Basílio, Sobre o Espírito Santo · Capítulos 15 a 17
O batismo na água e no Espírito; o Espírito é inseparável do Pai e do Filho na criação e na salvação; ele é conumerado, e não subnumerado.
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34. Que mais? Na verdade, nossos opositores estão bem munidos de argumentos. Somos batizados, alegam eles, na água, e certamente não vamos honrar a água acima de toda a criação, nem dar a ela parte na honra do Pai e do Filho. Os argumentos desses homens são os que se poderiam esperar de contendores irados, que não deixam meio algum sem tentar no ataque contra quem os ofendeu, porque a razão deles está obscurecida pelas paixões. Não fugiremos, contudo, da discussão nem mesmo destes pontos. Se não ensinamos os ignorantes, ao menos não recuaremos diante dos malfeitores. Mas voltemos por um momento sobre os nossos passos.
35. A dispensação do nosso Deus e Salvador a respeito do homem é um chamado de volta da queda e um retorno, da alienação causada pela desobediência, à íntima comunhão com Deus. Esta é a razão da permanência de Cristo na carne, da vida exemplar descrita nos Evangelhos, dos sofrimentos, da cruz, do sepulcro, da ressurreição: para que o homem que está sendo salvo pela imitação de Cristo receba aquela antiga adoção. Para a perfeição da vida é necessária a imitação de Cristo, não apenas no exemplo de brandura,1 humildade e longanimidade que ele nos deu em sua vida, mas também na sua própria morte. Assim Paulo, o imitador de Cristo (cf. 1Co 11.1), diz: “me tornar como ele na sua morte, para, de algum modo, alcançar a ressurreição dentre os mortos” (Fp 3.10-11). Como, então, somos feitos semelhantes a ele na sua morte (Rm 6.4-5)? Em que fomos sepultados2 com ele pelo batismo. Qual é, então, o modo desse sepultamento? E que proveito resulta da imitação? Antes de tudo, é necessário que a continuidade da vida antiga seja cortada. E isso é impossível se o homem não nascer de novo, segundo a palavra do Senhor (Jo 3.3); pois a regeneração, como o próprio nome mostra, é o começo de uma segunda vida. Assim, antes de começar a segunda, é necessário pôr fim à primeira. Pois, assim como no caso dos corredores que fazem a volta e tomam o segundo percurso,3 uma espécie de parada e pausa se interpõe entre os movimentos em sentido contrário, assim também, ao se fazer a mudança de uma vida para outra, pareceu necessário que a morte viesse como mediadora entre as duas, terminando tudo o que vem antes e começando tudo o que vem depois. Como, então, realizamos a descida ao inferno? Imitando, pelo batismo, o sepultamento de Cristo. Pois os corpos dos batizados são, por assim dizer, sepultados na água. O batismo, portanto, significa simbolicamente o despojamento das obras da carne, como diz o apóstolo: vocês foram “circuncidados com a circuncisão não feita por mãos, no despojamento do corpo dos pecados da carne, pela circuncisão de Cristo; sepultados com ele no batismo” (Cl 2.11-12). E há, por assim dizer, uma purificação da alma da imundícia (cf. 1Pe 3.21) que nela cresceu por causa da mentalidade carnal,4 como está escrito: “Tu me lavarás, e ficarei mais alvo do que a neve” (Sl 51.7). Por isso não nos lavamos a cada contaminação, como é costume dos judeus, mas reconhecemos que o batismo da salvação (cf. 1Pe 3.21) é um só (cf. Ef 4.5). Pois ali a morte em favor do mundo é uma só, e uma só a ressurreição dos mortos, da qual o batismo é figura. Por esta causa o Senhor, que é o Dispensador da nossa vida, nos deu a aliança do batismo, que contém uma figura da vida e da morte: a água cumpre a imagem da morte, e o Espírito nos dá o penhor da vida. Daí se segue que é clara a resposta à nossa pergunta sobre por que a água foi associada ao Espírito (cf. Jo 3.5): a razão é que no batismo se propuseram dois fins; de um lado, a destruição do corpo do pecado (cf. Rm 6.6), para que nunca mais dê fruto para a morte (cf. Rm 7.5); de outro, o nosso viver para o Espírito (cf. Gl 5.25) e ter o nosso fruto na santificação (cf. Rm 6.22). A água, recebendo o corpo como num sepulcro, representa a morte, enquanto o Espírito infunde o poder vivificante, renovando as nossas almas da morte do pecado para a sua vida original. É isto, portanto, nascer de novo da água e do Espírito: o ser feito morto se realiza na água, enquanto a nossa vida é operada em nós pelo Espírito. Com três imersões,5 então, e com três invocações, realiza-se o grande mistério do batismo, a fim de que a figura da morte seja plenamente representada e de que, pela tradição do conhecimento divino, os batizados tenham a alma iluminada. Segue-se que, se há alguma graça na água, ela não vem da natureza da água, mas da presença do Espírito. Pois o batismo, “não sendo a remoção das impurezas do corpo”, é “o apelo por uma boa consciência para com Deus” (1Pe 3.21). Assim, ao nos treinar para a vida que se segue à ressurreição, o Senhor expõe todo o modo de vida exigido pelo evangelho, estabelecendo para nós a lei da brandura, da paciência diante da injustiça, da liberdade em relação à contaminação que vem do amor ao prazer e em relação à cobiça, a fim de que, por deliberado propósito, conquistemos de antemão e realizemos tudo o que a vida futura possui por sua própria natureza. Se, portanto, alguém, ao tentar uma definição, descrevesse o evangelho como uma antecipação da vida que se segue à ressurreição, não me pareceria ir além do que é justo e apropriado. Voltemos agora ao nosso assunto principal.
