadores ou destruidores da Igreja? Afastamos os homens da mesa do Senhor, seja pelo nosso exemplo, seja pelos nossos conselhos? Onde mais trabalhamos, é ali que há menos comungantes? Como estão os fatos em Londres, Bristol, Newcastle? Ah, se você não fechasse mais os olhos à luz intensa que o cerca por todos os lados!
79. Creio que a esta altura você percebe não só quão fraca é esta objeção, mas também quão fácil seria devolver, de modo terrível, cada parte dela à maioria dos que a fazem, quer falemos da fé verdadeira e viva, quer da pregação da palavra pura de Deus, quer da devida ministração dos sacramentos, tanto do batismo quanto da ceia do Senhor. Mas eu o poupo. Basta que o nosso Deus sabe, e manifestará naquele dia, se é por causa de nós ou de vocês que os homens desprezam a oferta do Senhor (1Sm 2.17).
80. Outros objetam “que não observamos as leis da Igreja e, com isso, a minamos”. Que leis? As rubricas ou os cânones? Em toda paróquia onde fui cura até hoje, observei as rubricas com escrupulosa exatidão, não por causa do temor da punição, mas por dever de consciência (Rm 13.5). E isso, no que cabe a um ministro sem benefício ou a um membro particular da Igreja, faço ainda agora. Mencionarei apenas algumas delas e deixarei que você considere qual de nós as observou ou as observa mais.
1. Dias de jejum ou abstinência a serem observados: os quarenta dias da Quaresma; as têmporas das quatro estações; os três dias de rogações; todas as sextas-feiras do ano, exceto o dia de Natal.
2. “Todos os que pretendem participar da santa comunhão comunicarão os seus nomes ao cura, ao menos em algum momento do dia anterior.
E, se algum deles for pessoa de vida má, pública e notória, (…) o cura o advertirá de que de modo algum presuma aproximar-se da mesa do Senhor enquanto não tiver declarado publicamente que se arrependeu de verdade.
3. “Então (depois do Credo Niceno) o cura anunciará ao povo que dias santos ou dias de jejum devem ser observados na semana seguinte.
4. “O ministro primeiro receberá ele mesmo a comunhão sob as duas espécies e depois passará a ministrá-la, do mesmo modo, aos bispos, presbíteros e diáconos, se algum estiver presente, e, em seguida, ao povo.
5. “Nas catedrais, nas igrejas colegiadas e nos colégios, onde há muitos presbíteros e diáconos, todos receberão a comunhão com o sacerdote, ao menos todos os domingos.
6. “As crianças a serem batizadas devem estar prontas junto à pia batismal imediatamente depois da última lição.
7. “Os curas de cada paróquia advertirão o povo de que, sem grande necessidade, não procurem batizar os filhos em casa, nas suas residências.
8. “O cura de cada paróquia, aos domingos e dias santos, depois da segunda lição da oração vespertina, publicamente na igreja, instruirá e examinará diligentemente, em alguma parte do catecismo, tantas crianças quantas julgar conveniente.
9. “Sempre que o bispo der aviso para que as crianças lhe sejam apresentadas para a confirmação, o cura de cada paróquia levará ou enviará por escrito, com a sua assinatura, os nomes de todas as pessoas da sua paróquia que julgar aptas a serem apresentadas ao bispo.”
81. Ora, a questão não é se estas rubricas devem ser observadas (você dá isso por certo ao fazer a objeção), mas se, de fato, foram mais observadas por você ou por mim. Muitos podem testemunhar que as observei pontualmente, sim, às vezes com risco da minha vida; e muitos, receio, podem testemunhar que você não as observou de modo algum e que várias delas você nunca sequer pretendeu observar. E é você quem acusa a mim de não observar as rubricas da Igreja? Que encenação é esta! Não anunciem isso em Gate, nem o publiquem nas ruas de Asquelom (2Sm 1.20)!
82. Quanto aos cânones, eu lhe pediria, em primeiro lugar, que considerasse duas ou três perguntas simples.
Primeira. Você alguma vez os leu do começo ao fim?
