John Wesley · Apelos aos Homens de Razão e Religião · Apelo Adicional, Parte III

A obra de Deus, as objeções e o dia da visitação

O estado da religião na Inglaterra, a obra que Deus estava reavivando, as desculpas para se opor a ela e a perseguição aos metodistas, e o chamado final a reconhecer o dia da visitação.

I. 1. Ora, o que pode uma pessoa imparcial pensar do estado atual da religião na Inglaterra? Haverá debaixo do sol alguma nação que tenha caído tão fundo, a ponto de abandonar os primeiros princípios de toda religião? Onde está o país em que se encontra um descaso tão completo até pela moral pagã? Um desprezo tão absoluto pela justiça e pela verdade, e por tudo o que deveria ser caro e honroso a criaturas racionais?

Que espécie de vício se pode nomear, mesmo entre aqueles que a própria natureza abomina, de que não tenhamos tido, por muitos anos, uma colheita farta e sempre crescente? Que pecado existe em Roma ou em Constantinopla que não tenhamos importado há muito tempo (se é que não brotou do nosso próprio solo) e aperfeiçoado desde então? Uma tal teia de vilanias de toda sorte, considerada com todos os seus agravantes, um tal desdém por tudo o que tem aparência de virtude, tanta injustiça, fraude e falsidade, e sobretudo tanto perjúrio e um tal modo de proceder na justiça: isso podemos desafiar o mundo inteiro a apresentar.

Que multidões se encontram em toda a nossa terra que nem sequer professam religião alguma? E quantos dos que professam muito desmentem a sua profissão com a sua prática? Sim, e talvez, com o seu orgulho desmedido, a sua vaidade, cobiça, rapina ou opressão, façam o próprio nome da religião cheirar mal às narinas de muitos homens (em tudo o mais) sensatos?

2. “Contudo, ainda temos muitos milhares de homens verdadeiramente virtuosos e religiosos.” Em que consiste a religião deles? Em justiça e verdadeira santidade? Num amor mais forte que a morte? Em fervorosa gratidão a Deus? E em terna afeição por todas as suas criaturas? A religião deles é a religião do coração? Uma renovação da alma à imagem de Deus? Eles se parecem com aquele a quem adoram? Estão livres do orgulho, da vaidade, da malícia e da inveja, da ambição e da avareza, da ira e da luxúria, de toda disposição inquieta e desamável? Ai de nós! Temo que nem eles (pelo menos a maior parte) nem vocês saibam o que significa essa religião, ou tenham dela mais noção do que o camponês que segura o arado tem da religião de um gimnosofista. [N. do T.: os gimnosofistas, “sábios nus”, eram ascetas da Índia mencionados pelos autores gregos.]

Já é muito se a religião genuína de Cristo tem mais parentesco com aquilo que vocês chamam de religião do que com as peregrinações dos turcos a Meca ou com o culto papista a Nossa Senhora de Loreto. Não puseram vocês, no lugar da religião do coração, alguma coisa (não digo igualmente pecaminosa, mas) igualmente vã e estranha à adoração de Deus em espírito e em verdade (Jo 4.24)? Que outra coisa se pode dizer até da oração (pública ou particular), do modo como vocês geralmente a fazem? Como coisa de rotina, girando e girando na mesma trilha monótona, sem conhecimento nem amor de Deus? Sem que uma única disposição celestial seja alcançada ou aprimorada? Oh, que zombaria de Deus é essa!

E, no entanto, até essa religião, que não lhes pode fazer bem algum, pode fazer-lhes muito mal. Mais ainda, é evidente que faz: ela aumenta a cada dia o seu orgulho, à medida que vocês medem a própria bondade pelo número e pela extensão das suas práticas. Ela lhes dá um profundo desprezo por aqueles que não alcançam a conta completa das suas virtudes. Ela inspira nos homens um zelo que é o próprio fogo do inferno, furioso, amargo, implacável, impiedoso, muitas vezes a ponto de extinguir toda compaixão, toda bondade natural e toda humanidade. Tanto assim que a execrável ferocidade de espírito, fruto natural de uma religião assim, muitas vezes, a despeito de todos os laços divinos e humanos, irrompeu em violência aberta, em rapina, assassinato, sedição, rebelião e guerra civil, até a desolação de cidades e países inteiros.

Tantum hæc Religio potuit suadere malorum! [A tantos males pôde esta religião induzir! N. do T.: adaptação de um verso de Lucrécio, Da natureza das coisas, I.101.]

3. Ora, se existe um Deus, e um Deus que não é mero espectador ocioso do que se faz na terra, mas que recompensa os homens e as nações segundo as suas obras, qual pode ser o desfecho dessas coisas? Era razoável crer que ele se teria levantado há muito tempo para defender a sua própria causa, mandando sobre nós a fome ou a peste, ou derramando o seu furor em sangue. E muitos homens sábios e santos declararam repetidas vezes que esperavam isso todos os dias, que aguardavam dia após dia que a paciência de Deus desse lugar ao juízo e que o juízo triunfasse sobre a misericórdia.

4. Justamente nessa ocasião, quando pouco nos faltava para encher a medida das nossas iniquidades, dois ou três clérigos da IGREJA da INGLATERRA começaram a chamar com veemência os pecadores ao arrependimento (Lc 5.32). Em dois ou três anos tinham feito soar o alarme até os confins mais distantes do país. Muitos milhares se reuniam para ouvi-los, e em todo lugar aonde iam muitos começavam a mostrar pela religião um interesse como nunca antes tinham mostrado. Formava-se em sua mente uma impressão mais forte da importância das coisas eternas, e eles tinham desejos mais sinceros de servir a Deus do que jamais haviam tido desde a primeira infância. Assim Deus começou a atraí-los para si com laços de amor, com cordas humanas (Os 11.4).

Muitos deles, em pouco tempo, ficaram profundamente convencidos do número e da gravidade dos seus pecados. Foram também levados a perceber plenamente aquelas disposições que com justiça são odiosas a Deus e aos homens, e a sua total ignorância de Deus e completa incapacidade de conhecê-lo, amá-lo ou servi-lo. Ao mesmo tempo, viram com a mais forte clareza a insignificância da sua religião exterior; mais ainda, muitas vezes a confessaram diante de Deus como a mais abominável hipocrisia. Assim foram afundando cada vez mais naquele arrependimento que sempre deve preceder a fé no Filho de Deus.

E daí brotou fruto digno de arrependimento (Mt 3.8). O beberrão tornou-se sóbrio e moderado; o devasso absteve-se do adultério e da fornicação; o injusto, da opressão e do dano ao próximo. Quem estava acostumado havia muitos anos a amaldiçoar e a praguejar não praguejou mais. O preguiçoso começou a trabalhar com as próprias mãos, para comer o seu próprio pão. O avarento aprendeu a repartir o seu pão com o faminto e a cobrir de roupa o nu. Na verdade, toda a forma da sua vida mudou. Tinham parado de fazer o mal e aprendido a fazer o bem (Is 1.16-17).

5. Mas isso não foi tudo. Além dessa mudança exterior, começaram a experimentar a religião interior. O amor de Deus foi derramado em seu coração (Rm 5.5), e eles continuam a desfrutá-lo até hoje. Amam a Deus porque ele nos amou primeiro (1Jo 4.19) e não nos negou o seu Filho, o seu único Filho. E esse amor os constrange a amar toda a humanidade, todos os filhos do Pai do céu e da terra, e lhes inspira toda disposição santa e celestial, todo o modo de pensar que havia em Cristo. Daí vem que agora sejam coerentes no seu comportamento e irrepreensíveis em todo o seu procedimento. E aprenderam a viver contentes em toda e qualquer situação, tanto que agora podem em tudo dar graças (1Ts 5.18): mais do que aceitar com paciência, eles se alegram e exultam em todas as disposições de Deus para com eles. Pois, enquanto amam a Deus (e esse amor ninguém lhes tira), são sempre felizes em Deus. Assim percorrem tranquilos a vida, sem jamais se cansar nem desanimar, sem jamais se queixar, murmurar ou ficar insatisfeitos, lançando sobre Deus todas as suas ansiedades, até chegar a hora de deixarem este invólucro de terra e voltarem ao grande Pai dos espíritos. Então, sobretudo, exultam com alegria indescritível e cheia de glória (1Pe 1.8). Vocês que não acreditam nisso, venham e vejam. Vejam esses cristãos, na vida e na morte.

“Felizes enquanto na terra respiram,
destinados a conhecer alegrias mais poderosas,
pisando o pecado, o inferno e a morte,
não sobem eles ao terceiro céu?”

Ora, se essas coisas são assim, que homem sensato pode negar (supondo que as Escrituras sejam verdadeiras) que Deus está agora visitando esta nação de modo muito diferente daquele que tínhamos razão para esperar? Em vez de derramar sobre nós o seu ardente desagrado, ele nos fez ainda mais uma oferta de misericórdia, de modo que, justamente onde aumentou ao máximo o pecado, aumentou muito mais ainda a graça (Rm 5.20).

6. Sim, a graça de Deus, que se manifestou trazendo salvação (Tt 2.11), salvação presente do pecado interior e exterior, tem abundado nestes últimos anos num grau que nem nós nem os nossos pais conhecemos. Quão ampla é a mudança operada na mente e na vida do povo! Vocês não sabem que o som se espalhou por todo o país? Que mal se encontra uma cidade ou vila de alguma importância onde alguns não tenham sido despertados do sono da morte e constrangidos a clamar, na amargura da alma: Que devo fazer para que seja salvo? (At 16.30) Que essa preocupação religiosa se estendeu a todas as idades e a ambos os sexos, à maior parte das classes e condições de pessoas? Em particular, a muitíssimos daqueles que no passado eram tidos por monstros de perversidade, que bebiam a iniquidade como a água (Jó 15.16) e cometiam, de forma desenfreada, todo tipo de impureza (Ef 4.19)?

7. Em que época se operou uma obra assim, considerando tanto a sua rapidez quanto a sua extensão? Quando é que tão grande número de pecadores foi, em tempo tão curto, resgatado do erro dos seus caminhos? Quando foi que a religião, não direi desde a Reforma, mas desde o tempo de Constantino, o Grande, fez tão grande progresso em alguma nação num espaço tão pequeno? Creio que dificilmente a história, antiga ou moderna, nos pode fornecer um caso semelhante.

8. Observem também os homens de entendimento a profundidade da obra realizada de modo tão amplo e tão rápido. Não é coisa leve nem superficial: multidões foram tão completamente convencidas do pecado que os seus ossos foram despedaçados como por uma espada que chega a dividir juntas e medulas (Hb 4.12). Muitas delas, pouco depois, foram tão cheias de alegria e paz na fé (Rm 15.13) que mal saberiam dizer se estavam no corpo ou fora do corpo (2Co 12.2). E no poder dessa fé pisaram tudo o que o mundo considera terrível ou desejável, demonstrando, nas provações mais severas, um amor tão fervoroso a Deus, uma benevolência tão constante e terna para com a humanidade, especialmente para com os seus inimigos, e uma tal medida de todos os frutos da santidade que não seriam indignos da era apostólica. Ora, um arrependimento tão profundo, uma fé tão firme, um amor tão fervoroso e uma santidade tão sem mancha, operados em tantas pessoas em tão pouco tempo, isso o mundo não vê há muitos séculos.

9. Não é menos notável a pureza da religião que se espalhou de modo tão profundo e tão rápido. Falo em particular das doutrinas sustentadas por aqueles entre os quais ela se espalhou. Os membros da Igreja da Inglaterra, ao menos, têm de reconhecer isso. Pois onde existe no reino um grupo de pessoas que, proporcionalmente, se apegue tão de perto ao que a nossa Igreja ensina como doutrina pura? Onde estão os que se mostraram e se mostram mais ortodoxos, mais sãos nas suas opiniões? Há entre todos eles um único sociniano ou ariano? Mais ainda, se alguém recitasse todo o catálogo de heresias enumeradas pelo bispo Pearson, poder-se-ia perguntar: quem pode imputar-lhes qualquer uma delas?

A religião deles também não é menos pura de superstição do que de heresia. Em tempos passados, sempre que apareceu um interesse incomum pelas coisas de Deus, de um lado brotavam continuamente com ele opiniões estranhas e errôneas; de outro, um zelo por coisas que não faziam parte da religião, como se fossem ramos essenciais dela. E muitos deram tanta importância (se não maior) a ninharias quanto aos preceitos mais importantes da lei. Mas não foi assim no caso presente. Não se deu importância a coisa alguma, como se fosse necessária à salvação, a não ser ao que está inegavelmente contido na palavra de Deus. E, das coisas ali contidas, a importância dada a cada uma tem sido proporcional à proximidade da sua relação com aquilo que ali se estabelece como a súmula de tudo: o amor a Deus e ao próximo. Tão pura de superstição, tão inteiramente bíblica é a religião que se espalhou ultimamente nesta nação.

10. Ela é igualmente racional, além de bíblica; é tão pura de entusiasmo quanto de superstição. É verdade que se tem afirmado continuamente o contrário. Mas afirmar é uma coisa; provar é outra. Quem vai provar que é entusiasmo amar a Deus, ainda que o amemos de todo o coração? Alegrar-se no sentimento do amor dele por nós? Louvá-lo, até com todas as nossas forças? Quem é capaz de sustentar essa acusação contra o amor a toda a humanidade? Ou, deixando de lado os floreios retóricos, de ir direto à questão e demonstrar que é entusiasmo viver contente em toda e qualquer situação? Toco apenas nos pontos gerais. Homens de razão, apresentem-me um homem que, deixando de lado a zombaria e os insultos, sustente isso à força de argumentos. Se não, reconheçam que essa religião é aquilo que vocês buscam: sóbria, viril, racional, divina, por mais exposta que esteja à censura dos que costumam injuriar o que não entendem.

11. Pode-se observar ainda que a religião daqueles de quem falamos está inteiramente livre de sectarismo. (Talvez este pudesse ser classificado junto com a superstição, de que parece ser apenas uma espécie particular.) Eles de modo algum são sectários em matéria de opiniões. Sustentam, sim, opiniões corretas. Mas tomam um cuidado especial para não pôr ali o peso do cristianismo. Não têm por opinião alguma um apego tão exagerado a ponto de pensar que só ela os fará cristãos, ou de limitar o seu afeto ou estima aos que concordam com eles nesse ponto. Não há nada que temam mais do que isso, para que não se infiltre neles sem que percebam. Também não são sectários em relação a algum ramo particular, nem mesmo da religião prática. Desejam, sim, ser exatos em cada i e cada til, nos menores pontos da prática cristã. Mas não se apegam a um ponto mais do que a outro: buscam uma obediência coerente e universal. Não lutam por nada insignificante como se fosse importante, por nada indiferente como se fosse necessário, por nada circunstancial como se fosse essencial ao cristianismo, mas por cada coisa na sua devida ordem.

