John Wesley · Apelos aos Homens de Razão e Religião · Apelo Adicional, Parte II (conclusão)

Aos que não são da Igreja da Inglaterra (seção III)

O apelo aos que não são da Igreja da Inglaterra: dissidentes, quakers, católicos, judeus e os que não aceitam a revelação.

Começo pelos que estão à menor distância de nós, sejam chamados presbiterianos ou independentes. A respeito deles, em geral, não posso deixar de ter opinião muito diferente da que tinha alguns anos atrás, por ter conversado desde então com muitos deles em quem a raiz da questão se acha inegavelmente (Jó 19.28) [N. do T.: a NAA traz “a causa deste mal se acha nele mesmo”.], e que se esforçam por ter sempre uma consciência pura diante de Deus e dos homens (At 24.16). Não posso, portanto, duvidar de que todo homem sério de uma ou de outra denominação condena inteiramente toda aquela falta de santidade, tanto interior como exterior, que foi descrita acima.

Mas vocês, como povo, evitam o que condenam? Não se acham entre vocês devassos ou adúlteros? Nenhum filho desobediente aos pais? Nenhum servo preguiçoso ou descuidado? Que seja respondão (Tt 2.9)? Que não honre o seu senhor, como convém no Senhor? Não há entre vocês quem censure ou fale mal da autoridade do seu povo (At 23.5)? Não há bêbados, glutões, homens dados ao luxo, epicuristas metódicos, ninguém cujo deus é o ventre (Fp 3.19) e que, conforme a sua fortuna permite, se alegra todos os dias com grande ostentação (Lc 16.19)? Não têm vocês negociantes desonestos, comerciantes desleais, usurários ou extorsionários? Não têm mentirosos, seja por lucro, seja pelas chamadas boas maneiras? Estão livres da cerimônia e do cumprimento? Ai, vocês sabem bem que, na maioria destes aspectos, se não em todos, têm hoje pouca vantagem sobre nós.

Quanto mais conscientes disso vocês devem estar, se não ficam na superfície, mas investigam o fundo da religião, a religião do coração! Pois que falta de santidade interior, que más disposições existem entre nós que não tenham lugar também entre vocês? Vocês também lamentam aquela ignorância de Deus, aquela falta de fé e de amor a Deus e aos homens, aquela idolatria interior de várias espécies, aquele orgulho, ambição e vaidade que dominam o coração até mesmo dos que ainda têm a forma de piedade (2Tm 3.5). Vocês lamentam diante de Deus a profunda avareza que corrói tantas almas como câncer (2Tm 2.17); e talvez às vezes estejam prontos a clamar: Salva-nos, Senhor! Porque já quase não há quem seja piedoso. Põe a tua mão: desaparecem os fiéis entre os filhos dos homens (Sl 12.1)!

2. E, no entanto, vocês conservam o ensino segundo a piedade (1Tm 6.3), pelo menos quanto à sua substância. Reconhecem o que está estabelecido na Escritura, tanto acerca da natureza como da condição da justificação e da salvação. E, quanto ao Autor da fé (Hb 12.2) e da salvação, sempre declararam, até mesmo diante dos seus inimigos, que Deus é quem efetua em nós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade (Fp 2.13); que só o seu Espírito nos ensina todas as coisas (Jo 14.26), tudo o que sabemos das profundezas de Deus (1Co 2.10); que todo verdadeiro crente tem a unção que vem do Santo (1Jo 2.20) para guiá-lo em toda a verdade necessária (Jo 16.13); que, porque somos filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho ao nosso coração, e esse Espírito clama: Aba, Pai! (Gl 4.6); e que o próprio Espírito confirma ao nosso espírito que somos filhos de Deus (Rm 8.16).

Como é então, meus irmãos (assim posso chamá-los agora, embora antes não pudesse fazê-lo), como é que a maioria de vocês também caiu da sua firmeza? Nos tempos de perseguição, vocês ficaram firmes como rocha, embora todas as ondas e vagas passassem sobre vocês (Sl 42.7). Mas quem suporta a comodidade e a fartura de pão! Como vocês mudaram desde que estas lhes sobrevieram! Não colocam muitos de vocês agora (na prática, quero dizer) alguma outra coisa no lugar da fé que atua pelo amor (Gl 5.6)? Não supõem alguns de vocês que a seriedade e a compostura no comportamento são as partes principais do cristianismo, sobretudo contanto que não jurem nem tomem o nome de Deus em vão? Não imaginam outros que abster-se de canções frívolas e daquelas diversões da moda, comumente usadas por pessoas da sua condição, é quase toda a religião? E, se a isso acrescentam a oração em família e uma estrita guarda do dia do Senhor, então sem dúvida tudo vai bem! Não, meus irmãos: isso é bom, até onde vai; mas quão pouco avança rumo ao cristianismo! Todas essas coisas, vocês não podem deixar de ver, são meramente exteriores; ao passo que o cristianismo é coisa interior, sem a qual a mais bela forma exterior é mais leve que a vaidade.

Não descansam outros de vocês na convicção? Ou nos bons desejos? Ai, de que valem essas coisas? Um homem pode estar convencido de que está doente, e até profundamente convencido, e nunca se recuperar. Pode desejar comida, e com ardente desejo, e mesmo assim morrer de fome. Assim também eu posso estar convencido de que sou pecador; mas isso não me justificará diante de Deus. E posso desejar a salvação (talvez de modo intermitente, durante muitos anos) e, ainda assim, estar perdido para sempre. Venham, então, direto ao ponto, e mantenham-se fiéis aos seus princípios. Receberam vocês o Espírito Santo, o Espírito que vem de Deus e que ele concede a todos os crentes, para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente (1Co 2.12)? O tempo é curto. Vocês experimentam agora aquela unção que vem do Santo (1Jo 2.20)? Sem ela, como vocês mesmos confessam, a religião exterior, seja negativa, seja positiva, não é nada. Mais ainda: a convicção interior das nossas carências não é nada, a menos que essas carências sejam de fato supridas. Também os bons desejos não são nada, a menos que alcancemos realmente aquilo que somos movidos a desejar. Pois continua de pé: se alguém não tem o Espírito de Cristo, seja o que for que deseje, esse tal não é dele (Rm 8.9). Ó meu irmão, cuidado para não parar no meio do caminho! Cuidado para nunca se considerar cristão, não, nem no grau mais baixo, até que Deus tenha enviado o Espírito de Cristo ao seu coração (Gl 4.6), e esse Espírito confirme ao seu espírito que você é filho de Deus (Rm 8.16).

3. Um passo mais distantes de nós estão vocês, que são chamados (embora não por escolha própria) anabatistas [N. do T.: isto é, os batistas.]. O pequeno número de vocês, comparado com o dos presbiterianos ou com o dos membros da Igreja, torna mais fácil que vocês tenham conhecimento exato do comportamento de todos os seus membros, e que afastem do seu meio todo aquele que não vive segundo a doutrina que vocês receberam (2Ts 3.6).