36. Por meio do Espírito Santo vêm a nossa restauração ao paraíso, a nossa ascensão ao Reino dos céus, o nosso retorno à adoção de filhos, a nossa liberdade de chamar Deus de nosso Pai, o tornarmo-nos participantes da graça de Cristo, o sermos chamados filhos da luz, a nossa participação na glória eterna e, numa palavra, o sermos levados a um estado de toda a “plenitude da bênção” (Rm 15.29), tanto neste mundo como no mundo vindouro; de todos os bons dons que nos estão reservados, cujo pleno gozo aguardamos em virtude da promessa, contemplando pela fé o reflexo da sua graça como se já estivessem presentes. Se tal é o penhor, qual será a perfeição? Se tais são as primícias, qual será o cumprimento completo? Além disso, também daqui se pode perceber a diferença entre a graça que vem do Espírito e o batismo com água: em que João, de fato, batizava com água, mas nosso Senhor Jesus Cristo, com o Espírito Santo. “Eu”, diz ele, “batizo vocês com água, para arrependimento; mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de carregar as sandálias. Ele os batizará com o Espírito Santo e com fogo” (Mt 3.11). Aqui ele chama de batismo de fogo a prova no juízo, como diz o apóstolo: “o fogo provará qual é a obra de cada um” (1Co 3.13). E ainda: “o Dia a demonstrará, porque será revelada pelo fogo” (1Co 3.13). E já houve alguns que, em defesa da verdadeira religião, sofreram a morte por amor de Cristo, não em mera semelhança, mas de fato, e por isso não precisaram de nenhum dos sinais exteriores da água para a sua salvação, porque foram batizados no próprio sangue.6 Assim, escrevo não para depreciar o batismo com água, mas para derrubar os raciocínios7 dos que se exaltam contra o Espírito, que confundem coisas distintas entre si e comparam as que não admitem comparação.
37. Voltemos, pois, ao ponto levantado desde o início: que em todas as coisas o Espírito Santo é inseparável do Pai e do Filho e de modo algum pode ser separado deles. São Paulo, na passagem sobre o dom de línguas, escreve aos coríntios: “se todos profetizarem, e entrar ali um não crente ou não instruído, ele será convencido por todos e julgado por todos. Os segredos que ele tem no coração se tornarão manifestos, e, assim, prostrando-se com o rosto em terra, adorará a Deus, testemunhando que Deus está, de fato, no meio de vocês” (1Co 14.24-25). Se, então, se reconhece que Deus está nos profetas pelo profetizar que age segundo a distribuição dos dons do Espírito, considerem os nossos adversários que espécie de lugar atribuirão ao Espírito Santo. Digam se é mais apropriado colocá-lo junto com Deus ou lançá-lo fora, para o lugar da criatura. As palavras de Pedro a Safira, “Por que vocês entraram em acordo para tentar o Espírito do Senhor? Vocês não mentiram aos homens, mas a Deus” (At 5.9; 5.4),8 mostram que os pecados contra o Espírito Santo e contra Deus são os mesmos; e assim você pode aprender que, em toda operação, o Espírito está estreitamente unido ao Pai e ao Filho e é inseparável deles. Deus opera a diversidade das realizações, e o Senhor a diversidade dos serviços, mas o tempo todo o Espírito Santo também está presente por sua própria vontade, dispensando a distribuição dos dons segundo o merecimento de cada um que os recebe. Pois está dito: “os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo. E também há diversidade nos serviços, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos” (1Co 12.4-6). “Mas”, está dito, “um só e o mesmo Espírito realiza todas essas coisas, distribuindo-as a cada um, individualmente, conforme ele quer” (1Co 12.11). Não se deve supor, porém, que, por nomear o apóstolo nesta passagem em primeiro lugar o Espírito, em segundo o Filho e em terceiro Deus Pai, a ordem deles esteja por isso invertida. O apóstolo apenas começou de acordo com os nossos hábitos de pensamento; pois, quando recebemos dons, o primeiro que nos ocorre é o distribuidor; em seguida pensamos naquele que envia; e então elevamos o pensamento à fonte e causa dos benefícios.