12. Acima de tudo, observe-se que essa religião não tem mistura alguma de vício ou impiedade. Ela não dá a ninguém, de nenhuma posição ou profissão, a menor licença para pecar. Não faz concessão a pessoa alguma para impiedade de espécie nenhuma. Não que todos os que a seguem já o tenham alcançado ou já sejam perfeitos. Mas, seja como for, eles não defendem pecado algum, nem interior nem exterior. Condenam toda espécie e todo grau de pecado, tanto em si mesmos como nos outros. Na verdade, sobretudo em si mesmos, pois têm o cuidado constante de aplicar ao próprio caso estas palavras: Quem guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos (Tg 2.10).

13. E, no entanto, não se encontra entre eles aquele zelo amargo, em pontos de pequena ou de grande importância, aquele espírito de perseguição que tantas vezes acompanhou o espírito de reforma. É uma fantasia ociosa pensar que o espírito de perseguição existe só entre os papistas: ele está onde quer que opere o diabo, esse velho homicida, e ele ainda atua nos filhos da desobediência (Ef 2.2). Em consequência, todos os filhos da desobediência, sob mil pretextos diferentes e de mil maneiras diferentes, na medida em que Deus o permite, perseguirão os filhos de Deus. Mas o que é ainda mais lamentável é que os próprios filhos de Deus tantas vezes usaram as mesmas armas e perseguiram outros, quando o poder estava nas suas mãos.

Podemos isentar inteiramente dessa acusação aqueles homens veneráveis, os nossos grandes reformadores? Temo que não, se lermos com imparcialidade qualquer história da Reforma. Que admira, então, que, quando os papéis se inverteram, o bispo Bonner ou Gardiner fizessem represálias? Que medissem aos outros (e, na verdade, em boa medida, sacudida, Lc 6.38) o que antes lhes fora medido? Também não é de estranhar, quando consideramos o caso isolado de Joan Bocher, que Deus permitisse que aqueles homens (em tudo o mais) santos, o arcebispo Cranmer, o bispo Ridley e o bispo Latimer, bebessem do mesmo cálice que ela. [N. do T.: Joan Bocher, anabatista, foi queimada como herege em 1550, no reinado protestante de Eduardo VI; Cranmer, Ridley e Latimer morreram na fogueira no reinado de Maria Tudor, quando Bonner e Gardiner eram bispos influentes.]

14. Mas vocês conseguem encontrar algum vestígio disso no caso que temos diante de nós? Todos os que ultimamente conheceram o amor de Deus não sabem de que espírito são? E que o Filho do Homem não veio para destruir a vida dos homens, mas para salvá-los? [N. do T.: Lc 9.55-56, na redação usada por Wesley; a NAA não traz essas palavras no texto.] Aprovam eles o uso de qualquer espécie ou grau de violência, por qualquer motivo ou pretexto que seja, em matéria de religião? Não consideram sagrado e inviolável o direito que todo homem tem de julgar por si mesmo? Admitem algum método de trazer ao conhecimento da verdade até os que estão mais desviados do caminho, os que estão nos erros mais grosseiros, a não ser os métodos da razão e da persuasão? Do amor, da paciência, da mansidão, da longanimidade? Há na sua prática algo incompatível com essa sua profissão constante? Impedem eles, de fato, os seus parentes ou dependentes de adorar a Deus segundo a própria consciência? Quando os julgam em erro, usam de força de qualquer espécie para tirá-los dele? Apresentem-se os casos, se existirem. Mas, se não se encontra nenhum, reconheçam todos os homens sensatos que creem na Bíblia que uma obra de Deus está sendo operada na nossa terra, e uma obra tal (se considerarmos de uma só vez a sua extensão, a rapidez com que se espalhou, a profundidade da religião tão rapidamente difundida e a sua pureza de toda mistura corrupta) que, é preciso reconhecer, dificilmente se encontrará algo semelhante, com todas essas circunstâncias reunidas, em tudo o que se acha nos anais ingleses desde que o cristianismo foi plantado nesta ilha.

II. 1. E, no entanto, os que sabem interpretar a aparência do céu não são capazes de interpretar os sinais dos tempos (Mt 16.3). Os que são tidos por sábios não sabem que Deus está agora reavivando a sua obra na terra. Em relação a alguns deles, de fato, a razão é clara: não sabem porque não pensam nisso. Os seus pensamentos estão ocupados em outras coisas; a sua mente está tomada por assuntos de natureza bem diferente. Ou talvez pensem nisso um pouco de vez em quando, quando não têm mais nada que fazer, mas não com seriedade nem profundidade, sem nenhuma concentração ou atenção de pensamento. Estão apressados demais para pesar os fatos de que falamos e tirar deles a conclusão justa; nem permitem que a convicção que às vezes possam sentir penetre no seu coração: as coisas que ocupam lugar maior nos seus afetos logo apagam até os vestígios dela.

2. É verdade que há alguns que pensam mais a fundo, que costumam examinar as coisas desde o alicerce e reunir as circunstâncias, para não julgar coisa alguma antes de ter plena evidência; e, no entanto, até alguns destes parecem estar em dúvida quanto à obra presente. Ora, supondo que seja uma obra de Deus, como explicar isso? Como é que os que investigam com tanta diligência não reconhecem o tempo em que Deus veio visitá-los (Lc 19.44)? Talvez por causa do preconceito profundamente enraizado que trouxeram consigo para a investigação, e que, ainda pesando sobre a sua mente, torna quase impossível formarem um juízo imparcial. Talvez até uma leve predisposição os tenha feito tropeçar em algumas daquelas pedras de escândalo que, por sábia permissão de Deus, sempre acompanharam e sempre acompanharão qualquer reavivamento da sua obra. Pode ser até que a própria cautela deles tenha sido levada ao excesso. Não queriam julgar antes de ter uma evidência que a natureza da coisa não admitia, ou que, pelo menos, Deus não julgou conveniente dar.

3. Tudo isso é muito fácil de entender. Mas à primeira vista pode parecer surpreendente encontrar homens de renome, homens tidos como dotados de conhecimento e de capacidades de toda espécie, negando de modo categórico, aberto e peremptório que tenha havido qualquer obra incomum de Deus! Sim, um eminente escritor recente vai ainda mais longe e considera um caso de puro entusiasmo imaginar que haja agora alguma obra extraordinária sendo operada na terra.1

De nada adianta dizer: “Não, ele não nega isso; nega apenas que seja obra de Deus.” Isso é um subterfúgio evidente, pois a obra em questão é de tal natureza (a saber, a conversão dos homens de toda espécie de pecado à santidade de coração e de vida) que, se alguma vez é realizada, tem de ser obra de Deus, visto que só Deus, e não algum filho de homem, é capaz de destruir as obras do diabo (1Jo 3.8).

Contudo, nem isso é difícil de explicar, se examinarmos as coisas mais de perto: pois é fácil conceber que o mesmo preconceito que mantém alguns em dúvida influencie outros a ponto de levá-los a negar inteiramente a obra de Deus. E isso pode acontecer de vários modos: pode levá-los a questionar os fatos relatados e impedi-los de procurar informar-se melhor, ou impedi-los de tirar desses fatos as conclusões que, de outro modo, veriam como claras e inegáveis. Sim, e dará peso dez vezes maior aos escândalos que inevitavelmente hão de vir, a ponto de superar toda e qualquer evidência.

4. Isso também pode explicar o comportamento daqueles que, não contentes em suspender o juízo ou negar a obra de Deus, vão ainda mais longe, até o ponto de contradizer e blasfemar. Mais ainda, alguns deles manifestaram aversão mais profunda e mostraram inimizade mais forte contra ela do que jamais se soube que tivessem mostrado contra o papismo, a incredulidade ou qualquer heresia. Alguns perseguiram os instrumentos de que aprouve a Deus servir-se nessa obra, só que não até a morte; e outros trataram do mesmo modo todos aqueles a quem chamavam de seguidores deles. Talvez convenha mencionar alguns poucos exemplos disso, entre muitíssimos que se poderiam relatar.

5. No dia 20 de junho de 1743, uma grande multidão, vinda principalmente de Walsal, Darlaston e Bilston, reuniu-se no adro da igreja de Wensbury, em Staffordshire. Dali partiram (depois de juntar todo o bando ao som de uma trompa) para a casa do Sr. Eaton, no centro da vila, que naquela época era o condestável. [N. do T.: constable, oficial local encarregado de manter a ordem pública.] Ele foi até a porta com o seu bastão de condestável e começou a ler a lei do Parlamento contra os tumultos; mas as pedras voavam tão espessas em volta da sua cabeça que ele foi obrigado a parar a leitura e recolher-se. Quebraram todas as janelas da casa, a porta e um grande relógio. Foram então a mais de oitenta casas, em muitas das quais não ficaram nem três vidraças inteiras.

6. Em 20 de junho de 1743, John Baker, à frente de uma grande turba, foi à casa de Jonas Turner, em West-Bramwick, perto de Wensbury, e perguntou-lhe “se ele ia manter distância desses homens que andavam pregando por aí e ir à igreja”. Ele respondeu: “Eu vou à igreja. Mas nunca vejo nenhum de vocês lá.” Imediatamente um certo Dan. Oniens, com um grande porrete, quebrou de um só golpe boa parte da janela. Outros o agarraram e o arrastaram por umas sessenta jardas antes que ele conseguisse se soltar. Depois quebraram todas as suas janelas e atiraram dentro da casa uma porção de pedras para quebrar os seus bens.

Por volta das quatro da tarde, chegaram à casa da viúva Turner, de West-Bramwick. Atiravam tijolos e pedras com tanta rapidez que ela foi obrigada a abrir a porta e correr para o meio deles. Uma das filhas gritou: “Vão matar minha mãe!” Diante disso, começaram a atirar pedras nela. Ela correu para a casa de um vizinho, mas, antes que conseguisse fechar a porta, eles arrebentaram a parte de baixo com um pedaço de tijolo. Perseguiram a outra filha com pedras, e um deles com uma grande estaca. Ela correu para outra casa, muito assustada, esperando ser assassinada. A viúva perguntou: “Como vocês têm coragem de vir nos maltratar desse jeito?” Diante disso, um deles veio com um grande porrete e jurou que, “se ela dissesse mais uma palavra, ele lhe arrebentaria a cabeça e a enterraria na vala”. Depois foi e quebrou todo o vidro que restava. O mesmo fizeram com muitas das casas vizinhas.

7. No dia 19 de junho, James Yeoman, de Walsal, viu Mary Bird na casa do pai dela, em Wensbury, e jurou: “Por D…, agora você está aí, mas amanhã nós vamos matá-la.” De fato, veio com uma turba no dia seguinte e, depois que quebraram todas as janelas, apanhou uma pedra e disse: “Agora, por D…, vou matar você.” Atirou-a e a atingiu do lado da cabeça. O sangue jorrou, e ela caiu imediatamente.

Outro deles agarrou pelo pescoço o Sr. Hands, de Wensbury, jurou que seria a morte dele, deu-lhe um grande giro e o atirou ao chão. Assim que ele se levantou, um certo Equal Baker deu-lhe um soco no olho e o derrubou de novo. Cerca de meia hora depois, a turba veio à casa dele e quebrou todas as janelas, menos umas vinte vidraças. As janelas da cozinha, arrancaram por inteiro, chumbo, grades e tudo; quebraram os batentes e os atiraram dentro da casa. A loja estava fechada (ele era boticário), mas logo quebraram todos os potes e frascos e destruíram todos os seus remédios. Despedaçaram também as prateleiras e gavetas da loja e muitos dos seus utensílios domésticos.

8. Em 13 de janeiro de 1743/4, a turba levantou-se de novo em Darlaston, quebrou todas as janelas de todos os que seguiam este Caminho (exceto dois ou três que compraram a própria isenção), arrombou várias casas e levou o que quis, tendo os moradores fugido para salvar a vida. [N. do T.: a data dupla reflete o calendário então vigente na Inglaterra, em que o ano civil começava em 25 de março.]

Mais ou menos na mesma época, o Rev. Sr. E… foi a Darlaston e, reunindo-se com alguns outros na casa de Thomas Forshew, redigiram um documento; e Nicholas Winspur, o pregoeiro da vila, anunciou publicamente “que todos os membros da sociedade deviam ir à casa do Sr. Forshew e assiná-lo, senão as suas casas seriam derrubadas imediatamente”. O teor era este: “Que nunca mais leriam, cantariam ou orariam juntos, nem ouviriam mais esses párocos.”

Vários assinaram por medo. Fizeram cada um dos que assinaram depositar um pêni: “PARA DAR DE BEBER À TURBA.”

9. Por volta da festa da Candelária [N. do T.: 2 de fevereiro], a mulher de Joshua Constable, de Darlaston, ia para Wensbury quando uma turba a encontrou na estrada, derrubou-a várias vezes e a maltratou de um modo horrível demais para se escrever. Obteve-se um mandado contra alguns deles. Mas só um foi levado à presença do Sr. G…, e ele voltou e contou aos companheiros que o juiz dissera “que podiam ir para casa cuidar da vida”. Com isso a turba levantou-se de novo, foi à casa de Joshua e destruiu todos os bens de uso que havia ali. Quebraram e estragaram também todas as ferramentas da sua oficina, arrancaram as telhas do telhado e derrubaram um cômodo, cujas vigas levaram consigo. Levaram todos os seus fechos de espingarda; rasgaram toda a roupa branca da mulher, cortaram a cama e o estrado, de modo que não serviam mais para nada, e despedaçaram a Bíblia e o Livro de Oração Comum dela. Ela e o marido se refugiaram em outra casa. Mas, quando alguém contou à turba que estavam lá, juraram “que a derrubariam imediatamente se o dono os deixasse ficar mais tempo”. Então saíram para a geada e a neve, sem saber onde reclinar a cabeça.

10. Na terça-feira, 31 de janeiro de 1743/4, Henry Old foi à casa de John Griffiths dizendo “que, se ele não deixasse de seguir este Caminho, ele tinha cem homens às suas ordens que viriam derrubar a casa dele”. Pouco depois trouxe alguns consigo, mas os vizinhos lhe deram dinheiro e o mandaram embora por aquela vez.

Na segunda-feira, 6 de fevereiro, entre sete e oito da noite, veio parte do mesmo bando. Ouvindo-os de longe, John e a mulher trancaram a porta e deixaram a casa. Alguns vizinhos, entrando pouco depois, encontraram-nos destruindo tudo o que podiam. Duas cadeiras e várias trouxas de roupa branca tinham sido postas no fogo. Depois de destruir o que puderam, carregaram-se de roupas e carne e foram embora.

No mesmo dia, foi feito um aviso público em Walsal, por meio de um papel ali afixado, “que todos os que pretendiam ajudar a quebrar as janelas e saquear as casas dos metodistas em Wensbury deviam estar prontos às dez horas da manhã seguinte no Church-hill“.