Segunda. Como podem ser chamados “os cânones da Igreja da Inglaterra“, visto que nunca foram legalmente estabelecidos pela Igreja? Nunca foram regularmente confirmados em nenhuma convocação plena?
Terceira. Com que direito se exige que eu observe cânones que nunca foram legalmente estabelecidos?
E então entrarei em debate com você sobre mais uma questão, a saber: quem os observou mais, você ou eu?
Para citar apenas alguns exemplos.
Cânon 29. Nenhuma pessoa será admitida como padrinho ou madrinha de criança alguma (…) antes de ter recebido a santa comunhão.
Cânon 59. Todo pároco, vigário ou cura, todo domingo e dia santo, antes da oração vespertina, por meia hora ou mais, examinará e instruirá os jovens e as pessoas ignorantes da sua paróquia.
Cânon 64. Todo pároco, vigário ou cura anunciará ao povo, todo domingo, se há algum dia santo ou dia de jejum na semana seguinte.
Cânon 68. Nenhum ministro recusará ou adiará batizar qualquer criança que lhe for trazida à igreja aos domingos ou dias santos para ser batizada, nem sepultar qualquer corpo que for trazido à igreja ou ao cemitério.
(N. B. A incapacidade de pagar as taxas não altera o caso.)
Cânon 75. Nenhuma pessoa eclesiástica passará o seu tempo ociosamente, de dia ou de noite, jogando dados, cartas ou gamão.
Ora, que o clérigo que tenha observado somente estes cinco cânones durante o último ano e que tenha lido todos os cânones à sua congregação (como a ratificação do rei estritamente lhe ordena fazer uma vez por ano), que esse, digo eu, atire a primeira pedra (Jo 8.7) contra nós por não observarmos os cânones (assim chamados) da Igreja da Inglaterra.
83. “Contudo (diz-se), não podemos ser amigos da Igreja, porque não obedecemos aos seus dirigentes nem nos sujeitamos (como prometemos fazer na nossa ordenação) a todas as suas piedosas admoestações e determinações.”3 Respondo: em cada ponto particular de natureza indiferente, obedecemos e obedeceremos (pela graça de Deus) aos dirigentes da Igreja. Mas testemunhar o evangelho da graça de Deus não é um ponto de natureza indiferente. O ministério que recebemos do Senhor Jesus (At 20.24), temos de cumpri-lo a qualquer risco. É o fardo do Senhor que nos foi imposto aqui; e devemos obedecer a Deus mais do que aos homens (At 5.29). Tampouco violamos de algum modo a promessa que cada um de nós fez quando lhe foi dito: “Recebe autoridade para pregar a palavra de Deus, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.” Prometemos então sujeitar-nos (notem as palavras) às piedosas admoestações e determinações do nosso ordinário. Mas não prometemos, nem podíamos prometer, obedecer a determinações tais que sabemos serem contrárias à palavra de Deus.
84. “Mas então por que (dizem alguns) vocês abandonam a igreja?” Abandonar a igreja! Que querem dizer com isso? Abandonamos sequer as paredes da igreja? Os seus próprios olhos lhes dizem que não. Abandonamos as ordenanças da igreja? Vocês veem e sabem todos os dias o contrário. Abandonamos a doutrina fundamental da igreja, isto é, a salvação pela fé? Ela é o nosso tema constante, em público, em particular, por escrito, na conversa. Abandonamos a prática da igreja, cujo padrão são os dez mandamentos? Eles estão tão essencialmente entranhados na constituição dela (por pouco que vocês o percebam) que quem desrespeitar um destes mandamentos, ainda que dos menores, não é membro da Igreja da Inglaterra. Creio que vocês não fazem questão de pôr a causa nestes termos. Nem é isso o que querem dizer com abandonar a igreja. Na verdade, não consigo conceber o que querem dizer. Duvido que vocês mesmos o consigam. Repetem uma frase tirada de outro, que entendem tão pouco quanto ele. E não admira, pois é uma observação verdadeira:
“O disparate nunca se deixa entender.”
