Basílio, Sobre o Espírito Santo · Capítulos 10 a 14

O Espírito na fé do batismo; as figuras do Antigo Testamento

O Espírito é nomeado com o Pai e o Filho na fé do batismo; quem o nega transgride; os anjos e Moisés não se comparam a ele.

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Capítulo X. Contra os que dizem que não é certo enumerar o Espírito Santo juntamente com o Pai e o Filho

24. Mas devemos passar ao ataque contra os nossos opositores, procurando refutar as “contradições” que nos lançam, tiradas daquilo que “falsamente chamam de conhecimento” (1Tm 6.20).1

Não é lícito, afirmam eles, enumerar o Espírito Santo com o Pai e o Filho, por causa da diferença de sua natureza e da inferioridade de sua dignidade. Contra eles é justo responder com as palavras dos apóstolos: “É mais importante obedecer a Deus do que aos homens” (At 5.29).

Pois se o nosso Senhor, ao ordenar o batismo da salvação, encarregou os discípulos de batizar todas as nações em nome “do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28.19), sem desdenhar a comunhão com ele, e esses homens alegam que não devemos enumerá-lo com o Pai e o Filho, não é claro que resistem abertamente ao mandamento de Deus? Se negam que uma coordenação desse tipo declare alguma comunhão e conjunção, que nos digam por que devemos manter essa opinião e que modo de conjunção2 mais íntimo eles têm.

Se o Senhor de fato não uniu o Espírito ao Pai e a si mesmo no batismo, não3 nos lancem a culpa da conjunção, pois não pensamos nem dizemos nada diferente. Se, ao contrário, ali o Espírito está unido ao Pai e ao Filho, e ninguém é tão desavergonhado que diga outra coisa, então não nos culpem por seguir as palavras da Escritura.

25. Mas todo o aparato de guerra foi preparado contra nós; todo projétil intelectual nos tem por alvo; e agora as línguas dos blasfemos atiram, acertam e tornam a acertar, com mais dureza do que outrora Estêvão foi ferido pelos assassinos do Cristo.4 E que eles não consigam esconder o fato de que, embora o ataque contra nós sirva de pretexto para a guerra, o verdadeiro objetivo dessas manobras é mais alto. É contra nós, dizem, que preparam suas máquinas e suas armadilhas; é contra nós que gritam uns aos outros, cada um segundo a sua força ou a sua astúcia, que avancem. Mas o alvo do ataque é a fé. O único objetivo de todo o bando de opositores e inimigos da “sã doutrina” (1Tm 1.10) é abalar o fundamento da fé de Cristo, arrasando até o chão a tradição apostólica e destruindo-a por completo. Assim, como os devedores (devedores de boa-fé, naturalmente), reclamam provas escritas e rejeitam como sem valor a tradição não escrita dos Pais.5 Nós, porém, não afrouxaremos na defesa da verdade. Não abandonaremos covardemente a causa. O Senhor nos entregou, como doutrina necessária e salvadora, que o Espírito Santo deve ser enumerado com o Pai. Nossos opositores pensam de outro modo e acham por bem dividir e separar6 e rebaixá-lo à natureza de um espírito ministrador. Não é, então, indiscutível que eles dão à sua própria blasfêmia mais autoridade do que à lei prescrita pelo Senhor? Vamos, pois, deixar de lado a simples contenda. Consideremos as questões que temos diante de nós, da seguinte maneira.