Mas isso é feito? Todos os seus membros adornam o evangelho? São todos santos, assim como é santo aquele que nos chamou (1Pe 1.15)? Receio que não. Conheci alguns casos em contrário, e sem dúvida vocês conhecem muitos mais. Há homens sem santidade, exteriormente sem santidade, também nas congregações de vocês: homens que profanam o nome ou o dia do Senhor; que não honram os seus pais, naturais ou civis; que não sabem controlar o próprio corpo em santificação e honra (1Ts 4.4); que são intemperantes no comer ou no beber, glutões, sensuais, dados ao luxo; que ofendem de várias maneiras a justiça, a misericórdia ou a verdade no trato com o próximo, e não andam segundo a lei do Reino: Ame o seu próximo como a si mesmo (Tg 2.8).

Mas como isso se harmoniza com o princípio central de vocês: “Que ninguém deve ser admitido ao batismo antes de ter aquele arrependimento pelo qual abandonamos o pecado, e fé viva em Deus, por meio de Cristo”?

Pois, se ninguém deve ser admitido numa igreja ou congregação sem ter fé e arrependimento efetivos, então também ninguém que não os tenha deve permanecer em congregação alguma. E, consequentemente, um pecador declarado não pode permanecer entre vocês, a menos que, na prática, vocês renunciem ao seu princípio fundamental.

4. Submeto à séria consideração de vocês se uma das razões por que ainda se tolera que homens sem santidade permaneçam entre vocês não será esta: que muitos de vocês, sem perceber, colocaram a opinião no lugar da fé e do arrependimento. Mas que erro fatal é esse! Supondo que a opinião de vocês seja verdadeira, ainda assim uma opinião verdadeira sobre o arrependimento é inteiramente diferente da coisa em si. E vocês podem ter uma opinião verdadeira sobre a fé a vida inteira e, ainda assim, morrer incrédulos.

Supondo, portanto, que a opinião da redenção particular seja verdadeira, de quão pouco ela vale para a salvação! Mais ainda: ainda que supuséssemos que ninguém pode ser salvo sem sustentá-la, não se seguiria que serão salvos todos os que a sustentam. De modo que, se uma coisa provasse que um homem está em estado tão mau quanto se queira, a outra não provaria que ele está em bom estado. E, consequentemente, todo aquele que se apoia nessa opinião se apoia num bordão de caniço esmagado (Is 36.6).

Quem dera vocês dessem atenção a esta única coisa: confirmar a sua vocação e eleição (2Pe 1.10)! Que cada um de vocês (deixando o resto do mundo com aquele que o fez) se arrependa e creia no evangelho (Mc 1.15)! Não apenas se arrependa (pois então vocês conhecem só o batismo de João), mas creia e seja batizado com o Espírito Santo e com fogo (Mt 3.11). Você ainda é estranho àquele batismo interior com que são batizados todos os verdadeiros crentes? Que o Senhor o constranja a clamar: Como me angustio até que o mesmo se cumpra! (Lc 12.50) Sim, até que o amor de Deus inflame o seu coração e consuma todas as suas afeições vis. Não se contente com nada menos do que isso! Só esta fé cheia de amor nos abre o caminho para a igreja universal dos primogênitos arrolados nos céus (Hb 12.23)! Só ela nos dá entrar no santuário que fica atrás do véu, onde Jesus, como precursor, entrou por nós (Hb 6.19-20)!

5. Há uma diferença ainda mais ampla, em alguns pontos, entre nós e o povo que se costuma chamar de quakers. Mas não nestes pontos. Vocês, tanto quanto nós, condenam toda impiedade e injustiça dos seres humanos (Rm 1.18); todas aquelas obras do diabo que foram enumeradas acima, e todas aquelas disposições das quais elas brotam.

Vocês concordam que todos devemos ser ensinados por Deus (Jo 6.45) e guiados pelo seu Espírito (Rm 8.14); que só o Espírito revela toda a verdade e inspira toda a santidade; que pela sua inspiração os homens alcançam o amor perfeito, o amor que os purifica assim como ele é puro (1Jo 3.3); e que, por meio desse conhecimento e desse amor de Deus, eles têm poder para fazer sempre o que lhe agrada (Jo 8.29); para adorar a Deus, que é Espírito, segundo a sua própria vontade, isto é, em espírito e em verdade (Jo 4.24).

Daí vocês deduzem que o culto formal não é aceitável a Deus, mas somente aquele que brota de Deus no coração. Deduzem também que os que são guiados por ele usarão grande simplicidade no falar e grande simplicidade no vestir, não buscando beleza exterior, mas somente a beleza de um espírito manso e tranquilo (1Pe 3.3-4).

Não vou agora além de simplesmente perguntar: vocês são coerentes com esses princípios?

Para começar pelo último: “Quem é guiado pelo Espírito usará grande simplicidade no falar”. [N. do T.: Wesley alude a 2Co 3.12, que a versão inglesa da época trazia como “we use great plainness of speech” (“usamos de grande simplicidade no falar”); a NAA traz “agimos com muita ousadia”.]

Vocês teriam dito: “usará a linguagem simples”. Mas essa expressão leva vocês a um grande engano. A expressão “a linguagem simples” naturalmente faz vocês pensarem numa única e determinada maneira de falar, como se a simplicidade no falar não implicasse nada além do uso dessa forma particular.

Ah, meus irmãos! Vocês não sabem que os seus antepassados pretenderam isso apenas como uma amostra de linguagem simples? E é possível que vocês confundam a amostra com o fardo inteiro de tecido?

Consultem a luz que Deus lhes deu, e verão que a simplicidade no falar não está num único ponto, mas implica uma sinceridade aberta e sem disfarce, uma simplicidade de criança em tudo o que falamos.

Não lhes peço que deixem de dizer tu ou ti. [N. do T.: os quakers tratavam a todos por “thou” e “thee” (tu, ti), recusando o “you” de cortesia, que era sinal de deferência social.] Eu não gastaria dez palavras com isso. Mas lhes peço que, sempre que falarem, digam a verdade e nada além da verdade. Desejo que as suas palavras sejam sempre o retrato do seu coração. Isso é verdadeiramente linguagem simples.

Ou não pretendam ter fala simples de modo algum, ou sejam simples de maneira uniforme. Vocês são assim? Peço-lhes, considerem. Vocês nunca fazem cumprimentos de cortesia? Não suponho que digam: “Senhor, seu muito humilde servo”. Mas não dizem nenhuma gentileza? Nunca lisonjeiam? Não elogiam nenhum homem ou mulher na cara? Talvez mais do que o fazem pelas costas. Isso é simplicidade no falar? Nunca dissimulam? Dizem a todas as pessoas, de alta ou baixa condição, ricas ou pobres, exatamente o que pensam, nem mais nem menos, da maneira mais breve e mais clara que podem? Se não, que mera brincadeira é a sua linguagem simples! Vocês trazem a sua condenação no próprio peito.