85. Muito próxima desta é aquela outra objeção, de que dividimos a igreja. Lembrem-se de que a igreja é o povo fiel, os verdadeiros crentes. Ora, como é que dividimos estes? “Ora, pelas nossas sociedades.” Muito bem. Agora o caso está claro. “Vocês os dividem (dizem vocês) unindo-os uns aos outros.” Na verdade, um modo muito incomum de dividir. “Ah, mas vocês separam os que assim estão unidos entre si do resto da igreja.” De modo nenhum. Muitos deles já estavam antes unidos a todos os seus irmãos da Igreja da Inglaterra (e muitos não estavam, até nos conhecerem), congregando-se para ouvir a palavra de Deus, comer de um só pão e beber de um só cálice. E agora deixam de se congregar? Vocês não podem, não ousam dizê-lo. Sabem que eles são mais diligentes nisso do que nunca, pois uma das regras fixas das nossas sociedades é “que todo membro frequente as ordenanças de Deus”, isto é, que não se separe da igreja. E se algum membro da igreja assim se separar dela ou a abandonar, já não tem lugar entre nós.
86. Considerei esta objeção mais por extenso porque é a que mais pesa sobre as mentes sinceras. E a todas estas, se pesaram com justiça e imparcialidade a resposta tanto quanto a objeção, creio que fica claro que não estamos minando nem destruindo, nem dividindo nem abandonando a igreja. Muito longe disso, temos grande tristeza por causa dela, sim, contínua dor em nosso coração. E a nossa oração a Deus é que ele repare as brechas de Sião e edifique as muralhas de Jerusalém, para que esta nossa igreja desolada floresça de novo e seja objeto de louvor em toda a terra.
87. Mas talvez vocês tenham ouvido que “na verdade não fazemos caso de igreja nenhuma; que o lucro é a verdadeira mola de todas as nossas ações; que eu, em particular, sou bem pago pelo meu trabalho, tendo mil e trezentas libras por ano (como um reverendo autor calcula com exatidão) só na Foundery, além do que recebo de Bristol, Kingswood, Newcastle e outros lugares; e que quem me sobreviver verá que fiz bom uso do meu tempo, pois não hei de morrer mendigo.” [N. do T.: a Foundery era uma antiga fundição de canhões em Moorfields, Londres, que Wesley adaptou para sede da sociedade metodista e lugar de pregação.]
88. Reconheço de bom grado que esta é uma das objeções mais bem engendradas que já se fizeram, porque não só nos obriga a provar uma negativa (o que raramente é tarefa fácil), mas uma negativa de tal natureza que quase não admite prova demonstrativa alguma. Mas, quanto à prova que a natureza da coisa permite, apelo para o meu modo de vida desde o princípio. Vocês que o viram (e não com olhos amigos) nestes últimos doze ou catorze anos, ou em qualquer parte desse tempo, viram nele alguma vez algo parecido com o amor ao lucro? Não me lembrava eu continuamente das palavras do Senhor Jesus: “Mais bem-aventurado é dar do que receber” (At 20.35)? Vocês de Oxford, não sabem que estas coisas são assim? Que lucro busquei entre vocês? De quem tomei alguma coisa? De quem cobicei prata, ouro ou vestes? A quem neguei alguma coisa que eu tinha, até a hora em que me despedi de vocês? Vocês de Epworth e Wroote, entre os quais ministrei por quase três anos, que lucro busquei entre vocês? Ou de quem tomei ou cobicei alguma coisa? Vocês de Savannah e Frederica, entre os quais Deus depois me provou e me mostrou o que havia em meu coração, que lucro busquei entre vocês? De quem tomei alguma coisa? Ou de quem cobicei o alimento ou as vestes (pois prata ou ouro vocês não tinham, nem eu mesmo por muitos meses), mesmo quando eu passava fome e nudez? Vocês mesmos, e o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, sabem que não minto (2Co 11.31).