26. De onde vem que somos cristãos? Pela nossa fé, seria a resposta de todos. E de que modo somos salvos? Claramente, porque fomos regenerados pela graça dada em nosso batismo. De que outro modo poderíamos sê-lo? E depois de reconhecer que essa salvação se estabelece por meio do Pai, do Filho e do Espírito Santo, jogaremos fora “a forma de doutrina” (Rm 6.17) que recebemos? Não seria antes motivo de grande lamento se nos achássemos agora mais longe da nossa salvação “do que quando no princípio cremos” (Rm 13.11) e negássemos agora o que então recebemos? Quer alguém tenha partido desta vida sem batismo, quer tenha recebido um batismo a que falte alguma das exigências da tradição, a perda é igual.7 E todo aquele que não guarda nem retém sempre e em toda parte, como proteção segura, a confissão que registramos em nossa primeira admissão, quando, livres “dos ídolos”, viemos “ao Deus vivo” (1Ts 1.9), torna-se a si mesmo “estranho” às “promessas” (Ef 2.12) de Deus, lutando contra o seu próprio escrito de próprio punho,8 que deixou registrado quando professou a fé. Pois se para mim o batismo foi o começo da vida, e aquele dia da regeneração o primeiro dos dias, é evidente que a palavra pronunciada na graça da adoção foi a mais honrosa de todas. Posso eu então, pervertido pelas palavras sedutoras desses homens, abandonar a tradição que me conduziu à luz, que me concedeu o dom do conhecimento de Deus, pela qual eu, por tanto tempo inimigo por causa do pecado, fui feito filho de Deus? Quanto a mim, peço que com esta confissão eu parta daqui para o Senhor; e a eles exorto que conservem a fé intacta até o dia de Cristo e mantenham o Espírito indiviso do Pai e do Filho, preservando, tanto na confissão de fé quanto na doxologia, a doutrina que lhes foi ensinada no batismo.

Capítulo XI. Os que negam o Espírito são transgressores

27. “Para quem são os ais? Para quem são os pesares?” (Pv 23.29) Para quem a angústia e as trevas? Para quem a condenação eterna? Não é para os transgressores? Para os que negam a fé? E qual é a prova da sua negação? Não é que desprezaram as suas próprias confissões? E quando e o que confessaram? A fé no Pai, no Filho e no Espírito Santo, quando renunciaram ao diabo e aos seus anjos e pronunciaram aquelas palavras salvadoras. Que título adequado, então, se encontrou para eles, que os filhos da luz possam usar? Não são chamados transgressores, por terem violado a aliança da sua salvação? Como hei de chamar a negação de Deus? Como a negação de Cristo? Como, senão transgressões? E a quem nega o Espírito, que título você quer que eu aplique? Não há de ser o mesmo, visto que ele rompeu a sua aliança com Deus? E se a confissão de fé nele garante a bênção da verdadeira religião, e a sua negação sujeita os homens à condenação da impiedade, não é coisa terrível que a desprezem, não por medo do fogo, da espada, da cruz, do açoite, da roda ou do potro, mas simplesmente desencaminhados pelos sofismas e seduções dos pneumatômacos? Declaro a todo homem que confessa Cristo e nega Deus que Cristo de nada lhe aproveitará (cf. Gl 5.2); a todo homem que invoca Deus mas rejeita o Filho, que a sua fé é vã (cf. 1Co 15.17); a todo homem que põe de lado o Espírito, que a sua fé no Pai e no Filho será inútil, pois nem sequer pode tê-la sem a presença do Espírito. Pois quem não crê no Espírito não crê no Filho, e quem não creu no Filho não crê no Pai. Porque ninguém “pode dizer: ‘Senhor Jesus!’, senão pelo Espírito Santo” (1Co 12.3), e “Ninguém jamais viu Deus; o Deus unigênito, que está junto do Pai, é quem o revelou” (Jo 1.18).9

Tal pessoa não tem parte nem porção no verdadeiro culto; pois é impossível adorar o Filho senão pelo Espírito Santo, impossível invocar o Pai senão pelo Espírito de adoção.

Capítulo XII. Contra os que afirmam que basta o batismo em nome somente do Pai

28. Que ninguém se deixe enganar pelo fato de o apóstolo muitas vezes omitir o nome do Pai e do Espírito Santo ao mencionar o batismo, nem imagine por isso que a invocação dos nomes não é observada. “Todos vocês”, diz ele, “que foram batizados em Cristo de Cristo se revestiram” (Gl 3.27); e ainda: “Todos vocês que foram batizados em Cristo foram batizados na sua morte” (Rm 6.3). Pois nomear Cristo é confessar o todo,10 visto que manifesta o Deus que deu a unção, o Filho que a recebeu e o Espírito, que é a unção.11 Assim aprendemos de Pedro, em Atos, sobre “Jesus de Nazaré, a quem Deus ungiu com o Espírito Santo” (At 10.38); e em Isaías: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu” (Is 61.1); e do salmista: “Por isso, Deus, o seu Deus, o ungiu com o óleo de alegria, como a nenhum dos seus companheiros” (Sl 45.7). A Escritura, porém, no caso do batismo, às vezes menciona claramente só o Espírito.12