38. Além disso, pelas coisas criadas no princípio se pode aprender a comunhão do Espírito com o Pai e o Filho. As potências puras, inteligentes e supramundanas são santas e assim são chamadas, porque têm a sua santidade da graça dada pelo Espírito Santo. Por isso o modo da criação das potências celestiais é passado em silêncio, pois o historiador da cosmogonia revelou-nos somente a criação das coisas perceptíveis pelos sentidos. Mas você, que tem a capacidade de, a partir das coisas que se veem, formar uma analogia das invisíveis, glorifique o Criador por meio de quem todas as coisas foram feitas, visíveis e invisíveis, principados e potestades, autoridades, tronos e soberanias, e todas as demais naturezas racionais que não sabemos nomear (cf. Cl 1.16). E, na criação, pense primeiro, eu lhe peço, na causa original de todas as coisas que são feitas, o Pai; na causa criadora, o Filho; na causa aperfeiçoadora, o Espírito; de modo que os espíritos ministradores subsistem pela vontade do Pai, são trazidos à existência pela operação do Filho e aperfeiçoados pela presença do Espírito. Ora, a perfeição dos anjos é a santificação e a permanência nela. E que ninguém imagine que eu afirme haver três hipóstases originárias9 ou que alegue ser imperfeita a operação do Filho. Pois o princípio primeiro das coisas que existem é Um, que cria por meio do Filho e aperfeiçoa por meio do Espírito.10 A operação do Pai, que opera tudo em todos, não é imperfeita, nem a obra criadora do Filho é incompleta se não for aperfeiçoada pelo Espírito. O Pai, que cria pela sua só vontade, não poderia ter necessidade alguma do Filho, mas, ainda assim, quer por meio do Filho; nem o Filho, que opera segundo a semelhança do Pai, poderia precisar de cooperação, mas também o Filho quer aperfeiçoar por meio do Espírito. “Pois pela palavra do Senhor os céus foram feitos, e todo o exército deles pelo sopro [o Espírito] da sua boca” (Sl 33.6). O Verbo, portanto, não é uma simples impressão significativa no ar, produzida pelos órgãos da fala; nem o Espírito da sua boca é um vapor emitido pelos órgãos da respiração; mas o Verbo é aquele que “estava no princípio com Deus” e “era Deus” (Jo 1.1-2), e o Espírito da boca de Deus é “o Espírito da verdade, que procede do Pai” (Jo 15.26). Você deve, portanto, perceber três: o Senhor que dá a ordem, o Verbo que cria e o Espírito que confirma.11 E que outra coisa poderia ser a confirmação senão o aperfeiçoamento segundo a santidade? Esse aperfeiçoamento exprime a firmeza, a imutabilidade e a fixidez no bem próprias da confirmação. Mas não há santificação sem o Espírito. As potências dos céus não são santas por natureza; se o fossem, não haveria, nesse aspecto, diferença alguma entre elas e o Espírito Santo. É em proporção à sua relativa excelência que elas recebem do Espírito a sua medida de santidade. O ferro em brasa é concebido juntamente com o fogo; e, no entanto, o material e o fogo são distintos. Assim também no caso das potências celestiais: a sua substância é, talvez, um espírito aéreo ou um fogo imaterial, como está escrito: “Ele faz dos seus anjos espíritos, e dos seus ministros, labaredas de fogo” (Sl 104.4); por isso existem no espaço, tornam-se visíveis e aparecem na sua própria forma corporal aos que são dignos. Mas a sua santificação, sendo exterior à sua substância, acrescenta-lhes a perfeição pela comunhão do Espírito. Elas guardam a sua posição permanecendo no bem e na verdade e, embora conservem a liberdade da vontade, nunca se afastam da sua perseverante assistência àquele que é verdadeiramente bom. Resulta daí que, se pelo seu argumento você suprime o Espírito, as hostes dos anjos são dispersadas, os domínios dos arcanjos são destruídos, tudo é lançado em confusão, e a vida deles perde a lei, a ordem e a distinção. Pois como os anjos haveriam de clamar “Glória a Deus nas maiores alturas” (Lc 2.14) sem serem capacitados pelo Espírito? Pois “ninguém pode dizer: ‘Jesus é o Senhor’, senão pelo Espírito Santo, e ninguém que fala pelo Espírito de Deus chama Jesus de anátema” (1Co 12.3), como poderiam dizer os espíritos maus e hostis, cuja queda confirma a nossa afirmação da liberdade da vontade das potências invisíveis, pois se encontram numa condição de equilíbrio entre a virtude e o