Basílio, Sobre o Espírito Santo · Capítulos 6 e 7

O Filho é igual ao Pai em honra e glória

O Filho não está depois do Pai, mas com o Pai, e lhe é igual em glória; é próprio dizer "com quem" a respeito do Filho.

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Capítulo VI. Combate contra os que afirmam que o Filho não está com o Pai, mas depois do Pai. Também sobre a igualdade de glória

13. Nossos adversários, embora enfrentem assim, com astúcia e perversidade, o nosso argumento, não podem sequer recorrer à desculpa da ignorância. É evidente que se aborrecem conosco porque completamos a doxologia ao Unigênito juntamente com o Pai e porque não separamos do Filho o Espírito Santo. Por isso nos chamam de inovadores, revolucionários, inventores de frases e de todos os demais nomes injuriosos possíveis. Mas estou tão longe de me irritar com os insultos deles que, não fosse o fato de que a sua perdição me causa “grande tristeza e incessante dor” (cf. Rm 9.2), quase poderia dizer que lhes sou grato pela blasfêmia, como se fossem agentes encarregados de me trazer bênção. Pois “bem-aventurados são vocês”, está dito, “quando, por minha causa, os insultarem” (Mt 5.11). Os motivos da indignação deles são estes: o Filho, segundo eles, não está juntamente com o Pai, mas depois do Pai. Daí se segue que a glória deve ser atribuída ao Pai “por meio dele”, mas não “com ele”, visto que “com ele” exprime igualdade de dignidade, ao passo que “por meio dele” indica subordinação. Afirmam ainda que o Espírito não deve ser posto ao lado do Pai e do Filho, mas abaixo do Filho e do Pai; não coordenado, mas subordinado; não conumerado, mas subnumerado.1

Com terminologia técnica desse tipo eles pervertem a simplicidade e a candura da fé e, assim, com a sua engenhosidade, não deixando ninguém mais permanecer na ignorância, cortam para si mesmos a desculpa que a ignorância poderia reclamar.

14. Façamos-lhes primeiro esta pergunta: em que sentido dizem que o Filho é “depois do Pai”? Posterior no tempo, ou na ordem, ou na dignidade? Quanto ao tempo, ninguém é tão desprovido de juízo a ponto de afirmar que o Criador dos séculos2 ocupa o segundo lugar, quando nenhum intervalo se interpõe na união natural do Pai com o Filho.3 E, de fato, mesmo segundo a nossa concepção das relações humanas,4 é impossível pensar que o Filho seja posterior ao Pai, não só porque Pai e Filho se concebem um em relação ao outro, conforme a relação que subsiste entre eles, mas também porque a posterioridade no tempo se predica das coisas separadas do presente por um intervalo menor, e a anterioridade das mais distantes. Por exemplo, o que aconteceu no tempo de Noé é anterior ao que aconteceu aos homens de Sodoma, visto que Noé está mais afastado dos nossos dias; e, por outro lado, os acontecimentos da história dos homens de Sodoma são posteriores, porque de certo modo parecem aproximar-se mais dos nossos dias. Mas, além de ser uma violação da verdadeira religião, não é realmente a mais extrema loucura medir a existência da vida que transcende todo o tempo e todos os séculos pela sua distância do presente? Não é como se Deus Pai pudesse ser comparado a Deus Filho, que existe antes dos séculos, e ser posto acima dele, exatamente do mesmo modo como se diz que as coisas sujeitas a começo e corrupção são anteriores umas às outras?

A maior antiguidade do Pai é, na verdade, inconcebível, uma vez que o pensamento e a inteligência são de todo impotentes para ir além da geração do Senhor; e são João encerrou admiravelmente a concepção dentro de limites bem definidos com duas palavras: “No princípio era o Verbo” (Jo 1.1). Pois o pensamento não pode passar além do “era”, nem a imaginação5 além do “princípio”. Por mais longe que o seu pensamento viaje para trás, você não consegue ir além do “era”; e, por mais que se esforce e lute para ver o que está além do Filho, verá que é impossível ir mais longe que o “princípio”. A verdadeira religião, portanto, nos ensina assim a pensar no Filho juntamente com o Pai.