“Pois para um só Espírito”,13 diz ela, “todos nós fomos batizados em14 um só corpo” (1Co 12.13). E em harmonia com isso estão as passagens: “Vocês serão batizados com o Espírito Santo” (At 1.5) e “Ele os batizará com o Espírito Santo” (Lc 3.16). Mas ninguém, por esse motivo, teria razão em chamar de batismo perfeito aquele em que só se invocou o nome do Espírito. Pois a tradição que nos foi dada pela graça vivificante deve permanecer para sempre inviolada. Aquele que redimiu a nossa vida da destruição (cf. Sl 103.4) deu-nos o poder da renovação, cuja causa é inefável e oculta em mistério, mas traz grande salvação às nossas almas, de modo que acrescentar ou tirar qualquer coisa (cf. Dt 4.2; Ap 22.18-19) implica manifestamente uma queda da vida eterna. Se, então, no batismo, separar o Espírito do Pai e do Filho é perigoso para quem batiza e sem proveito para quem é batizado, como pode ser seguro para nós arrancar o Espírito do Pai e do Filho?15 A fé e o batismo são dois caminhos de salvação aparentados e inseparáveis: a fé se aperfeiçoa pelo batismo, o batismo se firma pela fé, e ambos se completam pelos mesmos nomes. Pois assim como cremos no Pai, no Filho e no Espírito Santo, assim também somos batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; primeiro vem a confissão, que nos introduz na salvação, e segue-se o batismo, que põe o selo sobre o nosso assentimento.

Capítulo XIII. Explicação do motivo por que, nos escritos de Paulo, os anjos são associados ao Pai e ao Filho

29. Objeta-se, porém, que outros seres enumerados com o Pai e o Filho certamente nem sempre são glorificados juntamente com eles. O apóstolo, por exemplo, em sua exortação a Timóteo, associa a eles os anjos, com as palavras: “Diante de Deus, do Senhor Jesus Cristo e dos anjos eleitos, peço com insistência a você” (1Tm 5.21). Não somos a favor de separar os anjos do resto da criação, e no entanto, argumenta-se, não admitimos que sejam contados com o Pai e o Filho. A isso respondo, embora o argumento, de tão evidentemente absurdo, nem mereça resposta, que talvez diante de um juiz manso e brando, e sobretudo diante daquele que, pela indulgência para com os que comparecem diante dele, demonstra a equidade irrepreensível das suas decisões, alguém se dispusesse a apresentar como testemunha até um conservo; mas que um escravo seja libertado, chamado filho de Deus e vivificado da morte, isso só pode ser realizado por aquele que adquiriu parentesco natural conosco e foi transferido da condição de escravo. Pois como podemos ser feitos parentes de Deus por alguém que lhe é estranho? Como podemos ser libertados por quem está ele mesmo sob o jugo da escravidão? Segue-se que a menção do Espírito e a dos anjos não se fazem em condições semelhantes. O Espírito é invocado como Senhor da vida; os anjos, como aliados dos seus conservos e testemunhas fiéis da verdade. É costume dos santos transmitir os mandamentos de Deus na presença de testemunhas, como também o próprio apóstolo diz a Timóteo: “E o que você ouviu de mim na presença de muitas testemunhas, isso mesmo transmita a homens fiéis” (2Tm 2.2); e agora chama os anjos por testemunhas, pois sabe que os anjos estarão presentes com o Senhor quando ele vier na glória do seu Pai para julgar o mundo com justiça. Pois ele diz: “Todo aquele que me confessar diante dos outros, também o Filho do Homem o confessará diante dos anjos de Deus; mas o que me negar diante das pessoas será negado diante dos anjos de Deus” (Lc 12.8-9); e Paulo diz em outro lugar: “Quando o Senhor Jesus se manifestar do céu com os seus anjos” (2Ts 1.7). Assim ele já dá testemunho diante dos anjos, preparando para si boas provas para o grande tribunal.