89. “Mas (diz-se) as coisas agora mudaram bastante. Agora não posso me queixar de que me falte coisa alguma, tendo em Londres a renda anual de um bispo, além do que ganho em outros lugares.” Em que outros lugares, meu amigo? Informe-se um pouco melhor e você verá que, tanto em Newcastle como em Bristol e Kingswood, e em todos os outros lugares onde se faz alguma coleta, o dinheiro coletado é recebido e gasto pelos tesoureiros dessas diversas sociedades e nunca chega às minhas mãos, nem no começo nem no fim. E você, ou qualquer pessoa que o deseje, poderá ler as contas mantidas por qualquer desses tesoureiros e ver com os próprios olhos que, com todas essas sociedades, eu ganho exatamente o mesmo que você.
90. Em Londres o caso é este. Em novembro de 1739, dois cavalheiros que eu então não conhecia (o sr. Ball e o sr. Watkins) vieram pedir-me, uma vez e outra, que pregasse num lugar chamado Foundery, perto de Moorfields. Com muita relutância, acabei atendendo. Pouco depois insistiram comigo para que eu tomasse aquele lugar a meu cargo. Os mais empenhados nisso emprestaram-me o dinheiro da compra, que foi de 115 libras. O sr. Watkins e o sr. Ball entregaram-me então os nomes de vários subscritores, que se ofereciam para pagar, uns quatro ou seis, outros dez xelins por ano, para o reembolso do dinheiro da compra e para a reforma dos edifícios. Isso somou, no primeiro ano, quase 200 libras; no segundo, cerca de 140, e assim por diante até o último.
91. A sociedade unida começou um pouco depois, e a sua contribuição semanal (para os pobres) é recebida e gasta pelos tesoureiros e não chega às minhas mãos de modo algum. Mas há também uma subscrição trimestral de muitos membros da sociedade, quase igual à mencionada acima.
92. Os fins a que se aplicaram até agora estas subscrições são: primeiro, o pagamento daquelas 115 libras; segundo, a reforma (quase poderia dizer a reconstrução) daquele imenso e disforme monte de ruínas da Foundery; terceiro, a construção de galerias, tanto para os homens como para as mulheres; quarto, a ampliação da sala da sociedade para quase o triplo do seu tamanho original. Todos os impostos e as despesas eventuais também são pagos com esse fundo. E até agora ele está tão longe de render algum excedente que nunca bastou para esses fins. Tão longe disso, que ainda devo, por essas contas, quase 300 libras. Isso é o que ganhei até agora pregando o evangelho! Além disso, resta ainda uma dívida de 150 libras pela escola construída em Bristol, e outra de mais de 200 pela que agora se constrói em Newcastle. Gostaria que qualquer homem razoável se sentasse agora, juntasse estas coisas e visse se, concedendo-me um grão de bom senso (se não de honestidade comum), pode conceber que a perspectiva de lucro me levaria a agir dessa maneira.
93. Vocês jamais poderão conciliar com qualquer grau de bom senso que um homem a quem nada falta, que já tem tudo o que é necessário, todas as comodidades, e até muitas das coisas supérfluas da vida, e isso não só sem depender de ninguém, mas menos sujeito a imprevistos do que até a propriedade livre de um cavalheiro, que um homem assim, com calma e deliberação, abra mão do seu sossego, da maior parte dos seus amigos, da sua reputação e do modo de vida que, entre todos, é o mais agradável à sua natureza, ao seu temperamento e à sua educação; que labute dia e noite, gaste todo o seu tempo e as suas forças, destrua conscientemente uma constituição robusta e se precipite na fraqueza, na dor, nas doenças, na morte, para ganhar uma dívida de seiscentas ou setecentas libras.
94. Mas suponha que a balança pendesse para o outro lado, e deixe-me fazer-lhe uma pergunta simples. Por que lucro (deixando de lado a consciência) você aceitaria agir assim? Viver exatamente como eu vivo? Por que preço você pregaria (e isso com todas as suas forças, não de um modo cômodo, indolente, elegante) dezoito ou dezenove vezes por semana, e isso o ano inteiro? Quanto eu teria de lhe dar para viajar setecentas ou oitocentas milhas, com qualquer tempo, a cada dois ou três meses? Por que salário você se absteria de todas as outras diversões que não sejam fazer o bem e louvar a Deus? Engano-me se você não preferiria ser estrangulado a levar uma vida assim, mesmo com milhares em ouro e prata.