11. Na manhã seguinte, 7 de fevereiro (que era terça-feira de Carnaval), por volta das dez e meia, grande número de homens estava reunido no Church-hill. Dali desceram em marcha, uns armados de espadas, outros de porretes e outros de machados. Primeiro caíram sobre a casa de Benjamin Watson e quebraram muitas das telhas e todas as janelas. Em seguida foram à casa do Sr. Addinbrook, quebraram um belo relógio e muitos dos seus bens e roubaram tudo o que puderam carregar. A casa seguinte era a de Jane Smith, cujas janelas quebraram, junto com os poucos bens que ela possuía. A seguinte era a do Sr. Bird, onde destruíram tudo o que encontraram, exceto o que levaram, cortando as camas em pedaços, como fizeram com todas as camas que conseguiram encontrar em qualquer lugar. Dali foram à casa do Sr. Edge; ele estava de cama com febre, e assim, por uma soma em dinheiro, passaram adiante. A casa seguinte era a do Sr. Hand. Quebraram todos os seus balcões, caixas e gavetas, e tudo o que machado ou martelo podia quebrar (exceto alguns estrados de cama). Derramaram todos os seus medicamentos e preparados químicos e roubaram tudo o que podiam carregar, até todas as roupas dele e da mulher, além das que eles tinham no corpo.

12. A casa do Sr. Eaton foi a seguinte. Quebraram todas as janelas e despedaçaram todas as portas internas, arrancaram o chumbo da casa, destruíram ou roubaram tudo aquilo em que puderam pôr as mãos. Alguns cavalheiros se ofereceram para detê-los, se ele assinasse um papel que dava a entender “que ele nunca mais ouviria aqueles párocos”. Mas ele lhes disse que “já tinha sentido o que era uma consciência ferida, e, pela graça de Deus, não feriria mais a sua consciência”.

Depois de terminarem na casa do Sr. Eaton, saquearam várias outras casas em Wensbury e West Bramwick. É quase impossível descrever os ultrajes que cometeram. Só deixaram com vida aqueles a quem saquearam.

Enquanto saqueavam a casa de John Turner, ele atravessou o riacho a vau para tentar salvar alguns dos seus bens, que um certo David Garington estava levando. Diante disso, Garington lhe disse “que ali aconteceria o mesmo que na Irlanda, pois muito em breve haveria um massacre. E que ele desejava que fosse agora“.

13. Por volta das onze horas, Sarah, mulher de John Sheldon, ao saber que a turba vinha para a sua casa, foi ao encontro deles no portão. Perguntou a John Baker, o chefe deles, “o que tinham vindo fazer”. Ele respondeu que, “se ela não quisesse ter nada a ver com essa gente, nem um centavo dos seus bens seria danificado”. Ela não respondeu. Então arrombaram a porta e começaram a quebrar e saquear os bens. Vendo um deles sair com uma pá de lareira, ela lhe pediu “que não a levasse”. Ele jurou que, se ela dissesse mais uma palavra, “lhe arrebentaria os miolos”.

Enquanto isso, John Sheldon estava ajudando Thomas Parkes a esconder os seus bens, embora soubesse pelo barulho que estavam despedaçando os dele. Entre as duas e as três, chegou em casa com William Sitch. William perguntou a Sarah como ela estava, dizendo que, “quanto a ele, aceitava com alegria o saque dos seus bens”. Ela respondeu que, “vendo tanta maldade, não conseguia se alegrar; mas bendizia a Deus porque podia suportá-lo com paciência e não encontrava em si a menor ira”. John Sheldon, vendo o estrago que tinham feito, sorriu e disse: “Que obra estranha.” A mulher lhe disse que, “se tivesse aceitado as condições deles, nem um centavo teria sido danificado”. Ele respondeu “que, se ela tivesse consentido em negar a verdade, e ele encontrasse os seus bens intactos por esse motivo, nunca mais teria paz enquanto vivesse; mas bendizia a Deus porque ela preferira sofrer a injustiça”.

Creio que todo homem sensato admitirá que nada pode desculpar esses procedimentos, visto que são violações abertas e descaradas tanto da justiça como da misericórdia e de todas as leis divinas e humanas.

III. Suponho que nenhum protestante se proponha defender tais procedimentos, nem mesmo contra os mais vis miseráveis. Mas muitíssimas desculpas têm sido dadas, se não para combater essa obra desse modo, ao menos para negar que ela seja de Deus e para não reconhecer o tempo da nossa visitação.

Alguns alegam que as doutrinas desses homens são falsas, errôneas e entusiásticas; que são novas e nunca ouvidas até pouco tempo atrás; que são quakerismo, fanatismo, papismo.

Todo esse pretexto já foi cortado pela raiz! Já se mostrou extensamente que cada ramo dessa doutrina é a doutrina clara das Escrituras, interpretada pela nossa própria Igreja. Portanto, ela não pode ser nem falsa nem errônea, desde que as Escrituras sejam verdadeiras. Nem pode ser entusiástica, a menos que o mesmo epíteto caiba aos nossos Artigos, Homilias e liturgia. Também não se podem chamar essas doutrinas de novas, pelo menos não mais novas que o reinado da rainha Elizabeth, nem mesmo quanto ao modo de expressão ou à maneira como são apresentadas. E, quanto à substância, são mais antigas ainda: tão antigas não só quanto o evangelho, quanto os tempos de Isaías, de Davi ou de Moisés, mas quanto a primeira revelação de Deus ao homem. Se, portanto, elas eram desconhecidas até pouco tempo atrás em algum país que se diz cristão, maior é a culpa daqueles que, como embaixadores de Cristo, deveriam proclamá-las dia após dia.

Fanatismo, se significa alguma coisa, significa o mesmo que entusiasmo, ou loucura religiosa, da qual (como já se observou) essas doutrinas distam tanto quanto o Oriente do Ocidente. No entanto, é uma palavra conveniente para atirar contra qualquer coisa de que não gostamos, porque mal um leitor em mil tem alguma ideia do que ela significa. Se alguma parte dessa doutrina é sustentada pelos quakers, tanto mais razão há para nos alegrarmos. Quisera Deus que eles a sustentassem inteira, embora a doutrina em si não ficasse nem melhor nem pior por isso.

Papismo, na boca de muita gente, não significa absolutamente nada, ou no máximo “alguma coisa muito horrível e ruim”. Mas papismo, propriamente falando, são as doutrinas distintivas da Igreja de Roma. Elas estão resumidas nos doze artigos que o Concílio de Trento acrescentou ao Credo Niceno. Ora, quem consegue achar a menor relação entre qualquer um deles e as doutrinas de que estamos falando?

2. Outros alegam: “A doutrina deles é severa demais. Eles fazem o caminho do céu estreito demais.” E esta é, na verdade, a objeção original (como foi, por algum tempo, quase a única), e está secretamente no fundo de mil outras, que aparecem sob várias formas. Mas fazem eles o caminho do céu mais estreito do que o fizeram o nosso Senhor e os seus apóstolos? A doutrina deles é mais severa que a da Bíblia? Considerem apenas alguns textos claros. Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e com toda a sua força (Mc 12.30). No Dia do Juízo, as pessoas darão conta de toda palavra inútil que proferirem (Mt 12.36). Se vocês comem, ou bebem ou fazem qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus (1Co 10.31). Se a doutrina deles é mais severa do que isso, eles merecem censura. Mas vocês sabem, na sua consciência, que não é. E quem pode ser um mínimo menos severo sem corromper a palavra de Deus? Pode algum encarregado dos mistérios de Deus ser encontrado fiel (1Co 4.1-2), se alterar qualquer parte desse sagrado depósito? Não. Ele não pode diminuir nada, não pode suavizar nada. É constrangido a declarar a todos os homens: “Não posso rebaixar as Escrituras ao gosto de vocês. Vocês têm de subir até elas, ou perecer para sempre.”

3. Esse é o verdadeiro fundamento daquele outro clamor popular sobre “a falta de caridade desses homens”. Eles não têm caridade? Em que sentido? Não alimentam os famintos e não vestem os nus? Não, não é isso. Nisso eles não falham. Mas são tão sem caridade no julgar! Pensam que ninguém pode ser salvo senão os do seu próprio caminho. Condenam o mundo inteiro, exceto a si mesmos.

O que vocês querem dizer? “Pensam que ninguém pode ser salvo senão os do seu próprio caminho.” Com toda a certeza pensam. Pois, assim como há um só céu, há um só caminho para ele: o caminho da fé em Cristo (pois não falamos de opiniões nem de formas exteriores de culto), o caminho do amor a Deus e aos homens, o Caminho Santo (Is 35.8). E é falta de caridade pensar ou dizer que ninguém pode ser salvo senão os que andam por esse caminho? Era então sem caridade aquele que declarou: Quem não crer será condenado (Mc 16.16)? Ou aquele que disse: Busquem a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor (Hb 12.14)? E ainda: Ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, contudo, se não tiver (ἀγάπην) caridade, amor, tudo isso de nada me adiantará (1Co 13.3).

“Mas eles condenam todos, vocês dizem, exceto a si mesmos.” Condenam todos! Que espécie de palavra é essa? Eles não condenam ninguém. Ninguém é capaz de condenar homem algum, senão o Senhor e juiz de todos. O que vocês provavelmente querem dizer com essa expressão estranha é que eles declaram que Deus condena todos, exceto os que creem em Jesus Cristo, o amam e guardam os seus mandamentos. E assim também vocês devem declarar, ou pecam contra Deus, contra o próximo e contra a própria alma. Mas há alguma falta de caridade nisso? Em advertir os pecadores a fugir da ira que está por vir (Mt 3.7)? Pelo contrário, não advertir um pobre infeliz, cego e insensível, de que está suspenso sobre a boca do inferno, seria uma falta de caridade tão indesculpável que faria cair o sangue dele sobre a nossa própria cabeça.

4. Mas não há espaço para discussão sobre essas doutrinas em geral, visto que o nosso Senhor lhes dá uma regra tão clara, pela qual vocês podem saber fácil e infalivelmente se elas são de Deus. Tornem a árvore boa e o seu fruto será bom, ou tornem a árvore má e o seu fruto será mau; porque pelo fruto se conhece a árvore (Mt 12.33). Ora, que fruto a árvore que temos diante de nós produz? Olhem e vejam; acreditem nos seus próprios olhos e ouvidos. Os pecadores deixam os seus pecados. Os servos do diabo se tornam servos de Deus. Isso é fruto bom ou mau? Que o vício perca terreno e a virtude, a religião prática, o ganhe? Oh, não discutam mais. Conheçam a árvore pelo seu fruto. Inclinem-se e reconheçam o dedo de Deus.

Mas muitos que reconhecem que essas doutrinas são de Deus não conseguem, ainda assim, conformar-se com os instrumentos de que ele se serviu. Uma objeção muito comum contra estes é (e foi desde o princípio) “que eles são tão jovens“. Portanto (muitíssimos concluíram de pronto), “esta obra não pode ser de Deus”.

Talvez não sejam tão jovens como vocês imaginam. O Sr. Whitefield tem agora mais de trinta anos; meu irmão tem trinta e sete anos de idade. Eu já vivi mais de quarenta e dois anos. E um cavalheiro da Cornualha, para quem muitas vezes prego, tem o mérito de ter vivido setenta e sete anos.

Mas, supondo verdadeira a premissa, que consequência é essa? Que sombra de apoio vocês têm nas Escrituras para ela? Não envia Deus por meio de quem ele quer enviar (Êx 4.13)? E quem lhe dirá: O que estás fazendo? (Jó 9.12) “Estes são jovens demais; envia homens mais velhos.” Que sombra de razão? Não é possível que uma pessoa de trinta ou quarenta anos tenha um juízo tão verdadeiro nas coisas de Deus, e uma bênção tão grande acompanhando a sua pregação, quanto alguém de cinquenta ou oitenta?

Gostaria que o senhor se explicasse um pouco sobre este ponto:

Scire velim, verbo, pretium quotus arroget annus? [Gostaria de saber, numa palavra, que idade confere valor?]

Que idade o senhor exige que um homem tenha, para que Deus tenha licença de falar pela boca dele? Ó meus irmãos, quem poderia acreditar que algum homem sério chegaria um dia a apresentar um argumento como este? Ainda mais quando tanto a Escritura quanto a razão ensinam que Deus, nisso, não presta contas de nenhum dos seus atos (Jó 33.13). Ele, porém, opera por meio de quem quer operar; mostra misericórdia por meio de quem quer mostrar misericórdia.

6. “Mas são apenas umas poucas cabeças jovens.” Não posso deixar de observar aqui quanto esforço se fez, quanta diligência se empregou, para torná-las e mantê-las poucas. Que artifícios não foram usados para afastar sobretudo aqueles do clero que, de tempos em tempos, ficaram claramente convencidos de que deviam unir o coração e as mãos nesta obra? Nessa ocasião, considerou-se meritório dizer, mentindo, todo mal contra nós (Mt 5.11); prometer-lhes tudo o que o coração deles desejasse, se se afastassem desses homens; e, por outro lado, ameaçá-los com coisas pesadas, se algum dia voltassem a andar com eles. De modo que, por mais plenamente convencidos que estivessem, não podiam agir de acordo com a sua convicção, a não ser que abrissem mão de uma vez de toda ideia de promoção, quer na Igreja, quer no Estado; e mais, de toda esperança até mesmo de uma vaga de membro de colégio ou de uma pobre bolsa de estudo em qualquer das duas universidades. Muitos também foram ameaçados de que, se continuassem nesse caminho, o pouco que tinham lhes seria tirado. E muitos, exatamente por esse motivo, foram rejeitados pelos amigos mais queridos e pelos parentes mais próximos. Assim, não havia possibilidade nenhuma de que o número desses trabalhadores aumentasse, a não ser por meio daqueles que pudessem romper todos esses laços, que nada desejassem neste mundo presente, que não considerassem preciosos para si nem a fortuna, nem os amigos, nem a vida, contanto que pudessem ter sempre uma consciência pura diante de Deus e dos homens (At 24.16).

7. Mas o que o senhor conclui do fato de serem poucos? Que, por serem poucos, Deus não pode operar por meio deles? Em que passagem da Escritura o senhor se apoia para isso? Eu pensava que nada pode impedir o Senhor de livrar, seja com muitos ou com poucos (1Sm 14.6). Em que razão? Por que Deus não poderia salvar dez mil almas por meio de um só homem, tanto quanto por meio de dez mil? Como é pequena, como é insignificante diante de Deus a circunstância do número! Mais ainda: não há razão para crer que, sempre que Deus se agrada de operar um grande livramento, espiritual ou temporal, ele pode dizer primeiro, como antigamente: É demais o povo que está com você, para eu entregar os midianitas nas suas mãos (Jz 7.2)? Não pode ele escolher de propósito instrumentos poucos, além de insignificantes, para maior manifestação da sua própria glória? Muito poucos, admito, são os instrumentos agora empregados; e, no entanto, uma grande obra já foi realizada. E quanto menos numerosos forem aqueles por meio de quem esta grande colheita foi recolhida até agora, tanto mais evidente há de parecer a mentes sem preconceito que a obra não é de homens, mas de Deus.

8. “Mas eles não são apenas poucos; são também sem instrução.” Esta é uma ofensa grave, e muitos a consideram desculpa suficiente para não reconhecer que a obra é de Deus.

O fundamento dessa ofensa é em parte verdadeiro. Alguns dos que agora pregam são sem instrução. Não entendem as línguas antigas, nem nenhum dos ramos da filosofia. E, no entanto, muitos dos que frequentemente fizeram essa objeção poderiam tê-la poupado, porque eles também são sem instrução (embora tidos por outra coisa). Eles mesmos não possuem justamente aquilo que exigem dos outros.