6. Vocês sustentam também que “quem é guiado pelo Espírito usará grande simplicidade no vestir, não buscando beleza exterior, mas somente a beleza de um espírito manso e tranquilo“.

E que, em particular, “deixará ouro e roupas caras (1Tm 2.9) para os que não conhecem a Deus”.

Ora, apelo a todo homem sério e sensato entre vocês: o seu povo age de modo coerente com esse princípio? Não usam muitas das suas mulheres ouro até nos pés? E muitos dos seus homens não usam enfeites de ouro? Vocês desconhecem essas coisas? Não viram com os próprios olhos (ninharias que mal suportam ser mencionadas) as suas bengalas e tabaqueiras reluzindo, até mesmo na sua assembleia solene, enquanto vocês esperavam juntos em Deus? Certamente eles ainda não perderam tanto o pudor a ponto de alegar que não as usam como enfeite. Se não as usam, se é apenas por necessidade, um simples bastão de carvalho fará as vezes de uma, e um pedaço de chifre ou de estanho atenderá sem objeção a todos os fins razoáveis da outra.

Para falar com franqueza (e não me considerem inimigo de vocês por isso), vocês não podem deixar de observar, refletindo com calma, que conservam da sua prática antiga apenas o bastante para deixar a atual sem desculpa, o bastante para tornar gritante e inegável a incoerência entre uma e outra. Por exemplo: esta mulher é quaker estrita demais para gastar um xelim num colar. Muito bem; mas não é estrita demais para gastar oitenta guinéus num relógio de repetição. Outra não usaria por nada deste mundo nenhuma renda, não, nem sequer uma orla em volta da touca. Mas usa renda de ponto, e não vê nisso mal algum, ainda que custe doze vezes mais. Num tipo de avental ou de lenço ela não ousa gastar vinte xelins; mas noutro tipo gasta vinte libras. E que multidões de vocês são muito ciosas quanto à cor e ao feitio das suas roupas (a menos importante de todas as circunstâncias que se referem a elas), enquanto, na mais importante, o custo, não têm preocupação nenhuma! Não vestem um tecido escarlate ou carmesim, mas vestem o mais rico veludo, contanto que seja preto ou sóbrio. Não tocam numa fita colorida, mas se cobrem da cabeça aos pés com uma seda encorpada. Não suportam a púrpura, mas não têm escrúpulo nenhum em vestir-se de linho finíssimo; sim, a tal ponto que o linho dos quakers quase se tornou proverbial.

Certamente vocês não podem ignorar que a pecaminosidade das roupas finas está principalmente no seu alto custo. Nisso está o roubo a Deus e aos pobres; nisso se defrauda o órfão e a viúva; nisso se desperdiça o alimento do faminto e se retém a roupa do nu, para gastá-la com os nossos próprios desejos.

7. Não se diga que isso diz respeito apenas a alguns poucos entre vocês, e esses da parte mais jovem e mais leviana. Diz respeito, sim, ao corpo inteiro de vocês. Pois por que vocês, que são mais velhos e mais sérios, toleram essas coisas? Por que não as repreendem com veemência? E, se não se arrependerem, por que não os expulsam da sua sociedade, apesar de todas as considerações mundanas? Ao fazer vista grossa ao pecado deles, vocês o tornam seu; vocês, especialmente, que são pregadores. Vocês dizem: “Eles não suportam isso; não querem ouvir”? Ah, em que estado então vocês caíram! Mas, quer suportem quer não, que lhe importa isso? Você deve dizer-lhes a palavra, quer ouçam quer deixem de ouvir (Ez 2.7). Para dizer toda a verdade, receio que vocês antes fortaleçam as mãos deles na sua iniquidade (Ez 13.22). Pois vocês não só 1não testemunham contra isso na congregação, como até se sentam à mesa deles e não os repreendem. Ora, então você também é um dos cães mudos, que não podem latir, sonhadores preguiçosos, que gostam de dormir (Is 56.10).

É fácil discernir como o povo de vocês caiu nesta
armadilha do diabo. No começo vocês eram um povo pobre, desprezado,
aflito. Então, o que alguns de vocês tinham de sobra
mal bastava para socorrer os membros necessitados da sua própria
sociedade. Em poucos anos vocês aumentaram em bens, e foram
capazes de socorrer mais do que os seus próprios pobres. Mas não
deram tudo o que lhes sobrava, depois de atendê-los, aos pobres
de outras sociedades. Restava ou entesourá-lo
ou gastá-lo em supérfluos. Alguns escolheram um caminho,
e alguns o outro.

Guardem isto profundamente no coração, vocês que agora são um povo pobre, desprezado,
aflito. Até aqui vocês não são capazes de socorrer
os seus próprios pobres. Mas, se algum dia os seus bens aumentarem,
cuidem de não se tornar mesquinhos no próprio afeto, para que
não caiam na mesma armadilha do diabo. Antes que qualquer um
de vocês acumule tesouros sobre a terra (Mt 6.19) ou se entregue a gasto
desnecessário de qualquer espécie, rogo ao Senhor Deus que espalhe vocês
pelos cantos da terra e apague o seu nome de
debaixo do céu!

Imputo esta acusação a cada pregador, em particular, que viu uma jovem, filha de um dos quakers de Londres, ir ao casamento com trajes à altura da sua fivela de diamantes, que custou cem guinéus. Você pôde ver isso e não chamar o céu e a terra como testemunhas contra isso? Então eu testemunho contra você, em nome do Senhor: você é um cego guia de cegos (Mt 15.14); você coa um mosquito, mas engole um camelo (Mt 23.24)!

Na verdade, o pecado tanto dos mestres como dos ouvintes é nisto extremamente grande. E as pequenas tentativas de simplicidade no vestir que ainda se observam entre vocês (quero dizer, na cor e no feitio das suas roupas e no modo de vesti-las) só testemunham contra vocês que um dia foram aquilo que, no coração, sabem que agora não são.

8. Chego agora ao princípio central de vocês: “Todos devemos ser ensinados por Deus, inspirados e guiados pelo seu Espírito. E então o adoraremos, não com forma morta, mas em espírito e em verdade“.

Estas são palavras profundas e de grande peso. Mas muitos se apegam às palavras e ignoram completamente o seu sentido. Não é este um caso extremamente comum? Vocês não têm consciência de que muitíssimos dos seus amigos fizeram assim? Para eles, ser ensinado por Deus e guiado pelo seu Espírito são meras palavras de praxe, que não significam simplesmente nada. E os relatos crus e mal digeridos que eles fizeram de coisas que não entendiam despertaram contra essas grandes verdades o profundo preconceito que encontramos na maioria das pessoas.