95. E qual é o consolo que você encontrou para mim nestas circunstâncias? Ora, que “não hei de morrer mendigo”. Então agora se supõe que estou ajuntando riquezas “para deixá-las atrás de mim”. Deixá-las atrás de mim! Para quem? Para minha mulher e meus filhos? Quem são eles? Ainda não nasceram. A não ser que você se refira aos filhos da fé que Deus me deu. Mas o meu Pai celestial os alimenta. De fato, se eu ajunto riquezas, há de ser para deixá-las atrás de mim (visto que a minha fellowship é um sustento vitalício). Mas não consigo entender isso. Que consolo seria para a minha alma, já lançada na eternidade, ter deixado atrás de mim ouro como o pó e prata como a areia do mar? Ele me seguirá através do grande abismo? Ou poderei eu voltar até ele? Você, que levanta os olhos no inferno, de que lhe servem agora as suas riquezas? Tudo o que um dia você teve debaixo do sol lhe conseguirá uma gota de água para refrescar a língua? Ó o consolo das riquezas deixadas para trás a quem é atormentado naquela chama! Você me faz lembrar aqueles célebres versos (que um dia admirei muitíssimo), dirigidos à guisa de consolo à alma de um pobre suicida: [N. do T.: fellowship era a posição vitalícia de membro (fellow) do Lincoln College, em Oxford, que Wesley ainda conservava, com a renda correspondente. Os versos citados a seguir são de Alexander Pope, “Elegy to the Memory of an Unfortunate Lady”.]
“Mas o teu túmulo se vestirá de flores que brotam,
e a relva verde pousará leve sobre o teu peito!
Aqui o ano mostrará as suas primeiras belezas;
aqui desabrocharão as primeiras rosas da primavera;
enquanto anjos com as suas asas de prata cobrem de sombra
o lugar agora sagrado pelas tuas relíquias.”
96. Vou agora dizer-lhes simplesmente o que penso destas coisas, quer ouçam quer deixem de ouvir. Alimento e vestes eu tenho: o alimento que escolho comer e as vestes que escolho usar. Tenho onde reclinar a cabeça. Tenho o que é necessário para a vida e a piedade. E entendo que isso é tudo o que o mundo pode oferecer. Os reis da terra não me podem dar mais. Pois quanto ao ouro e à prata, considero-os como lixo e escória; piso-os debaixo dos pés. Eu (contudo não eu, mas pela graça de Deus que está em mim) estimo-os exatamente como a lama das ruas. Não os desejo, não os busco; só temo que algum deles se me apegue e eu não consiga sacudi-lo antes que o meu espírito volte a Deus. Eles têm de passar, de fato, pelas minhas mãos; mas cuidarei (sendo Deus o meu auxílio) de que as riquezas da injustiça apenas passem por elas; ali não hão de repousar. Nenhuma das coisas condenadas será achada em minhas tendas quando o Senhor me chamar daqui. E ouçam isto, todos vocês que descobriram os tesouros que hei de deixar atrás de mim. Se eu deixar atrás de mim dez libras (além das minhas dívidas e dos meus livros, ou do que porventura se deva por conta deles), vocês e toda a humanidade deem testemunho contra mim, “de que vivi e morri como ladrão e salteador”.