Os homens em geral estão em grande engano a respeito do que se chama “o mundo erudito”. Não sabem, nem conseguem facilmente imaginar, quão pouca erudição existe entre eles. Não falo de erudição recôndita, mas daquilo que todos os teólogos, pelo menos os de algum renome, supostamente possuem, a saber: o conhecimento das línguas, ao menos latim, grego e hebraico, e das artes e ciências comuns.

Quão poucos homens de erudição, assim chamados, entendem hebraico? Ao menos a ponto de ler um capítulo simples de Gênesis? E mais: quão poucos entendem grego? Façam uma experiência fácil. Peçam àquele homem grave que insiste nessa objeção que lhes diga apenas, em inglês, o sentido do primeiro parágrafo que aparecer num dos diálogos de Platão. Receio que possamos ir ainda mais longe. Quão poucos entendem latim? Deem a um deles uma epístola de Túlio e vejam com que presteza ele a explicará sem o seu dicionário. Se ele conseguir avançar aos tropeços por ela, é bem provável que uma geórgica de Virgílio ou uma sátira de Pérsio o deixe atolado.

E quanto às artes e ciências: quão poucos entendem ao menos os princípios gerais da lógica? Será que um em cada dez do clero (ó dor do coração!), ou dos mestres em artes de qualquer das duas universidades, quando se apresenta um argumento, sabe dizer ao menos o modo e a figura em que ele está formulado? Ou completar um entimema? Talvez o senhor nem entenda o termo: suprir a premissa que falta, para torná-lo um silogismo categórico completo. Será que um em cada dez deles sabe demonstrar um problema ou um teorema dos Elementos de Euclides? Ou definir os termos comuns usados na metafísica? Ou explicar de modo inteligível os primeiros princípios dela? Por que, então, pretendem ter uma erudição que eles mesmos sabem que não têm? E mais: por que censuram outros que não a têm e não pretendem tê-la? Para onde fugiram a sinceridade e a franqueza?

Facilmente se observará que não desprezo a erudição de nenhum tipo. O conhecimento das línguas é um talento valioso, e assim também o conhecimento das artes e ciências. Tanto um quanto o outro podem ser empregados para a glória de Deus e o bem dos homens. Mas pergunto ainda: onde Deus declarou na sua palavra que não pode ou não quer fazer uso de homens que não os possuem? Moisés, ou algum dos profetas, afirmou isso? Ou o nosso Senhor? Ou algum dos seus apóstolos? O senhor sabe que todos eles estão contra o senhor. Sabe que os próprios apóstolos, todos exceto São Paulo, eram ανδρες αγραμματοι και ιδιωται, homens comuns, sem filosofia e sem letras.

9. “O quê! Então vocês se fazem semelhantes aos apóstolos.” Como essa objeção tola foi apresentada tantas vezes, vou gastar com ela, ao menos desta vez, algumas palavras, embora ela não mereça essa honra. Ora, não precisa todo homem, seja clérigo, seja leigo, ser em alguns aspectos semelhante aos apóstolos, ou ir para o inferno? Pode algum homem ser salvo se não for santo, semelhante aos apóstolos? Seguidor deles, assim como eles o foram de Cristo? E não deve todo pregador do evangelho ser, de modo especial, semelhante aos apóstolos, tanto nas disposições santas quanto no exemplo de vida e nos seus trabalhos incansáveis pelo bem das almas? Ai de todo embaixador de Cristo que não for semelhante aos apóstolos nisso! Na santidade; em cumprir plenamente o seu ministério (2Tm 4.5); em gastar e deixar-se gastar por Cristo (2Co 12.15)! Não podemos, e por isso não precisamos, ser semelhantes a eles em operar milagres exteriores. Mas podemos e devemos sê-lo em cooperar com Deus (2Co 6.1) para a salvação dos homens. E o mesmo Deus que estava sempre pronto a socorrer as fraquezas deles está pronto a socorrer também as nossas. Aquele que fez deles obreiros que não têm de que se envergonhar ensinará também a nós a manejar bem a palavra da verdade (2Tm 2.15). Também neste aspecto, quanto a receber socorro de Deus para a obra a que é chamado, todo pregador do evangelho é semelhante aos apóstolos. Do contrário, ele é o mais infeliz de todos os homens (1Co 15.19).

10. E ouso afirmar que esses homens sem letras recebem socorro de Deus para aquela grande obra, que é salvar almas da morte, visto que ele os capacitou, e ainda os capacita, a conduzir muitos à justiça (Dn 12.3). Assim ele destruiu a sabedoria dos sábios e aniquilou a inteligência dos inteligentes (1Co 1.19). Quando imaginavam ter fechado de vez a porta e trancado toda passagem pela qual algum socorro pudesse chegar a dois ou três pregadores, fracos tanto de corpo quanto de alma, que eles podiam razoavelmente supor que, humanamente falando, se desgastariam em pouco tempo; quando tinham alcançado o seu objetivo, assegurando para si (como supunham) todos os homens de erudição da nação, aquele que habita nos céus deu risada deles (Sl 2.4) e veio sobre eles por um caminho em que não tinham pensado. Destas pedras fez surgir aqueles que haveriam de gerar filhos a Abraão (Mt 3.9). Não tínhamos previsto isso mais do que vocês. E mais: tínhamos os preconceitos mais profundos contra isso, até que não pudemos deixar de reconhecer que Deus dava a sabedoria lá do alto (Tg 3.17) a esses homens iletrados e incultos (At 4.13), de modo que a obra do Senhor prosperava nas mãos deles, e pecadores se convertiam a Deus todos os dias.

Na verdade, naquilo único que professam saber, não são homens incultos. Confio que não há um só deles que não seja capaz de passar por um exame de teologia substancial, prática e experimental, como poucos dos nossos candidatos às ordens sacras, mesmo na universidade (digo-o com tristeza e vergonha, e com terno amor), são capazes de fazer. Mas, ah! que tipo de exame a maioria desses candidatos enfrenta? E que prova são os atestados que comumente apresentam (por mais solene que seja a fórmula em que estão redigidos), seja da piedade, seja do conhecimento daqueles a quem são confiadas as ovelhas que Deus comprou com o seu próprio sangue (At 20.28)!

11. “Mas eles são leigos. O senhor mesmo parece perceber a força desta objeção. Pois, de tantas que respondeu, observo que nunca tocou nesta, nem de leve.”

Não toquei. No entanto, não foi desconfiança da minha causa, mas ternura para com o senhor, o que ocasionou o meu silêncio. Eu tinha algo a apresentar também sobre este ponto, mas temia que o senhor não conseguisse suportá-lo. Eu tinha consciência de que, alguns anos atrás, tocar neste ponto era tocar na menina dos meus olhos. E isso me deixa quase sem vontade de falar agora, para não chocar os preconceitos que não posso remover.

Permita-me, porém, apenas sugerir-lhe algumas coisas, que deixo para a sua consideração posterior. Os escribas de antigamente, que eram os pregadores ordinários entre os judeus, não eram sacerdotes; não eram mais do que leigos. Mais ainda: muitos deles eram inaptos para o sacerdócio, por serem da tribo de Simeão, e não de Levi.

Daí provavelmente vinha que os próprios judeus nunca apresentaram como objeção à pregação do nosso Senhor (nem mesmo aqueles que não reconheciam nem criam que ele fora enviado por Deus num caráter extraordinário) que ele não era sacerdote segundo a ordem de Arão. Nem poderia sê-lo, visto que era da tribo de Judá.

Tampouco parece que alguém tenha feito essa objeção aos apóstolos. Muito pelo contrário: em Antioquia da Pisídia, encontramos os chefes da sinagoga mandando dizer a Paulo e Barnabé, forasteiros recém-chegados à cidade: Irmãos, se vocês têm alguma palavra de consolo para o povo, falem (At 13.15). [N. do T.: onde a NAA traz “palavra de consolo”, a versão inglesa usada por Wesley diz “palavra de exortação”.]

Se considerarmos essas coisas, ficaremos menos surpresos com o que ocorre no capítulo 8 de Atos: Naquele dia, teve início uma grande perseguição contra a igreja, e todos foram dispersos (isto é, toda a igreja, todos os que criam em Jesus) pelas regiões da Judeia e da Samaria (v. 1). Os que foram dispersos iam por toda parte pregando a palavra (v. 4). Ora, que sombra de razão temos para dizer, ou pensar, que todos esses foram ordenados antes de pregar?

12. Se passarmos a tempos mais recentes: o Sr. Calvino foi ordenado? Foi ele presbítero ou diácono? E não eram também leigos a maioria daqueles que aprouve a Deus empregar na promoção da Reforma no continente? Poderia aquela grande obra ter sido promovida em muitos lugares, se leigos não tivessem pregado? E, no entanto, quão raramente os próprios papistas apresentam isso como objeção contra a Reforma! E mais: rigorosos como são em coisas desse tipo, eles mesmos determinam, até em algumas das suas ordens mais estritas, que “se algum irmão leigo crer que é chamado por Deus para pregar como missionário, o superior da ordem, sendo informado disso, deverá enviá-lo imediatamente”.

Em todas as igrejas protestantes é ainda mais evidente que a ordenação não é considerada pré-requisito necessário da pregação. Pois na Suécia, na Alemanha, na Holanda e, creio eu, em toda igreja reformada da Europa, não apenas se permite, mas se exige que, antes de alguém ser ordenado (antes de ser admitido até mesmo às ordens de diácono, onde quer que se mantenha a distinção entre presbíteros e diáconos), ele pregue publicamente durante um ano ou mais ad probandum facultatem [para pôr à prova a sua capacidade]. E para essa prática eles creem ter a autoridade de uma ordem expressa de Deus: Também estes devem ser primeiramente experimentados; e, caso se mostrem irrepreensíveis, que exerçam o diaconato (1Tm 3.10).

13. “Na Inglaterra, porém, não há nada desse tipo; nenhum leigo tem permissão de falar em público.” Não? O senhor pode ignorar que em cem igrejas eles fazem isso continuamente? Em quantas (particularmente no oeste da Inglaterra) o sacristão da paróquia lê uma das lições? (Em algumas ele lê todo o ofício da igreja, talvez todo domingo.) E não fazem outros leigos constantemente a mesma coisa, sim, nas nossas próprias catedrais? As quais, estando sob a inspeção mais imediata dos bispos, deveriam ser modelo para todas as outras igrejas.

Talvez se diga: “Mas isso não é pregar.” É, sim, essencialmente. Pois o que é pregar senão prædicare verbum Dei [pregar a palavra de Deus]? Publicar a palavra de Deus? E isso os leigos fazem por toda a Inglaterra, especialmente sob os olhos de todos os bispos da nação.

E mais: não se faz isso nas próprias universidades? Quem ordenou aquele cantor de Christ Church? Que, além disso, é totalmente desqualificado para a obra, assassinando cada lição que lê? Sem nem mesmo se esforçar para lê-la como palavra de Deus, mas antes como uma canção velha? Um leigo como esse, metendo-se de algum modo com a palavra de Deus, admito, é um escândalo para a nação inglesa.

Indo um passo além: as constituições fundamentais da Universidade de Oxford, os estatutos, mesmo na forma revista pelo arcebispo Laud, não exigem que todo bacharel em artes, nove em cada dez dos quais são leigos, leia três preleções públicas de filosofia moral, sobre qualquer assunto que escolha? O meu assunto, lembro-me bem, foi o AMOR de Deus. Ora, o que foi isso senão pregar?

E mais: não pode um homem ser doutor em teologia, mesmo em Oxford, ainda que nunca tenha sido ordenado? O caso do doutor Atwell, até há pouco reitor do Exeter College, está fresco na memória de todos.

Estas são algumas das considerações que podem facilmente ocorrer a qualquer homem que pense sobre este ponto. Mas não faço a causa repousar sobre elas. Creio que ela pode ser defendida por um caminho mais curto.

14. Aprouve a Deus chamar muitos pecadores ao arrependimento por meio de dois ou três ministros da Igreja da Inglaterra. Em vários lugares, esses pecadores foram, de modo inegável, afastados de uma vida de pecado e levados a uma vida de santidade.

Os ministros dos lugares onde isso aconteceu deveriam ter recebido aqueles ministros de braços abertos e tomado sob o seu cuidado especial os que tinham acabado de começar a servir a Deus, vigiando-os com terno amor, para que não voltassem a cair no laço do diabo.

Em vez disso, a maior parte falou daqueles ministros como se o diabo, e não Deus, os tivesse enviado. Alguns os repeliram da mesa do Senhor; outros incitaram o povo contra eles, apresentando-os, até nos seus discursos públicos, como sujeitos indignos de viver; papistas, hereges, traidores; conspiradores contra o seu rei e o seu país.

E como vigiaram os pecadores recém-reformados? Assim como o leopardo vigia a sua presa. Expulsaram também alguns deles da mesa do Senhor, da qual até então eles não tinham nenhum desejo de se aproximar. Pregaram contra eles todo tipo de mal, amaldiçoando-os abertamente em nome do Senhor. Tiraram muitos do seu trabalho, persuadiram outros a fazer o mesmo e os perseguiram de todas as maneiras.

O resultado foi que alguns se cansaram e assim voltaram ao seu vômito (2Pe 2.22). E então esses bons pastores se gloriaram sobre eles e procuraram abalar outros com o exemplo deles.

15. Quando os ministros por meio de quem Deus os havia socorrido antes voltaram àqueles lugares, grande parte da sua obra tinha de começar de novo, se é que podia ser recomeçada; mas os que haviam recaído estavam muitas vezes tão endurecidos no pecado que nenhuma impressão se podia causar neles.

Que podiam eles fazer num caso de necessidade tão extrema? Em que tantas almas estavam em jogo?

Nenhum clérigo quis ajudar em nada. O recurso que restava era encontrar entre eles mesmos alguém que fosse reto de coração e de juízo sadio nas coisas de Deus, e pedir-lhe que se reunisse com os demais tantas vezes quanto pudesse, a fim de confirmá-los, na medida de sua capacidade, nos caminhos de Deus, quer lendo para eles, quer pela oração, quer pela exortação.

Deus imediatamente deu a sua bênção a isso. Em vários lugares, por meio desses homens simples, não só aqueles que já tinham começado a correr bem foram impedidos de recuar para a perdição, mas também outros pecadores, de tempos em tempos, foram convertidos do erro dos seus caminhos.

Este relato simples de todo o procedimento é, a meu ver, a melhor defesa dele. Não conheço nenhuma passagem da Escritura que proíba o uso de tal auxílio num caso de tamanha necessidade. E louvo a Deus, que deu até este auxílio àquelas pobres ovelhas, quando os seus próprios pastores não se compadeciam delas (Zc 11.5).

“Mas a Escritura não diz: Ninguém toma esta honra para si mesmo, a não ser quando chamado por Deus, como aconteceu com Arão (Hb 5.4)?” Nem estes a tomam. A honra aqui mencionada é o sacerdócio. Mas eles não pretendem ser sacerdotes mais do que pretendem ser reis. Não pretendem administrar os sacramentos, honra própria dos sacerdotes de Deus. Apenas, segundo a sua capacidade, exortam os seus irmãos a permanecer na graça de Deus.