Alguns de vocês perguntam: “Mas tu reconheces o princípio interior?” Reconheço, meus amigos; e quisera Deus que cada um de vocês o reconhecesse tanto quanto eu. Digo que toda religião ou é aparência vazia ou é perfeição por inspiração; em outras palavras, o amor obediente a Deus pelo conhecimento sobrenatural de Deus. Sim, tudo o que não provém de fé é pecado (Rm 14.23); tudo o que não brota desse conhecimento amoroso de Deus, conhecimento que não pode começar nem subsistir um só momento sem inspiração imediata. E isso não só em todo o culto público e em toda a oração privada, mas em todo pensamento, palavra e obra da vida comum. Que pensam vocês disto? Não vacilam? Ousam levar o princípio interior tão longe? Reconhecem que esta é a pura verdade? Mas, ah, que vale reconhecê-lo? Você experimenta esse princípio em si mesmo? Que diz o seu coração? Deus habita nele? E ele agora ecoa a voz de Deus? Você tem a inspiração contínua do seu Espírito, enchendo o seu coração com o seu amor como com uma fonte a jorrar para a vida eterna (Jo 4.14)?

9. Você conhece a direção do seu Espírito, não só por noção, mas por experiência viva? Receio que muitíssimos de vocês falem disso sem saber sequer o que significa. Como o Espírito de Deus guia os seus filhos a esta ou àquela ação particular? Vocês imaginam que seja só por impulso cego? Movendo-os a fazê-la sem saberem por quê? Não é assim. Ele nos guia pelo olho pelo menos tanto quanto pela mão, e pela luz tanto quanto pelo calor. Ele nos mostra o caminho por onde devemos ir, assim como nos incita a andar nele. Por exemplo: eis aqui um homem prestes a morrer de fome. Como sou guiado pelo Espírito a socorrê-lo? Primeiro, por ele me convencer de que é vontade de Deus que eu o faça; e, segundo, por ele encher o meu coração de amor por esse homem. Tanto essa luz como esse calor são dom de Deus, operados em mim pelo mesmo Espírito, que me guia, por essa convicção tanto quanto pelo amor, a ir alimentar aquele homem. Este é o relato simples e racional da direção ordinária do Espírito. Mas quão distante daquele que alguns têm dado!

Você é assim guiado pelo Espírito a toda boa palavra e obra, até que Deus, por esse meio, tenha tornado perfeita a sua fé? Você sabe o que é fé? É uma visão amorosa e obediente de um Deus presente e reconciliado. Ora, onde ela está, não há forma morta, nem pode haver, enquanto ela permanecer. Mas tudo o que se diz ou se faz está cheio de Deus, cheio de Espírito, de vida e de poder.

10. Mas talvez, por mais que falem dessas coisas, vocês não saibam a diferença entre forma e Espírito, ou entre adorar a Deus de maneira formal e adorá-lo em espírito e em verdade.

O Senhor é o Espírito (2Co 3.17). Vê-lo, senti-lo e amá-lo é vida espiritual. E tudo o que se diz ou se faz na presença ou no amor de Deus está cheio de espírito e vida. Tudo o mais é forma, mera forma morta, seja nas nossas orações públicas a Deus, seja nas privadas, seja nos nossos negócios do mundo, seja na nossa conversa diária.

Mas, se é assim, quão pobres, mesquinhas e estreitas têm sido as suas perspectivas e concepções! Vocês tinham medo do formalismo no culto público. E com boa razão. Mas não tinham medo dele em nenhum outro lugar? Não consideraram que o formalismo na vida comum também é abominação para o Senhor? E que ele não pode ter lugar em nada do que dizemos ou fazemos, a não ser na medida em que nos esquecemos de Deus? Ah, vigiem contra ele em todo lugar e em todo momento, para que a todo momento vejam e amem a Deus, e, por conseguinte, em todo tempo e em todo lugar o adorem em Espírito e em verdade.

Meus irmãos, permitam-me acrescentar algumas palavras, com terno amor pelas suas almas. Vocês não se apoiam demais no espírito e no poder que acreditam ter repousado sobre os seus antepassados? Suponham que tenha repousado! De que isso valerá a vocês, se não beberem do mesmo espírito? E como isto é evidente! Seja o que for que vocês tenham sido um dia, agora estão despojados da sua força. Estão fracos e se tornaram como qualquer outro homem (Jz 16.17). O Senhor quase se retirou de vocês. Onde está agora o espírito, a vida, o poder? Não se ofendam com a minha franqueza quando suplico a vocês, que são capazes de pesar as coisas com calma, que abram os olhos e vejam multidões, até mesmo na igreja, buscando, e de fato alcançando, a substância da vida espiritual, e deixando para vocês a sombra. Mais ainda: um mal maior está diante de vocês, pois, se não encontrarem algum meio eficaz de impedi-lo, a geração que está surgindo entre vocês rejeitará por completo tanto a sombra como a substância.

11. Há uma diferença muitíssimo maior ainda, segundo o próprio relato de vocês, entre nós, que professamos ser membros da Igreja da Inglaterra, e vocês, que são membros da Igreja de Roma. Mas, apesar disso, vocês não concordam conosco em condenar os vícios acima enumerados? A profanação, a embriaguez, a prostituição, o adultério, o roubo, a desobediência aos pais e outros semelhantes? E quão infelizmente concordam conosco em praticar os mesmos vícios que condenam!

E, no entanto, vocês reconhecem (e até o defendem muitas vezes com um empenho especial) que todo cristão é chamado a ser dedicado à prática de boas obras (Tt 2.14), assim como a negar a si mesmo e tomar a sua cruz dia a dia (Lc 9.23). Como então se afastam dos seus próprios princípios quando são glutões, beberrões ou epicuristas! Quando vivem à vontade, em toda a elegância e voluptuosidade de uma fortuna farta! Como conciliarão estar adornados de ouro, vestidos de púrpura e de linho finíssimo, e alegrar-se todos os dias com grande ostentação (Lc 16.19), com negar a si mesmos e tomar a sua cruz dia a dia? Certamente, enquanto vocês satisfazem os desejos da carne, os desejos dos olhos e a soberba da vida (1Jo 2.16), as excelentes regras de abnegação que abundam nos seus próprios escritores os deixam, mais do que a todos os homens, sem desculpa.