vício, e por isso necessitam do socorro do Espírito. Eu, de fato, sustento que até Gabriel (Lc 1.11) não prediz os acontecimentos futuros de nenhum outro modo senão pela presciência do Espírito, pelo fato de que um dos benefícios distribuídos pelo Espírito é a profecia. E de onde aquele que foi designado para anunciar os mistérios da visão ao Homem de Desejos (Dn 10.11)12 tirou a sabedoria com que pôde ensinar coisas ocultas, senão do Espírito Santo? A revelação dos mistérios é, de fato, a função própria do Espírito, como está escrito: “Deus revelou isso a nós por meio do Espírito” (1Co 2.10). E como poderiam “tronos, soberanias, principados e potestades” (Cl 1.16) viver a sua vida bem-aventurada, se não contemplassem “a face do Pai que está nos céus” (Mt 18.10)? Mas contemplá-la é impossível sem o Espírito! Assim como, à noite, se se retira a luz da casa, os olhos ficam cegos e as suas faculdades inativas, o valor dos objetos não pode ser discernido e o ouro é pisado por ignorância como se fosse ferro, assim também, na ordem do mundo inteligível, é impossível que a elevada vida da Lei permaneça sem o Espírito. Pois permanecer assim seria tão provável quanto um exército manter a disciplina na ausência do seu comandante, ou um coro a sua harmonia sem a direção do corifeu. Como poderiam os serafins clamar “Santo, santo, santo” (Is 6.3), se não fossem ensinados pelo Espírito quantas vezes a verdadeira religião exige que elevem a voz nessa atribuição de glória? Louvam a Deus “todos os seus anjos” e “todos os seus exércitos” (Sl 148.2)? É pela cooperação do Espírito. Estão diante dele “milhares de milhares” de anjos e “milhões de milhões” de espíritos ministradores (Dn 7.10)? Cumprem irrepreensivelmente a sua obra própria pelo poder do Espírito. Toda a gloriosa e indizível harmonia13 dos mais altos céus, tanto no serviço de Deus como na mútua concórdia das potências celestiais, só pode, portanto, ser preservada pela direção do Espírito. Assim, nos seres que não são aperfeiçoados gradualmente por crescimento e progresso,14 mas são perfeitos desde o momento da criação, há na criação a presença do Espírito Santo, que lhes confere a graça que dele flui para a completude e perfeição da sua essência.15
39. Mas, quando falamos das dispensações realizadas em favor do homem pelo nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo (Tt 2.13),16 quem contestará que foram cumpridas pela graça do Espírito? Quer você queira examinar os testemunhos antigos (as bênçãos dos patriarcas, o socorro dado por meio da legislação, as figuras, as profecias, as façanhas valorosas na guerra, os sinais operados por meio de homens justos), quer, por outro lado, as coisas feitas na dispensação da vinda de nosso Senhor na carne, tudo é por meio do Espírito. Em primeiro lugar, ele se fez unção e, estando inseparavelmente presente, esteve com a própria carne do Senhor, segundo o que está escrito: “Aquele sobre quem você vir descer e pousar o Espírito, esse é” (Jo 1.33) “o meu Filho amado” (Mt 3.17); e “Jesus de Nazaré”, a quem “Deus ungiu com o Espírito Santo” (At 10.38). Depois disso, toda operação foi realizada com a cooperação do Espírito. Ele estava presente quando o Senhor era tentado pelo diabo; pois está dito: “Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado” (Mt 4.1). Estava inseparavelmente com ele enquanto operava os seus prodígios;17 pois está dito: “Se, porém, eu expulso os demônios pelo Espírito de Deus” (Mt 12.28). E não o deixou depois que ressuscitou dentre os mortos; pois, quando renovava o homem e, soprando no rosto dos discípulos,18 restaurava a graça vinda do sopro de Deus, que o homem havia perdido, que disse o Senhor? “Recebam o Espírito Santo. Se de alguns vocês perdoarem os pecados, são-lhes perdoados; mas, se os retiverem, são retidos” (Jo 20.22-23). E não é claro e incontestável que a ordem da igreja é estabelecida por meio do Espírito? Pois ele deu, está dito, “na igreja, primeiramente, apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres; depois, operadores de milagres; depois, os que têm dons de curar, ou de ajudar, ou de administrar, ou de falar em variedade de línguas” (1Co 12.28), pois essa ordem é estabelecida de acordo com a distribuição dos dons que vêm do Espírito (cf. 1Co 12.11).