97. Antes de concluir, não posso deixar de rogar a vocês que conhecem a Deus que revejam toda a questão desde o fundamento. Tragam à memória qual era o estado da religião em nossa nação há poucos anos. Em quem vocês encontravam as santas disposições que houve em Cristo? Profunda compaixão, humildade, mansidão, bondade, desprezo do mundo, paciência, domínio próprio, longanimidade? Um amor ardente a Deus, estando sempre alegres e em tudo dando graças, e um terno amor a toda a humanidade, que tudo cobre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta? Talvez vocês não conhecessem um único homem assim no mundo. Mas quantos que tinham todas as disposições profanas? Que vaidade e orgulho, que teimosia e obstinação, que ira, irritação, descontentamento, que desconfiança e ressentimento, que afeições desordenadas, que paixões desregradas, que desejos insensatos e nocivos vocês poderiam encontrar nos que eram chamados os melhores homens? Nos que faziam a mais estrita profissão de religião? E quão poucos vocês conheciam que chegassem à profissão de religião, que tivessem sequer a forma de piedade? Não lamentavam com frequência, onde quer que a sorte os pusesse, a falta geral até da religião exterior? Quão poucos se viam no culto público de Deus? Quão menos ainda à mesa do Senhor? E mesmo esse pequeno rebanho era zeloso de boas obras, cuidando de fazer o bem a todos enquanto tinha oportunidade? Por outro lado, não observavam com tristeza a irreligião exterior em toda parte? Onde vocês poderiam estar por uma semana sem ser testemunhas, de olhos ou de ouvidos, de maldições, juramentos ou profanações, de violação do domingo ou de embriaguez, de brigas ou desordens, de vingança ou obscenidade? Faziam-se estas coisas em algum lugar escondido? Não se espalhava a iniquidade grosseira de todo tipo sobre a nossa terra como um dilúvio? Sim, e crescia a cada dia, apesar de toda a oposição que os filhos de Deus lhe faziam ou podiam fazer.
98. Se lhes dissessem então que o Deus zeloso logo se levantaria para defender a sua própria causa; que derramaria o seu Espírito lá do alto e renovaria a face da terra; que derramaria o seu amor no coração dos rejeitados dentre os homens, produzindo todas as disposições santas e celestiais, expulsando a ira, o orgulho, os maus desejos e todas as disposições profanas e terrenas; fazendo florescer e abundar a religião exterior, a operosidade da fé, a firmeza da esperança, a dedicação do amor; e, por onde se espalhasse, abolindo a irreligião exterior e destruindo todas as obras do diabo; se lhes dissessem que este conhecimento vivo do Senhor em pouco tempo se espalharia sobre a nossa terra, sim, e cresceria a cada dia, apesar de toda a oposição que o diabo e os seus filhos lhe fizessem ou pudessem fazer: não teriam vocês desejado ardentemente ver esse dia, para nele bendizer a Deus e se alegrar?
99. Eis que o dia do Senhor chegou. Ele está de novo visitando e redimindo o seu povo. Tendo olhos, não veem? Tendo ouvidos, não ouvem? Nem entendem com o coração? Nesta hora o Senhor está removendo a nossa vergonha. O seu estandarte já está erguido. O seu Espírito é derramado sobre os rejeitados dentre os homens, e o seu amor, derramado no coração deles. O amor a toda a humanidade, a mansidão, a bondade, a humildade de espírito, as afeições santas e celestiais tomam o lugar do ódio, da ira, do orgulho, da vingança e das afeições vãs. Daí que, por onde se espalha o poder do Senhor, brota a religião exterior em todas as suas formas. As casas de Deus se enchem; a mesa do Senhor é cercada de gente por todos os lados. E os que assim mostram o seu amor a Deus mostram que amam também o próximo, empenhando-se na prática de boas obras, fazendo todo tipo de bem a todos, enquanto têm oportunidade. Cuidam igualmente de se abster de todo mal. Maldições, violação do domingo, embriaguez, com todas as outras obras do diabo (por mais que estejam na moda), nem sequer são mencionadas entre eles. Tudo isso é fato claro e demonstrável. Pois também isto não se passou em algum lugar escondido. Ora, vocês reconhecem o tempo da sua visitação? Bendizem a Deus e se alegram nele?