15. Se eles realmente concebem uma espécie de rebaixamento do Filho em relação ao Pai, como se ele estivesse num lugar inferior, de modo que o Pai se assenta em cima e o Filho é empurrado para o assento logo abaixo, que confessem o que querem dizer. Não teremos mais nada a acrescentar. A simples exposição dessa opinião mostrará de imediato o seu absurdo. Os que se recusam a admitir que o Pai penetra todas as coisas nem sequer mantêm a sequência lógica do pensamento no seu argumento. A fé dos que têm juízo são é que Deus enche todas as coisas (cf. Ef 4.10); mas os que repartem o seu “em cima” e “embaixo” entre o Pai e o Filho não se lembram nem mesmo da palavra do Profeta: “Se subo aos céus, lá estás; se desço ao inferno, lá estás também” (Sl 139.8). Ora, para deixar de lado toda prova da ignorância dos que atribuem lugar às coisas incorpóreas, que desculpa se pode encontrar para o ataque deles à Escritura, desavergonhada como é a sua oposição, nas passagens “Sente-se à minha direita” (Sl 110.1) e “Assentou-se à direita da majestade de Deus” (Hb 1.3)?6 A expressão “direita” não indica, como eles sustentam, o lugar inferior, mas igualdade de relação; não se entende fisicamente, caso em que poderia haver em Deus algo de sinistro,7 mas a Escritura nos apresenta a magnificência da dignidade do Filho pelo uso de uma linguagem digna, que indica o lugar de honra. Resta então aos nossos adversários alegar que essa expressão significa inferioridade de posição. Que aprendam que “Cristo é o poder de Deus e a sabedoria de Deus” (1Co 1.24), e que “ele é a imagem do Deus invisível” (Cl 1.15) e “o resplendor da sua glória” (Hb 1.3), e que “Deus, o Pai, o confirmou com o seu selo” (Jo 6.27), gravando-se a si mesmo nele.8

Devemos então chamar essas passagens, e outras semelhantes em toda a Sagrada Escritura, de provas de humilhação, ou antes de proclamações públicas da majestade do Unigênito e da igualdade da sua glória com o Pai? Pedimos-lhes que escutem o próprio Senhor, que expõe claramente a igual dignidade da sua glória com o Pai, nas palavras: “Quem vê a mim vê o Pai” (Jo 14.9); e ainda: “Quando o Filho vier na glória do seu Pai” (Mc 8.38); que “honrem o Filho assim como honram o Pai” (Jo 5.23); e: “Vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.14); e: “o Deus unigênito, que está no seio do Pai” (Jo 1.18).9 De todas essas passagens eles não fazem caso, e depois atribuem ao Filho o lugar reservado aos seus inimigos. O seio do pai é assento próprio e conveniente para o filho, mas o lugar do estrado dos pés é para os que têm de ser forçados a cair (cf. Sl 110.1).

Tocamos apenas de passagem nessas provas, porque o nosso objetivo é passar a outros pontos. Você, com vagar, pode reunir os elementos da evidência e então contemplar a altura da glória e a preeminência do poder do Unigênito. Contudo, para o ouvinte bem-disposto, nem mesmo essas são insignificantes, a não ser que os termos “direita” e “seio” sejam tomados num sentido físico e depreciativo, de modo a circunscrever imediatamente Deus em limites de lugar e inventar forma, molde e posição corporal, coisas todas inteiramente alheias à ideia do absoluto, do infinito e do incorpóreo. Há, além disso, o fato de que aquilo que é depreciativo na sua concepção é o mesmo tanto no caso do Pai quanto no do Filho; de modo que quem repete esses argumentos não tira a dignidade do Filho, mas incorre na acusação de blasfemar contra o Pai; pois qualquer audácia de que alguém se torne culpado contra o Filho, não pode deixar de transferi-la ao Pai. Se atribui ao Pai o lugar superior por precedência e afirma que o Filho unigênito se assenta abaixo, verá que à criatura da sua imaginação se ligam todas as condições próprias do corpo. E se essas são imaginações de delírio de embriaguez e de loucura frenética, pode estar de acordo com a verdadeira religião que homens ensinados pelo próprio Senhor que “quem não honra o Filho não honra o Pai” (Jo 5.23) se recusem a adorar e glorificar com o Pai aquele que, por natureza, glória e dignidade, está unido a ele? Que diremos? Que justa defesa teremos no dia do terrível juízo universal de toda a criação se, quando o Senhor anuncia claramente que virá “na glória de seu Pai” (Mt 16.27); quando Estêvão viu Jesus em pé à direita de Deus (At 7.55); quando Paulo testificou no espírito a respeito de Cristo que ele “está à direita de Deus” (Rm 8.34); quando o Pai diz: “Sente-se à minha direita” (Sl 110.1); quando o Espírito Santo testifica que ele se assentou “à direita da Majestade” (Hb 8.1) de Deus; nós tentarmos rebaixar aquele que partilha a honra e o trono, da sua condição de igualdade, a um estado inferior?10 Estar em pé e estar sentado, a meu ver, indicam a fixidez e a completa estabilidade da natureza, como Baruque, quando quer mostrar a imutabilidade e a imobilidade do modo divino de existir, diz: “Pois tu estás sentado para sempre, e nós perecemos de todo” (Br 3.3). Além disso, o lugar à direita indica, a meu juízo, igualdade de honra. Temerária, pois, é a tentativa de privar o Filho da participação na doxologia, como se ele só fosse digno de ser posto num lugar inferior de honra.