40. Além disso, quem usar a razão com cuidado verificará que, mesmo no momento da esperada manifestação do Senhor vinda do céu, o Espírito Santo não ficará, como alguns supõem, sem funções a cumprir; ao contrário, mesmo no dia da sua revelação, em que o “bendito e único Soberano” (1Tm 6.15) “julgará o mundo com justiça” (At 17.31), o Espírito Santo estará presente com ele. Pois quem é tão ignorante dos bens preparados por Deus para os que são dignos que não saiba que a coroa dos justos é a graça do Espírito, concedida em medida mais abundante e perfeita naquele dia, quando a glória espiritual for distribuída a cada um na proporção em que tiver lutado com valentia? Pois entre as glórias dos santos estão as “muitas moradas” na casa do Pai (Jo 14.2),19 isto é, diferenças de dignidades; pois, assim como “entre estrela e estrela há diferenças de glória”, “assim também é a ressurreição dos mortos” (1Co 15.41-42). Os que foram selados pelo Espírito para o dia da redenção (cf. Ef 4.30) e conservam puras e intactas as primícias do Espírito que receberam, esses são os que ouvirão as palavras: “Muito bem, servo bom e fiel; você foi fiel no pouco, sobre o muito o colocarei” (Mt 25.21). Do mesmo modo, os que entristeceram o Espírito Santo pela maldade dos seus caminhos, ou não trabalharam para aquele que lhes deu, serão privados do que receberam, sendo a sua graça transferida a outros; ou, segundo um dos evangelistas, serão até inteiramente cortados ao meio (Mt 24.51), significando esse corte a completa separação do Espírito. O corpo não é dividido, sendo uma parte entregue ao castigo e a outra poupada; pois, quando o todo pecou, seria coisa de fábulas antigas, e indigno de um juiz justo, que só a metade sofresse o castigo. Nem a alma é cortada em duas, aquela alma que, por inteiro, possui de ponta a ponta a inclinação pecaminosa e pratica a maldade em cooperação com o corpo. O corte, como observei, é a separação para sempre da alma em relação ao Espírito. Pois agora, embora o Espírito não admita mistura com os indignos, ainda assim parece de certo modo estar presente com os que uma vez foram selados, aguardando a salvação que se segue à sua conversão; mas então ele será inteiramente cortado da alma que profanou a sua graça. Por esta razão, “no inferno não há quem confesse; na morte não há quem se lembre de Deus” (Sl 6.5),20 porque o socorro do Espírito já não está presente. Como, então, é possível conceber que o juízo se realize sem o Espírito Santo, quando a palavra mostra que ele mesmo é o prêmio (Fp 3.14) dos justos, quando em lugar do penhor (2Co 1.22; 5.5) é dado o que é perfeito, e a primeira condenação dos pecadores, quando são privados daquilo que parecem ter? Mas a maior prova da união do Espírito com o Pai e o Filho é que se diz que ele tem com Deus a mesma relação que o espírito que há em nós tem com cada um de nós. “Pois quem”, está dito, “conhece as coisas do ser humano, a não ser o próprio espírito humano, que nele está? Assim, ninguém conhece as coisas de Deus, a não ser o Espírito de Deus” (1Co 2.11).
Sobre este ponto já disse o bastante.
41. Mas o que eles chamam de subnumeração21 e em que sentido usam essa palavra, nem sequer se pode imaginar sem dificuldade. É bem sabido que ela foi importada para a nossa linguagem da “sabedoria do mundo” (cf. 1Co 1.20); mas um ponto a considerarmos agora será se ela tem alguma relação direta com o assunto em discussão. Os que são peritos em investigações vãs nos dizem que, enquanto alguns nomes são comuns e de denotação muito extensa, outros são mais específicos, e que a força de uns é mais limitada que a de outros. Essência, por exemplo, é um nome comum, predicável de todas as coisas, tanto animadas como inanimadas; animal é mais específico, sendo predicado de menos sujeitos que o anterior, embora de mais do que os que se consideram abaixo dele, pois abrange tanto a natureza racional como a irracional. Do mesmo modo, humano é mais específico que animal, e homem mais que humano, e, mais que homem, o indivíduo Pedro, Paulo ou João.22 Entendem eles, então, por subnumeração a divisão do comum nas suas partes subordinadas? Mas eu hesitaria em crer que chegaram a tal grau de insensatez a ponto de afirmar que o Deus do universo, como uma qualidade comum concebível só pela razão e sem existência real em hipóstase alguma, é dividido em subdivisões, e que então essa subdivisão é chamada subnumeração. Isso dificilmente seria dito nem mesmo por homens tomados de loucura melancólica, pois, além da sua impiedade, estariam estabelecendo o argumento exatamente oposto à sua própria tese. Pois as subdivisões são da mesma essência que aquilo de que foram divididas. A própria evidência do absurdo nos torna difícil encontrar argumentos para refutar a falta de razão deles; de modo que, na verdade, a sua insensatez parece ser-lhes uma vantagem, assim como os corpos moles e flexíveis não oferecem resistência e, por isso, não podem receber um golpe forte. É impossível aplicar uma refutação vigorosa a um absurdo palpável. O único caminho que nos resta é passar em silêncio pela sua abominável impiedade. Contudo, o nosso amor pelos irmãos e a importunação dos nossos opositores tornam impossível o silêncio.