100. O que os impede? É isto, que os homens digam todo tipo de mal daqueles que Deus se agrada de usar como instrumentos na sua obra? Ó insensatos, pensavam vocês que o diabo estava morto? Ou que ele não lutaria pelo seu reino? E com que armas há de lutar, senão com mentiras? Não é ele mentiroso e pai da mentira (Jo 8.44)? Suportem, pois, até aqui. Que o diabo e os seus filhos digam todo tipo de mal de nós. E que continuem enganando uns aos outros e sendo enganados. Mas vocês não precisam ser enganados também. Ou, se forem, se quiserem crer em tudo o que eles dizem, seja assim: que somos homens fracos, tolos, perversos, sem juízo, sem instrução, sem sequer desejo ou intenção de fazer o bem. Ainda assim insisto no fato: Cristo é pregado e pecadores se convertem a Deus. Isso ninguém senão um louco pode negar. Estamos prontos a prová-lo com uma nuvem de testemunhas. Tampouco, portanto, se pode negar a conclusão de que Deus está agora visitando o seu povo. Ah, se todos os homens soubessem, neste seu dia, o que é preciso para conseguir a paz!
101. Em suma, aos homens do mundo eu ainda recomendaria o conhecido conselho de Gamaliel: Não façam nada contra esses homens. Deixem que vão embora, porque, se esta obra vem de homens, será destruída; mas, se vem de Deus, vocês não poderão destruí-la e correm o risco de estar lutando contra Deus (At 5.38-39). Mas a vocês, que Deus escolheu do mundo, digo: vocês são nossos irmãos e da casa de nosso pai, e convém que, de qualquer modo que puderem, fortaleçam a nossa confiança em Deus (1Sm 23.16). E isto todos vocês podem fazer: desejar-nos bom êxito em nome do Senhor e orar sem cessar para que nenhuma destas coisas nos abale, e para que em nada consideremos a vida preciosa para nós mesmos, desde que completemos com alegria a nossa carreira e o ministério que recebemos do Senhor Jesus (At 20.24)!
Escrito no ano de 1744.
1 Felizes as almas que primeiro creram,
a Jesus e umas às outras se apegaram,
unidas pela unção lá do alto,
em mística comunhão de amor.
2 Mansos e simples seguidores do Cordeiro,
viviam, falavam e pensavam o mesmo,
partiam o pão memorial,
e bebiam o Espírito da sua Cabeça.
3 Sobre Deus lançavam todo o seu cuidado,
lutando com Deus em oração poderosa,
reivindicavam a graça dada por Jesus;
pela oração, fechavam e abriam o céu.
4 A Jesus cumpriam os seus votos,
uma pequena igreja em cada casa;
com alegria se concertavam para elevar
o seu incessante sacrifício de louvor.
5 A propriedade ali era desconhecida,
ninguém chamava seu o que possuía;
onde todos partilham as bênçãos comuns,
não havia felicidade egoísta.
6 Dotada de graça em abundância,
uma multidão pura e crente;
eram todos de um só coração e uma só alma,
e só o amor inspirava o conjunto.
7 Ó que era de dias dourados!
Ó que raça escolhida e peculiar!
Lavada no sangue do Cordeiro que tudo purifica,
reis ungidos e sacerdotes para Deus.
8 Por onde vagarei agora para achar
os sucessores que eles deixaram?
Os fiéis, que em vão procuro,
rarearam dentre os filhos dos homens.
9 Ó vós, seitas diversas, que todas declarais:
eis aqui o Cristo, ou o Cristo está ali!
Dai divinamente as vossas provas mais fortes,
e mostrai-me onde vivem os cristãos.
10 A vossa pretensão, ai, não podeis provar,
falta-vos a marca genuína do amor:
só tu, Senhor, podes mostrar os que são teus,
pois com certeza tens uma igreja aqui embaixo.
11 As portas do inferno não podem prevalecer,
a igreja na terra nunca pode falhar:
ah, une-me aos que em segredo são teus,
ah, ajunta todas as tuas pedras vivas.
12 Espalhadas por toda a terra elas jazem,
até que tu as reúnas com o teu olhar,
atraias pela música do teu nome,
e as encantes numa formosa estrutura.
13 Por isto o Espírito que suplica geme,
e clama em todos os teus banidos:
maior dos dons, concede o teu amor,
e faze-nos de uma só mente e um só coração.