“Mas que esses leigos exortem, por pouco que seja, é uma violação de toda ordem.”

Que ordem é essa de que o senhor fala? Servirá ela em lugar do conhecimento e do amor de Deus? Livrará essa ordem dos laços do diabo aqueles que agora estão presos por ele para fazerem o que ele quer (2Tm 2.26)? Impedirá ela que os que escaparam um pouco voltem para o Egito? Se não, como eu responderia a Deus se, para não violar não sei que ordem, sacrificasse a ela milhares de almas? Não ouso fazer isso. Seria com risco da minha própria alma.

Na verdade, se por ordem se entendesse a verdadeira disciplina cristã, pela qual todos os membros vivos de Cristo se unem num só corpo, e todos os que estão podres e mortos são imediatamente cortados do corpo, a essa ordem eu reverencio, pois ela é de Deus. Mas onde se encontra? Em que diocese? Em que cidade ou paróquia da Inglaterra ou do País de Gales? O senhor é pároco de alguma paróquia? Então não precisamos ir mais longe. Essa ordem vigora ali? De modo nenhum. Os seus paroquianos são uma corda de areia. Assim como poucos deles (se é que algum) estão vivos para Deus, também não têm entre si nenhuma ligação, a não ser a que poderia haver entre turcos ou pagãos. E nem o senhor tem poder algum para cortar desse corpo, se ele estivesse vivo, os membros mortos e podres. Talvez nem tenha desejo disso; tudo está misturado, sem nenhum cuidado ou preocupação de sua parte.

É claro, então, que a ordem que existe não se encontra entre o senhor e os seus, que tão ruidosamente lutam por ela, mas justamente entre aquele povo que o senhor continuamente censura pela sua violação e pelo seu desprezo dela. O pequeno rebanho que o senhor condena está unido num só corpo por um só Espírito, de modo que, se um membro sofre, todos sofrem com ele; e, se um deles é honrado, todos os outros se alegram com ele (1Co 12.26). Nem permanece nele por muito tempo algum membro morto; assim que passa a esperança de recuperá-lo, ele é cortado.

Agora suponha que estivéssemos dispostos a renunciar ao nosso encargo e entregar este rebanho nas suas mãos: o senhor observaria a mesma ordem que nós agora observamos, com eles e com as outras almas sob o seu cuidado? O senhor não ousa, porque faz acepção de pessoas. O senhor teme o rosto dos homens. O senhor não pode, porque não venceu o mundo (1Jo 5.4). O senhor não está acima do desejo das coisas terrenas. E é impossível que o senhor venha a ter alguma verdadeira ordem, ou exercer alguma disciplina cristã, enquanto não estiver inteiramente crucificado para o mundo (Gl 6.14), enquanto não desejar mais nada senão a Deus.

Considere esta questão, eu lhe peço, um pouco mais. Aqui estão trinta mil pessoas (talvez um pouco mais) de quem eu cuido, zelando pela alma delas como quem deve prestar contas (Hb 13.17). Para isso, cabe a mim (assim julgo), com risco da minha própria salvação, conhecer não só os seus nomes, mas o seu estado exterior e interior, as suas dificuldades e os seus perigos. Do contrário, como posso saber guiá-las corretamente, ou recomendá-las a Deus em oração? Ora, se eu estiver disposto a transferi-las para o senhor, o senhor zelará por elas da mesma maneira? O senhor terá com cada alma o mesmo cuidado (ou tanto mais quanto quiser) que eu tive até agora? Não uma curam animarum [cura de almas] como a que o senhor exerceu nestes dez anos na sua própria paróquia. Pobre nome vazio! Não foi a sua paróquia, de fato, tanto uma sinecura para o senhor quanto a sua prebenda? Oh, que contas o senhor tem de prestar ao grande Pastor e Bispo das almas (1Pe 2.25)! [N. do T.: sinecura (do latim sine cura, “sem cura de almas”) era o benefício eclesiástico que rendia sem exigir trabalho pastoral; prebenda era a renda ligada a um posto numa catedral.]

18. Há ainda mais uma desculpa para negar esta obra de Deus, tirada dos instrumentos empregados nela, a saber: “Que eles são homens perversos.” E mil histórias têm circulado para prová-lo.

Mas vocês podem observar que da perversidade deles não se ouviu falar até depois que andaram por toda parte, fazendo o bem (At 10.38). A reputação deles de honestidade estava até então sem mancha, mas era impossível que continuasse assim quando passaram a ser publicamente empregados em dar testemunho a respeito do mundo, dizendo que as suas obras são más (Jo 7.7). Não podia deixar de se cumprir a Escritura: O servo não está acima do seu senhor. Se chamaram o dono da casa de Belzebu, quanto mais os membros da sua casa! (Mt 10.24-25).

Ainda assim, não posso deixar de lembrar aos homens ponderados de que modo notável a sabedoria de Deus, durante muitos anos, se precaveu contra esse pretexto, particularmente no que diz respeito a meu irmão e a mim. Dificilmente dois homens da nossa condição, na Grã-Bretanha, foram tão expostos, por assim dizer, ao mundo inteiro; sobretudo entre aqueles que desde a infância sempre amaram e buscaram com empenho o retiro. E eu tinha conseguido o que buscava; estava bem seguro, como supunha, numa pequena cidade do interior, quando o doutor Morley, o único homem então na Inglaterra a quem eu não podia negar nada, me pediu que voltasse a Oxford sem demora, para assumir o cuidado de alguns jovens cavalheiros. Desde então, tanto meu irmão quanto eu (inteiramente contra a nossa vontade) passamos a ser cada vez mais observados e conhecidos, até que se falou de nós mais do que, talvez, de quaisquer outras duas pessoas tão insignificantes antes na nação. Para nos tornar ainda mais públicos, ao menos como loucos honestos, por um estranho concurso de providências que derrubou todas as nossas resoluções anteriores, fomos levados às pressas para a América. No entanto, ao voltarmos de lá, estávamos resolvidos a nos retirar do mundo de uma vez, fartos de barulho, pressa e fadiga, e sem buscar outra coisa senão o descanso. Na verdade, por um longo tempo, o maior prazer que eu desejava, deste lado da eternidade, era

Tacitum Sylvas inter reptare salubres,
Quærentem quicquid dignum sapiente bonoque. [Andar em silêncio por entre os bosques salubres, buscando tudo o que é digno do homem sábio e bom.]

E tínhamos alcançado o nosso desejo. Não nos faltava nada. Não esperávamos mais nada neste mundo, quando fomos arrastados para fora de novo, por insistência fervorosa, para pregar num lugar, e noutro, e noutro, e assim fomos levados adiante, não sabíamos como, sem nenhum propósito além do propósito geral de salvar almas, a uma situação que, se nos tivesse sido nomeada no início, nos teria parecido muito pior do que a morte.

19. Que surpreendente aparato da Providência foi esse! E que demonstrações mais fortes se poderiam ter dado de que homens agiam por zelo por Deus, fosse ele com entendimento ou não (Rm 10.2)? Que pessoas poderiam, pela natureza das coisas, ter sido (de antemão) menos sujeitas a objeção, ao menos quanto ao seu caráter moral, do que aquelas que o Deus todo-sábio agora empregou? Na verdade, não consigo imaginar que tipo de homens poderia ter sido mais irrepreensível em todos os aspectos. Se Deus nos tivesse dotado de maiores capacidades, naturais ou adquiridas, isso mesmo poderia ter sido transformado em objeção. Se fôssemos notavelmente deficientes, isso seria motivo de objeção, por outro lado. Se fôssemos dissidentes de qualquer tipo, ou mesmo homens da Igreja Baixa (assim chamados), teria sido uma grande pedra de tropeço no caminho dos que são zelosos pela Igreja. E, no entanto, se tivéssemos continuado no ímpeto do nosso zelo de Igreja Alta, nem nós estaríamos dispostos a conversar com dissidentes, nem eles a receber algum bem das nossas mãos. [N. do T.: na Igreja da Inglaterra, Igreja Alta (high church) designava os que davam grande peso à autoridade episcopal, aos sacramentos e à liturgia; Igreja Baixa (low church), os que davam menos importância a essas formas e eram mais próximos dos dissidentes.] Algumas objeções foram afastadas pelo nosso conhecido desprezo pelo dinheiro e pelas promoções; outras, pela rigorosa severidade de vida que exigíamos, não dos outros, mas apenas de nós mesmos. A tal ponto que, doze ou catorze anos atrás, a censura de alguém que nos tinha observado de perto (a mim, em particular) não ia além disto:

“Por que insiste John em ir além da sua força,
Inimigo, ao pé da letra, da sua frágil carcaça?
Descuidado da saúde, como quem tem pressa de morrer,
E esbanja o tempo para garantir a eternidade!”

Assim, considerando tudo, não vejo o que Deus poderia ter feito a mais neste aspecto que ele não tenha feito. Nem que instrumentos ele poderia ter empregado numa obra como esta que estivessem menos sujeitos a objeção.

20. Tampouco consigo conceber como teria sido possível realizar de modo menos sujeito a objeção aquela obra que, ainda estamos plenamente convencidos, nos foi imposta com risco da nossa própria alma. Pela graça de Deus, temos procedido não só com mansidão, mas com toda a ternura para com todos os homens; com toda a ternura que julgamos possível usar sem trair a alma deles. E desde o princípio tivemos especial cuidado de tratar com ternura os nossos irmãos do clero. Nunca os provocamos de propósito, nem a nenhum clérigo em particular. Não buscamos ocasião de publicar as faltas deles; deixamos de usar mil ocasiões que se ofereceram. Quando fomos constrangidos a dizer alguma coisa, dissemos o mínimo que julgamos possível sem ofender a Deus; e esse pouco, ainda que em palavras claras e fortes, dissemos tão brandamente e com tanto amor quanto pudemos. E perseveramos firmemente nesse mesmo caminho (assim como em aconselhar com insistência outros a seguir os nossos passos), mesmo vendo que, quanto a eles, com tudo isso nada aproveitávamos; mesmo sabendo que continuávamos a ser continuamente apresentados como inimigos implacáveis do clero, como quem fala mal deles, como seus caluniadores, como quem busca todas as oportunidades para denegri-los e difamá-los. Quando um clérigo me acusou com veemência de fazer isso, bendigo a Deus por ele não ter conseguido me provocar a fazê-lo. Continuei pondo mordaça à minha boca (Sl 39.1) e entreguei a minha causa a uma mão mais alta.

21. A verdade é que vocês nos imputam o ódio que está no seu próprio peito. (Não digo isso de todo o clero, Deus me livre! Mas caia sobre quem diz respeito.) Vocês, é certo, demonstraram o maior ódio contra nós, e de todas as maneiras possíveis, a não ser que viessem de fato a nos espancar (do que também não nos falta precedente) ou a nos dar um tiro na cabeça. E, se pudessem convencer outros a fazê-lo, suponho que pensariam estar prestando culto a Deus (Jo 16.2). Não falo sem fundamento. Ouvi com os meus próprios ouvidos sermões tais (em Staffordshire, particularmente) que eu não teria me admirado se, assim que saímos da igreja, o povo me tivesse apedrejado. E isso era consequência natural do que aquele pobre ministro tinha ouvido pouco antes, na visitação do bispo, assim como foi uma das grandes causas dos tumultos e ultrajes miseráveis que logo se seguiram.

É isto, meus irmãos, é a pregação de vocês, e não a nossa, que põe o povo contra vocês. As mesmas pessoas que se divertem com esses sermões não podem deixar de desprezá-los, no coração, por causa deles; até mesmo aquelas que, pela autoridade de vocês, creem na maior parte das afirmações que vocês fazem. Que pensarão então de vocês os que sabem que a maior parte do que vocês afirmam é totalmente falsa? Podem ter pena de vocês e orar por vocês, mas não podem estimá-los senão como falsas testemunhas contra Deus e contra os seus irmãos.

22. “Mas que necessidade há (dizem até alguns de espírito mais brando) dessa pregação nos campos e nas ruas? Não há igrejas suficientes para pregar?” Não, meu amigo, não há; não para nós pregarmos. Você se esquece: não nos permitem pregar nelas; do contrário, nós as preferiríamos a quaisquer outros lugares. “Bem, há ministros suficientes sem vocês.” Ministros suficientes e igrejas suficientes, para quê? Para resgatar todos os pecadores dentro dos quatro mares? Se houvesse, todos eles seriam resgatados. Mas não são resgatados. Portanto, é evidente que não há igrejas suficientes. E uma razão clara pela qual, apesar de todas essas igrejas, eles não estão nem um pouco mais perto de ser resgatados é esta: nunca entram numa igreja; talvez nem uma vez em doze meses, talvez nem durante muitos anos seguidos. Você dirá (como já vi dizerem alguns cristãos de coração terno): “Então a culpa é deles; que morram e sejam condenados”? Admito que a culpa é deles. E assim também foi culpa minha e sua quando andávamos desgarrados como ovelhas perdidas. E, no entanto, o Pastor das almas nos buscou e foi atrás de nós no deserto. E você não devia ter compaixão do seu conservo, assim como ele teve compaixão de você (Mt 18.33)? Não devemos nós também, tanto quanto está em nós, buscar e salvar o perdido (Lc 19.10)?

Vejam o amor assombroso de Deus para com os rejeitados dentre os homens! A sua terna condescendência para com a insensatez deles! Eles não davam atenção a nada que se fizesse do modo habitual. Tudo isso se perdia neles. A pregação ordinária da palavra de Deus, nem se dignavam a ouvir. Assim, o diabo tinha esses descuidados como garantidos. Pois quem os arrancaria da mão dele? Então Deus foi movido de zelo e saiu do modo habitual para salvar as almas que tinha criado. Então, além do que ordinariamente se dizia em seu nome em todas as casas de Deus da terra, ele mandou uma voz clamar no deserto: Preparem o caminho do Senhor (Mc 1.3). O tempo está cumprido. Está próximo o Reino dos Céus. Arrependam-se e creiam no evangelho (Mc 1.15; Mt 3.2).

23. Considerem com calma se não era altamente conveniente que houvesse algo desse tipo. Quão conveniente, ainda que fosse só por causa daqueles pobres pecadores contra a própria alma, que (segundo toda aparência humana) eram totalmente inacessíveis por qualquer outro caminho! E quantos destes ainda se encontram, mesmo dentro ou perto das nossas cidades mais populosas! Que multidões deles havia alguns anos atrás, tanto em Kingswood quanto nos morros em volta de Newcastle! Gente que, semana após semana, passava o dia do Senhor na taverna ou em divertimentos ociosos, e nunca se incomodava em ir à igreja, nem a qualquer culto público. Ora, vocês teriam realmente desejado que esses pobres miseráveis continuassem pecando até cair no inferno? Certamente não. Mas por que outro meio seria possível arrancá-los do fogo? Ainda que o ministro da paróquia pregasse como um anjo, de nada lhes teria aproveitado, porque não o ouviam. Mas, quando alguém chegava e dizia: “Lá adiante há um homem pregando no alto do morro”, eles corriam em bandos para ouvir o que ele diria. E Deus falava ao coração deles. É difícil conceber qualquer outra coisa que pudesse tê-los alcançado. Se não fosse a pregação ao ar livre, cuja própria raridade era justamente o que a recomendava, eles teriam continuado no erro do seu caminho e perecido no seu sangue.