42. Que é que eles sustentam? Veja os termos da sua impostura. “Afirmamos que a conumeração é própria de sujeitos de igual dignidade, e a subnumeração dos que diferem no sentido da inferioridade.” “Por que”, respondo eu, “dizem isso? Não consigo entender a sua extraordinária sabedoria. Querem dizer que o ouro é numerado com o ouro, e que o chumbo é indigno da conumeração, mas, por causa do baixo preço do material, é subnumerado ao ouro? E atribuem tanta importância ao número a ponto de ele poder elevar o valor do que é barato ou destruir a dignidade do que é valioso? Então, por sua vez, vocês numerarão o ouro abaixo das pedras preciosas, e as pedras preciosas menores e sem brilho abaixo das que são maiores e de cor mais viva. Mas o que não dirão homens que não se ocupam com outra coisa senão ‘dizer ou ouvir as últimas novidades’ (At 17.21)? Que esses defensores da impiedade sejam classificados doravante com os estoicos e os epicureus. Que subnumeração é sequer possível das coisas de menor valor em relação às de grande valor? Como se há de numerar um óbolo de bronze abaixo de um estáter de ouro? “Porque”, respondem eles, “não dizemos que possuímos duas moedas, mas uma e uma.” Mas qual destas é subnumerada à outra? Cada uma é mencionada do mesmo modo. Se, então, vocês numeram cada uma por si, produzem igualdade de valor ao numerá-las da mesma maneira; mas, se as juntam, tornam o seu valor um só, ao numerá-las uma com a outra. Mas, se a subnumeração pertence àquela que é numerada em segundo lugar, então está no poder de quem conta começar contando a moeda de bronze. Deixemos, porém, a refutação da ignorância deles e voltemos o nosso argumento ao assunto principal.
43. Vocês sustentam que o Filho é numerado abaixo do Pai e o Espírito abaixo do Filho, ou restringem a sua subnumeração somente ao Espírito? Se, por um lado, aplicam essa subnumeração também ao Filho, fazem reviver a mesma doutrina ímpia: a dessemelhança da substância, a inferioridade de posição, o vir a existir num tempo posterior; e, de uma vez por todas, com este único termo, porão claramente de novo em circulação todas as blasfêmias contra o Unigênito. Refutar essas blasfêmias seria tarefa mais longa do que o meu presente propósito admite; e estou tanto menos obrigado a empreendê-la porque a impiedade já foi refutada em outra parte, na medida da minha capacidade.23 Se, por outro lado, supõem que a subnumeração convém somente ao Espírito, devem ser ensinados que o Espírito é mencionado juntamente com o Senhor exatamente da mesma maneira em que o Filho é mencionado com o Pai. “O nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28.19) é transmitido de modo semelhante e, segundo a coordenação das palavras transmitidas no batismo, a relação do Espírito com o Filho é a mesma que a do Filho com o Pai. E, se o Espírito é coordenado com o Filho, e o Filho com o Pai, é evidente que o Espírito também é coordenado com o Pai. Quando, então, os nomes são dispostos numa só e mesma série coordenada,24 que lugar há para falar, de um lado, de conumeração e, de outro, de subnumeração? Mais ainda: que coisa, sem exceção, perdeu alguma vez a sua própria natureza por ser numerada? Não é fato que as coisas, quando numeradas, permanecem o que eram natural e originalmente, enquanto o número é adotado entre nós como sinal indicativo da pluralidade dos sujeitos? Pois alguns corpos nós contamos, outros medimos e outros pesamos;25 os que são contínuos por natureza apreendemos pela medida; aos que são divididos aplicamos o número (exceto aqueles que, por causa da sua finura, são medidos); enquanto os objetos pesados se distinguem pela inclinação da balança. Não se segue, porém, que, por termos inventado para nossa conveniência símbolos que nos ajudem a chegar ao conhecimento da quantidade, tenhamos por isso mudado a natureza das coisas significadas. Não dizemos “subpesar” umas às outras as coisas que são pesadas, ainda que uma seja ouro e a outra estanho; nem “submedir” as coisas que são medidas; e assim, do mesmo modo, não “subnumeraremos” as coisas que são numeradas. E, se nenhuma das demais coisas admite subnumeração, como podem eles alegar que o Espírito deve ser subnumerado? Padecendo, como padecem, da insensatez pagã, imaginam que as coisas que são inferiores, quer pelo grau de posição, quer pela sujeição da substância, devem ser subnumeradas.