12. Tampouco se pode conciliar essa complacência consigo mesmo com o ser dedicado à prática de boas obras. Pois, com esse gasto desnecessário e contínuo, vocês se incapacitam de fazer o bem. Atam as próprias mãos. Tornam impossível para si mesmos fazer o bem que, de outro modo, poderiam fazer. De modo que prejudicam os pobres na mesma proporção em que envenenam a própria alma. Vocês poderiam ter vestido o nu; mas o que lhe era devido foi esbanjado nas suas roupas caras. Poderiam ter alimentado o faminto, hospedado o estrangeiro, socorrido os doentes ou os presos. Mas os supérfluos da sua própria mesa tragaram aquilo de que eles deveriam ter-se beneficiado. E assim esse desperdício dos bens do seu Senhor é um caso de maldade múltipla, pois por meio dele perece o seu irmão pobre, pelo qual Cristo morreu (1Co 8.11).

Não lhes recomendarei nem os escritos nem os exemplos daqueles que vocês consideram hereges (embora alguns deles, se vocês pudessem olhá-los com olhos imparciais, talvez despertassem em vocês o ciúme, Rm 10.19). Mas, ah, se Deus escrevesse no coração de vocês as regras de abnegação e de amor estabelecidas por Tomás de Kempis! Ou se vocês seguissem, tanto nisso como nas boas obras, aquela luz ardente e brilhante da sua própria igreja, o marquês de Renty! [N. do T.: Gaston de Renty (1611-1649), nobre católico francês conhecido pela piedade e pela caridade, cuja biografia Wesley publicou em versão resumida.] Então todos os que conhecem e amam o Senhor se alegrariam em reconhecê-los como a igreja do Deus vivo (1Tm 3.15): quando vocês fossem zelosos de toda boa palavra e obra, e se abstivessem de toda forma de mal (1Ts 5.22); quando por isso se mostrasse que estão cheios do Espírito Santo e libertos de todas as disposições profanas; quando todos vocês fossem inculpáveis e irrepreensíveis (Cl 1.22), sem mancha, nem ruga, nem coisa semelhante (Ef 5.27), geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamar a todos os judeus, infiéis e hereges, pelo seu amor ativo, paciente e imaculado a Deus e aos homens, as virtudes daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz (1Pe 2.9).

13. Irmãos, descendência de Abraão (At 13.26), permitam-me dizer algumas palavras também a vocês, que não admitem que o Ungido, o Príncipe, já veio e foi morto (Dn 9.25-26). Contudo, vocês ouvem Moisés e os profetas a ponto de admitir: 1. Que é a inspiração do Santo que dá entendimento ao homem,[N. do T.: Wesley cita livremente Jó 32.8, que a versão inglesa da época trazia como “the inspiration of the Almighty giveth them understanding”; a NAA traz “o sopro do Todo-Poderoso lhe dá entendimento”.] e que todos os verdadeiros filhos de Deus são ensinados por Deus. 2. Que a substância tanto da Lei como dos Profetas está contida nesta única palavra: Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e com toda a sua força (Dt 6.5), e o seu próximo como a si mesmo (Lv 19.18). 3. Que o fruto certo do amor é a obediência: afastar-se do mal e praticar o bem (Sl 34.14).

E vocês andam segundo essa regra? Vocês mesmos têm essa inspiração do Santo? Vocês são ensinados por Deus? Ele abriu o entendimento de vocês? Vocês têm o conhecimento interior do Altíssimo? Receio que não. Talvez saibam pouco mais do que um maometano, até mesmo quanto ao sentido das palavras.

Vamos um pouco mais adiante. Vocês amam o Senhor, seu Deus, de todo o coração, de toda a alma e com toda a força? Podem dizer: Quem tenho eu no céu além de ti? E quem poderia eu querer na terra além de ti (Sl 73.25)? Vocês desejam a Deus de algum modo? Desejam ter alguma coisa a ver com ele antes de não poderem mais reter o mundo? Não se contentam, contanto que desfrutem os bens da terra, em deixar Deus ficar de longe? Só o invocam de vez em quando, quando não podem passar bem sem ele. Ora, então vocês não amam a Deus de modo algum, embora às vezes se dignem a usá-lo. Vocês amam o mundo. É ele que possui o seu coração. Ele, portanto, é o seu Deus. Vocês renunciam ao Deus dos seus pais, o Deus de Israel; vocês ainda são incircuncisos de coração (Jr 9.26). A própria consciência de vocês dá testemunho de que nisso vocês não ouvem Moisés e os profetas mais do que ouvem Jesus de Nazaré.

14. Por Moisés e pelos profetas ficou demonstrado que os seus antepassados foram geração obstinada e rebelde, geração de coração inconstante, e cujo espírito não foi fiel a Deus (Sl 78.8). E isso vocês mesmos reconhecem. Se lhes perguntam como é que a promessa não se cumpriu, visto que o cetro há muito se afastou de Judá, por que Siló não veio (Gn 49.10)? A resposta habitual de vocês é: “Por causa dos pecados dos nossos pais, Deus adiou a sua vinda”. Vocês, então, se emendaram dos pecados dos seus pais? Vocês se converteram ao Senhor, seu Deus? Pelo contrário, não andam nos mesmos passos? Excetuado aquele único ponto da idolatria exterior, que abominação eles cometeram que vocês não tenham cometido também? Que a maioria de vocês não cometa ainda, conforme as suas forças? Portanto, se a vinda do Messias foi impedida pelos pecados dos seus antepassados, então, pela mesma regra, a persistência de vocês neles impedirá a sua vinda até o fim do mundo.

Irmãos, o desejo do meu coração e a minha súplica a Deus (Rm 10.1) é que ele congregue os dispersos de Israel (Sl 147.2). E não duvido de que, quando tiver entrado a plenitude dos gentios, então todo o Israel será salvo (Rm 11.25-26). Mas, enquanto isso, não há grande motivo para que vocês digam com Daniel: A ti, ó Senhor, pertence a justiça, mas a nós cabe o corar de vergonha, como hoje se vê, aos homens de Judá e a todo o Israel (Dn 9.7). Nós temos pecado, fomos rebeldes contra ti e não obedecemos à voz do Senhor, nosso Deus (Dn 9.5, 10). Inclina, ó Deus meu, os ouvidos e ouve! Abre os olhos e olha para a nossa desolação! Lançamos as nossas súplicas diante de ti não porque confiamos em nossas justiças, mas porque confiamos em tuas muitas misericórdias. Ó Senhor, ouve! Ó Senhor, perdoa! Ó Senhor, atende-nos e age! Não te demores, por amor de ti mesmo, porque a tua cidade e o teu povo são chamados pelo teu nome (Dn 9.18-19).

15. Não posso concluir sem me dirigir também a vocês que não admitem nem a revelação judaica nem a cristã. Mas, ainda assim, vocês desejam ser felizes. Admitem a diferença essencial entre o vício e a virtude e reconhecem (como todos os mais sábios dentre os gregos e os romanos) que o vício não pode coexistir com a felicidade. Admitem igualmente que a gratidão e a benevolência, o conhecimento de si e a modéstia, a mansidão, a temperança, a paciência e a generosidade são com justiça contadas entre as virtudes; e que a ingratidão e a malícia, a inveja e a má índole, o orgulho, a insolência e a vaidade, a gula e o luxo, a cobiça e o descontentamento são vícios da pior espécie.