24. Mas suponham que a pregação ao ar livre, num caso desse tipo, seja tão conveniente quanto se queira, ou até necessária: quem disputará conosco esta província? Não podemos desfrutá-la em paz e sem perturbação? Sem perturbação, quero dizer, de nenhum concorrente. Pois quem há entre vocês, irmãos, que esteja disposto (examinem o próprio coração) a salvar almas da morte a esse preço? Não deixariam vocês perecer mil almas, antes de serem o instrumento de resgatá-las desse modo? Não falo agora com respeito à consciência, mas aos incômodos que necessariamente a acompanham. Poderiam vocês suportá-los, se quisessem? Conseguem suportar o sol do verão batendo na cabeça descoberta? Aguentar a chuva ou o vento do inverno, de qualquer lado que sopre? São capazes de ficar ao ar livre, sem nenhuma cobertura ou proteção, quando Deus faz cair a neve como lã e espalha a geada como cinza (Sl 147.16)? E, no entanto, esses são alguns dos menores incômodos que acompanham a pregação ao ar livre. Muito além de todos eles estão a contradição dos pecadores, as zombarias tanto do vulgo grande quanto do pequeno, o desprezo e o opróbrio de todo tipo; muitas vezes, mais do que afrontas verbais: violência estúpida e brutal, às vezes com risco da saúde, dos membros ou da vida. Irmãos, vocês nos invejam esta honra? O que, eu lhes pergunto, compraria vocês para serem pregadores ao ar livre? Ou o que, na opinião de vocês, poderia induzir qualquer homem de bom senso a continuar nisso por um ano, a não ser que tivesse em si mesmo a plena convicção de que essa era a vontade de Deus a seu respeito?

É com base nessa convicção (se nos submetêssemos a essas coisas por qualquer outro motivo, isso lhes forneceria prova melhor da nossa loucura do que qualquer outra que se tenha encontrado até agora) que nós fazemos agora, pelo bem das pobres almas, o que vocês não podem, não querem e não ousam fazer. E não desejamos que vocês o façam; mas uma coisa podemos razoavelmente desejar de vocês: não aumentem as dificuldades, que já são tão grandes que, sem o grande poder de Deus, teríamos de sucumbir debaixo delas. Não ajudem a pisotear um pequeno punhado de homens que, por ora, se colocam na brecha (Ez 22.30) entre dez mil pobres miseráveis e a destruição, até que vocês encontrem outros que tomem o lugar deles.

25. É altamente necessário que alguns façam isso, para que aquelas pobres almas não se percam sem remédio. E deveria alegrar o coração de todos os que desejam que venha o Reino de Deus que tantas delas já tenham sido arrancadas da boca do leão (2Tm 4.17) por um caminho incomum (embora não ilícito). Esta circunstância, portanto, não é desculpa justa para não reconhecer a obra de Deus. Especialmente se considerarmos que, sempre que aprouve a Deus realizar alguma grande obra na terra, desde os tempos mais antigos, ele saiu mais ou menos do caminho comum: seja para despertar a atenção de um número maior de pessoas do que de outro modo lhe teria dado atenção; seja para separar os orgulhosos e altivos de coração daqueles de espírito humilde, semelhante ao de uma criança. Dos primeiros ele previu que, confiando na própria sabedoria, cairiam sobre aquela pedra e ficariam em pedaços (Mt 21.44); ao passo que os últimos, indagando com simplicidade, logo conheceriam a respeito da obra se ela é de Deus (Jo 7.17).

26. “Não (dizem alguns), mas Deus é um Deus de sabedoria. E é obra dele dar entendimento. Ao passo que este homem é um deles, e é um tolo. Vejam os frutos da pregação deles.” Não, meu amigo, você não vê. Esse é o seu engano. Um tolo ele bem pode ser. É o que parece pelo modo como fala, e talvez também como escreve. Mas isso não é nenhum dos frutos da nossa pregação. Ele já era tolo antes de nos ouvir. Assim o encontramos e, provavelmente, assim o deixaremos. Portanto, a tolice dele não deve ser imputada a nós, ainda que continue até o dia da sua morte. Assim como não fomos a causa, também não nos encarregamos da cura de males desse tipo. Nenhum homem justo, portanto, pode desculpar-se assim de reconhecer a obra de Deus.

Talvez você diga: “Ele também não é um tolo de nascença. Mas é tão ignorante! Não conhece os primeiros princípios da religião.” É bem possível. Mas tenha paciência com ele, e daqui a pouco ele os conhecerá. Sim, se estiver sinceramente empenhado em salvar a sua alma, muito mais cedo do que você pode imaginar. E, enquanto isso, nem esta é uma objeção de algum peso. Muitos, quando começam a nos ouvir, podem ser, sem culpa nenhuma nossa, completamente estranhos a toda a religião. Mas essa não é uma doença incurável. Mais um pouco de tempo, e eles poderão ser sábios para a salvação (2Tm 3.15).

A ignorância de que você se queixa entre este povo (você, que faz objeção mais ao povo do que aos seus mestres) é de outro tipo? Eles não sabem “repreender ou instruir com mansidão os que se opõem” (cf. 2Tm 2.25)? Creio no que você diz: nem todos sabem; não se revestiram de bondade e longanimidade. Quisera que se tivessem revestido; ore por eles, para que o façam; para que sejam brandos e pacientes com todos os homens. Mas e se não forem? Certamente você não faz disso um argumento de que Deus não nos enviou? O nosso Senhor veio, e nós viemos, não chamar justos, e sim pecadores (Mt 9.13) ao arrependimento: pecadores irascíveis (como esses de que você se queixa), tanto quanto os de qualquer outro tipo. Nem se pode esperar que eles sejam inteiramente libertos do seu pecado assim que começam a ouvir a palavra dele.

27. Uma pedra de tropeço maior do que essa é posta diante de vocês por aqueles que dizem e não fazem (Mt 23.3). Dou por certo que tais pessoas haverá entre nós, ainda que as expurguemos tão depressa quanto podemos: pessoas que falam muito de religião, que elogiam os pregadores, talvez sejam diligentes em ouvi-los; pode ser que leiam todos os seus livros e cantem os seus hinos; e, no entanto, nenhuma mudança se operou no coração delas. Eram antigamente como leões dentro de casa? Continuam iguais. Eram (na vida humilde) preguiçosas ou intemperantes? Eram trapaceiras ou desonestas? Exploradoras ou opressoras? Ou costumavam tomar emprestado e não pagar? O etíope não mudou a sua pele (Jr 13.23). Eram (na alta sociedade) delicadas, melindrosas, indulgentes consigo mesmas? Eram exigentes com móveis e roupas? Gostavam de futilidades, ou da sua própria e querida pessoa? O leopardo não mudou as suas manchas. E, no entanto, o fato de estarem conosco por algum tempo não prova mais do que isto: que não temos o discernimento milagroso de espíritos.

Outros vocês podem encontrar, nos quais houve uma mudança real, mas só por um tempo. Agora voltaram atrás e são filhos do inferno duas vezes mais (Mt 23.15) do que antes. Nem isso, porém, é prova alguma de que a obra anterior não fosse de Deus. Não, nem mesmo se esses apóstatas, com a maior confiança, disserem todo tipo de mal contra nós. Espero que o digam. Pois toda outra injúria foi perdoada, e o será até o fim do mundo. Mas dificilmente alguém perdoará a injúria intolerável de quase tê-lo convencido a se tornar cristão (At 26.28). Quando, pois, esses homens que estiveram conosco, mas saíram do nosso meio (1Jo 2.19), afirmarem coisas que podem fazer os seus ouvidos tinirem (1Sm 3.11), se vocês considerarem a Escritura ou a natureza do homem, isso não os abalará nem um pouco. Muito menos os desculpará por não reconhecerem que a obra, em geral, é de Deus.

28. Mas a tudo isso talvez se responda: “Quando vocês trouxerem as suas credenciais, quando provarem por milagres o que afirmam, então reconheceremos que Deus os enviou.”

O que é que você quer que provemos por milagres? Que as doutrinas que pregamos são verdadeiras? Não é esse o modo de provar isso (como responderam os nossos primeiros reformadores aos da Igreja de Roma, que, como você provavelmente se lembra, os pressionavam continuamente com esta mesma exigência). Provamos as doutrinas que pregamos pela Escritura e pela razão e, se for preciso, pela antiguidade.

Que mais, então, teríamos de provar por milagres?

Seria: 1. Que A. B. viveu por muitos anos sem Deus no mundo, praguejador contumaz, beberrão, profanador do dia do Senhor?

Ou: 2. Que ele já não é assim?

Ou: 3. Que continuou assim até nos ouvir pregar e, daquele momento em diante, tornou-se outro homem? De modo nenhum. O modo próprio de provar esses fatos é o testemunho de testemunhas idôneas, e essas testemunhas estão prontas, sempre que se exigir, a dar deles prova completa.

Ou você quer que provemos por milagres,

4. Que isso não foi feito por nosso próprio poder ou santidade? Que só Deus é capaz de ressuscitar os mortos, os que estão mortos em suas transgressões e pecados? Ora, se você não ouve Moisés e os Profetas e os apóstolos sobre esse ponto, também não se deixará convencer, mesmo que ressuscite alguém dentre os mortos (Lc 16.31).

É, portanto, inteiramente irrazoável e absurdo exigir ou esperar a prova de milagres em questões de tal natureza, que sempre se decidem por provas de natureza bem diferente.

29. “Mas o senhor mesmo os relata.” Relato exatamente o que vi, de tempos em tempos; e é verdade que algumas daquelas circunstâncias parecem ir além do curso ordinário da natureza. Mas não determino de modo peremptório se foram sobrenaturais ou não. Muito menos apoio nelas a prova, seja de outros fatos, seja das doutrinas que prego. Provo uns e outras pelo modo ordinário: os primeiros pelo testemunho, as segundas pela Escritura e pela razão.

“Mas, se o senhor pode operar milagres quando quiser, não é este o meio mais seguro de prová-los? Isso poria a questão fora de discussão de uma vez e dispensaria qualquer outra prova.”

Você parece estar inteiramente enganado, tanto quanto à natureza como quanto ao uso dos milagres. Pode-se razoavelmente duvidar de que tenha havido sobre a terra algum homem, exceto o homem Cristo Jesus, que pudesse operar milagres quando quisesse. Só Deus exerceu esse poder quando quis, e por meio de quem lhe aprouve.

Mas, ainda que um homem pudesse operar milagres quando quisesse, não há autoridade da Escritura, nem sequer exemplo, para fazê-lo a fim de satisfazer uma exigência como essa. Não leio que nosso Senhor, ou algum dos seus apóstolos, tenha operado milagre algum numa ocasião assim. Ao contrário, com que severidade nosso Senhor repreende os que faziam uma exigência dessa espécie! Quando alguns escribas e fariseus responderam, dizendo: Mestre, queremos ver algum sinal feito pelo senhor (observe que era esse o modo como respondiam às fortes razões com que ele acabara de provar que as obras em questão eram de Deus), ele respondeu: Uma geração perversa e adúltera pede um sinal, mas nenhum sinal lhe será dado, senão o do profeta Jonas (Mt 12.38-39). [N. do T.: no v. 38, a NAA traz “disseram a Jesus”; o argumento de Wesley se apoia no “responderam” da versão inglesa.] Uma geração perversa e adúltera! Do contrário, não teriam precisado de tal espécie de prova. Se estivessem dispostos a fazer a vontade dele, teriam sabido, sem isso, que a doutrina era de Deus (Jo 7.17).

Os milagres, portanto, são de todo desnecessários em tal caso. E também não são uma prova tão conclusiva como você imagina. Se um homem pudesse operá-los e os operasse em defesa de alguma doutrina, isso ainda não dispensaria outra prova. Pois pode haver τερατα ψευδους, prodígios da mentira (2Ts 2.9), milagres operados em favor da falsidade. Sua doutrina, portanto, ainda teria de ser provada pelos argumentos próprios da Escritura e da razão. E estes, mesmo sem milagres, são suficientes. Mas os milagres sem estes não o são. Por isso, nosso Salvador e todos os seus apóstolos, no meio dos seus maiores milagres, nunca deixaram de provar cada doutrina que ensinavam com Escritura clara e razão convincente.

30. Presumo que a esta altura você já possa perceber o grosseiro absurdo de exigir milagres no caso presente, visto que uma das proposições em questão (além e acima das nossas doutrinas gerais), a saber, “que pecadores são reformados”, só pode ser provada por testemunho; e a outra, “que isso não pode ser feito senão pelo poder de Deus”, não precisa de prova, por ser evidente por si mesma.

“Pois eu mesmo me alegrei, certa vez, ao saber (diz um cidadão sisudo, com ar de grande importância) que tantos pecadores tinham sido reformados, até descobrir que eles apenas haviam passado de uma maldade para outra: que tinham deixado as pragas, ou os juramentos, ou a embriaguez, por um pecado não menos condenável, o do cisma.”

Você sabe o que está dizendo? Receio que tenha na cabeça um amontoado confuso de ideias. E duvido que tenha capacidade para esclarecê-las sozinho, ou calma bastante para receber ajuda de outros.

Mesmo assim, vou tentar. O que é cisma? Você tem alguma ideia definida a respeito? Pergunto com mais razão porque descobri, por repetidas experiências, que um comerciante inglês comum não recebe mais luz quando ouve ou lê “Isto é cisma” do que se ouvisse ou lesse

Bombalio, stridor, clangor, taratantara, murmur. [Estrondo, estridor, clangor, tarantantã, murmúrio.]

Meu bom vizinho, não se zangue. Largue o martelo e conversemos um pouco sobre este ponto.

Você diz: “Vocês estão no pecado condenável do cisma e, portanto, num estado tão mau quanto o dos adúlteros ou dos assassinos.”

Pergunto mais uma vez: o que você entende por cisma? “Cisma! Cisma! Ora, é separar-se da igreja.” Sim, é isso mesmo. E, contudo, nem toda separação da igreja a que antes pertencíamos é cisma. Do contrário, você fará de todos os ingleses cismáticos, por se terem separado da Igreja de Roma. “Mas nós tínhamos justa causa.” Sem dúvida tínhamos; ao passo que cisma é uma separação sem causa da igreja de Cristo. Até aqui, tudo bem. Mas você tem muitos passos a dar antes de poder sustentar esta conclusão: que a separação de uma igreja nacional particular, como é a Igreja da Inglaterra, com causa suficiente ou sem ela, se enquadra na noção bíblica de cisma.