1. Aorgesia (ausência de ira), em Aristóteles, Ética IV.5.5, é a falta, no ponto em que a mansidão (praotes) é o meio-termo. Em Plutarco, que escreveu um breve tratado sobre ela, é uma virtude. Em Mc 3.5, Jesus olhou ao redor para eles “com indignação”, met’ orges, mas em Mt 11.29 ele chama a si mesmo praos (manso).
2. A Authorized Version traz “são sepultados”; o grego e a Revised Version, “fomos sepultados”.
3. Na corrida dupla (diaulos), o corredor contornava (kampto) o marco no fim do estádio. Daí “kampsai diaulon thateron kolon palin” em Ésquilo, Agamêmnon 335, para refazer o caminho por outra via.
4. To sarkikon phronema. Compare o phronema tes sarkos de Rm 8.6. Compare o artigo IX. [N. do T.: dos Trinta e Nove Artigos anglicanos, sobre o pecado original, que menciona a expressão phronema sarkos.]
5. A imersão tríplice era a regra universal da Igreja Católica. Compare Gregório de Nissa, Grande catecismo. Assim também Tertuliano, Sobre a coroa do soldado, cap. 3: Aquam adituri, ibidem, sed et aliquanto prius in ecclesia, sub antistitis manu contestamur, nos renuntiare diabolo et pompae et angelis ejus. Dehinc ter mergitamur (“Quando estamos para entrar na água, ali mesmo, e também um pouco antes, na igreja, sob a mão do bispo, declaramos que renunciamos ao diabo, à sua pompa e aos seus anjos. Depois disso, somos imersos três vezes”). Sozomeno (VI.26) diz que se alegava ter sido Eunômio o primeiro a sustentar que o batismo devia ser realizado com uma só imersão, corrompendo desse modo a tradição dos apóstolos; e Teodoreto (Compêndio das fábulas heréticas IV.3) descreve Eunômio como quem abandonou a imersão tríplice e também a invocação da Trindade, batizando na morte de Cristo. Jeremy Taylor (Ductor dubitantium III.4, seção 13) diz: “Na Inglaterra temos o costume da aspersão, e uma só vez… Quanto ao número, embora a Igreja da Inglaterra não tenha feito lei alguma e, por isso, o costume de fazê-lo uma só vez seja mais indiferente e livre, ainda assim, se a imersão tríplice estiver de acordo com a analogia do mistério e a outra não, o costume não deve prevalecer nem ser seguido, se o caso for evidente ou declarado.”
6. Sobre o batismo de sangue dos mártires, compare Eusébio, História eclesiástica VI.4, sobre o martírio da catecúmena Herais. Assim também Cirilo de Jerusalém (Catequeses III.10): “Se alguém não recebe o batismo, não tem a salvação, exceto apenas os mártires, que recebem o Reino mesmo sem a água. Pois quando o Salvador resgatava o mundo pela cruz e foi traspassado no lado, fez sair sangue e água, para que uns, em tempos de paz, fossem batizados na água, e outros, em tempo de perseguição, no próprio sangue.” Assim também Tertuliano (Contra os valentinianos II), dos Santos Inocentes, “batizados no sangue por amor de Jesus” (Keble), “testimonium Christi sanguine litavere” (“ofereceram em sangue o testemunho de Cristo”).
7. Tous logismous kathairon (“derrubando os raciocínios”). Compare 2Co 10.4.
8. “Você não mentiu”, dito a Ananias, intercalado na repreensão a Safira.
9. Hupostaseis, aparentemente usado aqui como equivalente de ousiai (essências), a menos que a negação se estenda apenas a archikas (originárias).
10. Contraste o neutro to on (o que é) da filosofia pagã com o ho on (aquele que é) ou ego eimi (eu sou) da revelação cristã.