Ora, examinemos com calma até que ponto a vida de vocês é coerente com os seus princípios.

Você busca a felicidade. Mas não a encontra. Com todos os seus esforços, não chega mais perto dela. Não é mais feliz do que era um ano atrás. Pelo contrário, receio que seja mais infeliz. Por que isso, senão porque procura a felicidade onde você mesmo admite que ela não pode ser encontrada? De fato, o que há na terra que possa satisfazer por muito tempo um homem de entendimento? A sua alma é grande demais para o mundo em que ele vive. Ele quer mais espaço.

Æstuat infelix augusto limite Mundi,
Ut brevibus clausus Gyaris, parvaque seripho. [O infeliz se agita no estreito limite do mundo, como quem está encerrado na pequena Gíaros e na diminuta Serifo.][N. do T.: Juvenal, Sátiras X.]

Ele já percorreu tudo o que se chama prazer: diversões e entretenimentos de toda espécie. Mas entre essas coisas não consegue encontrar nenhum gozo profundo; são coisas vazias, rasas, superficiais. Agradaram por algum tempo, mas o brilho se foi, e agora são enfadonhas e insossas. E o que ele tem em seguida? Só as mesmas coisas de novo, pois este mundo não oferece nada mais. Não pode lhe proporcionar nenhuma mudança. Vá, coma outra vez, mas é sempre do mesmo prato. Assim,

Occidit miseros crambe repetita. [A couve requentada mata os infelizes.][N. do T.: Juvenal, Sátiras VII.]

E que remédio há debaixo do sol!

16. Quanto mais sólido o seu juízo, quanto mais forte o seu entendimento, tanto mais depressa você se farta do mundo, e tanto mais profundamente se convence de que tudo o que virá é vaidade (Ec 11.8): tolo, insípido, nauseante. Você vê as fraquezas dos homens numa luz muito mais clara e tem um senso mais agudo do vazio da vida. Aí está você, pobre habitante insatisfeito de um mundo inquieto, voltando os olhos cansados para este lado e para aquele, buscando descanso e não encontrando nenhum. Parece estar fora do seu lugar: nem as pessoas nem as coisas que o cercam são como você deseja. Você tem uma ideia confusa de alguma coisa melhor do que tudo isso, mas não sabe onde encontrá-la. Está sempre ansiando por alguma coisa que não consegue alcançar, não, nem que percorra os confins da terra.

Mas isso não é tudo. Você não é apenas infeliz de modo negativo, por não encontrar nada em que apoiar o peso da sua alma, mas também de modo positivo, porque é profano: é miserável porque é vicioso. Você não é vicioso? Está então cheio de gratidão para com aquele que lhe dá vida, respiração e tudo mais (At 17.25)? Não é assim; antes, você despreza os seus dons e murmura contra aquele que os deu. Quantas vezes o seu coração disse que Deus não o tratou bem? Quantas vezes você pôs em dúvida a sabedoria ou a bondade dele? Isso foi bem feito? Que espécie de gratidão é essa? É a melhor de que você é capaz. Então conheça-se a si mesmo. Uma negra ingratidão está enraizada no mais íntimo do seu ser. Você não pode amar a Deus mais do que pode vê-lo, nem mais do que pode ser feliz sem esse amor.

Tampouco (por mais que se orgulhe disso) você ama a humanidade. Podem coexistir o amor e a malícia? A benevolência e a inveja? Ah, não arranque os próprios olhos. E não estão essas disposições horríveis em você? Você não inveja um homem e não guarda malícia ou má vontade contra outro? Sei que você chama essas disposições por nomes mais brandos; mas os nomes não mudam a natureza das coisas. Você sofre porque outro desfruta o que você mesmo não pode desfrutar. Chame isso como quiser, é pura inveja. Você se aflige porque um segundo desfruta até o que você mesmo tem; você se alegra em ver um terceiro infeliz. Não se iluda: isso é malícia, malícia venenosa, e nada mais. E como pôde você pensar em ser feliz com malícia e inveja no coração? Seria o mesmo que esperar ficar tranquilo segurando brasas no peito.

17. Suplico-lhe que reflita se não há no seu peito outros moradores que não deixam ali lugar para a felicidade. Você não pode descobrir, através de mil disfarces, o orgulho? Uma opinião elevada demais de si mesmo? A vaidade, a sede de louvor, até mesmo (quem acreditaria?) do aplauso de velhacos e tolos? A instabilidade ou o azedume do temperamento? A propensão à ira ou à vingança? A irritabilidade, a impaciência ou um descontentamento que consome? Mais ainda, talvez até a cobiça. E você alguma vez pensou que a felicidade pudesse habitar com essas coisas? Desperte desse sonho insensato. Não pense em conciliar coisas incompatíveis. Todas essas disposições são a própria miséria. Enquanto qualquer uma delas estiver abrigada no seu peito, você será um estranho para a paz interior. De que lhe adianta que não haja outro inferno? Sempre que esses demônios forem soltos sobre você, você será obrigado a confessar:

“O inferno está onde quer que eu esteja: eu mesmo sou o inferno.”[N. do T.: eco do Paraíso Perdido de John Milton (livro IV), onde Satanás diz: “Which way I fly is hell; myself am hell”.]

E pode o Ser supremo amar essas disposições, que você mesmo abomina em todos, menos em si mesmo? Se não, elas implicam culpa tanto quanto miséria. Sem dúvida implicam. Basta perguntar ao seu próprio coração. Quantas vezes, em plena carreira do seu vício, você sentiu uma repreensão secreta que não sabia como suportar e que, por isso, sufocou o mais depressa possível?

18. E nem isso apontava para um além? Para um estado futuro de existência? Os mais sensatos dentre vocês não têm dúvida disso; não imaginam que o homem inteiro morra de uma vez, embora mal suponham que a alma, uma vez desprendida, voltará a habitar numa casa de barro. Mas como a sua alma subsistirá sem ela? Como está você preparado para um estado separado do corpo? Suponha que este invólucro terreno, este veículo de matéria organizada, pelo qual você mantém comércio com o mundo material, caísse agora! Pois bem, o que você faria nas regiões da imortalidade? Lá você não pode comer nem beber. Não pode satisfazer nem os desejos da carne, nem os desejos dos olhos, nem a soberba da vida. Você ama somente as coisas do mundo; e elas se foram, fugiram como fumaça, foram dispersas para sempre. Aqui não há possibilidade de prazeres sensuais, e você não tem gosto por nenhuma outra coisa. Ah, que separação é esta de tudo o que você estima! Que ruptura se faz, que nunca será curada!