14 Une toda alma que para ti olha,
nos laços da perfeita caridade:
agora, Senhor, dá a gloriosa plenitude,
e vive para sempre como tudo em todos.
1 Jesus, de quem flui toda bênção,
grande edificador da tua igreja aqui embaixo,
se agora o teu Espírito move o meu peito,
ouve e cumpre o teu próprio pedido.
2 Os poucos que deveras te chamam Senhor,
e esperam a tua palavra santificadora,
e te reconhecem por seu Salvador supremo,
une-os e aperfeiçoa-os em um.
3 Ajunta-os de todos os lados,
e esconde-os no teu tabernáculo;
dá-lhes achar um lugar de repouso,
um abrigo contra a tempestade e o vento.
4 Ó, encontra-lhes algum refúgio tranquilo,
algum deserto não frequentado!
Tu, Senhor, prepara o lugar secreto,
e esconde e alimenta ali a mulher.
5 Para ali reúne o teu pequeno rebanho,
à sombra da sua rocha:
a semente santa, a raça real,
os monumentos permanentes da tua graça.
6 Ó, que todos exprimam a tua mente,
apresentem-se como tuas testemunhas escolhidas!
Mostra o teu poder para a salvação,
e aperfeiçoa a santidade aqui embaixo.
7 Recebam a plenitude da tua graça,
e vivam simplesmente para a tua glória;
reflitam fortemente a luz divina,
e resplandeçam numa terra de trevas.
8 Neles contemple toda a humanidade
como viviam os cristãos nos dias antigos;
(poderosos para comover os seus invejosos inimigos,
um provérbio de opróbrio, e de amor.)
9 Ó, faze-os de uma só alma e um só coração,
concede a mente que a tudo conforma;
Espírito de paz e de unidade,
a mente sem pecado que houve em ti.
10 Chama-os para a tua luz maravilhosa,
dignos de andar contigo de branco;
prepara as tuas joias, Senhor, e mostra
a gloriosa igreja sem mácula aqui embaixo.
11 Livre de toda ruga pecaminosa,
redimida de toda iniquidade:
dá a conhecer a comunhão dos santos;
e, ó meu Deus, quem me dera ser um deles!
12 Ó, recaísse a minha sorte com estes,
o menor das testemunhas de Jesus!
Ó, se o meu Senhor me julgasse digno
de lavar os pés dos seus amados discípulos!
13 Uma só coisa peço,
tu sabes que é todo o desejo do meu coração:
dar de graça o que de graça recebo,
viver como servo da tua igreja;
14 ir após o meu humilde Senhor,
e servir aos santos aqui embaixo,
gozar da graça dada aos anjos,
e servir os régios herdeiros do céu.
15 Senhor, se agora sinto o teu atrair,
e peço segundo a tua vontade,
confirma a oração, concede o zelo,
e fala a resposta ao meu coração.
16 Dize-me (ou nunca hás de partir):
“A tua oração foi ouvida, assim será.”
A palavra saiu dos teus lábios, e eu
com o teu povo hei de viver e morrer.
1. Meus amigos, perdi um dia! [N. do T.: frase atribuída ao imperador romano Tito por Suetônio.]
2. Em Epworth, no Lincolnshire.
3. O autor de um opúsculo recém-publicado em Newcastle (intitulado As Noções dos Metodistas Inteiramente Refutadas, numa carta ao Rev. Sr. John Wesley) insiste muito nesta objeção. Eu o li e creio ser inteiramente desnecessário dar mais atenção a esse trabalho, pois o autor desconhece por completo os méritos da causa e se mostra tão perfeitamente estranho à minha vida, à minha pregação e aos meus escritos, à palavra de Deus e aos artigos e homilias da Igreja da Inglaterra.
Tradução para o português a partir de John Wesley, An Earnest Appeal to Men of Reason and Religion (1743) e A Farther Appeal to Men of Reason and Religion, partes I a III (1745), no texto revisto por Wesley para as suas Obras (Bristol, William Pine, 1772, vols. 14 e 15; transcrição do Projeto Gutenberg); domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.