Contudo, dando isso por certo, você afirmará a sangue-frio que todos os que morrem em tal separação, isto é, todo aquele que morre quaker, batista, independente ou presbiteriano, está tão infalivelmente condenado como se morresse no ato do assassinato ou do adultério? Certamente você estremece diante desse pensamento! Até a natureza recua diante dele. Como, então, você pode conciliá-lo com o amor que tudo espera (1Co 13.7)?

31. Mas, seja qual for o estado dos que se separam sem causa da Igreja da Inglaterra, isso não atinge aqueles de quem estamos falando, pois eles não se separam dela de modo algum.

Você pode convencer-se disso facilmente, se apenas pesar os pontos seguintes.

1. Grande parte deles não ia a igreja nenhuma antes de nos ouvir pregar. Não pretendiam pertencer à Igreja da Inglaterra mais do que à Igreja da Moscóvia. Se, portanto, agora não fossem a igreja nenhuma, não estariam mais longe da igreja do que estavam antes.

2. Os que às vezes iam à igreja antes, agora vão três vezes mais. Estes, portanto, não se separam da igreja. Ao contrário, estão unidos a ela mais estreitamente do que antes.

3. Os que nunca iam à igreja antes, agora vão em todas as oportunidades. O senso comum permitirá a alguém dizer que estes estão separados da igreja?

4. A questão principal é esta: eles se converteram de praticar as obras do diabo para praticar as obras de Deus? Vivem agora neste mundo de forma sensata, justa e piedosa (Tt 2.12)? Se é assim, se vivem segundo as orientações da igreja, creem nas suas doutrinas e participam das suas ordenanças, com que cara você pode dizer que esses homens se separam da Igreja da Inglaterra?

32. Mas em que estado se encontram aqueles que o clero e a fidalguia (e talvez você, entre eles) se esforçaram com êxito para preservar desse pecado condenável do cisma? Aqueles que vocês impediram de ouvir esses homens e de se separar da igreja?

O beberrão de antes não continua beberrão? Pergunte à sua pobre esposa e à sua família. O praguejador contumaz não continua clamando horrivelmente a Deus pela condenação da própria alma? O pecador de qualquer outra espécie não continua exatamente o mesmo homem? Não melhor, pelo menos, se não pior, do que era dez anos atrás.

Considere agora: 1. A Igreja da Inglaterra ganha honra, força ou bênção por terem miseráveis como esses o nome de membros seus? Por dez mil beberrões, ou devassos, ou praguejadores contumazes? Pelo contrário, não deveria ela vomitá-los imediatamente? Renunciar a toda comunhão com eles? Não estaria ela muito melhor sem eles do que com eles? Julgue qualquer homem de razão.

2. O fato de o beberrão dizer-se da Igreja da Inglaterra tem mais utilidade para ele do que para a igreja? Isso o salvará do inferno, se morrer no seu pecado? Não aumentará antes a sua condenação?

3. Um beberrão de qualquer outra igreja não vale exatamente o mesmo que um beberrão da Igreja da Inglaterra? Sim, um papista beberrão não está tanto no favor de Deus quanto um protestante beberrão?

4. Um turco que pragueja e jura (se for possível encontrar algum assim) não é tão aceitável a Deus quanto um cristão que pragueja e jura?

Ou melhor: 5. Se há alguma vantagem, não está ela do lado do primeiro? Não é ele, dos dois, o menos indesculpável, por pecar contra menos luz?

Ah, por que vocês afundam essas pobres almas na perdição mais ainda do que já estão afundadas? Por que lhes anunciam “Paz, paz”, quando não há paz (Jr 6.14)? Por que, se vocês mesmos não o fazem (se não podem ou não querem, Deus o sabe), haveriam de nos impedir de dirigir os seus pés pelo caminho da paz (Lc 1.79)?

33. Você tentará desculpar-se, dizendo: “Não são muitos os que melhoram com a sua pregação; e esses, daqui a pouco, estarão tão ruins como sempre, como fulano e beltrano já estão”?

Quem dera eu pudesse pôr isto na luz devida! Mas não posso. Toda linguagem falha.

Deus começa uma obra gloriosa em nossa terra. Você se põe contra ela com todas as suas forças, para impedir que comece onde ainda não aparece e para destruí-la onde quer que apareça. Em parte, você prevalece. Impede muitos de ouvir a palavra que pode salvar a sua alma. A outros, que a tinham ouvido, induz a voltar as costas a Deus e a alistar-se de novo sob a bandeira do diabo. Depois, faz do êxito da sua própria maldade uma desculpa para não reconhecer a obra de Deus! Alega “que não foram muitos os pecadores reformados! E que alguns deles estão agora tão ruins como sempre!”

De quem é a culpa? Nossa? Ou sua? Por que milhares de outros não foram reformados? Sim, para cada um que agora está convertido a Deus, por que não há dez mil? Porque você e os seus associados trabalharam com tanto empenho pela causa do inferno; porque você e eles não pouparam esforço algum para impedir ou destruir a obra de Deus! Usando todo o poder e toda a astúcia que tinham, vocês impediram milhares de ouvir o evangelho, que eles poderiam ter descoberto ser o poder de Deus para a salvação. O sangue deles está sobre a sua cabeça. Inventando, aprovando ou espalhando mentiras, umas requintadas, outras grosseiras e palpáveis, vocês impediram outros de tirar proveito do que ouviam. Você responde diante de Deus também por essas almas. Muitos que começavam a provar a boa palavra de Deus e a percorrer o caminho dos seus mandamentos, você, por vários meios, conseguiu persuadir a não ouvi-la mais. E assim logo retrocederam para a perdição. Mas saiba que também por cada um destes Deus pedirá contas a você no dia do juízo.

34. E, contudo, a despeito de toda a malícia, e astúcia, e força, não só dos homens, mas dos principados e das potestades, dos dominadores deste mundo tenebroso, das forças espirituais do mal, nas regiões celestiais (Ef 6.12), há milhares que se converteram dos ídolos mudos, para servir o Deus vivo e verdadeiro (1Ts 1.9). Que colheita, então, não poderíamos ter visto antes de agora, se todos os que dizem ser do Senhor tivessem vindo, como em toda a razão deviam, em socorro do Senhor contra os poderosos (Jz 5.23)? Sim, se apenas não se tivessem oposto à obra de Deus, se apenas não tivessem feito nada contra os seus mensageiros, não se teria ouvido há muito a trombeta de Deus em cada canto da nossa terra? E milhares de pecadores em cada condado não teriam sido levados a temer a Deus e honrar o rei (1Pe 2.17)?

Julguem de que imenso serviço poderíamos ter sido, mesmo neste único ponto, tanto ao nosso rei como ao nosso país. Todos os que ouvem e acatam a palavra que pregamos honram o rei por amor de Deus. Eles dão a César o que é de César, assim como a Deus o que é de Deus (Mt 22.21). Não concebem piedade sem lealdade, sabendo que as autoridades que existem foram instituídas por Deus (Rm 13.1). Peço a Deus que fortaleça todos os que pensam assim, por mais numerosos que sejam. Mas não poderia haver hoje na Inglaterra cem mil a mais com essa disposição do que há agora? Sim, verdadeiramente; até mesmo por meio do nosso ministério, se aqueles que deveriam ter-nos fortalecido não tivessem enfraquecido as nossas mãos.

35. Certamente vocês não são sábios! Que vantagens jogam fora! Que oportunidades perdem! Oportunidades que algum outro dia vocês talvez busquem ardentemente e, ainda assim, não encontrem. Pois, se aprouver a Deus remover-nos, a quem vocês acharão para ocupar o nosso lugar? Somos em tudo servos de vocês, por causa de Jesus (2Co 4.5), ainda que, quanto mais amamos vocês, menos sejamos amados. Que nós sejamos empregados não no serviço mais alto, mas no mais humilde; não no mais fácil, mas no mais árduo. O conforto e a fartura deixamos aos que os desejam. Prossigamos no trabalho, no cansaço, na fadiga, no frio ou na fome, contanto que possamos testemunhar o evangelho da graça de Deus. Os ricos, os honrados, os grandes, estamos plenamente dispostos (se for a vontade do nosso Senhor) a deixá-los a vocês. Apenas deixem conosco os pobres, o povo simples, os desprezados, os rejeitados dos homens. Tomem também para si os santos do mundo, mas permitam que nós chamemos pecadores ao arrependimento, mesmo os mais vis, os mais ignorantes, os mais perdidos, os mais ferozes e selvagens de que tivermos notícia. A estes iremos em nome do nosso Senhor, nada desejando, nada recebendo de homem algum (exceto o pão que comemos enquanto estamos sob o seu teto), e veja-se se Deus nos enviou. Apenas não estejam sobre nós as suas mãos, vocês que temem o Senhor. Por que haveríamos de ser feridos por vocês ainda mais?

IV. 1. Certamente vocês estão sem desculpa, todos os que ainda não reconhecem o dia da sua visitação! O dia em que o grande Deus, que tem sido esquecido entre nós por dias sem conta, se levanta de uma vez para vingar-se dos seus adversários e para visitar e redimir o seu povo. Não estão os seus juízos e as suas misericórdias, ambos, espalhados pela terra? E ainda assim vocês não aprendem a justiça? Não está o Senhor passando? Não começa já um grande e forte vento a fender os montes e a quebrar as rochas diante do Senhor? Não se sente já também o terremoto? E um fogo começou a arder na sua ira. Quem sabe qual será o fim disso? Mas, ao mesmo tempo, ele fala a muitos com o som de um suave sussurro (1Rs 19.11-12). Quem tem ouvidos para ouvir, ouça, para que não seja destruído de repente, e isso sem remédio!

2. Que desculpa se pode dar aos que são indiferentes a um tempo como este? Aos que, numa crise como esta, estão entorpecidos, insensíveis, desapercebidos, sem se importar com nada disso? Aos que não se dão ao trabalho de pensar nessas coisas, mas continuam tranquilos e despreocupados? O quê! Pode haver algum ponto sobre o qual mais lhes convenha pensar? E isso com a mais serena e profunda atenção? Enquanto durarem o céu e a terra, pode haver alguma coisa de tão vasta importância como o último chamado de Deus a uma terra culpada, que está a ponto de perecer na sua iniquidade?

Você, com os que estão ao seu redor, há muito tempo merecia ter esgotado o cálice de atordoamento (Is 51.17); sim, merecia sofrer penalidade de eterna destruição, banido da face do Senhor e da glória do seu poder (2Ts 1.9). Mas ele não o tratou segundo os seus pecados, nem o retribuiu conforme as suas iniquidades. E mais uma vez ele mistura misericórdia com juízo. Mais uma vez clama em alta voz: Convertam-se! Convertam-se dos seus maus caminhos! Por que vocês haveriam de morrer, ó casa de Israel (Ez 33.11)? E você não se digna sequer de ouvi-lo? Se não se preocupa em responder-lhe nessa questão, continuará fechando os olhos, tapando os ouvidos e endurecendo o seu coração obstinado? Ah, cuidado, para que Deus não dê risada da sua desgraça e não zombe quando chegar o terror (Pv 1.26)!

3. Você alegará que tem outros assuntos a tratar? Que outros negócios ocupam os seus pensamentos? De fato ocupam; mas nisso está a sua loucura, isso é justamente o que o deixa sem desculpa. Pois que negócio pode ter a mesma importância? O marinheiro pode ter muitos assuntos a tratar e muitos negócios que ocupem os seus pensamentos, mas não quando o navio está afundando. Numa situação assim (e é a sua) você só tem uma coisa em que pensar: salvar o navio e, com ele, a própria vida! E, quanto mais alto o posto que você ocupa, mais profundamente deve estar empenhado neste único ponto. É hora de diversão? De comer e beber e levantar-se para se divertir? Mantenha o navio acima da água. Deixe tudo o mais e cuide desta única coisa!

4. Talvez você diga: “É o que faço. Cuido desta única coisa: de como salvar a nação que afunda. E por isso agora preciso pensar em armas e provisões. Não tenho tempo agora para pensar em religião.” Isso é exatamente como se o marinheiro dissesse: “Agora preciso pensar nos meus canhões e mantimentos. Não tenho tempo agora para pensar no porão.” Ora, homem, você tem de pensar nisso ou perecerá. É ali que se abriu o rombo. Tape-o, ou você e todos os seus mantimentos irão juntos para o fundo do mar.

Não é exatamente este o seu caso? Então, faça o que fizer, tape o rombo; do contrário, você vai a pique! Não falo contra os seus mantimentos. São bons a seu modo, e talvez seja bom que estejam armazenados. Mas todos os seus mantimentos não salvarão o navio que afunda, a menos que você consiga tapar o rombo. A menos que consiga de algum modo deter essas torrentes de impiedade que continuam entrando sem cessar, em breve você será tragado pelo grande abismo, pelo abismo dos juízos de Deus. Esta, esta é a ruína da nação inglesa. É o vício, irrompendo por todos os lados, que está prestes a afundar-nos primeiro na escravidão e depois no mais profundo inferno. Quem entre vocês é sábio e inteligente? (Tg 3.13) Pense nisto. Pensem nisto todos os que amam o seu país ou que se importam com a própria alma. Se agora, sobretudo, vocês não pensarem nesta única coisa, não terão desculpa diante de Deus nem dos homens.

5. Pouco mais de desculpa têm vocês que ainda estão em dúvida quanto a este dia da sua visitação. Pois vocês têm toda a prova que podem razoavelmente esperar ou desejar, toda a que a natureza da coisa requer. Que em muitos lugares grande número de pecadores notórios foi inteiramente reformado, declaram-no mil testemunhas que viram e ouviram tanto o seu comportamento presente como o passado. E vocês percebem que a prova de um ponto como este, pela natureza das coisas, tem de apoiar-se em testemunho. E que só Deus é capaz de operar tal reforma, vocês sabem que todas as Escrituras o testificam. Que mais querem? Que pretexto podem ter para continuar duvidando? Vocês não têm o menor motivo para esperar ou desejar qualquer outra evidência, ou alguma evidência mais forte.

Confio que vocês não são daqueles que se fortificam contra o convencimento, que estão “resolvidos a nunca acreditar nisso”. Eles perguntam: “Quem são esses homens?” Nós lhes dizemos com clareza, mas não nos dão crédito. Um e outro dos seus próprios amigos se convence e lhes diz a mesma coisa. Mas a resposta deles está pronta: “Você também virou metodista?” Assim também o testemunho destes não vale nada. Ora, como é possível que esses venham algum dia a ser convencidos? Pois não acreditam em ninguém senão nos que falam de um só lado.

6. Vocês adiam firmar o seu juízo até verem uma obra de Deus sem pedra de tropeço alguma que a acompanhe? Isso nem existe ainda nem jamais existirá. É inevitável que existam pedras de tropeço (Mt 18.7). E quase nunca houve antes uma obra de Deus acompanhada de tão poucas como esta.

Quando começou a Reforma, que montanhas de tropeço havia no caminho até dos membros sinceros da Igreja de Roma! Viam tais falhas naqueles grandes homens, Lutero e Calvino! O seu veemente apego às próprias opiniões; a sua amargura para com todos os que deles divergiam; a sua intolerância à contradição e a total falta de paciência, até com os seus próprios irmãos.