Mas, além disso, você é profano, cheio de más disposições, pois não as despiu junto com o corpo. Não deixou para trás o orgulho, a vingança, a malícia, a inveja, o descontentamento ao deixar o mundo. E agora você não é mais animado pela luz do sol, nem distraído pelo fluxo de objetos variados; mas aqueles cães do inferno são soltos para devorar a sua alma, com toda a sua força, sem nada que a abrande. Nem há esperança alguma de que o seu espírito venha agora a ser restaurado à sua pureza original; nem mesmo aquela pobre esperança de um fogo purificador, tão elegantemente descrito pelo poeta pagão alguns séculos antes que a ideia fosse revivida entre as doutrinas da Igreja romana:

Aliæ tenduntur inanes
Suspensæ ad ventos; aliis sub gurgite vasto
Infectum eluitur scelus, aut exuritur igni,
Donec longa dies, exacto temporis orbe,
Concretam exemit labem, purumque reliquit
Æthereum sensum atque aurai simplicis ignem. [Umas são estendidas, suspensas, aos ventos vazios; de outras, sob o vasto abismo, a mancha do crime é lavada, ou queimada pelo fogo, até que o longo dia, completado o ciclo do tempo, remova a mancha entranhada e deixe puro o sentido etéreo e o fogo do ar simples.][N. do T.: Virgílio, Eneida VI.]

19. Que grande abismo está então posto entre você e a felicidade, tanto neste mundo como no que há de vir (Lc 16.26)! Bem pode você estremecer só de pensar! Principalmente quando estiver para entrar nesse estado de existência ainda não experimentado. Pois que perspectiva é esta, quando você está à beira da vida, pronto para lançar-se na eternidade? Que poderá pensar então? Não vê nada à sua frente. Tudo é escuro e sombrio. Na melhor das hipóteses, bem poderá dirigir-se à sua alma que parte com as palavras de Adriano moribundo:[N. do T.: os versos que seguem são uma imitação inglesa, feita por Matthew Prior, do pequeno poema latino atribuído ao imperador Adriano na hora da morte, “Animula vagula blandula”.]

“Pobrezinha, pequena, linda coisa a esvoaçar,
não vamos mais viver juntos?
E tu alisas a tua asa trêmula
para alçar voo não sabes para onde?

A tua veia amável, a tua graciosa loucura,
tudo está abandonado, tudo esquecido;
e pensativa, hesitante, melancólica,
tu esperas e temes não sabes o quê.”

“Não sabes o quê!” Aqui está o aguilhão, ainda que não houvesse outro. Ser não sabes o quê? Não por um mês ou um ano, mas pelas incontáveis eras da eternidade! Que incerteza atormentadora deve ser essa! Que relutância dilacerante deve causar trocar até este conhecido vale de lágrimas pelo desconhecido vale da sombra da morte (Sl 23.4)!

“E não há cura para isso?” De fato há uma cura eficaz: o conhecimento e o amor de Deus. Há um conhecimento de Deus que desvela a eternidade, e um amor de Deus que a torna querida. Esse conhecimento torna o grande abismo visível, e a incerteza desaparece. Esse amor o torna amável para a alma, de modo que o medo não tem mais lugar! E, no momento em que Deus diz, pelo bem-vindo anjo da morte, “Suba até aqui” (Ap 4.1), ela

“Bate a asa alegre e se eleva,
e se mistura ao esplendor do dia.”

20. Vocês não veem a vantagem que, em todos os sentidos, um cristão tem sobre vocês? Provavelmente a razão de não a terem visto antes foi que não conheciam senão cristãos nominais: homens que professavam crer mais (à sua maneira de crer), mas que não tinham mais conhecimento nem amor de Deus do que vocês. De modo que, quanto à verdadeira religião interior, vocês estavam em pé de igualdade. E talvez, em muitos ramos da religião exterior, a vantagem estivesse do seu lado.

Que o Senhor, o Deus dos cristãos, reforme esses miseráveis ou os tire da terra! Eles põem essa grande pedra de tropeço no caminho dos que desejam conhecer a vontade de Deus!

Ah, vocês que desejam conhecer a sua vontade, não façam caso deles! Se for possível, apaguem-nos da memória.

Eles não podem nem querem fazer bem algum a vocês. Ah, não deixem que lhes façam mal. Não se deixem predispor contra o cristianismo por aqueles que nada sabem dele. Mais ainda, eles o condenam, todo o cristianismo real e substancial; falam mal daquilo que não conhecem. Têm uma espécie de palavra de jargão para toda a religião do coração. Chamam-na de entusiasmo.

Vou expor-lhes brevemente o fundamento da questão e apelar a vocês mesmos quanto à razoabilidade dele.

21. Que serviço miserável e penoso é o serviço de Deus, a menos que eu ame o Deus a quem sirvo! Mas não posso amar alguém que não conheço. Como, então, posso amar a Deus antes de conhecê-lo? E como é possível que eu conheça a Deus, a menos que ele se dê a conhecer a mim? Por analogia ou proporção? Muito bem. Mas onde se encontra essa proporção? Que proporção guarda uma criatura com o seu Criador? Que proporção há entre o finito e o infinito?

Concedo que a existência das criaturas demonstra de modo conclusivo a existência do seu Criador. A criação inteira proclama que há um Deus. Mas essa não é a questão em debate. Sei que há um Deus. Até aqui está claro. Mas quem me mostrará o que esse Deus é? Quanto mais reflito, mais me convenço de que não é possível a nenhuma de todas as criaturas tirar o véu que está sobre o meu coração, para que eu possa discernir esse Deus desconhecido; correr a cortina que agora pende entre nós, para que eu possa ver aquele que é invisível (Hb 11.27).

Este véu, ou carne, agora o esconde da minha vista. E quem é capaz de torná-lo transparente, para que eu perceba Deus sempre diante de mim como num espelho, até vê-lo face a face (1Co 13.12)?

Quero conhecer esse grande Deus que enche os céus e a terra (Jr 23.24); que está acima, abaixo e de todos os lados, em todos os lugares do seu domínio; que agora mesmo me cerca por todos os lados e põe a sua mão sobre mim (Sl 139.5). E, no entanto, não o conheço mais do que conheço um dos habitantes de Júpiter ou de Saturno.

Ah, meu amigo, como você dará um passo adiante, a menos que Deus se revele à sua alma?