11. Ton stereounta to pneuma. Deve-se notar aqui que São Basílio usa a forma masculina, mais pessoal, em aposição ao neutro pneuma, e não o neutro, como no credo de Constantinopla, to kurion kai to zoopoion to ek tou patros ekporeuomenon etc. Há autoridade bíblica para o masculino no “hotan de elthe ekeinos, to pneuma tes aletheias” de Jo 16.13.
12. “Homem muito amado”, na Authorized Version e na Revised Version.
13. Compare Jó 38.7, embora, na primeira oração, a Septuaginta traga hote egenethe astra (“quando foram feitos os astros”). Sobre a teoria pitagórica da harmonia das esferas, veja Aristóteles, Sobre o céu II.9.1.
14. Prokope. Compare o proekopte do menino Jesus em Lc 2.52.
15. Hupostasis, aparentemente usado de novo na sua antiga identificação com ousia.
16. Assim na Revised Version. A Authorized Version favorece a opinião, contrária à dos Pais gregos, de que “o grande Deus” significa o Pai.
17. Dunameis, traduzido na Authorized Version por “wonderful works” (obras maravilhosas) em Mt 7.22; por “mighty works” (obras poderosas) em Mt 11.20, Mc 6.14 e Lc 10.13; e por “miracles” (milagres) em At 2.22; 19.11 e Gl 3.5.
18. Gn 2.7, na Septuaginta, é enephusesen eis to prosopon autou (“soprou no seu rosto”). Daí se importou “eis to prosopon” para Jo 20.22. O Sr. C. F. H. Johnston observa: “Este acréscimo… encontra-se na Oração da Pequena Entrada, na Liturgia de São Marcos. Dídimo, no seu tratado sobre o Espírito Santo, que temos somente na versão latina de São Jerônimo, usa duas vezes ‘insufflans in faciem eorum‘, §§ 6, 33. O texto é citado desta forma por Epifânio, Contra as heresias LXXIV.13, e por Santo Agostinho, Sobre a Trindade IV.20.” A esses exemplos podem-se acrescentar Atanásio, Cartas I, § 8, e as versões do Alto e do Baixo Egito, a tebana, conhecida como saídica, e a menfítica, ou copta, ambas atribuídas ao século III.
19. Para to patri (= “junto ao Pai”), com pouca ou nenhuma mudança de sentido, em lugar de en te oikia tou patros mou (“na casa de meu Pai”).
20. Septuaginta: hoti ouk estin en to thanato ho mnemoneuon sou, en de to hade tis exomologesetai soi; Vulgata: In inferno autem quis confitebitur tibi? (“Mas no inferno quem te louvará?”).
21. “A palavra foi usada como termo quase filosófico para exprimir a doutrina citada por São Basílio na seção 13; não ocorre na confissão de Eunômio, que foi preparada depois deste livro, em 382 d.C.; mas foi usada por ele no seu Liber apologeticus (antes de 365 d.C.), contra o qual São Basílio escreveu.” Rev. C. F. H. Johnston. Para “huparithmesis“, as únicas autoridades citadas pelos léxicos são “eclesiásticas”. Mas a importação da “sabedoria do mundo” implica uso na filosofia pagã.
22. “Esta parte da teoria da linguagem geral é o objeto do que se chama a doutrina dos Predicáveis, um conjunto de distinções transmitidas por Aristóteles e por seu seguidor Porfírio, muitas das quais se enraizaram firmemente na fraseologia científica, e algumas até na popular. Os predicáveis são uma divisão quíntupla dos Nomes Gerais, fundada não, como de costume, numa diferença de significado, isto é, no atributo que conotam, mas numa diferença no tipo de classe que denotam. Podemos predicar de uma coisa cinco variedades diferentes de nome de classe: um gênero da coisa (genos); uma espécie (eidos); uma diferença (diaphora); um próprio (idion); um acidente (sumbebekos). Deve-se observar a respeito dessas distinções que elas exprimem, não o que o predicado é no seu próprio significado, mas que relação ele guarda com o sujeito do qual, na ocasião particular, é predicado.” J. S. Mill, Sistema de lógica I.133.
23. Isto é, no segundo livro da sua obra Contra Eunômio.
24. Sustoichia, uma série de coisas semelhantes, como em Aristóteles, Primeiros analíticos II.21.2. Na filosofia pitagórica, uma série coordenada ou paralela. Aristóteles, Metafísica I.5.6, e Ética a Nicômaco I.6.7.
25. Compare Sabedoria 11.20: “Tu dispuseste todas as coisas com medida, número e peso.”
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Blomfield Jackson (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 8, Nova York, 1895), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. Os sumários no começo de cada capítulo e as notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Basílio cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.