30. E não só Paulo, mas em geral todos aqueles a quem se confia algum ministério da palavra nunca deixam de dar testemunho, mas chamam o céu e a terra por testemunhas, porque agora todo ato que se pratica se pratica dentro deles, e porque no exame de todas as ações da vida eles estarão presentes junto aos julgados. Por isso se diz: “Ele intima os céus lá em cima e a terra, para julgar o seu povo” (Sl 50.4). E assim Moisés, prestes a transmitir os seus oráculos ao povo, diz: “Hoje tomo o céu e a terra por testemunhas” (Dt 4.26); e de novo, em seu cântico, diz: “Inclinem os ouvidos, ó céus, e falarei; e ouça a terra as palavras da minha boca” (Dt 32.1); e Isaías: “Escutem, ó céus, e ouça, ó terra” (Is 1.2); e Jeremias descreve o espanto no céu diante da notícia das ações ímpias do povo: “O céu ficou espantado com isto e estremeceu de horror, porque o meu povo cometeu dois males” (Jr 2.12-13). E assim o apóstolo, sabendo que os anjos estão postos sobre os homens como tutores e guardiões, chama-os por testemunhas. Além disso, Josué, filho de Num, chegou a erguer uma pedra como testemunha das suas palavras (já antes Jacó chamara testemunha a um monte de pedras) (Gn 31.47), pois diz: “Eis que esta pedra será testemunha para vocês neste dia, até o fim dos dias, quando mentirem ao Senhor nosso Deus” (Js 24.27), talvez crendo que pelo poder de Deus até as pedras falariam para convencer os transgressores; ou, se não, que ao menos a consciência de cada um seria ferida pela força da lembrança. Desse modo, os que receberam a administração das almas providenciam testemunhas, sejam quais forem, para apresentá-las em algum dia futuro. Mas o Espírito é enumerado juntamente com Deus não por causa de uma necessidade do momento, mas por causa da comunhão de natureza; não é trazido à força por nós, mas convidado pelo Senhor.

Capítulo XIV. Objeção de que alguns foram batizados em Moisés e creram nele, e resposta a ela; com observações sobre os tipos

31. Mas mesmo que alguns sejam batizados no Espírito, alega-se, nem por isso é certo enumerar o Espírito com Deus. Alguns “em Moisés, foram batizados, tanto na nuvem como no mar” (1Co 10.2). E admite-se que já antes se depositou fé em homens, pois “o povo creu em Deus e em Moisés, seu servo” (Êx 14.31). Por que então, pergunta-se, por causa da fé e do batismo, exaltamos e engrandecemos o Espírito Santo tão acima da criação, quando há provas de que as mesmas coisas já foram ditas de homens? Que responderemos, então? Nossa resposta é que a fé no Espírito é a mesma que a fé no Pai e no Filho; e do mesmo modo também o batismo. Mas a fé em Moisés e na nuvem é, por assim dizer, fé numa sombra e num tipo. A natureza do divino é muitíssimas vezes representada pelos contornos toscos e sombreados16 dos tipos; mas, porque as coisas divinas são prefiguradas por coisas pequenas e humanas, é evidente que não devemos concluir daí que a natureza divina seja pequena. O tipo é uma exibição das coisas esperadas e oferece uma antecipação imitativa do futuro. Assim, Adão era tipo “daquele que havia de vir” (Rm 5.14). Tipicamente, “a pedra era Cristo” (1Co 10.4); e a água, tipo do poder vivo da palavra, como ele diz: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba” (Jo 7.37). O maná é tipo do pão vivo que desceu do céu (Jo 6.49, 51); e a serpente sobre a haste,17 da paixão salvadora realizada por meio da cruz, razão pela qual os que apenas olhavam para ela eram preservados. Do mesmo modo, a história do êxodo de Israel foi registrada para mostrar os que estão sendo salvos pelo batismo. Pois os primogênitos dos israelitas foram preservados, como os corpos dos batizados, pela graça concedida aos que estavam marcados com sangue. Porque o sangue da ovelha é tipo do sangue de Cristo; e os primogênitos, tipo do primeiro homem formado. E visto que o primeiro homem formado existe necessariamente em nós e, na sequência das gerações, se transmite até o fim, segue-se que “em Adão” “todos morrem” (1Co 15.22) e que “a morte reinou” (Rm 5.17) até o cumprimento da lei e a vinda de Cristo. E os primogênitos foram preservados por Deus de serem tocados pelo destruidor, para mostrar que nós, que fomos vivificados em Cristo, já não morremos em Adão. O mar e a nuvem, naquele momento, conduziram à fé pelo assombro, mas, para o tempo vindouro, prefiguravam tipicamente a graça que havia de vir. “Quem é sábio, e entenderá estas coisas?” (Os 14.9): como o mar é tipicamente um batismo que provoca a partida do faraó, assim como este lavar provoca a partida da tirania do diabo. O mar matou o inimigo dentro de si; e no batismo também morre a nossa inimizade contra Deus. Do mar o povo saiu ileso; nós também, como vivos dentre os mortos, subimos da água “salvos” pela “graça” daquele que nos chamou (Ef 2.5). E a nuvem é sombra do dom do Espírito, que refresca a chama das nossas paixões pela “mortificação” dos nossos “membros” (Cl 3.5).