22. E por que isto lhe pareceria uma coisa incrível? Que Deus, que é Espírito, e o Pai dos espíritos de toda a carne (Hb 12.9; Nm 16.22), [N. do T.: Wesley junta Hb 12.9 (“the Father of spirits”, na versão inglesa da época) e Nm 16.22 (“the God of the spirits of all flesh”); a NAA traz, respectivamente, “Pai espiritual” e “Ó Deus, autor e conservador de toda a vida”.] se revele ao seu espírito, que é ele mesmo o sopro de Deus, Divinæ Particula Auræ [partícula do sopro divino]? Mais incrível do que as coisas materiais se revelarem ao seu olho material? É mais contrário à razão que o espírito atue sobre o espírito do que a matéria atue sobre a matéria? Mais ainda, não é o primeiro o mais inteligível dos dois? Pois há a maior dificuldade em conceber como a matéria pode atuar sobre a matéria, como aquilo que é totalmente passivo pode agir. Tampouco podemos explicar racionalmente a gravitação, a atração ou qualquer movimento natural, a não ser supondo em todos eles o dedo de Deus, o único que vence aquela vis inertiæ [força de inércia] que é essencial a toda partícula de matéria, e que opera tudo em todos (1Co 12.6).

Ora, se Deus algum dia abrir os olhos do seu entendimento, não deverá o amor de Deus ser a consequência imediata? Você imagina que possa ver a Deus sem amá-lo? Isso é possível na natureza das coisas? Si virtus conspiceretur occulis, disse o velho pagão, mirabiles amores excitaret sui [se a virtude pudesse ser vista com os olhos, despertaria por si amores admiráveis]. Quanto mais, se você vir aquele que é a fonte original, o grande arquétipo de toda virtude, essa visão despertará em você um amor maravilhoso, tal como o mundo alegre e atarefado não conhece!

23. Que benevolência também, que terno amor por todo o gênero humano você beberá, juntamente com o amor de Deus, da fonte inesgotável do amor! E como é fácil conceber que então cada vez mais da sua imagem será transfundida na sua alma! Que do amor desinteressado brotarão, como que naturalmente, todas as demais disposições divinas: a mansidão, a brandura, a paciência, a temperança, a justiça, a sinceridade, o desprezo do mundo; sim, tudo o que é respeitável, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama (Fp 4.8).

E, quando você assim amar a Deus e a toda a humanidade, e for transformado à sua semelhança, então os mandamentos de Deus não serão difíceis de guardar (1Jo 5.3); você não se queixará mais de que eles destroem os confortos da vida. Longe disso, eles serão a própria alegria do seu coração, caminhos agradáveis e veredas de paz (Pv 3.17)! Você experimentará aqui aquela felicidade sólida que em outros lugares havia buscado em vão. Sem medo servil nem cuidado ansioso, enquanto permanecer na terra, você fará de bom grado a vontade de Deus aqui, como os anjos a fazem no céu. E, quando chegar o tempo de partir daqui, quando Deus disser “Levante-se e venha” (Ct 2.10), você passará do corpo, com uma alegria indescritível (1Pe 1.8), para toda a plenitude de Deus (Ef 3.19).

Ora, o seu próprio coração não o condena, se você chamar esta religião de entusiasmo? Ah, deixe isso para aqueles zelotes cegos que alinhavam um conjunto de opiniões e um culto exterior e chamam essa coisa pobre, apagada e sem vida pelo nome sagrado de cristianismo. Bem poderia você considerar um cristianismo assim como mero espetáculo vazio, próprio, sem dúvida, para manter o povo simples em temor, mas indigno da atenção de um homem de entendimento.

Mas sob que luz tão diferente ele aparece agora! Se existe uma religião como a que esbocei, não deve todo homem sensato ver que não há nada na terra que se possa desejar em comparação com ela? Mas, se alguém deseja isso, peça a Deus, que a todos dá com generosidade e sem reprovações (Tg 1.5).

24. Você não poderia pedir, de modo inteiramente coerente com os seus princípios, de maneira semelhante a esta:

Ó Ser dos seres, causa de tudo, tu vês o meu coração; tu entendes todos os meus pensamentos. Mas quão pequena parte dos teus caminhos eu entendo! Não sei o que está acima, abaixo, de todos os lados. Não conheço a minha própria alma. Só isto eu sei: não sou o que deveria ser. Vejo e aprovo a virtude que não tenho. Não te amo, nem sou grato. Louvo o amor à humanidade, mas não o sinto. Tu viste ódio, malícia, inveja no meu coração. Viste ira, murmuração, descontentamento. Essas paixões inquietas dilaceram a minha alma. Não posso descansar enquanto estou debaixo deste jugo. Nem sou capaz de sacudi-lo. Sou infeliz, e tu o sabes.

Tem compaixão de mim, tu cujos anos jamais terão fim (Sl 102.27)! De mim, que tenho pouco tempo de vida. Ergo-me e sou cortado como a flor. Fujo como a sombra (Jó 14.2). Mais um pouco, e volto ao pó, e não tenho mais lugar debaixo do sol.

Contudo, sei que fizeste a minha alma para viver para sempre. Mas não sei onde; e não estou disposto a experimentar. Tremo, tenho medo de ir para o lugar do qual não voltarei (Jó 10.21). Estou tremendo à beira do abismo, pois nuvens e trevas repousam sobre ele. Ó Deus! Terei de ir sempre “rastejando entre terrores, e mergulhar na eternidade com um talvez”?

Ó tu que amas os homens, não há socorro em ti? Ouvi dizer (o que de fato o meu coração não consegue conceber) que te revelas aos que te buscam e derramas o teu amor no coração deles; e que os que te conhecem e te amam andam pelo vale da sombra da morte e não temem mal nenhum (Sl 23.4). Ah, se assim fosse! Se houvesse tal dom indescritível (2Co 9.15) concedido aos filhos dos homens! Pois então eu poderia esperá-lo. Ó Deus, se ele existe, dá-o a mim! Fala, para que eu te veja! Dá-te a conhecer a mim também, da maneira que tu sabes! De qualquer modo, faze que eu te conheça e te ame, para que eu seja formado à tua semelhança! Para que eu seja amor, como tu és amor (1Jo 4.8); para que eu seja agora feliz em ti; e, quando quiseres, caia no abismo do teu amor e te desfrute pelas eras da eternidade!

Notas

1. O senhor diz: “Nós testemunhamos contra isso na congregação”. Contra o quê? “Contra os trajes alegres e vistosos.” Concedo. Mas não é disso que falo. O senhor errou inteiramente o meu alvo. O senhor testemunha contra o alto custo dos trajes deles, por mais simples e sóbrios que sejam? Contra o preço do veludo, do linho, da seda, ou de qualquer tipo de roupa? Se faz isso com frequência e de modo explícito, está inocente. Se não, reconheça a falta e corrija-a.

Tradução para o português a partir de John Wesley, An Earnest Appeal to Men of Reason and Religion (1743) e A Farther Appeal to Men of Reason and Religion, partes I a III (1745), no texto revisto por Wesley para as suas Obras (Bristol, William Pine, 1772, vols. 14 e 15; transcrição do Projeto Gutenberg); domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.