Capítulo VII. Contra os que afirmam que não é próprio dizer “com quem” a respeito do Filho, e que a expressão própria é “por meio de quem”

16. Mas eles sustentam que usar a expressão “com ele” é de todo estranho e incomum, ao passo que “por meio dele” é ao mesmo tempo muito familiar na Sagrada Escritura e muito comum na linguagem da irmandade.11 Que responderemos a isso? Dizemos: Bem-aventurados os ouvidos que não os ouviram e os corações que foram guardados das feridas das suas palavras. A vocês, por outro lado, que são amigos de Cristo,12 digo que a Igreja reconhece os dois usos e não rejeita nenhum deles como se destruísse o outro. Pois, sempre que contemplamos a majestade da natureza do Unigênito e a excelência da sua dignidade, damos testemunho de que a glória é com o Pai; ao passo que, sempre que pensamos na sua dádiva13 de bens para nós e no nosso acesso14 e admissão à família de Deus,15 confessamos que essa graça é realizada para nós por meio dele e nele.16

Segue-se que uma das expressões, “com quem”, é a própria para a atribuição de glória, enquanto a outra, “por meio de quem”, é especialmente apropriada na ação de graças. Também é de todo falso alegar que a expressão “com quem” é estranha ao uso dos piedosos. Todos aqueles cuja integridade de caráter os leva a ter a dignidade da antiguidade por mais honrosa que a mera novidade de última moda, e que preservaram sem adulteração a tradição de seus pais (cf. Gl 1.14), tanto na cidade como no campo, empregaram essa expressão. Ao contrário, são os que estão fartos do familiar e do costumeiro, e com arrogância atacam o antigo como coisa gasta, que acolhem a inovação, assim como no vestir os amantes da ostentação sempre preferem alguma novidade completa ao que geralmente se usa. Assim, ainda hoje você pode ver que a linguagem da gente do campo preserva o costume antigo, ao passo que a linguagem destes, os nossos astutos peritos17 em disputas de palavras, traz a marca da nova filosofia.

O que os nossos pais disseram, o mesmo dizemos nós: que a glória do Pai e do Filho é comum; por isso oferecemos a doxologia ao Pai com o Filho. Mas não nos apoiamos apenas no fato de que essa é a tradição dos Pais; pois também eles seguiram o sentido da Escritura e partiram da evidência que, poucas frases atrás, deduzi da Escritura e apresentei a você. Pois “o resplendor” é sempre pensado com “a glória” (Hb 1.3),18 “a imagem” com o arquétipo (cf. 2Co 4.4), e o Filho sempre e em toda parte juntamente com o Pai; e nem mesmo a estreita conexão dos nomes, muito menos a natureza das coisas, admite separação.

Notas

1. Hypotasso. Cf. 1Co 15.27 e, mais adiante, o capítulo 17. Hypotetagmenos (“subordinado”) é aplicado ao Filho na Macróstica, ou Credo Extenso, levado por Eudóxio de Germanícia a Milão em 344. Veja Sócrates, História eclesiástica II, 19.

2. Poietes ton aionon.

3. No entanto, a grande palavra de ordem dos arianos era en pote hote ouk en (“houve um tempo em que ele não existia”).

4. Te ennoia ton anthropinon é aqui a leitura de cinco manuscritos. Os beneditinos preferem ton anthropon, com o sentido de “no pensamento humano”.

5. Phantasia é o termo filosófico para imaginação ou representação, a faculdade mental pela qual o objeto tornado aparente, phantasma, se torna aparente, phainetai. Aristóteles, Sobre a alma III, 3, 20, define-a como “um movimento da mente gerado pela sensação”. Fancy (fantasia), palavra inglesa derivada de phantasia (de phaino, raiz pha, “brilhar”), adquiriu um sentido um pouco diferente em alguns usos da língua moderna.