32. E então? Porque foram tipicamente batizados em Moisés, a graça do batismo é por isso pequena? Se assim fosse, e se em cada caso prejudicássemos a dignidade dos nossos privilégios comparando-os com os seus tipos, nem um só desses privilégios poderia ser considerado grande; então o amor de Deus, que deu o seu Filho unigênito pelos nossos pecados, não seria grande e extraordinário, porque Abraão não poupou o próprio filho (cf. Rm 8.32); então nem a paixão do Senhor seria gloriosa, porque uma ovelha prefigurou a oferta em lugar de Isaque; então a descida ao inferno não foi temível, porque Jonas antes prefigurou a morte em três dias e três noites. A mesma comparação prejudicial se faz também no caso do batismo por todos os que julgam a realidade pela sombra e, comparando o prefigurado com o tipo, tentam por meio de Moisés e do mar depreciar de uma vez toda a dispensação do evangelho. Que remissão de pecados, que renovação de vida há no mar? Que dom espiritual há por meio de Moisés? Que mortificação18 dos pecados há ali? Aqueles homens não morreram com Cristo; por isso não ressuscitaram com ele (cf. Rm 6.8). Não “trouxeram a imagem do celestial” (1Co 15.49); não levaram “no corpo o morrer de Jesus” (2Co 4.10); não se “despiram da velha natureza”; não se “revestiram da nova natureza que se renova para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que a criou” (Cl 3.9-10). Por que, então, você compara batismos que só têm o nome em comum, quando a distinção entre as próprias coisas é tão grande quanto a que há entre o sonho e a realidade, entre a sombra e as figuras e a existência substancial?

33. Mas a fé em Moisés não só não mostra que a nossa fé no Espírito não tem valor, como, se adotarmos a linha de argumentação dos nossos opositores, antes enfraquece a nossa confissão no Deus do universo. “O povo”, está escrito, “creu no Senhor e em Moisés, seu servo” (Êx 14.31). Moisés, então, está unido a Deus, não ao Espírito; e foi tipo não do Espírito, mas de Cristo. Pois naquele tempo, no ministério da lei, ele prefigurava em sua própria pessoa “o Mediador entre Deus e a humanidade” (1Tm 2.5). Moisés, quando mediava pelo povo nas coisas que dizem respeito a Deus, não era ministro do Espírito; pois a lei foi dada, “promulgada por meio de anjos, pela mão de um mediador” (Gl 3.19), a saber, Moisés, conforme o pedido do povo: “Fale-nos você… porém não fale Deus conosco” (Êx 20.19). Assim, a fé em Moisés se refere ao Senhor, o Mediador entre Deus e os homens, que disse: “Se vocês, de fato, cressem em Moisés, também creriam em mim” (Jo 5.46). Será então coisa de pouca monta a nossa fé no Senhor, por ter sido anunciada de antemão por meio de Moisés? Assim, pois, mesmo que alguns tenham sido batizados em Moisés, não se segue que seja pequena a graça dada pelo Espírito no batismo. Posso observar também que é costume na Escritura dizer Moisés por a lei,19 como na passagem: “Eles têm Moisés e os Profetas” (Lc 16.29). Quando, portanto, se quer falar do batismo da lei, as palavras são: “Foram batizados em Moisés” (1Co 10.2). Por que, então, esses caluniadores da verdade, por meio da sombra e dos tipos, procuram trazer desprezo e zombaria sobre a “exultação” da nossa “esperança” (Hb 3.6) e sobre o rico dom do nosso Deus e Salvador, que pela regeneração renova a nossa mocidade como a da águia (cf. Sl 103.5)? Sem dúvida é coisa totalmente infantil, própria de uma criancinha que precisa ser alimentada com leite (cf. Hb 5.12), ignorar o grande mistério da nossa salvação; visto que, de acordo com o progresso gradual da nossa educação, enquanto éramos levados à perfeição em nosso exercício na piedade (cf. 1Tm 4.7), fomos primeiro ensinados em lições elementares e mais fáceis, adequadas à nossa inteligência, enquanto aquele que dispõe a nossa sorte sempre nos conduzia para o alto, acostumando-nos aos poucos, como olhos criados no escuro, à grande luz da verdade. Pois ele poupa a nossa fraqueza e, na profundidade da riqueza (Rm 11.33) da sua sabedoria e nos juízos insondáveis da sua inteligência, usou deste tratamento suave, adequado às nossas necessidades, acostumando-nos aos poucos a ver primeiro as sombras dos objetos e a olhar o sol na água, para nos poupar de nos chocarmos contra o espetáculo da luz pura e sem mistura e ficarmos cegos. Do mesmo modo, a lei, que tem a sombra das coisas vindouras, e o ensino típico dos profetas, que é uma expressão obscura da verdade, foram concebidos como meios de exercitar os olhos do coração, para que daí a passagem à sabedoria oculta em mistério (1Co 2.7) se torne fácil. Basta, por ora, acerca dos tipos; nem seria possível demorar-se mais nesse tema, ou a discussão acessória se tornaria muitas vezes mais volumosa do que o argumento principal.