Mas a grande pedra de tropeço de todas foi a sua separação aberta e declarada da igreja; a rejeição de tantas doutrinas e práticas que os outros consideravam as mais sagradas; e as suas contínuas invectivas contra a igreja da qual se separaram, muito mais ásperas do que a repreensão de Miguel a Satanás.

Houve menos pedras de tropeço acompanhando a Reforma na Inglaterra? Certamente não, pois o que era Henrique VIII? Considerem o seu caráter, os seus motivos para a obra ou o modo como a levou adiante! E nem sequer o governo do rei Eduardo podemos absolver de perseguir, por sua vez, e até de queimar hereges. Também permanecia a principal pedra de tropeço, a saber, a separação aberta da igreja.

7. Não menos numerosos foram os tropeços que havia no caminho até dos membros sinceros da Igreja da Inglaterra quando o povo chamado quaker declarou pela primeira vez que fora enviado por Deus para reformar a terra. Se o foi ou não, isso está fora da nossa questão. Basta, para o presente propósito, observar que, além e acima da sua separação aberta, declarada e total da igreja, e das suas veementes invectivas contra muitas das suas doutrinas e contra toda a estrutura da sua disciplina, eles gastaram a maior parte das suas forças em disputar sobre opiniões e coisas exteriores, em vez de pregar a fé, a misericórdia e o amor de Deus.

Nesses aspectos, o caso foi quase o mesmo quando os batistas apareceram pela primeira vez na Inglaterra. Logo iniciaram uma disputa acalorada, não acerca dos pontos vitais do cristianismo, mas acerca do modo e do tempo de administrar uma das suas ordenanças exteriores. E, como a sua opinião sobre isso diferia totalmente da de todos os outros membros da Igreja da Inglaterra, logo declararam abertamente a sua separação dela, não sem ásperas censuras aos que nela permaneciam.

8. A mesma ocasião de tropeço foi dada, em grau menor, pelos presbiterianos e independentes, pois também eles gastaram grande parte do seu tempo e das suas forças opondo-se às opiniões comumente aceitas acerca de algumas das circunstâncias acessórias da religião, e por causa delas se separaram da igreja.

Mas não incluo neste número aquele venerável homem, o Sr. Philip Henry, nem qualquer dos que eram do seu espírito. [N. do T.: Philip Henry (1631-1696), ministro puritano afastado da Igreja da Inglaterra pela Lei de Uniformidade de 1662; pai do comentarista bíblico Matthew Henry.] Sei que eles abominavam contendas acerca de coisas exteriores. Nem se separaram da igreja. Permaneceram nela até serem expulsos, quisessem ou não. Não posso deixar de sentir terna simpatia por eles, tanto mais porque este é, em parte, o nosso próprio caso. Homens exaltados não poupam esforços, neste mesmo dia, para nos expulsar da igreja. Gritam ao povo, aonde quer que um de nós chegue: “Cachorro louco! Cachorro louco!”, na esperança de que fujamos para salvar a vida, como muitos fizeram antes de nós. E é certo que teríamos atendido ao seu desejo, teríamos, só por amor à paz e ao sossego, deixado a igreja há muito tempo, se pudéssemos fazê-lo em sã consciência. E é por este único motivo, é por causa da consciência, que ainda permanecemos nela; e permaneceremos (com a ajuda de Deus), a menos que eles nos lancem fora pela violência.

9. Mas, voltando ao assunto: o que são as pedras de tropeço do caso presente, comparadas às de qualquer dos casos anteriores?

Não disputamos acerca de nenhuma das coisas exteriores ou circunstâncias acessórias da religião. Não há espaço para isso, pois nisso concordamos com vocês. Aprovamos todas elas e a todas aderimos, tudo o que aprendemos juntos quando éramos crianças, no nosso catecismo ou no Livro de Oração Comum. Nascemos e fomos criados na própria igreja de vocês e desejamos morrer nela. Sempre fomos, e somos agora, zelosos pela igreja, só que não com um zelo cego e irado. Sustentamos, e sempre sustentamos, as mesmas opiniões que vocês e nós recebemos dos nossos antepassados. Mas não pomos a ênfase principal da nossa religião em opiniões de espécie alguma, certas ou erradas; nem jamais começamos, ou entramos de bom grado, em qualquer disputa sobre elas. Todo o peso da religião, a nosso ver, repousa na santidade do coração e da vida. E, por consequência, aonde quer que cheguemos, insistimos nisso com todas as nossas forças. Quão grande, então, é a diferença entre o nosso caso e o de qualquer daqueles acima mencionados! Eles se separaram declaradamente da igreja; nós repudiamos inteiramente qualquer intenção desse tipo. Eles atacavam com severidade, e quase continuamente, as doutrinas e a disciplina da igreja que deixaram. Nós aprovamos tanto as doutrinas como a disciplina da nossa igreja e atacamos apenas a impiedade e a injustiça. Eles gastavam grande parte do seu tempo e das suas forças contendendo sobre coisas exteriores e circunstâncias acessórias. Nós concordamos com vocês em ambas; de modo que, não tendo espaço para gastar tempo algum em tal contenda vã, temos o nosso desejo de gastar-nos e deixar-nos gastar na promoção da simples religião prática. Quantas pedras de tropeço são removidas do caminho de vocês! Por que vocês não reconhecem a obra de Deus?

10. Se você disser: “Porque o senhor sustenta opiniões que não posso crer que sejam verdadeiras”, respondo: creia que são verdadeiras ou falsas, não vou brigar com você por nenhuma opinião. Cuide apenas de que o seu coração seja reto para com Deus, de que conheça e ame o Senhor Jesus Cristo, de que ame o seu próximo e ande como o seu Mestre andou, e não desejo mais nada. Estou farto de opiniões; estou cansado de suportá-las. A minha alma tem nojo desse alimento de espuma. Deem-me uma religião sólida e substancial. Deem-me alguém que ame a Deus e aos homens com humildade e mansidão; alguém cheio de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem fingimento; alguém que se dedique à operosidade da fé, à firmeza da esperança, à dedicação do amor. Esteja a minha alma com esses cristãos, onde quer que estejam e qualquer que seja a opinião que tenham. Aquele que assim fizer a vontade de meu Pai celeste, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe (Mt 12.50).

11. Indesculpavelmente obcecados vocês devem estar, se podem sequer duvidar de que a propagação desta religião vem de Deus! Mais indesculpáveis ainda são aqueles homens infelizes que se opõem a ela, a contradizem e a blasfemam.

Até quando vocês taparão os ouvidos àquele que continua clamando: Por que você me persegue? É duro para você ficar dando coices contra os aguilhões (At 26.14); é duro para um homem discutir com o seu Criador (Is 45.9)? Até quando desprezarão o conhecido conselho de um homem grande e erudito: Não façam nada contra esses homens. Deixem que vão embora, porque, se esta obra vem de homens, será destruída; mas, se vem de Deus, vocês não poderão destruí-la (At 5.38-39)? E por que haveriam vocês de estar até lutando contra Deus? Se um homem luta com Deus, poderá prevalecer? Você pode trovejar com a voz como ele troveja? (Jó 40.9) Apresse-se. Prostre-se. Humilhe-se diante dele, para que ele não estenda a mão e você pereça!

12. Até quando vocês combaterão sob a bandeira do grande inimigo de Deus e dos homens? Vocês estão agora a serviço dele; estão tomando o partido do diabo contra Deus. Ainda que não houvesse outra prova, isso apareceria de modo inegável pela bela companhia em que vocês estão alistados e que trava uma só e mesma guerra. Ouvi alguns afirmarem que os inimigos mais ferozes da presente obra de Deus eram fariseus. Queriam dizer homens que tinham a forma de piedade, mas negavam o seu poder. Mas eu não posso dizer isso. Os adversários mais ásperos dessa obra que conheci até agora (a não ser que se excetuem uns poucos homens ilustres, que me será permitido não nomear) foram a escória da Cornualha, a ralé de Bilston e Darlaston, as feras de Walsal e os carcereiros de Newgate. [N. do T.: Newgate era o nome de prisões em Londres e em Bristol.]

13. A simples visão dessas tropas não mostraria a qualquer homem razoável a que general pertencem? Assim como as armas que elas nunca deixam de usar: os juramentos e as imprecações mais horríveis, e a violência sem lei, que arrasta como uma torrente tudo o que estiver diante dela, sem olhos, sem ouvidos, sem atenção alguma aos mais altos clamores da razão, da justiça ou da humanidade. Podem vocês continuar unindo o coração ou as mãos a esses? A uma ralé tão infame e escandalosa, rugindo e enfurecendo-se como se acabasse de escapar, com o seu capitão Apoliom, do abismo sem fundo? Não lhes cabe antes, e no mais alto grau, assim como a todo amigo do seu rei e do seu país, a todo amante da paz, da justiça e da misericórdia, unir-se imediatamente para deter tal bando de ímpios, como se uniriam para deter um incêndio que começa a alastrar-se ou uma inundação do mar?

14. Se, ao contrário, vocês se unem a esse bando de ímpios e lhes fortalecem as mãos na sua maldade, não devem vocês, com toda a razão, ser considerados (como eles) inimigos públicos da humanidade? E de fato assim há de parecer, aos olhos da razão sem preconceito, todo aquele que se opõe, direta ou indiretamente, à reforma da humanidade. Por reforma entendo trazer os homens de volta (não a este ou àquele sistema de opiniões, ou a este ou àquele conjunto de ritos e cerimônias, por mais decentes e significativos que sejam, mas) ao sereno amor a Deus e uns aos outros, a uma prática constante da justiça, da misericórdia e da verdade. Com que pretexto podem vocês reivindicar humanidade, benevolência, espírito público, se chegam a abrir a boca, ou a mover um dedo, contra uma reforma como esta?

É uma pobre desculpa dizer: “Ah, mas o povo é levado a várias opiniões errôneas.” Não importa uma palha se é ou não (falo de opiniões que não tocam o fundamento); mal vale a pena gastar dez palavras com isso. Se abraçam esta ou aquela opinião religiosa, isso não me importa mais do que se abraçam este ou aquele sistema de astronomia. São levados a disposições santas e a vidas santas? Esta é a minha pergunta, e deveria ser a de vocês, visto que disso dependem a felicidade social e a pessoal, a felicidade temporal e a eterna. São levados ao amor a Deus e ao amor ao próximo? Esta é a religião pura e sem mácula (Tg 1.27). Até quando, então, vocês hão de obscurecer os planos com palavras sem conhecimento (Jó 38.2)? A religião simples que agora se propaga é o AMOR. E podem vocês opor-se a ela sem ser inimigos da humanidade?

15. Não; nem sem ser inimigos do seu rei e do seu país, sobretudo num tempo como este. Pois, por mais que os homens irrefletidos não o vejam nem o considerem, ou que os covardes fanfarrões o enfrentem com bravatas, é evidente a todo homem de reflexão serena que a nossa nação está à beira da destruição. E por que estamos assim, senão porque a nossa maldade subiu até a presença de Deus? Porque corrompemos o nosso caminho diante do Senhor de modo tão excessivo, tão abundante, tão sem medida. E porque, a todas as nossas outras abominações, acrescentamos a luta aberta contra Deus: não só rejeitando, mas até negando, sim, blasfemando as suas últimas ofertas de misericórdia; impedindo outros que desejavam aceitá-las; maltratando os seus mensageiros; e perturbando e oprimindo de vários modos os que aceitaram a sua graça, romperam com os seus pecados e se voltaram para ele de todo o coração.

16. Não posso deixar de crer que é principalmente por esse motivo que Deus tem agora uma controvérsia com a nossa terra (Os 4.1). E não se inclinará qualquer homem ponderado a formar o mesmo juízo, se passar em revista o estado dos negócios públicos apenas nestes poucos anos passados? Não entrarei em pormenores. Mas, em geral, como vocês podem deixar de observar que, sempre que houve algo semelhante a uma tentativa pública de suprimir esta nova seita (pois assim foi astuciosamente apresentada), surgiu uma e outra calamidade pública? Isso se repetiu tantas vezes que é surpreendente que algum homem de bom senso consiga deixar de notá-lo. Que afinal nos voltemos para aquele que nos fere, ouvindo a vara e aquele que a designou! [N. do T.: Wesley alude a Is 9.13 e a Mq 6.9 na versão inglesa; neste último, a NAA traz “Escutem, ó tribo e todos os moradores!”.] Que nos humilhemos debaixo da poderosa mão de Deus, antes que o grande abismo nos trague (1Pe 5.6)!

17. Agora mesmo, a saber, no dia 4 deste mês de dezembro, o reverendo Sr. Henry Wickham, um dos juízes de paz de Sua Majestade para o distrito oeste de Yorkshire, expede uma ordem

Ao condestável [N. do T.: constable, oficial local encarregado de manter a ordem pública.] de Kighley, mandando-lhe “conduzir a pessoa de Jonathan Reeves (cujo verdadeiro crime é chamar pecadores ao arrependimento) à cadeia e castelo de Sua Majestade em York, por ser suspeito (dizia o mandado) de ser espião entre nós e homem perigoso para a pessoa e o governo de Sua Majestade o Rei Jorge“.

Deus afaste o presságio! Temo que isto não seja augúrio nem do arrependimento nem do livramento da nossa pobre nação!

18. Se não quisermos converter-nos e arrepender-nos, se endurecermos o coração e não reconhecermos nem os seus juízos nem as suas misericórdias, que resta senão o cumprimento daquela palavra terrível que Deus falou pelo profeta Ezequiel: Filho do homem, quando uma terra pecar contra mim, cometendo graves transgressões, estenderei a mão contra ela e cortarei o suprimento de pão. (…) Mesmo que estivessem no meio dela estes três homens, Noé, Daniel e Jó, eles salvariam apenas a sua própria vida. Ou se eu fizer vir a espada sobre essa terra e disser: “ESPADA, PASSE PELA TERRA” (…). Ou se eu enviar a peste sobre essa terra e derramar o meu furor sobre ela com sangue (…), mesmo que Noé, Daniel e Jó estivessem no meio dela, tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, não salvariam nem o seu filho nem a sua filha; pela sua justiça salvariam apenas a sua própria vida (Ez 14.13-14, 17, 19-20).

Mas eis que alguns sobreviventes serão deixados nela, filhos e filhas que serão levados para fora. (…) E ficarão consolados do mal que eu fiz vir sobre Jerusalém. (…) E vocês saberão que não foi sem motivo que fiz tudo o que fiz nela, diz o Senhor Deus (Ez 14.22-23).

LONDRES,

18 de dezembro de 1745.

Notas

1. Observações, parte III. [N. do T.: o panfleto Observations upon the Conduct and Behaviour of a Certain Sect, Usually Distinguished by the Name of Methodists, já discutido na parte I deste Apelo Adicional e geralmente atribuído ao bispo de Londres, Edmund Gibson.]

Tradução para o português a partir de John Wesley, An Earnest Appeal to Men of Reason and Religion (1743) e A Farther Appeal to Men of Reason and Religion, partes I a III (1745), no texto revisto por Wesley para as suas Obras (Bristol, William Pine, 1772, vols. 14 e 15; transcrição do Projeto Gutenberg); domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.