6. Com a variante “de Deus” em lugar de “nas alturas”.

7. Não conheço maneira melhor de transmitir o sentido do original skaios do que introduzir assim o latim sinister, que tem o duplo sentido de “esquerdo” e “de mau agouro”. É um mérito do caráter não supersticioso dos povos de língua inglesa que, enquanto o grego skaios e aristeros, o latim sinister e laevus, o francês gauche e o alemão link têm todos o sentido de “desajeitado” e “infeliz”, além de simplesmente “do lado esquerdo”, o inglês left (embora provavelmente derivado de lift, “fraco”) perdeu toda conotação que não a local.

8. A interpretação mais óbvia de esphragisen em Jo 6.27 seria “selou com uma marca de aprovação”, como no milagre que acabara de realizar. Cf. Bengel: “sigillo id quod genuinum est commendatur, et omne quod non genuinum est excluditur” (“pelo selo se recomenda o que é genuíno, e se exclui tudo o que não é genuíno”). Mas são Basílio explica “selou” por “imprimiu nele a imagem da sua Pessoa”, interpretação que Alford rejeita. São Basílio, no fim do capítulo 26 desta obra, chama a nosso Senhor charakter kai isotypos sphragis, isto é, “expressão exata e selo gravado à semelhança” do Pai. Santo Atanásio (Cartas a Serapião I, 23) escreve: “O selo tem a forma de Cristo, aquele que sela, e dela participam os selados, sendo formados segundo ela.” Cf. Gl 4.19 e 2Pe 1.4.

9. “Deus unigênito” é aqui a leitura de cinco manuscritos de Basílio. As palavras faltam num códice. No capítulo 8 desta obra, são Basílio cita claramente a Escritura chamando o Filho de “Deus unigênito” (capítulo 8, seção 17). Mas no capítulo 11, seção 27, onde se alegou que ele cita Jo 1.18 com a leitura “Filho unigênito” (por exemplo, Alford), a autoridade dos manuscritos do seu texto favorece “Deus unigênito”. ΘΣ (“Deus”) é a leitura de ℵ, B e C; ΥΣ (“Filho”), a de A. Sobre o peso comparativo das evidências textuais e patrísticas, veja o bispo Westcott, comentário a esse versículo.

10. O sr. Johnston observa com razão que esses cinco testemunhos não são citados ao acaso, mas “numa ordem que leva o leitor da futura segunda vinda, passando pela presente sessão à direita, de volta à ascensão no passado”.

11. A palavra adelphotes é, no Novo Testamento, exclusiva de são Pedro (1Pe 2.17 e 5.9); aparece na Epístola de são Clemente aos Coríntios, cap. 2.

12. Philochristoi. A palavra não é comum, mas aparece em inscrições. Cf. Antologia Palatina I, 10, 13: orthen pistin echousa philochristoio menoines.

13. Choregia. Cf. o uso do verbo cognato em 1Pe 4.11: ex ischyos hes choregei ho theos (“na força que Deus lhe dá”).

14. Prosagoge. Cf. Ef 2.18.

15. Oikeiosin pros ton Theon. Cf. oikeioi tou Theou em Ef 2.19.

16. En.

17. O verbo entribomai parece ser usado por são Basílio, se ele escreveu entetrimmenon, no sentido de ser entribes, ou versado numa coisa (cf. Sófocles, Antígona 177), sentido que o uso clássico não ilustra. Mas a leitura do manuscrito de Moscou (m), entethrammenon, “treinado em”, “criado em”, é em si muito mais provável. A ideia de que a gente do campo preservava as boas tradições antigas mostra a mudança das circunstâncias no tempo de são Basílio em relação às do século II, quando os pagani, ou aldeões, eram na maioria ainda pagãos e os últimos a adotar a novidade do cristianismo. Cf. a carta de Plínio a Trajano (Cartas 96): “neque civitates tantum sed vicos etiam atque agros superstitionis istius contagio pervagata est” (“o contágio dessa superstição se espalhou não só pelas cidades, mas também pelas aldeias e pelos campos”).

18. Cf. Atanásio, Cartas a Serapião II: “O Pai é luz, e o Filho, resplendor e luz verdadeira.”

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Blomfield Jackson (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 8, Nova York, 1895), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. Os sumários no começo de cada capítulo e as notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Basílio cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.