Notas

1. A defesa intelectual empreendida por Basílio afirmou-se sobretudo na sustentação da consubstancialidade do Espírito contra os arianos e semiarianos, de quem foram líderes Eunômio e Macedônio; este último deu seu nome ao partido dos que não tinham doutrina sã acerca da terceira Pessoa da Trindade, chamados macedonianos e também pneumatômacos. Mas mesmo entre os defensores da confissão de Niceia havia uma compreensão bem menos clara da natureza e da obra do Espírito do que da natureza e da obra do Filho. Ainda em 380, um ano depois da morte de São Basílio, Gregório de Nazianzo (Discurso 31, Sobre o Espírito Santo, cap. 5) escrevia: “dos sábios do nosso lado, alguns o tinham por uma energia, outros por uma criatura, outros por Deus. Outros ainda, por respeito, dizem eles, à Santa Escritura, que nada estabelece sobre o assunto, nem adoram nem desonram o Espírito Santo”. Cf. Schaff, História da Igreja Cristã, 3º período, seção 128. Na Carta 125 de São Basílio encontra-se um resumo das heresias que ele atribuía aos arianos, apresentado a Eustácio de Sebaste em 373, pouco antes da composição deste tratado para Anfilóquio.

2. A palavra usada é synapheia, palavra decisiva na controvérsia sobre a união das naturezas divina e humana em nosso Senhor; cf. o terceiro anátema de Cirilo contra Nestório e o uso dessa palavra, e a contestação de Teodoreto. Teodoro de Mopsuéstia preferira synapheia a henosis; André de Samósata não via diferença entre elas. Atanásio (Sobre a doutrina de Dionísio, § 17) a emprega para a relação mútua das Pessoas na Santa Trindade: “prokatarktikon gar esti tes synapheias to onoma“.

3. Mede. A nota dos editores beneditinos diz: “Esta leitura, seguida por Erasmo, desperta a ira de Combefis, que leria, como se acha em quatro manuscritos, tote hemin, ‘então nos lancem a culpa’. Mas ele é muito injusto com Erasmo, que apreendeu com mais clareza o rumo do argumento. Basílio coloca os opositores diante do dilema de que as palavras ‘em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo’ afirmam ou não afirmam uma conjunção com o Pai e o Filho. Se não afirmam, Basílio não deve ser censurado ‘por causa da conjunção’, pois se atém às palavras da Escritura, e a conjunção não decorre mais das palavras dele do que das de nosso Senhor. Se afirmam, ele não pode ser censurado por seguir as palavras da Escritura. O leitor atento verá que é esse o sentido de Basílio, e a leitura recebida deve ser mantida.”

4. Christophonoi. O composto ocorre no Pseudo-Inácio, Aos filadelfienses 6.

5. O Sr. Johnston vê aqui uma referência à parábola do administrador infiel e cita com propriedade Gregório de Nazianzo, Discurso 31, § 3, sobre o uso que os hereges fazem da Escritura: “Encontram um manto para a sua impiedade no seu apego à Escritura”. Em Niceia, os arianos objetaram ao homoousios por não ser bíblico.

6. Cf. Cartas 120.5.

7. A questão é se o batismo foi ministrado conforme a ordem divina, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. São Cipriano, na controvérsia com Estêvão, bispo de Roma, representou a posição mais severa, de que o batismo dos hereges era inválido. Mas, com algumas exceções no Oriente, prevaleceu por fim a posição de que o batismo com água e com as palavras prescritas, fosse quem fosse o ministro, era válido. Assim Santo Agostinho: “Se Marcião consagrava o batismo com as palavras do evangelho, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, o sacramento era íntegro, embora a sua fé, que sob essas mesmas palavras pensava algo diferente do que ensina a verdade católica, não fosse íntegra” (Contra Petiliano, sobre o batismo único, § 3). Assim também o cânon 8 de Arles (314): “Quanto aos africanos, que seguem uma lei própria de rebatizar, decidiu-se que, se alguém vier da heresia para a igreja, lhe perguntem o símbolo; e se perceberem que foi batizado no Pai, no Filho e no Espírito Santo, apenas se lhe imponham as mãos, para que receba o Espírito Santo. Mas se, interrogado, não confessar esta Trindade, seja batizado”. Assim ainda o cânon 7 de Constantinopla (381), pelo qual os eunomianos, que batizavam com uma só imersão, os montanistas, aqui chamados frígios, e os sabelianos, que ensinavam a doutrina da paternidade do Filho, eram contados como pagãos. Veja as notas de Bright sobre os Cânones dos Concílios, p. 106. Sócrates (História eclesiástica V.24) descreve como os eunômio-eutiquianos batizavam não em nome da Trindade, mas na morte de Cristo.

8. A palavra cheirographon, mais comum em latim do que em grego, é usada em geral para um título de dívida. Cf. Juvenal, Sátiras XVI.41: “Ou o devedor persiste em não devolver o dinheiro recebido, dizendo que são vãs as assinaturas na tabuinha inútil”. Sobre o uso da palavra, veja o bispo Lightfoot sobre Cl 2.14. Os nomes dos catecúmenos eram registrados, e a Renúncia e a Profissão de Fé (Interrogationes et Responsa; eperoteseis kai apokriseis) talvez fossem assinadas.

9. Sobre a leitura “Deus unigênito”, cf. a nota à seção 15. Nesta passagem de São Basílio, “Deus” é a leitura de três manuscritos de Paris, do de Moscou, do da Biblioteca Bodleiana e do de Viena. “Filho” é a leitura do Regius III, do Regius I, do Regius IV e do Regius V, em Paris (os três últimos, todos do século XIV), do manuscrito do Museu Britânico e de outro da Biblioteca Imperial de Viena, que em geral concorda com o nosso do Museu.

10. Cf. a nota à seção 26.

11. “He tou Christou prosegoria… deloi ton te chrisanta Theon kai ton christhenta Huion kai to chrisma to Pneuma“, isto é, “o nome de Cristo… manifesta o Deus que ungiu, o Filho que foi ungido e a unção, o Espírito”.

12. Não há sujeito no original, mas “a Escritura” parece melhor do que “o Apóstolo” da tradução beneditina. Além disso, “Videtur fecisse mentionem” não é o latim de phainetai mnemoneusas, mas de phainetai mnemoneusai.

13. Assim no texto.

14. Assim no texto.

15. Cf. a nota à seção 26.

16. Skiagraphia, ou pintura de sombras, é a pintura ilusória de cenários. Platão (Crítias 107c) chama-a “indistinta e enganosa”. Cf. Aristóteles, Ética a Nicômaco I.3.4: “pachylos kai en typo” (“de modo grosseiro e em esboço”). O typos dá o desenho geral, não uma antecipação exata.

17. Semeion, como na Septuaginta. Cf. Nm 21.9 e Jo 3.14.

18. Nekrosis. A Versão Autorizada traduz por “dying” (o morrer) em 2Co 4.10 e por “deadness” (amortecimento) em Rm 4.19.

19. Isto é, entender por “Moisés” a lei.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Blomfield Jackson (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 8, Nova York, 1895), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. Os sumários no começo de cada capítulo e as notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Basílio cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.